O Samhain marcava o início de uma nova temporada, era também a noite em que abriam-se os portões do Mundo Espiritual, abrindo a ponte de comunicação entre dois mundos que nunca deveriam se encontrar. Espíritos gravitavam em direção a Godric's Hollow, todos em êxtase para presenciarem o início da jornada do escolhido da Magia, uma lenda contada desde os dias de glória de Avalon.
Era uma noite úmida e ventosa no pequeno vilarejo. O vento rugia e as árvores balançavam furiosamente, cortando o pacífico silêncio da noite. Um homem - não, há muito que não era mais considerado apenas um homem - se escondia em uma sebe. Pouco podia-se ver do ser que nas sombras se escondia, sua figura estava coberta com um manto escuro e esvoaçante, apenas seus olhos estavam em exibição. Olhos límpidos e vermelhos, as pupilas verticais - tais como de uma serpente - espreitavam nas sombras, esperando.
Invisível aos olhos daqueles que não tinham acesso ao seu segredo, se estendia uma casa simples de dois andares. Cercada por um baixo muro e um envelhecido portão de ferro, nada diferia essa casa das outras, exceto talvez pelos brinquedos infantis espalhados pelo quintal. Através da janela, coberta por uma fina cortina branca, era possível ver dois homens conversando, suas palavras incompreendidas pela criatura que se escondia nas sombras, mas isso não importava. Com um sorriso e um desleixado adeus para alguém no andar superior, os dois homens na casa sacaram suas varinhas e desapareceram. A criatura nas trevas sorriu. Fácil, muito fácil. O Lord das Trevas, como se autodenominava a criatura que nas sombras se escondia, finalmente se pôs em movimento. Passos lentos e confiantes, pois não havia pressa para o que estava para acontecer. O portão rangeu, um som alto seguido de passos rápidos e ansiosos, e então um sussurro cortou o ar.

— Mestre..— o Lord das Trevas fixou seu olhar na pobre desculpa de homem à sua frente. Com feições de um rato, corpo rechonchudo e vestes esfarrapadas, Peter Pettigrew se curvou e beijou as vestes esvoaçantes.

— Serviu-me bem esta noite, Rabicho. — sibilou o Lord das Trevas, recebendo um guincho como resposta. — Agora... Leve-me aos garotos.
Peter acenou ansiosamente, erguendo o corpo e adentrando na casa, um sorriso nervoso estampado no rosto. Voldemort permitiu-se apreciar sentimento de vitória antes de rumar em direção a casa, a varinha pendendo frouxamente em sua mão.


O quarto que abrigava as três crianças, os herdeiros da família Potter e o herdeiro Longbottom, era o último em um longo corredor. Um fino véu cobria a porta decorada, isso trouxe um raro e estranho sorriso ao Lord das Trevas.

— Permitidos assistir, mas nunca de interferir... — sibilou, e seu sorriso só aumentou quando o véu tremeluziu, como se os espíritos quisessem discordar das palavras proferidas, apesar da veracidade.

Atrás daquela porta estava o seu maior inimigo. Uma criança profetizada. Profecia essa que foi o catalisador dos sonhos de um jovem Tom Riddle, apenas para desmoralizar quando o mesmo jovem descobriu que não seria ele o escolhido pela Magia que foi profetizado pela Senhora do Lago. A fúria e a ganância transformaram o jovem no que hoje ele se tornou. Se a Magia não o escolheu por vontade própria, ele a faria escolhê-lo à força - mesmo que ele tivesse que matar o verdadeiro escolhido para isso. Apenas um tolo como Albus Dumbledore acreditaria que uma profecia ditada por uma suposta vidente faria com que o Lord das Trevas fosse atrás de meras crianças. Não, somente Voldemort sabia o verdadeiro motivo. Isso terminaria nesta noite.

Entrando no quarto, olhos vermelhos escanearam os arredores brevemente, até pousar em dois berços no canto do quarto. Peter, que se manteve observando seu mestre, fechou silenciosamente a porta. Covarde demais para presenciar o massacre que só foi possível graças a ele.
Erguendo a mão dominante, o Lord das Trevas apontou a varinha para o berço onde estavam amontoados as três crianças. Desconhecido para Voldemort, um pássaro no parapeito da janela observava tudo o que acontecia no quarto, seus olhos demonstrando mais do que deveria ser possível para um simples animal.

— Avada... — a ponta da varinha começou a emitir um brilho esverdeado, a maldição mortal na ponta da língua bifurcada, o lançador já começando a sentir a euforia e o sabor da vitória, mas acabou da mesma forma que começou. A maldição foi lançada, direcionada para as duas crianças mais novas, que se agarravam umas às outras enquanto dormiam. Uma mudança na atmosfera antecedeu ao momento antes da maldição chegar aos pequenos corpos. O mais velho das três crianças acordou em um sobressalto, seu pequeno corpo arfando e um bile na garganta. Ao ver o homem desconhecido e de aparência assustadora próximo ao berço, próximo de seu irmão e primo, Harry começou a chorar. Um som estridente que se propagou no pequeno ambiente, ecoando em ondas e fazendo tudo tremeluzir ao redor. A maldição parou repentinamente no ar, antes mesmo de chegar nas crianças, e uma bolha de luz estourou e permeou todo o quarto atingindo em cheio o Lord das Trevas.
Um grito de raiva e angústia ecoou pela casa, o berço das crianças desabou e fios dourados começaram a se expandir pelo cômodo, cercando as três crianças que choravam abertamente, fazendo-as voltar a dormir. Peter, que havia se escondido atrás da porta na espera de seu mestre, entrou no quarto e, após uma avaliação superficial no quarto, colheu a única coisa do seu mestre que encontrou - a varinha - e aparatou, fugindo como o rato que era.
O pássaro, que até então era só um espectador, voou quarto adentro e se estabeleceu em um pedaço quebrado do berço. Seus olhos fixos na criança mais velha, de onde o brilho dourado parecia se originar, antes de parar abruptamente, como todo e qualquer movimento no ambiente. Com um pio alto e uma bicada na mão aberta da criança mais velha, o pássaro abriu asas e voou noite adentro.
Os únicos indícios do que aconteceu naquela noite eram as marcas correspondentes que Neville Longbottom e Charlus Potter carregavam em seus braços, o berço quebrado e a túnica que uma vez pertenceu ao então desaparecido Lord das Trevas. Assim deu-se início a história do escolhido pela Magia, da criança profetizada.