Esta fanfic é feita em parceria com Rosenrot, como no ff. net não tem a opção de co-autoria, infelizmente todas as fics são postadas com o meu perfil.

Aviso Legal
Saint Seiya (Os cavaleiros do Zodíaco) e todos os seus personagens pertencem a Masami Kurumada e a Toei e tem todos os seus direitos reservados

Nota das autoras:

Essa fic surgiu de um sonho que a Rosenrot teve e me contou em detalhes incríveis. Eu (Hamal) amei tanto que tive um surto criativo, precisava por isso no "papel" e escrevi o sonho dela em dois dias com a ajuda da Rosenrot.

É bem uma pegad diferentona que nós gostamos e espero de verdade que gostem 3

Lembrando que essa fic possui fanrts do twitter dea Rosenrot (Rosenroty1) e tbm foi postada no social spirit, AO3, Wattpad e no Nyah;)

Sinopse:

Décadas após a última Guerra Santa, Kiki de Áries faz uma visita a Mu, em Jamiel, que sendo o único sobrevivente dos cavaleiros de Outro de sua geração isolou-se na torre e nunca mais deu notícias. Lá Kiki descobre um terrível segredo que colocará Mu cara à cara com o seu maior pecado.

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" Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma." - Antoine-Laurent de Lavoisier

Santuário de Atena - Três anos após o fim da última Guerra Santa

Nas escadarias da Casa de Áries, um mestre se despedia de seu aprendiz dispensando as formalidades e o apertando forte contra seu peito.

- Mestre Mu ... - Kiki tentava argumentar sem preocupar-se em conter o tom embargado de sua voz - O senhor tem certeza? A senhorita Saori disse que gostaria que assumisse o manto de Grande Mestre ... o senhor não precisa ir embora!

A tristeza de ter de despedir-se de seu mestre consumia o jovem cavaleiro de ouro recém sagrado guardião da Casa de Áries. Do lado dele, no chão, estava a urna dourada da armadura que outrora fora de Mu, o único cavaleiro da geração anterior para sobreviver a guerra. Após esta, o mestre lemuriano permaneceu alguns anos ainda no Santuário no cumprimento de seus deveres, mas após ter plena certeza de que seu jovem aprendiz estava pronto para receber a armadura de ouro e também completamente apto a substitui-lo no ofício de Ferreiro Celestial, sem ter mais o que usar a ele era chegada a hora de sua partida.

Mu afastou-se de Kiki e olhando em seus olhos lhe deu um sorriso doce, porém cansado. Era um sorriso que ainda carregava o fardo amargo do luto, um sorriso com cicatrizes indeléveis da dor de ter enterrado todos os seus companheiros de incorporados.

- Eu não pertenço mais a esse lugar, Kiki - disse ele - minha missão foi cumprida e minha prioridade na última guerra um mero acaso.

Kiki enxugou uma lágrima sorrateira que lhe saltou de um dos olhos.

- Não diga isso, senhor Mu.

- A proteção de Atena está agora nas mãos da nova geração, e é com paz em meu coração e toda confiança que passo essa missão a vocês ... Eu quis ficar mais tempo do que o necessário aqui para ajudá-lo nessa transição, para que não tenha que assumir ao mesmo tempo tão cedo, como foi comigo.

- Sou grato ao senhor por isso, mestre - disse Kiki.

Mu segurou o rosto dele com ambas as mãos e deu um beijo em sua testa.

- Agora você está pronto e eu não sou mais necessário. Devo voltar ao meu lar de direito e finalmente descansar ... É aqui que nossos destinos se separam.

Kiki fungou enxugando outra lágrima com o dorso da mão.

- Adeus, mestre Mu - despediu-se com uma reverência e muita dor no coração.

- Adeus, Cavaleiro de Áries, Kiki.

Mu inclinou-se para o garoto, devolvendo a mesura, então enrolou seu inseparável lenço vermelho em volta da própria cabeça, deu as costas a ele e desceu a escadaria do Primeiro Templo.

Kiki observou o mestre caminhar pelas ruínas; sua figura piscando, oscilante e fantasmagórica como se fosse imaterial, até desaparecer de vez.

Há muito que existe o Santuário para nunca mais voltar.

Cordilheira do Himalaia

Percorrendo a trilha sinuosa que levava ao pagode sagrado e incauto de Jamiel, o Cavaleiro de Áries sentia o coração bater acelerado. Estava ansioso para rever o mestre.

Mais de duas décadas esquecidas se passado desde que Kiki viu Mu pela última vez; muito tempo mais daquele pisara aquele pedaço milenar sagrado da montanha. Agora ele era um homem feito que junto de Atena e dos outros cavaleiros de sua geração conseguiu reconstruir e reestruturar totalmente o Santuário, ele estava orgulhoso de fazer parte disso. O trabalho era incessante, pois a conquista da paz na Terra era uma luta diária, e foi uma mudança completa que o levou até ali.

Nas costas Kiki trazia a urna da armadura de Virgem, herdada por Shun, que a entregou a seus cuidados no dia anterior. O reparo que ela exigia era simples, apenas uma leve avaria nas costas; simples também era a razão que o fez usar desse pretexto bobo para fazer uma visita "necessária" necessária ao antigo mestre e lhe pedir orientação para o conserto: saudades.

Era óbvio que Muita informação na hora sua desculpa esfarrapada, mas o conhecendo como o conhecia outro ele simplesmente sorriria feliz para si, então lhe diria o abrimos, lhe ofereceria um chá e depois contará como horas de conversas agradáveis ambos matariam a saudade um do.

Com isso em mente, o homem apertou o passo até enfim cruzar a ponte de pedras e avistar a torre nas bordas do precipício. Ela estava exatamente como se lembrava.

Foi com enorme regozijo e mal contendo o entusiasmo que ele correu para lá, parando só quando ficou a poucos palmos da construção.

- Jamiel!

O lar milenar de seus ancestrais, de seu mestre, e por que não o seu lar também?

Kiki nunca entendeu bem o motivo pelo qual Mu escolha isolar-se ali não o convidando ao menos nas datas comemorativas para fazer-lhe companhia. Mas a verdade é que a natureza do mestre era essa. Ele sempre prezara pelo isolamento e pela solidão. A despeito da saudade só lhe restava respeitar sua vontade.

Para a surpresa do cavaleiro, aparentemente o mestre não havia sentido sua chegada; ele se lembrava muito bem do hábito cultivado por Mu em saudar os visitantes, são eles intrusos ou não, com voz de trovão e presença ameaçadora a fim de assusta-los. Talvez ele estivesse distraído, ou quem sabe passara tanto tempo sozinho que até deixou de esperar pela visita de quem quer que fosse e não mais se preocupava em proteger o perímetro.

Querendo fazer uma surpresa, o Cavaleiro de Áries sorrateiramente sondou a torre à procura de Mu; andou um pouco pelo lado de fora e não sentindo ao menos seu Cosmo nas zonas teleportou-se para o lado de dentro, atrevidamente para o último andar, onde lembrava-se ficar o quarto de Mu. Logo espantou-se como não se recordava do espaço interno de construção ser tão grande a despeito do que se imaginava quando se olhava para ela de fora, mas não foi exatamente esse detalhe que chamou mais a sua atenção.

Para um homem que vive sozinho a tantos anos, recebe mais coisas ali que julgava ser o essencial para o dia a dia, coisas como flores, muitas, aliás, e que faziam parte de uma decoração caprichosamente pensada para transformar uma torre sem portas de entrada e saída num lar aconchegante. Sobre a cama, enorme por sinal, muitas almofadas coloridas faziam par com uma colcha de retalhos tricotada à mão. Ele imaginou que Mu pudesse estar dormindo, mas não vendo ali desceu para o próximo andar, onde novamente surpreendeu-se com a decoração alegre e vívida.

Pelo que podia perceber, em sua reclusão mestre Mu dedicara-se especialmente em tornar Jamiel um lar acolhedor. Tudo ali remetia à uma casa de verdade, quadros nas paredes, tapetes confortáveis para ajudar a aquecer os pés, predominância de cores quentes, talvez com o mesmo propósito, até o cheiro gostoso e convidativo de chá que vinha da cozinha, no primeiro andar, que subitamente nocauteou seu olfato.

Espera ... não era exatamente de chá o cheiro que sentia.

Chai indiano? Talvez.

Mu estaria na cozinha, era claro. Se tivesse pensado um pouco mais, teria começado a busca por lá, já que naquela hora faz dia lembrava-se que o mestre adorava uma bebida quente.

Kiki desceu correndo como escadas, ansioso e já com um sorriso entusiasmado no rosto, porém quando chegou lá não foi Mu quem ele encontrou, mas a última pessoa que imaginou ver num lugar como aquele, e também em qualquer outra parte da face da Terra.

A respiração do cavaleiro de Áries tornou-se forte, mas todo o resto de seu corpo ficou paralisado. Em sua garganta um grito pronto de terror tinha virado pedra.

De frente para um fogão à lenha e de costas para Kiki, um homem de cabelos loiros muito longos, trajado em vestes budistas de um laranja bem vivo, cantarolava um mantra alegremente enquanto preparava o chai. De repente, distraído ele se virou para apanhar mais um bocado do cardamomo que descobriu sobre a mesa e foi então que seus olhos azuis cristalinos e brilhantes toparam com os violetas espantados do visitante.

O grito de susto do homem loiro libertado quebrar a paralisia que tomava Kiki.

- Por Atena e o poder imensurável de todos os deuses do sagrado Olimpo! Não pode ser você! - vociferou ele com os olhos colados na figura à sua frente.

Este, agindo por puro instinto de sobrevivência, apanhou uma frigideira que deve ser sobre o fogão e o levantando até a altura do queixo enquanto assumia uma postura de defesa disse atarantado:

- Por Buda, como diabos você entrou aqui? Quem é você?

Tanto a atitude quanto a pergunta deram um nó na compreensão de Kiki, pois aquele era ninguém menos que Shaka de Virgem; muito mais jovem do que deveria ser, mais até que si próprio, que já era um homem maduro perto dos seus quarenta anos enquanto ele não deveria ter mais do que vinte.

Mas a questão principal, embora inexplicável, nem era essa, mas o fato de que Shaka de Virgem estava morto há décadas. Ou pelo menos deveria estar.

- Não pode ser ... você está vivo! - disse o cavaleiro e em seguida engoliu em seco. Parecia ter comido areia tão seca estava sua garganta.

- E qual é o espanto? Eu deveria estar morto, por acaso? - disse Shaka, ainda com a frigideira em punho apontada para ele.

Nessa hora, embora muito assustado ainda, Shaka reparou nos sinais na testa dele; como pintinhas eram idênticas às de Mu. O cabelo também tinha um tom incomum, um vermelho aceso; isso sem falar nos olhos grandes de uma cor que sabia jamais encontrar em um ser humano comum.

- Você é parente do meu marido? - perguntou ele por fim.

- Marido? - Kiki quase engasgou com as palavras enquanto sentia o corpo todo tremer à beira de um colapso emissão por mais aquela surpresa.

- Ora, sim, o Mu ... imagino que veio a Jamiel atrás dele, porque atrás de mim é que não deve ter sido, já que não te conheço - disse Shaka finalmente baixando uma frigideira e relaxando na postura.

- Como assim, seu marido? - perguntou Kiki abruptamente elevando o tom de voz e parecendo nervoso.

Shaka de repente arregalou os olhos e seu rosto ficou corado.

- Ah ... pois bem ... Surpresa! Mu é homossexual - disse ele - pelo jeito você não sabia ... mas ele também nunca me disse que tinha um parente vivo para quem tinha que dar satisfação da vida dele. Como você ia sabre, né?

Nessa altura, Kiki gozo como se um furação o impulsionado e levado todos os seus alicerces. O que estava acontecendo ali? Que tipo de brincadeira sem graça era aquela que o destino lhe pregava, ou seria tudo um sonho sem nenhum sentido? Talvez uma ilusão, afinal o mestre das ilusões estava bem ali à sua frente, muito mais jovem do que deveria ser, mas ainda assim era ele. Sim, talvez o próprio Shaka o prendera em um de seus cruéis golpes e agora brincava com sua percepção lhe embaralhando como memórias.

Sem conseguir mais se conter Kiki avançou em Shaka, lhe arrancou facilmente a frigideira das mãos e o agarrou pelo braço com força lhe dando um chacoalhão violento.

- Pare de brincadeira, isso não tem graça! - berrou ele com lágrimas nos olhos. - Diga logo, quem é você?

- Ei, me solta! Perdeu o juízo? - Shaka protestou.

- Quem é você? DIGA! - Kiki gritou apertando os dedos contra a pele dele. Sua voz embargada pelo choro e o desespero.

- SHAKA! O meu nome é Shaka!

- Shaka de Virgem? O Cavaleiro de Ouro de Virgem?

- O que? Não! - respondeu ele assustado enquanto tentava se soltar sem sucesso. - Não sou nenhum cavaleiro, não sei do que está falando ... O que há com você, me solte!

- Sim, você sabe do que estou falando, e eu não vou solta-lo até que me explique tudo! O que faz aqui e como pode parecer tão jovem? E que história é essa do senhor Mu ser seu marido? - Sua voz tinha um tom extremamente agressivo.

- Você está louco? Está me machucando!

- Se é mesmo ele então você é capaz de se soltar sozinho sem nenhum esforço, mas você não pode ser ele ... não pode ser ele ... o Shaka está ...

Bem nessa hora a voz troante e intimidadora de Mu soou tão alto quanto o prenúncio de um cataclismo, fazendo tremer os alicerces da torre e calando como últimas palavras que seriam ditas pelo cavaleiro.

- KIKI, TIRE AS MÃOS DELE!

Antes mesmo de Kiki dar-se conta, o lemuriano mais velho avançou feito um leão feroz e se colocou entre eles, arrancando à força o jovem rapaz de suas mãos e usando o próprio corpo como escudo para personalizar-lo protegido atrás de si.

Kiki tirou das costas à Caixa de Pandora, a largando no chão ao seu lado, depois lanç para Mu um olhar carregar de incredulidade.

- Mestre Mu, o que é isso? - indagou aos gritos completamente transtornado, enquanto apontava o indicador para o rosto de Shaka.

- Kiki, se acalme - pediu Mu com voz séria.

Nessa hora Shaka arregalou os olhos e o espanto toma conta de suas feições.

- Kiki? - disse ele pegando nos ombros de Mu, mas sem tirar os olhos do cavaleiro diante deles. - Mu, você conhece esse homem?

Kiki tremia incontrolavelmente; não podia crer no que ouvia.

- Isso só pode ser uma piada ... Mestre Mu, o que está acontecendo aqui?

- Marido, por que esse troglodita está te chamando de mestre? - Shaka picada.

Mu cobriu a boca com a mão, desnorteado e aflito. Seus olhos, que exprimiam um sentimento terrível de espanto, eram incapazes de desviarem dos de Kiki.

- Shaka, por favor ... não diga mais nada - pediu ele.

- O que? - Shaka esbravejou. - Não ouse me mandar ficar quieto, Mu de Jamiel! Esse homem invadiu a nossa casa, me destratou, me atacou e eu que tenho que ficar quieto?

Mas naquele ponto, Shaka pode queixar-se até mesmo aos gritos que nem o cavaleiro, tampouco o dono torre, o ouviriam.

Como se pudessem ler a alma um do outro através do olhar, os dois lemurianos se encaravam em silêncio, até que de repente as feições de Kiki se tornaram totalmente descompostas; os lábios tremeram absurdamente, dos olhos orvalhados por grossas lágrimas pareciam vislumbrar algum tipo de monstruosidade invisível, a tez, de tão lívida, adquirira um tom sobrenatural. Ele então começou a recuar em passadas curtas e lentas enquanto balançava a cabeça em negativa.

- O que o senhor fez, senhor Mu? - Ele sussurrou; seus olhos sempre colados aos mestre.

No seu desespero, Mu avançou um passo em direção a ele, mas Shaka o segurou pelo braço o forçando a ficar onde estava.

- Kiki ... - sussurrou o lemuriano.

- Pela misericórdia de Atena, o que foi que o senhor fez? - Dessa vez ele gritou entrando em desespero.

- Eu posso explicar, Kiki - implorou Mu.

Shaka virou-se para Mu e olhou sério em seus olhos.

- Ah, ótimo! Aproveite e explique para mim também de onde você conhece esse amalucado, já que você me disse que era sozinho nesse mundo, que não tinha família ou parente algum - disse ele cruzando os braços, depois emendou: - Você mentiu para mim, Mu de Jamiel ?

- Não, eu não menti.

Shaka estreitou os olhos.

- E Shaka por acaso é um palerma? - provocou ele, depois apontou para Kiki - Esse daí é lemuriano igual a você ... e o chama de mestre!

Sentindo vertigens e nervoso como nunca, Mu respirou fundo tentando voltar ao seu eixo para pensar rapidamente como proceder frente aquela situação que sempre para seu pior pesadelo. Ele então trocou um olhar com Kiki, que chorava muito parecendo paralisado, e através desse pedido um minuto apenas de compreensão, depois disso voltou toda sua atenção para Shaka.

- Luz da minha vida - disse ele tomando sua mão e beijando delicadamente os dedos - Sei que está confuso e assustado, mas agora, nesse momento, eu preciso muito conversar com Kiki em particular.

Shaka recolheu a mão na mesma hora, levando o braço para atrás das costas.

- Mas nem pensar! - protestou. - O que você tem para falar com ele que eu não posso saber?

Mu engoliu em seco; Deveria saber que não seria fácil convence-lo, afinal conhecia como ninguém sua natureza e sabia que ele jamais aceitaria ficar sem respostas para suas perguntas.

- Sei que você quer respostas, então vou te dar algumas horas para que possa se acalmar pelo menos um pouco e me deixar ter uma conversa necessária com ele, depois que eu prometo que explicarei melhor tudo a você ... De imediato, o que precisa saber é que não menti a você quando disse que era sozinho no mundo. Este homem ... esse lemuriano, não é meu parente de sangue, mas eu o conheço desde que era um bebê, porque fui eu quem o criou. Ele é como um filho para mim.

- Como é que é? - Shaka descruzou os braços, surpreso.

Kiki nessa hora olhou para eles e então um filme passado em sua cabeça. Como ele queria que aquele reencontro tivesse sido diferente ...

- Lembra de quando contei a você que serviços nas opções especiais de um exército grego? - Mu continuou, agora segurando nas mãos de Shaka, como quais sentimos geladas e trêmulas.

- O tal exército secreto? - perguntou Shaka.

- Isso mesmo. Eu fui um soldado de elite da patente mais alta, e Kiki foi meu aprendiz. Quando pedi exoneração ele ocupou o meu cargo e desde então nunca mais nos vimos. Isso já faz tantos anos ... não penso que fosse vê-lo outra vez - disse Mu, e nessa hora seus olhos cruzaram com o olhar incrédulo de Kiki.

Mu baixou a cabeça, não podendo sustentar aquele olhar, depois voltou-se novamente para Shaka, que parecendo intrigado questionou:

- Se o criou desde bebê e o estimava como a um filho, por que você rompeu esse laço, Mu? ... Ou foi ele quem rompeu e agora vem atrás de você com o rabo entre as pernas, esse desnaturado - disse voltando-se para Kiki e o encarando com firmeza.

Mu suspirou angustiado.

- Não, Kiki não é desnaturado, Luz da minha vida ... Olha, eu sei que devo muitos mais esclarecimentos a você, mas agora que sabe quem é este homem, preciso confiar em mim e me deixar conversar a sós com ele por um momento.

Shaka ponderou por um instante em que sua fisionomia adquiriu um ar de desapontamento, mas no fim não se negou a ceder ao marido o tempo a sós com o antigo pupilo. Ademais, a transparente aflição de Mu também abrandou momentaneamente sua determinação; certamente eles tiveram muito a conversar e acertar depois de tantos anos de separação. Sim, ele podia esperar.

- Está bem - disse ele apertando os dedos contra a fronte, bem acima do bind it in tinta vermelha - eu também preciso me acalmar, toda essa discussão absurda e sem sentido me deu dor de cabeça ... Resolva seja lá o que tiver que resolver com este homem e volte para mim. Acredite, tenho muitas, mas muitas perguntas mesmo, a fazer a você.

Muito apertou os lábios e ainda que receboso, para não dizer em pânico, disse firme:

- E como prometi responderei a todas elas.

Um pouco acanhado e vacilante devido à presença opressora de Kiki ali, Mu beijou os lábios de Shaka rapidamente e logo afastou-se dele para caminhar em direção ao ex-pupilo, que seguia encarando Shaka, com seus olhos violetas vidrados como se vislumbrassem uma aparição .

Logo que ficou frente a frente com Kiki, ambos desmaterializaram-se no mesmo instante; sozinho ali Shaka puxou uma cadeira e sentou-se soltando um longo suspiro.

Só lhe restava mesmo esperar.

O local para onde Mu havia teleportando a si próprio e a Kiki era por si só irreal. Por um momento, o lemuriano mais jovem sentir-se estranhamente confuso, e parecendo desorientado, como se sua percepção de espaço toda bagunçada e lhe afetasse o equilíbrio, ele perguntou:

- Onde estamos?

Com certa dificuldade, por causa de uma leve vertigem, Kiki tombou a cabeça para trás e olhou para o céu; este estava diferente, sua abóboda hemisférica lhe parecer muito mais côncava e limítrofe, e também não sabia dizer se era dia ou noite.

- No centro da montanha - disse Mu.

Kiki desceu imediatamente os olhos para o rosto de Mu. Seus braços estavam arrepiados.

- O que? Como assim? ... Tipo ... dentro? Dentro da montanha?

- Sim.

A estupefação roubou a voz de Kiki, que aquele ponto em diante passou a correr os olhos atônitos pelo lugar enquanto a voz melodiosa de Mu lhe entrava em ecos pelos ouvidos o descrevendo.

O coração montanha era apenas um dos tantos segredos milenares do povo lemuriano. Um ecossistema próprio, completo e biosustentável, que só podia ser acessado por teleporte e totalmente selado do mundo exterior por camadas indizíveis de rocha bruta e barreiras de cristais. Um lugar que podia muito bem ser comparado ao que o imaginário humano chamava de Terra Oca nas teorias conspiratórias; bem, esta não ficava exatamente no núcleo do planeta, como afirmavam alguns teóricos malucos, mas ali, na cordilheira do Himalaia.

Sob uma luz quente e brilhante, que Kiki não escolher a menor ideia de onde vinha, mas que certamente não era o sol, havia um prado verdejante que se estendia por alguns bons milhas; a Leste se erguia um bosque fechado e o Oeste havia até uma pequena cachoeira que terminava em uma bacia de águas cristalinas. Alguns animais e aves de pequeno porte perambulavam por ali e eram diferentes de tudo que já tinha visto "do lado de fora". Kiki nem se atreveria a pergunta de que espécie eram.

- Foi você quem fez isso? - Ele se detivera a question apenas isso.

- Não.

Mal terminou de falar Mu começou a caminhar em direção à uma das duas únicas construções existentes ali, com aparição mais moderna e impessoal, que ficava ao Norte de onde estavam; a outra era uma pequena casa erguida com blocos de pedra, ao sul. Ele estava visivelmente nervoso e angustiado, mas um sentimento que tentava esconder a todo custo não passou desapercebido por Kiki, que podia sentir-lo com clareza através de seu Cosmo: medo.

- Eu não construí o domo. Tudo isso já existia muito antes de mim, mas nesta Era sou eu quem o mantém - Mu prosseguiu dizendo - Esse lugar é uma espécie de Bunker, foi construído pelos primeiros lemurianos, os originais. Tudo aqui foi pensado e conduzido para abrigar vida independente do exterior.

Kiki agachou-se durante o percurso e curioso para tocar uma flor de pétalas iridescentes que nascera de um pequeno arbusto na trilha por onde caminhavam; seu toque, ainda que extremamente delicado, a fez fechar-se para se proteger na mesma hora.

- Esplêndido! - exclamou ele deslumbrado, depois de chegar-se e voltar a caminhar - Então os lemurianos já previam a destruição completa do continente de Mu?

- Nem era preciso prever - disse Mu, e nessa hora suas feições foram recuperadas por uma terrível melancolia - Tudo neste mundo tem um fim. Nada é permanente ... Este lugar foi criado para abrigar os sobreviventes e assim evitar a extinção completa do nosso povo. Aqui eles se refugiaram e trouxeram consigo todo o conhecimento que acumularam por milênios, então quando eles julgaram que o mundo já tinha voltado a ser um local seguro para nós, eles se aventuraram para o exterior e fundaram Jamiel. Shion o preservou e o mantido antes de mim, e eu agora, depois dele.

Mu fez uma pausa e interrompeu os passos; virou a cabeça para olhar para Kiki atrás de si e então nessa hora, coração palpitar mais forte e a boca secar.

- Nós chegamos - disse ele.

O cavaleiro de Áries olhava para frente, o olhar espantando e curioso, mas seu foco não era Mu e sim uma construção moderna de alvenaria à frente deles que de longe parecia uma casa comum, mas olhando para o lado de dentro de podia-se ver que era muito mais do que isso.

- E aonde nós chegamos? - Kiki perguntou demonstrando impaciência.

Mu logo virou para frente e adentrou a "casa". Kiki o seguiu e poucos passos depois disso que aquilo estava mais para um tipo de forte, pois que seu interior era todo revestido de um metal espesso, visivelmente pesado e reforçado.

Foi então que chegou a uma imensa porta de duas folhas do mesmo metal. Mu desta vez virou o corpo todo para ficar cara a cara com o ex-pupilo.

Aquele foi o primeiro momento, de uma chegava intempestiva de Kiki a Jamiel, que eles se olham nos olhos e realmente "se viram", a primeira vez que Mu dera-se conta de que Kiki agora era um homem feito, alguns dar mais alto que si, robusto, imponente, porém com as mesmas feições joviais de quando era um rapazote; e Kiki à primeira vez que olhava para o mestre com a estimativa e o respeito que sempre lhe dedicara. Era incrível como após passadas tantas décadas sua continuava exatamente a mesma do dia que o vira pela última vez, no Santuário, quando se despediram nas escadarias da Casa de Áries. As bênçãos da longevidade lemuriana lhe conservaram a jovialidade e a beleza, não podendo ocultar somente como olheiras moderadas debaixo de seus olhos e uma única perda de massa muscular.

Mas aquele choque de nostalgia que acometera o jovem cavaleiro durou pouco. Kiki estava que estava que havia algo de terrível atrás apenas a porta e que Mu estava mais do que existe.

Seus olhos então se estreitaram, faiscantes, e o assombro voltou a tomar conta de sua fisionomia.

- Anda, senhor Mu ... não me faça derrubar essa porta - ameaçou ele.

Mu respirou fundo.

- Kiki ...— fez uma pausa - o que você irá ver é uma prova real e irrefutável de que muito além de sermos descendentes de uma espécie diferente, somos um povo que desde os tempos áureos de nossa civilização já detinha avanços tecnológicos e científicos que a humanidade atual nem sonha alcançar. Nem mesmo os famosos Atlantis chegou perto do conhecimento de conhecimento pelos lemurianos ... e este engloba desde a compreensão do Universo ao funcionamento preciso da menor e mais complexa partícula. Por anos eu guardei este segredo, um segredo do nosso povo, mas que pertence a mim tanto quanto pertence a você, e pelo direito que carrega no seu sangue eu o revelarei, porém você deve obrigar-lo, preserva-lo como o que é : um segredo. Pelo bem da humanidade que jurou proteger, você precisa me prometer que irá preserva-lo. Você promete?

O olhar de Mu para uma era Kiki tenso e o suor escorria pela têmpora.

Kiki por sua vez, sentiu-se extremamente incomodado em descobrir que segredos dos lemurianos que o mestre nunca lhe contara, e que se não tinha aparecido ali sem aviso talvez nunca contaria.

- Eu prometo - disse ele impaciente - Tem a minha palavra de homem, lemuriano e cavaleiro.

Com um aceno de cabeça Mu concordou e então virou-se para a porta e deu início a um procedimento complexo para abri-la; este que naquela altura nem causou tanto espanto ao cavaleiro. Depois de tudo era esperado que houvesse tal esquema de segurança tão absurdo, com senhas criptografadas, um escaneamento óptico e outro que mapeava o DNA de Mu e o dele próprio, Kiki, para reconhecer-lo como um legítimo lemuriano. Por fim ainda havia uma Muralha de Cristal selando uma passagem.

Quando uma imensa porta foi aberta, o que Kiki viu do lado de dentro o fez ficar preso ao solo, paralisado, enquanto um calafrio horrendo lhe subia pela espinha fazendo seu corpo todo estremecer.

Oposto a tudo aquilo que havia visto do lado de fora, ao verde vívido misturado ao prisma colorido da vegetação, ao cheiro agradável das flores da terra molhada, à luz quente que vinha de cima, uma monocromia do lugar foi a primeira coisa que lhe saltou aos olhos; tudo era cinza e artificial.

Ele então viu Mu mergulhar naquela penumbra plúmbea que ganhava tons de um azul fantasmagórico à medida em que as luzes se acendiam acompanhando seus passos e revelando mais do que já era possível deduzir ser um laboratório de alta tecnologia. Não qualquer uma, mas tecnologia lemuriana.

- Não fique parado ai - disse Mu sem olhar para trás - Venha.

Os pés de Kiki são mexidos como obedecendo à ordem de Mu e não à sua própria vontade. Conforme adentrava o lugar sentia mais a diferença gritante de temperatura; suas mãos cada vez mais frias, seus joelhos tremiam, os ouvidos experimentavam uma pressão estranha. Ele piscava os olhos repetidas vezes para tentar se adaptar como luzes fortes artificiais que deixavam o ambiente com uma iluminação tão intensa que chegava a causar incômodo. Só quando conseguiu ficar com eles oferta de vez foi que conseguiu prestar maior atenção no que havia ali, e o que viu o fez sentir um súbito medo e horror profundo.

Em meio todo tipo de aparelhagem laboratorial, desde as mais comuns usadas pelos humanos, como microscópios e balanças de precisão, produzidas ali itens que ele nem era capaz de classificar, já que coisa parecia ele só tinha nos filmes de ficção cientifica que assistira no cinema junto dos amigos cavaleiros; outros então ele nunca tinha visto na vida ou sequer existe imaginar o que seria, como um grande e espesso cilindro de metal, mais parecido com um casulo, bem no centro do laboratório. Ligados a ele por aberturas nos polos opostos iniciados incontáveis cabos de variados tamanhos, comprimentos e formatos, separando extremidades opostas partiam ou do solo ou do teto.

No meio dessa parafernália futurista incorporados também muitos artefatos usados na alquimia lemuriana, como cristais e elixires guardados em frascos de diversos formatos, e estes simplesmente ficavam levitando no ar junto de monitores holográficos comandados por uma Inteligência Artificial, à qual embasbacado ele saudar Mu no idioma nativo de seu povo.

O frio na espinha então subiu para a nuca quando ele deu alguns passos para o lado e viu ali uma espécie de incubadora, bem maior, mais tecnológica e equipada do que as que conhecia, mas claramente uma incubadora.

- Em nome de Atena, mestre Mu, o que é tudo isso e o que esse lugar tem a ver com o senhor Shaka? - ele perguntou com a voz trêmula e o espirito inquieto.

Mu olhou para ele, mas não respondeu.

Ao em vez disso ele deu um novo comando para a Inteligência Artificial e então o tampo de metal que revestia o casulo no centro do laboratório se abriu, revelando o que o princípio lhe proporcionou um aquário em formato cilíndrico, já que dentro havia um líquido de coloração rosada.

- Shion foi quem me passou os segredos para acessar esse lugar - disse Mu encostando-se em uma das bancadas - junto a tudo o que ele me ensinou, manter o domo criado pelos nossos ancestrais parte de uma missão que ele me deu antes de morrer, ou como uma geração ... Uma vantagem que deveria ser sua.

- Com assim?

- Você tomaria conhecimento desse lugar após a minha morte, através do meu testamento - disse ele forçando-se a olhar nos olhos do pupilo, mesmo que fosse difícil sustentar o olhar duro que ele dirigia - No entanto ... eu sobrevivi à Guerra Santa , então o preparei para me substituir, dei por encerrada a minha missão com o Santuário e com Atena, porque assim eu teria tempo livre para cuidar pessoalmente do domo e estudar a fundo os segredos dos lemurianos originais para deixar-los transcritos a você, mas ...

- Mas?

Mu respirou fundo.

- Mas a minha solidão e tristeza quase me devorou - confessou ele - Com muito custo eu persisti e ainda consegui montar uma biblioteca inteira. Também encontrei mapas que me levaram a outras curvas secretas e me dava acesso a mais conhecimento ... A tecnologia dos antigos lemurianos é esplendia, Kiki, é surreal!

- É ... estou vendo - ironizou ele - e o que toda essa tecnologia espacial, surreal, paranormal, trilegal, ou seja lá o que for, tem a ver com aquele homem na sua torre? Por que você não me responde de uma vez por todas?

Mu estalou os dedos, nervoso.

- Por que não é algo fácil de se dizer, Kiki - disse ele - Todo esse conhecimento que eu adquiri, ao mesmo tempo que é incrível também é extremamente perigoso caso caia em mãos erradas ... A tecnologia lemuriana, falando grosso modo, é basicamente capaz de criar tudo o que a mente humana conseguir idealizar, desde armas, veículos exploradores do espaço, novas espécies e até ... vida!

Naquele ponto, as palavras do mestre fornecer a causar além de pânico um desespero latente em Kiki.

- Senhor Mu ...

- O científico, científico e tecnológico do nosso povo foi sua maior glória e o início de sua destruição - disse Mu com lágrimas nos olhos - Infelizmente eles não tinham como saber disso, mas eu sim, eu tinha, e foi pensando nisso que eu construí esse laboratório , completamente sozinho. Ele não faz parte do domo, é independente, e eu, agora você também, somos os únicos a saberem de sua existência. Absolutamente ninguém é capaz de entrar aqui sem que seja um lemuriano e que não tenha a minha permissão. O único lugar seguro na Terra para pôr em prática o mais ousado dos projetos idealizados pelos lemurianos antigos.

Kiki pulso ou sangue gelar em suas veias; seu estômago deu nó dolorido lhe causando uma forte náusea.

- Mestre Mu ... em nome de Atena, que projeto é esse?

A voz de Kiki soou incrivelmente baixa; ele tinha medo da resposta que viria.

Muita sensação de medo tomando conta de si. Ele tinha os olhos vidrados e colados aos do ex-pupilo, e tanto um quanto o outro tinha uma camada fina de lágrimas tremulas de cobrindo. Só depois de um momento tenso foi que ele conseguiu enfim verbalizar seu pior crime.

- Biotecnologia - disse Mu em voz baixa como se estivesse fazendo uma confissão da qual se envergonhava muito.

- NÃO ... - gritou ele recuando um passo, incrédulo.

- Mais especificamente ...

- NÃO!

- Engenharia genética.

- NÃO! NÃO! O SENHOR NÃO FEZ O QUE EU ESTOU PENSANDO! ME DIGA QUE NÃO FEZ ISSO!

- Sim, eu fiz.

O terror puro tomou conta das feições e também do espírito nobre do cavaleiro de Áries, que num rompante de desespero, alimentado pela fúria da incredulidade, avançou sobre Mu e lhe golpeou com um soco direto no rosto. A pancada fortíssima desconsiderou qualquer respeito que ele pudesse manter por Mu um dia ter sido seu mestre e o acertou em cheio na maçã do rosto e no olho esquerdo.

Antes mesmo que possa ter qualquer reação, Kiki ou agarrou pelos ombros para poder olhar firme em seus olhos. Talvez desejasse ver neles a primeira mentira que o mestre lhe contaria, já que Mu jamais mentiu para ele.

- Como pôde fazer uma monstruosidade dessas?

- Eu não pretendia - disse ele entregando-se ao desespero em meio a um choro copioso que carregava todo o peso de sua culpa - Pelo menos não no começo ... mas eu estava tão sozinho, e mesmo depois de anos e de todo tipo de tentativa eu não consegui superar a morte dele, não consegui viver sem ele ... Pelos deuses eu sentia a falta dele todos os malditos dias, desde a hora que abria os meus olhos até a hora que os fechava, então eu pensei e. ..

- E achou que podia brincar de deus e fazer um maldito clone do cavaleiro de Virgem? Uma marionete? Uma criatura sem alma, uma ... uma cópia vazia? - vociferou o jovem lemuriano que desesperado empurrando o mestre contra a bancada.

Mortificado Kiki levou as mãos à cabeça e apertou os cabelos ruivos com os dedos gelados, então de repente tudo aquilo ao seu redor passou a fazer sentido pela primeira vez desde que entrara ali; o casulo, ou aquário, era um útero artificial, e foi ali que aquele garoto loiro que conheceu na torre for gerado. Os cabos o alimentaram, ea tecnologia lemuriana garantiu que ele fosse uma cópia perfeita do homem que outrora para o grande amor da vida de seu mestre.

- Aquela aberração na sua torre é o motivo para que todo esse conhecimento e tecnologia lemuriana tenha se perdido através das Eras - lamentou Kiki ofegante, olhando para Mu que de cabeça baixa era incapaz de encara-lo - Por Atena, o senhor interferiu na ordem natural das coisas, maculou o ciclo da vida e da morte, passou por cima da própria ética que ensinou a mim com tanto orgulho e entusiasmo, apenas porque não foi capaz de aceitar a morte dele? Logo o senhor que já foi um cavaleiro?

- Você disse bem ... eu fui um cavaleiro, mas nem todo o poder das estrelas pôde me dar quadros para viver sem ele.

Numa explosão de fúria repentina Kiki avançou novamente contra Mu e agarrou em seu braço dando um forte chacoalhão.

- Pois então que morresse e fosse encontrar-se com ele nos Elísios, no Nirvana ou no raio que o parta! - rosnou. Seus olhos faiscavam encarando os de Mu. - Só me diga uma coisa, para me fazer perder de vez o respeito por você ou além disso ainda sentir nojo. Você coisa criou jovem bebê e despois o desposou como marido?

- Vejo que está tão horrorizado que mesmo que eu dissesse que não você ainda duvidaria, então só vejo um meio de contar a você os detalhes.

Sem aviso Mu ergueu ligeiramente o braço direito e com os dedos indicador e médio tocou a fronte de Kiki; dali em diante ele necessário que o ex-pupilo tenha acesso à parte de suas memórias.

Tudo se deu tão rápido quanto um relâmpago que corta o céu.

No intervalo de um instante Kiki deixou de enxergar os olhos do mestre para vislumbrar em sua mente o passo a passo do que levou-o a cometer aquele pecado e passar por cima das leis da natureza.

Sentindo-se protegido do mundo no oco da montanha, e sem ninguém ali para julga-lo, Mu descera o mais fundo possível, esquecendo-se até de noções vagas de ética, perdido em si mesmo, carente de um amor que lhe era tão vital quanto o ar e na esperança de tê-lo de volta.

Flashes rápidos de sua memória eram transmitidos para Kiki por uma tela imaginária e este os vislumbrava em agonia, pois que era como assistir a um filme de Sci-Fi misturado com terror cujo protagonista era uma única pessoa: Mu.

A princípio ele viu o mestre na torre de Jamiel estudando pergaminhos antigos, depois escavando ruinas, coletando materiais diversos em diferentes partes inóspitas do planeta, então como as imagens deram um salto anterior Mu montando aquele laboratório, fazendo anotações, programando uma Inteligência Artificial.

Um outro salto o levou de volta a Jamiel. Mu estava no quarto, de frente a sua estante de livros, quando apanhou um deles e ao abri-lo em determinada página revelou uma trança longa feita com cabelos loiros.

Nesse ponto exato Kiki hiperventilava e seus olhos reviravam por debaixo das pálpebras, agitados.

Na imagem seguinte ele estava de volta ao laboratório, agora já totalmente finalizado; Mu estava sentando de frente para um dos monitores holográficos que exibia na tela uma cadeia de DNA.

Outro pequeno salto o possibilitou ver Mu ao microscópio acompanhado o processo do cultivo celular.

A imagem seguinte fez Kiki dar um grito e puro horror e apertar com força o braço de Mu.

No aquário de vidro no centro do laboratório, boiando em líquido amniótico artificial e ligado aos cabos de alimentação, estava uma massa disforme de carne. Hedionda ela parecia agonizar implorando pela morte.

Diversos outros saltos apresentam imagens parecidas, porém em tempos diferentes diferentes. Criaturas deformadas agonizavam durante um crescimento acelerado, antinatural, modificado, alterado, proibido ... Monstruosidades que só encontravam alívio quando em meio a lágrimas de derrota e amargurando uma frustração do fracasso Mu concedia a elas o descanso pela eutanásia.

Tristeza, depressão, desespero, loucura, obsessão, delírio ...

Como as seguintes imagens serão inerentes ao acesso de fúria, então que veio na sequência o devolução ao laboratório dando início a uma nova tentativa.

Foram incontáveis e sucessivas até que finalmente uma alcançasse o resultado que Mu esperava.

Um dos embriões clonados vingou e aceleradamente por alguns anos dentro daquele útero artificial, sem um único defeito. E ele era perfeito e belíssimo como sua memória mais nítida do cavaleiro de Virgem original, até atingir a forma que este não tinha auge dos seus dezoito anos de idade.

Noutro breve salto Kiki viu Mu de frente para o tanque. Dentro deste, envolto pelo líquido amniótico artificial, conectado aos cabos de alimentação umbilical e outros acessos em seu corpo pelos quais lhe eram administradas substâncias diversas, o clone de repente abriu os olhos e encarou-o.

A cena aterrorizou Kiki; que apareça como se o clone pudesse vê-lo de fato e estava olhando diretamente para sua alma. Exatamente a mesma sensação que tinha toda vez que olhava para os olhos azuis de Shaka de Virgem.

- CHEGA!

Kiki gritou empurrando Mu para longe de si.

- EU NÃO QUERO MAIS VER!

Com vertigens e o estômago revirado ele apoiou-se na parede de metal e virando para o lado vomitou bile espessa. Estava completamente transtornado, incrédulo e apavorado com a realidade que ele implorava fervorosamente para que um dia pudesse esquecer.

- Kiki ... eu sei que eu ...

Mu tentou se aproximar dele, mas foi rechaçado na mesma hora.

- Não chegue perto de mim! - Gritou aos prantos - Eu não tinha mais alto grau de admiração e confiança, senhor Mu ... Como o homem que me criou e me ensinou tudo o que sei pode ser o mesmo que cometeu tal monstruosidade? Isso não faz nenhum sentido!

- Kiki, por favor ...

- Isso só pode ser um pesadelo! VOCÊ FICOU LOUCO! - ele gritou desesperado.

- Sim ... talvez eu tenha ficado louco.

- Talvez?

- Eu assumo que a saudade dele e o solidão afetaram a minha sanidade, mas ...

- Mas? - Kiki o interrompeu ofegante - Não tem mas, senhor Mu. Isso não é amor, isso é loucura, é doença!

- Por favor, Kiki. Eu preciso que se acalme.

- E eu preciso que admita que ficou louco e que cometeu um crime!

- Mas eu admito! Eu ... eu sei que o que fiz foi errado, mas o Shaka não tem culpa de ...

- Shaka? - Novamente Kiki o interrompeu. - Ora, não insulte a memoria do honrado cavaleiro de Virgem chamando aquela aberração sem alma pelo nome dele. Aquela coisa nascida da sua loucura não é o Shaka, nem sequer é humano!

- Claro que é humano!

- Não, não é! Aquilo é tão somente uma ... coisa. Não dentro do ventre de uma mulher. Sem mãe, sem pai, sem história, sem alma ... Ele nem deveria existir!

Mu engoliu em seco contraindo os lábios e então disse:

- Eu sei que essa situação é uma situação nova difícil de assimilar, mas eu preciso que você entenda que o Shaka - fez uma pausa para corrigir-se para não parecer que provocava Kiki, já que queria que ele se acalmasse para ouvi-lo com atenção, depois emendou: - Eu preciso que você entenda que o rapaz que está em minha casa é inocente. Kiki ... ele não sabe de nada disso.

Aquela foi outra revelação que atingiu Kiki à queima roupa.

- Como assim ele não sabe de nada? - pedido estupefato.

- Ele sequer sabe que esse lugar existe ... que ele veio daqui - disse Mu eliminado para o tanque - Por favor, eu preciso que você me deixe contar a ele.

Kiki começou a ficar descontrolado bufar.

- Você me prometeu segredo - insistiu Mu - me deu a sua palavra de homem, lemuriano e cavaleiro. Se precisa odiar alguém então odeie a mim, não a ele.

- Cale a boca! Pelos deuses, cale essa boca - disse Kiki tão furioso que rangia os dentes - Eu deveria destruir esse lugar agora mesmo e em seguida matar aquela ... coisa.

Bastou ouvir aquilo para a atitude de Mu mudar abruptamente.

De acuada e amedrontada, sua figura tornada-se grande e ameaçadora; a imagem do poderoso cavaleiro que sobreviveu à Guerra Santa, num movimento tão rápido que os olhos de Kiki não foram capazes de acompanhar, Mu avançou sobre ele e com ambas as mãos o agarrou pelo lenço que tinha em torno do pescoço, dando um tranco tão forte em seu corpo que o obrigou a firmar os pés no chão para não se desequilibrar.

- Não se atreva a tocar num só fio do cabelo dele - rosnou Mu com os olhos acesos cravados aos de Kiki e com seu Cosmo, a tanto tempo adormecido, queimando novamente - Se você quiser me matar eu não o impedirei de tentar, mas lembre -se que fui eu quem ensinou tudo o que você sabe, que eu já era cavaleiro muito antes de você nascer, e que posso ter perdido a cabeça em determinado momento da minha vida, mas nunca perdi a minha força ... Pelo contrário, eu a dobrei! Acumulei meu Cosmo durante todos esses anos, portanto se for necessário enfrenta-lo numa Batalha de Mil Dias eu não hesitarei nem por um segundo! ... Shaka não é um boneco sem alma, não é uma aberração ... Ele é o meu marido! O homem que eu amo! E se eu tivo a coragem de descer ao Inferno e passar por cima até mesmo da minha própria ética para tê-lo de volta,

Com as feições contorcidas pela raiva, a incredulidade, o rancor e o medo, e por mais revoltado e enojado que Kiki existia, aquele lemuriano agarrado às suas vestes era Mu, seu mestre, seu tutor, e a figura mais próxima de um pai que tivera em toda sua vida. Além disso, o conhecia muito bem para saber que ele não blefava. Sua determinação sempre fora irrefreável, ele nunca voltava atrás no que dizia.

Em seu íntimo Kiki sabia que jamais seria capaz de lutar contra Mu, especialmente quando este estava determinado a matar ou morrer por sua criação.

Talvez fosse exatamente essa a sua fraqueza.

Ou talvez o seu próprio senso de justiça o motivava a desistir, já que não encontrava argumentos contra as palavras do mestre.

Aquele garoto que ele criara em laboratório não tinha culpa alguma de seus crimes, de seus delírios, de sua loucura. Era uma apenas uma criatura miserável sem vontade própria.

Kiki jamais mataria um inocente.

Acendendo seu Cosmo, o cavaleiro de Áries empurrou Mu para longe e no instante seguinte desapareceu diante de seus olhos.

No primeiro andar da torre de Jamiel, ainda na cozinha, enquanto esperava pela volta de Mu, Shaka mastigava uma baga de goji cristalizada das tantas que introduzida num potinho de porcelana que segurava na mão, ao mesmo tempo em que agachado do lado da Caixa de Pandora da armadura de Virgem dedilhava curioso com o indicador da mão direita o entalhe do anjo que a adornava.

Kiki materializou-se-se-se ali flagrando exatamente esse instante.

Consumido por tudo o que acabara de ouvir e ver, num sobressalto ele afastou o jovem da caixa usando sua telecinese, trazendo o artefato para perto de si e arrastando Shaka pelo chão para longe o que faz bater a cabeça e como costas nas cadeiras pelo caminho .

- NÃO TOQUE NELA, SUA ABERRAÇÃO MALDITA!

O grito de fúria do homem, somado ao susto à violência do ato, fez Shaka gritar de medo e permanecer no chão, mas não impediu de olhar no rosto de Kiki para tentar entender o que acontecia.

Este por sua vez, lhe devolva um olhar de puro desprezo e nojo.

- A sua figura miserável me enoja - disse Kiki entre dentes enquanto colocava a Caixa de Pandora em suas costas - você nunca será digno de tocar nessa caixa!

Shaka arregalou os olhos, espantando e confuso, então num rompante de valentia e indignação eleitoral-se do chão com certo custo.

- Ei! - esfregou a cabeça dando um gemido de dor - Quem você pensa que é para falar comigo assim, sua cenoura malcriada!

Kiki sopro como se levasse um soco na boca do estômago.

Seus lábios então formaram um arco para baixo e trêmulos murmuraram:

- Ele me chamava assim - fez uma pausa no que analisava a figura à sua frente com os olhos tão vidrados que parecia olhar para um fantasma - mas você não é ele ... não, você não é ele e isso só pode ser um pesadelo .

Shaka pulso seu coração acelerado.

Aquele homem o estava pondo cada vez mais confuso.

- De quem está falando? Desde que chegou aqui parece que você está me confundido com outra pessoa.

Kiki recuou alguns passos. Sua fisionomia era caótica.

- Não ... você é uma aberração, um erro - dizia balançando a cabeça em negativa.

- O que? Por que está dizendo isso?

- Você não deveria estar aqui.

Shaka já tinha percebido que algo estava errado, muito errado, e avançou em direção a Kiki conforme esse seguia recuando.

- Por que eu não deveria estar aqui? - perguntou, curioso e assustado.

- Porque sua existência é uma profanação ... A sua vida é o resultado do pior pecado que o homem poderia cometer contra as leis da Natureza ... é um insulto aos mortos ... um insulto aos deuses!

Os passos de Shaka de repente se detiveram.

Ele goze seu corpo todo gelado e o coração a ponto de explodir.

- Eu ... eu não entendo ... - disse aflito.

- É claro que você não entende - gritou Kiki - a sua miséria não é o seu Karma, porque nem sequer você tem um, já que não tem uma alma.

- Você está me assustando ... O que você e Mu conversaram?

- Mas também não será o meu karma - disse Kiki abafando um soluço, e nessa hora ele apontou para o fundo do aposento atrás de Shaka.

Quando Shaka se virou para olhar eis que viu Mu ali; o rosto lívido e lavado por lágrimas, um olho inchado e um hematoma arroxeado na lateral.

- Esse Karma é dele, do seu criador - disse Kiki agora olhando para Mu - que com certeza divulgação um preço alto por tamanho pecado ... Cobre dele uma explicação.

Sem mais explicações o cavaleiro de Áries desapareceu ante os olhos agonizantes de Mu, que agora olhava para o rosto atormentando de Shaka.

- O que acabou de acontecer aqui, Mu? - ele perguntou aflito.

Mu olhou ao redor e vendo cadeiras e um punhado de goji berrys espalhadas pelo chão perguntados:

- Você está bem? Ele machucou você?

Mas Shaka estava irredutível.

- Até diria que aquele homem está fraco de seus juízes pelo tanto de absurdos que me disse, mas ... eu conheço você muito bem para saber que saiu completamente do seu eixo quando olhou para o rosto dele, e agora ... agora me olha como da mesma forma, ou pior, como se eu fosse uma assombração!

Mu deu um passo em direção a ele e tencionou abraça-lo, mas Shaka recuou lhe alinhar o indicador em riste.

- Não! Tresloucado ou não, a visita deste homem me deixou claro que você esconde algo de mim e eu não aceito nada além da verdade!

Mu se deteve onde estava e fez uma afirmação com a cabeça.

No fundo ele sempre soube que esse dia chegaria e por mais que o incluído adiado, no fundo ele sente-se grato por tudo o que havia vivido ao lado dele até aquele momento.

- Eu prometi que não o deixaria sem respostas, Luz da minha vida - disse angustiado - mas antes eu te peço, vamos fazer isso com calma. É uma conversa longa e eu ... eu estou tão cansado ... Por favor, ao menos me deixe abraça-lo ... por favor ...

Shaka lançou um olhar desconfiado para ele, e sua voz desencadeia ou vacilante.

- Você está me assustando, Mu.

Uma lágrima desceu pela lateral do rosto do lemuriano.

- Com toda certeza desse mundo você não deve estar mais assustado do que eu - disse ele, depois abriu os braços e ficou esperando que ele viesse.

Shaka proposta por um momento; sua respiração estava acelerada, o coração parecia-lhe que ia sair pela boca, sentir ou pulsar frenético dele em seu exame e ouvido tamanha sua tensão e apreensão. Ele tinha urgência em saber o que de tão terrível Mu escondia de si para deixa-lo alterado jeito, mas a verdade era que não podia negar-lhe àquele pedido.

Com passos lentos foi até ele e deixou-se ser abraçado, e por mais desconfiado e tenso que não podia negar o conforto e o amor que sempre encontrava naqueles braços, por isso bastou um momento para que ele também apertasse Mu contra seu peito e desejasse que aquele instante fosse eterno.

Mas ele não era.

E foi pensando exatamente na efemeridade daquele instante, e que, talvez, fosse a última vez que tinha o amor de sua vida em seus braços que Mu o apertou com força e com lágrimas nos olhos esvaziou a mente para poder guardar para sempre na memória aquele momento.

De olhos fechados Mu encostou o nariz nos cabelos dele e inalou profundamente ao perfume dos fios dourados; deslizou as mãos pelas costas esguias, na cintura delgada; pulso de coração dele bater forte colado ao seu.

- Antes de qualquer coisa que eu venha a dizer, Shaka, quero que saiba que eu amo você.

Mu sussurrou no ouvido dele, depois afastou-se e segurou em seu rosto com ambas as mãos, olhando em seus olhos azuis.

- Eu amo muito - repetiu e em seguida emendou: - Você é a razão da minha existência. É o sol que ilumina e que aquece os meus dias trazendo vida ao meu coração, e nada nesse mundo vai mudar isso jamais, nem mesmo os meus erros, porque tudo o que eu fiz por amor ... Talvez tenha sido esse o meu maior erro, amar você mais do que a mim mesmo.

Shaka estava inquieto.

- Mas eu também o amo mais do que a mim mesmo, Mu - disse ele cobrindo as mãos do marido com as suas - caso contrário não teria abandonado os meus votos para me casar com você, teria continuado naquele mosteiro onde nos conhecemos, me mantido casto e buscando o caminho da Iluminação.

Mu engoliu em seco. Era estranho como em horas toda uma vida podia ser mudada. Ouvi-lo dizer aquilo de repente lhe causou um pesar e um incômodo tão grandes que nunca tinha experimentado antes.

- Não é sobre isso, Luz da minha vida, é que ...

- Já sei, foi aquele homem, não foi? - interrompeu Shaka desassossegado - Ele enfiou caraminholas na sua cabeça, não foi? Eu sabia!

- Shaka ...

- Na certa ele ficou indignado quando soube que você é gay, já que nos exércitos existe esse preconceito, né. E pior! Que se casou com um monge budista ... por isso ele me chamou de aberração! Claro! Deve achar que sou um depravado, um tarado que desrespeitou a doutrina e ainda levou você para o mal caminho.

Mu lançamentos um olhar angustiado para Shaka.

- Meu amor, não é nada disso.

- O que é então, Mu? Fale de uma vez.

- Eu ... eu não sei por onde começar ...

- Talvez pelo começo? - Shaka apontou impaciente.

- Essa história tem ... muitos começos ...

Shaka respirou fundo.

- Certo, eu vou ajuda-lo então. Comece me dizendo por que aquele homem sabia o meu nome e me confundiu com outro, que aparentemente tinha o mesmo nome.

Mu olhou para ele, depois para o chão, então só baseado em um modo de começar aquela conversa.

Sem aviso Mu teleportou a ambos para o quarto que dividiam naquela torre, no último andar; ali ele deixou Shaka parado no centro do cômodo enquanto caminhou até a estante de livros e dela retirou um dos volumes.

- Porque Kiki conheceu você - disse Mu caminhando de volta para ele.

Shaka franziu o cenho, confuso.

- Como ... me conheceu?

- Não exatamente você, mas ... outro ... uma versão mais antiga, que nasceu, nasceu, viveu e morreu como o Cavaleiro de Virgem. Um homem que também serviu ao exército secreto que eu servi.

A Respiração de Shaka ficou ainda mais pesada e seus olhos mal piscavam. Ele tentava encontrar algum sentido nas palavras de Mu, mas era como achar possível tocar uma lua, capturar as estrelas ou enxergar o vento.

- E esse ... esse tal cavaleiro de Virgem pelo jeito era muito parecido comigo e ele se confundiu, é isso? Por isso ele disse que eu não deveria estar vivo? - foi o mais próximo que ele conseguiu de alguma lógica.

Mu olhou para ele com pesar e medo, mas tentou disfarçar para não assusta-lo mais do que já o assustando.

- Não - disse aflito e penalizado - você não é parecido com ele ... você é idêntico a ele ... desde o último fio de cabelo até a unha do pé.

- Eu sou a reencarnação desse homem?

Nessa hora Mu voltou a chorar copiosamente, então abriu o livro e do meio das páginas retirou a trança feita com os cabelos do verdadeiro Shaka, dos quais retirou o DNA para clona-lo.

- Não, você não é a reencarnação de Shaka de Virgem, Luz da minha vida - disse ele entregando a trança para o marido, que a apanhou com recebio e as mãos trêmulas. - Você é o resultado de anos do meu trabalho e dedicação plena ... Com a tecnologia e o conhecimento do meu povo, eu consegui trazer Shaka de volta à vida!

Shaka olhou para ele e o desespero gritava em seus olhos.

- De que merda você está falando, Mu de Jamiel? Eu nunca morri!

- Sim, você morreu ... há mais de vinte anos atrás.

- NÃO! PARE DE DIZER ISSO! - gritou ele, sua fisionomia estava completamente transtornada. Então ele esticou o braço e segurando a longa trança de cabelos loiros na altura do rosto de Mu perguntou: - Esse cabelo ... esse cabelo é dele? Por que você tem isso?

- Sim ... Ele mesmo os cortou e os deu para mim antes de entrar em combate contra três dos nossos companheiros. Ele sabia que precisaria morrer nessa batalha e quis deixar uma parte dele comigo ... Então, o que ele oferece que apenas me serviria como uma doce lembrança, na verdade me possibilitou recria-lo e trazê-lo de volta, digo, trazer VOCÊ de volta, Shaka, para mim.

A cabeça de Shaka estava em religião. Seus olhos brilhantes e esbugalhados tinham uma camada fina de lágrimas. Seus lábios pálidos e entreabertos tremiam assuntoamente. Da garganta apertada um sussurro escapou quase inaudível:

- Isso é ... impossível ... isso é ...

- Isso é engenharia genética - disse Mu enxugando como lágrimas enquanto olhava para ele com verdadeiro desespero.

Shaka se retraiu balançando a cabeça em negativa; deixou cair a trança de cabelos loiros no chão e então levou ambas as mãos ao peito apertando forte o tecido grosso da túnica budista.

- Não - sussurrou estarrecido.

- Do continente perdido de Mu.

- Não ...

- De uma sociedade altamente tecnológica e avançada que transformar em realidade até o mais improvável dos delírios.

Shaka conhecia a história dos lemurianos. Mu lhe contara em íntimos detalhes. O que ele não conhecia era aquela faceta nefasta do homem que estava à sua frente.

Daquele ponto em diante, e enfrentando o olhar catatônico de Shaka que em choque não remediar fazer mais nada além de ouvir e lutar para manter-se de pé sobre as pernas amolecidas e os joelhos trêmulos, Mu começou a narrar detalhadamente toda sua história, e desta vez sem esconder-lhe nada.

Foi então que Shaka ficou sabendo a verdade sobre o exército grego secreto, que na verdade era uma Ordem mística, com tatuagens sagradas feitas da junção de metais raros e que possuíam vida própria, com homens e mulheres que detinham poderes sobre humanos, com deuses de diversos panteões. Toda uma vida na qual ele, Mu, dividira os piores e os melhores momentos ao lado do homem que para seu melhor amigo e também seu amante, o companheiro inseparável, o grande amor da sua vida, e aquele que possibilitou sua existência.

Mu lhe contou em detalhes como era sua relação com o cavaleiro de Virgem; um romance que apesar de discreto, já que como guerreiros santos perseguir priorizar suas missões e deveres, tinha a força avassaladora de mil tormentas; não podia ser evitado e não podia ser contido, mas que infelizmente tinha um destino traçado e estava fadado a ter um fim.

Fim este que veio com a morte de Shaka em sacrifício.

E é que Mu lhe confessou então a verdade terrível.

Não lhe bastaram os anos de treinamento árduo e como lições exaustivas de moral e ética, o aproveitamento das artes dominadas por seu povo, como meditações que fez amadurecer e enxergar com os olhos da justiça tanto a si mesmo quanto ao mundo ao redor, não lhe bastou o respeito cego que tinha pela vida e pela morte, tampouco a vocação nata que fez de si um dos cavaleiros mais poderoso de sua geração, porque nada, absolutamente nada foi capaz de forçar-lo funcionar a dor viver de sem Shaka de Virgem.

Mesmo após anos essa ainda apertava seu peito e lhe faltar o ar, turvava sua visão, tirava seu sono, sua concentração, sua paz, sua vontade de viver.

Então um dia, exausto de todo aquele sofrimento, ele tomou coragem para executar um pensamento que tinha passado por sua cabeça anos antes, enquanto estudava os pergaminhos antigos de seu povo e desvendava seus segredos; um pensamento que ele enxotou para longe na mesma hora, mas que ficou ali, plantando em sua mente feito uma sementinha em hibernação.

Quando ele deu conta a semente não apenas germinara, mas suas raízes tomavam conta de cada segundo de seu pensamento.

Ele podia trazer Shaka de volta à vida. Ele sabia como e possuía o conhecimento e meios para isso.

Seria o fim de sua dor e ninguém saberia, já que vivia isolado em Jamiel a muitos anos, não recebia visitas, não visitas visitas.

Seria apenas ele, Shaka e a vida que lhes foi negada.

Ele não tinha nada a perder.

- Hoje eu vejo o quão leviano eu fui, porque eu estou às vias de perder tudo - disse Mu sufocando um soluço.

Logo ele tomou coragem e confessou como foi o processo, e nessa hora Shaka ficou tão horrorizado e desesperado que caiu de joelhos no chão; seus olhos encharcados olhavam para Mu, em completo terror. A boca aberta dava um grito mudo de socorro.

- Hum ... clone ...

Palavras escaparam furtivas quando Shaka tentou respirar; o ar lhe descia pela garganta dolorida como se fosse feito de pedra.

Penalizado em vê-lo onde estado, Mu tentou aproximar-se, mas num reflexo rápido Shaka se retraiu arrastando-se no chão para afastar-se dele, então Mu se deteve onde estava sem saber o que fazer.

- Mas ... como isso é possível eu ... eu - balbuciava ele levando as mãos à cabeça, parecendo procurar por algo na memória - eu tenho lembranças, eu ... tenho memórias de quando ...

- São falsas.

Shaka estremeceu ainda mais. Seus olhos azuis pareciam duas chamas vibrantes de fogo fátuo.

- O que?

Mu não queria ter de dizer, mas era preciso. Não podia esconder mais nada dele.

- São implantes ... Nenhuma dessas memórias são reais - disse ele chorando muito - Eu criei uma Inteligência Artificial e ela me proporcionou uma memória escanear que tenho da vida que levei junto do cavaleiro de Virgem, as melhores delas ... depois eu as modifiquei e as implantei no seu cérebro junto de outras memórias que criei para se adequarem à realidade que eu iria apresentar a você ... Eu fiz isso conforme seu cérebro ia se desenvolvendo e você ia crescendo dentro de um útero artificial.

A parte mais difícil para Mu, sem sombra de dúvidas, foi explicar para ele que muitos outros clones enfrentam dele e que foram sacrificados até que conseguisse recriar Shaka de Virgem com perfeição, replicando não apenas sua aparência física, mas sua personalidade única, seus gostos peculiares, maneirismos, desejos e principalmente o amor que ele sente por si.

- Assim sendo, quando você acordou, todo um passado e uma história já existiam nas suas lembranças - disse Mu mortificado - você era Shaka, um monge budista muito sábio e dedicado, que nasceu na Índia e viveu em um mosteiro até o dia que nos conhecemos e nos apaixonamos, então eu te trouxe para Jamiel para viver comigo ... nos casamos ... e desde então você é tudo para mim.

Nesse ponto, Shaka tinha uma testa colada no carpete, os dedos agarrados aos cabelos próprios e seu corpo sacolejava conforme gritava e chorava em completo desespero.

- Isso não pode estar acontecendo ... não pode ... ele tinha razão, ou tal Kiki ... ele estava certo em mim chamar de aberração, ele estava certo!

Mu correu até ele e jogou-se de joelhos ao seu lado.

- Não! Kiki estava errado, Shaka. Você não é uma aberração - disse enérgico o tocando nos ombros.

Shaka na mesma hora o repeliu com um empurrão.

- NÃO TOQUE EM MIM! - gritou ele, depois se apanhar rapidamente.

Muita-se também.

- Eu sei que essa história deixou você impressionado e com muita raiva, mas Shaka, uma maneira como voltou para mim não muda em nada quem você é.

Os olhos de Shaka estreitaram-se e finalmente pareceram capturar o foco, dardejando os de Mu à queima roupa.

- Que tipo de lunático você é? - disse ele agora com o sangue de volta à suas faces que de tão vermelhas deixavam como lágrimas que escorriam por elas em evidência. - Como, voltei para você? Aliás, quem de fato é você, Mu de Jamiel, porque o homem que está aqui diante de mim dizendo esses ... esses disparates hediondos não é o mesmo homem com quem eu me deito todas as noites para dividir o leito!

Mu olhava para ele, em pânico.

- Sim, eu sou o mesmo homem, Shaka ... Eu posso ter errado ao mover céus e terras para ter você de volta, mas ...

- Ter a mim de volta? - Shaka o interrompeu - E a quem você acha que está se referindo? Ao seu adorado cavaleiro? Não, Mu, eu sou apenas a merda do clone dele!

- Pelos deuses, Luz da minha vida ...

- NÃO ME CHAME ASSIM!

Mu engoliu em seco.

- Tudo bem, Shaka, só não fale assim, porque não é desse jeito.

- Ah, não? A sua loucura por acaso cegou o seu raciocínio? Eu não sou o Shaka, eu ... eu não sou ninguém! - esbravejou ele, perdido até nas palavras próprias.

Com vertigens Shaka levou as mãos ao rosto e apertou com força os olhos molhados, então a realidade emergente finalmente atingi-lo como uma martelada certeira dada no meio dos olhos.

Se suas memórias eram implantadas, então nada do que viveu antes de conhecer Mu era real; nenhum sentimento era verdadeiro, e nenhuma emoção lhe pertencia. Fora programado para sentir, desejar, aspirar e amar a tudo que o seu eu original outrora pretendeu de livre e espontâneo arbítrio, um direito que lhe fora negado ainda antes do nascimento.

Nascimento ...

Este na verdade sempre lhe fora uma incógnita. Ele não tinha lembranças de sua infância; tudo o que sabia era a história contada por um dos monges no mosteiro no qual crescera. Foi produzido lá ainda bebê e criado por eles.

Agora sabia que não havia mesmo como ter tais lembranças já que Mu não convivera com o cavaleiro de Virgem na infância. Ao menos ele teve uma decência, se é que se podia chamar assim, de não ter criado memórias artificiais com uma figura de uma criança.

E por falar nisso ...

- Você disse que demorou anos até que conseguisse ter sucesso na sua ... experiência - disse Shaka construir um ele um olhar duro, misto de incredulidade com desprezo, então perguntou sem rodeios: - Quantos anos você tem e ... quantos anos eu ... quantos anos da minha memória são reais? Quantos anos eu tenho de fato?

Mu apertou uma mão contra a outra, muito tenso.

- A minha raça ... ela é longeva ... quer dizer que eu vivo muito mais que os humanos e envelheço mais lentamente.

- Não foi isso que eu perguntei.

- Shaka, a minha idade não tem empresa, mas se deseja tanto saber eu posso afirmar que já vivi bem mais de que meio século ... sendo esses os últimos cinco anos compartilhados com você.

Shaka quase perdeu a força das pernas novamente.

- Então eu tenho ... só cinco anos? - Ele sussurrou em choque, e como se precisasse confirmar aquela insanidade vendo para crer, ergueu as mãos até a altura do rosto e conferiu os dedos, como unhas, a aliança de casamento.

- Cinco anos desde que o retirei do útero artificial ... porque eu acelerei o seu crescimento e desenvolvi o seu corpo e intelecto ao equivalente a um homem de dezoito anos. - Mu confessou. - Então nessa contagem ... você está com vinte e três.

Shaka enfureceu-se. Uma veia saltou de sua testa e outras duas de seu pescoço, uma de cada lado.

- Isso é ... abominável, isso é monstruoso, imperdoável! - Ele gritou.

Mu olhava para ele paralisado de medo.

- Como você pôde ser tão desumano comigo? - Esbravejou dando batidas fortes no peito com os punhos fechados. - Como posso fazer isso com ele? E ainda diz que o amava! Você profanou a ele ao mesmo tempo que me condenou a viver uma vida de mentira!

- Não! Pelos deuses, não! Tudo que nós vivemos aqui em Jamiel, no Himalaia, é tudo real, Shaka!

- Não insulte a minha inteligência, Mu! Não me faça odiá-lo ainda mais!

Em desespero, Mu atirou-se aos pés deles agarrando-se à barra de sua túnica.

- Não, pelos deuses, me ouça, por favor, me ouça! Nesses cinco anos nós compartilhamos uma vida, nós fomos felizes, Shaka, e tudo isso foi real, é real! Eu dei a você como minhas memórias, mas também criamos memórias juntos só nossas, você e eu.

- E você acha que isso te exime da culpa de ter feito de mim um maldito rato de laboratório? - Shaka gritou a plenos pulmões, livrando-se dele com outro empurrão. - Um boneco que você criou para satisfazer o seu corpo e o seu ego e no qual você incutiu o desejo de viver aqui para sempre, nessa porcaria de torre, para que assim os olhos do mundo não me vejam e ninguém descubra o seu crime?

- Não fale assim, por favor ...

- Por Buda! Cinco anos! ... Uma criança, um bebê no corpo vazio de um adulto com memórias artificiais ... a casca de um homem morto! Uma aberração da Natureza!

- Não, Shaka, não! Eu ... eu estudei muito antes de pôr tudo em prática, analisei todos os riscos e nunca fiz mais do que uma tentativa por vez para assegurar justamente que a sua alma reencarnasse inteira nesse corpo, e não fragmentada.

Shaka sensação um baque violento ao ouvir.

- Você o quê?

- Eu asseguro que a sua alma está segura em todas as, é por isso que eu sei e posso afirmar que você é Shaka! O meu Shaka! Você é um ser humano e não um invólucro vazio e sem vontade própria.

- CALE A BOCA! CHEGA! CALA ESSA BOCA!

Num acesso de fúria Shaka avançou sobre ele e agarrou a gola de sua camisa.

Muito congelou ao olhar nos olhos dele.

- Você tem alguma noção do que está dizendo? O que te faz pensar que tem qualquer poder sobre a alma de um homem, Mu de Jamiel? Você realmente acha que é deus? Pois eu te garanto que você não é e jamais será. Sobretudo depois de ter feito o que fez, de ter condenado a alma do homem que você tanto diz amar.

- Eu não ... não o condenei eu ... eu apenas queria que ele, você, vivesse ...

- Ah, mas essa decisão não cabe a você e sim a uma força muito maior ... E digamos que você tinha qualquer poder sobre a alma de Shaka de Virgem e que ela estava de fato habitando esse corpo artificial. Quantas vezes você a invocou? Incontáveis vezes, não foi? Ou seja, a alma de Shaka foi forçada a reencarnar incontáveis vezes em massas agonizantes de carne deformada, para em seguida desencarnar de novo, assassinada por você, e depois de repetir o processo, e repetir mais uma vez, e novamente, e de novo ... até que você enfim conseguisse uma forma perfeita. Um ciclo medonho e decadente de reencarnações ... para uma alma que desejava alcançar a Iluminação.

Muito menos ao menos se mexer.

Seu rosto naquele momento parecia transformado em pedra.

A perspectiva apresentada por Shaka lhe soara tão estarrecedora que se a morte tivesse um gosto era esse que estava agora em sua boca.

O terror absoluto devorava sua alma, mente e coração.

- É, pela sua cara você não oferece nisso - disse Shaka o soltando e se pondo de pé enxugou o rosto com costas das mãos - Que seja essa a sua penitência. Que os seus dias daqui para frente se resumam a pensar no que você fez comigo. Se é possível forçar uma alma que desejava iluminar-se um reencarnar. E a sua conclusão para positiva, então saiba que me matou vezes vezes nessa sua brincadeira de deus ... E então, o que você acha que eu sou? Um corpo sem alma? Uma aberração nascida de um ventre de vidro? Ou eu sou o Shaka que voltou com uma alma dilacerada?

Mu recomeçou a chorar de desespero.

- Eu ... nunca quis te fazer nenhum mal, Shaka ... eu ... só queria ... só queria dar-nos uma chance ...

- Você me desviou matado, igual fez com os monstros que criou antes de mim - disse Shaka quase engasgando-se com o choro enquanto recuava andando de costas até a janela da torre.

Apreensivo Mu se prepara rapidamente.

- O que ... o que está fazendo?

- Com certeza a morte teria sido para mim menos dolorida do que a dor que sinto agora ... a dor de saber que o amor que sinto por você nunca foi real, nunca foi meu ... que não passa de uma memória que nunca foi minha ...

Decidido ele tomou impulso e se sentou na janela.

O vento forte do lado de fora bagunçou seus cabelos e chacoalhou uma túnica.

- SHAKA NÃO FAÇA ISSO!

- Se não me teletransportar para fora eu salto, então estar livre para começar a fabricação do seu próximo brinquedinho - ameaçou.

- Por favor, me perdoe, por favor ... não tem que ser assim ... por favor vamos conversar.

Shaka jogou uma das pernas para o lado de fora da janela, e nessa hora o coração de Mu quase parou.

- ESTÁ BEM - gritou ele - mas onde você vai? Não pode sair assim, vai congelar lá fora, pelos deuses, Shaka.

- Por que você se importa? Você tem uma maldita fábrica de Shakas, Mu de Jamiel - disse chorando copiosamente, porém em tom agressivo, então apontou para a cama e emendou: - Se não quiser que eu me congele jogue-me aquele casaco e as botas ... será tudo que levarei daqui ... Não quero vê-lo nunca mais.

Ele partiu.

Tão rápido e intrépido quanto o vento frio que chacoalhava como bandeiras coloridas do lado de fora da torre.

E pela segunda vez em sua vida Mu sabia que aquela seria a última vez que o veria.

Ele vagou pela montanha por um dia e quase uma noite inteira, então quando suas pernas perderam de vez a força e sua vontade finalmente o abandonou ele caiu próximo a uma rocha e lá ficou; seus olhos azuis quase fechados divisavam vagos o firmamento.

Numa tentativa desesperada de calar a voz de seus pensamentos agonizantes ele contava as estrelas.

Quando acordou, sem noção alguma de quanto o tempo tinha passado dormindo, ele estava em um quarto simples encontrada em uma cama estreita de lençol e linho brancos e cobertores de lã de ovelha. Estava sem o casaco e como botas.

Ele fora socorrido na montanha por aldeões e trazido para o vilarejo próximo onde deram abrigo. Quando soube disso, a primeira coisa que formou foi se essas pessoas salvo sua vida se soubessem que era um homem feito em laboratório. Um clone.

Ele ficou ali apenas uma noite após ser resgatado e antes de partir se desfez também da túnica budista e do anel de ouro em seu dedo, que se preocupou para conseguir algum dinheiro.

Deram a ele uma muda de roupas. Antes de vesti-las ele passou para uma chave na porta e ficou completamente nu de frente para um espelho velho com os cantos enferrujados. Com um recebimento que agora era completamente novo, ele começou a olhar para seu corpo no reflexo e conforme olhava ia tateando a pele, perscrutando a carne por baixo desta com os dedos, sentindo os nervos, como cartilagens, os ossos ... Tudo era tão normal.

Quem o visse assim jamais poderia dizer que ele não nasceu de uma mulher, que não tinha uma mãe e um pai.

Mas como marcas indeléveis de sua origem estavam lá, agregado em sua pele feito tatuagens em alto relevo. Dois círculos perfeitos, do tamanho de um botão de camisa, em ambos os pulsos; outros dois círculos semelhantes nas virilhas e um maior na barriga, na altura do que deveria ser seu umbigo. Este tinha certa profundidade, porque era por ali que ele recebia nutrientes para seu desenvolvimento dentro do útero artificial. Ao longo de sua coluna pintada outros sinais menores, e em sua testa, exatamente no local onde costumava desenhar o bind vermelho havia outra cicatriz em formato circular.

Ele tinha uma lembrança vaga de um acidente ocorrido no mosteiro que o deixou dias em coma internado no hospital; daí vinham como cicatriz.

Mas agora ele sabia que nunca existiu um mosteiro, e também nunca sofrera acidente algum.

A cicatriz em sua testa era uma via por onde como memórias artificiais eram implantadas em seu cérebro.

Literalmente a fechadura que Mu construíra em sua mente para acessa-la, e para a qual ele tinha uma chave.

Quando está desativado no Tibete, mesmo dia, ele estava devastado.

Sem saber quem ou o quê ele era, não reconhecendo sua identidade própria, inseguro de tudo o que um dia já acreditou como certo, e amedrontado com um mundo que não conhecia, ele vagou sem destino, e de início, sem propósito. Até que após um tempo amargurando a dor de ser e estar sozinho no mundo ele conseguiu coletar para iniciar uma busca.

Ele agora buscava por si mesmo.

Por anos ele caminhou sem destino certo, percorreu estradas, desbravou trilhas, conheceu cidades e países diferentes. Estudou, trabalho e também viveu da boa vontade de alguns humanos.

Incontáveis foram as vezes em que pulso-se como uma criança descobrindo um mundo novo, e cada nova descoberta ele se alegrava em estar conseguido construir para si memórias próprias, ainda que como antigas é que lhe ocupavam a mente na maior parte do tempo.

Uma em especial causava nele profundo pesar.

Estava em um campo florido, era de manhã. O homem que o criara caminhava de mãos dadas consigo e lhe sorria com tamanha doçura que sente seu coração em festa. Estava feliz como nunca. Olhando nos olhos verdes dele lhe dizia que aquela aquela aquela aquela não era à primeira vez que suas almas se encontravam, mas apenas mais uma de muitas vezes, e que definitivamente também não seria a última. Seu espírito regozijava e ele então lhe fez uma promessa de amá-lo acima da vida e da morte, e sempre retornar para os braços dele.

Aquela memória não era sua.

Era do homem que deu origem ao seu corpo artificial. Ele fizera a promessa.

O sorriso doce de seu criador era direcionado a esse homem, não a si.

Ele estava ali apenas como pária, porque se Shaka de Virgem era a perfeição, ele então era o erro.

Então, chegada uma hora, ele precisa a extrema necessidade de conhecer o homem que deu origem à sua existência.

Uma busca de anos o levou à Grécia, e com muito custo ele conseguiu fazer com que sua presença na capital grega chegasse até os ouvidos de Kiki, que depois de muita relutância aceitou seu convite para um café. Tudo o que ele queria eram algumas palavras e uma fotografia.

O cavaleiro de Áries não conseguiu negar-lhe um pedido tão simples, mas não demorou-se mais do que meia hora naquele encontro. Após pedir-lhe que nunca mais voltasse a procura-lo lhe entregou a fotografia e partiu.

Quando ele olhou para o homem na foto alguma esperança se acendeu dentro de si, mas uma sensação de miséria companhia a esta.

A semelhança física era inegável, mas eles eram completamente diferentes em suas fisionomias. Shaka de Virgem, embora muito jovem, tinha um semblante altivo, e sua imponência descomunal conferia a ele muitos mais anos do que realmente tinha. Sua postura era elegante e rígida; parecia até uma estatua esculpida pelas mãos hábeis do mais talentoso dos artistas. Detalhe este que lhe deixou intrigado, pois que como memórias implantadas em seu cérebro lhe mostravam o cavaleiro sempre sorridente e descontraído.

Talvez existissem dois Shakas, mas o dos sorrisos somente seu criador conhecia. O outro era triste e gelado. Inalcançável. Divino.

E ele não era nem um nem o outro.

Ele definitivamente não era aquele homem.

Ele podia carregar seu DNA, seus genes e suas memórias, mas não sentir-se como ele.

E como é que go-se-se?

Ele pagou a conta do café, deixou a fotografia sobre a mesa e foi embora sem olhar para trás.

Jamiel - Data desconhecida

Os ventos gelados que sopravam por entre as montanhas balançaram os longos cabelos já um pouco grisalhos do homem que com um pesado machado nas mãos cortava metodicamente uma pilha de lenha.

O outono sempre trazia correntes de ar frio e noites gélidas para aquele pagode sagrado.

Após tantos anos vivendo na solidão de Jamiel, Mu sabia que precisaria de uma boa quantidade de lenha para enfrentar cada uma daquelas noites.

Seus gestos mecânicos eram guiados pelo hábito de uma rotina por muitos anos inabalável. As ações necessárias para as necessidades, já que a vida ele negligenciava desde um muito tempo, apenas existindo no mundo, em isolamento completo, e tendo somente como companhia as sombras das lembranças de tempos felizes.

A solidão de Mu era profunda como um poço que não se obtém no piso, devastadora como a mais terrível das pragas, e bem diferente que ele experimentara quando deixou o Santuário para passar sua patente a Kiki. Esta de agora ele não atribui a ninguém nem a nada, além de si mesmo.

Depois do dia em que Shaka dera as costas para ele e descera a trilha da montanha nenhuma outra alma viva subiu até Jamiel.

Os primeiros anos foram os mais terríveis.

Enlouquecido pela dor e a saudade Mu chegou a pensar em fazer justamente aquilo que o clonar jogara na cara; repetir o processo, criar outro, então assim ele teria sua dor aplacada e recuperaria a paz perdida. A ideia logo transformou-se em terror quando ele resultante nas novas consequências de repetir tal erro irreparável, pois que poderia transformar Shaka não apenas em um clone, mas em uma existência duplicada e simultânea.

Abominável!

Desesperado ele foi até o domo dentro da montanha e destruiu de uma vez por todas o laboratório que levara anos para construir e aprimorar; deve impedir a si mesmo de profanar ainda mais a ordem natural da vida e também o amor que sentia por aquele homem.

Os anos seguintes foram estranhos.

Muitas vezes, muito foi até a ponte que dava acesso à Jamiel e lá ficava horas, parado, olhando para o vazio na esperança de vê-lo preenchido pela figura do homem de longos cabelos loiros, adornado nos seus mantos cor de abóbora e com um sorriso no rosto subindo a encosta. Noutras ele se pegava parado por horas na borda do abismo flertando com o vazio. Ele desejava frequentemente que uma mão invisível viesse do fundo e o puxasse para dentro, ou então que algum deus misericordioso lhe tirasse a covardia para ser capaz de pular.

Quando o empuxo fantasma viesse ele não faria nada; não ativaria nenhum de seus dons. Apenas se deixaria despencar lá de cima.

As mãos fantasmas nunca hospedados. E nenhum deus lhe teve misericórdia.

O presente agora era monótono e apático.

Mu acordava, comia, respirava e esperava que mais um dia passasse e o levasse para mais perto do último.

Ele quase não se recordava do som da própria voz.

Quando afirmou que a sua vida era Shaka ele não mentiu. Por duas vezes Shaka foi embora e levou com ele sua vontade de viver.

Talvez fosse justo. A Justiça divina. Uma vida pela outra, a sua pela dele.

Como clonar lhe dissera: "Que seja essa a sua penitência."

Não havia um só dia que ele não pensasse nessas palavras, tirando de si mesmo até o direito de buscar a própria morte para redimir-se pelo mal que causou a ele.

A lenha a ser cortada acabou; os ventos fortes faziam seus cabelos chicotearem ainda mais forçando-o a prendem-los em si mesmos com um nó desajeitado; então com as mãos frias e calejadas ele começou a empilhar a madeira nos braços, já que há muito abandonara seus dons raciais em favor do trabalho manual que ao menos lhe ocupava o tempo e acalmava os pensamentos.

E foi justamente nessa hora, quando apertava contra o peito uma pilha organizada de madeira e iniciava um lento caminhar de volta à torre que ele avistou alguém que se aproximava cruzando uma ponte estreita de rocha em direção a Jamiel.

A princípio estranhou. Não recebia visitas a alguns anos. Na verdade, seu único contato com o mundo exterior vinha das curtas viagens que fazer ao vilarejo no pé da montanha quando necessária reabastecer a dispensa com provisões. Além disso, o ar naquela altitude era rarefeito demais para uma pessoa comum comum.

Mas quem vinha ali estava longe de ser uma pessoa comum.

Logo a silhueta longilínea desenhou-se mais nítida aos olhos de Mu, mesmo assim ele ainda não era capaz de prever quem se aproximava; apenas podia ver que era um homem, de altura bem semelhante à sua e que parecia não ter nenhuma pressão a despeito da convicção com uma vinha em sua direção. Estava todo vestido de preto. Usava um grosso casaco de couro, luvas e botas pesadas para prática de montanhismo, tinha uma mochila de alpinista nas costas e um lenço de lã lhe protegia a cabeça. Um óculos de alpinismo que cobria boa parte do rosto dele o impediu de ver os olhos, mas conseguiu ver bem seus lábios; estes eram emoldurados por uma camada não muito espessa de barba num tom de loiro dourado que à luz do dia reluzia como ouro.

Naquele ponto, Mu não saberia dizer o motivo, mas sentir o coração palpitar e os pés enraizados no chão de tal forma que não era incapaz de mover-se.

Talvez fosse o entusiasmo de receber uma visita depois de tantos anos, ou talvez ...

Quando o homem chegou a poucos palmos de distância ele parou.

Exatamente como Mu, ele permaneceu completamente imóvel; não fosse pela respiração ofegante e acelerada que condensava ou ar que saia de sua boa entreaberta dizia-se que estava até em transe.

Então quando Mu dada em pergunta quem ele era e o que fazer ali - talvez fosse um alpinista perdido à procura de abrigo - eis que ele levou as mãos ao lenço de lã e aos óculos espelhados e os removeu ao mesmo tempo, revelando-se.

O silêncio entre eles foi quebrado pelo som das lenhas caindo dos braços de Mu e rolando pelo chão.

- Shaka!

A voz quase nem saíra. Mu sentido seu corpo todo mole e estremecido.

Diante dele estava Shaka. Não o cavaleiro de Virgem, não o jovem marido dedicado que partira há muitos anos, mas uma versão de ambos que nunca chegou a conhecer. Um homem maduro, de semblante firme e olhar determinado, que embora apresentasse em seu rosto algumas marcas da passagem do tempo ainda era dono de uma beleza desconcertante, de tirar o fôlego. Os cabelos estavam curtos e desalinhados pelo vento.

- Os anos não foram bons para você, Mu.

Ele falou enquanto corria os olhos azuis pelo rosto em choque do lemuriano. Haviam rugas em torno dos olhos verdes fundos e seu cabelo lavanda ganhara um tom um pouco mais acinzentado. Marcas físicas que entregavam o quão difíceis foram aqueles anos sozinho ali, e tendo que lidar com tudo o que fizera.

Porém marca do tempo nenhuma seria capaz de arrancar de Mu a presença forte e a beleza nata.

- Para você os anos foram primorosos, Shaka - disse Mu ainda sem acreditar que estava diante dele.

- O meu nome não é mais esse - disse ele.

Muito foi pego de surpresa e até chegou a abrir a boca para verbaliza-la, mas reconsiderou quando o viu levar a mão para dentro do casaco de couro e do bolso retirar uma carteira de identidade, a qual estendeu para ele.

- Não foi fácil conseguir um registro de nascimento quando não se tem pai e mãe reais e o lugar que você nasceu é um laboratório de alta tecnologia dentro de uma montanha do Himalaia - disse ele - mas, felizmente, durante as minhas voltas por aí eu conheci todo tipo de pessoa ... Por 200 euros eu comprei pai, mãe e uma certidão de nascimento num hospital do Tibete. Sou tibetano.

- Sol! - Mu exclamou admirado ao ler o nome no documento, depois de olhar o olhar para ele e disse: - Não podia ter escolhido nome mais apropriado.

De fato, ele sempre para sua luz, sua fonte de vida e de calor. E agora mesmo ali, diante de si, ele era com o sol que regressara após noites infindas de escuridão.

- Você ... - Mu fez uma pausa, no que acertou ponderar no que ia questionar a ele, mas no fim deixou-se vencer pela ansiedade - Você voltou?

Sun não desmanchou a fisionomia séria que cobria seu rosto.

- Pergunta estúpida - disse ele.

E quando Mu achou que seria novamente rejeitado e já começava a de fato se sentir estúpido por aquilo, Sol rompeu a pequena distância entre eles e o surpreendeu com um beijo repleto de saudade. Seu corpo todo amoleceu; seu coração disparou dentro do peito e ao fechar os olhos ele goza a vida explodir dentro de si.

Quantas noites e quantos dias ele sentira a falta avassaladora daqueles colados aos seus. Lábios que apesar de serem os mesmos agora o beijavam com muito mais experiência e personalidade.

Definitivamente, Shaka, ou Sun, não importava o nome que tinha ou sua origem, tinha o melhor beijo do mundo!

Horas mais tarde, já devidamente aquecidos e acomodados na sala de estar instalada no segundo andar da torre, eles agora conversavam em frente à lareira enquanto tomavam chá.

Sun não pôde deixar de reparar que tudo parecia ter parado no tempo, salvo como núcleos dos tapetes e algumas tapeçarias sobre os móveis que agora estavam desbotadas. Também não havia mais verde, nem o cheiro de incenso.

Muito olhar que ele olhava nostálgico e curioso para o lugar quando disse-lhe:

- Você quem decorou toda essa torre quando nos casamos ... me dava algum conforto olhar para as coisas como você as preparadas.

Sun olhou para ele enquanto dava um gole no chá.

- Hm - disse depositando uma xícara no chão ao lado da poltrona onde estava sentado - Muito indiano, não acha? Vamos precisar redecorar.

Mu não soube bem o que responder.

Estava claro que ele, nos anos todos longe de si, adquirira uma personalidade própria, construir uma identidade, mas era difícil ainda desliga-lo Shaka.

- Acho que sim - disse Mu por fim, e ao mesmo tempo amedrontado e ansioso para conhecer aquele novo homem, perguntou: - Como foi?

- Você diz, a minha vida lá fora?

Mu se encolheu em seu acento, então fez um aceno afirmativo com a cabeça.

- Foi ... assunto - disse Sun com os olhos fixos aos dele - e foi ... incrível, mas acima de tudo foi libertador ... Eu me senti como uma criança na praia, descobrindo uma concha aqui e ali, mas consciente de que diante de mim um oceano inteiro se mostra indecifrável.

Mu arregalou os olhos.

- Newton?

Sun sorriu para ele.

- Nem todas as respostas estão com Buda - disse - algumas eu só encontrei na ciência, mais precisamente na física ... Foi ela quem me fez entender que há duas maneiras de viver a vida: a primeira é vivê-la como se os milagres não existissem ...

- A segunda é vivê-la como se tudo fosse um milagre - completou Mu boquiaberto.

- Albert Einstein - Sun seguia sorrindo para ele - Que ser humano pode afirmar que a clonagem não é por si só um milagre? Um milagre do homem. Acontece que a vida é tão preciosa justamente porque cada ser humano é único, e replica-lo implica em tirar-lhe essa característica.

Mu baixou os olhos constrangido.

- Sim, você está certo.

- Quando eu deixei Jamiel, quando eu deixei você, eu não sabia exatamente quem ou o que eu era - Sun continuou, recuperando a atenção imediata de Mu - ea sensação que tenho é que jamais saberei. Mas eu vivi, e vivendo longe de você eu consegui construir a minha identidade ... Eu viajei, conheci lugares e pessoas ... e consegui mais carimbos em meus passaportes do que posso contar. E eu experimentei tudo o que estava ao meu alcance. Só assim consegui separar quem era Shaka de quem eu era ... Por um tempo isso até que funcionou bem, mas então eu me dei conta de que é praticamente impossível não ligar um ao outro, mas é possível não viver à sombra dele, como eu vivia.

Mu o escutava com atenção, esforçando-se ao máximo para acompanhar não apenas suas palavras mas também seu raciocínio.

- Hoje eu posso dizer que tenho minhas próprias memórias, construídas através de experiências reais que vivi, dos amigos que fiz, das pessoas com quem compartilhei a minha cama ... e isso me garante que eu não veja mais as memórias de Shaka, e até mesmo as suas, como fantasmas que assombram a minha mente. Hoje cada uma tem o seu lugar, e eu posso finalmente viver em paz com elas.

Mu estava impressionado com o amadurecimento dele. Sun tornado-se um homem tão experiente em aspectos que ele mesmo, quase um centenário, era completamente ignorante. Só agora, então, entendeu porque ele considerara estúpida sua pergunta.

- Eu não voltei para você, Mu - disse Sun inclinando-se para tomar a mão dele na sua - Eu vim aqui para que me conhecesse, e ... para que possamos começar do zero.

A mão de Mu apertou forte a de Sol, trêmula e gelada.

Os olhos verdes marejaram e quando ele começou a entender as coisas, de repente foi arrebatado por uma emoção tão grande que o fez escorregar da poltrona para ajoelhar-se no chão diante de Sun.

Mu não esperava que ele o perdoasse. Não depois de tudo que fizera a ele. Assim como não esperava que o homem que ele se tornara fosse querer algo com um velho ridículo que se isolava da vida numa torre num dos picos do Himalaia, corroído pela solidão, amargura e culpa.

Sun repetiu o gesto dele e também escorreu até o chão se o pondo de joelhos à sua frente, então tomou a outra mão e agora segurando ambas o fez olhar em seus olhos.

- Que fique claro que não estou te dando o meu perdão, Mu - disse ele com lágrimas nos olhos - já que não cabe a mim o seu julgamento, e por conta do que você fez eu jamais serei capaz de encontrar a resposta para a pergunta que mais me atormenta. Não importa em qual fonte eu beba até mim afogar, se da ciência ou do misticismo, da descodificação e da fé ... eu nunca saberei se o que me mover é uma alma. A alma de Shaka de Virgem, ou a minha própria vontade. Assim como eu nunca saberei se o amor infinito que sinto por você é meu ou ... ou eu apenas o amo porque fui programado para isso.

Nessa hora Mu deu um soluço e entrelaçou seus dedos aos dele.

- A evidência da evidência não evidência da ausência - Mu sussurrou.

- Carl Sagan - disse Shaka sorrindo, então soltou uma de suas mãos e lhe fez uma carícia no rosto, aproveitando para enxugar suas lágrimas - Buda também disse que o verdadeiro amor nasce da compreensão ... Nesses anos que vivi longe de você eu consegui entendre a dor e o vazio que o levaram a cometer a loucura de achar que podia ter o Shaka de volta.

- Sol ...

- Ainda que errado essa foi a saída que você encontrou para preencher o vazio e acabar com o sofrimento ... E essa é a saída que eu encontrei para acabar com o meu ... Mu, eu vivi tudo o que eu quis, mas o tempo todo você estava lá comigo, nos meus pensamentos, na minha saudade, na incapacidade de criar laços com outra pessoa porque é você quem eu quero ... E eu sinto que ainda tenho muito a viver, mas nada fará sentido se você não estiver comigo. Eu amo você, Mu. Eu nunca deixei de amá-lo, mesmo quando tudo o que eu mais queria era esfregar a sua cara numa lixa de aço cheia de estrume e depois joga-lo de um penhasco.

Mu fungou e deu uma risadinha antes de cair no choro.

- Não sabe o alívio que me dá ouvi-lo dizer isso - disse ele atirando-se nos braços de sol, que o apertou contra o peito e deixou-se cair sobre o tapete grosso de pelo de iaque - Eu também te amo, pelos deuses! Eu te amo tanto eu ... eu nunca deixei de te amar nem mesmo por um segundo.

Entusiasmados e eufóricos eles rolavam aos beijos desesperados, trocando saliva e lágrimas.

- Sun não aguentava mais de saudades do Mu - confessou entre gemidos.

- E o Mu estava morrendo aos poucos de saudades do Sol - respondeu o lemuriano afoito - Eu sei que o que eu fiz foi errado ... eu sei que sou culpado ...

- Sim, o Mu é culpado ... o Mu fez uma bagunça na cabeça do Sun - disse ele beijando lhe beijando o pescoço.

- Hm ... mas eu não me arrependo nem por um instante de ter criado você - disse agarrado a ele enquanto afundava o nariz em seus cabelos para matar a saudade de seu cheiro.

Sun segurou com força no queixo dele.

- E eu já disse que nunca vou perdoa-lo por isso - falou, depois desceu os olhos azuis para seus lábios e os mordiscou de leve - e também não nosso vou perdoa-lo se não me levar agora para o leito. Eu quero que me ame como se fosse pela primeira vez, Mu de Jamiel.

- Acredite ... com você todas as vezes são como a primeira. Eu te amo, sol.

Jamiel - Uma manhã qualquer de primavera

- É como você esperava? - Mu perguntou a Sun, com um sorriso doce no rosto.

Sol correu os olhos pelo campo florido tocado pelo sol dourado e intenso.

- É ainda mais bonito - disse ele - com a diferença de que na imagem que tenho na memória eu vestia uma túnica budista e te dizia que aquela era a última vez que iriamos nos encontrar.

Mu aproximou-se dele e segurou em sua mão.

- Você estava certo ... estamos aqui, não estamos? E agora essa lembrança passa a ser real.

- Sim ... E agora é para mim que você sorri - disse Sun.

Mu acariciou o rosto dele, esfregando as pontinhas dos dedos em sua barba rala.

- Se quiser, posso recriar cada memória junto com você.

A culpa ainda manchava o brilho verde dos olhos do lemuriano.

- Não - disse Sun - criaremos juntos nossas próprias memórias vivendo a nossa própria história.

Mu sorriu abertamente e o abraçou com carinho.

- Estou ansioso para isso - disse ele, depois beijou-lhe os cabelos loiros e confessou: - Acredite, Sun, eu tenho certeza de que também nasci programado para amar você. Você, sendo Shaka de Virgem, ou o Shaka que eu trouxe ao mundo, ou o Sol nascido no Tibete, filho de Kiki Gautama Hawking e de Marie Atena Curie - nessa hora ele não aguentou e riu - não importa, porque eu amo todos eles .

- Não zombe dos meus pais, Mu de Jamiel - ele brincou olhando para o relógio.

- Ainda bem que não vai querer formalizar o nosso casamento - disse Mu.

Sol então o encarou sério.

Mu arregalou os olhos.

- Oh, céus! - fez ele ajeitando o boné na cabeça e a mochila imensa nas costas.

- Mu de Jamiel Gautama Hawking Curie até que te cai bem - disse ele rindo, então o pegou pela mão, também ajeitou a mochila de viagem nas costas e começou a apertar o passo - Inclusive, podemos formalizar o casamento na Nova Zelândia mesmo.

- Perfeito!

Fez Mu, e com um aceno para os céus despediu-se de Jamiel no alto da montanha.

Não era um adeus, mas um até breve.