A discussão rolava solta dentro da espaçonave, Drax segurava o baby Groot pelas mãozinhas, evitando que ele se aproximasse dos botões do painel de controle e Rocket persistia em gritar que era o melhor piloto daquele lugar. Quill não se limitava em apenas mostrar o dedo do meio para o guaxinim, liberava uma sequência de palavrões de sua terra natal, tirando risadas do grandalhão, que interrompeu o bate-boca com uma belíssima frase de impacto:

- Quill acabou de elogiar as bolas do guaxinim! Bahahahaha! - sem ser nada discreto, seguia com a gargalhada trovejante, recebendo um pedaço de metal na testa, lançado por alguém que ele nem ao menos conseguiu distinguir.

- Foi o Rocket! - o Senhor das Estrelas se defendeu, piscando discretamente para Gamora.

- Eu vi você piscando, Quill! - mas o guaxinim rosnou, demonstrando toda a sua ferocidade. - Juro que ainda vou mijar no seu travesseiro!

- Já chega! - acabando com a bagunça em um segundo, Gamora mirou Rocket com uma expressão áspera. - Quando vamos chegar em um planeta habitável?

- Em breve, estamos próximos de BLQ-201! - soltando um chiado, o animal respondeu a guerreira. - Precisamos de combustível.

- E suprimentos. - ela os lembrou.

- Groooo... - o pitico se manifestou, fazendo seu amigo peludo concordar com a cabeça.

- Ah, merda! É verdade! Groot tem toda a razão! - passando os dedinhos pela cara, Rocket se lamentou. - Não foi nesse lugar que a Gamora explodiu o centro comercial naquela porcaria de missão?

- Quando derrotamos aqueles Skrulls? - Peter precisava refrescar a memória, notando como a sua companheira de viagem balança os ombros, totalmente alheia ao problema.

- E levamos metade da cidade junto!

- Foi o guaxinim quem explodiu aquela bomba. - Drax apontou para ele e riu, mas dessa vez estava cheio de sarcasmo.

- Ótimo, já sabemos quem vai ficar protegendo a nave desta vez!

- Muito engraçado, Rocket... - empurrando a cadeira dele, Gamora bufou e foi para o interior da espaçonave.

Peter olhou por sobre o ombro para ela e depois para o guaxinim, estreitando o olhar, julgando-o um babaca - mas quem ali não era? Passando o comando de pilotagem para o peludo, se levantou e espichou o corpo, alongando-se e como quem não quer nada, seguiu a assassina, tentando entender o que vinha acontecendo ultimamente.

Desde a última viagem que fizeram e salvaram alguns planetas, Gamora havia se tornado mais distante e hostil com ele. Não era exatamente uma novidade vê-la apontando aquela espada para o seu pescoço, usá-lo como isca ou distração, porém a diferença estava ficando cada vez mais óbvia e não conseguia imaginar o grupo sem ela por perto.

Eles eram os Guardiões da Galáxia, poxa!

Respirou fundo e mandou um trecho de uma música que costumava ouvir, pensando que talvez pudesse animá-la. Foi estalando os dedos, andando com um gingado meigo e descolado, balançando a cabeça pra lá e pra cá, cantando em um microfone invisível:

- "But, darling, only now! Are you free to try again, lift up your pretty chin... Don't let those tears begin, you're a big girl now and you'll pull through somehow..."

Erguendo o olhar, ela apenas o encarou séria, esperando que ele não continuasse com aquilo.

- Gamora...

- Cala a boca, Quill! - ameaçou ir pra cima dele de uma forma nada amigável.

- Ok, ok! Mas, saiba que só estou cooperando para que o nosso trabalho em equipe continue bom. Um capitão digno, sente o momento certo para ceder e assim unir o time. - armando um beicinho, lançou seu charme sobre Gamora.

- Que irritante! - nervosa, se levantou e o abandonou ali, completamente confuso e sozinho.

Poderia até parecer besteira, mas não era boa em receber atenção. Não havia sido criada para ganhar força ou apoio, era uma lutadora, uma vencedora e ainda assim, seu coração batia desenfreado por esse idiota. Cada coisa babaca que ele fazia, trazia uma força de dentro de seu ser e uma vontade imensa de sorrir, corresponder aquele olhar divertido e zombeteiro que só ele tinha - era único.

Fechou os punhos, desapontada. Para Quill, talvez não funcionasse dessa maneira, afinal, ele não conseguia parar de flertar com toda espécie feminina que cruzava o seu caminho. Sua fama era a pior, não bastava ser trambiqueiro, tinha que ser mulherengo?

- Gamora, vamos aterrissar! - Drax surgiu feito um fantasma, silencioso, praticamente invisível.

- Certo, estou indo.

- Por que está com essa cara? - estranhando o comportamento da companheira, o grandão decidiu perguntar.

- Qual cara?

- De quem não conseguiu cortar a garganta de seu pior inimigo e se banhar em seu sangue. - sorrindo com maldade, o destruidor a mirava de cima.

- Esse é o menor dos meus problemas.

- Então resolva da melhor forma... - abrindo a porta para a sala de pilotagem, Drax complementou. - A sua.

Parecia um milagre ele falar algo que prestasse, mas de qualquer forma ela havia entendido o recado. Se não conseguia solucionar esse impasse apenas refletindo, faria da melhor forma possível: encarando-o. O sentimento de um ser humano não poderia ser tão complexo assim, ele tinha apenas um cérebro e que pensava pouco.

Com todos em suas posições, procuraram um lugar bastante distante e seguro para pousar. Rocket não fazia ideia se iriam demorar ou não para conseguir um núcleo de energia para a nave e comida o suficiente para a nova viagem, se não fosse a recompensa pela cabeça da Gamora, poderiam descer na cidade e resolver tudo por lá. Entretanto, não era do tipo que chorava pelo leite derramado e para a sua solução, montaria grupos: um buscaria as coisas e o outro ficaria em guarda.

- Tirando a verdona, quem fica aqui? - preparou as armas e olhou para todos, começando a divisão.

- Groo? - o bebê se remexia, ganhando um aceno de negação do guaxinim.

- Você fica! Não quero que acabe sumindo no meio do deserto.

- Drax, vá com ele. - destinada a ficar na nave, ela lançou a indireta.

- Eu?! Por que não vai o Quill? - cruzando os braços, se inclinou sobre Gamora, nada satisfeito.

- Por que eu preciso fazer algo aqui. - e a resposta veio entre dentes.

Pegando o bebê árvore nas mãos, Quill o embalou para cair no sono e viu uma nova briga surgindo. Precisava interferir:

- É melhor vocês dois irem, não é uma boa ideia os pilotos ficarem perambulando por aí, nunca se sabe o que pode acontecer.

- Pela primeira vez na minha vida, ouvi você falando algo que fosse útil... - completamente impressionado, Rocket pulou no ombro de Drax e acenou uma despedida. - Não morra antes da gente voltar.

- Não se preocupe, se você morrer primeiro, prometo fazer um belo casaquinho com seu pelo e vender no mercado negro espacial! - cada um mostrou uma careta pro outro e ficou por isso mesmo.

Entre resmungos e reclamações, a Equipe Um partiu rumo à cidade e a Equipe Dois ficou parada no meio do nada.

Quill subiu a rampa, olhando para Groot que já estava dormindo e foi colocá-lo em um lugar confortável. A almofadinha da sua cama era bastante macia, um dos lugares favoritos dele e tomando todo o cuidado do mundo para que não acordasse, o deixou ali, apagando as luzes. Conferiu se estava tudo bem antes de sair, não queria ter nenhuma surpresa com o pequenino apertando todos os botões da espaçonave e explodindo tudo sem querer.

Quando saiu novamente, viu Gamora vindo em sua direção, ela estava tão carrancuda que chegou a sentir algo revirando em seu estômago, parecia que uma guerra estava prestes a estourar e ele tinha apenas uma colher como arma.

- Eu vim em missão de paz! - ergueu as mãos, rendido.

- Preciso falar com você.

- Seja o que for, tenho certeza que a culpa é do Rocket! - mostrou-se indignado, dando um soquinho no ar, esquivando do problema antes mesmo de ouvi-lo.

- Estou falando sério! - até poderia estar soando brava, mas na verdade estava bastante ansiosa, travava uma batalha interna até finalmente decidir como começaria isso. - Quero te perguntar uma coisa.

- Tudo bem, pode mandar. - ele bateu o punho no peito, tentando ao menos manter a banca.

- Por que você age assim? - apertou os lábios, contrariada com todo o discurso que planejou e que agora, saia apenas isso.

- Assim? Como? - piscou os olhos algumas vezes, tentando decifrar esse enigma.

- Mulherengo.

- Eu não sou mulherengo... Apenas encontrava elas por aí e a gente apenas conversava e nunca foi algo real, apenas um lance... Entende?

Não bastou a falta de argumento, como a repetição ridícula de seu "apenas" mostrando que não foi só isso que acontecia em suas aventuras pelo espaço. Gamora cruzou os braços, o que foi suficiente para entender que não havia lhe convencido.

- Não gosto de falar sobre essas coisas. - Quill achou mais fácil fugir, pelo menos esperava que ela desistisse.

- Eu ainda não terminei.

- Onde quer chegar com isso?

- Me incomoda ver como se insinua para todas, é tão... - irritante, seria a palavra correta.

- Hey, eu não faço isso! - tentou se passar por ofendido, mas logo corrigiu, balançando a cabeça. - Só um pouquinho.

- Sabe o que elas falam por aí? - desafiadora, provocou o ego do capitão, vendo-o se aproximar.

- Nem imagino o que seria... - imaginava sim, que metade delas deveria estar querendo a sua cabeça em uma bandeja.

- Que a sua alcunha de "Senhor das Estrelas", é por causa... - sua voz foi diminuindo e o constrangimento tomou posse de sua fala, onde estava toda aquela garra e força sanguinária, sendo que apenas conseguia sentir as pontas dos pés?

- Huh, o que tem isso?

- Fique quieto!

- Agora ficou brava? O que eu fiz?!

- Você é um completo idiota! - enfiou o dedo indicador no peito dele, quase tirando-o do lugar. - "Nós chamamos ele assim, porque só o Quill consegue levar a gente até as estrelas!".

- Elas... falam isso? - um sorriso surgia no cantinho de seus lábios e ao notar a cara fechada dela, limpou a garganta, ficando sério. - Que absurdo!

- Me poupe disso.

- Então, isso te incomoda? - apertou os olhos, fazendo uma expressão suspeita, ponderava o que tudo isso poderia significar.

- Não.

- Gamora, dá pra notar que sempre rolou alguma coisa entre a gente.

- Jamais.

- Olha, não dá para explicar exatamente, mas eu sei que nós temos isso acontecendo. - foi com cautela, o olhar acompanhando a sua mão segurar a dela.

Foi um alívio não ser repelido naquele instante, mas sabia que Gamora estava olhando para outra direção, fingindo estar incomodada. Entrelaçou seus dedos, permitindo que isso lhe desse a possibilidade de avançar, quebrando a distância que ela havia estipulado durante a discussão inteira.

- Isto não vai funcionar. - a negação poderia ser sobre seus sentimentos, assim como a chantagem afetiva que ele parecia usar, mas no fundo, apenas queria que Quill não desistisse dela.

- Não vai, nem ao menos, me deixar tentar?

O pedido foi gentil, abalando seu coração rígido e sabia que até mesmo a criatura mais vil, mais amarga ou cruel, poderia sucumbir diante de algo especial.

De alguém especial.

Seus lábios finos formavam um sorriso discreto, diferente daqueles que usou em suas conquistas. O tempo que passou com eles, havia sido o suficiente para mudar tanto assim?

- Eu posso cantar agora?

- Não!

- Oh, essa seria especial! - a risada de Quill era quente, acolhedora.

- Sem música!

- Eu posso conviver com isso... ou mudar sua opinião depois... - falou baixinho o final, fazendo ela olhá-lo com estranheza. - Eu não disse nada.

- Não conte pra ninguém. - exigiu, já sentindo as mãos dele segurando a sua cintura. - E não espere que eu vá repetir aquilo de novo.

- Quando o céu se tornou nosso limite? Eu não quero que você veja apenas estrelas, Gamora. - inclinou seu rosto sobre o dela, olhando profundamente em seus olhos. - Vou te mostrar as galáxias.

- Isso foi péssimo.

- Eu sei.

Os dois sorriram, deixando os lábios finalmente se tocarem, aprofundando o beijo. Ele a puxou para si, enquanto tinha os braços dela envolvendo seu pescoço, a coisa realmente existia entre eles, não dava mais para evitar.

Fogos de artifícios brilharam no céu cinzento do deserto, estrondos surgiam e tremores levantavam pequenos pedregulhos do chão. O beijo estava gostoso de verdade, mas talvez não fosse para tanto - o verdadeiro anticlímax foi ver Rocket e Drax vindo correndo na direção da nave, gritando:

- Ferrou! Vamos embora! - atirando para trás, o peludo anunciava o fim da viagem.

- Mas que porr...! - o capitão se afastou de Gamora, antes que os dois fossem vistos juntos. - O que vocês fizeram?!

- Eles estavam dando bobeira com algumas bombas quânticas de hidrogênio... - com sua lábia de ladrão, Rocket apenas piscou para seus companheiros.

- Maldito! - urrou Quill, tentando pegá-lo.

- Parados! - a voz robótica trovejou pelo deserto.

Todos correram para dentro da espaçonave, vendo o enorme exército que surgia do meio da areia negra. Cada um pulou em sua poltrona e ligaram tudo para fugir de lá com apenas um salto. As explosões foram se aproximando, causando uma leve turbulência e quando atravessaram a atmosfera, suspiraram aliviados.

- Há! Vencemos! - triunfante, o peludo olhou para todos, satisfeito. - E de bolso cheio!

- Somos invencíveis! - bradou Drax, comemorando cheio de euforia.

Houve uma troca singela de olhares entre Quill e Gamora, ainda havia algo queimando dentro do peito, uma adrenalina que fazia seus ouvidos pulsarem. Já tinham experimentado o sabor da vitória outras vezes, porém nenhuma superou essa - o êxito no amor.

Fim.


N/A:

Música: Smile a little smile for me - Flying Machine