Não houve quaisquer indícios anteriores de que aquilo aconteceria. Linka não percebeu ou sentiu qualquer coisa de diferente, tampouco o fizeram seus amigos.
A aparição dela, naquela calma, enluarada e quente noite na Ilha da Esperança, foi tudo, exceto sutil e previsível.

Linka estava sozinha na sala comunal, totalmente entretida em seu laptop. Poderia, muito bem, estar em seu quarto, até mesmo dormindo. Todavia, sentia-se mais à vontade estando no cômodo maior e mais amplo, além de que o sono havia-a a abandonado completamente no momento em que percebeu o provável êxito futuro de seu atual intento. Estava apenas em um começo quase imperceptível, contudo, caso continuasse a trabalhar com afinco em seu projeto, a longo prazo talvez os próximos Protetores, ou, jogando as expectativas no nível mais alto possível, incluso ela e seus amigos tivessem uma inteligência artificial parecida com M.A.L para auxiliá-los. Ela bem teria continuado a dedicar-se exclusivamente a isso noite a dentro, se não fosse a aguda, porém claramente empolgada voz infantil soar detrás de si.
—Lia! Você está séria, Está fazendo o que? Parece importante. — Linka bem que tentou, porém simplesmente não seria possível ignorar. O chamado animado e a pergunta seguida pela observação curiosa fora algo muito nítido para ter sido apenas impressão.
Virou-se rapidamente para trás, diante disso, e sua boca escancarou-se tanto quanto foi possível com o que a forte luz de seu computador lhe possibilitou ver.
Um vestido rosa repleto de babados e flores, uma tiara também rosa adornando longos e lisos cabelos castanhos e uma bola tão rosa quanto sua roupa e adornos na mão direita, a garotinha morena e bochechuda encarava-a com grandes olhos verdes inocentes e intrigados que a fizeram paralisar no mais puro assombro.
—Tá me olhando assim por que? — A criança, ou coisa, ou alucinação, Linka ainda estava demasiadamente atônita para decidir como chamar, disse, começando a quicar ritmadamente sua bola enquanto andava de um lado para o outro. Ela nunca deixava o encosto da cadeira na qual jazia a loira, porém.
Linka respirou fundo, ela definitivamente estava tomando muito café e tendo pouquíssimas horas de sono. Cerrou os olhos e, quando o choque inicial amainou-se ligeiramente, enfiou com força os dedos nos ouvidos a fim de bloquear o som do objeto sendo jogado para lá e para cá às suas costas. Foi relativamente inútil, entretanto, visto que o som da bola continuava soando abafado, mas ela não ousou desobstruir seus sentidos até que nada mais conseguisse escutar.
Lentamente, a russa abriu os olhos e tirou as mãos dos ouvidos. Demorou-se ainda mais em virar-se para trás, contudo, deu um audível suspiro de alívio ao que não enxergou mais nem garota, nem bola. Ainda sentindo o coração na garganta devido tamanho susto, virou-se de volta para o laptop sobre a mesa e começou a fazer os preparativos para em fim desliga-lo. Seu cérebro necessitava urgentemente de um descanso, a prova viva disso era a peça infame e assustadora que sua mente acabara de lhe pregar.
—Vai sair? Mas, eu tô bem quietinha! — Veio de debaixo da mesa, e ao mesmo tempo Lin sentiu claramente pequenas mãos apoiarem-se em seus joelhos.
E ela não conseguiu impedir o grito estridente de sair-lhe da garganta. Levantou-se imediatamente e fez menção de correr para seu quarto, porém não foi mais rápida que a criança que, imediatamente, pulou de seu esconderijo e postou-se à sua esquerda.
—Aff, você não mudou nada! Tá bom, eu paro de chamar e só volto quando você terminar de... Uh... Você ainda não me disse o que estava fazendo...
—Linka? — Alguém a chamou do corredor que ligava a sala à cozinha, mas a moça permaneceu olhando e piscando quase que incontrolavelmente na direção da garotinha. Aquilo não era real. Não era possível, como diabos sua mente podia ser tão fértil a ponto de projetar algo de tal notoriedade que mostrava-se concreto que ela podia jurar que conseguiria tocá-lo caso tentasse?
—Linka! O que tá acontecendo? — Sentiu um braço ser suavemente posto em seus ombros, virou-se na respectiva direção deparando-se com um Wheeler de expressão preocupada. Conteve uma carranca, a aparição do ruivo era tudo de que ela menos precisava naquele momento. Disfarçou como pôde sua expressão espantada e o encarou, uma frágil máscara de impassibilidade cobrindo-lhe a face.
—Eu ouvi um grito. — Wheeler afirmou, a mão direita em punho fechado enquanto olhava ao redor à procura de qualquer anormalidade.
—Anda ouvindo vozes, Yanky? — Ela debochou. —Por que eu não ouvi e nem fiz nada. —Asseverou, decididamente era melhor mentir do que parecer uma louca na frente dele. Afinal, ela ainda a via na frente do ruivo, seus corpos praticamente encostando um no outro, e ainda assim ele nada fazia. Ele só podia não estar vendo, obviamente. A alucinação era sua...
—É mentira! Foi ela quem gritou, moço! — Sobressaltou ligeiramente quando a vozinha infantil soou, acusatória, Wheeler a encarou confuso antes de intensificar levemente o aperto do braço esquerdo sobre seu ombro. —Mas ela gritou porque eu irritei ela, ela tava estudando, eu acho, no computador, e eu atrapalhei. Desculpa, Lia. — Em um tom manhoso e culpado, a garotinha concluiu enquanto baixava os olhos.
—Não, eu tenho certeza que ouvi um grito e não foi coisa da minha cabeça. — Ele insistiu. —Linka, talvez seja melhor chamarmos os outros, ou então...
—Olha só, Wheeler. — Lin perdeu a paciência, mais por temer não conseguir enrolá-lo por muito tempo do que pela atitude em si. —Não há necessidade de fazer nada disso, porque não aconteceu nada! — Afastou-se dele. —Pode olhar em volta, se quiser, mas já adianto que você não verá nada. — Assegurou, altiva, tomando cuidado para não olhar para a pequena figura que a tudo observava calada.
—Fogo. — Wheeler produziu uma pequena chama com seu anel a fim de iluminar ainda mais o ambiente, Linka assistiu com os braços cruzados e uma expressão forçada de tédio enquanto ele perscrutava a sala em busca de algo incomum.
—Certo. — Ele voltou-se novamente para ela, aparentemente derrotado. —Eu posso não ter encontrado nada, mas você gritou por algum motivo. Lin, você sabe que pode me contar se...
—Eu estou bem, Wheeler. — Ela garantiu, num tom de voz já mais brando.
—Então, está frustrada com... Que que cê tá fazendo, aliás? — Ele insistiu, após notar de repente o computador ainda ligado, foi até ele e olhou para as estranhas e incompreensíveis linhas repletas de símbolos e números na tela antes que sua amiga tivesse tempo de impedi-lo.
—Também queria saber.
—Não! — Linka foi até ele e em fim fechou rapidamente os últimos programas e arquivos abertos. —Eu estou tentando uma coisa, e não estou frustrada. — Respondeu, simplesmente, tanto não pretendia contar aos outros sobre seu projeto até que este estivesse de fato mais desenvolvido, quanto não estava com qualquer paciência para explicar as coisas a Wheeler ou até mesmo inventar alguma mentira elaborada naquele momento.
—Você não vai me dizer o que é, estou certo? — Linka assentiu e Wheeler a olhou, um sorriso brincalhão insinuando-se no canto dos lábios. —Mas você sabe que eu não vou desistir tão cedo, não é?
—E você sabe que eu não vou contar até que eu queira, não é? — A loira retrucou e foi a vez dele assentir, embora evidentemente contrariado. —
—Quem é esse Weelan, Lia?
—Que que cê tá fazendo acordado a essa hora, hein? — Linka mudou de assunto e, pela segunda vez, ignorou a voz da garota coisa alucinação. Em verdade, havia decidido que aquela seria a atitude correta a se tomar em relação às loucuras geradas por tantas horas sem dormir.
—Ora, eu vim fazer um lanchinho!
—Hahaha! Lia, ele também assalta a geladeira de madrugada! Que nem você fazia, lembra? — Mas fazer isso estava se tornando algo difícil conforme sua paciência esgotava-se com os comentários intrometidos.
—Sabia, Wheelan, que eu tinha que ir junto com ela para a cozinha, porque a casa fazia barulho de noite e era bem assustador? — Linka bufou e revirou os olhos, Wheeler mais uma vez x olhou-a confuso.
—Hã... Se isso são horas de comer, Wheeler! — Percebendo seu ato falho, Lin tratou de dizer algo, embora não sentisse exatamente vontade de repreendê-lo por isso.
—Que eu saiba, a hora de comer é a hora que dá fome e tem comida! — Ele se defendeu, um bocado indignado.
—Hahahaha! Lia, eu gostei do seu amigo. Ele é engraçado! Tudo bem, moço? — A acompanhante semi invisível daquela conversa estendeu uma mãozinha rechonchuda na direção de Wheeler, porém logo a recolheu quando não obteve qualquer resposta. —Ah, tudo bem. — Baixou mais uma vez a cabeça e se afastou, estranhamente resignada.
—Caramba, está frio aqui! — Wheeler de repente exclamou, passando as mãos pelos braços arrepiados.
—Frio? Wheeler, acho que você deveria ir dormir, essa pausa em seu sono está te deixando estranho. — Linka brincou, fingindo não ter notado o calafrio que tomara o ruivo com a última interação.
—Estranho, eu? Olha só, não foi eu quem gritou sem motivo de madrugada. — Ele devolveu e a loira o estapeou de leve.
—Ela não gritou sem motivo, gritou porque estava brava comigo! Você ainda está brava comigo, Lia?
—Sim, bem você. Não sou eu quem anda ouvindo coisas em plena madrugada. — Replicou.

Finalmente em seu quarto, Linka não pensou meia vez antes de deitar-se em sua cama e, não obstante o intenso calor, cobrir-se por inteira com o lençol e o fino cobertor. Ela inclusive colocou um travesseiro sobre a cabeça e o pressionou com o braço contra o ouvido, em uma tentativa de silenciar quaisquer possíveis vozes que sua mente exausta projetasse para fora de sua cabeça.
—Tá bom, a gente conversa amanhã. Boa noite, Lia! — No entanto, ela admitia, seu cérebro em aparente e provável parafuso estava sendo cruel com sigo ao fazer por onde a alucinação chama-la por aquele apelidinho tão nostálgico.
Na verdade, a própria ilusão era algo saudoso.

"Você me chama de Ina, que eu te chamo de Lia! Serão nossos apelidos secretos."