oooOOoooOOooo

O inverno estava terrível. Hermione enrolou mais o cachecol em torno do pescoço quando uma rajada de vento a arremeteu com uma lufada cortante.

- Meu Deus, que horror. – Ela reclamou baixinho, encolhida, ao acelerar o passo para entrar no prédio que a protegeria do mau humor do clima. - Bom dia, George. – Saudou o recepcionista do prédio, no qual ficava a agência de publicidade em que trabalhava. – Dia frio hoje, não é?

- Bom dia, senhorita Hermione. Sim, hoje foi difícil levantar da cama.

Eles riram um para o outro e Hermione seguiu para o elevador.

- A primeira coisa que farei será tomar um café forte. – Disse para si mesma enquanto via, impaciente, os números dos andares passarem no painel do elevador. Quando o ascensor chegou no sexto andar e a porta abriu, Hermione saiu apressada para pegar uma xícara com o intuito de aquecer seu corpo de dentro para fora.

oooOOoooOOooo

- Cheguei!

A jovem anunciou ao entrar pela porta da frente da casa. Seus pais não responderam. Devem estar no consultório, ela pensou. O casal de dentistas sempre saía cedo, antes das oito, voltando habitualmente quase perto das seis. Desse modo, Hermione cresceu sem a presença dos pais. Filha única, salva da solidão graças aos seus avós.

- Olá, minha neta. – A avó saudou aparecendo, com uma concha na mão e um avental preso ao corpo, na entrada que levava para a cozinha.

- Olá, vovó. – Cumprimentou com um sorriso ao tirar as botas de salto.

- Venha para a cozinha, estou terminando de preparar uma sopa para o jantar. – Convidou retirando-se.

Hermione pendurou a bolsa no cabideiro de chão que ficava próximo a porta. Enfiou os pés nos chinelos do seu pai, se livrou das pesadas roupas de frio e rumou para a cozinha.

- Sopaaa! – Falou animada, esfregando as mãos – Hoje está um gelo lá fora. Londres não está brincando em matéria de mau tempo. Uma chuva fria de congelar os ossos e um vento cortante.

Enquanto mexia a refeição com a concha, Eugenie lamentou com sua voz rouca:

- Eu só fico pensando nas pessoas quem não tem uma casa bem aquecida e um prato de sopa para o corpo e o coração.

Hermione se sentou na banqueta apoiando-se no balcão que a separava da avó.

- E como foi seu dia, minha querida? Alguma novidade no trabalho?

- Normal. Estou com uma campanha de uma empresa bem detalhista e não consigo fechar o projeto. Está me dando nos nervos.

- Ainda bem que você é uma mulher inteligente, conseguirá solucionar isso. Como estão seus amigos? – Eugenie adicionou pedaços de carne à sopa.

- Estão todos bem. Dean está quase surtando porque a noiva inventou algo para a cerimônia de casamento, - Hermione virou os olhos - Maisie está passando por um momento complicado com o nascimento dos dentes da Julie e-

- Ah, essa fase realmente é angustiante para qualquer mãe. Costuma dar febre mas os pediatras dizem que isso não existe.

- A Maisie hoje passou o dia ao telefone trocando informações com a babá.

- Depois que os dentinhos nascem sentimos um alívio muito grande.

- Fico pensando se quero passar por isso. - Hermione falou ao reclinar a cabeça para o lado enquanto mexia, despretensiosamente, no arranjo de flores de plástico diante dela.

A senhora concluiu que a sopa estava ótima depois de experimentar após adicionar uma pitada de sal. Desligou o fogo e se virou para a neta.

- Hermione, para que possa decidir se quer ser mãe precisa primeiro abrir seu coração para o amor.

Eugenie se afastou do fogão, indo em direção ao armário.

Hermione ficou pensativa diante da frase da avó até conseguir formular uma resposta.

- Mas eu saí com alguns homens este ano.

- Ora, meu amor, não tente enganar esta velha. – A avó sentenciou ao virar com os pratos de sopa nas mãos – De que adianta sair com homens interessantes e bonitos se não quer se apaixonar por eles?

Hermione saltou da banqueta para ajudar a avó na arrumação da mesa.

- Eu não escolho me apaixonar. – Defendeu-se enquanto abria a toalha usada durante as refeições. Arrumou-a para ficar certa sobre a superfície. – É porque simplesmente não aconteceu.

- Ou porque aconteceu. – A assertiva de Eugenie foi seguida de outra e pela colocação dos quatro utensílios sobre a mesa. – Seu coração pertence ao homem misterioso.

Por um átimo Hermione encarou a avó antes de pegar dois pratos.

- Vovó sabe e sua mãe também.

O choque a fez se mover para o armário. Pegar os talheres era a melhor tática. Parou. Inspirou. Expirou. Não adiantava mentir para si. Os olhos marejaram quando abriu a gaveta. Ficou diante da caixa aberta tentando conter a emoção. A mão calejada de sua avó pousou em seu rosto virando-o ao erguê-lo com carinho.

- Hermione, você mudou tanto entre os seus dezessete e dezoito anos e de uma maneira tão profunda e rápida. De repente a menina que conhecíamos se tornou uma mulher que irradiava uma felicidade quase mágica. Somente o amor pode fazer isso.

As lágrimas molharam os dedos de Eugenie. Hermione permitiu-se chorar.

- Seu pai achou estranho mas não quis entender o que acontecia. Sabe como Paul lida com sentimentos. Seu falecido avô e eu logo percebemos que algum rapaz roubara seu coração. E até mesmo sua mãe, sempre tão discreta, sentiu ou percebeu algo diferente em você. Era a magia do amor emanando do seu coração.

A neta não conseguia falar; só fazia lembrar do taciturno homem de cabelos e olhos negros.

- E um dia essa luz se foi. – A senhora afirmou ao enxugar com carinho as lágrimas de Hermione – Você ficou tão perdida e sem vitalidade que sua mãe chegou a pensar que talvez estivesse doente fisicamente.

- Ela comentou com a senhora?

- Ora, minha querida, - tirou a mão do rosto da neta para pegar as colheres na gaveta. - Olivia é reservada mas é mãe. Ficou preocupada com você.

Hermione ficou olhando a tranquila avó voltar para a mesa.

- Fico feliz que tenha vivenciado este sentimento, mas amor assim... – e meneou a cabeça negativamente ao franzir os lábios.

Hermione já sabia. Ninguém precisava completar.

- Vou tomar banho. Preciso me trocar.

- Vai sim.

Eugenie observou Hermione sair do cômodo. Sabia que sua neta era uma mulher forte, bem resolvida que não carregava rancor ou angústia pelo que vivera. Ela não era uma mulher triste e sem vida social trancada em casa. A jovem de vinte e três anos era alegre, bem-disposta, com amigos fiéis e um bom emprego. O que Hermione trazia na alma era um amor verdadeiro por um homem misterioso, que saiu da sua vida transformando-a para sempre.

oooOOoooOOooo

Ao sentar sobre o edredom que tinha arrumado mais cedo naquele dia, Hermione fechou os olhos e tentou lembrar das memórias do romance juvenil com um homem dezenove anos mais velho. Apesar de passados seis anos, tudo ainda era nítido. Respirou fundo. O perfume das roupas de Severus sempre tão marcante tocou sua memória olfativa. Ela lembrava perfeitamente do cheiro de ervas.

- Severus.

Sussurrou chamando-o.

oooOOoooOOooo

O carro de Olivia e Paul Granger chegou por volta das 18h30 em meio a escuridão invernal.

- Nossa, está péssimo hoje. Que frio! Rápido Paul!

Olivia, sem mãos suficientes para carregar tanta sacola, bateu a porta do carro e apressou-se para dentro de casa.

- Aquele consultório acaba com a nossa percepção de como está o mundo aqui fora. – O homem de meia idade falou ao fechar o porta-malas com uma caixa na mão e rumar para a quentura do lar.

Do outro lado da calçada, nas sombras, desilusionado, Severus Snape olhava para a janela, vigiada há cinco dolorosos anos. O vento uivou ao balançar os arbustos assim como seus fios pretos. Severus manteve-se impassível. Todo ele estava concentrado nela.

Quando a luz do quarto dela acendeu e a silhueta passou por detrás das cortinas os olhos dele cintilaram na esperança de avistar um pouco da mulher que revirara sua vida.

- Estou aqui Hermione.

oooOOoooOOooo

- Boa noite!

Olivia saudou ao entrar em casa. Estava com sacolas e seu marido com uma caixa grande.

- Gente, lá fora está horrível!

- Hermione falou. Boa noite, Olivia, boa noite Paul.

- Boa noite minha sogra. – O homem a cumprimentou enquanto colocava, de maneira desajeitada, a caixa no chão.

- O que é isso? – A idosa perguntou olhando sem entender – Que monte de sacolas são estas?

- Compras de Natal, mamãe. Hoje já é dia 22 e não tínhamos ido comprar uma árvore e enfeites novos. Saímos mais cedo do consultório e fomos à Primark.

- Boa noite! Ora, veja quem foi às compras! – Uma calorosa Hermione os cumprimentou ao descer as escadas. – Quanta coisa. – Concluiu ao passar os olhos pela quantidade de sacolas.

- Vocês sabem que adoramos Natal. Tinha cada enfeite tão lindo! Veja este, filha – Olivia falou ao pegar uma réplica do soldado de chumbo em miniatura.

- Oooh!

- Não podia deixar de comprá-lo. É lindo!

- Você não podia deixar de comprar a loja, Olivia!

Paul a provocou ao passar por ela e rumar para dar um beijo na testa da filha.

- Vou tomar um banho. – Informou ao subir.

- Vá sim, meu genro. Olivia, deixe essas sacolas aí que Hermione e eu damos um jeito. Vá tomar banho para que possamos jantar. Vou esquentar a sopa.

Hermione já estava mexendo nas sacolas. Eram vários os enfeites de Natal como guirlandas; meias; velas; sinos; bolas douradas, vermelhas e pratas. Tudo tão lindo. Aquela época do ano era muito especial para eles.

- Já é Natal.

Disse ao pegar a pequena vaca do presépio.

- Mais um Natal sem você.

Eugenie olhou do enfeite para a neta. O Natal também era uma data difícil para ela desde que se tornara viúva. Sentia falta do companheiro.

- Vou esquentar a sopa.

Hermione ouviu mas não pensou na mensagem. Foi próximo ao Natal quando Severus tentou obliviá-la acreditando que apagar as memórias do que eles tinham vivido era o melhor. O feitiço não teve efeito sobre ela. Ainda sabia dele, da existência do mundo bruxo e sobre a guerra civil que ocorria nele. Tinha receio de que Severus tivesse morrido. Vivia com o medo e a dúvida há cinco aflitivos anos.

oooOOoooOOooo

Após a sopa estar na geladeira e a louça seca e guardada, os membros da família foram se ocupar com algo. O casal sentou-se na sala para ver televisão, Eugenie ligou para a colega da dança de salão porque precisava conferir os detalhes da festa de fim de ano e Hermione foi para o seu quarto verificar as redes sociais dos clientes. Ao fim do dia sempre olhava alguns perfis gerenciados pela sua equipe.

- Já?

Ela percebeu ao ouvir o alarme do celular tocar. Não percebera o tempo passar. Desligou o notebook. Foi para cama se acomodar debaixo do edredom.

- Apague a luz.

O quarto caiu na penumbra. Apenas o abajur pequeno e discreto iluminando sobre a escrivaninha.

- Música para dormir.

E a caixinha começou a tocar uma melodia tranquila.

Ela se acomodou debaixo do pesado edredom. O sono foi chegando sem muita dificuldade. Aquele fim de dia tinha sido tão atípico. Recordações de um período distante... - os olhos castanhos se abriram quando uma memória aleatória emergiu de suas lembranças perdidas.

- A caixa.

Disse para si mesma ao jogar o edredom para o lado. Lançou as pernas para fora da cama no momento que levantou rápido indo em direção ao armário. Abriu a porta. Por um segundo precisou pensar onde a caixa estava. No fundo do móvel!, lembrou. Procurando em meio as muitas roupas achou a caixa e alçou-a. Sentou-se na cadeira da escrivaninha com ela no colo.

- Luz.

E a penumbra se foi. Começou a mexer nos objetos um pouco empoeirados.

- Está aqui... tem que estar...

Sua mão parou ao roçar num conteúdo macio. Era ele. Pegou o pequeno objeto fofo e puxou. Há quanto tempo não o tocava. Seus dedos afundaram na capa. Abriu um sorriso. O cadeado ainda estava lá. Próximo a ele as letras formavam o título.

- O diário de Hermione Granger.

oooOOoooOOooo

N/A: Depois de 10 anos sem escrever uma fanfic volto aqui com este projeto de Natal. Ele será dividido em 3 partes, então teremos mais duas. Agradeço muitíssimo a Afrodite pela betagem. Depois de tanto tempo apenas traduzindo espero que a minha escrita esteja apreciável e perdoem os erros. Alguém cringe lembra do nome desta fanfic? rs

N/A²: E falando em traduções... Sigo procurando por fanfics que estejam dentro do perfil de escrita que aprecio. Se observarem as traduções feitas seguem um padrão básico, slow burn com personagens bem desenvolvidos. Está difícil achar fanfics recentes assim. Caso tenha alguma sugestão, deixe nos comentários. Saibam que autoras de fanfics antigas são mais difíceis de contatar. Elas são como cometas que tivemos a sorte de ver passar.

*Primark é uma loja de departamento.