Disclaimer: Naruto, bem como os seus respectivos personagens, não me pertence, e sim a Masashi Kishimoto. Eu posto esta fic apenas por diversão e entretenimento, e sem nenhuma intenção de lucrar algo com isso.
Esclarecimento: Esta história também não é de minha autoria, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Chantelle Shaw, que foi publicado na série de romances "Paixão", da editora Harlequin Books (edição 398, publicada no Brasil em 2014).
OBS: Esta adaptação provavelmente terá OoC. Muito bem, todos foram avisados...
ATRÁS DOS PORTÕES DO CASTELO
Capítulo 1
A estrada galgava a montanha como uma serpente negra. A chuva parecia aumentar à medida que subiam. Haviam deixado Oliena havia quinze minutos e Sakura observou as luzes da cidade desaparecendo aos poucos.
Perguntou ao motorista do táxi:
- Quanto falta para chegarmos ? - descobrira que ele falava um pouco de inglês, e de fato o homem respondeu:
- Logo verá o Castello del Falco... Castelo do Falcão. Acho que é assim na sua língua - explicou, com seu sotaque carregado.
Sakura franziu a testa.
- Quer dizer que o sr. Uchiha vive em um castelo de verdade ? - presumira que a residência particular do proprietário do Banco Uchiha-Uzumaki na Sardenha fosse uma villa luxuosa e que "castelo" não passasse de força de expressão.
Dessa vez o motorista não respondeu, porém enquanto o táxi avançava nas Montanhas Gennargentu, Sakura prendeu a respiração diante da visão de uma enorme fortaleza cinzenta que surgia na escuridão. Estreitou os olhos para ver além da chuva e vislumbrou os portões.
Os muros externos do castelo estavam iluminados por lampiões que revelavam o tamanho gigantesco da propriedade.
Céus !
Sakura tratou de controlar sua fértil imaginação, porém, à medida que o táxi avançava, não conseguiu afastar uma inexplicável sensação de ansiedade e sentiu-se tentada a pedir que o motorista voltasse para a cidade. Talvez fosse seu excesso de imaginação, mas sentia que sua vida mudaria para sempre se cruzasse a soleira do Castello del Falco.
Viera à Sardenha por causa de Kaede, pensou fitando a cadeirinha presa ao seu lado. Não podia recuar agora.
Mesmo assim seu coração bateu mais forte quando o carro passou pelos portões e lançou um olhar para trás como se tivesse passado do mundo conhecido para outro misterioso.
A festa estava no auge. Do ponto estratégico em que se encontrava e que dominava o salão de baile, Sasuke Uchiha observou os casais dançando e bebendo champanhe. Pela porta que conduzia ao salão de banquete via as pessoas se reunirem em torno das mesas abarrotadas de iguarias.
Estava contente por constatar que se divertiam. Sua equipe trabalhava muito e merecia ser agraciada com essa maravilhosa recepção em reconhecimento aos serviços prestado para o Banco Uchiha-Uzumaki.
E os convidados não deveriam saber que seu anfitrião contava os minutos para se ver sozinho de novo. Lamentava não ter pedido à sua assistente de Relações Públicas que mudasse a data escolhida para a festa. Temari trabalhava para ele havia apenas alguns meses e ignorava que o dia 3 de março estava para sempre gravado na alma de Sasuke.
De modo automático ele deslizou um dedo pela cicatriz profunda que começava no canto do olho esquerdo e descia para a face, terminando na boca. Hoje era o quarto aniversário da morte de seu filho. O tempo passara e a dor terrível que sentira nos primeiros meses e anos após a tragédia aos poucos se transformara em aceitação.
Entretanto, os aniversários eram sempre difíceis. Pensara na festa com a esperança de se distrair. Porém a noite inteira imagens de Reiji povoavam sua mente e isso provocara uma dor que lembrava um punhal enterrado em seu coração.
Um leve rumor às suas costas alertou Sasuke que não estava mais sozinho.
Virou-se de supetão e franziu a testa ao ver seu mordomo.
- O que foi, Kakashi ?
- Uma jovem chegou ao castelo e pediu para vê-lo, signor.
Sasuke consultou o relógio.
- Uma convidada chegando tão tarde ?
- Não é convidada. Porém insistiu em falar com o senhor.
Kakashi não ocultava seu desagrado ao pensar na mulher que deixara entrar no castelo com relutância, toda molhada e empoeirada, envolta em um enorme casaco cinza. Sem dúvida iria molhar o carpete da sala de visitas.
Sasuke praguejou entre os dentes. A única pessoa que ousaria vir ao castelo sem ser convidada era a jornalista que o assediava recentemente e desejava entrevistá-lo sobre o acidente que matara sua esposa e seu filho.
Sua expressão endureceu. Talvez fosse de se esperar que a imprensa ficasse fascinada com o milionário recluso e dono de um dos maiores bancos da Itália, porém ele não gostava de ser incomodado e jamais falava com jornalistas.
- A signorina disse que é Sakura Haruno - explicou Kakashi, interrompendo o fio de seus pensamentos.
Não fora esse o nome que a jornalista dera quando conseguira, de alguma maneira, o número de seu celular particular, refletiu Sasuke.
Contudo, o nome Sakura Haruno soava familiar. Lembrava-se de que sua Relações Públicas lhe falara de uma inglesa que telefonara várias vezes para o escritório em Roma na semana anterior, pedindo para falar com ele.
- Disse que precisa lhe dizer algo importante, mas não deu detalhes - explicara Temari.
Será que a jornalista importuna estava usando um pseudônimo ? Ou quem sabe Sakura Haruno era outra do meio jornalístico ? Mas Sasuke não estava com vontade de descobrir.
- Informe à srta. Haruno que nunca recebo em minha casa pessoas que não foram convidadas. Diga que entre em contato com a matriz do banco e explique o que deseja para minha secretária e depois a conduza para fora do castelo - terminou com frieza.
O mordomo hesitou.
- Ela chegou em um táxi que já foi embora. E está chovendo muito.
Sasuke murmurou alguma coisa com impaciência; conhecia as táticas escusas de certos jornalistas para despertar pena.
- Então chame outro táxi. Quero-a fora de minha propriedade imediatamente.
Com um frio aceno de cabeça, Kakashi se virou e desceu a enorme escadaria. Sasuke relanceou um olhar para os convidados no salão. Desejaria que a festa acabasse, mas ainda precisava fazer um discurso para depois presentear um dos seus executivos que se aposentava e entregar também o prêmio ao Funcionário do Ano.
O dever antes do prazer. Era uma lição que aprendera com o pai e que praticava sempre como o senhor do Castello del Falco, que fora construído pelos seus ancestrais no século XIII.
O dever o fez afastar os pensamentos sobre o filho e descer a escadaria para se encontrar com os convidados.
Sakura estava contente por se ver dentro do castelo e livre da chuva. Seu casaco de lã estava ensopado e refletiu se poderia tirá-lo sem despertar Kaede. Porém seria impossível se não colocasse o bebê no sofá, e não queria fazer isso.
Tentou retirar o casaco com a criança no colo, mas não conseguiu.
Estava ansiosa por conhecer Sasuke Uchiha. Olhou em volta da sala para onde o mordomo a levara. O tapete espesso cor de jade combinava com as cortinas de brocados. Duas lâmpadas ornamentadas iluminavam uma linda tapeçaria sobre a lareira, entretanto, apesar do luxo, as paredes de pedra nua davam um ar sombrio ao ambiente. Aliás, era um castelo sombrio também do lado de fora.
Novamente Sakura maldisse sua imaginação fértil e tentou se acalmar. Mas, ao fitar o bebê em seus braços, rezou para Sasuke Uchiha ser mais caloroso que sua residência.
A porta se abriu e ela ergueu os olhos depressa, o coração aos pulos. Mas era apenas o mordomo de novo.
Kakashi se deteve denotando uma leve surpresa ao ver que a visitante carregava um bebê. Não reparara na criança ao admiti-la dentro do castelo, pois Sakura enrolara Kaede no seu casaco amplo para protegê-la da chuva.
Hesitante, ele fitou por alguns segundos a criança adormecida para depois fitar Sakura.
- Lamento, mas o patrão está ocupado e não poderá vê-la, signorina. Ele sugeriu que telefone para seu escritório em Roma e converse com sua assistente pessoal que trata de seus assuntos diários.
- Telefonei para lá... várias vezes. E o que tenho para falar não é um assunto... diário.
Ela relutara em levar Kaede para a Sardenha, porém Sasuke Uchiha se recusava a atendê-la e, desesperada, decidira que a única saída era ir até sua residência. Mas parecia ter perdido seu tempo... sem mencionar o custo da passagem aérea da Inglaterra, que mal pudera pagar.
- Desejo lhe falar sobre um assunto particular - explicou - Por favor... quer dizer ao sr. Uchiha que preciso vê-lo com urgência ? Voei da Inglaterra só para isso.
A expressão impassível do mordomo não se alterou.
- Lamento, mas o signor se recusou a recebê-la.
Kakashi sentia pena da moça, mas não iria perturbar Sasuke pela segunda vez.
- Vou chamar um táxi para levá-la - avisou - Por favor, fique aqui.
- Espere...
Mas o mordomo já fora embora, deixando-a com uma sensação de fragilidade. Trouxera Kaede até ali para nada.
Ela mordeu o lábio. Em breve o bebê acordaria precisando ser alimentado, porém a viagem de volta ao hotel em Oliena levaria meia hora pelo menos. Teria que dar a mamadeira de Kaede no táxi, a menos que convencesse o mordomo a deixá-la fazer isso no castelo.
Correu atrás dele, mas encontrou o vestíbulo vazio. Enquanto pensava no que fazer, as portas duplas no final do saguão se abriram de repente de par em par e uma criada surgiu, carregando uma bandeja com copos vazios. Antes que Sakura pudesse falar, a criada já desaparecera por outra passagem.
Mas as portas duplas permaneceram abertas e ela viu um grupo de pessoas: homens em traje de gala e mulheres com vestidos de baile de seda e cetim.
Garçons com paletós brancos levavam bandejas com canapés e bebidas, serpenteando em volta dos convidados. Música e vozes se confundiam.
Uma festa ! Sakura sentiu raiva. Sasuke Uchiha se recusara a vê-la porque estava ocupado se divertindo em uma festa. Nem mesmo lhe dera chance de explicar o motivo de sua visita. Fitou o rostinho de Kaede e seu coração se estreitou. Uma fria determinação a dominou; prometera a Ino que encontraria Sasuke Uchiha e, agora que estava ali no castelo, não iria embora sem falar com ele.
Sem perder tempo, ela cruzou o saguão. Porém sentiu medo ao chegar às portas que conduziam ao salão onde se realizava a festa. Ali as paredes não eram de pedra simples, mas revestidas de madeira e iluminadas por lustres no teto abaulado e sustentado por pilastras elegantes.
Sakura gostaria que o salão estivesse vazio para poder apreciar a arquitetura. Sua vívida imaginação fantasiava cavaleiros de armadura e uma época de elegância que passara havia muito tempo. Porém a sala estava repleta de pessoas e, enquanto avançava, percebeu que a fitavam com curiosidade.
O burburinho enfraqueceu enquanto ela caminhava. A música parou. À sua frente uma figura surgiu sobre uma plataforma no final do salão. Parecia que o homem desejava se dirigir aos convidados, porém se deteve ao ver Sakura, que percebeu sua surpresa.
Qual seria a extensão dessa sala ? O chão de mármore preto e branco parecia não terminar e ela refletiu se chegaria ao fim. O silêncio e os olhares a deixavam nervosa e algo na postura e no olhar do homem sobre a plataforma a fez perceber que era ele quem Ino desejava que encontrasse.
Santa Madre ! Atônito, Sasuke fitou a mulher que caminhava em sua direção. Pelo menos pensava ser uma mulher. Era difícil adivinhar quem era sob o enorme casaco cinza com o capuz que ocultava o rosto. Contudo devia ser a visitante de quem Kakashi falara.
O que o mordomo não mencionara era que Sakura Haruno não viera só. O bebê em seus braços devia ter apenas alguns meses e estava enrolado em um xale, porém um tufo de cabelo negro e sedoso podia ser visto. Sasuke respirou fundo, lembrando-se de seu filho quando nascera.
Ignorava quem era essa mulher, mas queria que fosse embora. Esta noite estava impaciente para que todos partissem, a fim de ficar sozinho com suas lembranças.
Kakashi surgiu no salão com uma pressa que não lhe era habitual.
- Signor Uchiha, peço desculpas. Eu estava providenciando um táxi para a signorina...
- Tudo bem, Kakashi - Sasuke ergueu a mão para silenciar o mordomo - Vou receber nossa visitante inesperada.
A mulher se detivera quando Kakashi falara, mas voltara a caminhar mais depressa ainda. Sasuke desceu do estrado e com duas passadas a alcançou.
- Espero que tenha um excelente motivo para penetrar na minha festa, srta. Haruno - disse ele, com frieza - Tem trinta segundos para explicar a razão de estar aqui, antes que eu mande meus empregados levarem-na para fora.
Forçada a parar, Sakura abriu a boca para responder, mas seu cérebro estava embaçado. Só nesse instante percebia o significado da expressão muda de espanto. Ficara aliviada ao ouvir do mordomo que o homem à sua frente era Sasuke Uchiha, mas agora estava desarvorada.
Ele era alto como uma torre e Sakura precisava erguer a cabeça para fitá-lo. A primeira coisa que observou foi sua cicatriz. Precisava admitir que enfeava seu rosto bonito e másculo, porém o fato de estar desfigurado não diminuía seu magnetismo sexual; ao contrário, lhe dava uma aparência de pirata ou de cavaleiro antigo.
Não se parecia em nada com o banqueiro que ela imaginara. Seu cabelo era negro como a noite e caía quase até os ombros, e o nariz aquilino lhe dava um ar de autoridade e aristocracia. Entretanto, eram seus olhos que a cativaram. Negros e duros como ônix, a observavam sob as sobrancelhas grossas. Sakura teve a sensação de que ele podia ler seus pensamentos.
Ele aguardava pela sua resposta. Ela sentiu que todos no salão esperavam também. Engoliu em seco.
- Peço desculpas pela minha intrusão, mas eu precisava falar com o senhor... - olhou em volta - A sós.
Ele franziu a testa.
- Como ousa vir aqui sem ser convidada e fazer exigências ?
Seu inglês era perfeito, mas com forte sotaque.
A voz era profunda e rouca, fazendo-a estremecer.
No prolongado silêncio que se seguiu, Sasuke analisou a mulher.
Se Sakura Haruno era uma jornalista, ele certamente tinha todo o direito de expulsá-la. Entretanto, não podia negar que estava curioso sobre o bebê que ela trouxera em uma noite de chuva e vento.
Fitou a criança e cerrou os dentes. No passado segurara no colo seu filho muito adorado com a perfeição de suas feições pequenas. Apertara Reiji ao encontro do coração e prometera protegê-lo. Mas não cumprira a promessa e isso o assombraria pelo resto da vida.
Retornou ao momento presente e olhou em volta. Trezentos membros da equipe sênior do Banco Uchiha-Uzumaki haviam sido convidados para a festa e todos, nesse momento, pareciam hipnotizados pela cena que presenciavam.
- Venha comigo - ordenou Sasuke abruptamente para a mulher - Kakashi, diga à orquestra para continuar tocando.
Sakura correu atrás de Sasuke Uchiha enquanto ele avançava pelo salão e desaparecia por uma porta abaulada.
Ela o seguiu até o que lhe pareceu uma despensa onde garrafas de vinho e de champanhe se alinhavam em prateleiras do teto ao chão. O rumor da porta se fechando a deixou com medo, mais consciente ainda de sua altura e de sua presença onipotente no espaço minúsculo.
Ele nada fez para ocultar a impaciência.
- Fale logo, srta. Haruno. Por que está aqui ? Para seu próprio bem, espero que não faça parte da mídia - acrescentou de mau humor.
Espantada, Sakura sacudiu a cabeça.
- Não... não sou... eu...
Ensaiara tanto para esse momento, mas agora que estava ali na frente dele não sabia o que dizer. Talvez fosse melhor se calar e levar Kaede de volta para a Inglaterra, refletiu, enquanto mordia o lábio sem querer e lutava para tomar uma decisão.
Entretanto, dera sua palavra a Ino.
Ergueu o rosto para encontrar o olhar duro do homem de pé à sua frente e sentiu o coração apertado.
Um castelo medieval era o cenário ideal para ele, pensou com ironia.
Ele irradiava poder e autoridade e sentia-se que era forte e distante como os muros de granito de sua propriedade.
Talvez fosse um feiticeiro que lhe jogara um encanto. Não conseguia desviar os olhos dele e nesse momento algo aconteceu... algo inesperado e impossível de se explicar. Sentiu uma dor aguda entre as costelas como se fosse trespassada por uma flecha. "Não seja ridícula", disse a si mesma. Sempre tivera um excesso tolo de imaginação. Como poderia sentir uma ligação com um completo estranho ? Em especial um estranho cuja expressão no rosto marcado era de fria impaciência.
Ela fitou Kaede e respirou fundo.
- Vim até aqui porque a criança em meus braços é sua, sr. Uchiha - anunciou com calma.
P. S.: Nos vemos no Capítulo 2.
