Foi apenas uma coisa que me peguei pensando enquanto eu não prestava atenção na partida de RPG.
Laura ganha espaço em minha cabeça diariamente e desta vez foi necessário escrever.

Você pode usar um tradutor para tornar isso para seu idioma e eu ficaria feliz em saber que você leu.


Ela gostava de boxe, isso a lembrava de seu pai. A lembrava das tardes de sábado que iam assistir às lutas, mãos dadas e um saco de pipocas doce. Seu pai gritando, de pé irritado apontando cada erro que seu pugilista favorito estava cometendo. Era algo deles. Pai e filha.

Laura aprendeu cada jargão e conforme crescia seu fascínio aumentava. Mas ali, a milhares de anos luz distante de seu local de nascimento, ela tinha pouco estímulo que a fizesse se lembrar de seu Pai e de sua família. Claro, nunca iria esquecer deles, mas não havia fotografias, não havia pertences. Ela não possuía nada que a lembrasse de casa, nada além das poucas roupas e aquela pulseira. Todo o resto estava em sua memória, e na maior parte do tempo ela estava tão envolvida em seu trabalho como Presidente das doze colônias, que as memórias ficavam em um lado inconsciente da mente. E assim que ouviu o que estava acontecendo em Galactica ela soube onde tinha de estar.

Ela precisava ver isso, precisava se sentir perto de seu pai, se sentir em casa. Encontrar Bill foi uma satisfação à parte, era sempre bom estar com ele. Eles tinham uma conversa franca e seus gostos se alinhavam em um nível que Laura simplesmente amava. Riu com ele, conversaram um pouco, lado a lado assistindo Kara versus Hot Dog.

Sentiu o sangue esfriar em suas veias quando ele entrou no ringue com uma expressão dura. Torceu os dedos, ansiosa pois sabia o que aconteceria e se aproximou mais, apoiando as mãos no tatame ela o olhou com atenção ao ouvir ele chamar seu oponente.

Era tão claro para ela como ele se sentia sobre tudo o que aconteceu. Aquela conversa sob as estrelas em New Caprica estava bastante fresca em sua mente. Assim como a sensação de estar com Bill sem o peso da Presidência para os oprimir.

Por um tempo ela se sentiu nostálgica, mas conforme Helo enfaixava os punhos do Almirante a nostalgia foi substituída por ansiedade, volta após volta. Ela sabia o quão bom lutador ele era, o tinha visto treinar com Lee algumas vezes. Mas ainda assim ela sentia algo se mexendo dentro dela.

Sentiu cada soco, cada golpe como se tivesse sido em si própria e o ajudou o melhor que podia, levando gelo a sua têmpora e sua sabedoria sobre o esporte, mas Bill não visava a vitória ele queria se redimir por ter permitido que a tripulação descesse para o planeta. Ele buscava a redenção por ter abandonado todos eles naquele planeta frio e quase inabitável. E quando finalmente tudo teve fim ela ofereceu seu ombro como apoio da mesma forma como lhe foi oferecido nos piores momentos de sua luta contra o câncer.

Andaram juntos, vencendo os corredores da Galactica em direção aos aposentos do Almirante. E ao passar com ele para o interior deixou todo o resto do lado de fora junto dos fuzileiros navais e seus seguranças. Não havia mais títulos, responsabilidades ou pressão. Eram apenas Bill e Laura da mesma forma que foram sob as estrelas enquanto ela contava a sua tola intenção de construir uma cabana à beira do rio.

- Sente-se. - ela indicou o sofá que costumavam dividir quando queriam silêncio e a tranquilidade da companhia que o outro oferecia. Eles tinham idade suficiente para encontrar conforto no silêncio, para apreciar isso.

Deu um passo para trás e olhou o rosto dele, o sangue brilhava vermelho criando um forte contraste com o azul profundo de seus olhos. Unindo as sobrancelhas ela seguiu para a mesa de carvalho, havia usado o suficiente para conhecer o conteúdo das gavetas, que ela secretamente espiou quando estava sozinha. Havia inclusive uma que era de uso exclusivo dela cedida pelo próprio Adama em uma vez que ela precisou passar alguns dias na Galactica.

Após ver todo o tipo de coisas espalhadas, Bill silenciosamente puxou a primeira gaveta da esquerda, virou seu conteúdo sobre o sofá e entregou a ela. Laura deu uma gargalhada na época e guardou suas coisas ali. Coisas bobas, um caderno de notas, um batom já pela metade… Coisas corriqueiras destas que a pessoa deixa sobre a mesa para a necessidade de um uso rápido, mas Bill gostava de tudo organizado. Uma dessas coisas militares, exceto pelos livros que se espalharam por todo lugar.

- Primeiro vamos limpar seu rosto, depois iremos ver a profundidade dos cortes e se houver a necessidade de pontos eu o levarei até Cottle.

- Eu estou bem.

- Claro que está, você é o Almirante William Adama, tudo sempre está bem.

Pegou o kit de primeiros socorros e se sentou ao lado dele, apoiando a mão no rosto o fez olhar em seus olhos. Bill tinha essa coisa que a atraía, que a fazia querer estar perto, mesmo que seus cargos os impedissem de ser algo mais. Suspirou e começou a limpar o sangue que já estava coagulado.

Quando o rosto dele estava finalmente limpo ela sorriu, satisfeita com o trabalho minucioso que conseguiu fazer. E aproximou o rosto com a única intenção de verificar a profundidade dos cortes. Sabia que Bill não iria querer discutir o que o levou a trocar socos com Chief Tyrol. Eles não precisavam se explicar um para o outro, sabiam ler suas entrelinhas bem e essa era a melhor relação que Laura já teve em sua vida. Era sincero, verdadeiro. E nenhum dos dois precisava falar sobre isso. Sobre eles, as palavras nunca foram prioridade.

Tampouco conversaram sobre o que ocorreu em New Caprica. Foi natural, algo que eles precisavam sentir e o momento os permitiu ser apenas Laura e Bill. Exatamente como agora.

- Não é profundo, acho que um antisséptico é suficiente. - sua mão ainda no rosto do Almirante foi coberta pela mão dele.

A troca de olhares era intensa, como se ele pudesse ver cada pequeno segredo que ela guardava, então ele se aproximou e tocou os lábios nos seus. Aquela sensação de familiaridade surgindo e se espalhando em ondas quentes, aconchegantes. Os lábios se separaram, transformando a suave pressão em um beijo lento, ali era onde todo o sentimento se transmitia, era a forma como se comunicavam quando as palavras não conseguiam transpor as barreiras impostas por seus cargos.

Se afastaram o suficiente para respirar, ela ainda podia sentir o cheiro metálico de sangue misturado com o cheiro que ela aprendeu a associar a Bill. Um cheiro leve de pele ao sol, quente e sedutor, intenso.

- Eu preciso de um banho. - falou meio rouco sua voz com aquele tom cansado que ele usava quando encerrava uma reunião.

- Está me expulsando?

- Convidando.

Os olhos dela seguiram o corpo largo de Bill que se afastou poucos passos apenas para parar e remover os tanks militares expondo as costas salpicadas de sardas. Laura ajeitou os óculos apreciando a forma como as omoplatas se moviam conforme ele dobrava a roupa e a deixava sobre uma cadeira. A mordida no lábio foi inconsciente e afirmando para si, que toda a responsabilidade havia ficado do outro lado da escotilha ela se levantou, suas mãos tremiam ao abrir os botões de seu terno escuro. Aquele calafrio a fez rir, e ela suspirou de frustração quando seus dedos lutaram contra o botão da camisa em um leve tom de menta.

Sob o escrutínio dele, ela abriu cada um dos botões e removeu a peça expondo um sutiã branco simples. O próximo passo parecia espelhado, cada um removendo os sapatos, meias e calças até restar apenas as roupas íntimas e uma necessidade de sentir pele com pele uma segunda vez. A ansiedade juvenil não cabia ali, eles precisavam aproveitar, aprender os contornos um do outro pois não poderiam dizer quando isso aconteceria novamente.

Beijos, carícias, gemidos abafados. Ele havia feito uma deliciosa trilha de beijos até o vale de seus seios onde a língua cálida percorreu o contorno do bojo fazendo a pele se arrepiar. Tropeçaram em direção ao pequeno banheiro, suas roupas íntimas perdidas no caminho. A água era um pouco mais fria do que ela teria preferido e a fez soltar uma exclamação aguda.

Por alguns minutos foi apenas banho compartilhado. O que quase a fez rir com um pensamento de que, talvez, devessem ter feito isso durante a crise hídrica. Gemeu baixo com as mãos dele em seus cabelos, o shampoo sendo massageado em seu couro cabeludo. Bill tinha alguns pequenos regalos que a deixava com um pouco de inveja. Uma cama de verdade, um banheiro completo, shampoo.

Ela estava divagando sobre o quão bom era sentir as mãos de alguém a cuidar de seus cabelos, lembrando-se de como era ir a um salão, cortar os cabelos, fazer as unhas. Ela só percebeu a mudança nas intenções quando sentiu o corpo dele pressionando o seu. A ereção rígida contra suas nádegas e a boca dele sugando a curva de seu pescoço.

Laura estava totalmente vocal, permitindo seus gemidos saírem livres, um pouco diferente da primeira noite deles. Girou o corpo e sentiu a parede fria ao ser empurrada, um pouco menos gentil do que esperava.

- Amo sua pele, seu cheiro… - Bill rosnou em seu ouvido e Laura novamente gemeu.

Erguendo a perna eles encontraram um bom encaixe, um único movimento firme e ela se sentiu completa. Adama tinha um poder sobre ela, a deixava inteira quando ela sentia que estava prestes a despedaçar. Bastava olhar aqueles azuis, ouvir o tom grave de sua voz ou simplesmente desfrutar de sua companhia.

- ...amo você. - ela ouviu a confissão dele e todo seu corpo estremeceu fazendo Adama rir. - Não se preocupe em retribuir, eu sei.

O achou um pouco confiante demais, quase arrogante. Ele sabia, era estranho ouvir isso porque ela própria não tinha qualquer certeza. Ela sentia muitas coisas, mas amor? Era isso? Não podia dizer. Laura nunca se permitiu ir além do físico com qualquer homem. Nunca amou Adar, mas também nunca teve uma conexão tão pura como a que tinha com Adama. Ela precisava entender isso melhor, era muito novo, mas todas suas preocupações iam se desfazendo conforme ele se movia, uma mão firme em seu seio, a boca em sua pele e ela só podia implorar por mais.

Quando retornou a Colonial One, mais tarde naquele dia, seus cabelos ainda estavam úmidos e ela sabia que havia um suave sorriso que não conseguia esconder.

- Madame Presidente, tudo bem?

Um gemido de confirmação foi tudo o que ela ofereceu a Tory que continuou a olhando como se algo em sua aparência estivesse muito fora do normal. Mas ela não se importou, não era a primeira vez que usava o chuveiro de Bill, era apenas a primeira vez que haviam tido sexo lá, sob a água. Seguiu para o fim da aeronave, onde uma cortina separava seu modesto quarto do restante da nave de passeio.

Sozinha, ela deu uma volta completa ao redor de si mesma e se sentou na cama improvisada, uma gargalhada veio e foi se tornando mais alta. Ela estava se sentindo tola. Talvez um dia, quando ela entendesse completamente seus sentimentos, pudesse confirmar.

Talvez em algum momento ela pudesse dizer que o amava.

Fim


Eu nunca tinha escrito nada sobre BSG. Também faz pouco tempo que pude assistir toda a série, mas Laura tem toda a minha admiração e respeito.

Espero que tenham apreciado.