LIAM
Eu ajudava o padre a empilhar caixas com as doações dos fiéis na sacristia no fim da tarde de Sexta. Tinha chegado uns vinte minutos atrás e ainda podia sentir o cheiro forte de desodorante pós-banho emanando do meu corpo depois do treino de lacrosse.
Apesar de estar trabalhando perfeitamente bem, sentia-me irritado. Tinha aparado a droga dos pelos do pau e aquela merda estava começando a me incomodar. O homem ao meu lado me lançava olhares desconfiados a todo momento em que eu coçava o saco.
Senti meu rosto corar, mas era uma puta situação desconfortável. Eu simplesmente não podia parar. Quando se começa a fazer essas coisas, simplesmente não dá pra parar.
— Liam, meu filho. Espero que isso seja só uma simples alergia. — Ele gesticulou enquanto falava. Sabia que ele não ficaria calado por muito tempo.
— Padre, eu... Eh, desculpe por isso. Ai, merda! — comecei a coçar de novo.
— Olha o linguajar, rapaz! — ele me repreendeu. Por um momento esqueci que estava na casa de Deus.
— Perdão, padre.
Tentei me recompor. Coçar por cima da roupa nem de longe aliviaria aquilo que eu podia denominar com "A Coceira Devastadora".
— Primeiramente, um rapaz descente não faz essas coisas — gesticulou para minhas áreas baixas — na frente das pessoas. Segundamente, cuidado com a higiene das mãos, esses produtos serão doados para pessoas carentes, necessitadas, que não possuem meios de consegui-las tão facilmente como você, então não vamos querer ter algum tipo de contaminação. E outra coisa, profanar esse palavreado na casa do senhor é um pecado gravíssimo.
— Perdão, padre — disse, com a cabeça abaixada.
— Você terá que se ajoelhar diante do senhor e se desculpar por sua mal criação perante ao templo divino.
— Sim, senhor.
Sabia que tinha cometido algumas falhas, e que o único jeito de consertar meus erros seria fazendo o que ele me instruiu.
Me dirigi ao altar, ajoelhando-me como ordenado. Levou um tempo até que eu tivesse concluído minhas preces de desculpas.
Quando voltei para a sacristia, Peter não estava em lugar algum. Ele havia terminado o serviço sozinho, o que me fez concluir que deveria voltar para casa. Caí para o corredor, me dirigindo à saída. Dos vitrais das janelas dava para ver que já era noite, e eu andava tranquilamente. A igreja era silenciosa na Sexta à noite, e eu apreciava muito aquilo, porque geralmente aquele corredor era um caos.
Passei pela sala de jantar do padre, e depois pela sala de estocagem de materiais. Era aonde ficavam velas, incensos, imagens e muitas outras coisas. Foi passando por lá que ouvi um barulho seco. Como se algo tivesse escorregado e atingido no chão, espatifando e reverberando pelo vazio.
— Padre? — chamei. Ele não havia mencionado que precisaria da minha ajuda com alguma outra coisa. — Peter, você está aí?
Houve silêncio por um tempo, mas logo depois pude ouvir mais movimentos bruscos vindo de dentro do local. Havia alguém ali.
— Peter? — chamei novamente em vão. Ninguém respondeu. Obviamente não era ele, o padre era espalhafatoso e tagarela, em um caso assim, ele teria sacado para fora imediatamente e me dado algum trabalho para fazer.
Fui até uma mesa na extremidade e apanhei uma imagem de uma santa, tomando o devido cuidado de tapar seus olhos para que não me visse fazendo o que quer que fosse que viria em seguida. Aproximei-me lentamente da porta enquanto dividia minhas impressões entre as batidas frenéticas do meu coração e os movimentos barulhentos e descuidados da pessoa ali dentro. Só então comecei a me perguntar algumas coisas:
1. E se fosse um bandido? O que eu faria?
2. E se esse bandido estivesse armado? Eu tinha pavor de armas, provavelmente desmaiaria após vê-lo na minha frente.
3. Se eu o visse, mesmo desacordado, seria uma testemunha. Ele me mataria por isso?
4. Eu ainda era virgem. Havia uma possibilidade — aliás, todas — dele me matar. Então tecnicamente eu jamais saberia o que é transar. Jamais conheceria as sensações do sexo.
5. Eu morreria na casa do senhor? Seria Liam, o garoto assassinado, virgem e desafortunado no templo sagrado?
Droga, eu estava mesmo muito fodido. Minhas mãos tremiam quando as pus sobre a maçaneta da porta e pequenas gotículas de suor brotavam miseravelmente pela minha testa.
Respirei fundo, tomando coragem e relembrando meu mantra sub-sagrado "Liam Dunbar, seja homem, você tem um pau grande e colhões robustos, portanto faça isso valer a pena!"
Girei a maçaneta. A sala estava escura, e a primeira coisa que fiz fora tatear pela parede até sentir o interruptor nos meus dedos. Acendi a luz em seguida e varri a área com a visão instantaneamente até perceber aquela figura grande e mascarada à minha frente.
Ele veio rapidamente para cima de mim, deu para ver a fúria em seus olhos. Certamente iria me matar, só que fui mais rápido e o acertei na cabeça primeiro.
Ele cambaleou para trás com as mãos no local afetado onde espatifei a imagem de gesso. Parecia que ia se manter de pé e contra atacar, então o chutei no saco. Ele urrou de dor e caiu de joelhos no chão, apalpando os órgãos genitais com as duas mãos.
Não tive pena. O soquei no rosto.
Foi quando alguém apareceu na porta.
— Mas o quê tá acontecendo aqui? — Peter gritou. — Theo! Ai, meu Deus!
Theo, seja lá quem fosse, retirou a máscara. Havia sangue escorrendo do seu nariz e sua cara era de desespero total.
Peter foi até o seu encontro, auxiliando-o ao ficar de pé.
— Mas o que foi que deu em você? — ele vociferou para mim.
— Padre, ele é um...
— Um o quê? — Peter soava enlouquecido. — Este é Theo, meu novo ajudante.
Ai, meu Jesus!
— Ajudante? — como assim? Fiquei confuso. Mas foi ai que lembrei de Peter ter mencionado duas semanas antes de um garoto novo ou algo assim que havia oferecido serviços à igreja. — Meu Deus! — bati na própria testa. — Me perdoe, o que eu posso fazer?
— Nada! — os dois gritaram.
— Não faça nada. — Enfatizou Peter. — Aliás, faça sim alguma coisa. Vá embora daqui.
— Mas padre...
— Agora, Liam Dunbar!
Era tarde demais. Eu havia tirado do sério o padre mais paciente e misericordioso do planeta. Havia o decepcionado.
Eu tinha mesmo que sair dali imediatamente. E quando digo imediatamente, me refiro a sumir da igreja, da cidade, do país, do mundo.
Sumir completamente.
Só isso.
