Eram nove da noite e Trent finalmente havia chegado em seu apartamento após um longo dia de trabalho. Tinha um emprego em uma gravadora, como produtor musical, e passava seus dias se encarregando de cuidar para que os álbuns e singles de seus cantores saíssem como planejado. O músico era quem tinha controle criativo sobre o trabalho de muitos artistas e, por vezes, chegou a auxiliar alguns deles na composição de canções.

A carreira musical de Trent foi breve, já que, após duas turnês mundiais, o rapaz descobriu que preferia ficar por trás dos palcos. Desde então, vinha trabalhando como compositor e estabelecendo sua carreira como produtor.

Sua vida pessoal permanecia longe dos holofotes desde o fim de Drama Total, há nove anos. Trent, agora com 27 anos, sentia-se extremamente solitário. O programa de Chris McLean lhe rendeu um sucesso incomensurável, e para sempre seria grato pela oportunidade que lhe foi dada. No entanto, ao mesmo tempo que sentia-se completo profissionalmente, sentia que sua vida amorosa jamais havia sido tão vazia.

O músico sabia que era extremamente atraente e que milhares de mulheres se derreteriam por ele, apenas ouvindo-o tocar seu violão. Por anos, namorou. Namorou muito. Chegou até a perder a conta de quantas mulheres e homens passaram por sua vida e se foram como um carro trafegando em alta velocidade numa longa rodovia. Nenhuma dessas pessoas, porém, foi tão especial quanto sua ex-namorada Gwen.

O músico pegou um copo, encheu-o de whisky e, em seguida, foi até a varanda de seu apartamento observar as estrelas.

"Ursa Maior… Ursa Menor… Leão…" -tomou um gole de sua bebida. "Não acredito que ainda lembro disso tudo. Gwen, você realmente entrou na minha cabeça e nunca saiu."

Trent dá um longo suspiro, colocando seus dedos sobre seus olhos. Na sua mente, passava um compilado de momentos que havia tido com Gwen, mostrando toda a magia de seu relacionamento e o amor que se perdeu.

Lembrava-se de Wawanakwa. Do primeiro abraço que compartilharam, do primeiro beijo, de quando incentivou-a a não desistir do prêmio - apesar de tê-lo perdido para Owen. Depois, sua mente voltava-se para os meses nos quais estiveram juntos antes da segunda temporada do programa.

"Isso é deprimente pra caralho, Trent." -diz o músico, abrindo seus olhos. "Primeiro que com a medicação que você toma, não deveria nem estar bebendo. Segundo, você e Gwen terminaram há dez anos, e terceiro, você está pensando em segunda pessoa, o que torna tudo ainda mais deprimente."

O músico voltou a olhar para as estrelas e lembrou-se de todas as vezes que olhava para o céu com Gwen nas noites em que saíam de suas cabanas no acampamento. Por vezes, saíam apenas para ficar juntos e acabavam adormecendo abraçados sob a luz do luar. Essas eram as noites mais felizes da vida de Trent.

"É deprimente… mas memórias são tudo o que eu tenho agora." -suspira. "Será que ela lembraria de mim olhando as estrelas?"

Trent sabia que a resposta provavelmente seria não, mas gostava de se agarrar na menor porcentagem favorável possível. Não sabia se a gótica ainda lembrava seu nome, tampouco a seguia em suas redes sociais. Para ele, acompanhar a vida de seu grande amor do lado de fora, como um mero espectador, doía mais do que sequer saber informações básicas, como cidade de residência, ocupação e estado civil.

Talvez, se bebesse o suficiente, teria coragem de segui-la no Instagram ou apenas olhar sua foto mais recente. No fundo, Trent não queria criar essa coragem, por mais que se tratasse de Gwen.

Fechou seus olhos novamente, e surgiu uma imagem de si mesmo com Gwen no carro da mãe da gótica. Aos 16 anos, Gwen havia tirado sua carteira de motorista recentemente e, sempre que podia, levava Trent para dar uma volta pela cidade.

Na noite em questão, o horário beirava às onze da noite, mas resolveram sair do mesmo jeito. Gwen buscou Trent em sua casa.

-Você tem horário pra voltar?

-Não, meu bem. -diz Trent, tirando seu casaco e o jogando no banco traseiro do carro. -Disse pro meu pai que iria passar a noite na sua casa.

-E eu disse pra minha mãe que passaria na sua casa. -ri, dando partida no carro.

-Para onde vamos hoje? -pergunta o jovem Trent, entrelaçando seus dedos nos cabelos azuis da namorada.

-É surpresa, meu amor. -a jovem Gwen rapidamente tirou seus olhos do volante e olhou para Trent. A lembrança de seu olhar apaixonado fez o coração do músico bater mais rápido, como na primeira vez em que a viu.

Trent abriu seus olhos, bebeu o restante do whisky e pensou:

"Patético."

Pegou a garrafa, encheu seu copo novamente e tomou mais um gole.

Mesmo que tentasse evitar, seus pensamentos se voltavam a Gwen e na falta que sentia de tê-la consigo.

"Dez anos."

Voltou a lembrar da noite que saíram de carro. O volume da música no rádio estava alto e o casal cantava cada música tocada.

-Trent… -diz Gwen. -Onde você espera estar daqui dez anos?

-Não me interessa o lugar, contanto que seja contigo, gata. -suas palavras, antes inofensivas, agora soavam como um castigo para Trent.

-Tenho certeza que estarei feliz pra caralho se estiver contigo. -diz Gwen, rindo.

Os dois permaneceram em silêncio por alguns momentos.

-Trent?

-Fala, gata.

-Vou te contar um segredo mas você não pode contar para ninguém. -diz, sem tirar os olhos do volante.

-Eu prometo.

-Talvez… só talvez… eu te ame. -olha rapidamente para o rapaz e depois volta a focar na estrada à sua frente. -E talvez eu ache você a pessoa mais incrível que já pisou na Terra.

-Talvez?

-É, talvez. -Gwen sorriu.

Trent apenas deu uma risadinha e voltou a cantar a música da rádio.

Ao chegar no lugar de seu encontro, o casal desembarcou e foi até a beira de um rio. O local era afastado da cidade, e lá poderiam fazer o que quisessem, sem se preocupar com outras pessoas.

Trent assistia seu amor por Gwen florescer em câmera lenta. Naquela noite, a gótica o fez sentir tudo. Uma calmaria, uma paixão, uma felicidade e uma adrenalina, como jamais havia sentido.

-Gwen?

-Oi, Trent. -diz a gótica, o abraçando por trás.

-Eu te amo. -Trent virou-se de frente para a namorada. -E não é um talvez.

Quando lembrava de ter ouvido sua voz baixinha cantando em seu ouvido e sentido seu toque, seu corpo arrepiava, o fazendo querer ficar ali, preso naquele momento, para sempre.

Mas eram apenas memórias.

"Dez anos." -finalizou a bebida que ainda restava em seu copo.

Trent pôs de lado a garrafa de whisky e foi até seu sofá. Pegou seu celular e, por um gigantesco acaso, Geoff o havia mencionado em uma publicação no Instagram.

Se tratava de uma foto que o elenco de Drama Total havia tirado após o fim de Ilha dos Desafios e, coincidentemente, mostrava Trent abraçando Gwen.

Seu coração palpitou ao ver aquela foto. Talvez fosse a bebida falando - Trent sempre foi muito fraco para bebidas - mas precisava entrar no perfil de Gwen, para pelo menos saber como ela estava e se havia se tornado uma artista, como sempre sonhara.

Pela primeira vez, Trent abriu seu perfil. Seu nome de usuário era simples, mas eficiente: @gwendolyn. Em sua biografia, constava que residia na Califórnia e trabalhava como animadora de um desenho animado do Adult Swim. Olhou algumas de suas fotos: algumas mostravam Gwen em suas viagens pelo mundo, outras, mostravam a gótica com seu cachorro.

Mesmo de longe, sempre torceu pela felicidade de sua ex-namorada e sentia-se feliz por ver que estava bem. Pensou em apertar o botão de "seguir", mas optou por fechar o perfil de Gwen para evitar uma tristeza maior do que a que já sentia. Talvez segui-la não fosse a decisão certa a se tomar no momento, pois estava bêbado e triste. Talvez ela estivesse melhor sem ele.

Sua mente voltou à época na qual tudo começou a dar errado. Em sua cabeça, Trent acreditava que faria tudo do jeito certo, mas sua insegurança quanto a Duncan acabou por dar um fim em seu relacionamento. Ao menos, achava que teria sido esse o gatilho do término.

Naquela altura do campeonato, porém, o ex-delinquente era o menor de seus problemas. As memórias que Trent reproduzia em sua cabeça não eram de Duncan e Gwen, e sim dele mesmo com ela. Por mais que remetessem a situações de euforia, ainda sentia-se triste por lembrar de tudo o que havia acontecido e nunca ter esquecido nenhum detalhe.

"Que merda, Trent. Por que você tinha que arruinar tudo?"

Realmente acreditava que tinha sido o único culpado pelo término, mesmo que quiçá não houvesse um culpado. Por anos, quando ainda tinha o contato de sua ex-namorada, pensou em ligá-la, e esperava ligações vindas da mesma. Havia planejado o que lhe diria: iria pedir perdão e tratá-la da melhor maneira que pudesse, mas a ligação nunca existiu.

"Nunca mais bebo, puta merda." -pensa Trent, dirigindo-se ao seu quarto.

Deitou em sua cama e voltou a pensar em Gwen. Lembrou de vê-la saindo de perto quando decidiu terminar tudo da maneira mais vívida possível. Quando tentou alcançá-la para mudar o fim da história, seus olhos se abriram novamente. Não havia como mudar o fim. O "felizes para sempre" do casal nunca chegou.

"Nós éramos selvagens e brilhávamos, como se fôssemos fluorescentes." -suspira. "Por que você não volta pro meu coração, Gwen?"

Pegou seu celular novamente, foi até o perfil de Gwen e apertou o botão "seguir", de maneira impulsiva.

"Foda-se, isso é um problema para o Trent do futuro lidar."

Colocou o telefone no modo silencioso, o pôs em sua estante e virou-se para o lado oposto para dormir. Enquanto dormia, a tela de seu celular iluminou a escuridão de seu quarto com uma única notificação:

[@gwendolyn te seguiu de volta]