Nota: Decidi traduzir os meus fics de Kuroshitsuji porque sim.
Noutro dia estava a pensar que ainda não tinha feito um fic de um pesadelo este ano. Portanto claro que tive dois pesadelos de seguida, ambos que me acordaram assustada.
Apesar deste não ter sido criado sob as habituais circunstâncias, ou escrito com a música habitual do Igorrr (o nome original é de uma), conta como drabble da minha série de pesadelos pelo contexto. Os outros fics vão estar listados em baixo.
Disclaimer: Don't own Kuroshitsuji
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Quase lá.
Estava quase lá.
Só tinha de correr um pouco mais rápido.
Só um pouco mais. Só...
Para onde estou a ir?
Estacou, sem fôlego, ligeiramente tonto, olhando à sua volta. Era de noite, numa estreita rua com pedras da calçada escassamente iluminadas por candeeiros a óleo que pintavam tudo de um amarelo queimado, sombrio. As casas erguiam-se de ambos os lados, velhas, sujas, em ruínas, e mal se via o céu, uma fatia negra sem estrelas lá em cima. A rua parecia familiar, mas não conseguia identificar onde era, ou de quando era; um caminho que cruzara em tempos enquanto Grim Reaper?, alguma rua há muito perdida por onde deambulara quase morto durante anos há ainda mais tempo perdidos?
Como vim aqui parar?
Conhecia este lugar. Tinha de o atravessar, depressa.
Tinha de correr. Depressa. Estava atrasado. Seria tarde demais. Tinha de lá chegar. Senão...
- Undertaker.
Voltou a parar, desta vez devido à voz - uma voz suave, de uma criança. Familiar - chamando o seu nome. Sim, esse é o meu nome. Esse é o meu nome agora. No final da rua estreita, onde deveria haver uma passagem para ele correr, estava agora um entrave criado por uma criança, um pequeno rapaz.
Conhecia aquele rapaz.
- Para onde vais? - perguntou Ciel. O rapaz estava mais novo do que se recordava dele, de como o conhecia; voltara a parecer ter dez anos. Ciel não deveria ainda ter dez anos, mas sim estar mais crescido. Portanto, uma parte do seu cérebro estava ciente que havia algo errado aqui. Ainda assim, os pesadelos têm essa magia; parecem reais independentemente do seu absurdo.
- Preciso de me despachar - insistiu apesar disso. Tinha de ir embora, de outra forma seria demasiado tarde-
-para onde estou a ir?
- Para onde vais? - a pergunta voltou a ecoar, mas os lábios de Ciel não se moveram; o som partiu de trás. Girou sobre os calcanhares e encontrou outro rapaz, outro Ciel, bloqueando o caminho de onde acabara de passar. Duas crianças pequenas não o deveriam travar, mas por algum motivo, dois portões tinham-se erguido atrás deles, selados, trancando-os aos três. Agora não podia avançar nem recuar. Não havia saída.
Um arrepio percorreu a espinha de Undertaker. Um medo sem nome apertou-lhe as entranhas. Estava atrasado. Estava preso, congelado no lugar, não conseguia correr assim. Era tarde. Tarde demais.
- Estás à procura dela, não estás? - Um dos Ciels perguntou. Não conseguiu identificar qual.
- Estou - respondeu com uma certeza que não tivera apenas há segundos atrás. - Tenho de ir.
- Vem connosco por aqui - disseram eles, os dois gémeos idênticos aproximaram-se, apontando para uma porta do lado da rua estreita.
Não, não posso, tentou dizer, mas as palavras não passaram a sua garganta apertada. Os gémeos moveram-se de alguma forma sem reparar, agora juntos à sua frente, tomando ambas as suas mãos nas deles e puxando-o numa nova direcção, esta nova porta, para um novo lugar que Undertaker não conhecia e nunca vira. Uma casinha degradada, velha e empoeirada, abandonada, ou assim parecia, mas havia lá alguém. Um homem belo, completamente deslocado na sua postura e vestes comparado com a casa destruída, voltando-se para eles, um pai recebendo os filhos de volta a casa.
Undertaker sentiu uma pontada no peito.
- Vincent.
- Aí estão vocês - disse Vincent, não a ele, mas aos dois rapazes que se apressaram a atirar nos seus braços abertos. Não parecia o ter ouvido chamar o seu nome, ou reparado em Undertaker de todo. - O que vos disse, meninos, hm?
- Olhe, Pai - um dos gémeos apontou. O olhar de Vincent ergueu-se, encontrando o de Undertaker.
- Oh, estou a ver. Pareces um pouco cansado. Precisas de descansar?
Não posso, repetiu ele de novo, e de novo, as palavras não se formaram em voz alta.
- Ele diz que tem de se despachar - o outro gémeo respondeu. Vincent tomou as palavras do filho com atenção, acenando devagar e voltando-se de novo para Undertaker.
- Para o que estás atrasado? Já não é tarde demais?
Aquele mesmo medo, aquele mesmo arrepio de antes, apoderou-se do seu corpo e a adrenalina, que não se extinguira de todo, voltou a bombear, acelerando a sua respiração, o seu cérebro.
- Não. - Não. - Não, tenho de ir. Tenho de a encontrar.
Vincent esboçou um sorriso triste no rosto; Undertaker conseguiu apanhar um vislumbre ao correr para a porta, não aquela que atravessara com os gémeos mas sim uma outra, encontrando-se de novo na rua, ainda de noite, mas num novo local. Confuso e tentando orientar-se apressadamente, finalmente retomou a corrida, já sem saber para onde se dirigia.
Onde estou?
Onde estás t-
O bater do seu coração afogou todos os outros sons da noite, até o som dos seus passos contra as pedras da calçada. Apenas a urgência, o medo de não a encontrar, de falhar, de não ser suficiente.
Suficiente quê?
Eventualmente, contra aquela luz amarelo-fogo arrepiante, um contorno começou a tomar forma à distância. E Undertaker arquejou.
Sim. Sim, não era tarde demais, ele...
Correndo mais depressa, tão depressa quanto conseguia, um súbito som metálico de uma corrente e medalhões começou a correr furiosamente junto com ele. Candeeiros de rua e casas vazias passaram por ele num clarão e abriram-se num campo aberto onde ela estava, sozinha, como se aguardasse alguém.
Ela voltou-se para ele. O seu rosto era uma névoa, feita de sombras e lágrimas e bater de asas, mas era ela. Ele sabia que era ela.
- Chegaste tarde demais.
As palavras prenderam-se em torno das suas pernas, do seu coração, e estacou bruscamente.
O quê? Não.
Não, ele estava aqui. Conseguira, ele conseg-
- Não. Por favor. Eu consegui. Eu consegui-
O rosto sem rosto à sua frente sorriu. E começou a cair para trás, a cair, e ele só pôde ver como a sua forma vestida de branco caía para a boca de um poço que não estivera lá antes, uma escuridão que a engoliu, para sempre, engolida pelo ventre da morte. Caindo para longe do alcance da mão que ele desesperadamente atirou atrás dela, do grito que soltou.
Não.
Não.
Não.
Porquê?
- Claudi-!
AaaaahHHHHHH! ! !
NÃO!
Undertaker caiu de volta no corpo e acordou num salto. Ligeiramente tonto e sem fôlego, olhou à sua volta para ver o interior do quarto onde claramente dormitara na mansão dos Phantomhive. Recuperando lentamente os sentidos, as picadas sob as pálpebras e no interior da garganta sendo os dois primeiros sinais sensoriais que sentiu, voltou então a cabeça como um chicote para a cama que deveria estar de vigília. Estava vazia.
- Ciel- - tentou, mas ao levantar-se abruptamente do lugar, uma ligeira vertigem forçou-o a focar a sua atenção em equilibrar-se sobre os dois pés em vez disso. Era pelo melhor, de facto; não era suposto chamar o nome do Conde de forma tão descuidada.
- Undertaker.
Virou a cabeça de novo, agora achando o Conde que deveria estar a ocupar a cama. Estava de pé em frente da porta, a sua forma recortada pelo luar que entrava pelas janelas. - O que estás a fazer?
- Deveríeis estar na cama - respondeu ele de imediato, apenas para receber um resfolegar e um sorriso.
- Para quê, para ser acordado por ti? Que barulheira. De que me serve que tu adormeças aqui, e ainda por cima acordes a gritar? Teria apanhado um susto e tanto se estivesse na cama.
- Perdoai-me, Conde - respondeu Undertaker. Ciel agitou a mão despreocupadamente como que para afastar o assunto, mas assim que começou a mover-se, Undertaker detectou uma oscilação no seu passo. Apressou-se na sua direcção, um movimento súbito que deveria ter feito a sua corrente de medalhões tinir se ainda a tivesse em torno da cintura, mas agora apenas o sussurrar das suas roupas se escutou no quarto. Apanhou o rapaz nos braços antes de ele se desmoronar no chão.
- Ah, raios... outra vez...
- Não deveríeis estar de pé. Precisais de descansar.
- Porque é que ainda não funciona? Porque é que ainda é assim? - reclamou Ciel, perturbado.
- Precisais de mais tratamento. Não deveríeis estar a pé a esta hora. Vamos para a cama.
- Não estou cansado, Undertaker!
Eu estou.
Ainda não estava a funcionar. Ainda não conseguira.
Ainda não era suficiente.
Conseguira finalmente aperfeiçoar o seu projecto das Bizarre Dolls, mantivera um corpo morto funcional e activo durante três anos, conseguira por fim conceder-lhe vida novamente, dar-lhe memórias, uma voz, vontade, inteligência, tudo menos uma alma, e mesmo assim ainda não funcionara. Ainda não o aperfeiçoara de todo. Ainda não era suficiente.
Só tinha de avançar um pouco mais, estava quase lá, mas ainda não. Ainda era tarde demais. Tal como no seu pesadelo.
Tinham aquela magia; os pesadelos pareciam reais independentemente do seu absurdo.
Undertaker desistira há muito de decifrar os significados dos seus pesadelos. Não interessava. Vivo ou morto, acordado ou a dormir. Os seus fracassos estavam em todo o lado. Nunca acabavam.
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おわり
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Nota: Os outros fics da série de pesadelos+Igorrr são:
'Escolhas mais difíceis/fáceis', 'Pesadelos', 'Tão real quanto a dor', 'Et Dixit Dominus', 'Canção para embalar uma criança morta-viva'
Obrigado por lerem, se acharem erros por favor digam.
