Prólogo
Portland, 23 de dezembro de 1996 18:30
Derek Shepherd não podia acreditar em sua falta de sorte, é claro que não teria nenhum avião de volta para Nova York dois dias antes do Natal, para piorar a chuva não parava em Portland. Mas ele não podia perder o feriado favorito de sua esposa, essa era a razão para ele estar no estado de Oregon em primeiro lugar. Ele tinha que encontrar uma maneira de voltar para casa e logo, o clima parecia piorar a cada segundo. Para piorar a fila atrás dele no balcão já começava a reclamar impaciente, o aeroporto estava lotado para as festas de fim de ano. Mas quando suas esperanças pareciam ter chegado ao final a atendente finalmente achou uma luz no fim do túnel
- Tem um voo para Nova York em 8 horas, ainda tem algumas vagas, mas… - A atendente disse sem tirar os olhos da tela
- Perfeito! Uma passagem! - Derek não deixou nem ao menos a atendente acabar de falar e já foi oferecendo seu cartão. Ele tinha certeza que se sua mulher estivesse aqui ela teria comprado um jatinho com o seu cartão platinum e teria resolvido tudo. Mas ele ainda estava preso ao seu cartão com milhas, um dia quando ele se tornasse um neurocirurgião famoso ele nunca mais passaria um perrengue como esse
A atendente pegou o cartão e passou com a mesma pressa que Derek o retirou da carteira - Prontinho uma passagem de Seattle para Nova York em 8 horas, se eu fosse você me apressar para conseguir alugar um carro - A atendente disse com um sorriso falso.
Hoje realmente não era seu dia de sorte, pegou a passagem e o cartão com um sorriso tão falso quanto o da atendente - Feliz Natal! - Puxou sua pequena mala de mão e um quadro embalado e correu desengonçadamente para o outro lado do aeroporto, tentando desviar da aglomeração de pessoas à sua frente o mais rápido possível. Quando finalmente chegou ao aluguel de carros, uma moça loira que aparentava mal ter chegado aos 21 anos havia pego a última chave - Você só pode estar de brincadeira!
Derek queria amaldiçoar o mundo pela sua falta de sorte, os ônibus para Seattle obviamente também estavam lotados. Começou a andar sem rumo para fora do aeroporto, estava a ponto de se jogar no chão e começar a chorar quando escutou uma voz de uma mulher em sua direção - Por que uma cara tão desolada tão perto do Natal, meu jovem? - Ele se virou e viu uma senhora, muito bem empostada, deveria ter mais de sessenta anos, mas de longe se via que ela tentava aparentar ter bem menos. Derek se questionou por um minuto sobre o que fazer, claramente essa senhora aparentava ter bastante dinheiro e no Natal as pessoas ficavam mais caridosas, mas não é como se ela pudesse tirar um avião da cartola, provavelmente ela queria apenas dar uns trocados ou comida - Perdeu a passagem?
- Se pelo menos eu conseguisse comprar uma… Parece impossível que eu chegue em casa - Ele comentou cabisbaixo
- Para onde você está indo? - A senhora perguntou genuinamente interessada
Derek ponderou por um momento, mas o que ele tinha a perder. Era só uma senhora toda arrumada e não é como se o dia dele pudesse ficar pior. Mesmo se ele estivesse caindo em um esquema, se fosse um esquema que o levasse de volta para casa ele nem se importava em ter que pedir dinheiro emprestado para Mark depois. - Nova York…Seattle na verdade, se eu chegar lá em 8 horas eu consigo pegar o meu voo de volta pra casa
- Seattle? - A senhora perguntou pegando um mapa de sua bolsa de mão - Fica a menos de três horas daqui, e é caminho. Tenho que devolver a carteira que um senhor esqueceu no meu carro. Dá pra fazer...
- A senhora é taxista? - Derek perguntou confuso
- Não, não, não… Você realmente acha que um taxista gastaria tanto em roupas e cabelo? - A senhora perguntou ofendida
- A senhora só espera pessoas desoladas aparecerem e as oferece caronas então?
- Basicamente - A senhora responde sinceramente - Há muito tempo atrás minha mãe veio para cá sem nada no dia de Natal e um senhor a ajudou a encontrar casa e comida, desde então era a nossa tradição nessa semana ajudar quem parecia estar em necessidade, não importa o que fosse. Uma vez ela hipotecou nossa casa para pagar o tratamento de uma jovem - Ela estendeu a mão - Bom, você tem todo o direito de duvidar de mim. Mas se quiser minha ajuda me chamo Winnie
- Derek Shepherd - Ele estendeu a mão
Nova York, 23 de dezembro de 1996 19:50
Addison Shepherd adorava o Natal, era o seu feriado favorito. Mas nem sempre foi assim, quando criança, o Natal era o dia em que sua família fazia um grande alvoroço para ir à igreja e fingia ser uma família perfeita. Não importava que o Capitão tivesse transado com uma estagiária, com a babá ou uma assistente apenas algumas horas antes. No Natal, eles retrataram a imagem de uma família feliz e funcional. Então, naturalmente, Addison passou a ver o Natal mais voltado para fachadas e aparências, e menos para qualquer coisa real.
Mas então ela cresceu e começou a atribuir seu próprio significado ao Natal. Era uma época do ano em que as coisas mudavam um pouco... quando as pessoas eram um pouco mais gentis umas com as outras. E então ela conheceu Derek, e o Natal assumiu um significado totalmente novo.
O Natal com sua família O dele foi confuso e caótico e a coisa mais distante dos Natais de família rígidos e formais a que ela estava acostumada. E ela amou isso.
E o Natal apenas com Derek era ainda melhor. Ele estava vagando pelas ruas de Manhattan, congelado, mas feliz, admirando as luzes de Natal. Estava decorando seu brownstone e discutindo de forma divertida se deveriam usar luzes de Natal brancas, ou luzes de Natal multicoloridas. O Natal com Derek era beber rum amanteigado quente em seus bares favoritos de Manhattan, enquanto ela vasculhava os catálogos, tentando encontrar o presente perfeito para seus vários membros da família. E eram noites frias de inverno, aninhados no sofá em sua casa de arenito, assistindo seus clássicos favoritos de Natal.
O Natal com Derek foi mágico e muito real, por isso cada segundo que ele estava longe ela sentia um enorme vazio. Quase como se estivesse de volta aos natais de sua infância
- Você sente esse cheiro? - Mark Sloan perguntou para Addison inalando profundamente a tirando de seus pensamentos. Ela aproveitou a viagem misteriosa de Derek para fazer plantão no hospital onde começavam a residência
- Sim, cheira como um hospital - Respondeu Addison como uma constatação
- Não - Mark discordou - Vamos cheire novamente . Cheira a desespero e oportunidade. Eu amo os feriados, principalmente no hospital... Cheio de mulheres, de médicas à enfermeiras, desesperadas ao encarar a realidade que a vida pessoal delas é inexistente e elas terão que passar o feriado sozinhas. E é ai que eu entro… Não existe melhor oportunidade de conseguir um sexo sem compromisso
Addison balançou sua cabeça - Você é inacreditável - Mark era o melhor amigo de Derek, um irmão, até mais do que isso, se fosse possível. Estavam sempre juntos, ele foi o padrinho de seu casamento e ela tinha certeza que seria padrinho de qualquer filho que ela e Derek viriam a ter. Mas mesmo com a convivência ela não tinha se acostumado com o jeito mulherengo dele
- É o meu espírito natalino, você já deveria estar acostumada, Red. Vamos, mais uma vez, vamos sentir esse cheiro… - Mas Addison interrompeu a fala de Mark e saiu em disparada ao cesto de lixo mais próximo. No lugar de desespero e oportunidade, ela sentiu o aroma de seu almoço indo embora - Red? - Mark se aproximou preocupado
- Por favor não conte para o Derek - Ela disse se recompondo
- Mas se você está doente, ele tem que saber. Estamos em um hospital, vem vou te levar para uma consulta - Ele já estava pegando em seu braço para apoiá-la
- Mark, Mark - Ela sorriu gentilmente direcionando a mão do amigo para sua barriga - Eu não estou doente…
O loiro apenas abriu um gigante sorriso e abraçou a ruiva tentando segurar as lágrimas que se formavam em seus olhos. Seus melhores amigos ima ter um bebê! Esse era o melhor Natal que ele se lembrava, e sabia que por mais maravilhoso era o presente que Derek estava trazendo, Addison tinha ganhado a competição deste ano sem ao menos tentar. Quase não conseguia conter sua felicidade pelos amigos
Arredores de Seattle, 23 de dezembro de 1996 21:10
- Qual é a do quadro que você não larga? - Winnie perguntou, apesar dela ser uma anja salvadora a viagem foi marcada por longos minutos de silêncio e eles ainda tentavam quebrar o gelo. Winnie tinha falado sua vida toda, mas Derek ainda não tinha dado quase nenhuma palavra, estava muito focado em chegar em casa. Mas agora que estava tão perto de seu destino se permitiu relaxar um pouco
- É a surpressa de Natal para a minha esposa, queria que fosse tão especial quanto ela é para mim. Apenas meu melhor amigo sabe que eu vim para Portland hoje - Derek disse observando a forte chuva que caia
- Deve ser uma história e tanto, se importa em compartilhá-la?
- Nós nos conhecemos na faculdade de medicina, ela estava examinando um cadáver no laboratório e desde então eu soube que era ela a mulher da minha vida
- Adoro amor ao primeiro encontro, mas o que um quadro tem a ver com isso tudo?
- Meu amigo Wess, ele descobriu que o cadáver que examinamos juntos era um pintor em Portland e hoje estaria tendo um leilão de suas peças. Ele não tinha muita coisa e nem era um grande artista, mas é a memória daquele dia em que troquei o olhar com ela pela primeira vez
- Wow, acho que ela vai adorar - Mas as palavras de Winnie foram cortadas por uma luz intensa em sua direção. Ela tentou desviar mas a pista estava muito escorregadia por causa do gelo e da chuva. Tudo foi tão rápido que Derek apenas sentiu algo esmagando os seus pulmões, como se ele estivesse sufocando porque todo o oxigênio fora retirado da atmosfera. Então tudo ficou preto
