UMA MISSÃO DE RESGATE
"Helena seria filha de um encontro fortuito, ou nasceria de algum afeto irregular embora, mas verdadeiro e único?"
Helena, Machado de Assis, 1876.
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- Então essa é minha irmã? - Damian indagou pensativo enquanto olhava a imagem na tela da Batcaverna. Ele assistia a um vídeo de câmera de segurança onde uma vigilante em um uniforme roxo perseguia e derrubava três criminosos em um beco escuro.
- Precisamente, mestre Damian. - Alfred respondeu ao lado do garoto.
- Ela é muito bonita... - o garoto observou agora vendo imagens de um vídeo onde uma garçonete de cabelos negros e olhos azuis atendia clientes em uma lanchonete.
- Ela é muito parecida com o senhor. – O mordomo observou.
- Por isso mesmo. - Damian comentou com um sorriso zombeteiro, sem tirar os olhos da tela. O garoto percebera seus traços e os traços de seu pai no rosto da moça. Com certeza aqueles eram seus olhos, só que azuis como os de seu pai. - Eu não entendo Alfred, - o garoto voltou a falar, voltando-se para o mordomo. - Meu pai nunca quis falar sobre ela, toda vez que eu perguntava, ele me cortava e ficava mais irritado do que já é normalmente.
- É por causa da senhorita Helena, mestre Damian. – O mordomo explicou exprimindo pesar. - Ela não quer contato com seu pai, nem com a senhorita Selina. Ela os acusa de tê-la abandonado, por terem-na mandado para longe de Gotham.
- Que eles a mandaram pra longe, eu sei. Mas foi para o bem dela, não foi?
- Receio que a senhorita Helena não pense assim. - Alfred suspirou cansado. - Ela sempre acreditou que poderia se defender muito bem. Por isso nunca os perdoou.
- Mas ela pode se defender muito bem mesmo. - Damian falou observando outro vídeo onde a meia irmã lutava com uma gangue de motoqueiros.
- Assim como o senhor e o patrão Bruce, a senhorita Helena tem mais confiança do que é seguro pra ela. – Alfred comentou preocupado enquanto olhava o monitor. – Ela passou por tempos difíceis... Eu receio que dessa vez ela encontrou um problema maior do que consegue resolver. Por isso preciso que a traga de volta pra Gotham.
- Deve ser um problema muito grande se você acha que ela vai estar mais segura nessa cidade maluca...
- E é. – Alfred confirmou. - Depois que fugiu do colégio interno e mudou o nome pra Helena Bertinelli, a senhorita Helena vagou pela Europa até que se estabeleceu na Itália, onde começou suas atividades de vigilante. Ela colocou muitos chefões da máfia na prisão e já vinha atrapalhando os negócios deles há um tempo. Então ela... – o mordomo parou por um instante.
- Ela o que?
– Bem, no fim das contas, ela mandou o filho de Nero Marcondes pra cadeia, onde ele foi assassinado. - Alfred explicou quando colocou na tela os rostos de vários criminosos. - Nero a culpa pela morte do filho. Ele colocou uma grande recompensa pela cabeça dela…
- Ela não pode simplesmente sair da Itália?
- Não. Nero é um criminoso poderoso. Ele possui influência em muitos lugares: grandes cartéis na América do sul, máfias da Ásia, gangues em Nova York. Ele possui negócios no mundo todo. Eu diria que ele é um criminoso quase no nível de seu avô…, Mas, por incrível que possa aparecer, ele não tem influência em Gotham. O senhor sabe como os criminosos daqui são...
- Malucos?
- Eles não gostam de estrangeiros mandando no território deles. – Alfred finalizou.
- Então, parece que minha irmãzinha mexeu com gente grande. Eu não poderia esperar menos…, – Damian comentou orgulhoso. - Mas, Alfred, ela está de acordo em voltar pra Gotham? Você disse que ela não se dá bem com nosso pai...
- Ela não está de acordo de forma nenhuma, Mestre Damian. Eu já tentei persuadi-la por várias vezes. – Alfred disse preocupado. - Mas ela tem que vir. Todo mercenário da Europa quer matá-la. É uma questão de tempo até que a encontrem. Ela nunca mais vai ter uma vida normal naquele continente, nem em qualquer outro, eu suponho.
- A vida dela já não é normal… - Damian comentou a ver a irmã com o uniforme de vigilante. – Mas, Alfred, por que você não pediu ao meu pai? Se for para trazê-la contra a vontade, ele seria mais capaz de fazê-lo.
- Não quero piorar a situação entre a senhorita Helena e o patrão Bruce. Eu tenho esperanças… - O mordomo suspirou. - Enfim, talvez o irmão mais novo seja capaz de persuadi-la.
- Eu não sei… - Damian falou preocupado. - Ela não parece ser fácil, e eu não quero machucá-la. Vai ser uma tarefa difícil...
- É por isso que o senhor vai ter uma ajuda extra. - Alfred olhou para um canto escuro na caverna. - Mestre Jason, já sei que o senhor está aí.
- Eu estava me perguntando quando você ia me anunciar, Alfred. - A silhueta alta e musculosa de Jason Todd surgiu de uma sombra e aproximou-se do mordomo e de Damian.
- Mestre Jason vai ajudá-lo no resgate da senhorita Helena. - Alfred explicou ante a face desconfiada de Damian.
- E por que ele faria isso? - Damian indagou incrédulo, olhando com desconfiança para o antigo Robin.
- Por cento e cinquenta mil dólares. - Alfred respondeu lacônico. – Inclusive já estão na sua conta, mestre Jason.
- É sempre bom fazer negócios com você, Alfred. - Jason falou despreocupado. Estava recostado em um dos batmóvel e tinha os braços cruzados contra o peito.
O mordomo apagou as fotos dos mafiosos da tela do grande computador e voltou-se para os rapazes.
- É importante que os dois saibam que o patrão Bruce não pode saber de nada dessa operação.
Jason riu alto de onde estava.
- Espera... Nós vamos fazer isso escondido do Bruce? – Jason perguntou ainda rindo. - Alfred, você mais do que ninguém deveria saber que ninguém engana aquele cara.
- Mestre Jason, se existe alguém que pode esconder alguma coisa do patrão Bruce, esse alguém sou eu. - Alfred respondeu com segurança. - Já cuidei de tudo. Ele está muito ocupado na base da Liga da Justiça e eu estou escondendo muito bem os rastros dessa missão. Só preciso que os dois sigam exatamente as minhas instruções. Entenderam?
Os dois jovens assentiram.
- Muito bem. – o mordomo disse satisfeito. - Isso aqui é para os senhores.
Alfred estendeu dois bilhetes, Damian e Jason os pegaram.
- Voo comercial? - Damian indagou indignado ao olhar a passagem aérea impressa em papel. - Eu nunca viajei de voo comercial! E nem é primeira classe!
- Mestre Damian, para tudo existe uma primeira vez. Além do mais, é necessário. Os senhores viajarão disfarçados. - Alfred explicou paciente. - Patrão Bruce pensará que o senhor está na base dos Titãs e vai pensar que o mestre Jason está… bem nas atividades normais dele, seja lá quais forem.
Damian bufou. Olhou os nomes falsos na passagem em papel. Alfred também lhes dera passaporte falsos.
- Vou conseguir que retornem em um jato particular. Se… trouxerem a senhorita Helena. - Alfred negociou.
- Já está mimando-a, Al? – Damian alfinetou.
- Posso garantir, mestre Damian que a senhorita Helena não é a criança mimada dessa família.
O garoto bufou novamente, Jason riu e depois olhou para o vídeo na tela. Era novamente uma imagem de Helena que lutava vestida em seu uniforme de vigilante.
- Então essa é a filha do Bruce… - ele falou encarando a imagem. - Ela é ainda mais bonita que a Selina, se é que isso é possível. E essas pernas…
- Humrum. - Damian resmungou. - Você poderia tirar os olhos da minha irmã?
- Não se preocupe, eu não sou nem louco de olhar pra essa garota. – Jason se defendeu. - Ela deve ser tão pirada quanto você e o Bruce, ou pior, tão perigosa quanto a mãe dela.
- Eu devia te matar por esse insulto… - Damian retrucou furioso.
- O senhor não vai matar o mestre Jason. Não temos tempo pra isso. - Alfred interrompeu o garoto. - O avião não vai esperar os senhores. Para voos internacionais, precisa-se chegar ao aeroporto com três horas de antecedência...
Damian resmungou irritado, seria uma longa viagem e com uma companhia que ele não apreciava, mas o rosto da garota na tela lhe fez sentir que valia a pena.
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O novo e o antigo Robin desembarcaram na capital da Itália na noite daquele dia e pegaram um táxi para o hotel que Alfred reservara. Para a surpresa de ambos, o lugar ficava afastado da região central, em um bairro humilde de Roma.
- Isso é um ultraje! Esse lugar é uma espelunca! - Damian resmungou quando chegaram ao velho e sujo hotel. - Alfred só pode estar brincando…
- Eles não pediram documentos… - Jason falou já estendido na cama de solteiro. - Contato que não tenha pulgas, vamos ficar bem.
- Pulgas! - Damian exclamou com um calafrio.
Jason riu debochado. Damian reclamara de tudo desde que saíram da batcaverna. O segundo filho postiço de Bruce estava gostando muito daquele trabalho: estava na Europa de graça, podia ver de camarote o jovem herdeiro rabugento sofrendo e ainda encontraria a garota bonita cuja imagem estava impressa na sua cabeça.
Aquela seria uma viagem divertida.
NOTAS FINAIS
Essa é a continuação da minha fic "Filha de Gotham". A história dessa vez será mais focada em Helena Wayne do que em seus pais. Eu descobri que ela pode ser uma personagem muito interessante... E começamos com Damian. Apesar de ter sido muito bem treinado, Damian ainda é um garoto mimado... e Jason será uma presença constante nessa história. Ele é o meu preferido na batfamília. Espero que gostem, deixem suas impressões. Obrigada pelo seu tempo.
