Nota: Decidi traduzir os meus fics sobre a infância do Levi para pt-pt porque sim.
Nota de pt-pt para pt-br:
- 'rabo' é o mesmo que 'bunda'.
- ' magoar' também é usado para 'machucar', fisicamente. Uma nódoa negra também seria o mesmo que um machucado.
- 'miúdo' é o mesmo que 'moleque', 'puto' é mais gíria/informal
Se tiverem mais alguma dúvida, ou se encontrarem erros, por favor digam.
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Nenhum bordel no Submundo era lugar para uma criança nascer e viver. Discutivelmente, o Submundo não era lugar para uma criança nascer, ponto final. Mas nasciam, e os bordeis eram também lugares que tinham muito mais crianças do que alguma vez deveriam ter.
Muitas prostitutas, forçadas de uma forma ou de outra a viver naquelas circunstâncias, preferiam manter-se na sua vida ou falar da dos outros, enquanto a outra metade preferia formar laços de conveniência entre si. Raramente ao ponto da amizade, mas conveniência era a realidade esperada e apropriada em tais lugares, e as crianças tendiam a ser o motivo mais fácil e natural para criar esses laços.
Kuchel estava mais do que ansiosa para que o cliente se fosse embora para poder ir depressa ao quarto no fundo do corredor, onde Sophia estava. O homem não fora muito bruto até ao fim, quando lhe batera na cara por Kuchel lhe ter dito que ele tinha de se ir embora. Não ficara muito satisfeito, mas já se estava a vestir e a preparar para sair, por isso não havia muito mais que ele lhe pudesse fazer agora que a fosse incomodar, se isso significava que ele se ia embora.
Quando a porta bateu atrás dele, Kuchel suspirou de alívio e puxou imediatamente os lençóis para trás, um pequeno esforço para esconder as provas do que acontecera, e apressou-se a abrir a porta de novo para arejar o quarto tanto quanto possível. Sem se importar se as pessoas a viam, atirou água para a cara e lavou-se rapidamente com um pequeno pote de água. Não usou uma esponja, guardava-la sempre para os banhos de Levi, mas usou o seu pano pessoal como substituto. Quando terminou, saiu e atravessou o corredor, só com uma coisa em mente agora. Mesmo a alguns metros de distância, já conseguia ouvir a voz de bebé deliciosa abafada pela porta, os cantos dos seus lábios curvando-se para cima instintivamente, e bateu à porta e abriu-a, o seu sorriso transformando-se num grande guincho de alegria.
- O'á, Mamã! - disse o bebé de cabelo preto e correu para ela no seu passo ainda incerto, atirando-se contra as suas pernas e abraçando-as com força.
- Olá, bebé, uau, tanto amor! Parece que não me vez há anos! - disse Kuchel a rir enquanto Levi só apertava os braços com mais força. O menino de dois anos mal lhe chegava aos joelhos, e era a delícia entre as prostitutas, mesmo entre as mais velhas e duras, com o seu passo desequilibrado com que corria pelas corredores e se esquivava das pernas dos clientes, longo cabelo preto e fino caído sobre os olhos e a sua voz adorável de bebé a balbuciar e a imitar todos os sons que ouvia.
Sophia, a jovem prostituta que tinha ficado a tomar conta dele, sorriu pela reacção espontânea e adorável do bebé, as mãos sobre a sua barriga inflada.
- Ele esteve distraído o tempo todo, não te preocupes. Mal demos pelo tempo passar.
Kuchel dera pelo tempo. - Obrigada, Sophia, eu depois ajudo-te também.
- Claro que ajudas, 'tou à espera disso - disse a outra mulher num tom amigável. Uma pequena sombra caiu sobre o seu rosto simples, dedos tamborilando sobre a barriga. - Só espero que ela goste tanto de mim como o teu miúdo gosta de ti.
- Estás decidida que vai ser uma menina? - Kuchel perguntou, pegando Levi ao colo. O bebé enrolou os braços à volta do seu pescoço e pousou a cabeça no seu ombro.
- Com a minha sorte? Claro que vai ser.
- Vai correr tudo bem, seja uma menina ou não - Kuchel sorrir de forma tranquila. - Levi, diz obrigado à Sophia.
- B'igada, Sofi - imitou Levi, arrancando um guincho e um 'aww' de Sophia também. Fez-lhe adeus enquanto as duas mulheres trocavam sorrisos e manteve os olhos muito abertos, sempre a olhar para todos os homens e mulheres que podiam estar nos corredores ou a subir as escadas. Tinha o hábito de se entreter olhando para toda a gente.
- Ei, Levi, queres um doce? - perguntou-lhe Kuchel, e o bebé assentiu vigorosamente. Kuchel esboçou um grande sorriso para ele interpretar e copiar. - Olha!
Tirou algumas moedas que o cliente se esquecera de guardar antes de a esbofetear e mostrou-as a Levi, cujos olhos se abriram ainda mais e ele arquejou, uma expressão semelhante à de Kuchel no rosto e as mãozinhas a bater palmas.
- Olha, dinheiro! Temos dinheiro, Levi.
- Boa, Mamã!
- É, não é? Vamos, vamos comprar uma coisa boa para ti. - Não seria um doce, claro. Uma fatia de pão com um pouco de manteiga era o que Levi considerava ser o 'doce' mais delicioso que já provara.
Kuchel queria evitar o chulo para que ele não reclamasse da pequena gorjeta que recebera, mas desceu as escadas calmamente para não chamar muito a atenção. Algumas prostitutas cumprimentaram Levi casualmente ao descerem e ele acenou-lhe enquanto falava na sua própria linguagem.
- Mamã, dói-dói. - Essas palavras saíram eventualmente afastou o cabelo sobre um ombro, e ele tocou-lhe com o dedo na bochecha. Não conseguia pronunciar a palavra correctamente, tal como outras palavras que ele ouvia de tempos a tempos, e Kuchel não se importava.
- Não faz mal, Levi, não dói.
- Dói-dói.
- Não te preocupes. Vamos comer! E não te esqueças de dizer 'se faz favor'! - disse ela entusiasta, afastando a mente do bebé do assunto. Levi assentiu de novo, afastando desleixadamente o cabelo que caíra sobre os olhos com as mãozinhas.
Foi uma tarde calma. Assim que regressaram ao quarto, Levi guinchou e correu para o seu brinquedo, atirando-o para o chão e caindo ao lado dele. O pão ainda estava na sua mão, e em pouco tempo estava a lamber pó e manteiga sem se importar. Chamou Kuchel vigorosamente, mostrando-lhe a luva que Kuchel costurara à mão, cada dedo de uma cor diferente para formar fantoches, com pequenos pontos pretos a fazer de olhos e linhas curvas como sorrisos. Era o seu único brinquedo, mas ele não reclamava.
- Aco'da! - ordenou ele aos fantoches, dando-lhes festinhas a cada um na 'cabeça'. - Aco'dem pu'favô, papa!
- Deixa-me ajudar-te a acordá-los. - Kuchel calçou a luva, cada dedo trazendo à vida uma personagem diferente e simples. Ela mudou a voz ao falar como cada um. - Olá, Levi! O que tens tu aí?
- Papa! - Colocou o pão sobre o fantoche para que Kuchel fingisse comer.
- Mmmmmm, que bom! Obrigado, Levi! - O bebé riu e abraçou a luva e todos os cinco amigos com força, esmagando a mão de Kuchel no interior.
Continuaram a brincadeira durante mais um tempo, cada fantoche com uma voz e personalidade diferentes, e após Levi pedir para fazer chichi (gritando 'Fora!' para o bacio imediatamente e fazendo Kuchel rir baixinho. Era o único hábito de limpeza que tinha, mas impunha-lo ferozmente. Mas não se importava de comer pão que deixara esquecido no chão durante algum tempo), tentou trepar para a cama, grunhindo e reclamando pela tarefa árdua. Kuchel deu-lhe uma palmadinha no rabo para o ajudar a subir, deitando-se a seu lado. Deixou-se simplesmente ficar ali durante um momento, observando Levi a brincar com um pouco de cotão que achara no colchão, a sua mente simultaneamente em paz e debatendo-se de preocupação ao olhar para as suas feições tão bonitas. Era uma criança muito pequena, muito leve também apesar de se esforçar para o alimentar sempre que podia, e não havia nada a fazer quanto à palidez, mas era uma criança saudável. E sabia que havia momentos em que tinha de ficar calado, ao mesmo tempo que era tão enérgico em todos os outros momentos.
- Levi - chamou-o ela para atrair a sua atenção. Teve de repetir duas vezes para que ele levantasse a cabeça, de novo com o cabelo todo sobre os olhos. Prendeu-lhe a franja gentilmente atrás de uma orelha. Tinha de aparar um pouco, mas gostava dele com cabelo comprido. Nunca vira nenhum traço estranho no seu rosto que pudesse pertencer ao seu pai, só dela. - Levi, lembras-te do que te contei sobre o céu?
- Chéu - repetiu ele.
- Sim, céu. O céu está lááááá em cima, muito muito lá em cima - apontou para cima, e Levi voltou os olhos para o tecto. Ela riu baixinho. - Mas nós não o conseguimos ver, mas ele é muuuuito grande e azul. Lembras-te do que é azul?
Ele demorou um momento, ainda focado no tecto antes de se voltar, à procura da cor. Começou a fazer beicinho pouco depois, antes de se voltar para ela e apontar para a sua cara.
- Ah ah, sim, os meus olhos são azuis. Os olhos do Levi também. - Ele tocou na cara, às apalpadelas à procura dos olhos, que na verdade não eram tão azuis quanto cinzentos, mas ele não sabia. - O céu é muito grande e muito azul. Lá cima, as pessoas têm um céu, e sol, e nuvens! E há vento. - Soprou-lhe sobre o rosto, fazendo-o rir quando o cabelo dançou sobre o nariz.
Levi olhou de novo para o tecto cinzento escuro com manchas e ergueu o braço. - G'ande.
- Sim, muito grande. O mundo é muito grande, vais ver um dia.
- Chéu g'ande.
- Sim, muito bem, Levi! - Kuchel aplaudiu e incentivou-o a juntar-se a ela, mas os seus olhos estavam colados no tecto.
Demorou um momento a aperceber-se que alguém bateu à porta. Não estava trancada, por isso uma prostituta mais velha espreitou.
- Olympia, oh, tens o puto aqui. Vem aí um cliente, despacha-te lá.
- Oh, sim, ok - Kuchel suspirou sem sequer reparar. Levi baixou o olhar do tecto e do céu e focou-se nela. - Levi, tens de ir agora, está bem?
Ele voltou a fazer beicinho. - Não, chéu.
- Levi, sabes como é, vai lá, sabes onde está a Sophia, vai ter com ela.
A prostituta mais velha já tinha ido embora e a porta voltou a ser aberta por um homem desta vez. Não era muito alto, e não parecia ter estado a beber nas últimas horas. Pelo menos não fedia como alguns.
Kuchel tentava sempre evitar ter Levi por perto quando tinha clientes. Nunca sabia que tipo de pessoa seria. E não gostava de o chamar pelo nome para que os homens não ouvissem, se sentissem no direito de o ter, de o usar.
- Vai lá bebé, por favor.
Levi olhou para o homem que entrara e deixara a porta aberta para si, e desceu da cama devagar enquanto Kuchel puxava os lençóis e os esticava para proteger o colchão.
- Ei, bebé - disse ele de forma simpática enquanto Levi avançava com o seu passo incerto para o homem; não, para a porta, não para o homem, corrigiu Kuchel rapidamente na sua mente. - Vai lá, a mamã tem de trabalhar.
Levi ergueu os olhos para ele, e o homem dobrou-se para lhe dar uma festinha na cabeça. Todo o corpo de Kuchel se contraiu e avançou em instinto, mas o homem só lhe despenteou a franja enquanto Levi reclamava.
- Fofinha, tens de treinar esse passo, hã?
- Ele está a ir.
- Ele? Tens a certeza que é um rapaz?
- Tenho a certeza. - Kuchel apressou-se para porta e empurrou Levi gentilmente para fora enquanto fazia sinal simultâneo ao homem para entrar mais no quarto. Acenou a Levi. - Tchau bebé.
- Tchau Mamã - ele acenou também. Os seus olhos voltaram-se para o homem que já estava a remexer no cinto, mas apesar disso ele apanhou o olhar de Levi e fez-lhe um rápido aceno em resposta. Kuchel fechou a porta tão depressa quanto conseguiu, ansiosa de repente, mas ouviu a voz do seu bebé mesmo antes de fechar. - Tchau chéu.
Sophia estava perto da porta do seu quarto, e reparou em Levi de pé à frente da deles. Chamou-o e o bebé rodou a cabeça à procura do som familiar.
- Ei, amor, vem cá.
Levi obedeceu e sentou-se ao lado da perna dela. Estava despenteado, mas ela rapidamente lhe arranjou o cabelo enquanto os olhos do menino estavam fixos no tecto, a boquinha entreaberta. Sophia olhou para cima também, tentando ver se havia alguma teia de aranha ou outra coisa que ele tivesse achado. - Que foi, Levi?
- Chéu, g'ande. - E prosseguiu em recontar toda uma história numa linguagem que nem Sophia nem mais ninguém conseguia entender, mas que o distraiu durante os minutos seguintes.
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continua
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