Nota: Decidi traduzir a minha série de fics sobre a infância do Levi para pt-pt porque sim.
O Levi tem 6 anos aqui, portanto, aviso para menores a beberem álcool.
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Cerveja e outras misturas alcoólicas eram frequentemente mais fáceis de encontrar no Submundo do que água. O que era mais do que ok para Kenny. Nunca tinha gostado muito de água de qualquer das formas. Amostras e porções de água eram melhor aplicadas a fazer barris de bebidas alcoólicas. Afinal, era melhor a maioria do pessoal do Submundo não desenvolver gostos muito caros.
Se fosse água ou chá ou alguma merdiquice mais cara, Kenny iria compreender o fascínio, mas foi um momento tão banal, e ele estava tão embrenhado numa divagação de merda filosófica qualquer que demorou vários momentos a aperceber-se que o minorca tinha ficado completamente imóvel (mais do que habitual), os olhos encovados escancarados. Eventualmente, a palrar com a boca cheia de cerveja e e acabando por se engasgar, Kenny reparou em Levi e quase voltou a engasgar-se com aquele brilho no olhos do miúdo.
A olhar para a caneca.
Uh-oh.
- Posso provar? - perguntou Levi, soando pela primeira vez como um bebé.
Kenny olhou-o de lado, agarrando-se à sua preciosa caneca.
- Não.
- Porquê? - Ele não estava a fazer birra; isso teria sido mesmo aterrorizador, tendo em conta que Levi era um miúdo inexpressivo, mas os seus olhos não se moveram da caneca. Kenny teve a certeza assustadora que se movesse a caneca da esquerda para a direita, os olhos do pirralho iriam segui-la. Era assustador por si só, e não queria testá-lo.
- A cerveja é minha. Vai arranjar uma p'a ti.
- Não tenho dinheiro.
O homem adulto era quem estava a reclamar em vez da criança de sete anos. Kenny grunhiu e virou-se no lugar, chamando um bêbedo que estava ali perto.
- Ei, dá-me a tua cerveja p'ó puto.
O outro homem bufou. Estas eloquentes conversas eram frequentes.
- Vai tu comprar a merda da cerveja p'ó teu puto.
- Vais dar álcool a um miúdo desse tamanho? - perguntou outro homem ali perto, com os olhos postos em Levi e na sua cara e altura adoravelmente fofinhas.
Oh, olha só, morais. Essas já não eram tão frequentes.
Colocando cuidadosamente a sua caneca na mesa e longe de perigo, Kenny levantou-se, esmurrou o segundo homem, pegou na caneca abandonada e atirou-a em cheio nos dentes do primeiro homem. Depois da questão ter sido resolvida, endireitou o chapéu de volta ao seu lugar, recolheu a cerveja pretendida e regressou à sua mesa, espetando a caneca nas mãos de Levi.
- E depois não digas que não te dou nada.
- Podias ter evitado aquilo se me tivesses deixado provar a tua.
- Cala-te.
- Ou comprasses uma.
- Cala-te. Não se evita coisas destas. É assim que se faz amigos e se começa uma reputação, por isso aprende.
Levi parecia estar a perguntar-se exactamente onde é que aquela situação tinha criado a possibilidade de uma amizade, ambos os homens a grunhir e a gemer de dor e um dente a menos à mistura, mas não disse mais nada, focando-se novamente na fonte de toda a confusão.
Agora de volta ao seu lugar e à sua cerveja, Kenny ficou bastante animado com a ideia da reacção de Levi a beber a sua primeira amostra de álcool. A cerveja neste bar que mais se parecia com uma vacaria tinha o sabor característico a cuspo, mas seria mais do que suficiente para dar umas risadas a Kenny.
Levi foi cuidadoso a prová-la, aproximando a cerveja só o suficiente para molhar os lábios. Kenny aguardou para o ver cuspir e tossir, mas a reacção de Levi foi só franzir o rosto ao sabor estranho. Nada de dramático.
- É amarga.
- Pois, o que é que esperavas?
- Pensava que era doce.
- Torna-se doce o suficiente quando 'tás bêbedo.
Levi olhou para ele com aquele arzinho fofinho de menina, analisando se Kenny lhe estava a pregar uma partida, e beberricou mais um pouco. A carranca manteve-se.
Com uma estranha curiosidade em ver como Levi se comportaria embriagado (e ignorando as 'morais' da questão), Kenny não se opôs a Levi beber daí para a frente, mas se esperava comportamentos ridículos, euforia, violência ou prantos de bêbedo, não foi bem isso que teve. Tendo em conta a idade e a altura dele, Levi ficou intoxicado, mas deixou-o mais tonto e ensonado do que outra coisa, e tornou-o uma irritação do caraças depois quando a ressaca o deixou com dores de cabeça. Quase deu cabo da curiosidade de Kenny. Não ia ter nenhuma daquelas cenas dramáticas e cómicas com que esperava entreter-se.
Iria ficar bastante entretido quando pusesse Levi a ganhar concursos de bebida graças aos benefícios da sua resistência alcoólica, mas isso aconteceu por vontade de Levi, alguns meses depois.
Antes disso começar a acontecer, e apenas uma semana depois daquela primeira prova de cerveja, Kenny parou de incentivar o fedelho.
Sendo o cabrãozito matreiro que era, Levi fingiu estar bêbedo, tal como Kenny esperara (e só após uma quantidade bruta de bebida - tinham-se desafiado a acompanhar um ao outro numa competição idiota, e o estômago e fígado mais do que treinados do Kenny estavam a ficar meio zonzos) só para ter uma desculpa para lhe dar um pontapé na canela no meio do bar e lhe roubar o chapéu.
Os homens que viram a cena desataram às gargalhadas, o minorquinha aos saltinhos e a rodopiar à volta da floresta de pernas num canto de vitória. Quando Kenny apanhou o aparentemente muito bêbedo Levi, numa mistura de irritação e satisfação por ver o miúdo quebrar, dobrou-se sobre o rapaz para recuperar o chapéu que estava pousado no ninho de cabelo do pirralho. E o que viu foi o olhar completamente lúcido de Levi e a porra de um sorriso vitorioso.
Kenny não sabia se queria rir ou esmurrá-lo.
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fim
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Nota: Obrigado por lerem, se acharem erros por favor digam.
disclaimer: don't own Shingeki no Kyojin.
Este fic é parte de uma série chamada 'Uma família disfuncional', dito kid!Levi, histórias independentes mas que formam uma continuidade se as lerem por ordem. Podem usar ctrl+f no meu perfil para as achar e ler os sumários e avisos. Aqui está a lista:
1 - Palavras de despedida (Kenny, Kuchel)
2 - Mudança (Kuchel, Levi)
3 - Um dia (Kuchel, Levi)
4 - A Janela para o Céu (Kuchel, Levi)
5 - Algo importante (Kuchel, Levi)
6 - Escolha (Kenny, Levi)
7 - Primeira - estão aqui -
8 - Dor (Kenny, Levi)
9 - Lembranças e destroços (Levi, Kenny)
10 - A Conversa (Kenny, Levi)
11 - Palavras (Kenny, Levi)
12 - Perda (Kenny, Levi)
13 - Decisão (Levi, Kenny)
14 - Pai com outro nome (Kenny)
15 - Sozinho (Levi)
