"Esse é o lugar que lev–"

"SHHH!"

"Esse é o lugar que eles levaram o Cabeçulinha?" Luminho se corrigiu para um cochicho.

"É sim." Fyliara espalhou alguns arbustos, observando na campana improvisada. Por pior que o par conseguisse ver na escuridão da noite, o pequeno galpão feito de tábuas de madeiras incompatíveis tinha Orbes Luminosas na sua entrada frontal, e considerando as luzes vindo das portas entreabertas, não muito mais dentro. Na frente da construção, um Timburr e um Machop batiam papo despreocupados. "Têm dois de guarda lá na frente."

"Fechou!" Luminho estalou os dedos e deu um passo para fora dos arbustos. "Tá na hora de resgatar nosso ami–"

"AONDE VOCÊ ACHA QUE TÁ INDO!?" O sussurro da Vibrava quase quebrou no esforço de não gritar, puxando o Breloom pelo seu lenço verde ao redor do pescoço.

"Resgatando o Cabeçulinha." Luminho estava com seu franzido característico.

"...E como exatamente nós deveríamos resgatar o Cabeçulinha? Socar os dois da frente e depois sair com o olho roxo dos cinco Machamps que tão do ladro de dentro igualzinho àquela vez naquele chalé?" Fyliara cutucou o Breloom na testa. "Você tem que pensar, Luminho! Você tem que pensar!"

Luminho cruzou os braços e deu um grunhido de insatisfação. Por que ela sempre tem que escolher na ponta do dedo algo do passado e jogar na cara? Isso era muito irritante, e o pior é que ela sempre estava certa. Mas o que eles deveriam fazer ao invés? Ir escondido e pegar o Cabeçulinha enquanto ninguém olhava? Eles eram tão silenciosos quanto um Kommo-o dançarino, não tinha jeito nenhum que eles iam conseguir fazer isso funcionar. Isso sem contar que mesmo se eles conseguissem, o pequenino tinha vindo até aqui de livre e espontânea vontade, não havia maneira de que o Cabeçulinha ia voltar sem fazer algum tipo de confusão. A parte mais enfurecedora disso tudo era como Fyliara sempre apontava as falhas mas nunca, nunquinha mesmo dava uma solução.

Luminho deu um suspiro de derrota e se juntou novamente à campana. Ele não conhecia aqueles bandidos, mas ele conhecia aquele tipo. Eles faziam pinta com dinheiro, mostravam o quão espertos e fortes eram, impressionavam os pequenos, e então os atraíam para a gangue. Luminho sabia que assim que Cabeçulinha entrou naquele galpão, cedo ou tarde seria forçado a fazer algo terrível, ou levaria uma surra se recusasse. E Luminho sabia que Fyliara também sabia disso. Mas sendo tarde da noite como era e o quão longe aquele lugar era na floresta, mesmo se eles conseguissem a ajuda de uma guilda, o que deveria acontecer com Cabeçulinha já teria acontecido quando os reforços chegassem.

Seus punhos cerraram. Ele odiava se sentir assim. Apesar de tentar servir de modelo para as crianças do orfanato, ele sabia que não conseguia se conectar com todas. E Cabeçulinha só queria ser respeitado. Luminho entendia isso. Ele mesmo era assim no passado. Ele mesmo era assim naquele exato momento. Mas ele sabia que seguir o caminho fora da lei não era o jeito certo. E agora–.

"Vocês também tão espiando eles?"

O punho de Luminho foi certeiro no rosto da figura, mas o soco desesperado do Breloom passou através da cabeça, fazendo-o girar e cair sentado. Fyliara ficou parada no lugar e congelada, suas asas completamente imóveis enquanto ela vagarosamente virou sua cabeça para a fonte da voz.

"Você deveria tomar mais cuidado. Você poderia ter machucado alguém com esse soco." Os olhos do Decidueye corriam entre Fyliara e Luminho. Depois de um segundo, ele estendeu uma asa ao Breloom caído com um sorriso.

O silêncio permeou. Luminho e Fyliara olharam um ao outro. Mais silêncio. Eles encararam o Decidueye.

"Me-Me desculpa, mas… Quem é você, de novo?" Fyliara falou. "E… O que você está fazendo aqui?"

"Eu? Ah, sim, eu sou Tácio. Mas você pode me chamar de Skid." Enquanto o Decidueye mantinha uma asa estendida para Luminho, ele ofereceu um aperto de asa à Fyliara com a outra. "Eu queria comprar algumas sementes do Jarbas, mas eu acho que eu ouvi que alguns caras tinham pego todas elas. Jarbas tava gritando bastante, não deu para entender muito bem. Jarbas me ofereceu algumas se eu conseguisse recuperar pelo menos uma caixa delas, eu acho. E então eu tô aqui."

"Jarbas?" Luminho franziu. "Você diz o velhote da vendinha?"

Tácio deu um aceno com a cabeça. Luminho e Fyliara se olharam novamente. Fyliara deu de ombros. Luminho encarou Tácio com olhos cerrados. Considerando o quanto Jarbas gritava toda vez que alguém tocava em qualquer coisa que você não estava comprando, e o quanto ele adorava sua mercearia, se estes 'valentões' realmente roubaram o velho Bibarel, Luminho conseguia ver Jarbas fazendo esse tipo de acordo. E, se fosse levar em consideração qualquer coisa, os bandidos que fossem recrutar uma criança órfã não dariam este sorriso pateta quando flagrassem alguém com o nariz onde não era chamado. Luminho deu de ombros e aceitou a asa.

"Boa," o sorriso bicudo aumentou, "então, por que vocês estavam espiando eles?"

"Uma das crianças do orfanato foi 'recrutada' por estes idio–"

"Bobocas." Fyliara interrompeu com os olhos já lavando a boca de Luminho com sabão enquanto ela o encaravam por um segundo. "E eu consegui rastrear o Cabeçulinha até esse galpão abandonado.

"É." Luminho ignorou a encarada. "O Cabeçulinha foi bem além da conta dessa vez. A gente tem que tirar ele daqui."

"Ah, e eu sou Fyliara e esse é Luminho. Cabeçulinha é Kevin, a criança do orfanato. Ele é um pequeno Scraggy com uma bandana ao redor do pescoço."

"Legal conhecer vocês." Tácio abriu um outro sorriso. "É sempre bom fazer novos amigos."

Luminho e Fyliara se entreolharam mais uma vez. Eles nem precisaram falar uma única palavra para se comunicar. Dizer que acabou de fazer novos amigos? Numa situação como aquela? Aquele cara é estranho. Fyliara respondeu com mais um dar de ombros, e Luminho respondeu da mesma maneira.

"Tá, então a gente tava pensando em derrubar os dois ali da frente, e então ir pela porta. Só em dois a gente não tinha certeza se ia ser uma boa idéia, mas em três eu tenho bastante certeza que vai dar certo." Luminho recontou seu plano original. Talvez com um a mais as coisas iriam funcionar.

"Você sabe muito bem que isso é uma péssima idéia." Fyliara tinha as suas duas patas da frente cruzadas. "Eu não sou uma lutadora, e nós nem sabemos quantos têm lá dentro."

"Seis no total," Tácio rapidamente respondeu com uma asa levantada, "levando em conta o nosso amigo Cabeçulinha."

"Tá vendo!? Eu te disse que era uma péssima idéia. São seis!" Fyliara balançou as patas para Luminho.

"Cinco." O Breloom desviou o olhar e começou a resmungar. "O Cabeçulinha não ia brigar com a gente."

"Ainda assim eles são mais do que nós!"

Tácio estava de olhos fechados, as engrenagens girando. Hmmm… Talvez se… Tácio olhou para Luminho. "Quanto você aguentar tankar e segurar aggro?"

"Tankar? Segurar… Aggro?" Luminho o encarou de volta.

"Ah é, vocês não iam saber. Não é uma coisa desse mundo, foi mal." Tácio deu um sorriso amarelo. "Eu quero dizer, quão bem você consegue manter a atenção deles e por quanto tempo?"

"Eu dou conta dos dois da frente, mole." Luminho estufou o peito, exalando confiança.

"Alô!" Fyliara abanou as patas. "Ainda assim são cinco contra dois!"

"Não vai ser problema nenhum se a gente rushar B." Tácio deu um sorriso radiante.

"Rushar… B?" O rosto de Luminho e Fyliara eram confusão pura.

"É. Não. Quase. Ouve essa daqui."


A poeira quente e abafada gentilmente flutuava e coçava as narinas de Cabeçulinha, fazendo ser difícil para ele não espirrar. O tamanho modesto do armazém se tornou claustrofóbico com as pilhas de caixas e caixotes espalhados por todo canto, fazendo sombras que a penca de três Orbes Luminosas não conseguiam dar conta. Ele conseguia ouvir a conversa da mesa no canto mais ao fundo da sala empanturrada.

"Chhhefa. Terminei a contagggem." A voz que anunciou era do Arbok, Silvestre. Cabeçulinha não sabia muito sobre ele, a cobra era com quem ele conversava menos. Tinha alguma coisa que só de bater o olho o fazia virar pedra.

"Desembucha." A resposta autoritária veio da Honchkrow. Ele não sabia o nome dela, só sabia que todo mundo a chamava de 'Chefa'. O olhar dela era grande e intimidador, ela sempre estava séria e todo mundo sempre parava o que estava fazendo para ouvir o que ela dizia e fazer o que ela mandava.

"O dobro da última vezzz." A voz de Silvestre escorria um sorriso.

"Heheh… Não achava que o velhote ia ter tudo isso…" A última voz era do Linoone-Delta, Maurice. Ele sempre estava sorrindo e dando risada, com a língua para fora e sempre salivando. Quando Cabeçulinha perguntou o porquê de Maurice ser assim, eles disseram que 'os pais provavelmente deixaram ele cair de cabeça no chão quando era filhote', mas Cabeçulinha não tinha entendido muito bem o que eles quiseram dizer com isso.

As vozes continuaram a ecoar enquanto eles seguiam a conversa, mas os olhos de Cabeçulinha estavam baixos. O Scraggy abraçava suas próprias pernas, escondido de vista entre as pilhas de bens e pelo seu tamanho diminuto. Apesar de todos os elogios que recebeu por dar a eles um 'alvo fácil', a amargura que sentia era demais. Ele disse à gangue como ele algumas vezes roubava alguma coisa na cara de Jarbas na mercearia e sempre conseguia fugir porque 'o velhote não dava conta', mas ele nunca pensou que eles iriam entrar lá, amarrar o Bibarel ancião numa cadeira, e fazer uma limpeza enquanto tiravam sarro e riam na cara do velhote da vendinha. O nó na garganta ficava mais forte e as lágrimas começavam a escorrer de novo só dele se relembrar.

Ele não queria mais estar lá. Ele queria voltar pro orfanato. Ele queria voltar pros seus amigos. Mas eles disseram que ele não podia mais voltar, que ele tinha 'que crescer', que ele era 'parte da família', e que 'família não abandona família'. Ele não queria ser um deles. Ele achou que eles eram heróis quando o adotaram, como a 'Míssil Fantasma' e o 'Tiro Rápido'. Mas de repente eles fizeram uma coisa que um malvado faria. E agora ele também se tornou um malvado. Ele não queria ser um malvado. Ele não queria ser um vilão. Ele não queria ser igual o 'Caleidoscorvo'.

"Olha sssó quem essstá essscondido."

Cabeçulinha olhou para cima. Silvestre o agigantava. O olhar do Scraggy estremeceu, não sabendo se fixava nos olhos predatórios do padrão da cobra ou no sorriso cheio de malícia logo acima. Ele não sabia o que fazer. Ele não sabia o que dizer. Ele congelou, fazendo de tudo para não tremer.

"Qual é o problema, pequenino? Por que não essstá ccccelebrando conosssco?"

"Eu-Eu-Eu… Eu–"

"Nósss nunca conssseguimosss tanto numa única bolada… Vocccê deveria essstar felizzz com issssso." O Arbok vagarosamente circulou o Scraggy.

"Eu-eu-eu… Eu tô." Cabeçulinha levantou sua bandana e limpou o rosto. Eles disseram que ele não podia mais chorar, então ele deu o seu melhor para 'crescer'. Pelo menos enquanto estava pego no flagra.

"Então… Por que essstá chhhorando?" A cobra sibilou bem no seu ouvido.

"Eu, eu… Porque eu tô feliz… Mas… Por-porque… eu… tô… triste… também…"

"Felizzz, masss trissste também. Sssim…" O Arbok continuou o cercando cada vez mais perto. "E por que isssso, Cabeçççulinha?"

Cabeçulinha olhou o corpo cada vez mais perto do Arbok, e a firmeza em sua tremedeira cedeu. "Por-porque… eu-eu… eu… tenho saudades dos meus amigos."

"Vocccê… tem sssaudade de ssseusss amigosss…" O corpo da cobra tocou o do Scraggy, fazendo-o agarrar suas pernas mais forte ainda. "Masss eu não sssou ssseu amigo?"

"Si-sim…" O Scraggy desviou o olhar. "Mas…"

"Sssim, masss…" Os olhos da cobra chegaram aterrorizantemente pertos dos de Cabeçulinha.

"A gente… é… os malvados…"

"A gente é osss malvados… Sssim…" O Arbok se arqueou alto e, devagar, acenou com a cabeça. Então, ele deu uma risadinha. A risadinha se tornou uma risadona. Alguns segundos depois ela evoluiu para uma gargalhada histérica e sibilante, chorando de rir.

Cabeçulinha encarou a cobra confuso. Por que ele estava rindo? Por que aquilo era engraçado? Não era para ser engraçado ser um malvado. Malvados faziam os outros ficarem tristes, malvados faziam os outros chorarem. Ele estava rindo porque ele era um malvado? Ele estava rindo porque o Cabeçulinha estava sendo um malvado ruim? Ele estava rindo porque o Cabeçulinha estava triste? Ele não conseguia entender, mas ainda assim se sentiu mal. Ele estava sentindo que Silvestre estava rindo da cara dele.

"Mauriccce, Mauriccce!"

"Qual é?"

"Cabeçççulinha tá trissste porque nósss ssssomos osss malvadossss! HISS HISS HISS!"

"Ele tá triste porque a gente é– PFFFFFT!"

Cabeçulinha ficou microscópico. Eles estavam rindo dele. Sim, eles estavam rindo dele. Eles estavam rindo dele do mesmo jeito que eles estavam rindo do Jarbas. Eles estavam tirando sarro dele. Eles estavam tirando sarro dele porque ele estava triste. Eles disseram que eram seus amigos, mas amigos não tiravam sarro de amigos desse jeito. Cabeçulinha começou a lacrimejar, enforcando suas próprias pernas no abraço apertado. Ele queria sair dali. Ele realmente não queria estar mais lá. Ele não queria mais que tirassem sarro dele, ele não queria mais que o ridicularizassem. Ele queria que alguém o tirasse dali. Ele queria voltar para o orfanato e para seus amigos. Mas ele não podia. Eles disseram que ele não podia mais. Ele precisava que alguém o levasse de volta para seus antigos amigos. Ele precisava que um herói viesse o salvar dali.

THWACK! THWACK!

A risada histérica parou. Reclamações doloridas tomaram o seu lugar. Cabeçulinha sentiu alguém se aproximar. Alguém veio resgatá-lo? Alguém veio tirá-lo para longe dos malvados? Os heróis ouviram o seu choro e vieram salvá-lo? Cabeçulinha olhou para cima com olhos marejados e a sua espinha congelou. Era Chefa, com aqueles olhos vermelhos e julgadores, e com uma cara fechada e emburrecida. Míssil Fantasma e Tiro Rápido não escutaram o seu chamado. Foi Caleidoscorvo quem o escutou.

"Cabeçulinha." O Scraggy conhecia o tom autoritário de Chefa. Ele sabia que ele tinha que olhar nos olhos dela. Ele viu o que acontecia com os outros quando não o faziam. Então ele o fez.

"Nós demos comida pra você. Nós demos aonde dormir pra você. Nós demos um trabalho pra você. E você tá chorando porque nós somos os malvados. Então, eu tenho uma pergunta pra você, Cabeçulinha." O Honchkrow abaixou perto do pequeno lagarto. "UM MALVADO FARIA ISSO PRA UMA CRIANÇA QUALQUER DE ORFANATO?"

Cabeçulinha era um poço soluçante de lágrimas. Ele fez algo errado. Ele deixou Caleidoscorvo irritado. Ele se lembrava do que o vilão fazia. Ele machucava aqueles que o irritavam. Ela ia machucá-lo.

"ME RESPONDA! NÃO ME FAZ REPETIR-!"

Um grunhido e uma batida vieram do lado de fora da porta do armazém. Um grito foi rapidamente cortado por um gemido de dor e outra batida. Cabeçulinha ousou abrir um olho. Ele viu a cabeça da Honchkrow indo da porta para os capangas, a tensão em seus rostos aumentando com cada segundo. Ele viu Chefa dando ordens silenciosas aos outros dois, e o Scraggy pegou a oportunidade para engatinhar atrás de algumas caixas no fundo do galpão.

Um minuto se passou. Nada, nem um pio, nem um som. A tensão o estava deixando muito ansioso. Cabeçulinha olhou de trás da caixa. Chefa estava atrás de uma pilha de caixotes no meio da sala. Silvestre estava enrolado bem atrás da porta entreaberta, pronto para o bote. A garra brilhante de Maurice era a única coisa visível por debaixo de uma lona velha. A porta rangeu, deixando-se abrir pouco a pouco. Uma sombra esguia tinha uma leve luminescência apontada para dentro. Os olhos do Scraggy estrelaram. Eles vieram. Os heróis vieram. Eles escutaram o seu chamado. Um assobio acompanhou a flecha. Ela acertou a penca de Orbes Luminosas.

BANG BANG BANG! A vista de Cabeçulinha ficou sobrecarregada com o flash e seus ouvidos apitaram alto. Ele tropeçou para trás, dando de costas contra uma caixa. Ele cobriu o rosto e chacoalhou a cabeça, se encostando forte contra a madeira para ter alguma coisa, qualquer coisa como referência. Sua visão lentamente começou a voltar. O apito gradualmente começou a sumir, dando lugar para um zunido. Sua visão borrada deu lugar a uma forma escurecida, rapidamente abanando uma mão na frente de seu rosto.

"Míssil… Fantasma?" Cabeçulinha sussurrou.

A resposta veio muito abafada para Cabeçulinha entender, mas da maneira como flutuava na escuridão, era ela. Sim, realmente era a Míssil Fantasma. Os heróis vieram salvá-lo. Cabeçulinha sentiu algo na sua mão. Ele escutou Míssil Fantasma dizer algo parecido com "segure", então ele o fez o mais apertado possível. Um estrondo do lado deles fez farpas de madeira e algo gosmento voar para todos os lados. A visão dele o permitiu ver uma silhueta enrolada gemendo e sibilando sem se mexer. Os heróis derrotaram um dos malvados.

"Nós temos que sair daqui." Míssil Fantasma sussurrou. "Fica perto e não larga a minha pata, tudo bem?"

Cabeçulinha acenou com a cabeça. Os dois se esgueiraram por pilhas e mais pilhas de caixas. Estava muito escuro para entender exatamente o que estava acontecendo, mas o Scraggy conseguia escutar os gemidos, os grunhidos e os barulhos de cada golpe, e as luzes rápidas de cada ataque. Com cada bisbilhotada que ele conseguia dar, ele via como os olhos vermelhos de Caleidoscorvo voando de um lado para outro em cada tentativa de contra-ataque com traços de energia rubre, como os tiros iluminados do Tiro Rápido voavam e acertavam seu alvo ou a madeira, e como os braços elásticos de um terceiro herói desconhecido brilhavam toda vez que conectavam com o vilão.

"Você tá se saindo muito bem, Cabeçulinha, mas agora eu vou precisar que você seja bem corajoso, tudo bem?" Míssil Fantasma cochichou. "Nós vamos correr até a porta, tudo bem? Só corre o mais rápido que você conseguir, e não para por nada. A gente vai fazer isso juntos, tudo bem, então não larga a minha pata."

Cabeçulinha acenou com a cabeça. Míssil Fantasma espiou a ação, os barulhos altos ainda vindo. Ela olhou para o Scraggy, fez um aceno, e começou a contagem.

Três. Dois. Um.

Cabeçulinha correu. Cabeçulinha correu o mais rápido que pôde. Ele saltou em cima de uma lona embrulhada, um gemido escapando do pokémon esparramado debaixo dela. Eles chegaram do lado de fora e as Orbes Luminosas fracas deram uma visão mais clara da frente do galpão. Tony o Timburr e Jasta a Machop estavam apagados, empilhados um sobre o outro. Ele olhou para dentro. Duas luzes concentradas ficaram mais fortes, carregadas e miradas diretamente no olhar carmesim de Caleidoscorvo. Em união, eles dispararam bem entre os olhos, e um estardalhaço veio logo em seguida.

Os heróis venceram. Os heróis venceram! Eles venceram! Eles derrotaram os malvados! Eles derrotaram Caleidoscorvo! Eles o salvaram!

"Obrigado…"

Cabeçulinha abraçou Míssil Fantasma forte. Cabeçulinha estava seguro. Ele estava mesmo seguro. Ela o abraçou de volta. O abraço dela era quente. Ele desmantelou toda a tensão. Seus olhos começaram a ficar pesados, o cansaço finalmente tomando conta de seu corpo. Ele a apertou mais forte. Ele poderia fechar os olhos. Os heróis o protegeram. Eles derrotaram os malvados. Eles derrotaram Caleidoscorvo. Ele estava seguro. Eles poderiam o proteger se mais malvados viessem. Ele poderia descansar. Ele poderia dormir. Então ele dormiu.


Os primeiros raios da manhã mal haviam começado a atravessar as folhas. Luminho, Fyliara e Tácio estavam sentados debaixo de uma árvore, com Cabeçulinha usando uma mochila como travesseiro improvisado enquanto dormia contra a raiz. Eles observavam um Elgyem, uma Kirlia e uma Araquanid trazendo caixas e caixotes de dentro do galpão, os membros da equipe de pesquisa escrevendo furiosamente contra as pranchetas. A gangue, todos amarrados uns com os outros, estavam solenemente quietos, machucados, e olhando para baixo derrotados, com um Electivire e um Magmar de uma equipe de caçadores tomando guarda. O líder da equipe de caçadores, um Aggron que havia se apresentado como Forte antes, lentamente se aproximou do grupo.

"Como… representante… da Guilda… Copa de Árvore… eu agradeço… pelo bom… trabalho… que… fizeram…"

"Não foi problema nenhum." Luminho tinha um sorriso metido. "A gente só fez a coisa certa de se fazer, só isso."

"Nós estamos felizes de saber que Cabeçulinha está seguro e que os bens do Jarbas estão…" Fyliara deu um sorriso amarelo, "em grande parte recuperados."

"Este grupo… Os Excluídos… estavam roubando… e vendendo… os bens… roubados… para outros… criminosos… locais." Forte disse. "Eles eram… bem… escorregadios… deixando… uma área… de lado… quando… conseguiam… atenção demais… das guildas… locais. Vocês… fizeram… um bom trabalho… capturando eles."

"Como eu disse antes, não foi nenhum problema." O sorriso de Luminho aumentou.

"E nós não teríamos conseguido sem a ajuda de Skid." Fyliara concordou. "Ele lutou muito bem e criou um plano muito bom."

"Que isso. Foi trabalho em equipe. A gente não 'rushou B' de verdade, mas a gente adaptou numa execução em duas fases. E vocês executaram muito bem." Tácio deu um sorrisão.

Luminho e Fyliara olharam um para o outro. As referências e o jeito que ele falava ainda não faziam nenhum sentido para eles mesmo depois de horas juntos. Era como se ele falasse uma língua diferente. Mas a coisa mais estranha é que eles sempre quase entendiam o que ele queria dizer. Então Fyliara deu de ombros, e Luminho a seguiu.

"Vocês três… podem ir… pegar… a recompensa… depois… que descansarem. Nós vamos… tomar conta… das coisas… daqui em diante."

"Espera só um segundinho." Fyliara levantou uma pata. "Eles tinham uma recompensa?"

"Sim." O Aggron respondeu. "Eles eram… considerados… uma missão… nível B."

"Uma… missão nível B!?" Fyliara colocou uma pata na frente da boca. "O que isso significa?"

"Significa que é uma missão para nível Prata ou maior." Luminho respondeu. "Uma de nível intermediário."

O Aggron acenou com a cabeça. "Vocês três… têm… bastante… potencial. As guildas… sempre precisam… da ajuda… de gente boa… como vocês." O Aggron olhou para o armazém atrás e deixou um suspiro longo escapar. "De qualquer… forma… vocês… realmente… precisam… descansar. Estão… dispensados."

Forte deu um aceno de despedida e Tácio acenou de volta enquanto o Aggron saia, mas Fyliara e Luminho continuaram em silêncio, congelados nos próprios pensamentos. Fazer parte de uma guilda? Luminho já havia pensado nisso antes, foi uma das poucas coisas na vida dele que ele realmente foi atrás e pesquisou. Mas ele nunca passou pelo esforço de encontrar uma equipe para se juntar, ele sempre esteve muito ocupado treinando e ajudando no orfanato, e ele sempre relegou aquilo como um sonho infantil. Do outro lado, Fyliara nunca nem sequer havia considerado se juntar a uma guilda. Ela não sabia lutar, ela sempre esteve repleta de responsabilidades ao ajudar a criar os seus irmãos mais novos e tentar manter tudo e todos numa peça só. Agora, de repente havia o líder de uma equipe de uma guilda convidando Luminho, Fyliara, e um estranho de sorriso pateta e fala esquisita que ela conheceu a algumas horas atrás para se tornar uma equipe numa guilda.

"Uma Equipe de Resgate ia se 7. Eu acho que a gente ia ownar tudo."

Fyliara e Luminho encararam Tácio. Eles não sabiam o que '1 3 3 7' e 'ownar' significavam naquele contexto, mas o sorriso pateta no rosto dele provavelmente queria dizer que era algo bom.

"Você quer que a gente vire uma equipe?" Luminho perguntou.

"Sim. Vocês arregaçaram." Tácio deu um jóia.

"Masmasmas… Eu nem sei lutar." Fyliara balançou as patas em reclamação.

"É, mas a gente fez a limpa no servidor." Tácio acenou com a cabeça. "Luminho tankou bem pra caramba, e a sua idéia de usar as Orbes Luminosas como uma bomba de flash, Fy, foi uma jogada muito 'pro'. Uma equipe da gente ia dar muito certo.

"Quer saber? Tô dentro." Luminho fez um aceno confiante. As palavras ainda não faziam nenhum sentido, mas a cerne do que ele disse estava certo; uma equipe deles ia dar muito certo. O Breloom olhou para Fyliara. "E você?"

Ela hesitou. Os olhos alternaram entre o Decidueye e o Breloom. Ela sabia que Tácio estava certo. Uma equipe deles poderia dar muito certo. Já tinha dado. Eles salvaram Cabeçulinha, todos juntos como uma equipe. Tácio era um desconhecido, mas era um que de livre e espontânea vontade os ajudou sem nenhuma reclamação. Sim, ele era um pouco estranho, e ele estava tecnicamente fazendo um trabalho para Jarbas, mas com ele, eles fizeram uma missão de 'nível intermediário', uma missão de 'nível B' como Forte disse, sem nem mesmo saber. E as coisas boas que eles poderiam fazer para o mundo ao redor deles. E o bom exemplo que eles poderiam dar para as crianças do orfanato e para os seus irmãos mais novos. Eles poderiam ter mais que o Tubarão para aspirar, eles poderiam ter Luminho e ela mesma também. Sem contar que ela teria a ajuda de Luminho, um amigo de longa data que ela sabia que lutava bem. E Fyliara sabia também que o seu amigo iria precisar de alguém para pensar melhor nas coisas e não ir direto pra ação no impulso. A idéia era realmente razoável. "Eu… topo, também."

"Daora!" O rosto de Tácio era alegria pura.

"Legal." Luminho tinha um grande sorriso. "A gente pode fazer o registro hoje mais tarde quando for pegar a recompensa."

"Sim, mas nós temos que levar o Cabeçulinha primeiro para o orfanato antes mesmo de pensar em qualquer outra coisa." Fyliara deixou claro.

"Eu sei." Luminho rolou os olhos. Lá estava ela de novo, sendo mandona como sempre. "Eu sei que o Cabeçulinha tem que descansar. De qualquer jeito a gente teria que pensar num nome pra nossa equipe."

"Um nome pra nossa equipe?" Fyliara perguntou.

"Todo time precisa de um nome na hora que faz o registro numa guilda." Luminho explicou. "Aqueles lá que tão com as pranchetas são a Equipe Intelectual. Forte, o Aggron que falou com a gente, o Electivire e o Magmar são da Equipe Atropelo. A gente precisa de um nome pra nossa equipe."

"Um nome pra nossa equipe…" Fyliara colocou um dedo no queixo, pensando.

"Equipe Verde!" Tácio levantou uma asa. "Luminho é verde. Fy é verde. Eu sou verde. Nós todos somos verdes."

"Equipe Verde?" Luminho franziu. "Esse nome é horrível. E eu aposto que já tem uma 'Equipe Verde' rodando por aí."

"E o que vocês acham de… Viridiana? Fyliara sugeriu. "O seu lenço é verde, mas o tom de verde se chama 'viridiana'. Nós todos poderíamos usar um lenço desse, e todos nós somos verdes, como Skid disse."

"Esse nome é daora, e a idéia é daora." Tácio deu um outro jóia.

"Viridiana…" Luminho balançou a cabeça de um lado para outro. "É… soa legal. Mas a idéia do lenço é muito cafona."

"O quê?" Fyliara franziu. "Seria bem estiloso, e todas as crianças do orfanato saberiam que nós somos parte da mesma equipe. Até mesmo Tubarão e a equipe dele usam uma faixa bordô."

Luminho franziu a testa. O ponto dela era bom, e ela tinha escolhido um exemplo a dedo de novo. "Quer saber, tá certo. Eu já tô usando o meu lenço de qualquer jeito."

"Maneiro!" Tácio colocou uma asa na frente dos dois e deu um sorriso bicudo. "Equipe Viridiana então?"

Luminho e Fyliara colocaram uma mão cada em cima da asa com um olhar determinado e um sorriso largo.

"Time Viridiana!"