Hermes gostava de pregar peças nos outros. Desde que havia nascido, tendo sido, talvez, o primeiro bebê divino do universo a sair por aí fazendo coisas inacreditáveis enquanto sua mãe dormia, ele não resistia ao impulso de fazer alguém de bobo, de sumir com coisas que inicialmente não eram suas, de escutar por trás das portas e de sempre tentar levar a melhor quando estava prestes a ficar na pior. Era a sua essência, suas principais características divinas, ser inquieto e atrevido. Mas não mau. Mesmo quando se irritava com algo e acabava por agir por intermédio da raiva. Mesmo quando se omitia de algo. Ele não era uma divindade de natureza má. Omitir-se, aliás, era um dos maiores e mais difíceis deveres de um deus. Certa vez, há muito tempo atrás, ele se omitiu de intervir por uma pessoa, em uma determinada situação, mas não foi de má fé. Na verdade, ele não sabia bem o por quê de não ter feito nada, só sentira que foi a coisa mais certa a fazer. Ou, talvez, a menos errada.

Atena podia ser bem assustadora quando queria. Desde que nasceu, surgindo diante de todos os outros olimpianos já adulta, vestida e armada, possuidora de grandes habilidades e recém-saída da fronte de Zeus, ela causava desconforto em todos. Hermes não sabia precisar o que exatamente cada um dos outros deuses sentira naquela hora, mas ele, particularmente, havia ficado em um misto de nervosismo e admiração. Não pela forma que ela viera ao Olimpo, mas pelo contexto. Pela profecia de Métis. Ela dizia que um filho de Zeus com a filha do titã Oceano estava destinado a governar o mundo. E se esse nascimento significasse o fim da era dos deuses, ou a destruição do Monte Olimpo? Talvez tivesse sido isso o que causou horror em alguns. Mas, por outro lado, a grande semelhança de sua nova filha com Métis fez com que Zeus a amasse à primeira vista. Não "amar", como ele libertinamente "amava" a todas as mulheres bonitas, mas "amar" como a um tesouro particular, que ele gostava de admirar e ostentar, de dizer que era seu. Atena era a sua filha favorita, isso estava claro. E devia ser, também, a mais temida. Quem no Olimpo ousaria tentar algo contra Atena, a deusa da guerra e da sabedoria?

Não era uma cena agradável de ver, mas Hermes apenas observou. Ele era o mensageiro dos deuses, o que significava que sempre sabia de tudo. Que deveria sempre saber de tudo, para que pudesse repassar quando necessário. Deveria ser os olhos e os ouvidos de Zeus em todos os locais possíveis. Mas, daquela vez, aquela história, ele preferiu não repassar. Atena apenas fora até as forjas de Hefesto solicitar a feitura de armamentos porque ela admirava, de verdade, o trabalho do deus metalúrgico; porque ela nada tinha contra ele, embora fosse considerado a mais grotesca e repulsiva divindade do Olimpo. E, então, ele resolveu que a tomaria como sua mulher, tão encantado estava pela deusa que havia ajudado a vir ao mundo. Realmente, Atena era uma bela mulher: alta, de cabelos escuros, um par de olhos cinzentos e tempestuosos em um rosto muito bonito. Não era difícil ficar interessado em Atena... E não deveria ser difícil entender que ela não estava interessada em romances, muito menos em sexo.

Aparentemente, Hefesto estava tão envolto em dor e fúria pela traição de sua esposa, Afrodite, e tão inflamado em desejo por Atena, que não foi capaz de controlar-se. Era o tipo de coisa que poderia acometer a qualquer um, mesmo a quem não era essencialmente mau. Ele simplesmente a agarrou pela cintura, depois de uma tentativa frustrada de seduzi-la. Inacreditável. Se Zeus desconfiasse de tal história, de que alguém foi capaz de arranhar, minimamente que fosse, a reputação e a honra de sua filha preferida, era possível que terminasse de deformar o já malformado filho, quem sabe o condenar a algum destino tão terrível quanto o de Íxion ou Tântalo. Hermes quis fazer algo, mas a sua obrigação como mensageiro divino deveria falar mais alto que o desejo individual de intervir. Deveria mesmo? Não era qualquer uma ali, era Atena, a filha favorita de Zeus, um dos seus maiores orgulhos. Viu-a lutar sozinha – e bravamente! – contra o corpulento deus das forjas, que tentava de todas as formas roubar-lhe beijos, fazer-lhe carícias nos cabelos, nos seios e entre as coxas, arrancar-lhe as vestes e separar-lhe as pernas para que consumassem união carnal à força. E quando achou que a virginal deusa da sabedoria acabaria por sucumbir pela primeira vez aos desejos de um homem incontrolado, ela o surpreendeu conseguindo livrar-se de Hefesto, que era coxo, e, portanto, incapaz de conseguir acompanha-la enquanto ela fugia dele.

Hermes alçou voo. Primeiro, parou o deus disforme do fogo, que já não parecia mais tão disposto a continuar a perseguir Atena, depositando uma mão bem no centro do seu peito largo e musculoso, não deixando de se sentir chocado com o estado no qual estava Hefesto: suado e parcialmente nu, com a prova de sua súbita e violenta excitação à mostra.

— Pare – advertiu – Você já a perdeu. Não insista, ou Zeus saberá disso.

Dito aquilo, o deixou para trás e procurou por Atena, que não devia estar tão longe. De fato não estava, não para a velocidade com que o deus das estradas conseguia se mover, e embora soubesse que ela estava tão composta quanto Hefesto, Hermes não pôde deixar de se surpreender com o seu estado. Ela, que sempre estava tão bem vestida, casta e alinhada, parecia muito cansada, o semblante zangado e constrangido enquanto limpava uma das próprias pernas do sêmen do seu agressor, utilizando um pedaço de tecido que encontrou, algo como um lenço, provavelmente arrancado das roupas do próprio Hefesto.

- Atena.

O deus mensageiro teve o impulso de se aproximar, para levá-la ao Monte Olimpo, a fim de lhe dar a oportunidade de se esconder e se recompor antes que alguém desconfiasse do que aconteceu. Um ato impensado, mas que, para ele, era natural em momentos de necessidade. Já havia carregado tantos em seus braços que realmente não vira nada demais. Mas a voz de Atena soou baixa e ameaçadora:

Não se aproxime.

O olhar tempestuoso dela estava feroz, tal como o de um animal acuado que morderia a qualquer momento. Hermes ergueu as mãos, em um sinal de rendição.

— Eu não lhe faria mal algum! Só iria levá-la ao...

— Não importa!

A mensagem fora clara: ela não queria ser tocada. Mesmo que fosse com a melhor das intenções, uma ajuda, mesmo que o gesto passasse muito longe de beirar o desrespeito, a linguagem corporal da deusa da guerra dizia que aproximações não seriam bem-vindas.

— Não pode sair por aí neste estado. – argumentou – Perceberão.

— Somente "perceberão" se você, o mensageiro, contar!

Era verdade. Ninguém além dele tinha visto. Os outros deuses não poderiam adivinhar o que havia acontecido. Atena continuava virgem. Não havia razões para espalhar a história.

— Ninguém saberá. Não de mim – prometeu, sendo o mínimo que poderia fazer.

Ele podia ser o deus dos impulsos de fazer os outros de idiota, de sumir com coisas que não eram suas, de espiar as coisas, e de sempre tentar levar a melhor, mas não era a divindade das más línguas ou da humilhação. Aquela culpa ou atributo ele não carregaria. Não foi ele o responsável pela divulgação da constrangedora história, mas foi quem ajudou Atena a acolher e esconder o bebê que acabou nascendo da quase violação da deusa.

Não há muitas explicações humanamente possíveis de entendimento para as coisas que aconteciam aos imortais, e nem para as coisas que eles próprios faziam acontecer, como por exemplo, o nascimento de Erictônio, primeiro rei de Atenas, "filho de Atena e Hefesto", que nunca chegaram a consumar qualquer ato sexual.

Às vezes, Hermes se pegava lembrando disso e se perguntando como tudo poderia ter sido diferente se ele tivesse intervindo em defesa dela. Talvez Hefesto se tornasse um dos seus maiores rivais no Olimpo. Talvez Atena o olhasse com melhores olhos e... Não. Nunca aconteceria. Ela era uma deusa virgem, que jamais se envolveria carnalmente com homem algum, além de o achar um tanto presunçoso e infantil para os seus gostos.

"Quem me dera aquele lenço fosse meu...", ele se permitia pensar de vez em quando.

Podia parecer um tanto quanto sádico desejar ter sido o pai de uma das crianças de Atena - justo aquela primeira! -, mas ele não conseguia não pensar naquela irresistível possibilidade, embora se recusasse a dar nome e forma à tal sentimento. E, muito embora, também, fosse incapaz de fazer qualquer mal a Atena.