Nota: Decidi traduzir a minha série de fics sobre a infância do Levi para pt-pt porque sim.
Aviso: Este fic lida com depressão e o tema de aborto, assim como menções de suicídio.
Nota de pt-pt para pt-br:
- ' mesinha de cabeceira' é o mesmo que 'criado-mudo'. (a sério, de todas as palavras pt-br, esta é a mais what the fuck XD)
Se tiverem mais alguma dúvida, ou se encontrarem erros, por favor digam.
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O cansaço podia tornar-se tão presente na vida de alguém que se tornava monótono. Um peso constante, um esforço constante, enlaçado e asfixiante ao ponto de ser uma exaustão familiar e constante. Kuchel tinha frequentemente de se perguntar porque razão continuava, mas mudança era - ou parecia - um pensamento demasiado distante, muito menos uma conquista possível. Cansaço era a única sensação que conseguia registar.
Alguns momentos podiam ser particularmente desgastantes no que restava da sua resiliência, e parecia impossível sequer tentar continuar a lutar. Outras vezes eram como um alívio, uma frágil amostra de calma. Se ela quisesse, quase parecia que as coisas podiam melhorar e mudar.
Não mudavam.
Kuchel não se sentia viva, se parasse para considerar a questão. Sentia que a sua vida não era sua - e talvez nalguns pontos, literalmente, não lhe pertencia de facto. Mas ela abandonara respostas emocionais a esse facto, resistência e esperança para mudança e melhoria. Lutar requeria energia que ela não conseguia reunir no seu corpo. Há mais tempo do que se conseguia lembrar, demasiados anos - ou não? Há tanto tempo começara a sentir-se desta forma? - o padrão de cansaço tornado exaustão tornado cansaço de novo era confortavelmente familiar, e demasiado arrebatador para mudar. A vida tornara-se uma corrente de eventos nos quais ela era uma mera espectadora, com limitada reacção aos eventos que testemunhava.
Como um espectador teria pouca relevância no seu meio, nas pessoas e nas circunstâncias que decorriam, também ela tinha. Falava, respondia, agia e executava de acordo com um conjunto de guiões pré-feitos que não requeriam pensar. Portanto não havia mudança, e assim se manteria até alguém ou algo forçar mudança sobre ela.
E assim foi.
Ela conseguia testemunhar os vários homens sem rosto que pagavam para estar consigo, ouvia as suas palavras, acusações e lamentos; podia tentar testemunhar a sua brusquidão e abuso para evitar o processo de ter de o sentir, mas eventualmente a consequência cairia sobre si - e quebrá-la-ia do seu lugar de espectadora.
Ser forçada a sair desse lugar... ela não conseguia suportar a ideia.
Foi por essa razão, enquanto os dias passavam e ela conseguia sentir os sinais crescentes do seu corpo, voltando-se contra si próprio e contra o escudo autodestrutivo que tinha na sua mente, o único pensamento que lhe provocou foi o de acabar - acabar com aquela mudança, e talvez, porque não, acabar com tudo.
Ninguém a iria condenar. Ninguém a tinha condenado antes, das duas vezes em que a inevitabilidade de ser uma prostituta tinha resultado numa forma de vida indesejada ter começado a crescer dentro de si. O dono do bordel nem soubera da primeira vez - Kuchel não hesitara um momento após a primeira suspeita - e a segunda vez fora recebida com um encolher de ombros.
- Desde que continues a trabalhar, compenses os clientes que percas e não deixes o puto intrometer-se, quero lá saber. Só me importo se se tornar um incómodo.
Viver num bordel no Submundo não era um incómodo, era uma penitência. Kuchel não podia ter a responsabilidade de condenar essa vida a outra pessoa.
Responsabilidade. O facto de não se importar com a sua vida significava que esta livre da responsabilidade de encarar aquilo em que os seus sonhos e esperanças se haviam tornado - o actual resultado da ruína em que a antiga Kuchel se havia tornado. A teimosa, decidida e esperançosa jovem que sabia como falar e dar-se bem com pessoas, quer fossem criminosos ou mercadores, que trabalhava no duro para se sustentar, a si e ao seu irmão e aos seus conhecidos, que se conseguia aguentar numa luta e que se aguentava ao lado de Kenny ou sem ele, a Kuchel que conseguia achar pequenos momentos de paz e continuar em frente - essa Kuchel estava enterrada sob demasiado cansaço e dor.
Não conseguia tomar conta de si própria e aguentar as suas lutas, quanto mais tomar conta de uma criança.
Desta vez não seria diferente.
Poucas prostitutas decidiam prosseguir com uma gravidez, por demasiadas razões óbvias. Kuchel conseguia identificar-se com todas as que conseguia pensar; as dificuldades físicas de uma gravidez, do parto e da recuperação, ser mãe solteira, a constante necessidade de atenção, o medo de passar fome, o medo de doenças, o medo de abuso, o medo. O medo do desconhecido. A alternativa seria carregar uma criança indesejada durante nove meses, acumulando ressentimento que se tornaria nojo pelo recém-nascido, só para então o abandonar à morte após nascença ou para vender logo depois. Kuchel não podia, não iria ceder a tal desespero. Nunca. Recusava-se a causar sofrimento a qualquer outra pessoa além de si própria. E sofrimento iria acontecer pelo simples facto de respirar sob o solo.
Talvez numa outra vida, Kuchel pudesse ter sido mãe. Nesta vida que lhe fora designada e que ela criara, era esperado que morresse sozinha presa num ciclo sem mudança.
Porquê?
...mais importante do que isso. Se ela alguma vez segurasse uma criança nos braços, sabia que não seria capaz de abandonar o bebé.
- Quem é que haveria de parir miúdo para este mundo, de qualquer das formas? Olha só os problemas que isso traz.
A memória de Kenny apareceu na sua mente sem autorização quando estava sentada sozinha no seu quarto, uma única vela emanando sombras pesadas e sonolentas sobre a pequena divisão. A luz familiar costumava deixá-la reconfortada e tranquila, mas agora deixava-la ensonada, alienada, assustada.
Porque haveria eu...
Tal como das duas vezes anteriores, o cocktail de medicamentos que iria purificar o seu corpo de 'todos os parasitas', como descrevia a receita dada pela Velha às prostitutas, aguardava na mesinha de cabeceira. Desta vez, no entanto, Kuchel tinha acrescentado uma fina faca que guardara antes de Kenny se ir embora. O motivo era claro, mas ainda estava a tentar... decidir.
Decidir o quê? Acabar com a sua vida em vez de tomar o remédio?
As únicas respostas à pergunta distante na sua mente foram a chama trémula, as sombras crescentes e as vozes abafadas indistintas no exterior.
Ela não era uma espectadora - a decisão cabia-lhe a ela-
O que havia a decidir?
Todos consideravam uma criança a mesma coisa. Incómodo. Problema. Parasita. Um problema, um peso, algo de que se deveria livrar.
Então e ela?
Instintivamente, a mão de Kuchel moveu-se com cuidado para o tecido do vestido, sobre a barriga completamente lisa.
As mudanças eram demasiado arrebatadoras. Não conseguia fazer isto.
A minha própria mudança.
Estava cansada de tudo isto. Estava assustada com tudo o resto. Não queria sentir nada, seria melhor simplesmente acabar aqui.
A faca estava ali. Tudo o que tinha de fazer era mover a mão e pegar-lhe.
Em vez de um golpe profundo, houve o som de um embate, pesado e estridente.
A vela estremeceu ao grito silencioso de Kuchel, palmas das mãos pressionadas contra os olhos e lágrimas caíndo copiosamente pelo rosto.
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Os milagres vêm em embalagens pequenas.
Não conseguia de maneira alguma recordar-se se aquelas palavras tinham sido sussurradas por alguém em tempos, ou se se tinham formado na sua mente como única verbalização possível para algo que, de outra forma, não tinha palavras para descrever.
Como podia alguém tão pequeno, tão frágil, ser também o ser mais querido, frágil e perfeito no mundo? Não era algo que Kuchel conseguisse explicar a si própria, quanto mais reunir forças no seu corpo para racionalizá-lo.
Como podia alguém tão fraco trazer tanta força?
Alheio à sua exaustão e torrente de emoções, o bebé aninhou-se no seu colo e gemeu baixinho, um suspiro gentil e ensonado. O som delicioso trouxe um sorriso ao seu rosto, mais uma maneira de verbalizar os sentimentos indescritíveis enquanto as lágrimas já estavam a verter dos seus olhos.
Desejar um futuro era um desafio por si só. Ansiar por um era aterrorizador; não seria nada além de um caminho tumultuoso de incerteza. Ainda assim... talvez fosse isso que todos tinham, e deveriam ter, mesmo no Submundo. Fosse por êxtase ou por ingenuidade cansada e esperançosa, Kuchel não o receou de todo naquele momento. Por aquele único momento que durou uma eternidade e se desfez num bater de coração, Kuchel não teve medo.
O bebé estava vivo. Estava a respirar, era perfeito, e estava a dormir. Ia ficar tudo bem.
Quando o medo chegou, sufocante e implacável, o medo de falhar, de sofrer e de morrer, ainda assim foi uma mudança. Estava a sentir, realmente. Estava a sentir preocupação por si e por outra pessoa.
Quem diria que uma única pessoa podia mudar tanto. Uma criança podia mudar tanto para melhor.
Vai ser para melhor.
- Obrigada, Levi.
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fim
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Nota: "Miracles come in small packages" é uma frase do filme dos Nightwish 'Imaginaerum'.
Obrigado por lerem, se acharem erros por favor digam.
disclaimer: don't own Shingeki no Kyojin.
Este fic é parte de uma série chamada 'Uma família disfuncional', dito kid!Levi, histórias independentes mas que formam uma continuidade se as lerem por ordem. Podem usar ctrl+f no meu perfil para as achar e ler os sumários e avisos. Aqui está a lista:
1 - Palavras de despedida (Kenny, Kuchel)
2 - Mudança - estão aqui -
3 - Um dia (Kuchel, Levi)
4 - A Janela para o Céu (Kuchel, Levi)
5 - Algo importante (Kuchel, Levi)
6 - Escolha (Kenny, Levi)
7 - Primeira (Kenny, Levi)
8 - Dor (Kenny, Levi)
9 - Lembranças e destroços (Levi, Kenny)
10 - A Conversa (Kenny, Levi)
11 - Palavras (Kenny, Levi)
12 - Perda (Kenny, Levi)
13 - Decisão (Levi, Kenny)
14 - Pai com outro nome (Kenny)
15 - Sozinho (Levi)
