É uma história que veio com a intenção de explorar os sentimentos de Laura.
E como eu acho que consigo escrever ela um pouco melhor do que faço com Adama (vergonha) eu preferi deixar tudo sobre o ponto de vista dela.
Um .
Durante o pouso ela segurou firme no braço macio da poltrona, os dedos agarrando o couro até que suas juntas se tornassem totalmente brancas. Mantendo os olhos fechados ouviu toda a excitação e movimentação ao seu redor. Pessoas ansiosas por pisar em terra firme novamente.
Uma parte dela também estava e isso a assustava. Ela nunca teve tempo de aproveitar os momentos em Kobol, ela mal registrou que as pedras se esmagavam sob seus pés a cada passo, mal percebeu o cheiro da umidade ou a chuva que deixou seus cabelos escuros. Quando buscava as respostas com a flecha de Apollo em sua mão ela esqueceu todo o resto e agora aquele planeta a assustava porque em sua alma Laura sabia que ali não era o lugar certo. Eles não encontrariam nada ali e doía pensar nisso. Doía o pensamento de que se ela descesse, sentisse o ar puro em seus pulmões ela iria se sentir bem e quando tudo desse errado. E ela sabia que daria. Ia doer ainda mais deixar uma 'utopia' para trás. O sonho de recomeçar suas vidas interrompidas.
- Senhora Presidente?
O título a fez relaxar e quase rir. Ela mal havia deixado o cargo público para seu rival e tudo já estava desmoronando.
- Se eu ainda fosse Presidente não estaríamos pousando nessa rocha estéril. - ela disse finalmente abrindo os olhos para encontrar um de seus antigos seguranças. Andrew.
Ele sempre foi gentil, sempre a tratou com respeito e cuidado e ainda tinha esse olhar reverente nos olhos escuros. Talvez ela ainda tivesse aliados dentro do gabinete, dentro de toda a frota. Ela conhecia seus aliados na Galactica, e havia Tory, mas os outros rostos eram um borrão para ela. E ainda assim ela não queria descer, não queria deixar a Colonial One, que aprendeu a associar a algo semelhante a uma casa. E novamente alguém tomava isso dela. Laura sentia em cada fibra de seu ser que Baltar iria corromper tudo, que em sua infinita arrogância ele iria destruir aquele frágil castelo de cartas.
Acabado estava. Ela tinha um destino e tudo iria se configurar para que ela pudesse assumir novamente seus deveres. Era questão de tempo, a vida era assim, parecia seguir um caminho sombrio para se organizar novamente em algo bom. Ela só não queria que seu povo sofresse, que os números caíssem. Laura comemorou cada pequena vida que nascia dentro da frota, tão poucos. Respirou fundo aceitando a mão oferecida, ela desceria com elegância e honra. Iria se agarrar a vida e fazer seu melhor, afinal precisaria estar preparada para as adversidades.
E ela lutaria com ferocidade.
Seu primeiro passo naquele planeta a encheu de mais dúvidas. Era frio, lúgubre. Os próximos passos a fez perceber que ela nunca teria arriscado a frota por míseros 20% de possibilidade de habitar aquele lugar. Era uma medida desesperada de um homem desesperado. Laura nunca confiou completamente na sanidade de Gaius Baltar, ela o manteve perto porque era sensato, porque era isso ou Tom Zarek tomaria dela a presidência. Aparentemente ela apenas adiou o inevitável. O jovem Andrew caminhou com ela por poucos minutos, cada um tendo seus pensamentos privados acerca do novo lugar onde iriam viver. Quando o som de vozes festejando se tornou muito e ela pediu desculpas e disse que precisava estar sozinha.
Andou pouco mais de meia hora, vagando, seus olhos absorvendo a desolada geografia do lugar. Chutou uma pedra e o som que ela fez a correr sobre os seixos era como um lamento. Um dia aquele planeta pode ter sido lindo, ou ainda seria, talvez estivesse muito jovem ainda, crescendo.
Ela riu de como sua linha de pensamento a levou, ela não podia culpar o lugar, era culpa dela estar ali. De não ter feito uma campanha mais sólida de não ter tido a coragem de fortalecer sua trapaça e tomar a Presidência.
Oh não, este não era o tipo de político que desejava se tornar, Bill estava certo, isso iria a devastar. Esperava que as pessoas percebessem o erro, que em novas eleições eles se redimissem e dessem a ela nova chance de guiar a humanidade a um lugar melhor. O Planeta de direito, digno de ser habitado, abundante. Onde ninguém mais teria que racionar nada.
Olhou para o céu e sua gargalhada surgiu. Ela tendia a ter crises de riso nos momentos menos apropriados. Continuou andando, absorvendo a paisagem estéril, tão cinza e gelada. Puxou o ar e seus pulmões se aqueceram com um oxigênio tão puro. Ao menos ar e água eram abundantes ali.
Sua única esperança era ter Galactica sobre eles com seu teimoso Almirante que se recusava a viver naquele planeta. O homem amava sua battlestar. Laura admirava isso.
As primeiras semanas foram difíceis, eles fizeram o melhor para construir abrigos, cabanas que a lembrou uma época de sua infância em Caprica onde ia acampar com o pai e as irmãs em Ionian Islands, havia dias que ela se sentia nostálgica.
Homens como Anders e Chief Tyrol a ajudaram a construir uma barraca ampla, porém simples. E muitos outros ajudaram a tornar o espaço sob a lona como um lar. Provisório, mas ela se sentia quase tão confortável ali como se sentia ao utilizar os aposentos do Almirante.
Soltou um longo suspiro, fazia quase duas semanas que não o via, Bill estava ainda mais contrário aquela ideia do que ela, permanecendo na Galactica como forma de defesa ele claramente negava a gestão de Baltar.
Mas Roslin se sentia no dever de fazer algo, contribuir. E isso seria da forma mais educativa possível. Uma escola para continuar a educação das crianças, moldar suas mentes jovens a um pensamento ético e correto. Sua mente se ocupou tanto com a elaboração de sua nova escola que mal percebeu o passar dos dias.
