Capítulo 1 – Três vassouras

- Alô!

- Oi, Mione! Afinal, você vai ou não, no nosso encontro de dez anos?

- Vou sim, Rony! Já confirmei com Harry! Me esperem, pois posso me atrasar. Eu dou aula até às sete da noite, o horário que vocês marcaram...

- Está bem... Eu falo para o Harry nos encontrarmos a partir das oito horas, então... Na frente do bar, pode ser?

- Está ótimo! Até mais à noite!

Desliguei o telefone e de repente bateu aquela nostalgia. Lembrei daqueles anos que passei ao lado dos meus amigos, que eram como meus irmãos. Irmãos que eu não tive. Fazia bastante tempo que não nos víamos. Depois de estudar em Hogwarts, passei quatro anos na graduação, depois mais dois no mestrado e quase quatro no doutorado. Estava estabilizada na minha carreira de pesquisadora em Londres, e por isso eu quase nunca voltava ao mundo mágico. No Três Vassouras, a última vez que estive foi para comemorar a formatura... Hogwarts, sempre que lembro desta escola sinto um aperto no coração...

Procurei rapidinho mudar meus pensamentos.

Aliás eu voltei algumas vezes para o mundo mágico, no aniversário do meu afilhado. Eu e Rony somos padrinhos de Tiago, o primeiro filho de Harry e da Gina. Depois que ele completou sete anos, eu sempre mando um presentinho ou outro, e me esquivo de ir nas festinhas...

Rony... está sempre me assediando... Quando ele percebeu que eu não ia mesmo namorá-lo por causa dos meus estudos, era a desculpa que eu dava, ele se casou com Lilá e tiveram uma filha. Para mim foi um grande alívio! Pena que durou pouco... Sete anos depois, ele voltou a me atormentar! Desde que ele se separou da esposa, está sempre me ligando, querendo sair comigo. Talvez seja este o motivo de eu não querer mais ir para Hogsmeade, ou para a toca... Ou para o mundo mágico.

Sim, tem um outro motivo ainda maior, mas prefiro ignorar...

Nesta noite sei que Rony vai me assediar de novo. Será que ele amadureceu um pouquinho? Estou tão carente... faz tanto tempo que não beijo na boca... Se não tiver ninguém mais interessante no bar esta noite, vai ser você mesmo, Rony!

Com tais pensamentos guardei meu carro na garagem e fui tomar um banho caprichado. Precisava estar bonita para encontrar meus amigos.

Às vinte horas e trinta minutos, eu aparato na frente do Três Vassouras e lá estão eles. Foi muito bom abraçar e beijar meus amigos.

- Demorou, hem Mione?

- Eu lhe disse Rony, que ia me atrasar...

Harry, por sua vez me recebe bem diferente.

- Só meia hora. Está perdoada! Você está cada vez mais linda, Mione!

- Obrigada Harry! Vamos entrar? Está um pouco frio aqui fora!

Eu vestia uma saia preta e uma jaqueta de couro preta por cima da blusinha fina de seda. Sapatos pretos de salto alto e um casacão por cima. Era final de outono.

Ao entrarmos, vimos que o ambiente estava cheio, afinal era sexta-feira. Logo nas primeiras mesas, ele estava ali, solitário, com uma taça de bebida na mão. Consigo distinguir de longe e na penumbra aquela silhueta masculina, de ombros largos, costas largas e peito forte. Eu não sabia se andava ou se respirava. Segui em frente procurando alguma mesa vazia. Quando passo por ele, eu o olho, ele me viu e abriu um sorriso. Algo muito raro vindo dele. Estranhei... mas enfim, já havia se passado dez anos que não nos víamos... Senti minhas pernas bambas e quando ele me dirigiu a palavra, eu estremeci ao ouvir aquela voz rouca e sensual do mestre.

- Senhorita Granger! Que prazer em vê-la!

E ele se levanta para estender a mão para mim.

- O prazer é meu, professor! Como vai?

- Bem, obrigado! Sente-se! Tome um drinke comigo!

- Eh... bem...

Logo Harry e Rony me alcançam e também pararam para cumprimentar o professor.

- Olá senhor Potter, senhor Weasley! Como estão?

- Bem, obrigado, professor!

Harry responde e Rony só fez um balançar de cabeça. O professor Snape também os convida para sentar-se junto a ele.

- Vejo que estás acompanhada, senhorita! Os senhores também foram meus alunos... Por favor!

- Não obrigado, vamos lá para o fundo, né Mione?

- Pode ir, Rony... Eu vou ficar e conversar um pouco com o professor.

- Eu também, Rony!

E Harry e Hermione se sentam para o desespero de Rony, que não estava nenhum pouco a fim de ficar e dividir a mesa com o morcegão naquela noite. Ele se senta a contragosto.

- Que surpresa, o trio que me atrapalhava um bocado nas aulas práticas... O que fazem aqui, tão próximos a Hogwarts?

- Viemos comemorar nossos dez anos de formados, professor!

Harry responde orgulhoso. Em seguida enquanto passa o garçom, Severo pergunta:

- Parabéns a vocês três! Querem beber algo?

Eu não sabia o que pedir, mas a bebida do professor me chamou a atenção. Era em tom verde claro, parecia uma poção deliciosa de se tomar. Não pensei duas vezes e perguntei:

- O que o senhor está bebendo, professor?

- Absinto.

- Posso experimentar?

- Se quiser... é minha bebida favorita!

- Então deve ser boa...

Peguei a taça da mão dele e provei.

- Hum... tem gosto de ervas e é docinho... mas tem muito álcool!

- Sim, é uma das bebidas alcóolicas mais fortes. Gostou?

Se eu gostei? Por Merlim... encontrar você aqui hoje, salvou minha noite! Provar sua bebida favorita em sua taça... Hum...

Só lembro que deixei escapar o "Hum"... E lambi os lábios.

- Uma dose para a moça! E os senhores?

Snape educadamente pergunta.

- Um whisky com gelo para mim.

Respondeu Harry e Rony disse meio que sem vontade.

- Uma cerveja bem gelada.

A conversa girava em torno das nossas carreiras e se estávamos ou não felizes com nossas escolhas. Harry sempre era o primeiro a falar e estava realizado em sua profissão de auror. Rony era seu companheiro de trabalho, mas pouco falava, era notório seu descontentamento em estar na mesa com o professor. Eu... bem, preferia beber e deixar o álcool me acalmar lentamente, porque sentia meu coração bater mais forte só por estar sentada ao lado dele. Os rapazes responderam por mim, dizendo que eu trabalhava como pesquisadora numa empresa multinacional de Londres e dava aulas à noite em Oxford. Estava nervosa por estar tão perto daquele homem que significou tanto para mim no passado. Minutos depois ele me pergunta:

- E a senhorita? Ou senhora?

Os três olhavam para mim. A conversa agora era sobre casamentos e filhos... Todos já tinham falado e eu não prestei atenção. Lembrava do beijo que lhe roubei no baile de formatura, quando me despedi dele. Senti meu rosto corar.

- Sim, vocês me perguntaram algo?

- Mione, ele perguntou se você se casou, se tem filhos...

Tomei um gole da bebida, enquanto pensava em uma resposta, pois a vontade era dizer: casar com quem, se você não me quis... roubou meu coração quando eu ainda era uma menina...

Tive a coragem da Grifinória que sempre me acompanha, levantei o rosto, encarei aqueles olhos negros que me fitava e devolvi a pergunta.

- Não... E o senhor?

- Não...

A resposta dele foi tão simples quanto a minha, era de se esperar... Quem quebraria aquele coração petrificado? Se ele não dava espaço para ninguém se aproximar...

Harry em seguida comentou:

- A Hermione se casou com os estudos! Ela fez graduação, mestrado e doutorado. Dez anos, não foi Mione?

Eu respondi:

- Quase... levei nove anos e meio estudando... Agora estou dando um tempo!

- Está na hora de se casar, Mione!

E Rony se pronuncia pela primeira vez na noite, me deixando em fogo cruzado.

- Por que diz isso, senhor Weasley?

Gostei que o professor veio em minha defesa, perguntando a ele. Afinal para Rony, seus exemplos de mulheres em casa era para ser esposa e mãe...

- Por que ela já tem quase trinta anos e uma mulher precisa se casar... Ao menos uma vez!

- Esta resposta não significa nada, Rony! Se você disser que estatisticamente a mulher casada é mais feliz que a solteira... A Mione poderá concordar com sua resposta e até pensar em se casar algum dia...

Harry também procura defender a amiga e Severo Snape gosta do rumo que a conversa tomou e completa:

- Não existe idade ideal... Eu por exemplo não me casei... A idade está na mente da pessoa. A mulher se casa com a idade que quiser! Se ela quer perder parte da sua juventude criando filhos... é uma escolha! Ninguém tem nada com isso. E se ela quer perder parte da juventude dela estudando... é outra escolha!

Harry fica maravilhado com aquela resposta e pensa na esposa, que escolheu seguir o exemplo de casa, tendo vários filhos tão cedo. Inclusive estava grávida do quinto e último filho. Assim ele esperava! Admirava cada vez mais sua amiga, que adiava a maternidade para se dedicar a carreira. Foram várias as vezes que se perguntou se seria feliz se casando com ela.

Eu resolvi me concentrar nas alterações que a bebida fazia em meu corpo. Comecei a beber mais devagar. Sentia o álcool relaxar cada músculo e eu não havia comido nada. Tinha medo de falar bobagem, o álcool já fazia efeito também no meu cérebro, soltando a minha língua. Por isso preferi ficar quieta a maior parte do tempo. Estava com fome. Ninguém pediria nada para comer?

Rony para concluir a conversa, e tentar se sair melhor desta vez, ele comenta:

- Pode ser, professor! Mas é um desperdício uma mulher tão bonita preferir ficar sozinha!

- Desta vez tenho que concordar com o senhor, Weasley!

E ele responde, o que me faz olhar para ele bem na hora que ele me olha. Aquele olhar profundo, que atravessava a minha alma e que muitas vezes me perdia na escuridão. Eu rapidamente abaixo meu olhar corando e pego o cardápio.

Desperdício é você... um homem tão bonito, elegante, sensual, inteligente e estar sozinho até hoje, por causa de um amor de infância que não deu certo... E ainda por cima não me quis, quando me ofereci no dia da formatura! Respirei fundo e procurei mudar o assunto antes de falar bobagem.

- Não sei vocês, mas estou com fome... Vou pedir meu jantar. Vocês me acompanham?

- Claro, senhorita Granger! É um prazer! Alías, agradeço fazer parte desta comemoração de hoje. Sem dúvida, é um dia muito especial! Vamos brindar! Pedirei champagne e o melhor vinho da casa para acompanhar o jantar! Ah, e a janta é por minha conta!

- Diretor ganha bem, hem professor?

Rony faz seu comentário mesquinho.

- Eu diria o suficiente para certos prazeres da vida.

Severo responde de forma elegante. Discretamente ele olha a madame Rosmerta que trocava um beijo ardente com seu noivo. Talvez não quisesse admitir, mas aquilo de certa forma o incomodava. Durante anos foi amante dela, de forma ultra sigilosa. E logo hoje, que ele estava sedento por uma noite de amor, a encontra nos braços de outro, e ainda noiva!

Na mente de Severo Snape só se passava tal pensamento:

Por Merlin! Que seja feliz! Como eu mesmo disse antes... não tem idade certa para se casar! Agora, estes rapazes poderiam muito bem irem embora cuidar da prole e me deixar a sós com minha ex aluna... tão inteligente! Que mulher bonita e interessante se transformou! Aliás, que transformação! Ficou um mulherão!

O olhar dele para o casal se beijando não passou despercebido de Hermione. No fundo da sua alma, ela achou bastante oportuno presenciar a cena. Hermione era uma das poucas bruxas que desconfiava do relacionamento mais íntimo deles. Certa vez nos passeios a Hogsmeade, ela chegou cedo no Três Vassouras, pediu uma cerveja amanteigada enquanto aguardava seus amigos, viu o professor descer as escadas ajeitando o colarinho branco de sua camisa que estava dobrado. Ele a encarou com um olhar fatal, quando passou por sua mesa. Poderia não ser nada, mas a partir daí começou a reparar melhor no modo que a dona do estabelecimento o tratava. A madame Rosmerta tratava Alvo e Minerva como amigos de anos, e claro Severo Snape também! Ele sempre foi um homem de poucos amigos e a amizade com a mulher poderia ser por causa do diretor... Mas tinha algo a mais nos olhares que eles trocavam, pareciam mais íntimos. Ela poderia jurar que eles eram amantes e por isso passou a evitar aquele lugar.

Todos concordaram em pedir o mesmo prato para que o jantar fosse servido logo. Rony estava na terceira cerveja, Harry na metade do segundo copo de whisky e eu ainda tomava a bebida verde da minha taça. O professor terminara seu último gole quando o garçom veio perguntar sobre as bebidas para acompanhar o jantar.

- Por favor, pode nos trazer um vinho reserva cabernet sauvignon, cerveja para o rapaz, água mineral e uma garrafa de champagne pelo método champenoise! Precisamos comemorar e nos traga quatro taças, por gentileza!

Continua...