Nota: Decidi traduzir os meus fics de Kuroshitsuji porque sim.
Este fic foi totalmente inspirado pela atmosfera da música ''Dixit Dominus" do Igorrr, por isso recomendo-a vivamente.
Esta foi a quarta vez que a música do Igorrr me inspirou para um fic de Kuroshitsuji. Por questões de legibilidade, tomei o nome de 'Astre' para o Nosso Ciel, enquanto que o Verdadeiro Ciel se mantém com o devido nome.
Avisos: Isto passa-se durante o mês em que os gémeos são torturados. Tem um estado mental muito traumatizado e quebrado do Nosso Ciel/Astre, abuso sexual implícito, auto-ódio e muita blasfémia. Por favor tenham atenção a estes avisos. Não tenciono ofender ou causar algum gatilho.
Disclaimer: Don't own Kuroshitsuji.
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- E o Senhor disse...
Ciel continuou a rezar em voz baixa, hesitando quando Astre não o acompanhou, quebrando o forte aperto dos seus dedos para tomar a mão do mais novo na sua, encorajando-o a juntar-se-lhe novamente. Sorriu, e o outro espelhou-o.
Contou uma história, alguma memória como aquela que Astre contara do Pai Natal, espelhando a tentativa de Astre em distrai-los, mas de forma melhor do que a dele, levando-os para longe daquele sítio e para algum lugar melhor, algum lugar onde gostassem de poder ir mesmo que nunca mais lá pudessem regressar. Ciel continuou a tentar e a tentar até conseguir que Astre sorrisse de novo. Sorriu, e o outro espelhou-o.
Embalou Astre, segurando-o bem perto para lhe dizer que ficaria tudo bem, mesmo que não ficasse. Mas Ciel não o deixava perder a esperança. Sempre tão forte, sempre tão amável... mesmo quando se sentia fraco, mesmo quando queria ser abraçado mais do que qualquer coisa.
Quantos mais dias e noites ali passavam, mais Astre sentia os pensamentos desconcertantes esgueirarem-se para a sua mente; talvez Ciel na verdade não fosse assim tão forte, talvez na verdade não fosse assim tão amável... talvez ele só desejasse ser, ambicionasse isso mais do que tudo. E assim ele tentava e tentava, até que um dia talvez ele se tornasse de facto tão forte e amável quanto gostaria.
Mas isso não era o mesmo, no final de contas? Ciel continuava a ser melhor, mais forte, mais amável e mais esperançoso. Ainda continuava a ser puro.
Então e ele? Ele não era forte bem amável, e não queria ser, não tanto quanto Ciel. Nunca fora bom o suficiente, e certamente não era agora. Não depois do que eles lhes tinham feito. Não depois do que ele lhes queria fazer a eles, esquartejá-los e esventrá-los e destruí-los a todos.
Astre não conseguia ajudar Ciel, enquanto que Ciel não abandonava Astre. O que dizia isso sobre si? Era tão repugnante e monstruoso quanto eles.
- Também os vês assim? - disse subitamente, a voz rouca e a arranhar-lhe a garganta depois de tanto tempo sem falar, demasiado cedo depois de gritar.
- Hm? - A cabeça de Ciel vacilou ligeiramente, e Astre pressionou de imediato os lábios, apercebendo-se que acordara o gémeo mais velho assim que ele provavelmente conseguira descansar por alguns minutos.
- Desculpa, eu-
- Não te preocupes. O que disseste?
- Eu... tu também os vês assim?
- Assim como?
- Como... - Monstros. Insectos rastejantes e depois voadores, algo que à primeira vista parecera tão inofensivo e de confiança transformado em algo tão assustador e perigoso. - Eu vejo-os como borboletas. Não como pessoas. Mesmo quando só me seguram os braços, ou as minhas pernas, ou o meu cabelo, arde tanto que não se parecem com mãos. E-Eu não sei se ajuda, ou se...
- Eles não são borboletas. As borboletas são boas e bonitas.
- Eu sei. Talvez mais como... traças, se calhar
- Traças?
Astre enrolou-se com mais força sobre si próprio, sentindo-se inútil por ter puxado o assunto, sentindo-se pior por o ter feito, a pele viva e desperta com arrepios como se estivesse a sentir as queimaduras, as agulhas que pareciam cravar-se nele pela mera ideia de dedos, ou pernas pegajosas de insecto, lhe tocarem e magoarem.
- Eu costumava adorar borboletas - murmurou. A voz soou tão fraca aos seus ouvidos que não percebeu se as lágrimas que lhe encheram os olhos eram da memória da dor, ou de pena de si próprio.
- E ainda vais gostar - respondeu Ciel. - Lembras-te como as borboletas são bonitas? As suas cores, tão bonitas e vibrantes? As borboletas adoram a luz do sol. Lembras-te como elas eram no jardim, a voar por entre as flores? Como o verde das folhas era tão brilhante... Oh! Lembras-te quando nós os três brincámos no jardim este Verão? Como a Lizzie estava tão feliz por aquela borboleta ter pousado na mão dela? Estava extasiada! Foi tão divertido, não foi?
Ciel tentava e tentava, e Astre podia e devia ter-lhe dado a coragem que ele precisava, mas não o fez. Não quando aquela memória feliz era tão fácil de ser corrompida, transformando aquela borboleta clara, brilhante e colorida numa traça inchada, drenada de cor, pesada e peluda e caindo sobre ele durante a noite. Até isso fora espelhado, manchado, corrompido aqui, nele. Tudo está revertido.
Não conseguia ver, mas sentiu a tristeza cair sobre os olhos de Ciel ao aproximar-se e abraçar Astre com mais força.
- Vai ficar tudo bem - disse ele.
Não, não vai.
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Eles vieram buscá-los algum tempo depois. A pancada nas barras de metal foi tão alta que os acordou aos dois, assustados, e Ciel estremeceu, cerrando a sua mão com tanta força em torno da de Astre que magoava.
A igreja era escura e imponente, trazida à vida pelas vozes e por tantas velas, formavam ventres de luz e calor, altas e longe e fora do alcance deles. Pintavam cores quentes e sombras nos pilares e na estátua do anjo de Deus que se erguia sobre eles, cravavam sombras mais carregadas sobre as máscaras que transformavam pessoas nos monstros que eram.
- Meus caros monges e freiras! Aguarda-nos mais um maravilhoso festim esta noite! Rezemos ao nosso perverso Rei, o nosso Senhor, e Ele ouvirá e festejará connosco!
A mão de Ciel ainda estava dolorosamente apertada em torno da sua. Doeu ainda mais quando foram arrancados para longe um do outro e o aperto doloroso foi em vez disso substituído pelo toque gentil e quente da mão de uma mulher. Ela traçou o tecido da sua manga até afagar a sua bochecha e transformar a carícia em algo retorcido e doloroso, a amabilidade queimando-o tanto quanto a violência quando ela enterrou garras na sua pele e os outros começaram a puxar e a rasgar os trapos que usavam como roupas, a boca sorridente e a máscara dela dissolvendo-se num só quando caiu sobre ele, empurrando-o e esmagando-o e apagando a luz das velas lá em cima.
As traças vivem na escuridão mas são atraídas pela luz, normalmente para arder nela, mas se as suficientes se reunirem, podem em vez disso afogar a luz. Talvez fosse por isso que a igreja fosse tão escura, porque voavam sobre eles e os prendiam contra o chão com tanta força, para devorarem a luz que claramente acreditavam que eles tinham dentro de si, brincando a seu bel prazer sem queimarem. Fechou os olhos e tudo o que viu foram asas, escuras e pesadas e pareciam agulhas a perfurar cada milímetro de pele em que tocavam. Tentava sentir as suas bocas a mordiscar a sua pele em vez de lambendo e trincando, o som do seu bater de asas às vezes parecendo-se com respirações e grunhidos, as dureza e enrijamento pegajoso das suas pernas peludas fazendo-o estremecer e arfar e gritar, mas nada daquilo era suficiente para o tornar suportável, para o fazer parar, para o ajudar a transformar as lágrimas e os gritos em algo que não fosse isto, que não fosse real.
Perguntou-se se teria conseguido ajudar Ciel de alguma forma com a sua história, a sua tentativa inútil de tornar isto em algo diferente, se de alguma forma ajudara a mente de Ciel a escapar isto. Duvidava. Não era tão forte ou tão amável quanto Ciel. Só conseguira estragar tudo ainda mais ao destruir a memória de Ciel de Elizabeth e da borboleta naquela tarde de Verão, tudo tornado negro e sangrento e cheio de gritos.
A missa deles continuou sem fim, traças e humanos atacando-os à vez. Conseguiram fazer o que queriam; corromper a inocência. Como rezavam ao seu Deus, o seu Diabo, e Ele parecia responder-lhes, permitindo dor e sangue correrem livremente e impune, indiferente, por Quem era suposto estar a observar.
Quando Ciel rezava, não se lhe conseguia juntar. Estava quebrado, esfarrapado, arruinado e destruído. Mesmo que existisse um Deus, Ele não encontraria nada nele que pudesse ser ajudado. Já não.
Ainda assim, Ciel não o deixava perder a esperança. Porque ele era forte e amável.
- Vai ficar tudo bem. Deus vai ajudar-nos.
Mas Astre não era.
- Não.
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おわり
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Nota: A escrita tenciona espelhar a música. Portanto as últimas linhas foram escritas para o fim da música, e daí para trás.
Como disse, costumo ser inspirada pela música do Igorrr, e normalmente pelos meus pesadelos. Desta vez, as inspirações vieram acordada, pela música e pelas mais de 10 traças que tive à minha volta num só dia.
Os outros fics da série de pesadelos+Igorrr são:
'Escolhas mais difíceis/fáceis', 'Pesadelos', 'Tão real quanto a dor', 'Canção para embalar uma criança morta-viva', 'Ciclo Infinito'
Obrigado por lerem, se acharem erros por favor digam.
