Em uma família tão plural, Percy era singular demais.
Em algum momento, sentiu um riso desesperado escapar de sua garganta. O quarto sujo nos fundos do Cabeça de Javali refletiam bem a decadência de seu ser, a confusão em sua mente. Percy Weasley estava sozinho, não pela primeira vez; mas era a primeira vez que não queria estar. Naquele momento, instantes antes de entrar em uma batalha que poderia matá-lo, ele não queria o silêncio o acompanhando. Não, ele queria a cacofonia de vozes dos irmãos, as piadas sem graças dos gêmeos e a preocupação da mãe.
Sentiu uma lágrima deslizar pelo rosto, mas rapidamente a secou. Não poderia fraquejar agora, venceria aquela batalha e seguiria em frente com a cabeça erguida, como sempre. Entretanto, aos poucos foi percebendo que o que o assustava não era a possibilidade de morte ou da batalha sangrenta, e sim o reencontro com a família. Já estava a tanto tempo afastado deles, como eles reagiriam? Será que o aceitariam de volta? Ele ainda era parte da família? Tinha mais medo dessas respostas do que tudo.
Alisou o distintivo de monitor chefe que estava em sua mão, sempre o carregara como símbolo do quão longe conseguira ir – e do quanto poderia conseguir quando se esforçava. Soltou um riso nasalado, arremessando o pedaço de metal na parede. O ruído estridente do toque no chão foi o único barulho ouvido no quarto por algum tempo. Sentia frio e calor. Raiva e vergonha. Seu orgulho estava ferido e estava com medo.
Decidiu-se que iria logo para Hogwarts e enfrentaria o que quer que aconteça. Entretanto, assim que levantou sentiu suas mãos tremerem e as pernas fraquejaram, jogando-o na banqueta novamente. Respirando fundo, pegou a varinha no bolso e, enquanto a analisava, sentiu um caleidoscópio de lembranças invadirem sua mente. Nada animador e a cada uma delas seu rosto se tingia mais de vermelho. Raiva de si mesmo ou vergonha de algumas ações? Preferia não refletir muito sobre isso, algumas perguntas não valem a dificuldade de suas respostas.
Cansado de lutar contra elas, Percy fechou os olhos e deixou por um momento as lembranças o invadirem. Ironicamente ou não, a primeira que lhe ocorreu foi o início da quebra de laços com a família, quando brigou com o pai por Arthur acreditar que a promoção de Percy no ministério era apenas para que Fudge se mantivesse informado sobre Dumbledore. Ele estava animado com a nova posição – assistente pessoal de Cornélio Fudge! – e esperava que sua família se orgulhasse da conquista e ficassem contentes, mas todos pareciam enxergar algo que ele não via. Como poderia, aliás? Estava cego pela falsa glória e pelo orgulho. Sentimentos perigosos que juntos poderiam convencer a pessoa de várias coisas, inclusive de que não precisava de ninguém, de que era autossuficiente.
E Percy se lembrava de que foi exatamente isso que pensou enquanto arrumava suas coisas para sair da Toca, convencido de que tomava a decisão certa. A briga com o pai fora feia, com o filho dizendo bem mais do que era adequado. Acusara Arthur de dar à família uma reputação torpe, de não possuir ambição e de isso ser a causa da pobreza deles. Sabia que essas palavras machucariam, isso era óbvio, dada a dedicação que o pai tinha para com eles. Porém, por mais mesquinho e horrível que possa soar, era aquilo que Percy Weasley queria naquele momento. Ele também estava machucado, com o orgulho ferido e a raiva fervilhando dentro de si. Uma combinação perigosa e explosiva, como, definitivamente, foi.
Percy se achava inteligente, sempre achou. Ele estava certo sobre isso, entretanto não considerava que existiam diferentes formas de inteligente. Metódico, lógico e racional, mas se considerasse sentimentos e a leitura de outros seres humanos, Percy certamente não se destacaria. Talvez fosse por isso que, quando a mãe foi até Londres procurá-lo após ele sair da Toca, bateu a porta na cara dela e não a deixou entrar. Não percebia a sinceridade dos sentimentos da mãe ou não queria perceber? Molly não queria que o filho admitisse que estava errado, apenas queria falar com ele e ver se estava tudo bem. Mas não era isso que Percy achava que ela queria e, mais uma vez, deixou as próprias opiniões falarem mais alto.
Olhou para o teto encardido do pequeno quarto onde estava, segurando as lágrimas. De todas as pessoas de sua família, a que mais sofrera por ele fora a mãe. Sensitivamente, Percy sabia que ela também seria a que o perdoaria mais rápido. Isso só o fazia sentir-se ainda pior, ainda mais desprezível. Como ela poderia ainda amá-lo? Ele sabia, com toda a certeza que possuía dentro de si, que por mais erros que tivesse cometido os que mais doíam eram os que machucavam Molly. A mãe definitivamente não merecia aquilo. Então, ele se lembrou do Natal de 1995.
Nevava e fazia frio, como todos os anos. Ele estava entediado, como todos os anos. Estava silencioso e não havia nenhuma comida apetitosa o esperando, diferente de todos os anos. Entretanto, assim como todos os anos, Molly fez um suéter com um grande P na frente para ele. Percy sabia que era isso a embalagem que chegara a sua casa, a qual nem se dera o trabalho de abrir. Não queria mais um daqueles suéteres que, na opinião dele, não eram bonitos, talvez aconchegantes, mas, com certeza, não combinavam nada com um assistente de ministro. Não, não poderia vestir aquilo, decidiu. Assim, devolveu o embrulho sem nem mesmo abri-lo.
Daquela vez ele não pensara no quanto sua ação machucaria outra pessoa, apenas estava sendo prático para si mesmo. Hoje, pensando que a mãe poderia morrer a qualquer momento ou que talvez já estivesse morta, ele queria ter um vira-tempo para voltar exatamente naquele momento e aceitar o suéter. Poderia ter se importado com os sentimentos da mãe, talvez se não se importasse tanto com os seus.
Decidindo que ficar sentado ali com as lembranças o invadindo era perda de tempo, Percy se levantou, alisando a roupa. Porém, as recordações não pararam de invadir sua mente enquanto ele saia do Cabeça de Javali e se dirigia para Hogwarts. Agora estava submerso em 1995, provavelmente o ano de sua vida que mais cometera erros e mais machucara os pais. Não que ter essa certeza o ajudasse em algo, apenas o lembrava do quanto não merecia aquelas pessoas. Não mais. Poderia ter visitado o pai no St. Mungus após o acidente com Nagini, deveria ter feito isso. Sua família pensava que ele nem mesmo perguntara sobre aquilo, achavam que ele não se importava o suficiente.
O que nenhum dos outros Weasley sabiam era que Percy, assim que foi informado do ferimento do pai, sentiu a culpa dominá-lo e quis mais do que tudo ir até o pai, ver como ele estava e pedir-lhe desculpas. Entretanto, isso passou assim que alguém lhe disse que Arthur Weasley estava bem, não morreria e que estava rodeado pela família. Ora, se fora Percy que os abandonara não deveria doer quando se esqueciam de que ele também era um Weasley, certo? Mas doía, muito. Para alguém que gostava de seguir seu lado racional e suprimir os sentimentos, aquilo não poderia ter espaço em sua vida. Então, não foi ver o pai. Não se sentia um Weasley naquela altura da guerra e, se eles não precisavam dele, ele também não precisava deles.
Pensar assim foi um grande erro e ele percebia isso agora. Na verdade, levara muito tempo para perceber que não fora sua família que deixara de considerá-lo parte deles, mas que fora o próprio Percy que durante anos os renegou em pequenos gestos, pequenas falas e posicionamentos. Até que o laço se rompesse e ficassem de lados opostos. Muitos diziam, com um sorriso no rosto, que os grifinório eram pessoas orgulhosas, porém, nesse momento Percy somente conseguia pensar em seu maldito orgulho com desgosto.
Não gostava nada da quantidade absurda de raiva que sempre povoava seus pensamentos quando se tratava de 1996. Quando descobrira que o retorno de Voldemort era real, após a Batalha do Departamento de Mistérios, já era tarde demais para voltar atrás. Hoje percebia que não, que poderia ter admitido o erro e voltado atrás, talvez o aceitassem de volta. Entretanto, preferiu ficar no ministério e ver de perto o que estava acontecendo. A cada dia garantia a si mesmo que era o último e que abandonaria o ministério, mas no dia seguinte ainda estava lá, acreditando que poderia salvar tudo aquilo pelo que trabalhara tanto de alguma forma. Fora idiotice, mas somente possuía aquele foi de esperança para se agarrar no momento.
Então, Scrimgeour o pressionou para irem à Toca, no Natal. Não queria aquilo, de modo algum, apesar de querer ver sua família. Mas se sentia usado, assim como seu pai lhe disse que ele seria. Um gosto amargo lhe dominava a boca e o descontentamento estava explícito em seu rosto enquanto levava o atual ministro para o único local que chamara realmente de lar, em algum momento distante de sua vida. Se pudesse definir aquela visita inesperada em uma palavra seria desconfortável. Todos não sabiam o que fazer ou como agir, a não ser Scrimgeour, o qual fazia um verdadeiro interrogatório com Harry Potter. Como esperado, aquilo acabou mal, muito mal. Alguém – e como isso ele queria dizer Ginny e os gêmeos – fez o purê de pasticana ser jogado nele e, assim, Percy se sentiu humilhado, indesejado, usado, sozinho. Foi embora sem olhar para trás, jurando a si mesmo que não se importava nem um pouco com tudo que acontecera, mas Percy nunca fora bom com mentiras.
1997 fora a cereja do bolo para aquela relação desastrosa de Percy com os outros Weasley, literalmente. Lembrava-se de receber o convite de casamento de Gui junto com outras correspondências, mas não se importou de olhar a data antes de queimá-lo. Tinha certeza que o irmão não o queria lá, apenas tornaria tudo mais desconfortável indo. Entretanto, por mais que tenha se esforçado para não saber daquela data, ela ficara gravada em sua mente, sua pele, seus pensamentos e sentimentos. No dia 1 de Agosto, Rugo Scrimgeour foi assassinado, Pio Thicknesse fora colocado em seu lugar e o Ministério havia caído. Tudo naquele lugar agora funcionava a favor de Voldemort, inclusive o próprio Percy. Era tarde demais para sair, agora era vigiado de perto e não poderia fazer nada. Deveria ter saído antes¸ essas palavras pipocavam em sua mente a cada vez que via uma atrocidade acontecendo. No que ele havia se transformado?
Foi somente em maio de 1998 que entrou em contato com Aberforth Dumbledore. Já não se importava mais com si próprio, desistira disso há quase um ano. Não queria ser lembrado como aquele monstro que parecia ter se formado abaixo de sua pele aos poucos. Faria a coisa certa, lutaria pelo que realmente acreditava e pediria o perdão da família. Nada seria como antes, mas ele se esforçaria para que ficasse o melhor possível.
Porém, o destino é traiçoeiro, ainda mais quando desejava. Percy teve certeza naquele 2 de Maio que o destino queria lhe fazer pagar por cada gota do que fizera. Após aquela batalha sangrenta e horrorosa, não importava o quanto ele se esforçasse para que tudo ficasse melhor, afinal nada melhoraria. Fred estava morto e Percy sentia que também morria aos poucos ao ver a tristeza e as lágrimas nos olhos dos irmãos e dos pais. Fred, o primeiro a perdoá-lo, o único que viu a primeira piada que ele fez – uma tentativa fraca de reaproximação – Fred que nunca deveria ser lembrado com tristeza, mas sim com a enorme alegria que trazia para vida deles. Fred que nunca mais contaria uma piada, nunca mais faria uma pegadinha, nunca mais abriria a Geminialidades Weasley e criaria invenções incríveis. Fred, de quem Percy nunca conseguiria se reaproximar.
Deveria ser com ele, Percy tinha certeza. Aquela parede não era para matar o alegre irmão, não poderia ser. Fred sobrevivera a tanto, tinha muito a viver ainda. Tinha luz e alegria para trazer ao mundo. Percy não, ele só queria não se lembrar de si mesmo como o grande pedaço de merda que fora nos últimos anos. Esforçava para pensar em uma memória boa sua que Fred podia ter levado para onde quer que estivesse, mas uma dor lhe cortava o peito ao perceber que não havia nenhuma. Aqueles momentos após a batalha certamente foram os mais difíceis de sua vida.
Não sabia como agir, não sabia o que dizer e nem mesmo sabia se deveria ficar ali, com os outros Weasley. Sentiu-se um idiota ao perceber que estava pensando em si mesmo em um momento que todos estavam destruídos. Deveria apoiá-los, era isso que deveria fazer. Não sabia se alguém notara, mas ele ficara do lado de George o tempo todo. Obviamente, não queria substituir a presença de Fred – ninguém nunca faria isso – mas queria ser um apoio para o irmão. Muitos já estavam com Molly e Arthur, mas George parecia ter afastado todos, se isolado assim como Percy fizera anos atrás.
Assim, quando se sentara com o irmão na Toca, não disse nada para ele. Não esperou que George falasse algo também, somente ficou ali ouvindo os soluços do irmão enquanto suas próprias lágrimas desciam. Então, surpreendeu-se quando o mais novo disse:
— Fred nunca teve irmão preferido. Todos pensam que eu poderia ocupar essa posição, mas Fred sempre disse que todos eram especiais, de sua forma. Ele te amava, Percy, mesmo com seu modo...singular de ser. Talvez não seja aparente, mas ele...eu...nós te admirávamos muito. Você era forte e decidido e esperto e nosso irmão mais próximo em termos de idade. Porém, você era tão diferente de nós, um contraste tão visível. As ideias de pegadinhas com você eram sempre de Fred e acho que isso era porque ele queria ter algo em comum com você, mesmo dessa forma um pouco torta. Acho que foi por isso que ele ficou com tanta raiva quando você foi embora, mas mesmo assim foi o primeiro a perdoá-lo. Ele te amava e esperava muito de você, sempre foi assim.
Percy abraçou o irmão, não encontrando palavras para o momento. Ele sabia que amava os gêmeos, amava todos os irmãos e os pais, mas havia dito isso uma vez sequer? Teria muitos anos para dizer isso para os outros se quisesse, mas Fred nunca o ouviria. Não mais. Assim, enterrar o irmão foi, certamente, a coisa mais difícil que já vez em toda a sua vida, a concretização de uma verdade dolorosa demais para ser real.
Com o lento passar dos dias após a morte de Fred, Percy não conseguia se lembrar daquilo, do momento em que viu o irmão ser morto. Com o tempo, pensou que isso poderia ser uma benção, afinal, assim conseguia fingir que aquilo não ocorrera. Entretanto, o destino não fora tão bom com ele e o que não se lembrava de viver naquele 2 de Maio catastrófico, reviveu em seus sonhos, repetidamente, noite após noite, ano após anos; por tanto tempo que até perdera a conta de quantas vezes os olhos de Fred perderam o brilho a sua frente. Mas, se ele estava sofrendo, todos os outros Weasley estavam destruídos naquele momento, sem conseguirem realmente seguir em frente. Não havia rumo a ser tomado agora, como sobreviveriam?
Ele não sabia ao certo como ou quando voltara para a Toca, apenas sabia que precisava apoiar os outros, ajudar-lhes como nunca foi capaz anteriormente. Queria ser um ombro amigo, entender os outros. Ser melhor não somente por Fred, mas por cada um deles. Por Bill, por Charlie, por George, por Ron, por Ginny e, obviamente, por Molly e por Arthur. Percebeu que seria mais fácil fazer isso morando na Toca e voltara para a casa em uma tarde cinzenta de Junho. Seu quarto não estava empoeirado ou fechado, mas organizado e pronto como se a mãe soubesse que ele voltaria. Talvez soubesse mesmo, Molly sempre sabia de tudo.
Encontrou um velho suéter que ela havia lhe feito há alguns anos atrás, um pouco puído e desbotado pelo tempo. Quando o vestiu, Percy sentiu que a roupa estava um pouco pequena e descosturando em alguns pontos, mas não se importou. Tinha a sensação de estar em casa pela primeira vez em muito tempo. Indo até a cozinha, percebeu que os pais estavam lá, sentados a mesa, calados. Observando-o, Molly abriu um pequeno sorriso e puxou uma cadeira para que o filho se sentasse, na qual ele se acomodou com um sorriso de lado. Virou-se para o pai, sentindo que aquele deveria ser seu real primeiro passo de um longo caminho para se tornar alguém melhor, digno do sobrenome Weasley.
— Me desculpe por tudo. – Disse, sincero. – Você sempre esteve certo, sempre. Queria ter enxergado isso antes.
Os pais sorriram, olhando-se com um olhar de orgulho. Aos poucos reconstruiriam aquela família.
— Tudo bem, Percy. Está tudo certo entre nós. – Arthur apertou a mão do filho, uma imensidão de palavras não ditas ainda existia entre eles, mas o pai escolheu começar pelo mais simples, pela aproximação segura: – Agora, me diga: qual a função de uma calculadora?
Porque não importava o que tivesse acontecido, seriam a família Weasley. Sempre e para sempre. Não apesar das singularidades, mas principalmente por causa delas.
