SIAMO FUORI DI TESTA, MA DIVERSI DA LORO
por
ABCezar
Ias Grosso
Ju Lemxs
Theus Cprocha
Em sua defesa, Miss Spears gostaria de deixar claro que esta situação não é sua culpa.
Na verdade, se ela tivesse que nomear um culpado, seria Damiano. Afinal, é evidente que se fosse para ela se apaixonar por alguém, tinha que ser um cara que atrai o perigo como um ímã (e que também é muito gostoso, obviamente). Se ele não tivesse caído naquela armadilha…
Mas agora é tarde demais para se preocupar com suposições. A verdade é que aqui estão eles, seu pequeno grupo de desajustados, prestes a encontrar a morte.
O nível da água subia rapidamente, e em poucos minutos, alcançaria o teto do container onde eles estavam presos, e se tornaria impossível respirar. As correntes que cercavam seus tornozelos e pulsos eram longas o bastante para que conseguissem manter suas cabeças acima da superfície, mas isso logo se tornaria irrelevante. Por mais que tentassem, não conseguiam escapar.
Para piorar tudo, Miss Spears sentia uma pressão imensa agindo sobre seu corpo. Sabia que a culpa era do fluido em que nadavam, uma solução aquosa inventada por uma mente cruel para absorver a energia que se concentrou no organismo daqueles quatro indivíduos devido às suas viagens no tempo. Quem conseguisse extrair, acumular e redirecionar aquela carga teria um poder quase que interminável, e além das pessoas que estavam confinadas ali, Miss Spears duvidava que haveria alguém capaz de impedi-lo. Sim, o homem vil que os condenou à morte logo viraria um Deus, enquanto eles estavam fadados ao esquecimento.
Contudo, ainda havia uma solução incerta, que tinha a mesma probabilidade de condená-los que de salvá-los. É devido ao seu alto risco que Miss Spears não tinha recorrido a ela até aquele momento, pois resultaria numa forte descarga elétrica, que poderia reduzir ainda mais o tempo de vida restante de seus colegas. E mesmo assim, ela não sabia se seria capaz de salvar todos daquela prisão em que se encontravam.
A água passava do seu queixo. Teve que virar o rosto em direção ao teto para conseguir respirar um último fôlego. Soube então que a hora tinha chegado. Fechou os olhos, e deixou seu corpo afundar.
A pressão da solução aquosa prontamente adormeceu seus músculos, e Miss Spears se viu confusamente observando de longe os acontecimentos da última semana. O reencontro com os parceiros de uma aventura intensa de anos atrás, a chamada para uma missão, o sorriso de Damiano. Aquele sorriso que fazia os pelos de sua nuca se arrepiarem.
Parecia que vidas tinham se passado desde que fora reprogramada, sob um novo software que sua criadora Maria Beatriz tinha garantido ser mais resistente a ataques e com maiores níveis de empatia. Uma inteligência artificial que poderia até mesmo sobreviver a um apocalipse tsunâmico, e chegaria muito perto de sentir o que os humanos chamam de amor.
E ela soube disso ao ter acesso a suas memórias. Ao lembrar de Roberto Blanc, o tom de sua voz, seu toque, seus lábios… tudo parecia carregado de mais significado. Se odiou por ter explodido, se odiou por não poder sentir tudo isso do jeito certo. Pensou que jamais iria se permitir experienciar algo assim novamente, deixar seus circuitos darem combustível a um sentimento que proporciona, inevitavelmente, uma dor tão paralisante – e tudo isso de forma voluntária.
Isso foi até ele chegar. Miss Spears teve o olhar tão imediatamente capturado por seu corpo magro, esguio e tatuado, com leves músculos se destacando, suas vestes de couro e olhos emoldurados por um carvão esfumado, que não reparou nos três velhos conhecidos seus que o acompanhavam.
Quando os viu, não conseguia pensar em um único motivo pelo qual alguém chamaria esse grupo para uma missão. Thomas Andrew Lorde parecia ter envelhecido décadas, seus olhos antes flertantes agora atravessados por uma tristeza aterradora. O rosto estava coberto por linhas de expressão profundas, que combinavam com sua coluna envergada. E, além de tudo, tinha uma prótese no lugar de seu braço. Claire Marie ainda tinha sua rigidez rigorosa, mas em seu olhar, onde antes havia um eterno desafio a qualquer um que cruzasse seu caminho, também se encontrava um inconfundível medo. Parecia que, para onde olhava, a ex-secretária via horrores. Mesmo com tudo isso, Miss Spears achou que Lani Soula foi a que mais havia mudado, ainda mais considerando que todos achavam que estava morta. Ela ainda tinha os longos cabelos grisalhos e o porte de bailarina, mas dela irradiava uma frieza inumana, uma distância e imponência que pareciam quase ameaçadores. Era como olhar para um buraco negro.
– Oi Miss Spears, vejo que recuperaram sua aparência. Bonita, né, como sempre – disse Thomas, e Miss Spears ficou feliz que seu espírito galante não havia se apagado, somente se adaptando à nova aura melancólica.
– Você já sabe que fomos todos enganados? – Claire Marie falou, sem arrodeios, e sem fazer contato visual – Esse Mestre provavelmente sabe do que fizemos no caso Blanc e quer nos destruir por sermos as piores criaturas do mundo.
– Teoria interessante carino, mas não tenho nada a ver com esse tal de Blanc e estou aqui. Sou Damiano, a propósito. Muito prazer em conhecer a signora – disse, dirigindo-se a Miss Spears e tomando sua mão, não a devolvendo sem antes depositar um beijo no dorso. O seu jeito aparentemente desleixado também revelava, a Miss Spears, uma certa inquietação. Ele não estava tão seguro quanto aparentava. Isso, porém, foi um pensamento passageiro: o roçar de lábios em sua pele despertou calores em seu corpo que não estava nem um pouco acostumada. Enquanto ele estava com a cabeça abaixada, prostrada sobre sua mão, uma sensação de tempo paralisado percorreu Miss Spears, subitamente muito consciente de como os fios desgrenhados do cabelo do rapaz pareciam macios, de como seu pescoço tinha linhas bem definidas, seu maxilar forte e marcado. Mas mesmo essas percepções ocupando todos os seus sentidos, não era nada comparada com o toque de maciez de seus lábios. E então Damiano levantou a cabeça e sorriu, de um jeito que afrouxou todas as suas certezas.
Voltando à realidade, Miss Spears raciocinou sobre o que estava se passando. Como assim, "fomos enganados"? Ela havia sido enviada para essa ilha sem muito saber sobre os termos da missão, seus superiores dizendo apenas que haviam recebido um telegrama da base requerendo sua presença na espionagem de atividades ligadas à captura de divindades oceânicas. Tinha apenas uma remota ideia de como seu sistema operacional seria útil nessa empreitada, mas sentia que os novos componentes emocionais fariam da espionagem um processo interessante.
– Como assim, por que teríamos sido enganados? Vocês também não foram enviados para a missão? – perguntou, testando expor alguns graus de inquietação na voz.
– Missão? – Thomas soltou um riso triste – Alguns de nós já vivemos o suficiente de emoções para uma vida inteira. Eu mesmo não tive a chance de renascer, como ocorreu com a bela dama e nossa colega – ele olhou para Lani, mas de pronto desviou os olhos, tenso – nossa colega Lani Soula… O que quero dizer é que eu só queria um pouco de paz, sabe? Já é difícil o suficiente ficar andando por aí com a culpa de tantas mortes nas costas, mas finalmente decidi tentar alguma felicidade. Aí recebi um cupom dos meus superiores do Exército, me dando férias! Relutei muito em levantar da minha cama para pegar um avião, mas chego aqui e me deparo com essa palhaçada! Nossa, acho que falei mais agora que nos últimos 5 anos – disse, e algum grau de confiança soprou em seu olhar.
– Mesmo com essas divagações desnecessárias, concordo plenamente com Thomas. - disse Claire Marie, exasperada - Não tenho nenhum interesse em missões, e Scotland Yard está morta para mim, mas não sei como não morreram de pronto, já que eu era a única a fazer algo naquela espelunca! Enfim, vim aqui porque estava procurando… algo… e recebi uma pista de alguém aparentemente confiável de que poderia encontrar o que procuro aqui. Isso que dá, confiar em pessoas! Enfim, agora eu junto meu dinheiro, chego aqui e Lani Soula solta uma bravata dessas! Que isso aqui é uma armadilha!
Miss Spears olhou para Lani, que parecia inabalável frente ao nervosismo de Claire Marie. Lembrou de como era estar ao lado de sua presença mística, a qual ela sentia fortemente mesmo com um sistema operacional menos desenvolvido. Era uma sensação de calor envolvente, de se sentir acalentado numa energia que lhe guiaria, calmamente, onde a dançarina quisesse. Parecia uma extensão natural de seu corpo. Agora, havia uma parede entre o poder sufocante que emanava dela e qualquer traço de pulsação humana.
Vendo que todos a miravam, Lani Soula começou a falar, lentamente. Sua voz continuava a mesma, pelo menos, pensou Miss Spears, mas a forma que falava parecia totalmente desprovida de interesse.
– Fui chamada aqui por uma mensagem do Mestre, onde ele alegou ter me recriado. Que alegou ter me conduzido até Suzanne Blanc, que alegou estar por trás do meu primeiro nascimento. Tentei investigar algo sobre ele a partir de minhas conexões, mas descobri muito pouco. Então recebi a chamada para cá, e vim.
Todos pareciam incrédulos, menos Damiano, que tinha um semblante de pura diversão.
– Bem, agora que estão todos aqui – falou, com uma piscadela para Miss Spears – e nossa, quanto drama! Há uns 2 séculos que não me entretia tanto! – Spears, por algum motivo, achou que isso fosse mais que uma expressão, e se sentiu arrepiar mais uma vez – Voltando né, eu sou Damiano, como já disse, e serei uma espécie de guia turístico para vocês, criaturinhas agradáveis. Os levarei até meu senhor, meu mestre. E nem pensem em reagir! Apesar de preferir o papel de escravo, posso ser uma fera com quem me provocar.
Obviamente, quase todos reagiram. Porém, o poder de Damiano era algo que Miss Spears nunca tinha vislumbrado. Talvez a única que pudesse se opor a ele era Lani Soula, mas ela não parecia nem um pouco interessada em impedir a ida a esse tal de mestre.
Dias depois, após todos quase morrerem no tortuoso caminho até o coração da ilha, Miss Spears percebeu que olhava para Damiano com carinho pela primeira vez. Descobrir, aos poucos, o homem por trás da sensualidade magnética e do papel que desempenhava nesse jogo todo produziu nela sentimentos de afeto jamais experienciados. Descobrir e se compadecer do que consistia a prisão de Damiano, ao mesmo tempo que esperava a guarda do rapaz baixar para um ataque, eram as sensações mais confusas que já coexistiram em seu corpo.
E, enfim, voltou. Quando Miss Spears retomou a consciência, tinha plena percepção das escamas que brotaram de sua pele. Isso poderia ser considerado uma mudança radical, se não fosse a longa cauda que ocupava o lugar onde, minutos atrás – ou teriam sido horas? – estavam seus pés.
Miss Spears, em um ato de negação, arregaçou os punhos, verificou se todos os seus dedos permaneciam intactos e beliscou sua própria pele. A esperança era de que aquilo não passasse de um devaneio onírico, de um estado subconsciente do sono em que as mais críveis sensações ainda permeiam o absurdo. Foram minutos tentando voltar à realidade, até que Spears percebeu que aquela ali era, de fato, sua forma.
As escamas, apesar de aumentarem a superfície respiratória corporal, ainda eram novidade e causavam a Miss Spears grandes dificuldades de capturar o ar. Os impulsos elétricos, antes destinados às pernas, agora eram recebidos por uma cauda cintilante e pegajosa, que se movia com a imprecisão de um peixe jogado para fora de seu aquário pela primeira vez. A audição de Spears parecia mais aguçada a cada segundo, ouvindo zunidos antes imperceptíveis e justificando a pressão corporal que ela sentia desde o início dessa aventura.
Aos poucos, ao se familiarizar com as novas partes de seu corpo, todas as incertezas do dia e da vida, todas as desventuras das últimas horas pareciam justificadas. Sua nova forma física, apesar de recebida com tanta resistência, possibilitou que Miss Spears também renovasse alguns de seus pensamentos mais sombrios. Seu corpo de sereia só aguçava seus pensamentos sobre Damiano, que ela antes havia sufocado com todas as suas forças.
Spears dedicou sua vida a seu ofício. Pouco podia se dizer sobre ela, tão reservada e solícita, tão imersa em suas obrigações. Todas as minúcias de sua vida pessoal habitavam o esquecimento, pois o trabalho era sempre mais importante, principalmente quando esse se misturava à lealdade ao seu grupo de desajustados.
– Não adianta sonhar acordada, eles jamais aprovariam tamanha traição? – pensava Spears em seus sonhos.
De alguma forma, no entanto, sua cauda de sereia, seus olhos brilhantes e seu corpo transformado davam a ela a força que teria buscado durante toda sua vida. De repente, seus desejos e sentimentos já não podiam ser ofuscados. Valores morais e noções de certo e errado eram completamente esquecidas quando ela pensava em Damiano. Seu beijo ecoava por todo seu corpo submerso, que ainda não controlava suas reações tão bem quanto ela costumava, e seus braços nadavam ao encontro desse amante, quase que involuntariamente.
Pela primeira vez, o ardor da paixão e o calor dos desejos eram prioridade para o corpo de Miss Spears, que nadava sem rumo, apenas guiada pelo fogo inegável da paixão. Todos os pensamentos intrusos e evidências de racionalidades eram esquecidos quando Miss Spears lembrava daqueles lábios, que a tocavam na imaginação.
Assim que suas primeiras barbatanas começaram a aparecer, as pesadas algemas cederam à pressão da transformação e ruíram sob a força das escamas de ferro. Livre de suas amarras nas pernas, Miss Spears não demorou mais do que segundos para soltar também aquelas que se encontravam em seus pulsos. Seus olhos, se acostumando cada vez mais à turva água em que estavam inseridos, percebeu que o teto do contêiner já havia sido completamente coberto. Quanto tempo se passou?, ela se perguntou, ainda lutando contra os flashes de memória e as explosões sensoriais que surgiam em seu interior.
Olhou para os lados. Corpos boiavam ao seu redor, e o barulho dos grilhões de ferro na água lhe trouxeram a sensação de preocupação. De perigo. Notou que os olhos de Claire Marie, que estava ao seu lado, a encaravam em profundo desamparo, antes de, lentamente, se fecharem, cedendo à fúria daquelas águas. Imediatamente, Miss Spears moveu sua cauda com fervor. Precisava encontrar uma saída dali, uma forma de expulsar as águas e libertar seus amigos… E sua paixão. Passou por Thomas Lorde, soltando uma última bolha de suas narinas antes de também sucumbir à escuridão da inconsciência, por Lani Soula que, de olhos fechados, mais parecia ter encontrado a serenidade do que o perigo e, por fim, passou por aquele que lhe provocava arrepios. Damiano.
Miss Spears já não tinha mais controle sobre seus próprios mecanismos. Memórias de sua vida passada, de quando encontrou Roberto, surgiram do vazio. Os dois, no meio da festa de aniversário na mansão Blanc, conversando como se não houvesse mais nenhuma outra pessoa naqueles grandes salões. Damiano tinha seus olhos, pesados, mas animados. Lembrou do último olhar que Roberto deu, quando os lençóis sedosos de sua casa em Londres sibilavam pelos seus corpos nus, no limiar da noite. Ele a havia beijado em suas partes mais íntimas, numa brincadeira que fizera da androide algo que sua criadora jamais havia imaginado. Seus cabelos, arrepiados, seus mecanismos num impulso energético que nunca havia sentido. Roberto havia sorrido, deitando sua cabeça no travesseiro de penas.
Eu amo você, havia sussurrado. E Miss Spears respondeu com uma risada leve, passando suas mãos pelo cabelo grisalho do homem.
E eu amo você, disse ela. Fecharam os olhos, abraçando o escuro e, por consequência, suas mortes.
Mas agora olhava para os olhos dele, novamente. Damiano, ao contrário dos outros, ainda estava consciente. Seu rosto se retorcendo de dor ao tentar se soltar das algemas, mas que, em um segundo ao notar Miss Spears ali, em sua nova forma, se transformou num semblante confuso, seus lábios escuros expressando uma mistura de curiosidade e alívio por vê-la ali. E então seus olhos também começaram a se fechar.
A sereia fez um movimento rápido, antes que os olhos se fechassem por completo. Seu nariz pressionado contra o nariz do homem, seus olhares cruzados no meio da água quando seus lábios se encontraram. Durou menos que um segundo, mas os dois sentiram aquele beijo como uma eternidade. Como um sonho, intangível, inalcançável, mas ao mesmo tempo real e cativante. Ele fechou seus olhos, e Miss Spears correu para salvá-lo, assim como seus amigos.
O contêiner não era elaborado. Apenas uma caixa de metal enferrujado. Nada que ela não pudesse solucionar, nem que fosse necessário quebrar as paredes para encontrar sua liberdade. Com a força de sua nova cauda e com a pressão da água que se acumulava ali, a antiga detetive desferiu um golpe contra a porta daquele quadrado de ferro. Sentiu apenas uma força que a puxava para o lado de fora enquanto toda a água do contêiner violentamente fugia daquela caixa como numa enchente. Miss Spears foi carregada junto.
No chão, do lado de fora, não se importou com os gritos que ouvia em inglês americano ou com o som de armas que eram empunhadas por soldados ao seu redor. Apenas precisava tirar as amarras de seus amigos, agora, para enfim ter o seu amor em segurança. Seus sistemas, agora aprimorados pela nova habilidade de transmutação em sereia e rapidamente ajustado à nova possibilidade, ativaram novamente suas pernas e sua forma humana. Levantando-se prontamente e fincando seus pés no chão para que não escorregasse na água que ainda escorria, Miss Spears se levantou, correndo para dentro do contêiner para encontrar, naquele lugar escuro, os corpos de seus amigos deitados no chão.
Em todos, Miss Spears quebrou suas amarras e repousou uma descarga elétrica que os faziam acordar, cuspindo a água que havia infiltrado seus pulmões e os trazendo de volta à consciência. Thomas se levantou de prontidão, tentando se adaptar com a prótese que parecia ter sido danificada pela água, enquanto Claire, tremendo, se levantava lentamente, com os olhos esbugalhados, ao mesmo tempo assustados e enfurecidos. Lani Soula, apoiando-se nas paredes do contêiner, rasgou um pedaço de seu vestido que pesava com a absorção da água. Revelou suas pernas, quase roxas, com ramificações pulsantes de um escuro quase cósmico. Não esperou comentários de seus colegas e simplesmente avançou para fora do contêiner.
Damiano, por outro lado, permaneceu deitado, apoiado apenas em um de seus braços. Um sorriso se formando ao enxergar Miss Spears na sua frente. Ela se esgueirou sobre seu corpo molhado, dando um segundo beijo no homem e eternizando aquele momento de paixão. Sentia cada parte de si eletrizando-se, como uma tempestade de raios, enquanto aquele beijo durava. Damiano sorriu no meio do beijar, afastando seu rosto de Miss Spears enquanto ainda segurava a nuca da mulher com sua mão. Foi aí que ouviram a voz estridente do asqueroso homem.
– Parabéns, desajustados - disse o Mestre, sua voz lembrando mixagens de som de bandas de rock, assim como notas de um violoncelo. Ao escutá-la, todos sentiam em suas espinhas um controle sobrenatural imperando - Vocês conseguiram. Vão respirar por mais alguns segundos. Mas não mais que isso.
Todos saíram do contêiner, meio assustados, meio encantados por aquela voz, mais uma vez. Lá fora, encontraram dezenas de soldados com uniforme estadunidense apontando armas de alto calibre para o grupo. Numa plataforma, uma espécie de televisor gigante mostrava o rosto do homem que chamavam de Mestre. Pálido, com os olhos assimétricos, um na altura de seu nariz e o outro no meio de sua testa, as bocas pendentes, enquanto um líquido escuro escorria das duas. Só sua visão lembrava dos medos mais profundos de cada um do grupo, como um pesadelo tornado real.
Thomas Lorde acirrou seu punho e sua feição. Estava pronto para lutar. Claire Marie, por outro lado, enxugou uma lágrima que descia em sua bochecha, em meio a seus tremores. Sua mão foi para a cintura e de lá, tirou uma adaga. Não desistiria sem resistência. Lani Soula era um monolito, parado, congelado. Suas pernas pareciam fincadas ao chão e a água que ainda escorria do contêiner parecia mudar de cor após encostar nela. Sua feição não poderia ser descrita em palavras humanas.
Mesmo assim, no meio de todo o caos, Miss Spears se encontrava firme. Seu coração metálico aquecido, seus olhos brilhantes. Com toda a força e carinho, segurava a mão de Damiano. De seu amor.
