Capitulo 1: Lugar desconhecido e meu novo amigo
Meu corpo doía. Doía muito. Eu tinha escapado da Mãe, já que eu achei convenientemente um alçapão para o porão no meu quarto. Eu não queria pular, mas eu estava assustado, com medo e confuso. E agora eu só sentia dor. Conforme a dor foi diminuindo, fui levantando aos poucos dos escombros, e comecei a checar meu corpo. Eu estava vivo, milagrosamente. Nenhuma fratura, nenhum osso quebrado, nem um único arranhão. Eu estava bem. Eu ainda estava sem roupas, já que minha Mãe havia confiscado elas de mim, mas isso não era um problema. Eu nunca me incomodei tanto com nudez, e não parecia haver ninguém por perto, então isso não era uma prioridade. Comida e água por outro lado...
Eu estava em uma encruzilhada. Tinha duas portas na sala, uma normal e uma com espinhos. Eu olhei bem e podia ver três báus vermelhos la dentro. Decidi que não queria entrar ali, então eu fui em direção a porta da que levava para a outra sala. Eu estava prestes a sair, quando me lembrei de algo: Meu dado da sorte. Me virei rapidamente, e tateei os escombros de madeira até sentir minha mão pegar em algo, e então segurei e puxei, revelando ser um dado vermelho e preto. Soltei um suspiro de alivio. Vocês podem estar pensando "é só um dado comum, o que ele tem de especial?", e acreditem ou não, mas esse dado me dava sorte. De alguma forma ele tinha vindo parar comigo nesse lugar, o que me fez sorrir: a presença do meu dado da sorte significava que as coisas estavam melhorando.
Depois de pegar ele, eu fui em direção a porta. A sala parecia vazia, com algumas pedras grandes e uma fogueira. Por um lado, eu estava triste que não tinha ninguém pra conversar, mas pelo outro estava aliviado por não ter que me explicar o que eu estava fazendo ali. Eu iria me virar pra sair novamente, quando notei algo: a porta estava fechada. Eu comecei a ficar assustado. Como assim a porta se fechou sozinha?! Ela estava aberta antes! Será que alguém tinha me atraído até ali de propósito só pra me prender? Eu comecei a tremer com o pensamento, mas logo me acalmei, me lembrando do que minha Mãe dizia: "Medo é coisa do demônio. Você não pode ter medo". Certo, devia ter um motivo para as portas terem fechado.
Então eu ouvi. Um rosnado, faminto e agressivo, vindo do outro lado da sala. Era um monstro! Ele parecia uma pessoa, mas o corpo era podre e ele tinha os olhos sangrando o tempo todo. Ao invés de dentes normais, ele tinha presas afiadas, e eu tinha a impressão que ele podia rasgar minha pele fácil. Ele era lento, então eu devia correr, mas eu estava paralisado. Eu havia acabado de fugir da minha própria casa, onde eu era feito de refém pela minha mãe por causa de uma voz que ela ouviu. Eu escapei, e estava prestes a ser morto por um zumbi que estava no meu porão. Eu me encolhi em um canto, e comecei a chorar. Pode me chamar de bebe chorão, eu estou acostumado. Eu costumo chorar muito, principalmente quando estou assustado, ou com medo, o que acontece bastante.
Voltando a história, eu estava esperando o meu fim, chorando num canto quando eu notei um barulho diferente: Um grito. Mas não um grito de susto ou raiva; um grito de dor, vindo da direção onde estava a criatura. Eu notei que minhas lagrimas estavam funcionando como projeteis, e elas queimavam o monstro como ácido. Eu continuei chorando até o monstro desaparecer, explodindo em uma bolha de sangue. Eu enxuguei minhas lagrimas no braço, e fui ver o que sobrou do monstro. Não havia sinal que ele tinha existido, exceto pela poça de sangue.
Eu senti algo na mão que segurava o dado, algo quente, mas não muito. Era uma sensação reconfortante. Eu olhei para o dado, e vi que o lado com uma bolinha só estava brilhando. Era um brilho branco bonito, e eu tinha a impressão que algo podia acontecer quando todos os lados estivessem brilhando. Talvez um jeito de sair daqui? Eu afastei esses pensamentos, querendo focar no que estava diante de mim. Havia duas portas conectando aquela sala, uma na esquerda e outra na direita, além da porta de trás pela qual eu havia entrado.
A porta da direita era dourada, com uma coroa desenhada na parte de cima, enquanto a da esquerda era marrom, de madeira, igual à que eu havia entrado. Eu entrei na porta dourada, e notei que ela estava vazia. No meio dela, havia uma pedra redonda, e encima dela, flutuando, tinha uma faca parecida com aquelas de cozinha que a minha Mãe usava pra cortar alguma coisa. Eu a peguei, e me senti um pouco mais seguro; agora eu podia me defender dos zumbis que apareceram, além de usar minhas lagrimas que machucavam monstros. Indo para a outra porta, me deparei com mais 2 monstros iguais ao mesmo de antes, e uma aranha gigante que ficava piscando em vermelho. Os monstros foram muito mais fáceis de derrotar, já que eu tinha a faca agora, mas a aranha foi um pouco mais complicada. Ela era muito rápida, e andava aleatoriamente pela sala, mas matei ela com meus tiros de lagrima. Eu descobri que eu não precisava chorar para atirar as lagrimas de tiro, só precisava piscar na direção onde eu queria atirar e os tiros soltavam. Eu senti aquele calor na minha mão de novo, e vi que agora o lado com duas bolinhas brilhava no meu dado. No meio do chão, tinha uma chave prateada, uma bomba e uma moeda. Eu tentei pegar tudo, mas não cabia na mão, então só peguei a chave.
Eu continuei indo, enquanto procurava uma saída, quando vi uma porta com uma fechadura. Por pura curiosidade, eu coloquei a chave na fechadura para ver se funcionava, e encaixou certinho! Eu destranquei a porta e abri, com a chave desaparecendo logo depois de eu usar, por algum motivo. Eu fui entrando, e vi que na verdade aquela porta era uma mini lojinha; o que uma loja estava fazendo ali, eu não fazia a menor ideia. Tinha alguns itens no balcão, com um preço desenhado neles, mas não era isso que chamou minha atenção. No meio da sala, havia uma pessoa enforcada, muito provavelmente foi suicídio, o que me deixou aterrorizado. Eu nunca tinha visto um corpo antes, ao menos não tão de perto. O máximo que eu vi foi quando minha mãe me levou pra igreja uma vez, onde um parente de alguém de lá tinha morrido, eu acho; fazia muito tempo, eu não me lembrava direito. O corpo que eu estava vendo estava bem na minha frente, com mais detalhes do que eu gostaria. As cavidades oculares escuras, a pele acinzentada com sinais claros de ressecção, como se tivesse ficado sem água por muito tempo, e outros detalhes dos quais eu acho melhor não falar. Eu estava em choque, e estava começando a pensar "bem, eu estou em um lugar estranho, sem roupas, sem ninguém pra conversar, cheio de monstros e sem saída aparentemente. E agora tem um corpo de uma pessoa, que também estava sem roupas exceto por uma CORDA NO PESCOÇO. Não pode ficar pior que isso".
Eu não fazia ideia o quanto estava errado.
O corpo começou a se mexer. É CLARO que tinha que se mexer, porque não basta ser um corpo no meio de lugar nenhum, não basta ser um lugar nenhum com monstros. Não não, tinha que ter ZUMBIS PRA PIORAR A SITUAÇÃO!
Eu comecei a tremer, e apontei a faca para o corpo
–S-s-se afaste! Eu...eu tenho uma faca e não tenho medo de usar! E-eu não estou com medo, me ouviu? Não estou!
O corpo continuou se virando, com a corda girando junto com o corpo. Ele se virou completamente, e eu estava me tremendo todo. Eu estava esperando-o me atacar, ou ao menos gritar e depois me atacar, ou ao menos rir da minha estupidez.
Eu não estava esperando um
–Oláaaaa!
Eu fiquei confuso. O corpo ressecado não estava me atacando, mas estava me dando um oi, e parecia amigável. Quer dizer, quase amigável, mas ele estava agindo diferente dos outros monstros. Ele não estava fazendo movimentos hostis, então decidi cumprimentar de volta:
–O-oi?
Ele sorriu pra mim, ou ao menos fez algo com a boca que parecia um sorriso
–Euuuu sou o Keeper, e você?
–Err...Isaac. – Eu estava começando a questionar minha sanidade mental a partir daquele momento.
–Que bom te conhecer, Isaac. Você é novo aqui, não é?
–Err...Sim? Com licença, mas como você está vivo?
–Bobinho, eu não estou vivo!
–O-o que? Como assim?
–Bem, eu não sou o que você pode chamar de vivo
–Isso quer dizer que você é imortal?
–Hmmm, não sei. Eu acho que não, mas não tenho certeza. Eu nunca pude explorar muito, sabe? Eu e meus irmãos só ficamos aqui nas lojas vigiando os produtos.
–Irmãos? Como assim? – Ok, isso está ficando um pouco confuso. Desde quando ele tem irmãos?
–Sim, os ShopKeepers. Eles são praticamente iguais a mim, com exceção que a minha corda é mais bonita. Eu e eles ficamos aqui, esperando algo acontecer. Não é a pior coisa do mundo, já que nós nos revezamos e podemos fazer outras coisas as vezes, mas eu queria explorar, sabe? Me aventurar nas partes mais profundas do Sheol, destruir aqueles monstros que aparecem e que não, não são meus irmãos nem parentes meus.
–Hmmm, entendo. –Eu tive uma ideia. Era uma ideia maluca, e eu nem sabia se daria certo, mas eu tinha que tentar. Afinal, ele parecia saber mais do que eu, e eu podia precisar de ajuda.
–Certo, tive uma ideia, não se mova
Eu me aproximo do Keeper com a faca, e dou um pulo, cortando a corda dele. Nós dois caímos no chão, e eu vejo que Keeper estaria se levantando devagar
–Eu...estou livre pra sair?
Faço que sim com a cabeça. Keeper corre até mim e me abraça com uma força que não devia ser possível para um cadáver ressecado, me agradecendo. Ele me solta logo depois de ver que eu estava ficando sem ar, se desculpando logo em seguida.
–Você está livre pra sair, e sempre quis explorar, então porque você não vem comigo?
–Ir com você? Quer dizer, explorar? Com certeza!
Eu e Keeper saímos da loja, e me preparo para entrar na próxima sala, dessa vez confiante que iria ficar bem, ainda mais agora com o Keeper do meu lado.
