A sensação de incômodo e impotência dominava, naquela manhã de inverno, a figura tensa e preocupada de Narcissa Malfoy. Encarando o feitiço que fizera e que confirmava as suas desconfianças, parte de seu mundo perfeito se destruíra por completo. Era verdade... a mais profunda e completa realidade, que a soterrava e afirmava a urgência de pôr um fim no relacionamento iniciado com Severus Snape, há poucos meses.

O que mais a destroçava era abandonar as sensações profundas e únicas que lhe deixavam tão apaixonada, tão viva e tão feliz. Talvez, o seu sofrimento fosse algum tipo de castigo ou maldição voltada a todos os Black e os desgraçasse ao mais terrível penar. Como era difícil dizer adeus ao que amava. Como era estranho ainda ouvir a voz de Lucius Malfoy, seu marido, ecoando em sua mente e enfatizando sobre os seus deveres.

Com a mão trêmula e os pensamentos extremamente distantes, focados na notícia recém obtida e nos flocos de neve que grudavam na janela do escritório, Narcissa começou a escrever. Uma despedida digna ao amor clandestino que os guiou...

Querido Severus,

Acho que a nossa linda história requer um adeus mais longo e mais carinhoso, porém me vejo impedida de fazê-lo e não sei quanto tempo ficaremos longe. Será que voltaremos a nos ver? Será que o mundo mau e impiedoso o levará para lugares distantes em que eu não poderei mais alcançá-lo? De qualquer modo, quero salientar que estará para sempre no meu coração e na minha alma... jamais serei capaz de esquecer os momentos maravilhosos que passei ao seu lado e que, por mais que eu ame o Lucius, nunca se comparará ao sentimento despertado com você.

Nossa diferença de 5 anos sempre pareceu inexistente, ante a nossa inconsequência e necessidade de eterna fuga para viver algo tão proibido e intenso. Você lembra do dia em que fomos a um pub para beber um copo de Victory Valey e o dono nos expulsou porque estávamos sendo "muito indiscretos em nossas atitudes"? Depois, você me disse que eu estava "muito bêbada para decidir qualquer coisa sobre a minha vida", contudo, eu estava convicta do quanto o desejava e o queria. Você recém completara 18 anos e parecia muito mais maduro do que todos os rapazes que eu conhecia... era perfeito com as suas imperfeições.

Foi ali, naquele instante, que você me revelou a sua verdadeira face e o seu coração. O brilho prateado que atravessava os seus olhos negros me enfeitiçava e reluzia nos meus sempre tão cinzentos. O amor tinha assassinado o meu dever, o meu senso e a minha contínua busca em seguir os códigos de conduta impostos pela nossa sociedade. Eu me tornei uma adúltera nos braços de um homem decente e bom... de um jovem que se negava a admitir tudo o que possuía de melhor e que sempre me encarava com um olhar submisso.

Você... Severus, meu Severus, meu príncipe, meu sol e meu tudo, me fez descobrir um novo mundo. Me fez observar um lugar tão diferente e distante do que eu conhecia até então. Ao mesmo tempo em que, agora, lágrimas caem dos meus olhos e tudo se transforma em imagens tristes, eu posso sorrir lembrando do nosso primeiro beijo e de como você segurava a minha mão com delicadeza. Assistimos filmes, visitamos museus, caminhamos pelas ruas um ao lado do outro sem sentir medo dos julgamentos... na sua casa, ouvíamos aquelas músicas estranhas, as quais você demonstrava gostar tanto... sobre a sua cama nós fomos um só, tantas vezes que seria indecente contar.

Foram dias felizes (os mais felizes da minha vida posso ressaltar) e eu amava a forma como me sentia e tantos sentimentos desconhecidos que descobri ao seu lado, ao tocar o seu corpo e beijar os seus lábios. No entanto, eu preciso dizer adeus... abandonar o que eu tanto adoro, justamente, quando mais preciso. Eu sonhei tanto com esse dia e, quando ele ocorre, eu me sinto envolta em uma perfeita contradição. Você deve estar se perguntando, certamente, "o que será que a minha Cissy, a minha flor de Narciso, a minha mulher impossível, está tentando me falar? Por que ela insiste em renunciar o nosso amor e permanecer com o Lucius?".

Eu descobri a poucos minutos que eu estou grávida... 3 meses mais especificamente e, pelo o que conversamos várias vezes, dificilmente esse bebê poderia ser seu filho por mais que eu desejasse isso. Não posso abandonar o Lucius, não posso tirar o direito dele em ser pai ou negar ao meu bebê saber qual a sua verdadeira origem. Veja o horror que recaí sobre meus ombros. Eu sou a mais feliz das mulheres por estar gerando uma vida, como eu tanto sonhei; eu sou a mais infeliz de todas, porque ele não é seu e eu terei de deixá-lo, esquecer dos sonhos que criei e envolviam você. Os oásis da imaginação em que, todos os finais, são felizes.

Sei que inúmeros pesadelos irão me cercar todas as noites, que essa decisão pode parecer, aos seus olhos, puro egoísmo... compreenda que me vejo privada dos meus sentidos. Eu estou vagando sem direção, imaginando como seria parar em frente a sua janela e, com um pedido mudo, possuir a sua alma e me deixar cuidar de suas feridas. Sem me importar com o frio, com a neve ou com a chuva, para ficar com você por toda a eternidade. Para viver esse amor até o último dia da minha existência.

Certa vez, a Bella me disse que amar era sofrer e eu não dei ouvidos. Hoje, vejo que é a verdade e que o caminho é cheio de espinhos... em meu desespero, tudo é tão escuro e solitário, que eu mal posso ver as consequências da minha dor. Especialmente, quando já sinto o amargor da sua ausência e estou convicta de que, a qualquer momento, posso definhar por conta do que já me sufoca.

Se você me ama, Severus, saiba que nos condenamos a viver em um jogo perverso de recordações, avisos, obrigações e cobranças dos outros. Eu juro que tentei o odiar para abrandar o meu coração, mas o amei ainda mais... como eu poderia se eu o vejo em todos os cantos para onde eu olho? Você deve estar pensando que eu estou sendo muito sentimental e tola, que as criaturas da noite aprendem a vagar pelas sombras e a carregar segredos pelas trevas. Porém, eu lhe pergunto como ser tão cruel comigo mesma?

Meu cruel e astuto Severus, me convença do que eu posso fazer? Sei que arrisco a minha vida e o meu casamento perfeito, expondo tanto os meus sentimentos, ao escrever essa carta. Cometo mais esse deslize para, unicamente, afirmar que eu o amo. O pior é ver em você, desde o instante em que nos descobrimos, o meu único sonho, o meu inigualável mestre e o senhor absoluto do meu coração.

Você está sorrindo? Meu coração vibra ao imaginar a cena e lembrar do quanto gosta de correr riscos, principalmente, quando não há nada que possa perder em jogo... eu, ao contrário, me joguei no abismo.

Certamente, nossa amizade e o que vivemos, será encerrada ao final de sua leitura. Entretanto, peço que entenda que eu não poderia mais esconder tantos sentimentos que me sufocam, o amor que me domina e me consome. Por isso, Severus, eu imploro que não me odeie ou me julgue mal!

Eu nunca lhe disse, contudo, sempre soube da sua paixão pela sangue ruim... também, jamais tentei me impor como um empecilho ao seu sonho, mesmo que, eu a inveje por saber que ela é a sua única dona e aquela por quem daria a vida.

Me perdoe por amá-lo e teimar em querer você sempre tão perto,

Narcissa.

Selando a carta, com todo o cuidado, respirou fundo e ponderou se era o melhor a ser feito. O que mais poderia perder? Seu coração já estava em pedaços e nada poderia reconstruí-lo. Era uma questão de tempo para que Snape a esquecesse completamente e procurasse outra ocupação... era isso, ela era apenas uma diversão para os dias tediosos, procurou acreditar para se conformar com a decisão que tomara. No entanto, se ele a amasse, aceitaria ser abandonado ou iria querer lutar, com todas as forças, para que fugissem para longe?