Childhood Dream of Draco Malfoy

[Drarry]

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Um tufo de cabelos preto, tão desengonçados como o próprio que os possuia, esvoaçavam pelos corredores de pedra de Hogwarts enquanto a figura andava a passos rápidos contra a multidão que se encaminhava já para as aulas.

Ele olhou para o relógio no seu pulso esquerdo, para mais uma vez verificar que estava extremamente atrasado.

— Merda. — Resmungou e apressou os seus passos.

A sua próxima aula era Astronomia que ficava precisamente no último piso de Hogwarts, coisa que não só requeria um monte de energia para subir a escadaria, como requeria tempo. E ele não tinha nem um nem outro.

— Harry! — Ron acenou para ele ir a seu encontro.

Por Merlin, eles não se poderiam ter sentado mais longe, não?!

Ao longe viu Hermione levantar os olhos do livro que lia com a sua atenção usual, para analisa-lo de alto a baixo. A amiga abriu a boca assim que ele se aproximou, mas Harry rapidamente interrompeu:

— Eu sei. Me dê um desconto, Mione. — Disse ao pousar a mala pesada em cima da mesa e sentando-se ao lado de Ron.

— Foi uma sorte você não ter perdido nenhuma peça pelo caminho Harry, visto que nada no seu uniforme está posto como deve ser. — Disse ela voltando a sua atenção para o livro.

Harry, no seu lugar, abotoava os primeiros botões da camisa branca que não teve paciência e tempo para abotoar mais cedo, mas a tarefa estava tornando-se extremamente impossível de ser realizada porque alguém estava olhando para si.

Ele pensou que fosse Mione e olhou para ela, que estava sentada á frente de Ron, mas a amiga parecia demasiado focada no seu livro, e foi quando, por cima do ombro de Hermione, um olhar cinza penetrante cruzou com os seus olhos verdes por detrás das lentes dos óculos de aro rendondo.

Ele quase se havia esquecido da existência de Malfoy.

O outro, do lado oposto do Grande Salão, ao sentir o olhar de Harry recair sobre si mordeu a bochecha e revirou o olhos, o queixo apoiado na palma de mão numa postura meio aborrecida, e olhou para o lado.

— Harry, é um pouco óbvio que a essa velocidade você ia chegar atrasado. — Ron disse ainda de boca cheia, enquanto limpava as migalhas do croissant no canto do lábio com o guardanapo.

Agora Harry fazia o nó na gravata, de uma forma um quanto desajeitada.

— Eu não sei do que você está falando. Já estou pronto.

Hermione levantou os olhos cor-de-mel do livro.

— Você nem comeu, Harry.

— Eu como pelo caminho. — Levantou-se, colocou a mala no ombro e pegou numa sandes. — Vamos?!

Ele estava vendo, sem ter um foco preciso, Hermione arrumando os livros na mala, mas quando deu por si estava olhando fixamente para Malfoy que semi cerrou os olhos na sua direção.

Os anos haviam dado a Harry uma postura arrogante, de facto, Malfoy tinha razão. Ele estava de pé, parecendo tão descontraido nas roupas desponjadas e com as mãos nos bolsos das calças.

Assim que Malfoy semi cerrou-lhe os olhos, Harry franziu as sombrecelhas, porque ainda não tinha tomado noção que esteve encarando o outro fixamente por segundos, então não fez caso.

— Mione, rápido. — Ele disse seco.

— Agora é que você está preocupado com o tempo, Harry?! — Returquiu a amiga, levantando-se finalmente e se encaminhando para a saida do Grande Salão.

Harry checou as horas pelo relógio em seu pulso, mais uma vez.

Os minutos se arrastavam e ainda estava preso na primeira aula do dia.

Olhou pela janela, desejando estar lá fora. Dias muito abafados deixavam-no mal humorado. Preferia os dias nublados e chuvosos, e era o que ele esperava do mês de Novembro, mas ao invés disso um sol radiante pairava sobre Hogwarts. Mesmo assim, ele preferia estar sentado sob a sombra de uma árvore nos relvados da escola, do que dentro da sala de Astrologia que dividia com a turma de Lufa-Lufas.

Através do vidro ele viu a figura robusta de Hagrid que guiava a turma de Sonserinos e Corvinais para junto do Lago Negro. Ele reparou que Hagrid fazia diversos movimentos com as mãos enquanto tentava explicar algo, sem muito sucesso. As meninas da Corvinal estavam fofocando constantemente, sussurando coisas nos ouvidos umas das outras e sorrindo timidas mas não muito discretamente, ao mesmo tempo que comiam Malfoy com os olhos.

Ele observou Malfoy. A concentração de Malfoy estava totalmente virada para si mesmo. O maldito estava olhando para o seu próprio reflexo nas águas do Lago, que apesar de ter o nome de Negro, era mais azul que o céu.

Pelo menos era o que Harry achava.

Mas então, sem muitos movimentos bruscos, Malfoy virou a cabeça para a direção da janela de onde Harry o observava.

Quer dizer, Harry não o estava observando. Malfoy é que estava no seu campo de visão. Tentou convencer-se disso.

— Vá se foder. — Foram as palavras que Harry conseguiu ler pelos lábios finos de Malfoy.

Harry respondeu à provocação com um sorriso fechado e um dedo do meio.

Malfoy imitou-o.

Harry quase soltou um grito de felicidade quando a sineta tocou anunciando o fim da aula.

— Harry, sempre vai jantar à Toca hoje? — Ron tinha colocado o braço ao redor dos seus ombros. — E se você quiser pode lá passar a noite de sexta para sábado, ou passar o fim de semana. — Completou com energia. — Você que sabe.

— Eu acho que este fim de semana fico por Hogwarts. Mione vai com você?

— Não. — Ron tirou o braço quando acabaram de descer a escadaria e coçou a cabeça. — Ela falou qualquer coisa dos deveres dos Monitores. Pelos vistos todos eles vão cá passar o fim de semana. — Ron o encarou. — Tem a certeza que prefere passar o fim de semana aqui com Malfoy?

E por falar nele...

Malfoy acelarou o passo e adentrou na Sala de Poções à frente deles, com a sua pose emproada habitual.

Após oito anos, Malfoy continuava a ser a personificação do egocentrismo em pessoa.

Era de esperar que com o passar dos anos Malfoy se tornasse alguém mais benevolente, mas ele parecia ter nascido para perturbar todo o mundo, principalmente Grifinórios.

Harry viu, sem surpresa, Malfoy a sabotar a poção que Neville fazia sem muitas certezas.

Deu uma breve olhada pela sala de aula, mas o resto parecia completamente alheio ao acontecimento. Todos estavam mais preocupados em tentar seguir as instruções do manual, que se revelavam ainda mais confusas que a disciplina em si.

Harry tirou proveito disso. Fingiu sair do seu lugar para ir buscar um ingrediente necessário à sua poção e puxou Malfoy pelo braço, para dentro da pequena despensa.

— Então é esta a determinação foraz dos grifinórios de que toda a gente fala?! — Zombou com um sorriso irónico.

— Dá para parar de importunar os outros?!

— Isso digo eu. Eu adoro atenção, mas você podia babar um pouco menos, não acha Potter?!

— Você é que está literalmente em todo o lado para onde eu vou.

— Está tentando convencer-se disso?! — Sorriu dissimulado. — Eu acho que você não relaxa enquanto não me vir, e durante esse tempo vai ficar impaciente e paranóico se não me encarar por um minuto. — Cruzou os braços, mantendo uma distância segura entre eles.

— E eu acho que você está tão necessitado da minha atenção que agora meteu na sua cabeça que eu é que quero a sua atenção. — Harry estreitou os olhos. — Você está mesmo tentando convencer-se disso, Malfoy?

O outro riu levemente com uma ponta de sarcasmo.

— Porque eu haveria de quer a sua atenção?

— Porque você é um mimado que tem tudo o que quer e suponho que não conseguir comprar aquilo que mais deseja desde criança deve estar deteriorando você por dentro há anos.

Malfoy riu novamente.

— Você bateu com a cabeça? A sua cicatriz e sua estupidez parecem estar levemente maiores, Potter.

— Você continua igual.

— Bem, se voce não vai apontar nada para além do óbvio eu vou andando.

Harry segurou Malfoy novamente pelo braço. Malfoy virou-se para Harry com um ar meio irritado.

— Por Merlin... — Revirou os olhos. — Dê logo o seu discurso heróico e grifinório para eu puder ir embora.

— Não seria necessário se você não tivesse sabotado a poção do Neville.

Malfoy suspirou longamente.

— Se você fingir que não viu nada, então é como se não tivesse acontecido.

Malfoy era insuportável, com todas as sílabas e letras, pensou Harry.

— Ah então o plano é você sabotar os outros e ficar impune?!

— Bem, seria um bom plano. — Sorriu desdenhoso e deu-lhe costas.

— Malfoy!

Malfoy semi cerrou os olhos na sua direção. Harry também percebeu que tinha falado um pouco alto demais.

— Fale mais alto, Potter, vá. — Incentivou com ironia. — Não é como se eu estivesse à sua frente.

Harry abriu a boca para responder a Malfoy, mas o Professor Slughorn foi mais rápido:

— O que vocês dois estão fazendo aqui?

Harry tinha a resposta perfeita na ponta da lingua, mas Malfoy também parecia ter.

— Potter queria arranjar briga.

E sorriu para si. Aquilo fez Harry lembrar-se de todas as razões pelas quais ele havia odiado Malfoy um pouco mais a cada ano. Malfoy sempre arranjava problemas sabendo que Harry correria na direção deles, e então, fugia de maneira covarde, deixando-o para trás. Malfoy era incapaz de assumir um erro ou a culpa pelos seus atos, mas alguém tinha de assumi-los, e como de costume, os outros sempre carregavam com o seu fardo. Malfoy nem precisava de se esforçar muito, porque os problemas, de alguma forma, mais rápido fugiam dele do que ele deles.

Se o mundo fosse um lugar justo, castigaria os maus e premiaria os bons... mas não era.

Isso fazia o sangue de Harry crepitar de raiva, mas no entanto, Harry encontrava-se demasiado chocado com a audácia do bastardo para desmentir ou contestar aquilo de que estava a ser acusado injustamente.

As atitudes de Malfoy eram maioritariamente infantis.

A confirmação disso foi a explosão do caldeirão de Neville naquele preciso momento, que deixou uma meleca por toda a sala.

— Sr. Potter, você pode ficar a limpar esta... situação, — Harry quase expressou um pingo de felicidade... — sem magia. — ... que desapareceu miseros segundos depois. O professor consultou o relógio de parede e olhou para Malfoy de seguida. — E o Sr. Malfoy, sendo Monitor, pode ficar encarregue de Potter.

Malfoy soltou uma breve risada. Ele não parecia concordar.

— Não professor, eu acho que você não entendeu... — Limpou a voz. — Potter queria arranjar briga comigo. Você sabe o que isso significa?

Slughorn sorriu.

— Significa que ele vai ficar de detenção aqui.

— E se eu ficar também vai parecer uma detenção para os dois. — Explicou exasperado.

Harry sabia que se contestasse, Malfoy iria contra-argumentar com algo ainda mais credível e falso, por isso limitou-se a ir buscar um balde e um esfregão para se livrar da meleca. Quanto mais rápido cumprisse a detenção, mais rápido ia embora.

Ele passou por Neville, sentido um leve sentimento de culpa. Harry sorriu-lhe de forma a tentar consolá-lo, mas sabia que a expressão em seu rosto foi algo que mais beirava à pena e à compaixão, e sabia igualmente que Neville também o notará.

— Não se preocupe Harry, não se pode ter um dom para tudo, não é verdade?! — O amigo sorriu, um sorriso sofrido, mas continuava a ser um sorriso.

Harry conseguia ler nas entrelinhas, "se bem que não tenho um dom para nada...", isso fê-lo querer abraçar Neville e dizer-lhe algumas palavras de conforto.

— Você acha que o estou julgando? Snape disse que eu nem excedia as expectativas. Aliás, — Coçou a nuca, desajeitado. — Ele pediu para eu desinscrever-me da disciplina.

Aquilo foi o suficiente para Neville rir.

— E aqui está você.

— Apenas porque McGonagall disse que esta disciplina é importante para quem se quer tornar Auror. — Olhou para Slughorn, que ainda ouvia o discurso de Malfoy. Harry já tinha ouvido o seu sobrenome sair da boca do outro mais de vinte vezes. — O lado positivo é que este é o último ano em Hogwarts.

— Verdade. — Neville sorriu. — Não suporto mais aulas de Poções.

Harry rapidamente acrescentou:

— Agora junte Malfoy à equação. — Colocou uma mão no bolso das calças. — Inventou que eu queria arranjar briga com ele e agor-

Harry sentiu uma leve mão tocar no seu ombro. De esguelha olhou para o lado, para ver Malfoy com a ponta do lábio arqueada.

— O que você ainda está fazendo aqui? — Ele dirigia-se a Neville.

— Estava fala-

Malfoy nem deu tempo de Neville se explicar, se bem que, na opinião de Harry, ele não devia explicações nenhumas a Malfoy, mas Harry percebia que toda a gente se sentia na obrigação de dizer algo quando Malfoy perguntava, tudo porque Harry também se familiarizava com o sentimento. Era como se Malfoy tivesse invocado um Imperius só com a força do olhar.

— Eu e Potter temos uma detenção a cumprir. — Falso, sorriu, os olhos meio cerrados. — Vá embora.

Quando a porta bateu, Harry lançou um daqueles olhares a Malfoy.

Nós?

— Claro. — Malfoy sentou-se em cima de uma das secretárias, as mãos apoiadas no tampo, numa postura meio inclinada. — Estar trancado no mesmo sitio que você é um castigo.

— Visto que estamos neste castigo juntos, você deveria ajudar a limpar a porcaria que você fez.

— Não sei do que você está falando, Potter. — Harry tinha de admitir, Malfoy era a pessoa mais hipocrita que ele um dia tivera o prazer, ou desprazer, de conhecer.

Ele estava ali, sentado, admirando o teto sem qualquer remorso e completamente livre de qualquer sentimento de culpa.

— Malfoy...

— Hm?

O olhar cinza chocou-se com as iris verdes.

— Você sabe que pode ir, não é como se eu fosse sair daqui.

Uma sombracelha loira ergueu-se por baixo da franja prateada que estava caida sobre a testa dele.

— É? Quem me garante isso?

— Eu.

— Hm... pois... uma proposta verdadeiramente tentadora, sabe... — Coçou a cabeça, numa falsa expressão pensativa. — Mas acho que vou ficar por aqui até você acabar isso.

Nos próximos vinte minutos, Harry continuo esfregando o tampo da secretária que se tinha revelado uma tarefa bastante complicada, enquanto que Malfoy estava sentado no parapeito da janela a ler um livro velho e gasto, que trazia consigo na mala.

Se Harry não odiasse tanto Malfoy até era capaz de aprender a aprecia-lo. Mesmo que Harry ficasse horas encarando Malfoy ele sabia que era praticamente impossível encontrar um erro na sua postura. Não importava o que Malfoy estivesse sentindo, raiva, frustação ou alegria, ele sempre agira como um personagem e nunca saia daquele papel. Pela mesma razão, Malfoy era também a figura de Hogwarts que mais segurança transpassava, não só a nivel pessoal mas a nivel social e moral. Não importava o que acontecia ou o quão más as circunstâncias eram, Malfoy sempre oferecia um abismo de estabilidade que ninguém nunca seria capaz de atingir.

Malfoy era ou o lider perfeito ou o inimigo perfeito. Nada lhe passava despercebido.

— Potter, páre de olhar para mim.

Nada mesmo. Merda. Malfoy nem estava olhando para Harry.

— O que você está lendo?

Malfoy levantou a cabeça e sorriu esnobe. Harry quase pode adivinhar que coisa boa não vinha ai.

— O Diário da Irmã do Weasly.

E tinha razão.

— Como você arranjou isso?

Malfoy limitou-se a sorrir novamente com aquela expressão debochada, que Harry já conhecia tão bem, e voltou a atenção para o livro.

De rompante, Harry tentou tirar o livro das mãos de Malfoy, mas o outro foi mais rápido e escondeu-o atrás das costas.

— Se quer ler, espere pela sua vez, Potter. Mas aviso desde já que pode ficar constrangido com certas cenas obscenas. — Harry, numa tentativa frustada, tentou roubar o livro das mãos de Malfoy novamente. Para ser honesto, ele não tinha curiosidade em ler o que Ginny tinha confidenciado naquelas páginas, mas temia o que Malfoy pudesse fazer com qualquer informação que ali estivesse. Era de conhecimento geral o quanto Malfoy desprezava os Weaslys e o quão bom era a espalhar rumores, maioritariamente falsos. — Você não tem uma detenção para cumprir, Potter?!

Harry tentou, continuamente, tirar o livro das mãos pálidas de Malfoy, mas este empurrou-o com uma leve força que foi o suficiente para Harry se afastar mas não se desequilibrar. Malfoy continuou com os olhos postos nas páginas do diário enquanto fugia de Harry entre as secretárias da sala.

— Malfoy isso não é seu.

— Claro que não é. Você acha que eu escreveria coisas como estas?! — Harry deu de ombros. — Potter. Seria a minha desgraça.

— Imagino.

— Não, Potter você não imagina. Vocês grifinórios são demasiado tapados e inocentes para o tipo de coisas que se passa nos dormitórios da Sonserina.

— Malfoy, — Pausou. — Eu não dou a minima para o que você faz ou deixa de fazer.

— Ótimo. Então deixe-me ler o meu livro, em paz.

Eles continuaram ás voltas até que alguém bateu à porta. Os dois trocaram um olhar desafiador por alguns segundos, onde Malfoy claramente venceu. Harry abriu a porta.

— Então você está aqui, Harry. Ron anda à sua procura por Hogwarts faz tempo.

— Estou cumprindo detenção. — Deu de ombros, as mãos nos bolsos. Harry só tinha as calças e a camisa do uniforme, camisa esta que estava desabotoada três botões no início.

— Granger. — Cumprimentou-a. Devido a estarem na mesma posição de Monitores, aparentemente tinham criado toda uma questão de respeito mútuo, mas Harry duvidava um pouco daquela cortesia de Malfoy para com Hermione.

— Não acredito que vocês dois arranjaram briga.

— Por quem me toma? — Malfoy pareceu extremamente ofendido. — Eu estou só a monitorizar Potter.

O olhar julgativo de Hermione encaminhou-se para Harry, á espera de uma explicação.

— A culpa foi de Malfoy. Mas claro que, como sempre, arranjou maneira de culpar outra pessoa. Você sabe Mione, — Olhou para Malfoy. O outro era ligeiramente mais baixo. — O costume.

— Como eu disse Harry, Ron estava procurando-o. Ele perguntou se você ia passar o fim de semana na Toca ou se ia passar aqui, mas eu-

— Granger, como pode ver, Potter está vivo, até porque a meleca ainda, — Deu ênfase. — não está limpa. Por isso se nos der licença...

O livro nas mãos de Malfoy atraiu a atenção de Hermione.

— Estou há meses para levantar esse livro da biblioteca e nunca está lá.

Livro? Biblioteca? Como assim? Mas aquilo não era o diá-

— Boa sorte para a próxima vez, Granger. — E fechou a porta na cara dela. Harry aproveitou a deixa para roubar o livro das mãos de Malfoy.

"História dos Monstros Fantásticos e seus segredos" — Harry leu. — Por Gilderoy Lockhart. Você só pode estar de brincadeira, Malfoy.

— Digo-lhe o mesmo. — Arrancou o livro das mãos de Harry. — Já se passou quase uma hora e você ainda não limpou o que tinha a limpar.

A única refeição que Hary teve tempo de fazer naquele dia aterefado foi a do jantar na humilde casa dos Weasly. Mal tinha tomado o pequeno-almoço e graças a Malfoy não conseguiu comparecer a tempo ao almoço no Grande Salão e já não dava tempo de ir pegar algo na cozinha porque estava relativamente atrasado para a sua próxima aula.

Malfoy também não comeu. A sua desculpa era que estava demasiado enjoado por passar tanto tempo num espaço fechado com Harry. Mesmo assim, nem se deu à importância de comparecer à sua próxima aula, pela mesma desculpa, e então resolveu que queria ir dar um passeio até Hogsmeade.

Pensar em Malfoy a vaguear sozinho não era um cenário muito comum de se ver. Mesmo antes de entrar para Hogwarts, Malfoy já tentava recrutar crianças assustadas para o seu lado, oferecendo-lhes a sua falsa amizade em troco de um estatuto em Hogwarts que perduria o resto dos seus anos letivos. Harry sabia que Malfoy não estava muito familiarizado com o conceito de amizade. Aquilo que os sonserinos nutriam por si era algo que mais se comparava a devoção. Eles sempre seguiam Malfoy para todo o lado e sempre se mantinham amontoados ao seu redor, como abelhas em volta de uma flor.

De qualquer das formas, Harry não percebia essa necessidade de Malfoy estar rodeado de pessoas... Malfoy era assustador por si só, e Harry duvidava que Malfoy não se conseguisse virar sozinho numa situação complicada.

Mas pensar na possiblidade de os sonserinos quererem de livre e espontânea vontade rodear Malfoy não era... bem, uma possibilidade.

Malfoy não era uma pessoa agradável e muito menos amigável.

Harry lembra-se de em criança Malfoy receber todos os meses os doces mais caros que seus pais lhe podiam comprar. Ele sempre partilhava os doces entre aqueles que queriam experimentar, e isso parecia um ato gentil da sua parte, até que Harry percebeu que Malfoy escolhia os sabores que menos gostava para dar.

Todos pareciam agradecidos e ingénuos, mas aquilo tinha sido o bastante para fazê-los adorarem Malfoy.

Harry, que tinha aparatado no grande relvado, abriu agora os grandes portões de Hogwarts.

Ultimamente, ele via-se passando muito tempo pensando em Malfoy. Isso acabou por manifestar o outro.

Harry suspirou cansado, mas continuou a sua tragetória, as mãos no bolsos das calças beje.

— Potter, você sabe que horas são?

Harry parou no primeiro degrau da escadaria. Quando se virou, Malfoy estava encarando-o com um sorriso fechado, as mãos atrás das costas, zombador como sempre.

— Vinte para a meia noite. — Consultou no seu relógio.

— Hm. E o que você está aqui fazendo? É sonâmbulo, por acaso?

— E você? Sabe que não é por ser Monitor que pode ficar passeando pelos corredores da escola.

— Sim Potter, eu estou bem informado dos meus deveres enquanto Monitor. — Debochou. — Mas para que não tire a ideia errada, eu estava saindo de uma reunião de Monitores. — Malfoy escondeu as mãos nos bolsos da capa preta. — Acontece que eu não tenho esse espirito grifinório de quebrar regras.

— Claro que não. Você tem mais esse jeito Sonserino de as contornar.

Malfoy soltou uma breve risada pelo nariz com a resposta.

— No entando você ainda não disse o porquê de não estar em seu dormitório. — Pausou. — A pequena Weasly revelou finalmente a sua determinação grifinória?

— Ginny é como uma irmã para mim. — Disse um pouco desinteressado. — Sabe Malfoy, eu começo a achar que você tem uma pequena obsessão não muito saudável pelos Weaslys.

Malfoy encostou-se ao corrimão de madeira da escadaria que levaria ao piso um.

— Você percebeu tudo errado. Os Weaslys são a minha arma para atormentar você.

Harry sorriu levamente, desceu o único degrau que tinha subido, encurtado a distância entre si e Malfoy. Harry continuava ligeiramente mais alto que Malfoy.

— Então a obsessão é comigo?

Malfoy revirou os olhos e voltou a encarar Harry, os olhos cinza presos ao olhar perigoso de Harry por detrás das lentes.

— Veja isso mais como um hobby.

— Você não é lá muito bom nesse. Considere arranjar outro.

Malfoy soltou um guincho e inclinou a cabeça para o teto, preguiçoso. Desencostou-se do corrimão e subiu dois degraus, só para verificar que Harry não o estava a seguir.

— Não é por aqui o seu dormitório?

Harry franziu as sombracelhas.

— O meu, sim. O seu é pelo lado contrário, caso esteja meio confuso, Malfoy.

Malfoy ignorou-o e continuou subindo os degraus, e resignado Harry seguiu-o, afinal o seu dormitório era por ali. Continuou andando, sempre a rasos pasos atrás de Malfoy, de forma a manter uma distância segura até chegarem ao retratado de Dama Gorda.

— Amanhã às nove da noite na sala de Poções.

E Malfoy virou-se, sem dar mais explicações.

Harry tentou travá-lo pelo braço, mas a escadaria começou movendo e Harry apenas conseguiu roçar com a ponta dos dedos na capa de Malfoy.

— Você vai entrar rapaz?

[Continua...]