Você recebe uma carta em uma manhã fria de janeiro.
A princípio, não há pressa alguma, você termina o seu precário e costumeiro café da manhã e verifica, como costuma fazer habitualmente, as proteções da casa; eles sempre estão o vigiando, mas os tempos fugindo de um lorde das trevas imortal o ensinaram a ser cauteloso.
Apenas então, satisfeito com seu ritual diário e monótono, você viola o lacre de cera não identificado.
Seus olhos contemplam o papel timbrado de aparência cara, letra cursiva feminina escrita com pressa perceptível. Não há uma assinatura identificável além do símbolo bem conhecido da ICW.
Antes mesmo de ler as palavras, seus sentidos aguçados, ou talvez sua intuição, pega algo distinto no ar. É uma sensação estranhamente boa, ainda que você não saiba explicar o porquê.
O conteúdo da carta, no entanto, é uma história completamente diferente.
Coerentes com a pressa com que a carta parecia ter sido escrita, jazem inertes e frias algumas poucas e curtas palavras.
Fuja imediatamente, eles estão indo até você. Me perdoe, eles ameaçaram a minha família...
Você, estranhamente, não hesita. Não faz perguntas, não procura explicações, não dúvida, nem mesmo por um instante.
Há, no fundo de sua mente, o receio de uma armadilha, mas você não é e nem nunca foi, um tolo; não iria cair, portanto, em alguma compulsão simples.
Não, não se tratava disso.
Tudo começa com aquele mesmo envelope, descartado anteriormente para examinar a carta, muito mais importante.
Ou, ao menos, assim você presumiu.
Tem cheiro de íris e morango.
O aviso é significativo e você quase pode ouvi-la pedindo desculpas em seu tom arrependido e sotaque francês, sempre tão bonita e hipnotizante.
Isso tudo tem pouco significado, entretanto.
Em um piscar de olhos as defesas de sua casa, que sempre foram sólidas e que haviam sido verificadas instantes antes, vão ao chão com pouca ou nenhuma resistência.
Eles estão por toda a sua volta na sala ampla.
Muitas coisas passam pela sua cabeça naquela fração de segundo.
Nenhum dos pensamentos é particularmente bom.
Você tenta culpa-la, não por tê-lo traído, mas sim por ter, antes disso, roubado seu coração sem hesitar.
Isso é o seu egoísmo dando as caras.
Afinal, ela nunca lhe prometeu nada; muito pelo contrário, você sabia dos riscos. Ela tentou mantê-lo longe, o alertou que não hesitaria em vende-lo para salvar a vida daqueles que ela realmente amava.
Você, mesmo assim, insistiu.
E insistiria de novo, se fosse oferecida a escolha.
Talvez sua imprudência, impulsividade e tendência a ignorar riscos tenha finalmente cobrado seu preço.
Quando volta a si, percebe que sua varinha já está em sua mão, presa firmemente entre seus dedos, mais por reflexo do que por consciência do perigo.
Eles são muitos e eles estão dentro da sua casa.
Você está cercado.
Seus instintos assumem e o primeiro dos homens vai ao chão.
É um passe de mágica, literalmente, não há esperança, não há tempo de reação.
Você não faz perguntas.
Você não hesita.
Sua varinha brilha em amarelo e uma garganta é aberta com crueldade.
O brilho de um par de olhos se apaga.
Não são os seus olhos verdes e não são, por uma dádiva, os olhos azuis dela.
O segundo é mais veloz, experiente.
Um grito de fúria e um brilho esverdeado o alertam para o perigo imediato.
Seu corpo se move antes que você perceba e, por um fio, a maldição da morte perde sua cabeça.
Enquanto isso, em sua volta, os feitiços começam a brilhar em uma única direção.
O atacante principal se mostra competente o suficiente para sobreviver a sua retaliação, o feitiço de corte lançado pela familiar varinha de azevinho atinge um escudo.
A defesa precária não resiste para conhecer uma segunda estocada, mas livra o portador de uma morte rápida.
Sua mandíbula aperta quando uma maldição avermelhada o atinge no ombro direito, pelas costas.
O seu corpo queima de modo febril em contato com a maldição de ferver o sangue, mas você é rápido o suficiente para grunhir o contrafeitiço familiar.
Vai doer nos próximos meses, mas você vai viver para lutar outro dia.
Com um giro o atacante que ousou atingi-lo cai para uma maldição escura, está de sua própria autoria, o corpo é dividido enquanto seu estômago embrulha em resposta ao sangue que salta em direção ao seu rosto, agora tingindo de vermelho.
No entanto, a distração do atacante caído é o suficiente para que um dos homens em sua volta o jogue contra a parede com um banimento poderoso.
Você sente uma de suas costelas quebrar, talvez duas, e geme de dor.
Não há tempo para isso, três magias de formas e cores diferentes voam em sua direção.
Há aquela que fará você vomitar o próprio intestino e outras duas, as quais sua mente entorpecida não consegue identificar.
Por sorte, seus instintos o chutam a tempo e os corpos, ou, ao menos, os pedaços, dos homens que você matou são jogados na frente das magias destrutivas, mais vermelho toma conta de sua visão, mas você já está se movendo para fugir de uma nova saraivada de cores.
Você considera gritar, perguntar se aquilo é tudo que os atacantes podem fazer, mas se cala em meio a dor e a fúria.
Seus feitiços falam por você, aqueles muitos homens cometeram um grande erro.
Eles hesitam por alguma razão.
Afinal, dois deles morreram antes que pudessem perceber que estavam em perigo.
Ainda restam oito.
O terceiro em sua contagem de mortes, no entanto, não demora a se juntar aos companheiros caídos.
Seu algoz se faz real na forma de uma breve hesitação.
Eles não são os único capazes de usar a maldição de ferver o sangue e, assim, você responde na mesma moeda.
Isso não o mata, no entanto; a maldição da morte, por outro lado, termina o serviço de forma bastante satisfatória.
Se, anteriormente, os dois corpos não foram o suficiente para que seus atacantes o levassem a sério, o uso da maldição da morte, aliado ao terceiro corpo, parecem, finalmente, fazer o trabalho, alertando os sete restantes sobre a seriedade com que você encara invasões e agressões injustificáveis.
Seus adversários não tem tempo para sair do estupor.
Uma cadeia de feitiços deixa sua varinha com naturalidade praticada.
Há complexidade em seus feitiços, mas também há sutileza.
Água é conjurada por todo o chão e os objetos de sua casa são atirados a esmo.
Seus pés são rápidos para desviar das ofensivas, sua varinha também, suas posses inofensivas se tornam lâminas e a água em baixo de seus pés, recém conjurada, se torna gelo.
Parece um movimento tolo e os seus atacantes não demoram a tentar tirar vantagem disso.
Você, afinal, está em desvantagem numérica e acaba de abrir mão da própria mobilidade.
Um erro bobo como esse poderia custar a sua vida.
Por outro lado, você está preparado para isso.
O escudo conjurado pela sua varinha é poderoso como poucos.
Você não pode continuar lançando maldições enquanto segura um feitiço, entretanto, você não tarda a sacar, de seu bolso, uma surpresa desagradável.
A segunda varinha é incomum, porém não desconhecida, seus inimigos não parecem realmente surpresos por seu surgimento.
Não há como lançar feitiços ofensivos para fora de seu escudo em forma de esfera.
Há, no entanto, como atacar.
Seus moveis e pertences, transformados em lâminas, ganham vida ao redor da sala.
Seus inimigos praguejam diante da brutalidade de sua ofensiva.
Os objetos mortais voam aleatória e mortalmente em direção a qualquer um tolo o suficiente para se desequilibrar na sala gelada.
A maior parte dos atacantes parece preparada para enfrentar uma tática semelhante.
Um dos homens trabalha nos feitiços necessários para descongelar a sala ou, caso necessário, transfigurar as botas desgastadas em algo mais apropriado para o gelo escorregadio.
Os mais jovens e inexperientes, por outro lado, não estão familiarizados com a sua forma de lutar.
Enquanto os combatentes mais capazes banem suas lâminas com precisão cirúrgica, um guerrilheiro despreparado comete o erro de desviar de uma de suas adagas voadoras.
O pé do jovem escorrega no gelo e, antes que possa amaldiçoar a própria estupidez, os objetos letais estão empalando seu corpo de todas as direções possíveis.
Um outro tenta aplicar, apressadamente, a tática utilizada pelos companheiros mais competentes; mas, ao banir uma das lâminas, se descuida para uma segunda que o atinge no ombro e uma terceira que o fere de uma forma mais permanente no pescoço.
O homem vai ao chão segurando a garganta aberta e gorgolejando.
Sangue mancha abundantemente o piso congelado de sua sala de estar.
É tarde demais, nenhum dos companheiros atacantes parece ter tempo ou intenção de socorrer o ferido.
Os outros conseguem se livrar da maior parte de suas facas, recuperando, inclusive, a mobilidade.
Você percebe que é hora de uma tática diferente.
Abdica sem pudor da vantagem valiosa que aumentou sua contagem de mortos, uma recontagem apressada revela que ainda há cinco inimigos em pé ao seu redor, a rápida diminuição nos números parece deixá-los nervosos.
Ambas as suas varinhas se movem com velocidade praticada.
É uma pena, você havia acabado de tomar gosto pela velha casa de seu padrinho.
Fogo vivo chove na sala outrora impecável e agora ensanguentada.
Seus inimigos respondem de forma competente, mas as ações coordenadas, diante de seus olhos, começam a se tornar erráticas
Os homens já haviam perdido muito e começam a perceber que ainda há muito mais a perder.
Você, por sua vez, se segura contra os cinco com dificuldades, suas costelas ardem e o cansaço começa a se tornar um fator a ser considerado.
Entretanto, por sorte, o primeiro erro é cometido por um dos seus adversários.
O homem à esquerda do líder dos atacantes, em uma tentativa de surpreende-lo e quebrar o seu ritmo, baixa o escudo um instante mais cedo do que deveria.
Era o inferno de uma cartada desesperada, e você reconhece uma quando a vê em sua frente.
Poderia até mesmo ser uma boa ideia se você fosse qualquer outra pessoa.
Mas você não é, você é Harry Potter e Harry Potter não caí para blefes e jogadas desesperadas.
Com a varinha em sua mão esquerda você intercepta o feitiço destrutivo e o redireciona de volta para o homem que o lançou.
É uma jogada arriscada, e você sabe disso muito bem, a varinha reserva não é capaz de sobreviver a uma tensão de tal magnitude.
Você é um especialista em magia de sacrifício.
E esse tipo de contra-ataque mágico, sem dúvidas, exige um sacrifício adequado.
A oportunidade, todavia, é muito boa para deixar passar, é a chance perfeita de retirar mais um elemento daquele equação problemática.
A varinha secundária explode em sua mão esquerda, ferindo, no processo, o membro em questão.
Por outro lado, sua jogada funciona e o atacante ansioso é jogado ao ar pelo próprio feitiço, como uma saco inútil de panos velhos.
Você não reconhece a magia usada e, portanto, não corre riscos, finalizando o homem com um brilho verde da sua própria autoria, enquanto o homem ainda está no ar.
O líder do bando hostil reconhece seu passo em falso e o recompensa com seu próprio brilho verde mortal.
Você amaldiçoa em voz alta, pela primeira vez em toda a troca, mas recua a tempo de sentir as lascas da parede de sua casa rasgarem a pele de seu rosto, atrapalhando a sua visão com mais sangue.
O seu sangue, desta vez.
A segunda magia, de seu atacante implacável, atinge o seu braço de raspão.
O homem não está brincando na tentativa de pressionar uma vantagem.
Você reconhece o feitiço vil como uma maldição de corte usada para fazer os membros apodrecerem e caírem com o tempo. Não é algo que vai mata-lo imediatamente e não há nada que você possa fazer sobre isso, no momento.
Magia desagradável, não letal em curto prazo, ainda há uma briga para vencer.
"Faltam apenas quatro!"
Você rosna por entre os dentes, manifestando-se verbalmente pela primeira vez desde o início do banho de sangue.
Suas palavras se fazem presentes, acompanhadas de um brilho insano e sorriso maníaco.
Faz muito tempo que você não sente o sangue correr tão depressa.
"Você fala demais, Harry Potter."
Você ouve o líder rosnar com sotaque pesado.
Havia desgaste na voz do homem.
"Demais para um homem-morto."
Há valor em um pequeno descanso, você aproveita a fragilidade demonstrada pelo homem para respirar por um instante a mais.
"Eu vou espanca-lo até que você esteja à beira da morte." Você se pega dizendo em meio a um rosnado. "E quando você mal estiver consciente eu vou decepar o seu braço da varinha e manda-lo de volta para seu empregador, o bastardo, homem-morto respirando, que ousou ameaça-la." Seu sorriso se alarga. "Talvez eu vá até ele pessoalmente."
Você percebe, com uma pitada de decepção, que a disposição para conversa acabou e se adianta.
Um dos seus feitiços favoritos, fogo vivo, deixa a ponta de sua varinha de azevinho em uma tempestade de chamas incontroláveis.
Seu próprio poder, obviamente, é bem conhecido para você; seus inimigos, portanto, dançam por entre as labaredas usando redomas de água recém conjurada e pura magia bruta para mitigar os consideráveis danos.
O calor começa a se tornar insuportável.
Você sorri mais largamente, enquanto a sua casa queima.
A sua insensatez gera os resultados previstos e as paredes e o teto da velha propriedade começam a ceder diante do fogo mágico.
O teto não tarda a arder em labaredas vívidas.
Sua sala, transformada em campo de batalha, se torna um campo minado.
Em segundos, você danifica irremediavelmente a estrutura, física e mágica, da antiga construção e faz com que seus inimigos tenham que se preocupar em não ser atingidos pelos destroços flamejantes.
Você, enfim, começa a abdicar de todo controle sobre o fogo.
Um dos homens se assusta com as labaredas mortais que tomam conta do ambiente e você não hesita em focar todos os esforços nele.
O homem solta um grito estrangulado e tenta convocar água.
É um esforço fútil, o calor insano do ambiente, unido ao controle precário do homem sobre suas emoções, o torna incapaz de reunir qualquer presença de espírito necessária para apagar as chamas vorazes que o transformam em pó em poucos segundos.
No entanto, antes que possa comemorar a pequena vitória, você sente um corpo se lançando contra o seu.
Outro dos atacantes restantes, em uma tentativa de minar o seu controle sobre o fogo vivo, se atira sobre você jogando ambos ao chão.
Os dois magos ainda em pé são poderosos o suficiente para banir a maior parte de sua fogueira infernal e não demoram a desviar a atenção para você, que luta fisicamente pelo domínio.
Em um descuido, seu algoz permite algum controle sobre sua varinha de azevinho e, em razão disto, é punido com uma cabeça explodindo em cima dos ombros.
A bagunça gerada pelo feitiço explosivo a queima-roupa é o suficiente para você se ver livre de um conjunto de correntes jogados em sua direção.
Os dois atacantes restantes se encaram em pânico ao vê-lo levantar.
"Bem." Você resmunga tenso, com os olhos lacrimejantes pelo esforço. "Restam apenas dois."
Os homens se movem para ataca-lo, mas você está preparado para isso.
Suas chamas enfeitiçadas queimaram de dentro para fora as proteções da casa ancestral que impediam que o local fosse transfigurado a bel prazer.
Esse impedimento não existe mais.
Com um aceno de sua varinha o chão se abre em uma enorme e ameaçadora boca, engolindo os feitiços dos atacantes restantes.
Você grita e os vidros escurecidos das janelas se quebram e voam em direção aos dois homens hostis como uma nuvem mortífera.
O líder, mais experiente em transfiguração e combate, transforma boa parte de sua tempestade de vidro em plumas e saí ileso da ofensiva, seu companheiro, por outro lado, falha nas complexidades da arte sutil e é completamente retalhado em um piscar de olhos.
"Você perdeu." Você fala em uma constatação fria. "Pronto para começar a falar, ou prefere que eu arranque seus membros antes?"
"Eu ainda estou em pé."
Grunhiu o homem cansadamente.
O braço do atacante se move para uma investida final.
Entretanto, antes que ele pudesse pensar em finalizar a ofensiva, sua mão da varinha é expulsa brutalmente de seu corpo por um feitiço de corte bem colocado.
Era uma coisa feia, irregular, uma maldição criada com propósito único e exclusivo de infringir o máximo de dano possível.
O homem grita segurando o toco sangrento e rasgado.
Você observa a cena enquanto se aproxima.
"Crucio."
As palavras saem de sua boca quase que como uma pergunta.
Você nem ao menos tem certeza se é capaz de fazer a magia funcionar.
Os gritos do homem, entretanto, respondem seu questionamento não dito.
"Sabe..." Você fala ao soltar o feitiço. "Antes de hoje eu não era capaz de usar esse feitiço, tampouco o feitiço da morte."
O homem grunhiu chorosamente atirado ao chão, ainda quente das chamas que reinavam livres no ambiente anteriormente.
Seus olhos focam o dele por o mais breve dos instantes, rasgando a mente do malfadado infeliz e revelando tudo que você precisa saber.
"Mas saber que vocês a ameaçaram..." Seu sussurro é lento e ameaçador, uma promessa sem ressalvas. "Agora eu entendo o que Bellatrix Lestrange queria dizer, você realmente tem que querer."
Você se abaixa preguiçosamente em frente ao último dos atacantes ainda vivo.
"Um último aviso antes de mata-lo." Você alerta. "Eu vou ao encontro dela e da família dela." Seu tom de voz é rouco, mas tão frio quanto antes. "Se eu ao menos suspeitar que você, qualquer um do seu bando de escórias inúteis ou mesmo seu empregador, encostaram sequer um único dedo nela..."
O homem jogado ao chão ainda consegue rir com desapego.
"Você vai fazer o que?" Questiona ele em um último esforço. "Eu já estarei morto."
"Mas você vai desejar não estar." Você interrompe duramente. "Por outro lado, sua família, amigos, conhecidos, inferno, qualquer um com que você tenha interagido em sua vida de merda, vão desejar a morte e implorar por ela."
Um par de olhos se apagou.
Um par de olhos que não era verde esmeralda, tampouco azul safira.
