A vida de um marinheiro é intensa.

Foi a primeira certeza que Arthur teve quando pisou num barco.

Libera me…. Domine…. De morte aeterna… in die illa tremenda— Arthur cantarolou. Limitando-se a manter com os lábios travados, restringindo a nota grave no fundo da garganta. De forma que, a melodia fosse ouvida somente por si.

Era uma noite fria, e ele se encontrava confinado na parte alta do convés. Um lampião preso ao mastro queimava o restante de óleo, enquanto o homem distraía-se balançando o último gole de Rum na caneca.

O vento gélido fazia sua pele exposta arrepiar, encolhendo-se mais sobre o velho manto de couro, tentava recuperar calor bebendo uma dose de álcool. As ondas batiam e esguichavam-se contra a caravela e suas narinas eram tomadas pelo forte cheiro de sal que se desprendia do mar em meio a madrugada. Mas aquilo tudo já era familiar.

Apesar do clima rigoroso, tudo parecia silencioso demais.

E eu odeio o silêncio.

Arthur já navegara tempo o suficiente para saber como a frágil sanidade dos homens podia se rasgar feito um véu de seda em alto mar. Sua intuição gritava que algo estranho iria atormentar a vida dos pobres marinheiros daquela embarcação. Eles podiam agir como verdadeiros desbravadores enquanto estivessem em alto mar, porém em terra, aqueles marinheiros não passavam uma ralé. Tão deploráveis quanto os mendigos, charlatões, fedelhos órfãos e prostitutas que viviam nas vielas de Thomar longe na vigilância da igreja.

Mesmo que eles se apresentassem de rosto lavado e cheio de vigor diante de Dom Pedro, Arthur sabia da imundice que tentavam esconder de seus santos.

Arthur suspirou irritado.

Minha intuição nunca erra.

— Bela noite, meu amigo! — Uma voz familiar disse — Esteve aqui o dia todo?

— Talvez — Arthur respondeu — Talvez, eu estivesse. Ninguém se importa.

Ignorando o último comentário, o jovem se aproximou. Era Jorge, o mais novo membro da tripulação e seu amigo. O seu mais querido amigo. Seus olhos azuis cintilavam pela a luz fraca do luar, os cabelos loiros caídos nos ombros e o corpo esbelto revelavam sua juventude ingênua e inocente.

Esse sim é homem no qual, podia-se bater no peito e dizer que era temente a Deus.

— Eu lhe procurei a tarde inteira — Jorge pousou a mão sobre o ombro do amigo chamando sua atenção — Estava muito ocupado com os afazeres?

— Sim e não — Respondeu — Mas, está tudo bem. Navegar sempre me deixa pensativo.

Finalmente deixando a postura rígida, Arthur suspirou. Jogou sua caneca de cobre para qualquer canto e puxou Jorge para perto.

— Penso em muitas coisas, mas nunca pensei que meu irmãozinho noviço viraria o pupilo predileto de Dom Pedro! — disse enquanto bagunçava os cabelos loiros do mais novo — Eu já lhe dizia que a vida de padre não combinava com você!

— Lembro que você dizia isso e muitas besteiras.

— Eu?

— Não se faça de desentendido.

— Eu era um santo — Arthur riu — Principalmente com você.

— Certo, irei fingir que isso é verdade — Jorge apoiou-se sobre a borda encarando as águas. Uma imensidão negra onde a lua e estrelas resplandeciam — Sentir sua falta — Admitiu.

Eu também.

Entretanto, lhe faltavam palavras para descrever tais sentimentos diante a ausência do amigo. E segundos silenciosos seguiram-se.

— Não olhe para o oceano à noite — Arthur finalmente disse — Se não, ele te puxará para fundo.

— Hmm, não sou adepto a superstições de marinheiros — Jorge respondeu, afastando-se da borda — Mas as ondas parecem agitadas agora.

— Parece que a tempestade se aproxima — Arthur disse. Ambos mal haviam percebido a chuva que caia, ou as velas balançando com desleixo.

— Quando era uma criança, acreditava que as tormentas eram anjos guerreando nos céus — Jorge relembrou, passando os dedos em volta de seu rosário escondido sob o manto. Em vários momentos, as lembranças de vida no mosteiro voltavam à sua mente — Irei avisar Dom Pedro.

Arthur sentia-se satisfeito pela determinação do amigo, sorrindo para o mesmo antes de vê-lo correr para a popa.

Seja por forças divinas ou mundanas, uma guerra se aproxima.

E eu lutarei ao lado de Jorge.