Crepúsculo não me pertence.


Faixa 01: Sky-Room Bar

— Mas para pra pensar, cara. É importante você estar lá. — disse Jacob Black, empresário e arranjador dele. — E porra eu demorei pra cacete pra conseguir essa gig1. Valoriza meu trabalho.

— Eu sei que é, mas porra Jake, chatice do caralho. — Reclamou Edward.

— Estamos juntos nessa, mas não tem muito o que fazer, mesmo. — Completou rindo.

Edward bufou e acenou em concordância, enquanto disparava um meio sorriso. Jake e Edward eram melhores amigos e inseparáveis desde os tempos da escola. Eles tiveram uma banda juntos por alguns anos, mas Jacob Black descobriu rapidamente que estar à frente dos holofotes não era para ele, então tão logo a banda começou a fazer sucesso, Jake decidiu passar a articular por trás dos panos.

A banda então se dissolveu e Edward Masen passou a seguir carreira solo, rapidamente assumindo o papel de guitarrista assim que Jake deixou o posto. Ele era talentoso e Jacob nunca duvidou que seu melhor amigo seria capaz de cumprir com primazia. A verdade é que Jake era um bom guitarrista, mas ele era um empresário espetacular e um arranjador inigualável. Ele conseguiu imprimir verdadeiramente a personalidade da banda e rapidamente, se fazendo uso das redes sociais, conseguiu alavancar a banda na cena nova iorquina.

— Tem traje?

— É uma festa no Sky-Room Bar, Edward. Porra. Tome banho pelo menos. — respondeu rindo torcendo muito para que ele tivesse um pingo de decência e se arrumasse de maneira adequada. — Mas sério, — complementou Jake — vai confortável, cara. O momento de a gente começar a naturalizar teu estilo é agora. Vamos ver como a galera absorve Edward Masen na cidade que nunca dorme, pode ser?

Edward apenas concordou. Despediu-se rapidamente do amigo e se dirigiu até o metrô mais próximo para ir embora. Ele sabia que a gig não era muito grande, mas também não fazia tanto tempo assim que estavam trabalhando na carreira solo dele e Jacob conseguiu ir muito mais longe do que ele jamais esperou. E conseguir esse pocket show2 no aniversário de Alice Brandon era algo grandioso - uma oportunidade que ele não poderia mesmo recusar.

Definitivamente cantar para uma porção de ricos em um dos mais badalados bares de Nova Iorque não era exatamente o que ele imaginava para si quando pensava na sua carreira, mas ele não podia deixar de aproveitar todas as oportunidades que se desdobravam em sua frente.

Nos dias seguintes Edward trabalhou no setlist3 cuidando para incluir as que Alice Brandon gostava. Ela é modelo de uma famosa marca de cosméticos, e aparentemente bastante engajada em questões sociais - aparentemente foi por pressão dela que a marca começou a reduzir testes em animais até, recentemente, anunciar não mais fazê-los. Ele precisava dar o braço a torcer e admitir que até os ricos têm valor - ou pelo menos suas influências são importantes. Além disso ela era daquelas pessoas que compartilham muito de sua intimidade em suas redes sociais, então não foi complexo descobrir suas principais preferências musicais.

Na data do seu pocket show, Edward se antecipou para chegar cedo no Sky-Room Bar e observou admirado o espaço onde ele faria seu show. Ele sabia que era um dos bares mais famosos daquela cidade, mas não fazia ideia de que a vista do local seria tão deslumbrante. O bar ficava no último andar de um prédio de mais de 30 andares e tinha uma vista panorâmica da linha do horizonte de nova Iorque, permitindo observar um esplendoroso pôr do sol invernal. Ele deveria começar a arrumar os equipamentos e passar o som, mas era difícil demais conseguir dar algum passo para longe daquela varanda.

— Impossível de enjoar, não é? — Ouviu uma voz feminina atrás dele e olhou curioso. Ela tinha um sorriso pequeno em seu rosto, e seu olhar foi rapidamente do seu, para o céu.

A mulher estava parada, encostada no vidro que separava o restaurante do pôr do sol em questão. Seus braços atrás de seu corpo, provavelmente dando sustentação contra a porta de vidro. Ela era pequena, e estava distante para que ele pudesse ter certeza, mas aparentemente tinha olhos castanhos. Ela vestia um grande casaco – aberto – e uma calça e blusa sociais pretas; além disso, carregava uma espécie de maleta também preta, suportada por seu ombro.

— Ah… não dá para enjoar de algo que muda todos os dias, não é? — continuou a conversa, tentativamente se aproximando dela, que voltou seu olhar para o dele, ainda com o pequeno sorriso em seu rosto.

— Alguma coisa não muda todos os dias? — Ele perguntou de volta, dando mais alguns tímidos passos na direção da mulher.

Ela deu de ombros e voltou a observar o céu.

— Isabella. — Apresentou-se com um aceno de cabeça, enquanto levava um cigarro aos lábios e o acendia. Ah então era por isso que ela tinha vindo para fora, pensou com divertimento. — Você é Edward, o cantor, não é?

— Edward, o cantor. — Concordou rindo. — Muito prazer. Você trabalha aqui?

— Fotógrafa. — Respondeu apontando para a sua maleta preta que acabara de depositar no chão.

— Uau vai ter fotógrafo. — Espantou-se.

— As vantagens de ter uma melhor amiga fotógrafa é que ela é obrigada a sempre estar à sua disposição. — Disse com uma piscadinha de olho.

— Amiga da Alice, suponho. — Edward perguntou, quase que de forma retórica.

— Desde o berço. — respondeu com aquele maldito sorriso que insistia em não sair daquele rosto.

Edward terminou de se aproximar dela e também encostou-se no vidro, espelhando o movimento da mulher ao seu lado.

— Você estava falando sobre coisas mutáveis e eu fiquei reflexivo aqui. Por que acha que tudo muda?

— Você não? — Perguntou enquanto virava seu rosto para encará-lo diretamente e caralho ele era lindo.

— Para te ser sincero, não sei. Acho que nunca pensei nisso. Minha resposta lógica seria concordar com você porque você parece ter absoluta certeza do que está falando, e provavelmente passou bastante tempo discutindo isso com outras pessoas para chegar a sua conclusão, — disse com um sorriso que aumentou quando ela também sorriu — acho que vou precisar de um tempo pra te dar uma resposta — Concluiu.

— Como quiser. — Disse Isabela, rindo. — Tenho outra pergunta que me ajuda a definir caráter das pessoas.

— A da imutabilidade das coisas é uma dessas? — Inquiriu em um falso alarme, fazendo-a rir. Ele gostava do som da risada dela.

— Sim, definitivamente uma delas. — Respondeu ainda sorrindo.

Caralho ela não cansava de sorrir?

— Preparado?

— Porra não. Agora eu estou nervoso. Me dá um trago. — Pediu.

Bella ofereceu o cigarro e observou atenta até que Edward o levasse aos lábios. Ele deu um trago longo e o relaxamento que o invadiu foi palpável.

— Nervoso?

— Um pouco, acho, — respondeu desconcertado — eu não estou exatamente no meu ambiente aqui.

— Onde é seu ambiente?

— Na garagem da casa dos meus pais, se eu analisar friamente — respondeu rindo alto, sendo acompanhado por ela. — Acho que cantando para uma porção de gente ferrada de grana que se embebeda com a cerveja mais barata do bar. Isso aqui — disse apontando para dentro do bar e dando mais um trago no cigarro — é tão esquisito quanto possa ficar.

— Entendo, acho. Quando comecei a fotografar eventos de classe A, também me sentia assim. Mas acredita, Edward, isso passa. Além disso, não há nada pior na vida do que fotografar um casamento e perder o click da hora do beijo. — Confidenciou rindo. Cacete ela realmente não parava de rir.

— Caralho já aconteceu contigo? — Perguntou genuinamente intrigado e gargalhou alto quanto ela negou.

— Ainda. — Complementou encolhendo os ombros e aceitando o cigarro de volta.

Eles riram, mas logo foram interrompidos por um homem alto, bastante musculoso com traços étnicos indígenas.

— Desculpa interromper, boa noite, — Jacob ofereceu à Isabella e olhou, em seguida para o seu amigo — precisa de ajuda na montagem? Três ubers cancelaram, desculpa o atraso. — Complementou indo em direção a eles. — Jacob Black. — Ofereceu a mão à mulher.

— Isabella Swan. — Disse em resposta, apertando a mão ofertada. — Muito prazer. Bom, vou deixar vocês em paz. Qualquer coisa estou por aqui. Tudo bem se tirar umas fotos suas, Edward?

— Claro! — Comentou de forma genuinamente empolgada. Não era sempre que ele teria uma fotógrafa profissional capturando sua imagem.

— Não esquece de marcar se postar no Instagram. Todo holofote é bem-vindo. — Disse Jacob, bem-humorado, e também recebendo dela um sorriso.

Caralho ela não parava mesmo de sorrir.

— Claro. Não se preocupa com isso. Bom, vou lá, qualquer coisa estou por aqui. — Ela disse olhando por trás de seus ombros, enquanto voltava a entrar no salão do bar.

— Eu também. — Edward respondeu. Ele estava bastante dividido entre seguir o que Jacob estava sugerindo - entrar para montar os equipamentos e passar o som - ou continuar batendo papo com a fotógrafa. Intrigante era uma boa palavra para defini-la, mas não chegava nem perto de ser precisa.

— Porra, Edward. — Disse Jacob a observando ir. — Conhece de onde?

— Acabei de conhecer. — Ofereceu percebendo interesse claro de Jacob nela. — Nem pensa. — avisou, fitando seu amigo.

— Tu vai nela?

— Ué caralho, você viu essa mulher? — Perguntou Edward, apontando com o queixo na direção que ela seguiu.

— Vi, né?

— Então a sua pergunta é retórica, certo? — Inquiriu e riu da gargalhada do seu amigo.

Os dois seguiram para o pequeno platô onde Edward deveria montar a aparelhagem do seu show. Passaram alguns minutos conectando e desconectando cabos, rearranjando a posição das caixas de som, retorno e teclado. Edward ficou em dúvida se cantaria em pé ou sentado e decidiu tomar a decisão quando conseguisse traçar as impressões do público.

Isabella aproveitou que Edward estava ocupado com a organização da logística de seu show, e navegou pelo salão daquele bar reconhecendo os melhores locais para que ela se posicionasse para fotografar. Sendo amiga pessoal de Alice, ela sabia qual roupa ela usaria e a decoração do ambiente, então conseguiu se preparar para trazer as lentes e filtros corretos para sua fotografia. Não é como se ela não fosse preparada para os eventos onde trabalharia, mas saber antecipadamente como seria a iluminação se provou melhor para a qualidade de suas fotos.

Tanto Edward quando Isabella se observavam de forma tentativa. Ela ficou presa, por alguns instantes, na imagem dele sentado na cadeira enquanto dedilhava uma canção calma. Sua voz melodiosa era pouco conhecida. Muito embora Alice acompanhasse o trabalho do cantor em ascensão há alguns anos, Bella não costumava ouvir muita música contemporânea. Ela gostava dos rocks mais clássicos e, quando muito, um blues. O problema é que embora o ritmo não se assemelhasse a esses gêneros, a voz, sim. E sejamos francos, era uma gracinha observar seu cenho franzido quando ele se concentrava para tocar.

Edward, por sua vez, sorria todas as vezes que entoava um drive4 e acabava por chamar atenção de Isabella, visto que aparentemente era uma técnica vocal que ela gostava de ouvi-lo fazr.

— Isabella, — chamou em um dado momento que ela não estava às suas vistas — Be-e-lla-a-a-som-alou-som — balbuciou enquanto testava o microfone. Isabella apareceu com a câmera posicionada e, sorrindo, o clicou.

— Fala. — Disse do outro lado do salão.

— Qual música você quer que eu cante?

— Cruz credo Edward, isso é responsabilidade demais! — Respondeu rindo e andando na direção do palco. — O que você quiser. — Ofereceu, encolhendo os ombros.

— Essa é para você, então. — Disse após alguns instantes e com a voz propositalmente mais grossa. Ele a fitava diretamente nos olhos e era quase que impossível controlar a sensação gélida que tomou conta de sua barriga. Porra o olhar dele era intenso.

Smelly cat, smelly cat, why d— e não conseguiu concluir porque o som da risada de Isabella tomou todo o salão. Eles riram juntos e continuaram sorrindo quando ouviram barulhos de saltos se aproximando deles.

— Ali! — Isabella cantarolou enquanto abraçava sua amiga. — Feliz aniversário! — Disse beijando o rosto da modelo e apertando-a ainda mais contra si. — Você está linda, linda, linda.

— Ah Bella, — Alice parecia envergonhada. — Obrigada. — E sorriu sincera. — Você é Edward, não é? — Perguntou com um largo sorriso, e algo na expressão facial da modelo o levava a crer que era uma pergunta retórica. Ela parecia saber com quem falava.

— Uhum — Respondeu enquanto repousava seu violão no suporte e descia do platô para cumprimentar a mulher. — Feliz aniversário. — Ofereceu de forma simática.

— Obrigada. — Respondeu com um sorriso que tomava seu rosto inteiro. — Posso ver o setlist?

Edward maneou negativamente a cabeça e complementou quando olhou a expressão consternada de Alice — você confia em mim?

— Edward eu não te conheço. — Respondeu rindo enquanto olhava para sua amiga que, por sua vez, o encarava curioso.

— Então confie, Alice. Eu pesquisei sobre você. Se você não gostar não precisa pagar cachê. — Piscou e deu um meio sorriso. Isabella se percebeu imitando o gesto.

— Ok… Mas vou aceitar a proposta de não pagar o cachê. — Inferiu rindo.

— Negativo quem cuida das contas do Masen sou eu e negócios são negócios. — Disse Jacob, se aproximando dos três. Alice riu e o cumprimentou com um abraço. Edward percebeu com curiosidade que aparentemente eles já se conheciam.

— Como você está, Jake?

— Bem, Alice. Obrigado por perguntar. Feliz aniversário agora pessoalmente.

— Obrigada! Bom eu vou lá porque tenho um milhão de coisas para resolver antes de pipocar convidados. Bella você me ajuda? — A amiga acenou positivamente com a cabeça e tampou a lente da sua câmera.

— Deixa só eu guardar a câmera rapidinho. Te encontro no quarto que você reservou, pode ser?

O grupo se dissipou depois que Alice confirmou, e, quando estava prestes a sair do bar em direção ao elevador, Isabella ouviu seu nome ser chamado por uma voz que estava se tornando agradavelmente conhecida.

Ela virou na direção do som e o olhou curiosa. Edward dava passos rápidos para se aproximar dela. Isabella observou em silêncio a aproximação e se deixou reparar em como ele era bonito.

A barba por fazer tinha tons de ruivo, e o cabelo, escondido em uma touca de lã era de um castanho acobreado muito bonito, ou pelo menos parecia do pouco que ela conseguia ver. Ele usava uma camisa preta de mangas compridas e um jeans desleixado. Nos pés, vans igualmente pretos. Conforme ele foi se aproximando ela conseguia distinguir em detalhes a fisionomia dele. Tinha o maxilar marcado e sujo pela barba por fazer, um peitoral forte e ombros largos. Edward era dono de um par de olhos verdes escandalosos.

Sua miopia não o permitia enxergar com precisão enquanto estava distante, mas quando se aproximou - talvez um pouco demais para a sua zona de conforto - conseguiu perceber que parecia ter alguns pigmentos marrons em meio ao verde. O nariz dele era fino e tinha um leve inchaço no meio - será que ele já quebrou o nariz alguma vez? - e os lábios eram grandes, carnudos e vermelhos. Ela gastou alguns preciosos segundos observando aquela boca porque era realmente bonita. Quase como se tivesse sido cuidadosamente desenhada. Ele tinha um incisivo tortinho e era um charme todo especial nesse irritante sorriso torto que ele insistia em carregar.

Ela sabia que ele percebeu que o encarava, mas para ser sincera, ela não estava muito preocupada com isso. Isabella sempre transitou entre esse tipo de pessoa e, apesar de nunca se refrear em observar quando eram pessoas bonitas, nunca nutriu expectativas de ter nada com nenhum deles - e com ele não seria diferente.

Não é como se ela não reconhecesse o seu valor enquanto mulher. Além de ser sempre muito elogiada pelas pessoas com quem saía, ela também tinha espelho e era completamente capaz de observar sua beleza. A questão é que fazia algum tempo que ela já tinha cansado das transas despropositadas.

Frequentando a vida noturna de Nova Iorque, e sendo bonitinha como sabia que era, foda nunca foi algo que lhe faltou. Mas fazia muito tempo desde a última vez que se envolveu romanticamente com alguém, e não tinha nenhuma história dramática por trás desse fato, ela só ficou completamente afogada em suas responsabilidades para lembrar de se dar tempo para conhecer pessoas.

O ponto é que o nervosismo de se estar com alguém muito bonito geralmente bate quando se há algum interesse romântico e/ou sexual, e dado a total incapacidade de encontrar tempo em sua agenda para isso, ela sabia que encontros desse tipo pelos próximos meses seriam inviáveis e, portanto, não teria porquê sentir-se nervosa encarando pessoas bonitas – e assim o fazia.

— A pergunta. Qual era a pergunta? — Edward questionou ainda com a porra do sorriso torto.

— Ah! — Disse rindo. — Se você pudesse ter qualquer superpoder. Qual seria?

Ela gargalhou alto de verdade quando viu o olhar de consternação. Definitivamente não era isso que ele estava esperando.

— Porra Isabella, — disse rindo — vou ter que ficar te devendo essa também. — respondeu coçando a nuca e a encarando com um sorriso apologético.

— Negativo. Essa tem que ser respondida automaticamente.

— Ai caralho, sei lá. O que você escolheu? — Perguntou e bufou quando notou que ela apenas levantou uma de suas sobrancelhas. — Nesse momento queria saber ler mentes para saber exatamente o que passa nessa sua cabecinha. — Disse franzindo o nariz e lábios como em falsa irritação. Ela sorriu de forma suave, enquanto encostava a ponta de seu indicador no nariz dele.

— Previsível. — Concluiu. — E o que você faria com esse poder se pudesse ler minha mente nesse instante? — Perguntou com um tom genuinamente curioso.

— Ué eu saberia antecipadamente qual superpoder você mais valoriza, então diria que é o meu também. — Respondeu ameaçando mordiscar o dedo que estava encostado em seu nariz.

— Que vendido. — Disse rindo e recolhendo sua mão. — Eu manipularia o tempo e espaço. — Esclareceu com um sorriso presunçoso, enquanto dava um passo para trás de forma muito singela de modo que ele não percebesse.

— Ah não. Não vale Isabella! — Reclamou obviamente incomodado com a resposta.

— Ah não, é? Posso saber por quê?

— Há quantos anos você brinca disso com as pessoas?

— Desde 2002 quando ganhei de aniversário a Uncanny X-Men número 4 do meu primeiro namorado, e me apaixonei pela primeira vez por uma mulher, a Feiticeira Escarlate.

— Você tinha quantos anos? — Perguntou mais curioso em saber a idade dela do que saber quem era heroína. Ele também demonstrou clara curiosidade com o "primeira vez que me apaixonei por uma mulher", mas decidiu desvendar isso depois.

— Onze.

— Nossa, precoce. — Respondeu impulsivamente e alarmado.

— Ah não. Ele não sabia que eu o namorava. — Disse de forma displicente arrancando algumas gargalhadas dele.

— Cara eu não sei se a gente vai ter tempo de conversar antes do meu show, então já vou aproveitar a ocasião e te chamar para beber alguma coisa. — Sugeriu, decidindo ser direto e dando a ela a oportunidade de falar, caso não nutrisse interesse por homens.

— Hoje? — Perguntou atônita sem responder nenhuma das questões que o intrigavam.

— Sim….? — Respondeu inseguro.

— Ah desculpa, hoje não posso. É aniversário da Alice.

— Ah claro. Esqueci, foi mal. Amanhã? — Insistiu e percebeu que ela coçou sua nuca e demonstrou claro desconforto.

— Posso te confirmar depois?

— Claro. — Respondeu num fio de voz.

— Certo, bem. Então vou indo. A gente se esbarra durante a noite. — Respondeu e se apressou para voltar a caminhar em direção ao elevador.

Ele percebeu que não trocaram telefone, e conseguiu perceber que por alguma razão desconhecida, ela ficou desconfortável com o rumo da conversa. A característica descolada e divertida ruiu rapidamente no momento que a opção de se verem fora dali foi colocada na mesa. Edward estava claramente confuso, e agora um pouco desconfortável também. Afinal de contas, ele não imaginou tudo aquilo que aconteceu. Imaginou? Ela de fato não parava de sorrir quando falava com ele, certo?

Sem a distração da morena, ele focou na montagem de som e desconversou quando Jacob voltou a perguntar sobre Isabella, e se ela aceitou sair com ele. Jacob foi quem mais incentivou que ele desse esse passo, porque a mulher aparentava estar interessada - se fosse levado em consideração a forma que ela o olhava enquanto ele estava no palco.

— A gente ficou de combinar algo depois. — Respondeu de forma vaga, torcendo para que fosse suficiente para calar seu melhor amigo.

As horas seguintes se passaram com eles conversando com alguns convidados que chegavam pouco a pouco. Sendo uma figura ainda pouco conhecida entre a classe rica de Nova Iorque, Jacob e Edward fizeram um bom trabalho em conversar individualmente com o máximo de pessoas interessadas. Enquanto circulavam no salão, Edward percebeu que Isabella estava verdadeiramente ocupada. Ela não apenas fotografava Alice, como os convidados posando ou de formas espontâneas. Não era raro observar que ela sorria de alguma cena antes ou depois de apontar a câmera. Também não era difícil de notar que ela sempre olhava a foto no visor da câmera instantes após fotografar, mas era raro que ela pedisse para repetir.

Ele não fazia ideia da qualidade do trabalho dela, mas a forma que ela encarava a festa da sua amiga como um trabalho, levando isso de forma extremamente profissional já dizia um pouco sobre a forma que ela encarava seu trabalho.

— Agora com o Edward! — ele ouviu a voz de Alice atrás e notou que as duas andavam em sua direção. Ele sorriu para a Alice e se deixou continuar sorrindo quando encarou o olhar apologético de Isabella, que logo se transformou em um sorriso torto quando notou que ela sorriu. Cacete ela realmente não conseguia.

A verdade é que ela frequentemente tentava se convencer que não fazia sentido dar bola para homens muito bonitos, porque ela não tinha tempo para ir atrás de algum tipo de envolvimento, mas fato é que esse homem bonito em questão realmente mexia com ela, e ela não fazia ideia do porquê. Talvez o fato de saber que ele estava interessado nela a deixava ainda mais atenta e ansiosa, ou talvez o fato de que ele era ridiculamente bonito, ou ainda o nervosismo poderia ser porque ele era um cantor que sua amiga gostava e sabia, portanto, que essa era uma das únicas fotos que ela não poderia arruinar.

A fotógrafa sugeriu que eles virassem na direção oposta - em razão da luz - e os observou no visor da câmera. Sugeriu então que Alice se posicionasse de uma outra forma - ela sabia que a amiga preferia o seu lado esquerdo em fotos. Sorriu então para os dois - mais para ele, se formos ser sinceros - apontou a câmera e fotografou. Alice pediu para ver a foto, exclamou alguns elogios e seguiu para cumprimentar outros candidatos. Ela estava eufórica com aquele evento.

— Você quer ver? — Ofereceu a mulher, apontando para o visor da câmera.

Ele sorriu e deu alguns passinhos na direção dela, cuidadosamente tateando o terreno para garantir que não cairia em nenhuma armadilha metafórica.

— Uau, você é boa. — Constatou.

— Modelo ajuda, né. — Afirmou imediatamente sentindo seu rosto esquentar.

— A modelo, não é? — Questionou, porque ele achava que teria ouvido "o modelo", mas como não tinha certeza, incentivou que ela repetisse.

— Uhum. — Concordou ainda ruborizada, sem encará-lo.

— Eu vou tocar daqui a uns 20 minutos. Quer fumar um cigarro? — Convidou, desavergonhadamente se usando do vício dela para a convencer de passar mais alguns instantes com ele.

— Estou trabalhando, Edward. — Respondeu com um sorriso apologético.

— Sem folga para o cigarrinho?

— Meu deus você não faz a menor ideia de quem seja Alice Brandon se está sugerindo que eu tenha uma folga apenas algumas horinhas depois que a festa começou. — Respondeu rindo e buscando sua amiga por entre os convidados.

— É, acho que não. Aindanão.

Isabella o observou por alguns instantes sem entender exatamente o que ele quis inferir com aquela frase.

— Bom será que você pode me dar um cigarro? — Edward pediu, tentando prolongar o tempo com ela.

— Hum… na verdade não sei se devo. — Respondeu encarando. — Não posso ser culpada por você voltar a fumar.

— Não vai. — Ele disse rindo. — Eu parei de comprar cigarro, e não me sinto dependente, mas gosto de fumar na noite.

— Não se sente dependente, mas quer dar uma fumadinha sozinho minutos antes de entrar para cantar seu set? — Ela perguntou arqueando uma de suas sobrancelhas em um semblante desafiador.

Touché.

— Estou ansiosa para te ouvir cantar. — Confidenciou, achando que faria bem para ele ter seu ego um pouco amaciado, visto que ele parecia nervoso. — Alice adora você.

— Mas você não, certo?

— Eu te disse, — riu — não conheço o seu trabalho. Ainda. — Disse a última palavra instantes antes de piscar um dos olhos para ele. O sorriso que surgiu em resposta foi instantâneo.

Edward estava completamente confuso. Ela parecia flertar bastante com ele, e por vezes até correspondia os flertes que partiam dele, mas na mesma proporção que isso acontecia, ela bloqueava tentativas de aproximação para além do cordial. Optando por acreditar que dessa vez ela embarcaria na onda dele, insistiu.

— Aqui você não vai exatamente conhecer. Eu preparei algo que fosse agradar esse público. Minha onda é mais pub sujo, te disse. — Complementou e riu do falso espanto dela.

— Desmerecendo seus clientes, Masen?

— De forma alguma. — Disse sem muita convicção em sua voz. Isabella o ofereceu um pequeno sorriso, como se estivesse concordando com ele.

— Mas então, — continuou — a minha cena é outra, e eu realmente gostaria de te mostrar. — Disse dando um passo sutil, aproximando-se ainda mais dela. Agora seus braços quase podiam se tocar.

Ela olhou do chão para ele, cuidadosamente sorvendo com os olhos cada pedaço daquele homem, arqueou uma sobrancelha e perguntou, — Está me chamando para sair?

— Pela segunda vez nessa noite, Bella. Sim. — Respondeu sincero, portanto aquele sorriso torto que apareceu tantas vezes naquele rosto, naquela noite, que talvez valesse mais a pena tatuá-lo.

Antes que ela pudesse falar qualquer coisa, Alice a puxou para continuar fotografando outras pessoas.

Ela tentava ignorar os avanços de Edward e se concentrar no seu trabalho. Isabella conseguia perceber claramente a forma que ele acompanhava cada um de seus passos sem desviar o olhar. Não passou despercebido, por exemplo, quando ela estava fotografando o pessoal próximo ao bar e ele depositou sua garrafa ainda pela metade e pediu mais uma - sem qualquer pressa, dando assim, a ele, a chance de observá-la por mais tempo - e o olhar a queimava.

Não é como se ela não quisesse nada com ele, porra ele era uma delícia de homem, mas também era musicista e chamava a atenção de uma porção de mulheres - disso ela tinha certeza pois podia constatar como elas reagiam a ele naquele bar. A questão é que Isabella finalmente chegou em um momento da sua cadeira onde, de fato, podia viver de fotografia, mas para isso ela precisou - e ainda o faz - sacrificar muitas coisas em sua vida. Uma das poucas razões pela qual ela ainda é amiga de Alice é justamente porque foram criadas como irmãs. Seus pais eram vizinhos desde antes de engravidarem, e quando Alice recebeu a proposta para ser modelo em uma agência em Nova Iorque, Isabella não tardou em seguir os passos da amiga, mas estudando fotografia.

Há anos ela vinha tentando se inserir no mercado, mas a fotografia era um ramo muito competitivo, especialmente na era de smartphones onde agora, subitamente, todos são fotógrafos. E foi justamente para diversificar seu ramo de atuação, que recentemente começou suas aulas de cinema na New York Film Academy. Isabella agora sonhava em colocar seus conhecimentos de fotografia à prova para começar a atuar como diretora de fotografia - e ela era boa. O problema é que estudar na NYFA a custava mais do que o valor do aluguel do seu apartamento e, portanto, ela precisava trabalhar em todo o tempo livre.

Ela até sentia falta de se conectar emocionalmente com alguém, mas com o excesso de trabalho, as aulas de cinema, a responsabilidade de morar sozinha gerando a ela uma total ausência de tempo, era praticamente inviável sair para fazer qualquer coisa para além do trabalho.

Mas porra ele era gato, pensou quando notou que ele ainda tinha os olhos grudados nela. Decidindo esquecer a inibição - ou que estava em seu ambiente de trabalho - ela colocou a câmera em volta do seu pescoço, foi até o bar e pediu um copo com água. Posicionou seu corpo há alguns metros dele - que ainda estava na mesma posição - e levando o copo aos lábios, o fitou. E o fez sem tentar disfarçar, como fizera das outras vezes. Ele tinha um olhar divertido, mas completamente sedutor. Isabella se sentia encarando um predador, especialmente quando percebeu os olhares correndo pelo seu corpo inteiro, e focando desavergonhadamente nos lábios molhados de água no instante que ela deu outro gole no líquido.

Ele sorriu um meio de lado, meio tortinho – aquele sorriso - enquanto mexia em seu cabelo, e novamente foi até ela, que se sentou naquela alta banqueta de bar e o aguardou. Eram poucos passos, mas parecia que ele estava demorando uma eternidade para chegar ali. Em silêncio observou ele se posicionar na sua frente, e depositar a cerveja no bar. Ainda em silêncio notou ele levar a mão ao seu rosto e colocar uma mecha de seu cabelo castanho atrás de sua orelha. A trilha que os dedos percorreram em seu rosto antes de deixá-lo foi curta, mas deixou um rastro que queimava.

— Posso te chamar para sair pela terceira vez essa noite?

— Pode, claro. Você pode querer fazer tudo. — Respondeu, divertindo-se.

— Cuidado com o que você diz, Isabella. — Respondeu sorrindo e tocando o joelho da mulher com sua mão. Ela olhou o movimento e sua única reação possível foi fechar os olhos e respirar fundo. Ela não podia esquecer que estava trabalhando.

— Edward eu estou trabalhando. — Choramingou, recebendo um sorriso que era a perfeita mistura de alguém que se desculpava, mas que estava se divertindo.

— Me dá seu telefone?

— Eu sou um desafio para você né? — Inquiriu, desconfortável.

— Bem… Sim, mas não é por isso que quero seu telefone.

— Por que, então?

— Porque eu te achei interessante, Isabella.

— Pode me chamar de Bella. Mas cara, na boa, não é que não seja recíproco, mas esse não é o melhor lugar para isso, e sendo sincera, ficar flertando no meu local de trabalho não é algo que eu realmente estou orgulhosa de fazer.

— Certo, certo. — Ele disse colocando as mãos para cima em sinal de rendição. — Não vou mais insistir.

— Obrigada. — Sorriu de forma gentil.

— Mas quando quiser você sabe onde me encontrar, ok? Meu Instagram é edwardmasenoficial e eu juro que sou eu quem cuida dele, então se me mandar uma mensagem por lá, caso queira aceitar qualquer um dos meus três convites, sou eu quem vai te responder.

— Você é convencido demais. — Disse rindo. Era oficial, Bella era humanamente incapaz de deixar de sorrir, mas ainda que isso tenha sido uma perspectiva agradável, a ideia de que ela pensasse pouco dele o incomodou.

— Bella você não é um desafio, certo? Eu disse brincando querendo dar a entender que estava sendo um desafio te convencer a sair comigo. Eu realmente te achei interessante e queria passar um pouco mais de tempo contigo, te conhecendo. — Esclareceu.

Ela ficou em silêncio por algum tempo apenas o observando.

— Estou muito sem tempo, Edward. De verdade. — Esclareceu, optando pela honestidade, enquanto mexia em seu cabelo longo. — Eu trabalho de domingo a domingo e ainda curso cinema na New York Film Academy. — Complementou.

— Você não tem tempo para um jantar?

— Não me entenda mal, Edward, eu te acho muito gatinho. Muito mesmo. E eu adoraria sair contigo, mas não. Nem para um jantar.

Ele queria ser compreensivo e entender o lado dela, mas não dava para negar o impacto que essa rejeição teve nele.

— Certo…

— Cara por favor, não pense que isso é só contigo.

— Não, Bella. Tranquilo de verdade. — Respondeu tentando esconder o tom amargo que queria escapar.

— Vamos fazer assim. Eu tenho que fazer um trabalho de fotografia para a NYFA que seja com meia luz, e estou bem ciente do ambiente que você gosta de tocar, afinal de contas já falou sobre o pub sujo umas dez vezes, — piscou e riu antes que ele pudesse se sentir ofendido — posso talvez unir o útil ao agradável. Te uso para fazer meu trabalho e a gente aproveita e bebe umas cervejinhas depois de algum show seu.

— Ah Bella não se sinta obrigada… sério, eu entendo. Foi um corre desgraçado pra gravar meu EP5.

— Ai merda agora parece que eu não quero sair contigo. — Disse desconfortável voltando a bebericar sua água. — Eu quero, mas não posso. Eu quero, mas queria ter mais tempo porque vai acabar que a gente vai dar transar algumas vezes e você vai cansar porque eu nunca estou disponível e vai embora. E eu nem vou te culpar porque porra é complicado mesmo estar com alguém que não tem 10 minutos do dia para te dar um oi.

Edward ouviu com atenção a verborragia, entendendo que talvez ela estivesse se recusando com medo de que ele a recusasse depois de um tempo. Parecia que ela tinha sofrido algo parecido com a cena hipotética que narrou e ele se sentiu solidário.

— Bella eu estou te chamando para um jantar, uma cerveja, sei lá. Mas entendo se for demais para você. Talvez a gente possa fechar em uma amizade, o que você acha? — Perguntou para tentar aliviar o desconforto dela, e porque sabia que ele também precisaria de amizades novas nessa fase de shows em Nova Iorque.

— Acho que funciona. — Respondeu com um largo sorriso que foi calorosamente recebido por ele.

A sensação deixada foi menos ruim do que estava antes. Os dois ficaram extremamente desconfortáveis com a ideia de se relacionar e de todos os percalços que poderiam encontrar no caminho, mas também os dois precisavam de amizades e parece que essa seria uma boa alternativa. Bella era gentil e divertida, além de dividir o desgosto de ter que trabalhar no tipo de ambiente que os dois estavam, ele pensou. Bella, por outro lado, sentia em partes que ele usou essa desculpa apenas para justificar o afastamento iminente. Não fazia sentido ele querer estabelecer amizade com alguém que ele pouco conhecia, muito menos alguém sem qualquer influência na indústria musical.

Sem dar muita importância com o que aconteceu, ela decidiu focar as últimas horas daquele aniversário em tirar fotos espontâneas. Com o início da apresentação dele, aproveitou para fotografá-lo também. Alice, posicionada perto do palco sorrindo e cantando junto a ele, ficava linda na imagem que Bella capturava. Ela era apaixonada por fotografar pessoas, especialmente quando tinha a oportunidade de capturá-las de forma espontânea.

Edward cantou uma música que falava sobre um cara que se envolvia sem compromissos, até que conheceu uma mulher que o fazia querer apostar no amor. Ele perguntava, em algum momento, se perderia se apostasse o coração nela. Bella achou a letra divertida e ele a cantava de forma sedutora, olhando para cada uma das mulheres daquele local. Ele sabia conduzir sua plateia de forma primorosa.

Bella voltou a fotografar o ambiente, as pessoas e os símbolos de aniversário. Em um dado momento subiu no pequeno palco para fotografar a plateia curtindo a apresentação de Edward Masen. Parecia que o acordo de serem amigos ajudou a aliviar uma tensão de ter que agir de uma forma que ela não estaria confortável, e aproveitou que ele aparentava se sentir da mesma forma para tirar dele sorrisos lindos em suas fotos. Ele era realmente bonito. Sua voz era grave e melodiosa, e ele cantava de uma forma que parecia que era diretamente para você. A forma gentil e segura com a qual tocava seu violão e teclado também a impressionava.

Ela decidiu - novamente - focar sua atenção no seu trabalho, até que alguns minutos depois ouviu ele cantar uma outra música. Nessa ele falava sobre uma garota que mexeu com ele a ponto de estar completamente confuso. Ela tinha olhos verdes enormes e o fazia sentir ao mesmo tempo como um rei, e como um doido. A garota dos olhos verdes também brincava com ele porque sabia que ele era fraco quando se tratava dela, mas ela sempre sabia o que falar para fazer com que ele se sentisse bem. Ela era muito divertida para se importar, mas linda demais para fazer com que ele tivesse a certeza que estava se apaixonando pela última vez.

Bella sorriu de forma irônica quando da última vez que ele cantou o refrão, trocou olhos verdes por olhos castanhos. Ela sabia que era para ela que cantava aquela música, e fez questão de registrar com sua câmera o sorriso provocador que recebeu em resposta.

O resto da noite acabou sem muitos problemas. Edward optou por ir embora pouco tempo depois de ter acabado o seu show, justificando ter um estúdio marcado para ensaiar, mas ela sabia que era mentira porque não fazia muito tempo que ele a convidou para sair. Ela optou por não pressionar e apenas se despediu com um abraço pouco mais longo do que o que ela daria em qualquer pessoa que tivesse acabado de conhecer.

Ele depositou um beijo no rosto feminino e se despediu, não sem antes dizer que ela saberia como encontrá-lo. Não era justo que Bella se sentisse rejeitada nesse momento quando durante toda a noite deixou claro que não queria ter envolvimento, tampouco que teria tempo. Não era nem coerente se chatear com o fato dele ter ido embora da festa cedo demais, sendo que ela mesma se recusou a permanecer conversando com ele sob a justificativa de estar trabalhando. Isso foi o suficiente para que ela terminasse de fotografar Alice por mais algum tempo e então curtisse o finalzinho da noite ao lado da sua melhor amiga.

Se passaram dois dias depois do encontro e ela ainda debatia se entrava em contato ou não com ele. Após o show de Edward, Alice e Bella foram para mais alguns bares onde continuaram a dançar e beber com outros amigos próximos da modelo. Naquela noite Bella dormiu na casa de sua melhor amiga e confidenciou a ela tudo o que aconteceu.

Alice incentivou que ela entrasse em contato, mas percebendo a insegurança de Bella, sugeriu que postasse a foto em sua conta profissional no Instagram, o mencionando para dar a ele a oportunidade de encontrá-la no meio do caminho, afinal de conta o combinado é que eles tentassem iniciar uma amizade e fazia sentido que a aproximação fosse feita pelos dois. O problema é que Bella era a única que sabia como achar o outro, visto que ela nunca deu a ele seu telefone, sobrenome ou redes sociais. Ele, por outro lado, sim.

Obviamente ela pensava que trocar uns beijos nele não seria algo tão grave assim, e que talvez ele de fato pudesse ser um alívio à toda rotina profissional e acadêmica que a assolava. Quando Bella racionalizou, dias depois, tentando entender o porquê estava deliberadamente escolhendo se afastar, lembrou de todas as oportunidades de viver algo bacana que deixou passar com medo de não cumprir com suas obrigações profissionais. Fazia anos que ela não sabia o que era viver a vida sem se preocupar com prazos ou fazer dinheiro, e isso estava a deixando completamente frustrada.

Decidindo, pela primeira vez em muito tempo, viver o agora, abriu sua conta no perfil profissional do Instagram - Swan Photography - e postou a foto dele cantando a música sobre apostar seu coração. Na legenda ela falava:

"Não deixe sua noite especial sem aquele registro fotográfico. Essa foto foi do edwardmasenofficial na festa de aniversário da alicebrandon, cantando um dos seus maiores sucessos em um pocket show super intimista

Em "If I Bet My Heart on You" ele quer saber se perderia se apostasse o coração dele em alguém. Se fosse em você, perderia? ;)

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Contatos profissionais por DM."

O sorriso que preencheu seu rosto foi imediato quando viu quatro notificações aparecendo na tela de seu celular poucos minutos após postar a foto: "edwardmasenofficial curtiu sua foto", "edwardmasenofficial comentou: sabia que ficaria maneira! obrigado por fotografar!", "edwardmasenofficial começou a te seguir" e "edwardmasenofficial te mandou uma mensagem".

edwardmasenofficial: você esqueceu de me marcar na foto e mencionar a arrouba da fotógrafa que tirou a foto ;)

Bella sorriu com a mensagem e o comentário. Ele sabia ser sutil.

swan-photography: desculpa! vou fazer agora. me adiciona no pessoal, é imswan.

Rapidamente a solicitação de amizade chegou em forma de notificação no celular da fotógrafa.

imswan: oi estranho.

Edward recebeu a mensagem com um gostoso frio na barriga. Quando fez o show no aniversário de Alice Brandon e percebeu que Bella transitava entre flertar e tratá-lo de forma profissional, ele optou por dar a ela o espaço para tomar a decisão de entrar em contato. Ele já tinha descoberto o Instagram dela, através de minuciosas investigações na conta de Alice, mas visto que seu Instagram era trancado, não tirou dali muitas informações. Passou os últimos dias olhando o seu celular mais do que o normal para ver se alguma tentativa de contato, da parte dela, seria feito. Foi uma grata surpresa ver que isso aconteceu no pior dia da semana, a segunda feira.

edwardmasenofficial: oi estranha.

imswan: está do seu gosto agora?

edwardmasenofficial: agora sim, já que você está me usando pra ganhar curtidas, pelo menos podia retribuir o favor rs. está fazendo o que?

imswan: tentando não morrer de fome! acordei super atrasada para a minha aula e nem tomei café da manhã.

edwardmasenofficial: putz… na NYFA, não é?

imswan: isso mesmo. trabalhei ontem o dia inteiro editando as fotos do aniversário da Alice e fui dormir hoje depois das 3 da manhã. Imagina como foi acordar às 7.

edwardmasenofficial: nossa nem imagino. posso fazer algo por você?

imswan: só quem pode fazer algo por mim é Sam.

edwardmasenofficial: quem?

imswan: o padeiro da padaria aqui da frente do campus. Ele faz uns cinnamon rolls6 maravilhosos.

edwardmasenofficial: hum… queria.

imswan: eu te chamaria pra ir lá se não estivesse tão ocupada depois da aula.

edwardmasenofficial: vai fazer o que?

imswan: fotografar uma prova de roupas de uma marca daqui da região.

edwardmasenofficial: entendi, e depois?

imswan: depois o que? depois hoje? eu tenho que lavar banheiro e muita roupa, meu deus faz uns dez dias que não toco no meu cesto de roupa suja. Passei todo o meu tempo livre reassistindo todos os filmes de Star Wars para poder assistir a estreia desse novo da melhor maneira possível.

edwardmasenofficial: é exagero, Bella?

imswan: Não! hahaha eu realmente amo a saga! Tenho um bebê Yoda no meu escritório.

edwardmasenofficial: eu não acredito hahaha

edwardmasenofficial: cadê?

Ela enviou para ele uma foto do seu escritório onde, ao lado do seu computador, tinha uma pelúcia do bebê Yoda.

edwardmasenofficial: eu não sei dizer se isso é muito esquisito ou muito bonitinho hahaha

imswan: é muito fofo, Edward! como você pode dizer uma coisa dessa?

edwardmasenofficial: É muito fofo. Você é muito bonitinha e eu não esperaria nada diferente de você.

Ele precisava confessar que a falta de resposta por parte dela foi um pouco oportuna demais. Ele queria muito imaginar que ela estivesse ainda em sala, mas havia grandes chances dela ter deixado de responder por ter se sentido acuada.

edwardmasenofficial: foi mal, Bella. não leva a ferro e fogo. não vou repetir.

imswan: tranquilo, edward. Estou super atolada agora depois a gente se fala.

Ele respondeu com um ok e não insistiu. Por mais que se sentisse desconfortável com a resposta seca, ele escolheu acreditar que ela foi sincera. Não existia nenhuma razão para ela mentir para ele.

O problema é que nas segundas e terças feiras ele não costumava ensaiar nem tocar, então o tédio costumava aparecer. Ele passou o resto daquela manhã olhando as fotos dela no instagram – e não era muitas – e sorriu quando notou que praticamente todas eram legendadas com uma letra de música de rock.

No final do dia, ainda sem conseguir parar de pensar nela, decidiu assistir algum filme de Guerra nas Estrelas, mas não tinha jeito, era realmente ruim. A estética antiga e a fantasia extraplanetária não era algo que ele realmente gostava de assistir. Decidiu colocar uma série de comédia para maratonar naquela segunda feira tediosa e, a noite, acabou pegando no sono.

O dia seguinte seguiu de forma mais corrida. Ele acordou cedo para correr, depois foi para a academia, em seguida saiu para almoçar com Jacob para fechar a agenda do restante do mês. A reunião durou mais do que esperado e, na volta para casa, decidiu passar na tal padaria do Sam próxima à NYFA, afinal de contas ficava no caminho para chegar em sua casa.

Sentou-se em um sofá encostado na parede após comprar seu cinnamon roll e café mordiscou o alimento, e ela não estava errada. Era realmente bom. Ainda sem conseguir parar de pensar nela, tirou uma foto do seu café e cinnamon roll e enviou no perfil do instagram, decidindo que voltar a entrar em contato no dia seguinte não era tão mal assim.

edwardmasenoficial: correndo o risco de ter você achando que sou um stalker, decidi passar aqui porque não dava mais, estou desde ontem pensando de forma obcecada nessa comida, bella. hahaha

edwardmasenoficial: se estiver pela área, e quiser, passa aqui.

A segunda mensagem foi enviada alguns minutos depois, quando ele já estava quase terminando de comer.

imswan: sinto muito, Edward, hoje eu realmente não posso. espero que ele tenha te feito tão feliz quanto me faz. ;)

Respondeu minutos depois da foto chegar. Não é como se ela não quisesse, mas ela realmente não podia e sabia que seria rude chegar na padaria e não dedicar o mínimo de atenção para ele.

edwardmasenoficial: me fez. agora eu entendo o porquê você não para de sorrir.

imswan: não paro, é?

edwardmasenoficial: sorte sua que é bonito.

imswan: o cinnamon roll ou o sorriso?

edwardmasenoficial: os dois. deve ser uma visão à parte te ver comendo um deles porque eu tenho certeza que seria algo assim:

Ele tirou uma selfie segurando o último pedaço do alimento em frente à sua boca, enquanto sorria de forma ampla, e enviou para ela.

imswan: nossa não faz isso que meu coração não aguenta.

edwardmasenoficial: você está falando do cinnamon roll não é?

imswan: hahahahaha

edwardmasenoficial: tudo bem, eu entendo. Ele vale a pena.

imswan: queria 💔.

edwardmasenoficial: vem cá.

imswan: queria 💔. rs

imswan: estou saindo agora para fotografar um ensaio de bebê – me deseja sorte.

edwardmasenoficial: boa sorte, bella. Obrigado pela indicação. Certeza que vou bater ponto aqui – acho até que vou fazer carteirinha de fidelidade.

imswan: ELES TEM ISSO AÍ?!

edwardmasenoficial: eita.

Bella, sorrindo, respondeu com um emoji de piscadinha e guardou seu celular na bolsa. Deu um grande trago no seu cigarro enquanto se apressava para a estação de metrô mais próxima. Jogou o cigarro fora e respirou fundo, preparando-se para uma semana lotada de afazeres, conforme era indicado pela sua agenda no celular.

Edward terminou de comer seu pão - e comprou outro para viagem - e aproveitou para caminhar pela região. Ele geralmente tirava as segundas e terças feiras de folga, e como nunca tinha, de fato, explorado aquela parte do seu bairro aproveitou para caminhar.

Bella era uma incógnita. Ele não fazia ideia de como interpretar as suas ações, tampouco como agir, mas sendo sincero, ele estava bastante interessado para a desvendar.


Nota da autora: Essa não é uma fic pra euchloeless (Clo). Você sabe o porquê – pra além das sugestões de imagens e músicas que inspiraram essa história – então não vou me demorar nisso. Mas espero que isso faça seu coração quentinho – e o de todo mundo que está lendo, porque essa não é uma fic para a Clo.

Akssa, anja, obrigada por corrigir, aconselhar e apoiar. Você é 10/10.

OhCarol obrigada pela capa – to até agora apaixonada.

Se tiverem twitter apareçam por lá e me dê um oi (lou5858_)

Me digam se gostaram :)

Músicas mencionadas:

Maroon 5 – Bet My Heart

Lee MacDougall – Falling in Love for the Last Time


1 Gig é a palavra que musicistas usam para se referir à "trabalho" (eu sei, tudo maluco).

2 Pocket show tem como tradução literal "espetáculo de bolso", e no ramo musical quer dizer um pequeno show para um público não tão grande. Geralmente é acústico e tem a característica de ser intimista.

3 Lista de músicas a serem tocadas no ao longo do show

4 É aquele timbre meio sujo, rasgado. Típico de cantores de rock.

5 Significa, em inglês "Extended Play Record". É uma gravação que contém mais do que apenas uma música, mas não é um album.

6 Um pão doce, em formato de caracol, recheado de açúcar e canela. Geralmente vem com uma cobertura de creamcheese e açúcar