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Pedido Urgente

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O barro derrapante dificultava seus movimentos precisos, fazendo necessário o dobro de sua atenção para executar seu escape. Não bastasse sentir seus pés deslizando de momentos em momentos na úmida terra escorregadia, também não conseguia enxergar muito além através das folhas enormes que pendiam dos galhos tremulantes das árvores. Era noite, e havia uma densa neblina encobrindo seus passos e também os passos deles.

Era dois, tinha certeza.

Sua respiração estava acelerada, fruto das pílulas do soldado que havia consumido pouquíssimas horas antes e que ainda faziam efeito em seu corpo debilitado. Ainda conseguia executar seus movimentos numa velocidade aceitável para alguém com sua fama, mas não era como se estivesse realmente consciente do que estava fazendo. Seu corpo se movia por instinto, quase como se pudesse sentir a floresta sob seus pés e ao mesmo tempo como se ela sequer existisse.

O sangue escorria em sua roupa negra, a máscara estava rachada, seus protetores destruídos.

Entretanto, não pensou muito. Continuou correndo, porque era a única que podia fazer naquele momento, afinal, tudo havia dado errado naquela missão, fazendo com que seu time de apenas três pessoas tivesse que se separar às pressas para terem uma pequena chance de sobreviver contra os vinte shinobis de Iwagakure.

Qualquer outro ninja diria que tinha sido uma missão suicida, mas era justamente esse tipo de missão que lhe trouxe à fama. Sempre conseguiu completar suas missões com exímio, ainda que uma ou duas coisas dessem errado no meio do caminho. Perdeu a conta de quantas vezes escapou da morte, e talvez fosse apenas sorte, mas ninguém sobrevive tanto tempo apenas com isso no seu ramo de trabalho.

Saltou uma rocha grande, subiu por uma árvore mais alta para tentar desviar seus perseguidores. Pulou entre os galhos, e por mais que sua perna estivesse queimando em dor, os efeitos da pílula misturados à adrenalina impediam que sentisse qualquer incômodo real. Conseguiria correr dias sem sequer notar que estava perdendo muito sangue.

Desceu girando, escorregando pelo declive. Lama, musgo e vermes se juntavam ao sangue e suor, mas ninguém estava se importando com aquilo. Beleza e higiene pessoal não eram coisas com as quais ninjas de sua patente se preocupavam, e por isso apenas voltou a correr quando seus pés atingiram o chão plano, dessa vez numa área menos densa, com uma trilha bem marcada.

Seria idiotice seguir por uma trilha durante uma perseguição, mas resolveu arriscar sabendo que haveria um punhado de casas abandonadas logo a frente, o terreno perfeito para uma brincadeira de gato e rato. É verdade que lugares fechados até eram um problema para o seu estilo de combate, mas naquela noite era importante não causar alvoroço, afinal, os vinte ninjas poderiam se transformar em cinquenta já que aquele era o território deles.

Tudo o que precisavam fazer era coletar um pergaminho com informações sobre a três caudas. No documento havia um extenso estudo sobre o chakra da bijuu, suas propriedades, poderes, informações sobre os jinchuurikis passados, os selamentos que foram utilizados... Coisas que Konoha precisava saber para se preparar, ou talvez executar algum plano maior.

Tanto faz.

Não era sua função pensar no que a Divisão de Inteligência fazia com as informações que conseguia. Sua função era meramente operacional, e pensar só era cabível quando precisava formular um jeito de se infiltrar no acampamento dos ninjas inimigos, ou quando seu plano falhava, fazendo o improviso algo necessário. Naquele momento, estava improvisando.

Seu time também improvisou quando resolveram queimar tudo, já que perceberam que jamais conseguiriam pôr as mãos naquele pergaminho, e como todo bom ninja sabe: Se não conseguir recuperar a informação, então a destrua. Foi lindo quando triangularam o terreno, selando as adjacências para garantir que todos ficassem dentro da caixa. Paredes invisíveis subiram e aquele seu colega com a máscara de pássaro usou uma das maiores bolas de fogo que um dia já viu.

Ou talvez fosse efeito da pílula do soldado.

Tanto faz.

Parecia grande o suficiente, enorme. Ouviu os gritos histéricos enquanto tudo pegava fogo. Papéis, barracas, alimentos, armas, pessoas... As chamas crepitavam, mas ninguém ouvia. Tudo dentro das paredes do selo não podia ser sentido, principalmente quando tinha colocado um genjutsu tão poderoso para encobrir a operação e garantir que só aqueles muito próximos do acampamento conseguiriam se dar conta do que realmente estava acontecendo.

Mas os ninjas de Iwa não era todos idiotas e os patrulheiros ao redor notaram algo estranho. Do nada haviam vinte ninjas ali e o trio de Konoha saiu correndo. O Hyuuga do seu time confirmou, antes de fugir, que o pergaminho havia virado cinzas, assim como a menina que o guardava no compartimento de seu colete.

Missão cumprida.

Gostaria de dizer que havia fugido e apenas isso, mas houve uma luta antes, é claro. Conseguiu se livrar de uns cinco de maneira muito discreta, mas ainda faltam dois do seu lado que a seguiram durante a fuga, e por conta disso, naquele momento se enfiou numa daquelas casas abandonadas, escorando-se na parede de madeira mofada enquanto sua respiração praticamente se anulava. Precisava de silêncio, porque naquele momento, a audição era seu sentido mais importante.

Atentou-se aos sons enquanto colocava a mão dentro da cartucheira, verificando o que havia sobrado do seu arsenal.

Uma shuriken, uma senbon, e duas pílulas do soldado.

Não era promissor.

Se manteve na mesma posição por alguns longos minutos, seu coração batendo ritmado de maneira lenta, quase como um animal se preparando para o bote. Levou a mão para o cabo da lâmina curta embainhada nas suas costas, segurando firme enquanto olhava discretamente através de sua máscara pela fresta minúscula da madeira destroçada. Viu a noite misteriosa, e o fogaréu longínquo onde uma vez havia um acampamento.

Finalmente o fogo tinha atingido o selo e as paredes invisíveis tinham sido desfeitas.

Logo o cheiro intenso do incêndio atingiria todo o perímetro, mas isso não era problema seu.

Não...

Seu problema surgiu quando o teto quebrou e o ninja pulou a sua frente, bradando a katana que segurava com ferocidade para encerrar aquela perseguição antes que pudesse se tornar uma luta, falhando miseravelmente em seu objetivo.

Se jogou para o lado com velocidade enquanto a katana do ninja de Iwa destruía a madeira podre com ruído alto. Se olharam, o verde brilhando através do furo preciso da máscara de gato lascada, e a mulher finalmente puxou sua própria lâmina nos poucos segundos que se encararam e foi quando o ninja arregalou os olhos reconhecendo aquela figura magra em roupas pretas e colete cinza. Todos conheciam a ninja ANBU de Konoha com a máscara de gato e olhos verdes que carregava uma tantō de empunhadura rosa.

A flor da morte.

Não teve sequer tempo para pensar se deveria ou não fugir, porque a lâmina da mulher rasgou o ar num salto brilhante diretamente para o seu pescoço. O homem reagiu por reflexo, levantando a katana para defletir o golpe, mas a mulher era uma louca e no momento que as lâminas se chocaram, a explosão se fez.

É claro...

Ele foi jogado para fora do local, batendo com as costas na madeira da casa do outro lado da estrada de barro. Praguejou pela dor repentina, mas antes que pudesse se recompor, lá estava o brilho verde sombrio daqueles olhos de bola a centímetros dos seus, e ali ele soube que seu destino estava selado.

Mas não pelas mãos dela.

Do mesmo jeito que entrou no seu campo de visão, a mulher sumia de sua frente, restando apenas a dúzia de shurikens que viajavam através do ar na sua direção. Fechou os olhos antes de sentir a lâmina rasgando sua jugular, e depois não sentir mais nada.

O outro ninja finalmente chegava ao local, mas uma luta de um versus um não era um desafio para a mulher, que logo se jogou contra ele com uma série de golpes. O recém chegado à festa usava uma kunai para se defender, e lutava um pouco melhor do que o outro, com movimentos mais precisos e desvios sincronizados, o único problema dele era que ela era melhor.

Não demorou muito para acertar uma joelhada no estômago, fazendo seu oponente curvar-se com a dor que fazia o ar esvair de seu corpo, e em menos de um segundo, o cotovelo dela o acertava na nuca, despencando o corpo no chão em agonia.

Para a maioria dos ninjas, a luta poderia ter sido encerrada ali.

Mas não para ela.

Nas suas missões, era importante amarrar todas as pontas, mas ela não precisava sujar sua tantō com isso. Não... A embainhou nas costas e levantou seu pé apenas o suficiente para ficar centímetros acima da cabeça do homem, abaixando com certa displicência. O chakra mínimo daquele não-golpe foi o suficiente para que, quando entrasse em contato com o homem, fizesse sua cabeça quebrar como se fosse uma abóbora.

Olhou na direção do fogaréu se deparando com o céu em chamas e a fumaça cobrindo a floresta antes de dar as costas e continuar seu caminho até a fronteira, retornando em velocidade para o acampamento móvel de onde tinha vindo, já que logo toda a corja de Iwa estaria em peso procurando pelos invasores de Konoha que se escondiam na vegetação densa.

Saltou pelos galhos de maneira discreta, tomando cuidado para não fazer mais ruído do que o necessário enquanto escondia seu chakra exemplarmente. Ainda se sentia tão focada, como se sua mente estivesse num estado de mania onde a única coisa que conseguia pensar era em escapar daquele lugar escuro, úmido, quente, sufocante... Era assim que se sentia, de repente, no meio de todas aquelas sombras disformes que as folhas produziam no meio da noite, além dos ruídos desordenado dos animais em fuga que rastejavam, trotavam, rugiam e berravam.

Começou a ofegar.

Estava sendo perseguida, ela tinha certeza apesar de não haver nenhum sinal de que isso estava acontecendo. Segurou a tantō firmemente enquanto forçava seu corpo cada vez mais veloz através das árvores e o sentimento de que os seus inimigos estavam por perto se intensificava. Iria morrer, com certeza. Finalmente sua hora chegava.

Foi quando desceu das árvores diante do descampado que se iniciava próximo às margens de um longo riacho. Olhou para os lados sentido o calor de sua respiração encontrar a rígida máscara antes de se esvair pelas laterais. Seus olhos ardiam, mas ela não piscou. Cautelosa, como um animal assustado, ela se jogou para fora da floresta, correndo para o outro lado do rio enquanto temia pela própria morte.

Quando atingiu o outro lado, correndo para adentrar o outro pedaço de floresta, sentiu algo tocar seu ombro. Virou-se num movimento instintivo, a lâmina de sua tantō sibilando com o girar agressivo, e mesmo nas sombras, ela pôde ver o sangue escarlate brilhar ao escorrer pelo pescoço do homem.

Era o Hyuuga.

Desencostou a lâmina do peito dele imediatamente enquanto o ouvia produzir ruídos indistintos – por sorte, não o havia matado.

Ele não conseguia respirar, não conseguia falar... Estava perdendo sangue em cascatas pelo corte quase fatal que recebera. A mulher na máscara de gato guardou sua lâmina antes de fazê-lo deitar. Era perigoso ficar ali, mas se o levasse para qualquer outro lugar, ele não resistiria. Tinha que cuidar daquilo rápido. Rasgou a roupa dele, tentou limpar aquele local como podia, usou aquela única senbon que para fazer uma emenda, tornando a respiração um pouco mais fácil e então começou a curá-lo com chakra, do jeito que toda boa médica de combate faria.

O problema é que ele continuava fazendo barulho ainda que ela pedisse silêncio, e a dor dele era tão intensa que se debatia de tempos em tempos, além disso, um ferimento daquele tamanho levaria tempo demais para ser estabilizado, talvez ele sequer sobrevivesse quando precisasse movê-lo para o acampamento, e além disso... A floresta estava bem viva, cheia de tudo quanto é perigo.

Devia matá-lo, ela sabia.

Mas aquela voz na sua cabeça gritou, com todas as forças, que ela precisava curar o maldito Hyuuga! Que caso não fizesse aquilo, então não poderia se considerar uma verdadeira médica. Como as pessoas confiariam nela? Como ela confiaria em si mesma se não pudesse fazer um único salvamento? Como uma médica poderia matar mais do que curar?

De repente, o chakra se acumulou se acumulou em excesso e percebeu que estava fritando a pele dele quando os ruídos de dor se intensificaram. As mãos dela tremiam, mesmo assim ela não parou. Atentou-se ao controle refinado de seu chakra, corrigiu aquela pequena alteração causada pelo simples desestabilizar de seu emocional. Patética... Pensou enquanto engolia a seco, séria.

Foi quando o rapaz Hyuuga apontou para o lado.

Alguém se aproximava.

Se olharam através das máscaras, os verdes encontrando os perolados.

Não!

Essa gritou num sussurro, mas se ele tinha ouvido, ela jamais saberia.

O Hyuuga cumpria o protocolo, matando a si mesmo com aquela mesma senbon que ela usou para tentar salvá-lo.

Ficou parada, olhando para o corpo morto logo abaixo sem reação. Quantas vezes já tinha presenciado aquela mesma cena? As pessoas tirando suas próprias vidas em nome da Vontade de Fogo?

Sua mão continuava tremendo enquanto o pensamento dela girava. Ela nem sabia o nome dele, nunca tinha visto seu rosto, só sabia que ele era um Hyuuga porque era importante para a missão. Se ele tinha mãe, pai, filhos... Ela não sabia. Não importava. Nada importava.

Exceto sua kekkei genkai.

E só por isso a mulher retirou a máscara dele, apressada, e enfiou ambos os polegares nos olhos dele, os destruindo antes de se embrenhar floresta adentro novamente. Antigamente, esse tipo de procedimento não era necessário para os Hyuugas, porque eles eram tão precavidos que o batizavam todos da ramificação secundária com um selo que anulava sua kekkei genkai no ato da morte, mas a doce princesa Hyuuga tinha mudado as coisas, e agora Sakura tinha a genética do byakugan sujando suas mãos.

Correu novamente, embrenhando-se na floresta e deixando para trás o corpo do seu, até então, companheiro shinobi que havia se sacrificado não apenas pela missão, mas também por ela, afinal, foi para que ela escapasse com vida que empurrou aquela senbon contra sua garganta de maneira descuidada, engasgando até a morte.

Mais uma vez, Sakura era a médica que não conseguia salvar ninguém.

Médica de merda.

Por baixo da inexpressiva máscara de gato, o lábio da mulher tremia. Sua respiração cada vez mais intensa, frenética, enquanto seus olhos pareciam sofrer um atraso para enxergar as coisas com nitidez. Se sentia claustrofóbica no meio daquelas sombras disformes e ruídos que soavam indistintos em sua mente confusa. Estava irritada, desestabilizada, e seu corpo insistia em continuar naquela corrida desenfreada na direção do acampamento, porque se havia algo em que ela era boa, esse algo era se manter viva.

Enfiou a mão na cartucheira sem importar-se em sujar tudo com os restos do Hyuuga, içando aquela bolinha não tão pequena que estava bolando pelo movimento intenso de suas pernas. Pílula do Soldado. Enfiou na boca por baixo da máscara, e como num passe de mágica, tudo voltava a ser como sempre fora.

O foco, a destreza... A floresta parecia até um pouco mais iluminada, e a morte do companheiro de time já não era uma questão rondando sua mente, e só por conta disso conseguiu correr até o amanhecer sem descanso, chegando finalmente ao acampamento móvel que era camuflado por um jutsu colaborativo.

Passou pela barreira com passos firmes. Sequer sentia algum cansaço. Sua respiração regular a fazia parecer alguém sobre humana, mas a sujeira nas vestes evidenciava o quão caótica tinha sido àquela noite. Seria justo pensar que logo alguém apareceria para tomar conta dela, cuidar de suas feridas, trazer água e comida, lhe dar algum conforto... Seria justo, mas ninguém ali se preocupava com isso.

— Então você voltou.

A voz do homem soou indiferente, como sempre. Vestido no uniforme padrão da ANBU, com a máscara de raposa cobrindo seu rosto, os fios alaranjados escapavam do capuz, mas a mulher sequer notou quando parou na frente dele. Estava fedendo, completamente suja, e havia algo errado com seus olhos, que não conseguiam se adaptar ao excesso de luz que o sol trazia.

Mas o capitão jamais perceberia.

Ou melhor, ele não se importaria.

— Cadê o pergaminho?

— Não conseguimos recuperar, mas conseguimos destruí-lo.

Não só ele, pelo visto. – Retrucou com deboche, mas não parecia uma reprimenda, e mesmo que fosse, Sakura não estava em condições de distinguir ou importar-se. — Conseguiu alguma informação relevante, pelo menos?

— O pergaminho ia ser vendido a alguém chamado Kabuto nos arredores de Amegakure, iam mandar um grupo ainda na noite passada, e aparentemente há alguma ligação entre essa pessoa e os Uchiha.

— Certo – O capitão assentiu com a cabeça como se pensasse em alguma coisa, mas então continuou — E os outros dois?

— O Hyuuga tá morto, eu cuidei dos olhos dele. O outro eu não sei.

— Deve ter morrido também. – Deu os ombros — Vamos esperar por mais quatro horas. Se ele não aparecer, seguiremos viagem. – Falou para ninguém em especial.

— Vou me preparar para ir a Ame. – A mulher disse fazendo uma reverência em respeito, mas levantou-se rápido quando o capitão se pôs a falar novamente.

— Essa operação não é mais problema seu, kunoichi. – Disse sem alterar seu tom ainda indiferente, e antes que Sakura pudesse sequer questionar, o homem continuou — O Hokage tem outros planos para você.

Franziu o cenho, mas ele certamente não viu, e se tivesse visto, certamente não teria se importado. O filho da puta não se preocupava com nada aparentemente, nem mesmo quando o caso era abrir a correspondência dos outros – e por correspondência, deve-se entender aquele pedaço minúsculo de papel que veio preso na garra de algum pássaro treinado.

Soltou o ar quando leu a única linha: Volte urgente para Konoha.

Ergueu a cabeça atordoada. Virou para um lado, aquele lado onde o fogo ainda se alastrava indomável, e depois para o outro, na direção de onde encontraria Konoha se corresse por alguns dias direto. Abaixou a cabeça novamente olhando aqueles minúsculos dizeres, e depois para a direção de onde ficava Amegakure.

Sasuke podia não estar naquela direção, mas certamente alguém que sabia seu paradeiro estava por lá e aquela era a sua melhor pista em anos, que nem era tão consistente assim, mas era a única que tinha, e ela queria ir até lá. Ela precisava ir até lá.

Amassou o papel em suas mãos, porque um chamado tão direto como aquele não podia ser ignorado, principalmente quando a palavra urgente se fazia presente de uma maneira tão categórica.

Naruto estava em perigo?

Ino?

A vila?

O que tinha acontecido?

Começou a hiperventilar enquanto as imagens do pior preenchiam a sua mente.

Será que Sasuke havia aparecido por lá? Será que tinham levado Naruto? Algo aconteceu com Ino?

— Quem vai?

Ela perguntou num tom alterado, quase como se estivesse vendo fantasmas. Olhou para o capitão em seguida, vendo a máscara de raposa se projetar em sua direção, e mesmo sem poder ver qualquer expressão naquilo, ela sabia que ele queria rir. Ninguém fazia uma pergunta como aquela porque sabia que não obteria nenhuma resposta.

— Quem vai ser mandado a Ame?

Repetiu de forma mais presente, virando seu corpo com mais hostilidade. Ouviu o homem rir brevemente, e sabia que a graça estava no fato de ela não saber o nome de ninguém ali. Talvez nem o próprio capitão soubesse, mas o que ele sabia é que a kunoichi a sua frente não estava em seu estado normal. Quantas pílulas do soldado ela tinha consumido nas últimas vinte e quatro horas? Ele não fazia ideia, mas pelo jeito que seus dedos espasmavam, ele diria que talvez umas seis, e não importava o quão controlada ela fosse, ninjas sobrecarregados com aquilo tendiam a ser explosivos.

E esta era Haruno Sakura.

One Punch Sakura.

Só por isso, ele resolveu falar.

— A missão vai ser passada para o esquadrão 9. Você vai pra casa, e nós vamos retornar para o posto avançado norte.

Esquadrão nove...

Shisui.

...

Assentiu com a cabeça antes de virar-se. O capitão deu os ombros vendo-a ir em direção às caixas de suprimentos, enfiar a mão numa delas, pegar um punhado daquelas bolinhas marrons e enfiá-las na cartucheira sem o menor cuidado antes de simplesmente sair correndo na direção de Konoha.

Riu.

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Era sete e quinze da noite quando viu os muros altos da Vila da Folha. Circundou o perímetro com atenção redobrada, percebendo uma calmaria que soou estranha aos seus ouvidos. Subiu a ladeira suave, chegando ao topo do Monumento Hokage pela área externa, rastejando na pedra avermelhada para observar a área urbana logo abaixo, encontrando nada além do cotidiano comum de Konoha.

Estreitou os olhos em confusão. Tinha que haver algo errado, afinal, o Hokage não a chamaria urgentemente caso não houvesse alguma coisa urgente acontecendo.

Pulou furtiva para dentro da vila, correndo pelos telhados como se tivesse patas almofadadas que jamais produziriam algum barulho. Não se atentou ao clima, sequer notou se ventava, mas viu a luz amarelada dos postes passando rapidamente pela sua visão periférica, causando um piscar irritante de um brilho ofuscante que lhe atordoava. Precisava parar, mas não o fez. Se sentia, de repente, enjoada, mas não parou até alcançar a Torre Hokage.

Num salto, usou chakra para se pendurar na parede ao lado daquela janela enorme que dava vista para toda a vila. Do lado de dentro, o escritório de Hiruzen jazia escurecido, com as luzes apagadas, os papéis organizados na mesa de madeira, com a pena pousada metodicamente ao lado do tinteiro. Tudo parecia na mais perfeita harmonia, com as estantes de arquivos bem organizadas, a planta solitária que precisava ser regada, os quadros ornados que exibiam as fotos do Primeiro e Segundo Hokage... Tudo como deveria ser.

Mas Sakura franziu o cenho.

Não estava satisfeita.

Sentia com todos os pelos do seu corpo que havia algo muito errado, e podia não ser na Torre Hokage, mas com certeza, em algum lugar daquela vila, havia uma situação de urgência que apenas ela poderia lidar.

Ofegou com o lábio trêmulo, recusando a visão de um Naruto debilitado. A lógica a levava para o hospital, mas seus pés fizeram um outro caminho. A vila ainda era a mesma de quando a deixou, anos atrás. Só precisava pular alguns telhados, desviar daquelas janelas, se jogar contra o vento frio que não a acertava, ignorando o enjoo que as luzes lhe causavam, e o tremor de seus dedos que se recusavam a se acalmarem.

Tentou umedecer os lábios rachados, mas sua boca estava tão seca que até o passar automático de língua parecia uma agressão. Não lembrava quanto tempo fazia que não tomava água. Não se importava. Esgueirou-se pela varanda do prédio que parecia uma caixa de sapatos, no andar superior onde sabia que ele morava. A espreita, alcançou a porta, o coração falhando quando percebeu estar destrancada. Abriu com cautela enquanto sua mão se movia até o cabo da tantō, seus olhos analisando o local que parecia em perfeita desordem.

A desordem natural de Naruto.

O apartamento era menor do que ela se lembrava, ou talvez fosse o sentimento de que estava enclausurada que estivesse prejudicando suas memórias, mas mulher ofegava a cada passo que dava, a cada coisa que encontrava, arregalando os olhos com atenção ao alcançar o quarto dele e entrar, o encontrando ali, roncando enquanto segurava aquele recipiente vazio do ramen.

Céus...

Os ombros relaxaram de sua tensão enquanto que, de repente, se sentiu cansada de um jeito anormal.

Mirou Naruto por um longo momento, que estava escorado na parede que ficava colada a cama, os pés esticados, equilibrando o recipiente vazio ao segurá-lo de maneira desleixada com apenas uma mão. A cabeça pendia ao passo que o ressonar profundo produzia um ruído quase engasgado. Vestia uma camiseta branca e parecia ter tomado um bom banho.

Apesar da posição, Naruto parecia relaxado.

Parecia bem.

Não demorou para chegar à conclusão de que ele havia retornado recentemente de alguma missão, afinal, a mochila aberta escorada no canto do quarto revelava itens que ainda não haviam sido guardados depois de uma longa viagem. Sorriu por baixo da máscara de gato que usava, aproximando-se com passos miúdos na direção dele apenas para tirar-lhe aquele recipiente da mão.

Quanto tempo fazia que não via Naruto?

Cinco... Seis anos?

Ele parecia tão mudado com aquele cabelo mais curto, mas a expressão relaxada a fazia lembrar daquela época em que ele sempre acabava dormindo nos turnos que deveriam ser sua vigília noturna. O idiota não era mais aquele garoto chorão, certamente. Isso já era de seu conhecimento a muito tempo, mas vê-lo assim, tão perto, tão... pequeno... a fazia pensar sobre todas aquelas coisas que aconteceram entre eles.

Entre ela, ele e Sasuke.

Se afastou com delicadeza, colocando o recipiente do ramen em cima daquela mesa de cabeceira abarrotada de bugigangas e se dirigiu até a porta do quarto, quando o olhou mais uma vez por cima do ombro, seu olhar atravessando as pequenas aberturas da máscara de gato. Ficou ali por um longo momento até sentir-se urgente em escapar daquele local, desligando a luz antes de sair furtiva.

Agarrou-se a grade de proteção da varanda do prédio, arfou com intensidade sentindo o hálito quente atingir seu rosto sem ter nenhum lugar para se esvair. Haviam muitas luzes ali, e pessoas transitavam abaixo de si, sorrindo, de mãos dadas, conversando animadas sobre qualquer coisa indistinta aos seus ouvidos. O olhar verde se perdeu diante dos estímulos noturnos de Konohagakure. Mirava os prédios pequenos, as cores escurecidas pela iluminação pobre, as pessoas rindo alto, cochichando, praguejando... Árvores, mosquitos, folhas secas, concreto, telhas, vento, frio, náusea, dor, angústia...

Puxou a máscara com rapidez, curvando seu corpo para colocar o que não tinha no estomago para fora. Vomitou, sentindo-se fraca. Ajoelhou-se ali, deixando a bile sair pela sua boca num gosto ácido e amargo enquanto seu corpo espasmava fraco com os movimentos involuntários do estômago. Tossiu algumas vezes antes de levantar cambaleante, enfiando a mão na cartucheira apenas para perceber que não havia mais nenhuma daquelas pílulas do soldado.

Merda...

Recolocou a máscara de gato em seu rosto, e mesmo fraca, saltou dali a tempo de evitar ser vista pelo morador do apartamento logo a frente, que acordou assustado pelo barulho da tosse, correndo para se deparar apenas com aquele líquido amarelado de cheiro forte, amaldiçoando o infeliz que havia deixado aquele presente ali.

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— Mãe, por que eu tenho que dormir tão cedo? – Ele choramingou com uma careta enquanto subia na cama a contra gosto.

— São nove horas, querido. Não é cedo para uma criança. – Respondeu enquanto puxava aquele cobertor grande com shurikens desenhadas — Meu pai, na época, me fazia dormir às sete. Sinta-se vitorioso.

— Mas você não é seu pai... E eu não sou você.

— E por isso que você dorme às nove, e não às sete! – Ela riu passando a mão nos cabelos dele depois de coloca o cobertor por cima do pequeno corpo do rapaz — Amanhã você tem aula, então precisa descansar.

— Eu não quero ir pra aula... – Disse com um muxoxo. — Eu aprendo muito mais quando passo o dia com o Tio Shikamaru! Não posso ficar com ele?

— Inojin, eu não duvido que você aprenda mais com o Shikamaru, mas ele não tem autoridade para te graduar – Disse num tom didático — Quem tem é o Shino, então vá para a academia, se gradue, e aí use esses seus olhos de cachorro pidão para pedir ao Shikamaru que te treine – Completou com humor.

O garoto suspirou.

— Eu te amo, querido. Boa noite! – Disse beijando sua testa antes de sair do quarto brevemente iluminado por um abajur de luz fraca no canto.

Enquanto descia as escadas, a mulher passou a mão pelos cabelos longos, presos num rabo de cavalo que ia até quase o meio de suas coxas, sentindo a textura macia da hidratação que havia feito ontem. Manter o cabelo brilhoso e sedoso era sua principal religião, depois disso vinha as unhas bem polidas, e claro, o skin care em dias.

Alcançou a cozinha, que estava uma zona de guerra. Tinha inventado de assar biscoitos com seu filho naquela noite, e agora tinha tigelas, farinha, açúcar e todos aqueles ingredientes espalhados pelo balcão espremido entre o fogão e a geladeira. Saiu catando tudo, o que precisava lavar ia direto para a pia, guardando o que deveria ser guardado, colocando prendedores nos sacos abertos.

Brincar com seu filho era ótimo, mas a sujeira na cozinha a fazia pensar cinco vezes antes de sugerir qualquer atividade que envolvesse culinária. No entanto, naquele dia, seu filho queria muito fazer biscoitos, e isso tudo porque Shikamaru tinha aberto aquela boca enorme para dizer que estava com saudades da época em que ela sempre lhe dava um pote cheio daqueles sabor gengibre e canela.

O que ele não disse a Inojin era que os biscoitos eram sempre feitos pela sua mãe, e que a culinária de Ino se resumia a boa comida do dia-a-dia. Ela não era o tipo que assava bolos e biscoitos, mas diante dos olhos pidões de seu único filho, que idolatrava o preguiçoso número um da Vila da Folha, a mulher apenas cedeu e abriu aquele velho caderno de receitas para fazer um pote cheio de biscoitos.

E Shikamaru que lhe devesse mais essa.

Depois de colocar a última louça no escorredor, Ino abriu a geladeira em busca daquela garrada solitária de saquê que escondia atrás das alfaces. Tomou apenas um gole. Sabia, como uma boa degustadora de álcool, que deveria ter aquecido a bebida até, mais ou menos, os 40 graus, mas estava tão cansada, que apenas bebericou direto da garrafa gelada e se permitiu sentir o sabor suave descendo pela sua garganta.

Não era alcoólatra.

Longe disso.

Mas, às vezes, em noite como aquela onde Inojin a fazia lembrar de coisas que ela não queria lembrar, Ino tomava um gole de saquê antes de pegar aquele velho porta retrato no aparador da sala com a foto do time 11. Chouji adorava aqueles biscoitos também. O gorducho não dispensava um. Riu baixo, deixando o ar escapar antes de colocar a fotografia no lugar, seus olhos pendendo nas outras fotos que jaziam pacíficas no móvel.

Seus pais sorriam, assim como Inojin, um bebê, dormia fofinho sem imaginar que estaria sendo registrado para toda a eternidade. Também havia ela, linda como sempre, ao lado de Tenten na volta daquela primeira missão que fez sem o seu time. Adorava aquela foto onde estava ao lado de Shikamaru, ambos adultos, e ele sorria com um buquê de flores na mão.

Era uma das poucas fotos em que Shikamaru estava sorrindo e feliz.

Ah, as lembranças...

Tão serenas. Tão tristes.

Confortáveis, de alguma maneira.

Seguras, em alguma medida.

O que é conhecido sempre é mais seguro, Ino sabia, e só por isso tomou um susto quando escutou o ruído abrupto das batidas em sua porta. Franziu o cenho, usando seu chakra para determinar quem diabos estava causando alvoroço na entrada de casa enquanto fazia o seu caminho até lá sem conseguir captar qualquer sinal. Quem quer que fosse, era alguém perigoso, que tinha tamanho refinamento de chakra a ponto de fazer Ino forçar seu jutsu para perceber, finalmente...

— Sakura!

Abriu a porta rapidamente para se deparar com a máscara de gato lascada e o fedor de alguém que tinha as vestes sujas por todo tipo de coisa que poderia ser encontrada em uma batalha e em uma floresta. A mulher no uniforme tremia em espasmos, sentindo calafrios pelo corpo todo enquanto a respiração desregulada a fazia produzir ruídos estranhos.

Ino ergueu a mão, completamente atordoada, para tirar lhe a máscara que cobria sua face, sendo interceptada no caminho com um segurar firme de alguém instável. Sakura apertava o braço fino de Ino com força, os olhos verdes brilhando em perigo através dos pequenos orifícios do material rígido privava a loira de ver o quão deplorável estava.

Ficaram paradas por um longo segundo, Ino sentia a vibração errante do corpo de Sakura através dos tremores incertos do seu corpo. O que merda tinha acontecido?

— Sakura – Disse depois de um momento, num sussurro sério e cauteloso — Sou eu, Ino. Você lembra, não é? – Perguntou engolindo a própria saliva sem conseguir medir o efeito de suas palavras na mulher a sua frente — Você é minha melhor amiga, Sakura. Eu acho que sou a sua também, então... Sakura, eu não vou te fazer mal.

Não sabia dizer se a mulher estava lhe escutando, mas depois de um momento, viu o breve acenar de cabeça enquanto a mão afrouxava seu aperto. Ino soltou o ar sem saber que o segurava.

— Eu vou tirar sua máscara agora, certo? – Perguntou porque era importante não fazer movimentos que ela considerasse hostil. Sabia que a amiga só precisa de um soco para tirar a vida de alguém, e naquele estado em que se encontrava, Sakura não saberia diferenciar um gesto hostil de algo inofensivo.

Viu a cabeça balançar positivamente num gesto mínimo.

Ino ergueu as mãos levando-as lentamente para o rosto da mulher, tocando as laterais da máscara de gato antes de puxá-las para cima, revelando os olhos avermelhados e fundos, fixos num ponto. O verde era opaco e sua expressão era débil. Sakura parecia receosa, desconfiada, quase como se estivesse esperando algo acontecer subitamente. Virou o rosto de supetão, olhando atentamente para o vento forte que entrou pela fresta de uma janela, balançando a cortina com mais violência.

— Sakura, você está segura, ok? Entre. – Disse dando um passo para trás, escorregando sua mão pelo braço da outra ate alcançar-lhe a mão enluvada. Apertou-lhe os dedos suavemente, recuperando a atenção da amiga que a olhou, ainda parecendo atenta demais. — Entre. – Reforçou, recebendo aquela confirmação muda outra vez.

O primeiro passo que a kunoichi deu foi estranho aos olhos de Ino. Parecia área apesar de seus olhos estarem focados demais. No segundo, percebeu que a amiga mancava, mas aparentemente ela não notava o corte que supurava enquanto girava seu rosto para registrar todos os cantos da casa que ela já conhecia de outros carnavais. A residência dos Yamanaka não havia mudado tanto assim, mesmo que os anos tenham passado.

A guiou pacientemente até o banheiro, deixando que Sakura avaliasse a casa do jeito que queria, olhando para as fotos por um longo momento, dando passos incertos enquanto se pegava fitando o pote de biscoitos. Sakura fedia como se não visse água a meses, e aquela roupa precisa ser queimada porque não havia salvação. Uma vez no banheiro, Sakura ficou perfeitamente parada para que a loira a despisse.

— Inojin?

Ino ergueu a cabeça, girando seu olhar até a porta do banheiro e depois para Sakura, que falava com aquela voz confusa.

— O que?

— Onde tá o Inojin?

Ino sorriu.

— Tá na cama. Ele dorme cedo. – Falou um pouco mais normal, porque aquele era um bom sinal, não é? Sakura lembrar de Inojin assim. — Levanta esse pé. – Pediu para, finalmente, livrá-la de toda aquela podridão. Chutando as vestes para o canto do banheiro.

Se olharam, quando Ino retornou à posição frente a Sakura, que parecia sequer enxergá-la de tão torpe que estava. A pele maltratada, os cabelos disformes, e havia tanta sujeira em todo seu corpo. Aquele corte na perna supurava com a negligencia de, talvez, dias sem receber um pouco de atenção e limpeza.

— Ino... – Ela chamou naquela voz débil, olhando para a loira como se pudesse ver através dela. — Eu to com sede.

A loira concordou com a cabeça, incapaz de falar qualquer coisa diante daquilo. O que poderia dizer? Tudo o que sentia era vontade de chorar, porque não era a primeira vez que a via desse jeito, tão debilitada, mas torcia por ser a última. Sempre torcia.

Ligou a água do chuveiro assumindo o que precisava fazer, puxou a amiga delicadamente para dentro do box e a posicionou, sem nenhuma resistência, de modo que seu corpo ficasse parcialmente debaixo da água fria. Sakura nem parecia sentir o frio, ou o molhar. Apenas abriu a boca num movimento moroso enquanto as gotas escorriam para dentro, umedecendo sua língua e garganta, matando sua sede.

A loira amarrou os cabelos num coque no topo da cabeça, puxou o saião para cima, prendendo-o nas laterais da calcinha e, enfim, entrou junto para livrar Sakura de toda aquela sujeira. Era o que precisava fazer no momento. Lavar aqueles pés com crostas de lama, tirando o sangue seco de sua perna, livrando-a do musgo nos braços e da relva presa aos cabelos, deixando a água escorrer pelo relevo daquela cicatriz enorme em torso. A ensaboou com um sabonete de amêndoas, usou aquele shampoo novo que havia comprado semana passada nos cabelos cor-de-rosa, condicionando também enquanto a moça jazia parada de uma maneira quase catatônica.

— Eu quero vomitar.

Ino olhou para ela rapidamente, concordando com a cabeça logo em seguida. Não se importava de ela vomitar no chão do box, porque teria que lavá-lo de todo modo, mas a puxou para o sanitário, fazendo-a curvar-se ali para ver apenas água sair junto com a bile amarelada.

Seu corpo era só os ossos e a pele, que tremiam fracos com a força involuntária do estômago que precisava se livrar do que quer que estivesse dentro dela.

A loire tinha a expressão preocupada, triste. Não fazia ideia do que Sakura via nessas missões desumanas às quais era designada, mas através daqueles olhos, sabia que nada de bom poderia vir daquilo.

— A quanto tempo você não come?

Sakura a olhou em seu estado aéreo.

— Eu não sei.

...

— Certo.

Falou mais para si do que para a outra, enquanto a erguia para finalizar aquele banho, secando-a com a toalha mais felpuda que encontrou, ainda que duvidasse que Sakura pudesse diferenciar as texturas. Nas condições que estava, já era um milagre que a reconhecesse.

A levou para a sala, sentando-a no sofá ainda enrolada naquela toalha azul. Sakura tremia com frio, é claro, apesar de estar bem quente dentro da casa. Ino se ajoelhou na frente dela como costumava fazer com seu próprio filho, num daqueles gestos de quem precisava falar e ser ouvida.

— Sakura, você consegue subir as escadas comigo?

A moça negou com a cabeça.

— Eu tô com fome.

— É claro. – Disse levantando-se rapidamente, indo até a cozinha para pegar uma única torrada. Não achava que Sakura conseguisse segurar nada no estômago àquela altura, e sua melhor aposta era em algo seco. — Coma devagar, ok? Mastigue bem.

Viu Sakura morder a ponta minúscula com um movimento débil.

Céus... O que tinha acontecido com ela?

— Eu vou pegar umas roupas para você e vamos no hospital.

— Não.

— Sakura!

— Não!

Ficaram em silêncio, uma olhando para outra. A voz de Sakura, o não presente, ainda flutuava na sala de Ino, pairando entre os móveis, penetrando nos ouvidos com a vibração do desespero. Se quisesse, Ino poderia forçá-la. Frágil do jeito que estava, sequer precisaria usar seu jutsu para arrastá-la ao hospital, e era o que deveria fazer. Sakura não tinha nenhuma condição de decidir o que fazer por si mesma, principalmente quando estava à beira do colapso.

Só que a mulher na sua frente era Haruno Sakura, a melhor ninja médica de sua geração. Uma lenda temida por muitos e sua fama a precedia. Ela era o tipo de ninja em que as pessoas confiavam como um dos pilares de Konohagakure. Quando ela aparecia em campo, o sentimento de estarem seguros imperava entre seus aliados.

Se essa figura aparecesse derrotada e incapaz como estava, então toda a confiabilidade desapareceria num piscar de olhos.

Mas, mais que isso, Sakura era orgulhosa.

Ela preferiria morrer a ter que ir no hospital.

— Sakura, eu não sei o que fazer. – Ino disse de maneira honesta, as sobrancelhas unidas numa expressão de súplica.

Os olhos verdes a miraram e Ino se perguntou o que estava vendo. A mão da mulher tocou seu rosto, fazendo-a sentir a sensação áspera dos seus dedos calejados. O silêncio era assustador, mas não tanto quanto aquele olhar sem vida. Ela sabia mesmo quem Ino era?

— Desculpa.

Se olharam por mais um longo momento e aquela única palavra saída da boca de Sakura soava como uma lâmina afiada diretamente nos ouvidos de Ino, rasgando tudo pela frente. É claro que ela se lembrava, caso contrário jamais teria vindo ali em primeiro lugar, e tudo bem que a mente dela estivesse confusa, porque o que tinha consumido era conhecido por deixar as pessoas assim, mas definitivamente Sakura não tinha que se desculpar por nada.

Odiava que fosse aquela a única palavra que tivesse saído da boca dela.

— Eu vou pegar umas roupas para você – Disse em seguida — Me espera aqui, tá? Não saia.

Viu Sakura concordar com a cabeça e então saiu apressada, subindo as escadas tão rápido quanto podia. Parou no quarto do filho, abrindo a porta com delicadeza apenas para confirmar que o menino ainda dormia. Deu um meio sorriso, algo que parecia um sorriso, mas não era. Não conseguia sorrir. Voltou para o corredor a caminho de seu quarto, abriu o armário na parte onde guardava suas roupas de dormir, olhando todas as peças de cetim e seda organizadas por cores.

Riu.

Sakura odiava dormir com aquele tipo de roupa, mas toda vez que dormiam no mesmo espaço, Ino dava um jeito de vesti-la como gente para dormir. Elas eram esse tipo de amigas. Dormiam juntas de tempos em tempos, trocavam confidências, se provocavam, brigavam como cão e gato, mas acabavam sempre rindo de qualquer coisa. Não importava o que acontecesse, elas estavam sempre juntas.

Foi nesse mar de lembranças, de quando eram jovens e cheias de um futuro esperançoso pela frente, que Ino chorou solitária diante de seus pijamas, segurando o puxador do armário enquanto soluçava num choro silencioso.

Desculpa.

Ela lembrava da palavra dita minutos atrás. Lembrava da expressão sem vida de Sakura, dos olhos cansados e da fragilidade hostil que emanava. Em sua pele, nas suas mãos, Ino sentia falta de todas aquelas partes de Sakura que não existiam mais na figura em sua sala. Aquela Sakura não se parecia com a pessoa que havia conhecido anos antes, e por isso o choro veio inevitável. Chorou por cada sorriso que não foi dado, pelas conversas que não tiveram, pelas discussões irrelevantes e tudo mais que fazia parte da sua amizade.

Ino chorou.

Curvando seu corpo enquanto abraçava a si mesma no choro silencioso, Ino deixou suas lágrimas caírem enquanto se perguntava o porquê de tudo aquilo ter acontecido, do porquê as coisas terem que ser daquela maneira, e de toda vez que a reencontrava, ter que cavar no fundo de toda aquela morosidade para encontrar novamente sua melhor amiga. E ela sempre o faria, quantas vezes fosse necessário, mas isso não significava que não doía.

Passou as mãos no rosto secando suas lágrimas e então respirou fundo, se acalmando. Olhou para a pilha de pijamas dispostas no seu armário, e ela sabia o que precisava fazer. Pegou um blusão grande de mangas cumpridas e uma calça moletom que nunca usava, trocou também de roupa, pegando alguns cobertores e travesseiros. Voltou carregada para a sala, onde Sakura jazia parada do mesmo jeito que a deixou, tremendo com seus calafrios.

Concordou com a cabeça, inspirando o ar para os pulmões num gesto de coragem.

Num gesto de força.

— Vem.

Chamou Sakura, que a olhou dispersa naquela expressão confusa. Ino a levantou, colocando roupas naquele corpo limpo. Armou o sofá cama, colocando os lençóis e todos os travesseiros, a fez comer mais algumas torradas, porque não queria arriscar dar nada além de algo de simples digestão para aquele estômago debilitado, lhe deu água, mas só um pouco, e então a fez deitar com cuidado, sempre deixando claro o que iria fazer logo em seguida.

Com as luzes apagadas, Ino deitou-se também ao lado da amiga e então ouviu aquele ruído fino de baixo.

O choro de Sakura.

Envolveu o corpo frágil da mulher que soluçava tão intensamente a ponto de seu corpo todo responder, a segurou com força e carinho num ninar seguro enquanto Sakura chorava de novo e de novo, agarrando a mão da amiga, que a envolvia numa conchinha maior, para cobrir seu rosto naquela expressão de pura tristeza e desespero.

No que ela estava pensando? O que estava sentindo?

Ino não saberia dizer.

Mas Sakura tinha tanto sangue nas mãos, tanta dor em seu peito que jamais poderia ser entendida por qualquer um além dela mesma, e a única coisa que Ino podia fazer era mostrar que aquelas mãos ensanguentadas não significavam nada para ela, porque ali, ambas eram apenas Ino e Sakura, e tudo além daquele abraço não importava. Nada importava.

Desculpa.

Ela sussurrou novamente naquela voz embargada e recebeu como resposta um abraço ainda mais apertado. Seu choro aumentou, como se aquilo a ferisse de alguma forma, como se não merecesse nenhuma fração daquele amor de Ino, e de fato, não merecia. Quando Ino mais precisou, Sakura não estava, e mesmo assim, ali estava Ino de novo e de novo, pronta para lidar com todo o sangue das suas mãos.

Com toda dor de seu peito.

A loira não disse nada. Não havia o que dizer.

Para ela, aquela palavra era tão desnecessária, afinal, se havia sangue nas mãos de Sakura, então havia sangue nas próprias mãos também.

No choro copioso que se propagava nos ruídos finos, em algum momento da noite, Sakura dormiu.

E Ino também.

.

.

.

A manhã chegou com aquele azul imenso no céu límpido. Não haviam nuvens enfeitando os contornos do sol, que estranhamente jazia brando com seus raios suaves sob a vila, penetrando a janela aberta da casa dos Yamanaka de maneira quase carinhosa. Ela piscou algumas vezes, sentindo-se nauseada. Seu corpo mal respondia aos comandos, tudo doía. Segurou sua própria mão que tremia como se terremotos estivessem acontecendo internamente, e ela sabia que podia resolver aquilo muito fácil.

Mas não era uma solução de verdade.

Curvou-se no sofá cama olhando ao redor. Sua perna reclamou com uma dor latejante e percebeu, finalmente, que havia um corte enorme que estava inflamado em sua coxa. Fez uma careta, a cabeça dando suas pontadas de dor na temporã, e a garganta seca poderia ser sua primeira pista de todos aqueles sintomas. Desidratação.

Além de outras coisas.

Suas memórias não eram as mais confiáveis, mas sabia que estava na casa de Ino de alguma maneira e lembrava da noite passada com flashes estranhos de alguns momentos, mas evitou pensar muito nisso. Olhou para as fotos no canto de um móvel e depois para o local organizado com cheiro de limpeza. Estava quente, e por isso ela se livrou daquela calça com cuidado, colocando a palma tremula sob o corte e curando-o com a destreza de seu controle de chakra refinado. O estômago reclamava, mas não era o que tinha de mais urgente acontecendo.

Não.

O mais urgente era a vergonha.

Ino não estava por ali, e parecia ser cedo demais. Pelas sombras que via através da janela, achou que poderia ser, talvez, cinco da manhã. O corte ia desaparecendo em sua perna, enquanto reparava no suor em seu corpo, resultado de uma possível febre. Ela não lembrava.

Testou a própria voz emitindo alguns ruídos, limpando a garganta com pigarrear breve percebendo que seu nariz estava entupido. Soltou o ar depois de um momento, o corte na perna já não existia mais, vestiu-se de novo e aquilo já a fez sentir-se um pouco melhor.

Mas ela precisava de um soro.

E vitaminas.

E fibras.

E proteínas.

E carboidratos.

Ela precisava comer.

Olhou na direção da cozinha, levantando-se em seguida com certo desalinho. A visão ficou escura assim que ergueu a cabeça e ela precisou se agachar de quatro no chão para poder se recompor, sentindo, logo em seguida, mão adornarem sua cintura e içá-la para cima.

— Vai com calma. Você ainda tá muito fraca.

Virou para olhar Ino, que estava com um coque alto de seus cabelos loiros, usando um cropped roxo que era sua marca registrada. Sentiu que a olhou desconfiada, mas se permitiu ser conduzida de volta à cama, sentando ali sem muito charme.

— Como você tá se sentindo? – Ela perguntou agachando na frente de Sakura, as mãos apoiadas nos joelhos da mulher de cabelos cor-de-rosa.

— Uma merda – A outra respondeu depois de um momento, vendo Ino revirar aqueles olhos azuis de um jeito tão nostálgico.

— Dá pra você ser mais específica? – Perguntou com certo deboche naquela normalidade delas, e Sakura se pegou sorrindo.

— Você parece bem – Disse ignorando a pergunta da amiga, olhando cada centímetro do rosto confuso da amiga, que pareceu se divertir brevemente com aquela frase. — Eu fui chamada com urgência para a vila. Achei que você ou o Naruto pudessem estar...

Não terminou a frase, sua voz morrendo no meio do caminho. Ino continuou olhando para ela com confusão.

— Foi por isso que você se entupiu com as pílulas do soldado?

Sakura encolheu os ombros.

— Queria chegar rápido.

Ino suspirou, sua boca formando uma linha rígida refletindo os pensamentos severos de sua mente, mas ela não disse nada. Assentiu com a cabeça logo em seguida.

— Quanto tempo faz que você não come?

— Três dias – Disse depois de um momento, Ino ainda em silêncio com sua expressão impassível.

— Eu vou passar na farmácia, comprar um daqueles soros caseiros que você ama – Disse vendo a moça fazer uma careta — E algo para o seu estômago, porque acho que você não vai segurar nada aí antes de tomar algum remédio.

Sakura maneou a cabeça.

— Eu estava vomitando por causa das pílulas.

— Eu sei. – Elas se olharam por um momento — Mas não acho prudente já ir deixando você comer o que quiser sem tomar alguma coisa.

— Estou em suas mãos, Doutora Ino.

A loira revirou os olhos ao dar aquela breve risada que foi compartilhada por Sakura. A verdade é que Ino sabia que a amiga era a melhor médica de todas, mas quando se tratava de autocuidados, Sakura era a pior pessoa.

Se levantou ajudando Sakura a se levantar também para sentar-se à mesa da cozinha, onde a conversa apenas fluiu naquela manhã e tudo foi como um sonho, porque Ino estava ali fazendo café da manhã com cheiro de ovos e torradas frescas, café recém passado e queijo assado. O copo limpo que Sakura segurava entre as mãos estava brevemente frio, e a água era tão límpida que poderia purificar qualquer coisa que tocasse.

Um pássaro cantou lá longe e o vento fraco entrou pela janela fazendo seus cabelos balançarem. A voz de Ino era presente, e lhe falava sobre o cotidiano da vila como se Sakura jamais tivesse ido embora. Era quente e confortável. As cores e móveis, o clima e os sons. Os pratos na mesa dançavam tão saborosos, e Sakura tinha tanta fome que comeu um ovo inteiro quando Ino deu as costas naquela saia gigante que se movia bonita em seus quadris.

E o gosto daquela gema firme em sua boca, com o breve sal que a temperava junto com o orégano lhe fizeram pensar que era a melhor coisa que comera desde que nasceu. Sakura mastigava lembrando daquela máscara de gato, de pássaro, de tigre, e de tantos outros animais. Lembrava dos ovos crus que comeu apressada, e do coelho que não conseguiu matar quando percebeu que cuidava de tantos outros coelhinhos menores.

Sakura lembrou das flores da relva fresca naquele campo ensolarado onde matou oito homens, e lembrou também do azul da noite quando Ino a olhou de repente, vendo-a chorar sem sequer dar-se conta.

Colocou as mãos no rosto envergonhada. Sempre aparecia na casa dela daquela forma, tão quebrada. Algum dia em sua vida, talvez, Sakura tenha sido completa, mas não ali. Naquela casa, com Ino lhe abraçando, tudo parecia um sonho, e Konoha parecia perfeita, e os problemas pareciam não existir. Quanto tempo fazia que não se sentia tão normal?

O que era o normal afinal?

E de novo, Sakura se desculpava agarrada aos braços da amiga até finalmente ouvir aquilo.

— Mãe?

Virou-se para ver a criança loira no arco da cozinha, os olhos azuis e a pele até mais alva que a de Ino. Céus...

— Inojin, você... – Ino falava sem saber exatamente como agir e olhou para Sakura que parecia tão pasma. Houve silêncio, e pela primeira vez na vida, a loira não soube muito bem o que o garoto estava sentindo — Querido, acho que você não lembra, mas esta é...

— Tia Sakura.

Ele disse para a surpresa das duas, e Ino olhou para a amiga que parecia tão... tão...

— Você cresceu. – Sakura disse, engolindo o choro para parecer um pouco mais apresentável.

Inojin coçou a nuca encolhendo os ombros.

— Seu cabelo cresceu. – Ele respondeu por fim.

E com o rosto manchado por lágrimas, Sakura se permitiu rir enquanto concordava com a cabeça.

É... Ela precisava de um corte de cabelo.

Ino sorriu para o filho num agradecimento mudo e o garoto apenas sentou-se a mesa, ignorando qualquer coisa que não fosse sua determinação em ter um bom café da manhã, numa conversa infantil sobre sua falta de coordenação com lançamento de kunais. Sakura se compadeceu, prometendo ao menino que, se tivesse tempo, o ensinaria o macete para nunca errar o alvo. E assim que as barrigas foram cheias, Inojin partiu para a academia ninja, deixando as duas novamente sozinhas.

— Teu filho é maravilhoso.

— O anjinho da mamãe que as vezes me faz querer arrancar os cabelos, mas um anjinho.

Sakura riu.

— Ele pergunta pelo pai?

— Não para mim. – Ino deu os ombros tirando os pratos da mesa — Mas o Shikamaru já me disse que ele anda sondando.

— O que você vai fazer quando ele te perguntar?

— Eu não faço ideia. – Riu — O Shikamaru me disse para eu contar a verdade, mas qual delas?

— Todas elas – Sakura disse de repente — Se fosse comigo, eu iria querer saber quem foram meus pais, independente do que aconteceu.

— Isso só vai fazê-lo se sentir mal pelo que aconteceu comigo, Sakura – Disse num suspiro — Eu não quero que ele se sinta mal por nada. Não quero que ele carregue estigmas.

— Se você não contar, outras pessoas irão. É melhor ele saber de você.

— E se ele me odiar?

— Aquela criança maravilhosa? Ela sabe o que é ódio? – Sakura perguntou rindo.

— Eu tô falando sério, Sakura. Eu não me arrependo do Inojin, mas eu tenho que ser sincera com você: Se eu pudesse voltar no tempo e não me envolver com o pai dele, eu o faria. – A loira falou escorada na pia da cozinha, olhando para Sakura diretamente — Se ele me perguntar, eu não vou conseguir mentir para ele sobre isso e ele não tem idade para saber o que isso significa.

Sakura concordou com a cabeça.

— Diz que o Shikamaru é pai dele. Pronto.

E de repente, as duas estavam rindo.

— Eca, Sakura. O cara é quase meu irmão.

Quase. E pelo que eu lembro, ele era bem gostosinho.

Oh, céus... Só consigo ver o desleixo quando olho pra cara dele.

— A quanto tempo você não transa?

— Provavelmente a mais tempo que você.

Riram novamente.

— Mas o Shikamaru ainda tá solteiro?

Eca!

— Tô perguntando pra mim!

— Ah! – Ela riu — Tá sim, e amiga, vai fundo. Vê se acorda aquele defunto. O Shikamaru tá precisando dar umazinha.

— Dependendo do tempo que eu passar aqui, talvez eu invista no clã Nara. – Piscou para Ino que revirou os olhos com humor.

— Quanto tempo você acha que vai ficar dessa vez? – Ino perguntou mudando de assunto, porque falar sobre sexo a fazia querer transar, e agora ela era uma mãe solteira que precisava se dar ao respeito. Pff.

— Não sei. Eu tenho que ir ao escritório Hokage, inclusive. Não faço ideia porquê aquele velho desgraçado me chamou aqui.

— Olha o respeito, Sakura.

— O filho da puta me chama urgentemente para a vila e tá tudo normal nesse caralho! – Disse com indignação — Ino, eu achei que você pudesse estar morta! Que Sasuke pudesse ter vindo atrás do Naruto! Eu fiquei desesperada! Se algo acontecer a vocês, eu juro que não vai sobrar um Uchiha pra contar história.

— Sakura, Sasuke não tem nenhum motivo para vir atrás de mim, e Naruto sabe se cuidar. Obviamente a emergência do Hokage deve ser outra coisa.

A moça de cabelos cor-de-rosa revirou os olhos com exagero.

— Aquele velho caquético deveria se aposentar de uma vez. – Resmungou — Eu tinha uma pista de Sasuke, Ino! Eu tava a ponto de rastreá-lo!

— Você não devia falar das missões comigo, Sakura. – Ino alertou, lembrando-a.

— Caguei. Manda a princesinha Hyuuga se resolver comigo se ela não gostar do que eu digo pra você.

Ino revirou os olhos.

— Você ainda tá nessa pilha com a Hinata?

— Você não? – Retrucou com certo deboche. — Eu nunca vou perdoar ela pelo que te fez.

— Isso é passado, Sakura. Arrumar encrenca com os Hyuuga é pedir para ser linchado em praça pública. Eu quero é distância deles e viver minha vida tranquila, como uma civil.

— Bobagem! Você é Yamanaka Ino! Sabe o quanto de tempo ter alguém como você na ativa poderia poupar? Sabe quantas missões não poderiam ser resolvidas de forma muito menos sangrentas se você pudesse estar lá fora? Mas a princesinha Hyuuga, que nunca sequer saiu da vila, acha que o melhor para Konoha é te aposentar.

— Sakura...

— Não, Ino! Não vem com essa conversa de que tá tudo bem! O teu clã é um dos mais tradicionais da vila! Questionar sua lealdade é como chamar os Akimichi, os Nara, os Inuzuka e todos os outros de um bando de comprados! Somos ninjas! Os teus antepassados juraram lealdade à porra do Primeiro Hokage! Nós nos graduamos com aquele discurso ridículo sobre perpetuar a Vontade de Fogo, e agora a princesinha, que tava lá com a gente jurando também, vem com esse papo de que não tem certeza da sua lealdade! Chupa minha boceta, Hinata!

Ino já tinha perdido as contas de quantas vezes Sakura fazia aquele discurso para ela, e anos antes, Ino até se sentia dessa forma também, mas o tempo passou e a loira percebeu que não adiantava ficar dando murro em ponta de faca. Nada iria mudar e seus dias como ninja tinham acabado definitivamente. Seu clã continuaria através de Inojin, isso se permitissem que ele avançasse nas patentes, dado as condições de seu nascimento.

Mas no momento, Ino não pensava muito nisso.

O Hyuuga eram os heróis da vila. Havia um monumento perto da Torre Hokage com a estátua de Hiashi centralizada. Ninguém iria contra a vontade de Hinata, ou de Neji. Ninguém ousaria, nem mesmo o Hokage, de ir contra eles.

— Tenho que te lembrar que eu tenho um filho pequeno e que ele não tem idade pra ouvir palavras como boceta.

Sakura revirou os olhos.

— Eu vou tomar cuidado. – Resmungou em seguida, encolhendo os ombros antes de soltar o ar — Pensar na Hinata estraga meu dia.

Ino riu.

— Então faça como eu e a esqueça. – Disse por fim, desencostando da pia para atravessar a cozinha — Eu tenho que ir na rua para comprar algumas coisas para você e resolver um problema com meu fornecedor.

— Tá. Eu vou na Torre Hokage saber o que o velho decrépito quer.

— Na verdade, Sakura... – Falou virando-se para a mulher — Eu quero que você fique aqui até eu voltar.

Sakura a olhou com cautela.

— Ino, eu só vou na Torre.

— Não. Eu quero voltar para casa e te encontrar aqui, onde eu deixei. Sem saídas. – Disse séria — Eu não sei como você tá com essa coisa das pílulas do soldado, mas sei como foi noite passada, e sei como foram outras noites. Sei como vai ser, também, as próximas noites, então eu vou deixar as coisas bem claras: Na minha casa isso não entra.

Em silêncio, Sakura continuava olhando Ino com uma expressão envergonhada.

— Se você quer ficar aqui em casa enquanto tá resolvendo o assunto urgente do Hokage, então tudo bem. Minha casa tá de portas abertas para você sempre, mas sem as pílulas do soldado. Na verdade, Sakura, eu vou te dizer algo e espero que você leve minhas palavras com muita seriedade: Ou eu, ou elas. – Disse encarando a mulher com seus olhos azuis intensos na sua decisão — Se você der uma passadinha na base da ANBU e acidentalmente comer uma pílula do soldado, então vê se me esquece. Procura o Kiba, vai atrás do Shusui... Sei lá! Mas se tu quiser ficar comigo, então larga isso de uma vez, entendeu?

Sakura a olhava cautelosa, quase como um animal acuado que não tinha mais defesas, e Ino odiava ter que dizer aquelas coisas de maneira tão seca quando sua amiga tinha acabado de retornar de uma daquelas missões que a fazia esquecer da própria alma, mas também sabia, na mesma medida, que precisava ser mais firme do que nunca e apelaria para todas as armas que tinha disponível.

Sakura tinha uma relação esquisita com aquelas pílulas do soldado, que eram absurdamente necessárias para que ela passasse longos períodos nas missões extremas nas quais era mandada enquanto ninja da ANBU. Ino sabia que enquanto Sakura estivesse à disposição da classe especial de operações ninja, ela jamais poderia deixar de consumir aquelas bolinhas marrons que tinham as mais danosas substancias para fazer o desempenho individual de cada shinobi aumentar drasticamente. As da ANBU ainda tinham composição diferente das comuns que eram dadas aos ninjas regulares, contendo apenas uma fração de todas aquelas drogas.

Entretanto, enquanto Sakura estivesse na vila, Ino faria de tudo para mantê-la longe daquilo. As pílulas ajudavam a manter o foco, criando um pensamento quase obsessivo nas missões, e era por isso que Sakura não tinha conseguido parar durante os dias que correu feito louca para retornar a vila. Seu pensamento estava focado, o que ajudava também a esquecer os pensamentos adjacentes, como Sasuke, Hinata, etecetera.

Era fácil tomar uma pílula daquelas e parecer bem, mas esse não era o objetivo daquilo e Sakura definitivamente não precisava delas.

— Eu entendi. – Sakura falou por fim, ainda sustentando seu olhar — Eu vou esperar aqui por você.

Ino concordou com a cabeça.

A verdade é que algumas coisas tinham sido da boca para fora. Jamais fecharia as portas de sua casa para Sakura, mesmo que ela voltasse de novo e de novo daquele jeito catatônico. Jamais conseguiria afastá-la, mas precisava da ameaça. Precisava que ela determinasse suas prioridades.

— Sakura, é sério. Não fode com a minha confiança em você.

Disse séria, porque Sakura sabia também que não importava quantas vezes ela batesse na porta de Ino completamente ferrada; Ino sempre estaria lá para ela.

— Eu já disse, eu vou ficar aqui, mas... não demora.

E aquele pedido foi o mais significativo de todos.

— Tá. Vai ser bem rápido. – Disse olhando diretamente para os olhos verde da moça, mas dessa vez de maneira mais afável — Seu estômago parece bom, então tome água, coma coisas. Eu vou trazer um daqueles docinhos que você gosta. Se quiser, pode tomar outro banho. Eu lavei o banheiro aqui de baixo, ele tá pronto pra uso e você...

— Desculpa.

— Para de se desculpar.

... então... Obrigada.

Se olharam, Ino sorriu.

— Não há de quê.

.

.

.

— Isso tá realmente bom – Shikamaru disse colocando mais um daqueles biscoitos na boca — Tá igualzinho ao que a sua mãe fazia.

Ino maneou a cabeça, de costas para o homem, enquanto cortava a verdura no balcão. Tinha chegado na casa do homem com as compras da semana, o suficiente para ele não morrer de fome até a próxima segunda-feira.

— Você foi falar disso pro Inojin, que ficou me pentelhando o final de semana todo para fazer isso. – Resmungou com falsa irritação ouvindo-o rir de fundo enquanto o barulho do biscoito crocante sendo mastigado era ouvido.

— Obrigado, Ino. Você, como sempre, cuidando de mim.

Ela levantou a tábua de vidro onde cortava as verduras e derrubou todas dentro de um depósito de plástico com cubos de frango cru. Começou a mexer com a mão. Soltou uma risada baixa enquanto processava aquele agradecimento, tampando o depósito antes de se virar com as mãos sujas.

— Não me agradeça como se você não fizesse nada por mim – Ela disse com um bico antes de continuar — Aqui dentro tem frango pra dois dias, viu? O peixe eu já deixei tratado, então é só empanar antes de fritar. E comprei também aquelas bistecas que você gosta. Estavam na promoção.

Sim, toda semana, Yamanaka Ino ia à casa de Nara Shikamaru para deixar as coisas mais ou menos prontas para o homem apenas colocar na panela. Não era exatamente cozinhar, mas era quase isso. Desde que a mãe dele se fora, Ino o ajudava com as tarefas domésticas, lavava as roupas e deixava as coisas prontas para ele não viver comendo apenas ramen, como Naruto.

Sua relação com Shikamaru tinha se estabelecido cada vez mais numa dependência mútua. Ele frequentemente ficava com Inojin, e também tinha garantido que ficasse com uma boa pensão desde a morte dos seus pais, algo que a tinha tirado do sufoco na época em que deixou o ofício ninja, garantindo também que seu filho tivesse acesso a todos os serviços públicos de Konoha, mesmo que tivesse sido levantado em reunião que ele deveria ser levado para outro lugar.

Sem Shikamaru, Ino provavelmente estaria subsistindo em algum vilarejo minúsculo na fronteira do País do Fogo. Nara Shikamaru foi o homem que garantiu sua segurança, e ninguém encostou um dedo nela desde que Inojin tinha acontecido.

Tudo bem, também tinha que dar crédito à Sakura, que assim que soube de todo o acontecido quando voltou de uma dessa missões, foi na mansão da princesa Hyuuga, enfiou o dedo na cara dela e disse que ia queimar todo o distrito se os ceguetas não a deixassem em paz. A partir desse dia, Ino nunca mais esbarrou com um Hyuuga espreitando nos telhados ao redor de sua casa.

Ela também disse outras coisas para Hinata, mas enfim...

— Vou ganhar biscoitos toda semana também?

Ino riu.

— Vai sonhando. – Resmungou com humor antes de virar-se para lavar as mãos — Ah, Shikamaru... Eu preciso conversar com você uma coisa.

— Tá faltando algo para você?

— Não – Disse se virando novamente, dessa vez as mãos limpas. — É sobre o Inojin.

— Ah... O que houve?

Ela se aproximou do chabudai, sentando-se numa das almofadas ao lado do homem vestido num quimono bege. Com os cabelos soltos, Shikamaru parecia um pouco mais sábio, como um monge, mas a cicatriz que subia do seu pescoço até a lateral do rosto o fazia soar perigoso.

Tamborilou os dedos na mesa antes de começar.

— Sakura voltou para Konoha ontem à noite. Acho que você deve estar por dentro.

Ele franziu o cenho.

— Ontem? A gente enviou uma mensagem semana passada. Esperávamos ela apenas na outra semana. Ela chegou duas semanas adiantada. – Falou confuso.

— Então você já deve imaginar como ela fez isso, não é? – Disse e ele suspirou resmungando aquele velho mendokusēEla se entupiu daquelas pílulas do soldado e depois de uma noite ridiculamente difícil, ela está oficialmente no detox.

— Como sempre, Sakura te dando trabalho.

— Não é nenhum sacrifício cuidar dela, mas o Inojin tá grandinho e a Sakura pode ficar... complicada... – Ino suspirou — Eu só quero que você não estranhe se, do nada, o Inojin aparecer por aqui ou lá na Torre te procurando.

— Sem problemas – Ele disse dando os ombros — Mas você vai ficar com ela na sua casa?

— Sim. Ela não tem pra onde ir.

— Ela tem uma casa, pelo que eu sei.

— Ela habitava uma casa que não era dela, e que tá cheia de memórias que ela definitivamente não precisa lidar agora. – Ino disse de maneira muito direta, e Shikamaru compreendeu que não era algo que ele deveria dar pitaco — Eu vou cuidar dela enquanto ela estiver em Konoha, principalmente nesse começo de estadia. Aliás, eu também queria pedir algo para você.

O homem maneou a cabeça já sabendo o que ela queria.

— Já que ela chegou adiantada essas duas semanas, então dá uma folga para ela. Ela vai precisar se recompor. – Pediu com aquela expressão séria — Não sei qual a urgência do Hokage em trazê-la de volta, mas ela não tá em condições de fazer nenhuma missão agora. Ela precisa de um tempo.

— Não se preocupa com isso. Eu já sabia que ela ia voltar na merda. – Disse sem a menor consideração, e Ino reprimiu um revirar de olhos — Ela vai hoje na Torre, certo?

— Sim. Eu pedi para ela ficar em casa e me esperar porque queria falar com você antes, mas ela já queria ter ido saber o que diabos querem com ela.

Shikamaru concordou com a cabeça.

— Ok. Quando chegar em casa, mande ela para a Torre. Eu garanto três semanas de folga, mais que isso é contar com a boa vontade do Hiruzen.

— É tudo que ela precisa. Obrigada, Shikamaru.

Ele riu.

— Não me agradeça como se você não fizesse nada por mim, Ino.

A mulher maneou a cabeça com humor e então o olhou esperta.

— Ei, Shikamaru... Você tá solteiro?

.

.

.

Seus olhos miraram cada detalhe do objeto que tinha entre as mãos. A textura um tanto lisa pela camada envernizada estava se perdendo devido ao uso intenso, assim como a pintura delicada, feita a mão, dos detalhes em rosa estavam desgastados. Haviam vincos superficiais por toda superfície onde a sujeira se acumulava com mais intensidade, e aquela parte lascada produziu uma rachadura que ia de uma ponta a outra, dividindo o objeto ao meio com um anúncio de que poderia quebrar a qualquer momento.

A pálpebra esquerda tremeu pela terceira vez em apenas cinco minutos, mas as mãos estavam tranquilas enquanto sustentavam a máscara de gato suja que tinha. A encarou por sabe-se lá quanto tempo ao passo que suava mais do que era aceitável para uma pessoa comum vestida num moletom, e sabia que poderia simplesmente ir tomar um rápido banho, mas ao mesmo tempo sua cabeça não conseguia processar a ideia direito.

Não.

Sua cabeça estava presa num impulso copioso de negação e aceitação.

Tinha lavado os pratos assim que Ino a deixou, numa tentativa de manter-se ocupada enquanto jazia sozinha na casa bonita dos Yamanaka. Dobrou os cobertores da noite anterior, checou o banheiro apenas para suspirar vendo-o tão limpo e resolveu tirar o lixo, foi lá que se deparou com todo seu uniforme em farrapos, completamente inutilizável.

Ino estava certa, não havia salvação para aquele tecido preto tão grosso, para seu colete cinza, ou para seus protetores já destruídos. Tudo fedia tanto e estava tão sujo de sangue, lágrimas e suor. A floresta, naquelas vestes, não era bonita. Era intensa, sombria e pouco convidativa. Tudo ali cheirava a morte. A flor da morte, como a chamavam por aí a fora. Não deveria der uma flor bonita, e certamente também não tinha um cheiro agradável, mas ainda era uma flor, e o que isso queria dizer, ela não sabia.

Deveria ter virado as costas e procurado outra coisa para fazer, mas ao invés disso, Sakura vasculhou naquele monte de lixo em busca de algo que não sabia o que era. Quando percebeu, estava encarando o interior manchado de sua cartucheira vazia. Não haviam suas armas ali, nem suas pílulas do soldado. Sequer farelo havia ali. Entretanto, naquelas manchas, ela viu o Hyuuga que não pôde salvar. Ela viu aqueles homens que matou sem sequer pensar. Ela viu a lâmina de sua tantō ganhar o brilho escarlate do sangue vivo de seus inimigos, e viu suas mãos sucumbirem ao sangue quase preto dos companheiros que nunca conseguiu salvar.

Sakura viu Sasuke.

E mais que isso, Sakura viu Naruto.

E quando finalmente encontrou aquela máscara de gato, tão inexpressiva, tão confusa, Sakura viu aquele lugar calmo novamente, aquele sem forma e sem sons, aquele onde esteve algumas vezes e que era tão tranquilo, porque nada existia ali. Cores, formas, pensamentos. Nada existia além da sensação de paz. Talvez fosse a morte, ela não poderia dizer já que nunca morreu.

Quer dizer...

Talvez ela já tivesse morrido e faltasse apenas seu coração parar de bater.

Lembrou-se daqueles olhos vermelhos e pretos, aqueles que a levaram naquele mundo vazio pela primeira vez e como reflexo, a cicatriz em seu torso latejou como raramente fazia. Lembrou-se de Hanabi, e seus olhos cor-de-perola, que num instante se tornaram vermelhos, e lembrou-se da última vez que viu Sakumo. No mar das lembranças, vislumbrou Chouji também, mais um que não pôde salvar.

Sem perceber, a máscara tinha girado em sua mão, com a face de dentro voltada para a moça, e lentamente se aproximava de seu rosto suado. As mãos não tremiam, porque não havia nenhum receio. Seu passado e futuro passavam diante dos seus olhos, as pálpebras relaxando diante da cobertura conhecida que estava prestes a fazer contato. A máscara de gato retornou ao lugar onde pertencia. O rosto de Sakura, agora, era sem expressão ou vida, restando apenas o brilho verde perigoso que transpassava pelos pequenos orifícios que jaziam frente seus olhos.

Tinha perdido dias.

Àquela altura, se tivesse ido para Ame ao invés de retornar à Konoha, Sakura já saberia do paradeiro de Sasuke. Ela sentia isso com todo o seu ser. O impulso de sair de Konoha a dominava enquanto o corpo curvava diante suas próprias mãos. Parou de suar. Parou de pensar. Tudo era o chakra e o ciclo infinito da energia que ligava todas as coisas vivas no mundo, mas ela... Ela já não era tão viva assim. O tanto de sangue que tinha nas mãos, o tanto de morte que já tinha causado, as vidas que tinha perdido... Sakura estava mais próxima da morte do que qualquer um outro.

Talvez fosse a própria morte, e abraçaria isso se pudesse, enfim, cumprir as promessas que tinha feito. Ela não se importaria de carregar o peso do mundo nas costas se isso significasse poder garantir a sua maior promessa. Salvaria Sasuke. Traria ele de volta. Não aceitaria menos do que isso, mesmo que custasse sua própria vida.

— Sakura?

Virou-se rápido na direção da voz cautelosa, a mão indo até o cabo da tantō que não existia em suas costas. Arregalou os olhos quando se percebeu desarmada, mas não era pela falta da pequena lâmina... A verdade é que diante de olhos azuis, Sakura se sentia um tanto transparente e aquilo sim era assustador.

Havia tensão no ar e tudo em seu corpo queria atacar aquele pescoço longo. Sakura quase podia sentir a carótida pulsando por baixo da pele, o sangue bombeando em vermelho vivo. Um golpe bem dado e tudo seria tingido, novamente, da sua cor mais brilhante. Vermelho. O azul se tornaria vermelho.

— Sakura...

A voz chamou novamente num tom mais baixo e as mãos da mulher mascarada começou a tremer. Havia esse impulso que a fazia querer atacar, mesmo sabendo que aquela era Yamanaka Ino, uma daquelas que jurou proteger. Por baixo da máscara, seu lábio tremeu enquanto a respiração ofegou. A falta de foco era terrível. Se pudesse clarear seus pensamentos, limpá-los de uma só vez, ela o faria.

Mas sua cartucheira estava vazia.

— Sakura, tire a máscara. Você não precisa dela aqui.

Ino pediu ainda naquele tom cauteloso, a melodia de sua voz tão presente no quase sussurro chegou alta aos seus ouvidos, penetrando em vibrações pelo seu corpo. Tire a máscara. Prendeu a respiração tentando enxergar apenas Ino, tentando lembrar do porque ela era importante. Começou a suar novamente, sentia as mãos transpirando, a pálpebra tremula nos espasmos involuntários.

Ergueu a mão com dificuldade, o conflito instaurado em sua mente ainda fervilhando, e tocou a máscara com aquela textura desgastada, sentindo os vincos finos na pele calejada de seus dedos. Num movimento nada preciso, Sakura a puxou por cima da cabeça, e então, novamente, a mulher estava de volta com seu rosto assustado enquanto encarava a amiga parada na sua frente.

Se olharam por um longo momento até Sakura a oferecer aquilo que tinha nas mãos.

Ino pegou a máscara, colocando em cima da superfície mais próxima antes tocar o rosto dela com ambas as mãos. Seus olhos gentis presos nos verdes que temiam, mais que tudo, cobrir de vermelho aquele brilho azul.

— Tá tudo bem, ok? Eu to aqui com você. – Disse com sua voz suave dando um tempo para as palavras fazerem sentido na mente turva de Sakura, continuando quando a viu concordar brevemente com a cabeça.

— Ino, eu não acho que é seguro pra você ficar comigo – Sakura disse de uma vez, ainda tensa com os ombros curvados — Eu não sei o que eu sou capaz de fazer, e tem o Inojin...

— Você vai ficar aqui. – A outra disse antes que ela pudesse continuar e sua voz era firme como sempre fora — Isso não está em discussão.

Sakura desviou o olhar um tanto perdida, um tanto envergonhada, ouvindo o suspiro de Ino, que recuou dois passos antes de continuar.

— Tire a roupa.

Franziu o cenho olhando para Ino novamente, que já estava desabotoando aquele cropped roxo que sempre usava, revelando aquela malha de fios entrecruzados que cobriam seus seios fartos. Sakura desviou o olhar sem entender absolutamente nada daquilo, mas fez o que ela pediu em silêncio, puxando seu moletom por cima da cabeça. Ino não esperou ela se livrar das calças, e também continuou com aquela saia longa ao puxar a amiga para área descoberta do local, o sol brilhando intenso em suas peles.

— Vamos tomar um pouco de sol – Ino disse colocando uma mão no quadril — Você tá precisando de vitamina D.

A mulher, ainda atônita, olhou para Ino que tinha a pele brilhando pelo sol. O cabelo claro parecia cristal quando o sol estourou a tonalidade loiro claro. Estava quente, e nem precisava estar no sol para saber disso, bastava por os olhos na pele branca da amiga e todos saberiam que não demoraria muito para pegar uma insolação.

— A gente vai pegar um câncer de pele.

Sakura disse baixo de mais, quase tímida, mas Ino apenas riu.

— Tomar sol uma vez na vida não mata, Sakura. – Disse levantando o rosto, os olhos fechados — Tá sentindo?

Sentindo?

Sentindo o quê?

Sakura não sabia o que ela queria dizer.

Havia o óbvio calor em sua pele nua, a sensação quente dos raios de sol penetrando pelas suas camadas de pele, enraizando através de cada poro do seu corpo. Havia o suor se precipitando, dessa vez algo natural tendo em vista o quão quente podem ser os verões de Konoha, e uma gota escorreu pelo seu pescoço fazendo-a sentir aquele misto de cócegas e agonia. Passou a mão ali e olhou para o céu, imitando Ino. Franziu o cenho com severidade, ninguém conseguiria olhar diretamente para aquela bola em chamas que chamavam de sol, mas o céu... O céu estava lindo. Não haviam nuvens, e um pássaro passou rapidamente em seu voo apressado.

O mundo girava. A vida passava.

Sakura derramou uma lágrima antes de fechar os olhos. Estava tão quente, e havia tanto sol... Ela respirou aquele ar severo que invadiu seus pulmões aquecendo-a também por dentro, relaxando-a sem que sequer ela pudesse perceber, e logo aqueles pensamentos caóticos, seus sentimentos confusos... Nada disso estava mais ali.

... Tô. Tô sentindo.

.

.

.

Foi apenas depois do almoço que Ino finalmente liberou Sakura para saber o que diabos o Hokage tinha de tão urgente para trazê-la de volta à Konoha. A mulher, vestida no velho uniforme ninja de Ino, partiu para a Torre Hokage saltando pelos telhados na máxima velocidade possível. Não queria esbarrar em ninguém ou falar com qualquer outra pessoa. Sakura queria apenas resolver o que tinha para resolver e voltar para a base ANBU na ânsia de continuar sua missão pessoal.

Pulou para o telhado baixo que ficava frente à janela panorâmica, entrou sem muitas cerimônias, encontrando Hizuzen e Shino conversando sobre qualquer coisa. Sakura não se interessava pelo que o Diretor da Academia Ninja e o Hokage tinham para tratar. Cumprimentou o antigo colega de turma com um aceno de cabeça logo depois que o mais velho o dispensou, pedindo que avisasse Shikamaru da presença de Sakura quando saísse.

Ficaram a sós por sabe-se lá quanto tempo num silêncio denso que revelava a animosidade daquela relação. Hiruzen não fez nenhuma pergunta, sequer a olhou, apenas abaixou sua cabeça para fingir interesse nos papéis dispostos na mesa de madeira enquanto a kunoichi o fuzilava com o olhar. Não entendia como a maior parte dos ninjas eram tão condescendentes com a falta de habilidade política do homem, que só se preocupava em agradar os Daimyōs e os Hyuuga.

Hiruzen nunca desceu pela sua garganta, ficando entalado por anos desde a tentativa de golpe dos Uchiha.

Mas Sakura engoliu sua língua e orgulho, esperando pacientemente por Shikamaru, que parecia estar preso em algum lugar. Demorou demais, e o silêncio pesado quase a fez abrir a boca para novamente começar uma discussão que não valia a pena, mas por um milagre a porta se abriu e a figura de Shikamaru surgiu.

Gostosinho, como se lembrava.

Porém, não só ele apareceu, como também alguém que ela definitivamente não queria encontrar.

— Sakura-chan!

Naruto.

O olhou em choque enquanto ele lhe sorria daquele jeito estonteante. Naruto brilhava como nenhuma outra pessoa, e seus olhos azuis ainda eram tão azuis. Ela piscou, deixando o ar escapar pela boca, porque não pretendia estar no mesmo espaço físico que ele. Não queria falar com ele. Não enquanto os anos estavam passando e ela ainda não era capaz de cumprir uma simples promessa.

— Quanto tempo.

Foi o que conseguiu dizer quando ele se colocou bem na sua frente de maneira ansiosa, e sem esperar ou medir sua reação, Naruto a abraçou.

Merda.

Naruto era quente, aconchegante e vivo; e ela se sentia um tanto chocada naquele abraço dele tão presente, como se nada tivesse acontecido, como se a tristeza houvesse passado, como se eles ainda fossem dois genins idiotas com sonhos que jamais fossem se realizar. Ela se sentiu ofegar enquanto os braços dele a envolviam.

Droga...

Tinha que se manter firme, porque aquele era Naruto, e por mais que ele parecesse uma pessoa completamente diferente, ele ainda era o garoto chorão de suas memórias.

Ele ainda era o garoto que ela jurou proteger.

— Eu nem acredito que tô te vendo de novo! – Ele sorriu, recuando seu rosto para vê-la — Como você está?

Céus... Aquela pergunta soou como a piada mais sem graça que já tinha ouvido na história de sua vida.

— Como sempre – Disse tentando uma normalidade que já não existia mais. Naruto não sabia das suas condições, nunca soube — E você? Como você tá?

— Atarefado – Respondeu encolhendo os ombros — Mas muito feliz de te ver. Depois que você virou ANBU, você nunca volta pra vila, e quando volta eu tô fora em missão... – Resmungou — Você tem que voltar mais vezes. Eu sinto sua falta.

Ela sorriu sem saber como responder e Shikamaru pareceu notar porque logo iniciou sua fala.

— Depois vocês colocam o papo em dia. – Disse sem muito rodeios, fazendo o loiro se desculpar e virar-se para o Hokage e o Jounin Comandante — Nós te chamamos aqui, Sakura, porque suas habilidades vão ser necessárias na vila devido à uma pequena mudança nas configurações dos times fixos.

— E o que isso significa? – Ela franziu o cenho — Por que você está aqui mesmo? – Perguntou em seguida, virando-se para o antigo companheiro de time, que a olhou quase como se pedisse desculpas.

Eles só podiam estar de brincadeira.

— Eu vou pra Kumo daqui quinze dias, e preciso de alguém para me substituir. – O loiro disse olhando para ela com cautela enquanto Sakura parecia transtornada.

Incrédula.

— Substituir em quê, Naruto?

Perguntou quase agressiva, porque eles só podiam estar de brincadeira.

— Sakura-chan, eu preciso que você me substitua como capitã do time 7.

Quê!?

.

.

.

E AI? O QUE ACHARAM?

Conhecemos a nossa Sakura depois de um lindo Time Skip de anos e anos, agora nossa jounin de elite, lenda nos campos de batalha, uma das melhores médicas do mundo, dominando genjutsu... A bicha tá upada na mesma proporção que tá ferrada.

E Kakashi chega de no próximo capítulo, junto com Rin e Obito.

Eu queria falar um pouco das minhas referências para lidar com a Sakura e as pílulas do soldado: Eu assisti várias entrevistas do Nando Reis e do Renato Russo falando sobre a dependência química, e sobre como foi o processo deles que me ajudou a entender o processo de forma sentimental (principalmente o Nando Reis quando ele fala sobre afetividade, chorei pakas (pakas é cringe?)). Conversei também com uma assistente social de uma instituição que lida com dependentes químicos, e também achei os "doze passos", mas logo que li percebi que não me serviria aqui (não serviria a Sakura traumatizada desta fanfic). Daí achei um canal no YT que era um diário de um dependente químico em recuperação desde o primeiro dia dele sem as drogas. Eu vi cerca de 50 dos vídeos dele que são relatos de como está sendo o dia, e é por aí... Eu tô tentando adequar tudo isso à uma personagem que é essencialmente machucada, mas poderosíssima. Ela é disciplinada como só uma kunoichi de elite pode ser, o corpo dela funciona de forma diferente, e enfim... Só pra deixar um pouco mais claro sobre as minhas referências para fazer esse capítulo funcionar dessa forma.

E... É ISTO!

COMENTÁRIOS SÃO BEM VINDOS E, CLARO...

CONTINUEM COMIGO! A FANFIC TÁ SÓ COMEÇANDO E ESSA SAKURA TÁ COMO, MEU PAI? (alguém me ajuda)