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Taichō

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Fechou os olhos com força, mordendo o lábio tentando segurar aquele longo gemido que teimava em surgir no fundo de sua garganta. Respirava ofegante enquanto agarrava os cabelos dele com uma mão sôfrega, talvez puxando demais, mas ele não estava muito preocupado com isso, nem ela. Com a cabeça no meio das pernas dela, a única preocupação dele era fazê-la ter um bom orgasmo matinal e, modéstia à parte, achava que estava cumprindo com seu objetivo muito bem.

Sentiu a mão soltar de seus cabelos ao passo que as coxas apertaram sua cabeça um pouco mais. O gosto dela se espalhava mais intenso em sua boca enquanto os breves gemidos entrecortados surgiam como uma linda sinfonia nos seus ouvidos. Ele a olhou daquela posição vendo o ventre dela contraído, os seios entumecidos por baixo do tecido claro de sua roupa, e os olhos verdes que por um momento se revelaram, olhando para ele daquele jeito indecente.

O cachorrão tá on.

Quando ele saiu do meio das pernas dela e escalou o corpo delgado deitado, Kiba lambeu os próprios lábios ouvindo aquele arfar mais longo, beijou a pele de sua barriga traçando um caminho tortuoso pelos seios e pescoço até encontrar os outros lábios macios da mulher, tomando-a num longo beijo que não tinha nada de cuidadoso. Ele exigia algo dela, e a mulher entregava o que ele queria sem tentar resistir. Quando o beijo cessou e ele a olhou, Sakura viu um sorriso de vitória estampado naquele rosto sacana.

Ela revirou os olhos em divertimento antes de puxá-lo para mais um beijo, mas ele resistiu apenas para continuar exibindo aquela expressão orgulhosa de quem tem o que quer. Tanto faz. Ela pensou devolvendo o olhar com desdém, e então Kiba finalmente resolveu ceder ao que ela buscava segundos antes.

Um beijo mais tranquilo.

— Bom dia, rosinha. – A voz do homem soava cheia daquele maneirismo que usava tantas vezes.

Sakura riu de maneira fraca, fechando os olhos com preguiça enquanto o homem avançava com aqueles beijos em seu pescoço.

— Acordasse daquele jeito, hein, Kiba? – Ela disse numa voz relaxada demais antes de soltar um suspiro diante do mordiscar um pouco mais forte.

— Eu quero te foder bem gostoso. – Foi a resposta dele com os lábios ainda contra a pele exposta dela antes de recuar brevemente e os olhos se encontrarem. Kiba deu um sorriso torto ao medir a expressão da kunoichi. — Quero te ouvir gemendo meu nome.

A mulher soltou uma risada muda enquanto sustentava seu olhar no dele. Kiba era do tipo aleatório, que do nada surgia querendo transar o dia todo e, nos olhos em fenda que a encaravam, ele exibia a vontade mais genuína de esquecer o mundo por sabe-se lá quanto tempo.

Foi quando ela colocou uma mão no rosto dele com uma suavidade que até poderia soar inocente se ela não o estivesse olhando como se quisesse ser devorada.

— Eu espero que o Akamaru não esteja na sala. – Ela alertou porque hey, era o próprio Kiba quem pedia para que não fazer tanto barulho.

— A casa é só nossa, Sakura. – Disse antes de encostar os lábios nos dela num mordiscar suave de quem faz uma promessa, e ela respondeu com aquela caricia desleixada nos pelos da barba bagunçada. — E você não tem noção de como eu quero te comer agora.

Oh, céus...

O jeito com que cada palavra soou enquanto seus lábios ainda se tocavam provou arrepios por todo o corpo, de repente, a sensação de prazer voltava a se acumular entre suas pernas como se nada do que tivesse acontecido minutos antes tivesse sido suficiente.

Sakura o puxou de maneira mais urgente para um daqueles beijos mais profundos, de modo que seu corpo arqueava em busca de mais contato com o dele, de sentir a pele quente contra a sua. Ela tateou pelo corpo dele com luxuria, puxando aquela camisa idiota que ele ainda vestia. O ouviu rir breve quando o jogou para o lado e inverteu a posição de seus corpos, erguendo seu corpo logo após para sentar sobre ele.

Se olharam.

A mão masculina tocou a pele exposta da coxa dela, subindo pelo quadril num arrastar tortuoso de seus dedos sentindo a pele dela e todas as suas maravilhosas imperfeições. Olhou demoradamente para o tecido da blusa dela que se acumulava conforme o levantava com um só dedo, porque Kiba já não ousava tocar aquela pele. Não. Ele sabia que Sakura não gostava quando tocava aquela cicatriz com tanta consciência, e era por isso que ela continuava vestida naquela blusa incômoda.

— Eu quero ver seus peitos.

Disse firme, quase como quem não se importa com o que ela quer, mas a verdade é que ele se importava demais para simplesmente não considerar os limites já impostos a tanto tempo. Os olhares voltaram a se encontrar e ele adorava como aquele verde intenso guardavam as respostas para todas as perguntas. Ela não ia deixar, é claro. Ao invés disso, Sakura se inclinou brevemente sobre ele num movimento que parecia de um gato se espreguiçando, e seus rostos voltaram a ficarem próximos demais.

— Pra quê?

Ela sussurrou num tom baixo demais antes de depositar aquele quase beijo em seu rosto, perto demais da sua boca. Os dedos da mão espalmada em seu peito se cravaram um pouco mais, fazendo-o sentir aquela sensação maravilhosa que era tê-la bem em cima de si, e como num movimento por reflexo, a mão que levou para a bunda empinada a apertou um pouco mais forte.

— Faz tempo que não os vejo balançar quando você senta no meu pau.

O tom de voz era descarado, cru demais, e talvez fosse por isso que ele ouviu aquela risada que escapou dos lábios dela. Sakura sabia que aquela não era a posição favorita de Kiba. Na verdade, o homem abaixo de si gostava mesmo era de ficar por cima, mas com Sakura era diferente. Ele gostava de como os olhos dela o encaravam com a promessa mais indecente de todas, e se havia algo que conhecia sobre ela, era que a moça sempre cumpria suas promessas.

Ela voltou a erguer seu tronco e, depois de mais um daqueles olhares sórdidos, ela finalmente se livrou daquela blusa azulada. Kiba sorriu em vitória, seus olhos descendo pelo corpo revelado para redescobrir todas as suas formas.

— Eu quero muito te comer, Sakura. – Disse sem nem pensar muito, o próprio corpo se agitando no movimento de quem vai atrás do que quer, mas a moça o empurrou de volta para sua posição. Deitado, ela disse com aquele sorrisinho sacana e ele riu inquieto.

Sem nenhuma pressa, sentiu o corpo dela se erguer sobre os joelhos. Mirou aquela boceta deliciosa se projetando logo acima do pau que a moça havia buscado dentro de suas calças, mas foi para o rosto da moça que ele olhou quando finalmente Sakura sentou. Aquela expressão dela era imperdível. Os olhos fechavam, o ar saia pela boca entreaberta... E o melhor acontecia quando novamente o verde se revelava e o inspirar levemente mais profundo se iniciava. Ela sorria no mais perverso dos sorrisos.

— Como você quer me foder, Kiba? – Ela perguntou naquela voz em luxuria, passando as mãos pelo próprio corpo numa exibição de si mesma como só ela conseguia fazer. — O que você quer fazer comigo?

Ah... As perguntas...

Ele abriu a boca para responder, mas ao invés isso um praguejar escapou quando o movimento tortuoso de um rebolar torturante se iniciou. Ele apertou as coxas dela em reflexo, mas logo se recuperou do ataque, vendo naquele rostinho lindo o quão ela tinha apreciado seu breve descompassar.

— Você tá tão duro. – Ela disse mais baixo como se o pensamento tivesse escapado sem que percebesse, fechando os olhos num momento de contemplação antes de soltar aquele suspiro sôfrego por entre seus lábios. — Isso tá tão... – A frase incompleta flutuou solitária para algum lugar antes do gemido baixo surgir. A mão que apoiava sobre ele arranhava a pele levemente encoberta pelos pelos, ao passo que a outra completava o estímulo ao tocar-se.

E, porra, ela era mesmo gostosa pra um caralho.

O cabelo escorregou pelos ombros encobrindo parte do seu rosto, mas ela o jogou para o lado com um movimento de cabeça, fazendo aquele pescoço logo se projetar convidativo. Ela mordia o lábio inferior mantendo seus olhos baixos, e ele passeou seus olhos por toda ela, vendo que tinha deixado algumas marcas ali perto da escapula saliente antes de olhar aqueles peitos que soavam como perdição.

Toda ela era perdição, principalmente quando se deixava gemer um pouco mais alto, e somado a sensação de estar dentro dela, Kiba se via querer fodê-la em todas as posições conhecidas.

— Vem cá – Ele disse pegando a mão dela sobre si e puxando para cima. Sakura não hesitou em simplesmente se inclinar sobre ele novamente — Vou te mostrar como isso pode ficar melhor ainda. – E então a beijou, sem esperar uma resposta, virando o corpo sobre o dela num frenesi esperado por ela.

Sakura deu uma risada quando as costas se apoiaram no colchão e seus corpos se acomodaram um sobre o outro, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa para provocá-lo, ela sentiu uma estocada abrupta, forte e profunda. Arquejou sentindo a mão dele segurá-la firme na cama, e depois de um momento, ele recuou o quadril, voltando a entrar daquele mesmo jeito bruto.

Soltou um palavrão quando ele fez de novo e de novo, sempre enfiando seu pau o mais fundo que conseguia numa estocada firme, mas sem pressa. Os quadris se chocavam e ele se mantinha intenso com aqueles olhos em fenda explícitos demais, e naquele arquejar mais profundo, quando o quadril dela já se mexia sozinho buscando o dele, Kiba parou para contemplar o belo par de olhos verdes que se revelaram para ele, e então sorriu.

Ele gostava quando Sakura o segurava com as mãos desesperadas por algo em que pudessem se agarrar. Gostava ainda mais quando ela o puxava num ato de angustia, quase como se não pudesse esperar um segundo pelo que estava acontecendo, e mais que isso, Kiba adorava quando ela o olhava daquele jeito, implorando para ser comida. Ele manteve seu olhar sobre o dela quando, novamente, colocou tudo dentro com velocidade. Sakura gemeu alto e ele sorriu daquele jeito perverso.

Não dava para ela ficar mais gostosa.

— Puta que pariu, Kiba – Ela ofegou depois de um momento, quando sentiu o quadril dele recuar de novo — Me fode direit—

Terminou com um arquejo, incapaz de completar a frase diante da investida bruta em si. Ela fechou os olhos desejando que ele apenas continuasse, mas logo sentiu o corpo dele se aproximar mais do dela, e aquela barba bagunçada roçou estranhamente gentil em sua pele ao passo que a voz atipicamente erótica soou em seus ouvidos.

— Seu pedido é uma ordem.

Não demorou para o movimento se intensificar. Não era exatamente rápido, mas muito mais satisfatório que as estocadas espaçadas que ele usava em seus joguinhos.

— É assim que você quer? É assim que você gosta de ter essa sua boceta fodida? – Perguntou ofegante contra a pele do pescoço feminino, aumentando os movimentos à casa isso, assim que saia da boca da mulher; e continuaram até que ele se afundou nela abruptamente, a testa apoiada no ombro da moça enquanto um ruído, que soava como um praguejar, lhe escapava.

Sentiu o respirar mais fundo de Kiba em sua pele, antes de o homem simplesmente se jogar para o lado resmungando um me dá só dez minutos, e ela apenas deu uma risada passando a mão nos cabelos. Ele tava suado, com os pelos do corpo grudados na pele, e a cara de safado continuava intacta.

— Eu não tenho dez minutos – Sakura disse quando ele piscou apenas um olho para ela.

— Cinco então.

Ela riu mais alto, girando um pouco para segurar o rosto dele entre a curva de seu indicador e polegar, apertando de leve as bochechas tingidas de vermelho.

— Eu não tenho cinco minutos – Disse com um sorriso sacana antes de encostar seus lábios nos dele, que faziam um bico pelo segurar mais firme nela — Pega aquela toalha ali pra mim? — pediu apontando com a cabeça enquanto o homem parecia um pouco perdido.

— Qual é a dessa pressa toda? – Ele perguntou antes de girar o rosto na direção que ela indicou, esticando o braço para pegar a tal toalha e entregar a ela.

— Eu te falei ontem que tenho uma reunião com gostoso do Shikamaru – Disse antes de se enxugar e levantar, saindo da cama com passos largos na direção do banheiro.

Kiba fez uma careta enquanto olhava para a bunda bonita que sumia pela porta.

— Dá pra você não chamar o cara de gostoso logo depois de ter transado comigo? – Ele disse em um volume alto o suficiente para que ela o escutasse de qualquer lugar da casa. A ouviu rir lá do corredor.

— Tá com ciúmes?

Ele se levantou, seguindo o caminho que a bunda bonita tinha feito anteriormente. Nem precisou abrir a porta do banheiro, pois já estava ali escancarada, como se já o esperasse para compartilhar do banho.

— Tô sim. Você devia me valorizar mais. – Disse num tom de reclamação, enfiando a cabeça dentro do box logo em seguida — Quer uma touca?

— Quero, por favor! – Ela respondeu enquanto media a temperatura da água com a mão, regulando para um morno suave. Kiba retornou com uma touca de bolinhas coloridas na própria cabeça, e para Sakura, uma touca com patinhas de cachorro. — E você quer mais valorização do que a mamada que eu te dei ontem? Eu não mamo qualquer pessoa, Kiba.

Kiba deu uma risadinha. Aquilo foi bom. Pensou antes de pedir para que ela segurasse os cabelos no alto, e quando Sakura assim o fez, ele a vestiu com a touca, arrumando os fios que ficaram para fora. A mulher agradeceu enquanto levava o corpo para debaixo d'água.

— Mas o que o Nara quer contigo? – Perguntou trocando com ela, indo para debaixo d'água ao passo que a moça começava a se ensaboar — Atrapalha foda do caralho. – Resmungou ao final e Sakura encolheu os ombros em solidariedade.

— Eu não faço ideia – Respondeu dando as costas para Kiba, que começou a ensaboá-la onde a moça não alcançava — A Ino acha que ele vai me oferecer um cargo no hospital, mas pode ser também algum tipo de orientação já que viro capitã de time amanhã. – Suspirou.

— Se for algo no hospital, você vai aceitar? – Perguntou trocando novamente de lugar com ela, Sakura agora tirando o sabão do corpo, aproveitando para lavar o rosto ali embaixo d'água também — Eu lembro que você gostava bastante da rotina ridícula que tinha quando trabalhava lá.

Sakura sentiu a água caindo no corpo enquanto algumas memórias lhe pegavam diante da fala do homem que se ensaboava na sua frente. É, ela realmente gostava na época, mas agora ela era uma outra pessoa. Ficou em silêncio por um momento.

— Eu não sei – Disse por fim com uma voz mais distante. — É, na época eu adorava trabalhar no hospital, mas agora... Eu só não sei. Não sei se tô pronta para lidar com... – Soltou o ar sem saber exatamente o que queria dizer enquanto Kiba a olhava paciente. — Antigamente, o peso de uma morte era muito maior do que hoje. Na ANBU, eu matei mais pessoas que salvei, e essa coisa de vida se tornou um tanto banal. – Ela o olhou com cautela, mas Kiba se mantinha paciente em sua expressão séria, mas não tanto. Será que ele estava entendendo o que ela dizia? Será que a estava julgando naquele momento? Ela desviou o olhar, de repente, se sentindo envergonhada do que dizia, mas sentindo uma bizarra necessidade de continuar — Até que ponto as pessoas devem confiar suas vidas à uma médica que passou a matar sem sentir remorso? Até que ponto eu posso confiar em mim mesma para salvar uma vida que eu não dou a mínima?

O olhar continuava perdido em algum canto do banheiro, onde via os pés enormes de Kiba e suas unhas bem cortadas. Ser médica significava salvar vidas, mas nos últimos anos, Sakura tinha perdido e matado pessoas muito mais do que conseguiu curá-las, e isso lhe pegava de tempos em tempos.

Médica de bosta.

Tsunade era uma médica. Sakura era outra coisa.

Talvez uma assassina.

— Eu confiaria a minha vida a você sem nem pensar. – A voz dele soou de repente, fazendo com que ela o olhasse de supetão.

— Mas sua vida é importante pra mim, Kiba. – Disse sem nenhum abalo na voz, porque não deveria ser uma novidade para ele.

O homem sorriu maneando a cabeça, e depois de um momento continuou.

— Acho que é irrelevante se você acha ou não a vida da pessoa importante, porque você é Haruno Sakura.

Ela franziu o cenho com uma risada soprada.

— E o que isso significa? – Perguntou.

— Que quando você se compromete com algo, você dá tudo o que tem por isso. Se você não conseguiu salvar uma vida, eu tenho certeza que foi porque era impossível, e não porque você não se esforçou ao máximo.

Ela o olhou por um longo momento, a voz dele fazendo eco em sua mente juntamente com o ruído da água caindo. Kiba sorriu daquele jeito esperto que ele sempre sorrira, e deu as costas para a moça, que ainda pensativa, começou a ensaboá-lo como minutos antes ele havia feito com ela. Era estranho como a voz masculina tinha soado tão normal ao dizer tudo aquilo, mas como as palavras tinham-na pegado muito mais forte.

Sakura ainda não sabia muito bem como considerar aquilo, e havia uma resistência nata em tomar o significado daquelas palavras como verdade. Ainda parecia errado tentar curar alguém quando essa vida não faria diferença para ela, mas ao mesmo tempo, era uma verdade que cada morte pesava em si. Era confuso, estranho, contraditório e complicado, e talvez Kiba tenha sentido isso nas mãos que passeavam pelas suas costas, porque logo continuou.

— Mas se você não se sente preparada, então não se force. Apenas diga para ele que não tem condições de fazer isso agora.

O sorriso que lhe veio foi pequeno, mas bastante reconfortante, e quando ele se virou para ela com aquela expressão gentil que às vezes tomava conta de seu rosto, Sakura se sentiu um tanto idiota por ter sentido vergonha de lhe dizer algo assim. Aquele era Kiba afinal de contas.

— Eu realmente preciso te valorizar mais. – Ela disse bem humorada, mas soava como um agradecimento.

— Pode começar me chamando de gostoso. – O homem respondeu trocando de lugar com ela para tirar o sabão do corpo.

— Você é o cara mais gostoso dessa vila.

Sorriram um para o outro antes que Sakura puxasse aquela toalha limpa. Escapuliu do box e se secou em cima do tapete, tirando a touca de banho para pendurá-la num gancho na parede. Colocou pasta na escova e começou a escovar seus dentes enquanto via, pelo reflexo do espelho, Kiba saindo logo em seguida. Realmente, o cara mais gostoso da vila.

E com touca de banho.

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A sala do Comandante dos Jounins era um lugar apertado e simples. Uma mesa estreita ficava posicionada perpendicularmente à única janela do local, havendo uma cadeira de aparência nada confortável logo atrás dela, assim como também um quadro torto na parede com o símbolo do País do Fogo. A estante, na lateral, era de madeira barata, tal qual o tapete desbotado que ficava embaixo das únicas duas cadeiras extras naquela sala. Era bem simples, e fedia a cigarro barato, mas Sakura não se importou.

Na verdade, o que a pegou de surpresa foi ver Naruto ali sentado juntamente a Yamato, que ela nem sabia que estava na vila. Cumprimentou o grupo levemente confusa, sem saber direito o que diabos faria numa reunião com Yamato, Naruto e Shikamaru, mas percebeu que talvez o Nara tivesse adiantado seus compromissos tendo em vista o breve atraso de apenas quarenta minutos de Sakura.

Tudo culpa de Kiba.

— Sakura-chan, senta aqui! – O loiro disse, fazendo menção que iria se levantar.

— Não precisa, Naruto. Fica sentado. – Ela respondeu se aproximando para escorar-se na cadeira, apoiando um braço ali — Desculpem o atraso. Eu... me perdi no caminho da vida – suspirou e nenhum deles soube dizer o que aquilo significava.

Shikamaru soltou o ar pela boca parecendo, de repente, um tanto cansado. Coçou a cabeça como num gesto de quem está pensando um pouco, mas não disse nada, ao invés disso olhou para cada um dos três presentes individualmente antes de começar.

— Eu chamei vocês aqui porque Naruto está para partir numa missão classificada como Rank-S, não apenas pela dificuldade envolvida, mas também pelo nível de sigilo que ela requer. Tirando a mim, o Hokage, e alguns membros específicos do alto calão da ANBU, vocês são os únicos que sabem do que vai ocorrer nos próximos dias.

Sakura olhou para Yamato por reflexo e virou-se novamente para Shikamaru, prestando atenção em suas palavras num estado de tensão.

Sim, ela sabia que Naruto iria partir para Kumo na tentativa de obter controle do chakra da Kyuubi, assim como muitos outros jinchuuriki, e apesar de não concordar com tal arriscada missão, Sakura reconhecia que não tinha nenhuma voz nesse assunto. Se Naruto se sentia preparado para isso, então era algo que ele certamente faria, ela concordando ou não. Eles conversaram mais algumas vezes durante o tempo que tinham, e naquele momento ela se sentia, novamente, próxima dele, como se os anos jamais tivessem passado.

Por isso, Sakura não pôde negar o alívio quando ele comunicou que a missão seria adiada por tempo indeterminado. Era mais seguro tê-lo na vila, e Sakura estava redescobrindo sua amizade com ele enquanto tentava, de alguma forma, evitar os gatilhos que lhe faziam querer esquecer tudo o que aconteceu em sete anos de ANBU, ou até mesmo mais que isso.

Mas tempo indeterminado era algo abstrato demais. Podia significar horas ou anos, principalmente quando o motivo para o adiamento era um esquadrão ninja de Kirigakure infiltrado nas estradas de Konoha, e ver Yamato ali a fazia pensar se ele tinha algo a ver com tudo aquilo, mas logo descobriu.

— O Yamato retornou ontem com a notícia que o time dele conseguiu neutralizar os ninjas de Kiri que haviam invadido o território do País do Fogo, e com isso estamos prontos para partir. Naruto partirá ainda hoje, indo pela rota 44 até o porto, onde um barco o estará esperando. Um esquadrão o acompanhará até lá, e quando chegarem no porto, haverá uma troca de pessoal. O único que permanecerá ao seu lado o tempo todo será o Yamato, dada suas habilidades de contenção do chakra da raposa.

— E por que eu estou aqui? – Sakura perguntou confusa. Seria enviada com ele? Era prudente, não é? Ter uma kunoichi de sua qualidade numa missão tão importante. Por um momento, Sakura quase pediu para ficar, e quando percebeu que não queria ir, algo dentro dela se remexeu.

Por que não queria ir?

— Porque a sua missão enquanto capitã do time 7 será garantir que o esquadrão de Naruto não deixou nenhum rastro para trás. Como ocorreu essa invasão do pessoal de Kirigakure, eu quero que você também garanta que não há nenhum ninja seguindo-os à distância. – disse com aquele ar profissional — Para o resto do time, essa missão consiste em investigar os rastros dos ninjas de Kirigakure e confirmar que todos foram neutralizados. Só você deve saber o real objetivo da missão, compreendeu?

— Então, basicamente, minha primeira missão consiste em mentir para o meu time e proteger a retaguarda de Naruto?

— Precisamente.

Sakura suspirou.

— Então o time 7 vai conosco? – Naruto perguntou brevemente mais animado.

— Não. O Time 7 irá partir 48 horas depois.

Naruto e Sakura se olharam, o loiro fazendo um biquinho.

— Considere sua missão como uma Rank-A, Sakura, então aja com cuidado.

— Certo. – Ela confirmou evitando outro suspiro.

— Terminamos então – O Nara comunicou abrindo a gaveta lateral da mesa — Boa sorte a todos e estão dispensados.

Naruto e Yamato se levantaram, ambos mais altos que Sakura. Naruto sorriu para ela, como quem diz que vai dar tudo certo e ela apenas devolveu o sorriso do jeito que pôde. Otimismo não era bem uma característica sua. Yamato colocou uma mão no ombro dela com aquela expressão que só ele tinha, algo como conforto e calmaria. Ela sorriu também de maneira nostálgica. Fazia um ano mais ou menos que não o via.

Quando estavam para sair do escritório do Comandante, Naruto sugeriu que almoçassem juntos e aquilo pareceu tudo o que ela precisava para um dia que já soava como uma montanha russa de pequenas elevações.

— Ah, Sakura...

Ela se virou ao ouvir a voz do homem que acabava de acender o cigarro. Shikamaru tinha um ar blasé como daqueles homens dos livros de detetives, um apelo que só ele tinha.

— Hm?

— Quando você quiser, teremos uma vaga no hospital para você.

Se olharam por um momento, Sakura lembrando daquela conversa que teve com Kiba ainda quando toram seu primeiro banho naquela manhã, e por um segundo, ela quis acreditar plenamente nas palavras que ouvira, mas a realidade estava diante dela na fumaça cinza que que saia como um fio do cigarro dele, dispersa e confusa.

— ... Obrigada. – Ela respondeu sem saber direito como se esquivar, e o Nara apenas confirmou com a cabeça num gesto que poderia ser entendido como sei da sua situação, mas que ela resolveu acreditar que era apenas um estamos esperando você. Ficou em silêncio por um momento antes de emendar — Você não quer vir almoçar conosco? Colocar o papo em dia?

— Não. Vou terminar esse cigarro e ir na academia. Tenho assuntos para resolver com o Shino e vou aproveitar pra dar uma olhada no Inojin. – Respondeu, de repente, franzindo o cenho sem entender o porquê de estar se justificando — Enfim, aproveitem o almoço.

— Eu vou treinar esta tarde com o Inojin, então se você quiser aparecer...

Yamato e Naruto se entreolharam. Shikamaru tragou mais profundamente enquanto a olhava com uma sobrancelha arqueada.

— Veremos. – Respondeu um tanto enigmático demais, e Sakura podia jurar que ele a olhou de cima a baixo por trás daquela fumaça que soltava pelo nariz.

Naruto pigarreou antes de se despedir apressado de Shikamaru, arrastando Sakura para fora da sala, que dava risadinhas como quem tivesse acabado de ser pega fazendo alguma travessura. Era quase como voltar no tempo, com a diferença que seria ela quem arrastaria Naruto para longe, e Yamato seria Sasuke, que era uma presença silenciosa no time, mas sempre acabava gritando com os dois no final das contas.

Yamato, no entanto, apenas riu.

Foram parar num restaurante modesto que havia aberto perto da Torre. Ocuparam a mesa mais no canto do lugar, a mais reservada, e logo a conversa começou a fluir tão tranquila quanto o vapor quente do chilli que era servido após alguns minutos.

Desde que chegara na vila, Sakura havia encontrado Naruto algumas vezes para colocar o papo em dias. Não conversavam nada muito profundo, e a maior parte das vezes falavam sobre as coisas mais triviais possíveis. Evitaram falar de Sasuke, de objetivos, de ser ninja... Sabiam que se entrassem nesses assuntos acabariam discutindo alto demais, magoados demais. Naquele momento, entretanto, sentados à companhia de Yamato, falar sobre o oficio ninja foi inevitável.

Os dois ANBUs presentes começaram a falar da situação conflituosa que estava se estabelecendo nas fronteiras, e de como Kirigakure parecia estar vivendo um período estranho de obscuridade. Naruto não fazia ideia que as coisas estavam tão críticas. Como ninja, era de seu conhecimento a configuração política da região, mas ao mesmo tempo, a impossibilidade de fazer missões mais complexas o impedia de entender a gravidade de tudo aquilo.

Ele observou Sakura e ouviu as palavras dela, percebendo o jeito com que as vezes sua expressão se tornava confusa, e aquele dedo que espasmava algumas vezes. Em algum momento, Yamato parou de falar, e Sakura estava segurando aquele talher de forma agressiva demais. Foi Yamato que, discretamente, colocou a mão sobre o braço dela e sorriu amigável, fazendo Sakura piscar aturdida antes de soltar o ar com uma risada nervosa.

Seria tolice dizer que não sabia que havia algo errado com Sakura, mas ele não sabia o que era e nunca perguntou. Ela também nunca o contou, mas o incomodava ver que até mesmo Yamato parecia ter conhecimento da situação dela, enquanto ele permanecia naquele estado de incerteza. Naruto queria ajudar. Queria ser alguém que pudesse estar ao lado dela como um igual, e não como alguém que ela precisava desesperadamente proteger.

Durante aquele almoço, Naruto fortaleceu suas certezas. Ele precisava ficar mais forte por ele, por ela...

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Sempre que cruzava os limites daquela entrada, o sentimento de nostalgia o invadia. Aquelas paredes guardavam o início da história de todos os shinobis daquele vilarejo, guardando também suas esperanças e expectativas, que provavelmente seriam frustradas no primeiro dia que pisassem fora dali, como genins.

Na época em que frequentou a Academia Ninja, Shikamaru tinha apenas um objetivo: Ter uma vida sem muita emoção.

Ele queria se tornar um ninja regular, nem muito bom, nem muito ruim. Queria fazer algumas missões não muito difíceis. Acharia uma esposa, nem muito feia, nem muito bonita; e aí teria dois filhos, um menino e uma menina. Quando percebesse que sua prole havia atingido uma situação confortável, então ele se aposentaria na busca de um resto de vida tão tranquilo quanto o começo.

Não precisava ser um gênio para perceber que tinha dado tudo errado.

Shikamaru não era um ninja regular, só fazia missões difíceis, não tinha uma esposa ou filhos, e parecia que a tal aposentadoria só aconteceria quando a morte finalmente o pegasse.

Seus planos desandaram quando percebeu que não conseguiria ignorar certas responsabilidades com seus amigos, com sua vila, e com sua própria vida. Se vendo diante de tantas tragédias, ele percebeu que não conseguiria ser tão egoísta a ponto de seguir com um plano de vida tão fajuto. Shikamaru internalizou que seria o que a vila precisasse que ele fosse, e mais que isso, seria o que seus amigos precisassem que ele fosse.

No caso de Ino, depois que aquele rebuliço de gravidez aconteceu, ele se tornou o tio e guardião, mas não porque ela o pediu que se tornasse tais coisas, mas sim porque se sentira responsável por tudo o que aconteceu. Ele sabia que aquele cara não era coisa boa, sabia que tinha algo errado na maneira como ele agia e mesmo assim deixou Ino continuar com aquele romance inútil que a desgraçou.

Ele fez tudo o que foi necessário para garantir o máximo de conforto e segurança para ela, e agora, anos depois, ele se via exatamente do mesmo jeito de antes. Um tio. Um guardião.

Terminou seus assuntos com Shino, a quem ele amplamente valorizava. O Aburame era centrado, preciso e competente. Nunca teve problemas com ele, e se todo ninja pudesse ter aquela sensatez, então o seu trabalho seria dez vezes mais fácil. Se despediram polidamente antes que Shikamaru saísse da saleta no andar superior. O Comandante dos Jounins, em seu colete num tom mais escuro do verde padrão, desceu as escadas vendo as crianças transitarem com harmonia nos corredores rumo à saída.

Na sua época como estudante, uma cena como aquela era quase impossível, mas Shino tinha uma mão de ferro e a disciplina vinha em primeiro lugar. Bem... Pessoalmente, Shikamaru achava que crianças deveriam ter alguma liberdade para serem crianças, mas aquele não era seu setor. Ele não interferiria nos métodos de Shino, ainda que pudesse. Então ele apenas seguiu seu caminho, cumprimentando uma ou duas crianças que sabiam quem ele era no caminho.

Alcançou o pátio, e naquele banquinho perto da saída, viu seu alvo. Inojin o esperava na companhia da garota do clã do Akimichi, filha do primo de Chouji que havia assumido como herdeiro do clã. Shikamaru os cumprimentou com um sorriso tranquilo, desses que não sustentava por muito tempo na presença de estranhos. A menina o cumprimentou com um sorriso largo e logo se despediu de Inojin, quando este pulou para frente, se pondo ao lado de seu tio.

— Tio Shikamaru! O que você tá fazendo por aqui?

— Vim resolver uma coisa com o Shino. Coisa chata de gente velha, você sabe. – Disse tentando seu melhor tom divertido, e sabendo que não se encaixava muito bem com seu perfil. Enfiou as mãos nos bolos enquanto andava. — Como foi sua aula?

— Mais chata do que eu achei que seria. Meu professor é muito... – O garoto fez uma careta, sem saber que palavra usar. Shikamaru riu. Inojin era um resmungão de primeira categoria. — Chato... Mas pelo menos a Tia Sakura vai me ensinar algumas coisas legais hoje.

— Vocês ainda estão se dando bem, não é? – Ele perguntou fingindo desinteresse, mas a verdade é que Sakura era problemática demais e Shikamaru gostava de saber que seu sobrinho não estava sentindo dificuldades com a presença dela.

— Sim, a Tia Sakura é divertida. – Ele riu — As vezes ela tem uns dias ruins, mas mamãe disse que ela vai melhorar.

Shikamaru confirmou com a cabeça. As visitas sem hora marcada de Inojin tinham diminuído, o que significava que as crises de Sakura estavam ficando mais brandas, apesar de ter tido conhecimento da recaída trágica que fez o garoto dormir em sua casa por dois dias seguidos.

Não que Shikamaru se importasse com a presença do sobrinho. Ele era uma boa companhia, e o distraía de toda a complexidade do trabalho. Gostava do moleque, era desbocado como a mãe, e parecia interessado demais em aprender as técnicas do clã Nara ao invés das do seu próprio clã.

O Comandante ia abrindo a boca para continuar a boa conversa com o rapaz, mas foi interrompido naquela esquina. Ele parou de andar e expressão tranquila rapidamente foi substituída pela habitual carranca que mantinha na face durante suas reuniões do trabalho. Continuou com as mãos nos bolos, mas sentiu o tecido de sua camisa ser puxado quando os olhares da dupla a sua frente caíram sobre o menino.

Inojin recuou um passo, se agarrando em Shikamaru por reflexo. O Nara colocou a mão sobre a cabeça do menino, escorregando para o ombro dele numa tentativa de lhe dizer, sem a necessidade de palavras, que nada iria acontecer a ele, não importava quem estivesse logo à frente.

— Meus olhos estão aqui em cima.

A voz de Shikamaru soou como um alerta, mas os pares de olhos perolados se demoraram um segundo a mais nos garoto de cabelo loiro que, em seu desconforto, desviou o próprio olhar, abaixando a cabeça. Inojin odiava como qualquer Hyuuga mais velho olhava para ele. Haviam sentimentos naqueles olhares que ele ainda não entendia bem, mas tudo soava como um desprezo, e como um aviso. O garoto puxou mais uma vez a roupa do tio, que o olhou por um momento antes de falar ainda mais alto.

— É a última vez que digo: Meus olhos estão aqui em cima.

— Nós sabemos, Shikamaru. — Respondeu em suas vestes tão brancas que pareciam intocadas. — É uma pena que o Comandante dos Jounins continue andando em tão duvidosa companhia. – Comentou com uma voz amigável demais, falsa demais.

— Não é de sua competência medir o nível de minhas companhias. Quando eu quiser sua opinião, certamente pedirei. Agora, se era só isso o que vocês queriam, eu tenho uma agenda cheia para esta tarde.

Ele viu o rosto de Neji deformar minimamente. Não que fosse algum tipo de deleite, mas ver aquele sorriso sumir do rosto do Hyuuga fazia com que seu humor melhorasse só um pouco. Odiava toda aquela empáfia, e seus olhos dissimulados que tentavam enganá-lo... Logo Shikamaru, o homem mais perspicaz de Konoha. Não era à toa que ele ocupava tal cargo com tantas responsabilidades. Nenhum sorriso de Neji seria capaz de nublar o seu juízo, tampouco as ameaças.

— Shikamaru-san, perdoe os modos de meu primo. – A mulher ao lado dele finalmente se pronunciava. Seu rosto era inexpressivo, e apesar da voz de timbre doce, suas palavras soavam sempre duras. — Nossa opinião já é conhecida por você, não é de nossa intenção retomar tal pauta. Estamos aqui para confirmar uma notícia urgente que chegou aos nossos ouvidos, e tenho certeza ter havido algum mal-entendido.

— Sabemos que Haruno Sakura voltou à vila no mês passado, e achamos que fosse uma daquelas estadias transitórias, mas, para nossa ingrata surpresa, descobrimos que ela está para assumir como jounin de um dos times fixos. – Neji assumia a narrativa com sua voz menos amistosa. A polidez das palavras, a falta da gestualidade, o tom de voz... Shikamaru queria mandá-lo à merda, mas isso traria mais problemas do que queria lidar no momento.

— E daí? – O Nara perguntou com uma informalidade proposital, evidenciando a pouca importância que estava dando a todo aquele falatório.

E daí? – Neji repetiu demonstrando breve irritação. — Não acha que deveríamos ter sido comunicados que nosso jinchuuriki vai partir numa missão com um bando de ANBUs? Ou que uma kunoichi tão desqualificada irá encopar regularmente os times fixos? De que foi essa ideia? Por que não fomos informados na última assembleia?

Shikamaru evitou um longo suspiro, tirando a outra mão do bolso juntamente com seu cigarro e isqueiro. Olhou para Inojin, apenas para ele se certificar que estava tudo bem quando tirou sua mão da cabeça do rapaz. Não teve nenhuma pressa em executar a ação, e até quis rir quando o isqueiro falhou duas vezes seguidas até a chama finalmente se estabelecer. Acendeu o cigarro e deu uma longa tragada, voltando uma mão para a cabeça do sobrinho.

Viu Neji demonstrar impaciência, mas Hinata... Hinata estava sempre impassível.

Como uma garota tão tímida, que corava a qualquer menção de seu nome, tinha se tornado uma mulher tão problemática? Ele não fazia ideia da lavagem cerebral que ela tinha sofrido, porque, na cabeça do Nara, era a única solução para a moça ter se tornado tão... Cansativa.

— Vejam bem – Ele começou. A fumaça saindo pela boca enquanto falava — Eu não tenho que dar satisfação a vocês dois, principalmente agora no meu horário de almoço. Se vocês têm alguma reclamação, então marquem uma reunião na Torre, ou esperem para a próxima assembleia, onde eu comunicarei a substituição de Naruto e apresentarei Sakura como nova capitã do Time 7 para todos os jounins da vila. – Colocou o cigarro na boca, dando uma tragada longa enquanto ignorava aquela sensação hostil vinda de Neji — Estamos entendidos?

— Shikamaru-san, com todo respeito, acho que não somos jounins comuns. Esperamos certo nível de consideração dado nossos esforços e sacrifícios para manter a vila em segurança. — Hinata se pronunciava, sua voz tão inabalada quanto sempre. Essa mulher perdeu a alma, Shikamaru pensava todas as vezes que se falavam.

— Konoha valoriza seus esforços, mas temos que agir de acordo com o regimento interno, vocês sabem bem, afinal, adoram recitá-lo para mim sempre que podem. – Disse sem nenhum abalo — Agora se me dão licença...

O homem não esperou muito mais após o final da frase dispersa. Segurando a mão se seu sobrinho, voltou a caminhar vagaroso enquanto apreciava a nicotina em seu sistema. Lidar com Hinata e Neji não era algo que ele planejava para aquele dia, mas já que tinha acontecido, não adiantava remoer. Seu único arrependimento, no entanto, foi tê-los encontrado junto à Inojin, que ainda parecia acuado.

— Ei, não ligue para aqueles dois. – Shikamaru disse quando se afastaram o suficiente — Eles não podem fazer mal a você.

Os olhos de Inojin encontraram os dele, reafirmando a confiança depositada nas palavras ditas por Shikamaru, que em seu íntimo se perguntava até onde poderia garantir o que estava dizendo. No fundo, aquela afirmação se baseava na crença que Neji e Hinata jamais seriam transgressores das regras que eles mesmos haviam ajudado a estabelecer, mas o incomodava que Neji olhasse seu sobrinho daquela forma, que era completamente diferente da forma como Hinata olhava. Enquanto a mulher apenas encarava em sua expressão indiferente, Neji parecia ameaçá-lo.

— Tio... – O menino chamou depois de um momento, Shikamaru girando a cabeça para vê-lo cabisbaixo — É culpa minha eles olharem pra mamãe assim também?

...

Sem perceber, Shikamaru levava o cigarro aceso à boca, tragou quase que por reflexo enquanto absorvia aquela pergunta e todo o significado por trás dela. Quando seus pulmões estavam preenchidos, o homem começou a soltar a fumaça pelo nariz com uma expressão séria demais. Inojin não era mais uma criança alheia, é claro. Ele podia sentir as coisas erradas, e desde que Sakura havia retornado, ele também ouvia coisas, entretanto não podia culpar aquelas duas por conversarem, porque se Inojin não escutasse delas, certamente escutaria de outras pessoas.

Eventualmente, tudo viria à tona.

Mas como explicar para ele que as coisas podem ser muito mais complexas do que aparentam? Que motivação não se resume a um só culpado? Como fazê-lo entender que ele não tinha nada a ver com aquela situação, mas que ao mesmo tempo, tudo começou quando ele surgiu?

— É claro que não. – Ele disse quando já não havia mais fumaça saindo de suas narinas — Nada disso é sua culpa, Inojin.

Shikamaru sabia que era uma resposta incompleta e não satisfatória. Qualquer um, criança ou não, tentaria descobrir mais por trás dos tais olhares de desprezo que se estabeleciam todas as vezes que os olhares dos Hyuuga encontravam a família Yamanaka, mas Inojin apenas confirmou com a cabeça, se resignando aos seus próprios pensamentos. O homem voltou a olhar para frente, segurando um pouco mais firme na mão do garoto.

Bando de filho da puta.

Praguejou internamente sem saber direito se deveria continuar, ou como confortá-lo. Até certo ponto, Shikamaru só podia garantir a segurança deles, mas nada disso incluía coibir os olhares sórdidos que eram lançados a uma criança alheia à sua origem.

— Têm pessoas, Inojin, que nasceram amarguradas. Algumas, na verdade, se tornaram amarguradas, mas essa não é essa a questão. – Shikamaru voltou a falar, sentindo a necessidade de dizer um pouco mais — A questão é que pessoas amarguradas vão querer, quase sempre, perturbar pessoas boas. O problema dos Hyuuga não é com você, entendeu? Eles são apenas... amargurados.

O menino o olhou com atenção, sua expressão um pouco mais branda, como se finalmente Shikamaru o tivesse alcançado, e a explicação, ainda que pouco precisa, tivesse bastado naquele momento.

— Tia Sakura diz que eles são uns filhos da puta.

...

— Bem... Sua tia é uma mulher muito sábia. Eles são mesmo uns filhos da puta.

Inojin sorriu travesso, e Shikamaru maneou a cabeça um pouco mais bem humorado. Nada como um adulto dizendo bom palavrão para trazer um sorriso ao rosto de uma criança levada.

.

.

.

O riso sem humor se fez presente enquanto andavam em silêncio pela calçada vazia do bairro nobre. As pessoas não ficavam em seu caminho, abrindo espaço para que a dupla passasse com toda sua austeridade, mas havia uma espécie de admiração no olhar de cada cidadão que os via, como um agradecimento profundo que vinha das profundezas de seu ser.

Em algum momento, tais olharem deixaram de incomodar a Princesa Hyuuga, que já não deveria ser chamada assim. Hinata era a herdeira definitiva do maior clã de Konoha, assumiu todas as funções de seu pai e elevou o status do clã, então, quem era Nara Shikamaru para falar com essa mulher de maneira tão desleixada? Tão displicente? Onde estava o respeito pela figura superior que era Hinata?

Ele riu da audácia do outro, mas Hinata sequer se fez interessada, continuando seu caminhar cortês pelo caminho a frente. O andar era delicado, mas mostrava a plenitude da posição. O negro tecido tão nobre caia em sua pele num movimento perfeito, contrastando com a pele de porcelana, que parecia tão pura, tão casta... Hinata era o símbolo maior de pureza, e alguém tão vulgar quando Nara Shikamaru jamais entenderia a transgressão cometida.

— No que você está pensando, Neji?

Ela perguntou de repente, sequer virando para ele. O homem a olhou de relance, os olhos perolados da moça se mantinham fixos no caminho a sua frente.

— Que certos homens não conseguem compreender sua própria insignificância. – Respondeu em tom irritadiço, pausando sua fala enquanto o gosto amargo das memórias recentes invadia sua boca. — Quem ele pensa que é para falar daquela maneira conosco?! Com você?!

Silêncio.

A mulher não disse nada por um momento, sendo audível apenas o barulho indistinto das pessoas fazendo coisas ao seu redor. O homem ao seu lado, no entanto, jazia inquieto, como se colocar seus pensamentos em palavras o fizessem querer tomar providencias contra a ofensa sofrida.

— Não deixe que algo tão ínfimo te aborreça, Neji. Não devemos nos indispor com alguém como Shikamaru.

Continuava indiferente, como de costume. A expressão inalterada só evidenciava o quanto Hinata tinha amadurecido desde a época que perdeu o pai. Naquele tempo, Neji a encontrou completamente inadequada e duvidou que ela pudesse ser alguém a frente do poderoso clã, mas agora, depois de tanto tempo, ele tinha nada mais que orgulho de vê-la daquela maneira. Hinata era perfeita.

Você não deve se indispor. – Ele ressaltou, sentindo-se um tanto melhor ao perceber que ela era nobre o suficiente para lidar com a ralé — Nara Shikamaru precisa entender a posição dele perante nós.

— Ele é o Jounin Comandante. – Hinata disse, como se não fosse óbvio.

— Sim, Hinata-sama, mas até quando?

...

Nesse momento, Hinata projetou seu rosto brevemente na direção de seu primo, cruzando seu olhar com o dele. Se encararam por um brevíssimo segundo antes da mulher voltar a olhar para frente, como nunca deveria ter deixado de olhar.

.

.

.

O abraço forte durou pouco na opinião da moça, que quando o soltou, já queria mais. Naruto tinha abraços de urso, daqueles aconchegantes que ofereciam o mundo, e cheirava a tempero de ramén, ainda que usasse aquele perfume com notas mais cítricas. Ela segurou nos braços dele quando folgaram aquele abraço, e ele sorria para ela como se tivesse treze anos novamente. Aquele sorriso nunca mudou, e Sakura gostava de pensar que tinha um pouco de mérito sobre isso.

— Quando nos virmos novamente, Sakura-chan, eu vou estar dez vezes mais forte.

— Baka! – A mulher ralhou sem nenhuma piedade — Não preciso de você dez vezes mais forte! Eu preciso de você inteiro! Então me prometa que vai tomar cuidado!

O ouviu dar aquela risadinha tão característica, e o sorriso se alargar ainda mais gentil.

— Eu com certeza vou voltar sem nenhum arranhão, então me espere aqui, ok? Vou tentar ser rápido, datebayo.

Eles se olharam por um momento, e Sakura só queria pedir para que ele desistisse da ideia de dominar o chakra da Kyuubi. Ela queria poder trancá-lo em algum lugar onde ninguém, nem mesmo ela, pudesse machucá-lo. Sabia que estava encarando-o com uma expressão nada feliz, mas também não tinha o direito de pedir que desistisse, afinal, Naruto fora um dos que mais a apoiou, seria ridículo que ela não pudesse fazer o mesmo por ele.

Além disso, depois de tudo o que conversaram, Sakura estava comprometida a confiar no julgamento dele, ainda que algo nela não pudesse concordar com aquilo.

— Não faça essa cara – Ele disse depois de um momento, tocando o rosto dela com o polegar — Eu vou voltar antes que você perceba.

— Por favor, se cuida. Não faz besteira. – Pediu porque era a única coisa que poderia fazer naquele momento.

— Deixa comigo, e você também, se cuide. Não faça nada que eu não faria. – Naruto completou com um ar divertido e Sakura acabou rindo daquela piada ridícula.

— Certo, vou ficar na vila me entupindo de lámen então.

— Desconheço vida melhor, dattebayo!

Riram por um momento e voltaram a se encarar nostálgicos. Naruto se afastou, olhou para ela por mais um segundo antes de virar-se para Yamato.

— Te encontro daqui a pouco. – Disse animado demais para alguém que estava indo numa missão suicida.

— Até já, Naruto.

O loiro confirmou com a cabeça e então virou-se para frente, partindo logo depois de deixar seu olhar novamente se arrastar pelo de Sakura. O almoço tinha acabado, e aquela seria a última vez que veria Naruto na Vila da Folha até que ele finalizasse sua missão. A mulher o viu partir rápido demais, resistindo a vontade de ir atrás dele para tentar convencê-lo a ficar.

Virou-se, encontrando Yamato com as mãos nos bolsos e olhar afável. A mulher passou a mão nos cabelos sem tentar fingir que estava bem com aquilo e, em silêncio, ambos iniciaram uma caminhada calma pelas ruas do centro movimentado. Apesar do sol firme, o clima era ameno, e o vento fraco que soprava era suficiente para refrescar os pensamentos conflituosos da mulher, ou talvez fosse a energia que Yamato transmitia, porque ele sempre fora esse tipo de pessoa que emitia boas energias.

— Você vai cuidar dele, não é?

O homem sorriu um pouco mais, olhando-a com uma espécie de divertimento singelo. Sakura era honesta demais até quando tentava não ser e mesmo que tentasse se fazer de forte para Naruto, a preocupação que sustentava era suficientemente intensa para transpassar suas barreiras. Qualquer um podia ver através de Sakura sem muito esforço.

— Com certeza. Eu não vou sair do lado dele.

A viu confirmar com a cabeça num gesto contido, continuando com seus passos sempre em frente. O silêncio entre eles voltou a se estabelecer menos pesaroso e ainda mais acolhedor. Nesses momentos, Yamato percebia como a confiança que ela depositava nele era imensa, pois jamais pediria aquilo a alguém que não confiasse, e ele se sentia um pouco orgulhoso de ser alguém em quem ela pudesse se apoiar minimamente. Continuaram a andar, e a quebra do silêncio foi feita com a singela pergunta:

...E você tem visto ele?

Yamato sorriu breve e silencioso. A hesitação na voz dela e a maneira como não conseguia manter seu olhar alto evidenciavam a dificuldade em fazer tal pergunta. Era de conhecimento do homem ali presente que Sakura e Shisui tinham tido um relacionamento complicado no final das contas, mas que de alguma forma ainda mantinham uma conexão estranha.

Shisui perguntava por ela da mesma maneira, afinal.

— Na verdade, não. – Respondeu erguendo a cabeça um pouco mais alto, olhando mais para o céu que para o horizonte. — Quando sua pista chegou até nós, ele foi para Ame e eu para Suna. Foi a última vez que eu o vi, mas tive notícias de que ele encontrou alguma coisa, eu só não sei o quê. Fui convocado de volta à vila antes de saber.

Ela deixou o ar escapar pelo nariz como uma risada sem humor, passou a mão nos cabelos e olhou para o lado oposto ao homem que a acompanhava. Yamato apenas esperou que ela processasse o que quer que estivesse pensando, e em algum momento a mulher simplesmente soltou.

— Espero que ele esteja bem. – Disse por fim tentando algum tipo de tom indiferente, mas haviam muito mais coisas por trás das breves palavras que lhe escaparam. — E você, Yamato? O que foi fazer em Suna?

— Isso é confidencial, kunoichi – Ele respondeu percebendo a melhora no tom de voz dela assim que resolveu deixar o assunto do ex para trás. — Mas não é difícil imaginar se você souber o que aconteceu por esses meses lá.

— A coisa com o Ichibi?

— Sim. Fui fazer uma verificação.

Sakura deu uma risada.

— Não mandam você para verificações, Yamato. Não me faça de idiota.

Foi a vez do homem rir.

— Também fiquei surpreso quando a missão chegou em mim, mas entendi o porquê de ter sido mandado assim que cheguei lá. O Ichibi é uma bijuu bastante arredia. Devem ter achado que, caso algo acontecesse, eu poderia lidar melhor com isso.

Ela maneou a cabeça.

— Faz algum sentido. – Suspirou — Desde esse boato estranho com relação ao Yagura, as coisas têm ficado bem confusas. Esse ataque ao Ichibi foi tão aleatório... Soube que a Temari deu um jeito sozinha em todo o esquadrão, mas até que ponto eles estavam realmente tentando? Tentar capturar um jinchuuriki em sua própria vila com as defesas ao máximo... E logo o Ichibi, sabe? Logo Suna, uma potência militar.

— Há indícios que foi um ataque para coleta de informações.

Indícios... – Ela repetiu com desdém –É claro que esse foi o motivo, não vamos ser ingênuos. A grande questão é: Que informação eles pretendiam conseguir com um ataque tão descuidado? Os ninjas que eu estava rastreando, de Iwagakure, estavam em posse de informações do selo do Yagura.

— Eu não faço ideia do que eles estão tentando fazer. – Yamato disse com uma expressão séria — Mas a invasão de Kiri em nosso território pode ser uma confirmação de que, de fato, os boatos são reais. Yagura está desaparecido.

Sakura riu breve em escárnio. O mundo estava ficando cada vez mais estranho, e uma nação ninja perder, não apenas seu jinchuuriki, mas também seu Kage era surreal na sua visão. Algo muito complicado estava acontecendo, e ela tinha a sensação de isso a afetaria mais do que gostaria.

— A cada segundo que passa, eu fico mais certa de que Naruto não deveria sair dessa vila.

Yamato sorriu.

— Já falei que vou cuidar dele. Nossa operação é segura, Sakura. Kumo é nossa aliada.

— Foda-se. Quando se trata do Naruto, eu não confio em muitas pessoas. – Suspirou levando uma mão ao rosto antes de continuar num resmungo. — Aquele velho devia ser internado por permitir que Naruto saia da vila.

— Hiruzen tem seus motivos.

— Eu também tenho motivos para querer chutar a bunda velha dele, mas nem por isso eu faço.

Ele maneou a cabeça porque Sakura nunca cansava de mostrar todo seu descontentamento com o atual Hokage; algo que havia começado desde a época em que os Hyuugas passaram a ter mais poder de decisão na vila.

Mas o que ele poderia ter feito para barrar isso quando até mesmo os Senhores Feudais pareciam satisfeitos em tê-los numa posição elevada dentro da hierarquia? Para Yamato, Hiruzen era um santo por conseguir aguentar as pressões que vinham de todos os lados.

Para Sakura, no entanto, ele era apenas um velho sem culhões.

A dupla continuava avançando pelas ruas de Konoha a passos vagarosos. Yamato olhou para a sombra projetada no chão e depois para o céu límpido percebendo que precisava se adiantar para passar em casa e resolver alguns assuntos antes de partir para a próxima missão, mas nesse momento notou algo que havia passado em branco momentos antes: Sakura e ele estavam andando juntos, na mesma direção.

Yamato morava num apartamento no segundo andar de um prédio baixo já na divisa entre o centro e os bairros periféricos. O caminho que o levava da Torre para casa passava por várias ruas movimentadas, ruas nas quais Sakura o estava acompanhando. Ruas que a levavam, é claro, para a própria casa, ele imaginou; casa esta que não seria a mesma que a moça havia dividido com Shisui, obviamente.

E seguindo aquele caminho movimentado, Yamato reparou, tarde demais, onde de fato Sakura estava vivendo seus novos dias.

Sim...

Pois quando ele olhou para cima e viu aquela placa charmosa pintada em tons de amarelo de roxo, com caracteres bem desenhados juntamente a flores características de seu clã, Yamato finalmente percebeu para onde estava indo.

Floricultura Yamanaka.

E ele podia ter passado direto, se despedido com um aceno e seguido a vida, mas o destino...

Ah, o destino...

No momento em que ele virou para Sakura, pronto para lhe dizer adeus, o sino da entrada soava num tilintar característico enquanto a porta de vidro se projetava para dentro do estabelecimento. Ele sentiu o aroma das flores invadir seu olfato com uma brusquidão agradável, sentiu o clima úmido escapar pelo acesso, e viu os loiros cabelos se revelarem junto ao par de olhos azuis que se ergueram, em câmera lenta, na direção dele.

Yamanaka Ino.

— Oh! Sakura! – Ela disse surpresa — E Tenzō, hm? Quanto tempo! Como você está?

— Ino – O homem respondeu tentando estampar um sorriso comum, mas não sabia bem se estava conseguindo — É, faz muito tempo. Eu tô bem, nada de novo. – Riu — E você... Você parece ótima. Tá... linda, como sempre.

Sakura o olhava tentando controlar o sorrisinho sacana que insistia em estampar seu rosto. Yamato não gaguejava, mas as pausas nervosas entre as palavras faziam com que ele quase soasse gaguejante. A mulher de olhos verdes, então, girou sua atenção para a amiga, que sorria daquele jeito natural de sempre.

— Ah, Tenzō! Obrigada pelo elogio! Eu diria, num surto de modéstia, que são seus olhos, mas sinto que estou mesmo muito bonita hoje, então obrigada por notar. – Disse com aquele olhar tranquilo, fazendo suas palavras não soarem arrogantes — Mas me conte, quando voltou de sua missão?

Mordendo o lábio ainda na sua tentativa frustrada de segurar a risada, Sakura voltou seu olhar atento para o homem, que levou uma mão para trás da nuca e sorriu tentando não parecer tão desconcertado.

— Hã... Hoje cedo, mas não vou ficar muito. Parto em poucas horas para minha próxima aventura.

Próxima aventura.

Sakura teve que colocar a mão sobre a boca para não gargalhar. Aventura! Fazia soar como se as missões da ANBU fossem algum tipo de narrativa empolgante de mangá, quando na verdade eram coisas muito diferentes. Por sorte, Ino era uma kunoichi experiente apesar da aposentadoria forçada e, com certeza, entendia o que ele queria dizer quando dizia próxima aventura.

— Mas já? Nossa... Você precisa de uma folga, Tenzō. – A loira suspirou com um manear de cabeça — Se você não pedir uma folga, eles nunca vão te dar, hein? Então quando voltar, certifique-se de pôr o Shikamaru contra a parede e exija algum tempo para descanso.

A pessoa que vai colocar o Shikamaru contra a parede sou eu. Sakura pensou distraída enquanto o homem concordava com a cabeça num gesto tão inquieto.

— Bem, talvez você possa tomar um café comigo quando isso acontecer.

Mas a kunoichi de cabelos cor-de-rosa logo saiu de seu torpor ao ouviu o ousado convite que Yamato fazia para uma Yamanaka Ino que não revelava absolutamente nada em seu olhar. Era como se ela não estivesse ciente do que estava acontecendo naquele momento, e Sakura quis apenas ser um diabo sussurrante em seu ouvido: Ele tá tão afim!

— Trate de voltar em segurança então. – Ino disse com aquele sorriso tão natural, e Sakura quase acreditou que ela não sabia que um café, na linguagem de um Yamato tímido, significava um te acho linda para um caralho, saia comigo, por favor.

A resposta de Ino pareceu desconserta-lo e só depois de um breve momento, passando a mão nas laterais da calça num gesto nervoso, quase como se não acreditasse no que tinha acabado de falar, Yamato iniciou uma despedida apressada. Sakura ainda queria rir, mas utilizava de todo autocontrole que existia para não constranger o fofo do Yamato, que sempre teve um crush na Ino.

Disse adeus reforçando seu pedido para que cuidasse de Naruto, enquanto Ino sorriu reafirmando que lembraria daquele convite. Yamato, com suas bochechas vermelhas, assentiu com a cabeça e fugiu, deixando para trás as duas mulheres que se encararam. Ino foi rápida em arquear aquela sobrancelha loira perfeita como se perguntasse o que foi? Mas Sakura sabia jogar aquele jogo, dando os ombros como se não houvesse nada a ser comentado. A loira revirou os olhos e a amiga finalmente riu.

— Eu acho que você deveria olhar com mais carinho para o Yamato. – A voz de Sakura se fez presente ao passo que Ino trancava a porta da floricultura, certificando-se de que a placa interna exibia os dizeres fechado. — Ele é doido por você desde que eu me lembro.

— Lá vem você de novo com essa história – Respondeu dando alguns passos para alcançar a porta ao lado do estabelecimento — Só porque ele é gentil e educado não quer dizer que está dando em cima de mim.

— Corta essa, Ino! Você sabe, tanto quanto eu, que ele tá caidinho por ti. – Insistiu enquanto seguia a amiga, entrando na casa que agora também deveria chamar de sua — Você não precisa, sei lá, casar com ele, só tô falando pra dá uns amassos, passar o tempo, sentar no mokuton dele.

— Credo – Ino riu alto demais com a menção do ninjutsu especial do homem, contagiando a amiga lesada que havia acabado de soltar aquela perola — Sakura, mesmo que fosse o caso de ele realmente estar afim de mim, eu não brincaria com ele dessa forma. O Tenzō parece ser o tipo de cara que quer casa, filho e cachorros; e eu sou a depravada da vila que engravidou de quem não devia, destruiu a própria reputação e a reputação do clã, mãe solteira e que prefere gatos, então... Sabe? Não posso dar o que ele quer. – Ino disse e Sakura revirou os olhos com exagero, mas antes que pudesse retrucar, a loira completava: — Além disso, ele parece ser meio baunilha.

Sakura a encarou por um momento, a última palavra dita ecoando no vazio repentino da sua mente, e quando finalmente compreendeu, a mulher de cabelos cor-de-rosa apenas perguntou:

— E qual o problema?

— Ai, Sakura... Depois de tanto tempo sem dar umazinha, tu acha mesmo que eu quero um papai-mamãe meia-boca? Se eu for transar com alguém, eu quero voltar precisando de uma pomada pra assadura.

O riso explodiu no recinto, perdurando um momento a mais. Sakura se sentou no sofá, logo ao lado de onde Ino se sentara logo depois de se livrarem dos sapatos, e quando conseguiu falar novamente, continuou o assunto:

— Céus, Ino! Tenha amor pela sua boceta! – Pediu vendo a amiga dar os ombros, como quem pede desculpas por não se sentir culpada. — E quem vê cara não vê coração, tá? Talvez o Yamato seja desses que goste de, sei lá, enforcar durante o rala-e-rola?

Ino fez uma careta.

— Não é esse tipo de sexo que eu gosto, Sakura. E fala sério, tu acha mesmo que ele tem aquela pegada? Eu não consigo imaginar ele olhando para alguém com aquela expressão de "hoje eu vou te comer, e você vai lembrar dessa foda pra sempre"

— Olha, se você quer sair do celibato desse jeito, eu posso te emprestar o Kiba.

Me emprestar? – Ino repetiu rindo — Por acaso ele é teu consolo, amiga? Tu guarda ele na gaveta de calcinha também?

— Você me entendeu! O Kiba sabe fazer isso que você acabou de falar e é doido pra te dar uns pegas.

— Sakura, eu não vou dar pro Kiba! Ele pode ser o Deus do Sexo, eu não tô nem ai! Não tenho tesão nele! Às vezes eu até me pergunto o que diabos você vê nele!

— O Kiba é gostoso pra caralho, Ino; teu gosto pra homem que é esquisito! Onde já se viu não achar o Shikamaru um tesão de macho? E agora me vem com essa do Kiba!

— De novo esse papo do Shikamaru? – Ino fez uma careta — Sakura, o Shikamaru é desleixado! O Kiba é um rodado! E o Tenzō, ok, ele é bonito, mas a cara dele grita sexo entediante!

— Wow! Temos um progresso! – A mulher de cabelos cor-de-rosa exclamou com exagero — Yamato é bonito, é?

— Ai, me erra, Sakura!

A mulher riu com o pedido tão sincero da amiga, jogando a cabeça no apoio do sofá de maneira relaxada demais. Era desse tipo de conversa que ela precisava para esquecer a variação absurda de humor que estava tendo naquele dia, com conversas aleatórias, profundas, esquisitas... Havia tanta coisa para se preocupar, mas todas estavam além da sua alçada, então a única coisa que Sakura podia fazer era se distrair.

Naruto ainda iria para fora da vila, Sasuke ainda estaria por aí, e ela... Bem, ela teria uma equipe para comandar logo mais. Fez uma careta de repente antes de soltar um suspiro cansado pensando na certinha, no Naruske, e no Júnior. Será que eles tinham, pelo menos, a habilidade de trabalhar em equipe? Naquele único dia que assistiu Naruto interagir com os três, a única impressão que ficou foi que a certinha era péssima, o Saskoruto queria impressionar a certinha e acabava fazendo merda, e o Júnior, apesar de excelente, era um metido.

Como que os três iriam funcionar com One Punch Sakura?

Sakura suspirou.

— Como foi a reunião?

Virou-se para Ino ao seu lado com um olhar brevemente preocupado. Sorriu cansada, dando os ombros no processo.

— Shikamaru me deu a primeira missão com o Time 7. Uma Rank-A de verificação. – Disse, fazendo uma pausa logo em seguida enquanto olhava para a mulher, mas sem realmente enxergá-la. — Naruto sai da vila hoje junto com o Yamato e mais um esquadrão, e Ino... Tem alguma coisa acontecendo lá fora com relação às bijuus. Eu sei que o Shikamaru tem até mais informações que eu, mas eu não acho que seja uma boa ideia enviá-lo dessa maneira...

A loira concordou com um movimento contido de cabeça, não fazendo menção de fala, e só por isso Sakura continuou.

— Eu sinto, com cada fio de cabelo que tenho, que tem Uchiha envolvido nessa coisa, mas ainda não há nenhuma pista que faça essa ligação. – Ela pausou novamente, o olhar se perdendo no teto — E eu tô aqui, sabe?

— Sakura – Ino suspirou seu nome, colocando a mão sobre a perna da moça com uma suavidade aconchegante — Às vezes a gente precisa se afastar um pouco das coisas que queremos, do caminho que trilhamos, para ganharmos perspectiva.

— O problema é que, no meu caso, Naruto pode... Ele... – Os lábios se fecharam num gesto de contenção. Continuar aquela frase significava tornar real um receio que até então só existia na privacidade de seus pensamentos. Ela engoliu seco antes de levantar seu olhar cauteloso na direção de Ino, que a olhava paciente.

É verdade, não é? Aquela era Yamanaka Ino.

Os olhos verdes novamente escaparam dos dela de uma maneira estranhamente inquieta, as costas se curvaram e o ar saia pelo nariz como um gesto de quem precisa aliviar a tensão, mas jamais conseguia. Foi a mão de Ino que saiu de sua perna e passou para suas costas, indo e vindo. A sensação era boa, reconfortante, mas ao mesmo tempo, havia aquela parte de si que queria afastá-la sem motivo aparente, e ela sabia exatamente que parte era aquela.

Era a mesma parte de si que sussurrava discretamente que haviam soluções mais práticas.

— Deita aqui. – A loira pediu depois de um momento, e Sakura demorou um segundo a mais para finalmente girar seu olhar para vê-la dar dois tapinhas em sua coxa enquanto sustentava aquele ar paciente.

Acabou hesitando antes de ceder, e só o fez porque percebeu que não tinha motivos para não o fazer. Ela gostava daqueles arrepios bons que percorriam seu corpo a partir das mãos de Ino, que acariciavam seus cabelos com uma leveza absurda. Sempre gostou quando Ino cuidava de seu cabelo por isso, e ainda naquele momento, Sakura sentia que era uma das melhores sensações do mundo.

— Não se preocupe com o Naruto – Ino disse depois de um momento naquele tom tranquilo — Eu concordo com o Kiba quando ele fala que você precisa deixar o Naruto fazer as escolhas dele, afinal, foi pra isso que ele treinou tanto, e ainda que pareça insuficiente para você, se o Shikamaru diz que ele está apto para essa missão, então eu confio nisso. Eles são amigos, você sabe, e o Shikamaru jamais o colocaria numa situação de riscos não calculados. Além disso... Bem... O Tenzō também vai estar lá, não é?

...

A voz de Ino reverberava pelo espaço, as ondas sonoras batendo nas paredes e móveis, voltando para os ouvidos das únicas pessoas presentes naquela sala. Na janela, Sakura pôde ver as caqueiras decoradas no peitoril desgastado. As plantas miúdas, todas vezes, recebiam o sol intenso do dia de verão enquanto suas folhas balançavam tão suaves com o vento lá fora.

Os olhos verdes se fecharam quando a voz de Ino cessou e os ruídos mudos dos dedos de Ino escorrendo em seus cabelos era a única coisa presente, assim como as sensações de seu corpo, que não relaxava diante do toque, mas estava concentrado o suficiente para apreciá-lo.

Umedeceu os lábios enquanto a frase se formava na sua mente de maneira muito limpa. Deveria dizê-la? Deveria colocar aquilo para fora? Se dissesse, que tipo de mensagem estaria passando?

— Ino, eu não quero que o Naruto encontre o Sasuke.

...

A voz dela soou silenciosa e discreta. Não era um sussurro, mas não foi dito como se quisesse ser escutada, e a loira se esforçou para não hesitar em seu toque singelo, continuando seu carinho suave enquanto sua expressão revelava a confusão diante da frase.

— Por quê?

Foi a única coisa que pôde responder diante do que fora revelado, afinal, esse era o objetivo, não é? Sasuke era o objetivo de uma vida inteira de luta e sofrimento.

Sakura ergueu sua mão, colocando sobre a de Ino em seus cabelos. Demorou um momento daquela maneira, e então, finalmente, sua voz surgiu novamente naquele mesmo tom silencioso:

— Sasuke não é mais o mesmo. – Disse antes daquela breve pausa — Ele é... Outra pessoa... E se... Se eles se virem, então... Isso só vai magoar o Naruto. – Ela fechou os olhos soltando um longo suspiro enquanto sua mão apertou mais forte a de Ino sem que sequer pudesse se dar conta — Eu já encontrei com o Sasuke duas vezes, Ino. As coisas que ele anda fazendo, o jeito que olhava para mim... É como se nada antes do golpe existisse.

Era nítida a imagem em sua mente daquele primeiro encontro que tivera com Sasuke. Ele estava mais alto, o cabelo bem cortado, como sempre, usava uma ombreira por baixo das vestes escuras, e uma katana se exibia na cintura. Era igual ao Sasuke de antes, mas completamente diferente. Ele havia surgido entre as tempestades de areia naquela missão que se transformou numa das maiores batalhas que já teve.

Quando acertara aquele único soco em Akasuna no Sasori e o corpo do homem voara metros até finalmente atingir o chão, Sakura olhara entre o caos de vento e areia, enxergando Uchiha Sasuke no meio de tudo aquilo em sua capa negra esvoaçante.

O sangue lavava o corpo feminino tão franzino formando uma crosta estranha devido aos grãos de areia que se acumulavam. Haviam cortes nos seus membros, e a paralisia do veneno ainda persistia parcialmente apesar do antidoto consumido, mas diante de Sasuke, Sakura apenas tirou sua máscara para encará-lo diretamente. Eles se viram. Se olharam.

Sasuke estava tão limpo.

As bandagens que cobriam sua testa, o cabelo que voava revolto, e a imagem sóbria que exibia ao olhá-la... Sasuke parecera centrado o suficiente, distante. Sakura gritara o nome dele por cima do vendaval, mas ele não respondeu. Era como se não a enxergasse. Como se ela não fosse digna.

Era como se ela fosse ninguém em sua vida.

Foi quando ele desembainhara a katana, finalmente revelando onde guardava toda a podridão.

Uma das primeiras coisas que aprendera com Sakumo, foi a sempre limpar a lâmina de sua tantō antes de embainhá-la, não importando o quão suja a própria Sakura estivesse... A tantō tinha que estar sempre limpa. Sasuke, no entanto, estava limpo como se nunca tivesse sido tocado, mas sua lâmina era suja com as marcas de todas as batalhas que já teve.

Eles avançaram um contra o outro, e Sakura só tivera tempo de desembainhar sua lâmina naquele curto momento. O choque das armas sobrepujou o vendaval produzindo um ruido tão alto que Sakura jamais esqueceria. Seus olhos não se desviaram dos dele, profundos, e a partir daquele momento, tudo naquela breve luta fora apenas sobre mágoa e decepção.

Sakura lembrava do fogo intenso daquela bola de fogo gigante, que não era mais vermelho... Não... Sasuke havia alcançado um patamar muito maior quando se tratava de katon. Suas chamas eram de um azul intenso, muito mais quente, muito mais letal, fazendo parte daquela areia derreter e cristalizar, mas Sakura não lembrava da sensação do queimar na pele, e talvez fosse mérito do veneno de Sasori, ou talvez fosse seu estado de adrenalina elevada, ou até mesmo as pílulas que tinha consumido naquele dia.

A quem estava enganando? Com certeza era efeito das pílulas do soldado.

Se perguntassem a ela, Sakura não conseguiria descrever a sensação de nenhum daqueles golpes que sofrera, mas conseguiria descrever com plena exatidão a sensação da sua lâmina atravessando a pele dele, do sangue Uchiha espirrando no colete já sujo, do cheiro metálico em meio aquela ventania estranha e o barulho das marionetes que ficaram em seu caminho nas horas que corria até ele.

Ela lembrava o caminho de seu chakra, e dos olhos de Sasuke, que se tornaram vermelhos com aquele padrão único de seu sharingan assim que percebera que perderia aquela luta.

Mas àquela altura, Sakura também tinha seus truques.

O selo de uma centena cobrira sua pele com as linhas negras, e naquele momento, ambos souberam que se continuassem, nenhum dos dois voltariam com vida.

Fora o primeiro encontro que tiveram.

— Sasuke já não é mesmo desde muito antes do golpe, Sakura. – A voz de Ino se fez presente do local, puxando Sakura daquelas memórias tortuosas nas quais se perdeu por um breve instante — Você mesma me disse que ele estava diferente naquela época. Você notou. E quando lutaram no vale do fim, dias depois, você se esgueirou para dentro do meu quarto, lembra? Você lembra do que me disse?

...

— Eu lembro.

Ino segurou a mão dela com mais força, que espasmava cada vez mais frequentemente. Não era de sua intenção retomar aquele assunto de tanto tempo atrás, nem achou que sua simples pergunta fosse se desdobrar em algo tão intenso. Sakura não era de falar tanto sobre Sasuke, mas sempre que se propunha, o conflito que nunca se fora se fazia presente.

— Você não pode proteger o Naruto disso, Sakura. Ele precisa saber quem é o Sasuke agora. – Ino disse com sua voz certeira enquanto Sakura encarava alguma coisa qualquer — Naruto estar se movimentando em prol dessa promessa é um sinal de que ele também sabe que precisa ver quem Sasuke se tornou, não pelas histórias que contam, mas com os próprios olhos, e Sakura... Talvez você devesse começar a pensar mais sobre isso.

— Isso é a única coisa na qual eu penso, Ino. – Ela disse em tom irritado, mas a mão não largou a dela.

— Não, Sakura. Você pensa em encontrar Sasuke e salvá-lo, mas eu estou falando sobre ver o que o Sasuke se tornou, e tomar uma decisão a partir disso.

...

O silêncio se fez longo em uma densidade pesada demais para uma tarde tranquila como aquela. Lá fora, pessoas circulavam alheias a tudo o que acontecia, vivendo suas vidas com seus problemas pesados ou não, com suas felicidades pontuais, tropeços confusos, animosidades... Lá fora, fora da vida da kunoichi de cabelo cor-de-rosa, tudo parecia mais banal, mais lidável.

Sakura engoliu seco novamente, seus olhos ainda incapazes de enxergar qualquer coisa que não fosse a quina daquela mesa de centro bonitinha demais. Tentava manter sua respiração estável, assim como exercitava sua mente para não aglomerar pensamentos disformes, sem muito sucesso. Quando falava sobre todas aquelas coisas, todas aquelas sensações confusas vinham junto, e ela não sabia direito o que era cada coisa, mas tudo se acumulava numa massa enorme dentro de si.

A voz de Ino, mesmo já não existindo fisicamente naquele espaço, se expandia dentro da mente de Sakura, colidindo com todas as coisas que jaziam tão conflituosas dentro de si. Tomar uma decisão. Que decisão havia para ser tomada além daquela que já tinha sido tomada?

— ... Eu não posso abandonar o Sasuke... Eu... não posso.

Dizer tais coisas a despedaçava, porque, sim, ela lembrava do que tinha dito anos antes à sua melhor amiga naquela noite chuvosa. Lembrava de seus medos, lembrava de ser fraca, inútil. Depois de tudo o que fez e o que passou, não conseguir salvá-lo era admitir que ainda era fraca, ainda era medrosa e ainda era inútil.

Mais ainda, abandonar essa promessa era ferir Naruto e a si mesma, era cortar esse laço tão importante que, ao menos nela, ainda existia tão firme, e mesmo que ela não conseguisse enxergar com precisão as possibilidades de um futuro onde todos sorriam juntos, ela ainda podia lutar por isso. Ela ainda podia vencer, não é? É para isso que tanto se esforçou, que tanto perdeu, que tanto...

...falhou.

Ela fechou os olhos sentindo aquilo tudo a consumir como se as chamas azuis de Sasuke existissem dentro de si, devastando todas as suas esperanças, todas as promessas, destruindo tudo o que havia para lhe largar às cinzas de um mundo novamente vazio, como aquele em que nascera. Como aquele em que não tinha ninguém.

Foi nesse momento que a mão de Ino se desvencilhou da sua, e ali, aquele único segundo, Sakura quis voltar para aquele lugar em que sabia que não era bom, mas que era o único que a fazia esquecer de tudo aquilo, de todo o peso, de toda a dor acumulada. Ela quis, magicamente, colocar sua mente na direção certa.

Daí os dedos de Ino lhe tocaram o rosto, deslizando pela sua bochecha apoiada no tecido roxo da saia da mulher, abrindo espaço para se apoiar ali com cuidado antes de puxá-la suavemente. Sakura hesitou um segundo antes de se deixar ter seu rosto guiado para aquela posição onde podia ver Ino diretamente.

Elas se olharam e o polegar de Ino acariciou seu rosto naquele movimento contido de vai e vem.

— Não viva só por uma promessa, tá? – Ino pediu de repente, sua voz aveludada, seu semblante tão sério, suas mãos tão macias... — Respire um pouco, Sakura. Você pode fazer isso, ninguém vai te culpar se você parar por um momento.

A hesitação veio breve antes daquele assentir mudo com a cabeça. Sakura ainda olhava para Ino, se perguntando como a mulher conseguia se manter tão leve ao dizer palavras tão significativas, e então fechou os olhos, concentrando-se na sensação calorosa que Ino trazia para si.

Respirar, é?

Sakura respirou profundamente antes de sentir seu corpo amolecendo no sofá, e a cabeça aconchegando nas mãos de Ino, que soltou uma risadinha como quem está satisfeita com algo.

— Além disso, essa testa enorme vai ficar cheia de rugas rapidinho se você só se preocupar.

A voz veio divertida e Sakura acabou rindo do súbito comentário fora de hora. Abriu os olhos para ver sua amiga lhe encarando provocativa, naquele humor que só existia entre delas.

— Pensei que você não ia praticar mais bullying comigo.

— Eu nunca disse isso, Testa-de-Marquise.

— Você não comece, Ino-Porca.

Elas riram por um momento com as provocações baratas que um dia, quando bem mais novas, foram motivos de desavença, mas que agora eram apenas mais um daqueles momentos nostálgicos que alicerçaram sua amizade. Continuaram conversando brevemente, dessa vez afastando o assunto mais pesado para abrandar os ânimos, e Ino não deixou de notar o suor da moça começar a se precipitar, mas ao menos os espasmos não estavam lá e o humor parecia firme o suficiente.

Foi só depois que Ino a enxotou para o banheiro. Shikamaru e Inojin chegaram pouco depois em posse de um pergaminho entupido de kunais e shurikens, fazendo-a questionar se eles estavam se preparando para alguma guerra ou batalha épica, mas a única resposta que teve foi é pro treino com a tia Sakura.

É claro... Seu filho era empolgado com qualquer coisa que não fosse o jutsu de transferência de mente, e ela já havia aceitado que a habilidade suprema de seu clã morreria consigo. Foi o que ela resmungou antes de Sakura voltar naquela blusa de mangas 3/4 e saia branca curta o suficiente para fazer o único homem do lugar olhar aquelas pernas enquanto a mulher calçava as botas.

Homens.

— Tem certeza que não quer nos acompanhar, Shikamaru?

Mulheres...

— Talvez numa próxima.

Sakura o olhou por um momento mais longo, como se quisesse dizer alguma coisa naquele sorrisinho safado que sustentava no rosto, e então apenas desistiu, chamando Inojin logo em seguida para se aventurarem nos campos de treinamento.

Ino revirou os olhos quando Shikamaru a olhou daquele jeito preguiçoso de sempre, sentado à mesa como se não soubesse do que estava acontecendo, e ela até quis dizer alguma coisa, mas optou por deixar que eles dois resolvessem o que gostariam de fazer um com o outro, ainda que Shikamaru parecesse ter apenas um interesse visual.

— Nem tira esse cigarro do bolso – Ela disse quando notou o movimento — Já basta sua casa fedendo.

— Um cigarro não vai te matar.

— Não, mas vai me deixar fedendo, e eu gasto muito com perfume para acabar fedendo a cigarro, Shikamaru.

Ele riu, levantando-se daquele jeito vagaroso na direção da porta dos fundos, se escorando ali enquanto içava o isqueiro do velho sensei no bolso.

— Como ela tá depois daquilo tudo? – A voz dele surgiu torta pelo tentar falar enquanto acendia o tal cigarro.

— Honestamente? Eu diria que ela tá se esforçando mais. – Deu os ombros enquanto se apoiava no balcão próximo a pia, olhando para ele de lado — Ela tá bem, no geral. – Completou maneando a cabeça, afinal, Shikamaru não estava querendo um relatório médico — Você tá querendo saber dela por conta da missão?

— Ela já veio correndo te contar?

— Não faz essa cara. Ela não me disse nada que eu não pudesse saber. – Mentiu, porque obviamente ela não deveria ter conhecimento sobre nada relacionado às bijuus — Apenas me disse que você a deu uma missão Rank-A.

— Você sabe que eu confio em você, não é? Só que os bostinhas do Hyuugas ficam em cima de mim, esperando qualquer deslize. Se desconfiarem que você tem conhecimento de qualquer coisinha, vão fazer o Shino torturar você até o último suspiro.

— Shikamaru, eu tô fazendo exatamente o que você me disse para fazer. Não chamo atenção, não saio com ninjas, vivo minha vida como a comerciante que sou. Eles não têm nada contra mim.

— A Sakura com você me preocupa. Nós dois sabemos que ela adora afrontar a Hinata, e nessa confusão delas duas, você é o elo fraco.

— Hinata pode ser a desgraçada que for, mas ela sabe separar as desavenças dela.

— Ela sim, mas o priminho dela não.

Eles se olharam por um longo momento, Shikamaru tragando mais profundamente enquanto Ino suspirava tão profundamente quanto.

— Inojin me fez perguntas hoje, Ino. Ele perguntou se era por culpa dele que os Hyuugas te olhavam torto.

— Por que ele te perguntou isso?

— Os filhos da puta tentaram me emboscar hoje. Eles não gostaram de saber que a Sakura tá de volta para ficar e tentaram me intimidar de algum modo.

— Você não contou para eles? Tomou uma decisão sem consultá-los? – Ela questionou aflita — Shikamaru!

— Não olha para mim desse jeito. Eu não fiz nada errado, ou ilegal. Não tramei contra ninguém. O Hokage quem solicitou isso a pedido de Naruto. Não é meu dever estar comunicando esse tipo de tramitação aos Hyuugas, que já pediram mil vezes para serem tratados como quaisquer outros jounins.

— Não banca uma de ingênuo pra mim, Shikamaru! Todo mundo sabe que eles só falam isso para parecerem humildes! E todo mundo sabe que eles são tão ou mais importante que o conselho de Konoha! Aí você vai lá e faz essa mudança, com alguém que eles odeiam, e espera que o que aconteça? – Perguntou exacerbada — Aliás, o que aconteceu?

Shikamaru revirou os olhos de maneira resignada, a fumaça escapando pelo nariz de maneira suave enquanto os olhos azuis o encaravam, esperando de maneira inquisitiva.

— Nada aconteceu. – Ele respondeu por fim — Eles me encontraram com Inojin na saída da Academia, tentaram intimidar o Inoji com aqueles olhares, e depois tentaram me intimidar, mas eu os coloquei em seus devidos lugares.

Puta que pariu.

— Ino...

Ele chamou naquele tom de voz de quem pede para que seja razoável, mas Ino apenas balançou a cabeça negativamente.

— O que você respondeu para ele? – A mulher perguntou com uma voz bem mais baixa, mais grave, mais culposa.

— Que não tinha nada a ver com ele.

A viu concordar com a cabeça num movimento contido de quem entende a resposta dada, e então, com mais um daqueles suspiros, ela andou pela cozinha na direção dele, tirando o cigarro quase acabado dos dedos dele e colocou na própria boca.

— Ino, confia em mim. Eu não vou deixar nada acontecer a vocês dois.

Ela soprou a fumaça de um jeito triste, olhando para ele enquanto via as linhas acinzentadas flutuarem no pequeno espaço entre eles. Muita coisa ia mudar naquela vila, e é claro que a volta de Sakura iria agitar os ânimos de todos. Se sentiu idiota por não ter pensado além do próprio umbigo.

— Eu sei. – Ela disse depois de um momento, devolvendo o cigarro para ele — Mas o Inojin tá crescendo, e... Céus...

— Diz que ele é meu filho.

Ino riu da cara de pau do amigo, que compartilhou do humor com aquele sorriso preguiçoso.

— Até você com essa conversa?

— Alguém já sugeriu isso?

— Sakura.

— É claro...

— Imagina como isso não vai soar na sociedade konohagurense... Yamanaka Ino, não satisfeita em viver um romance com o inimigo, também o trai com o companheiro de time, e durante anos esconde a verdadeira paternidade da criança desgarrada?

Eles riram com respeito um pelo outro.

— Achei poético.

— Poético? Isso é história praqueles livros do Jiraya-sama! – Disse com uma risada — Além disso, ninguém vai acreditar, Shikamaru. Os Hyuugas vão continuar no meu pé, eu vou continuar banida da vida ninja, e o Inojin, além de lidar com a omissão, vai ter que lidar com uma mentira cabeluda dessas. Isso tá fora de cogitação.

O silêncio se fez presente, ambos pensando em coisas similares, porém distintas. Não havia muito o que fazer, e nem mesmo a mente analítica de Shikamaru conseguia desvendar esse quebra-cabeças sem que alguém possivelmente se ferisse.

— Eu acabei com meu clã, com a minha vida, e de quebra levei a vida do meu filho pro ralo junto com a minha. – Ela disse depois de um momento, soltando o ar com uma risada sem graça — Quem diria que o amor seria minha ruína.

— Nada foi arruinado, Ino. – Ele disse condescendente — E dai que você não é mais ninja? Você tem uma ótima vida. Uma vida segura. Tem amigos, tem pessoas em quem confia. Tem teu filho, que tem todo um futuro pela frente, você sabe que ele tem. Eu vou garantir que ele tenha. E o que é o nome de um clã senão apenas um nome? O importante é o coração do shinobi, nós dois sabemos disso.

Ino maneou a cabeça tentando acreditar nas palavras dele, mas ao mesmo tempo havia aquela parte de si que sentia falta de ser ninja, de ter seu nome envolvido nas grandes histórias que circulavam pelo mundo, de fazer missões difíceis, da adrenalina, do comprometimento... A Vontade de Fogo ainda queimava no coração de Yamanaka Ino, e às vezes, em momentos como aquele, a mulher só queria poder se chamar novamente de kunoichi.

— Vem cá – Shikamaru chamou abrindo seus braços e ela logo cedeu, aceitando aquele abraço com o cheiro fedido do cigarro barato que impregnava as roupas dele, não importasse o sabão que usava, mas que ao mesmo tempo era aconchegante, conhecido e acolhedor. — Nós seremos, para sempre, Ino-Shika-Chō.

Ino sorriu.

.

.

.

Olhava a estante de pergaminhos com cuidado, selecionando aqueles que possivelmente poderia precisar durante uma missão tão complicada. Não poderia levar tanto peso, mas desde que seria o guarda de Naruto, Yamato optou por uma mochila um tanto maior. Algumas coisas, é claro, iam dentro de pergaminhos, enquanto outras eram cuidadosamente alocadas nas cartucheiras, como de costume, armas e pílulas do soldado deveriam estar sempre a mão para quando precisasse.

Ainda tinham os bolsos do colete ninja regular, o verde com gola alta acolchoada. Era mais pesado que o da ANBU, porém, tinha que admitir que os bolsos extras eram bem vindos em missões como aquela.

— E você não tem data pra voltar?

O ouviu perguntar às suas costas, sentindo o olhar dele acompanhar seus movimentos com nível moderado de interesse. O moleque era assim, não muito interessado em nada, mas ao mesmo tempo atento a tudo.

— Basicamente – Respondeu pegando o último pergaminho que precisava antes de virar — Mas não se preocupe, eu não acho que vá durar tanto tempo assim.

Maneando a cabeça, o menino pendeu o corpo no sofá, se deixando deitar de lado, com uma perna flexionada, enquanto mantinha seus olhos no homem.

— Você disse da outra vez que, quando voltasse, ia passar pelo menos um mês aqui.

Lembrou num tom de voz que Yamato julgou ser algo entre decepção e indiferença. Às vezes era complicado ler um moleque que usava máscara o tempo todo.

— Bem, eu sei o que disse, mas é que surgiu essa missão urgente que só eu posso realizar. Você sabe como funciona. – Explicou antes de enfiar tudo na mochila, verificando também os outros itens que já estavam ali.

Tch.

Yamato riu do mau humor do rapaz, que nunca se esforçava para ser claro com as palavras, mas arrumava um jeito de deixar evidente toda vez que estava descontente. Talvez estivesse com saudade, ou entediado, ou os dois, mas Kakashi nunca se permitia dizer com as palavras, usando sempre ruídos aborrecidos que Yamato havia aprendido a decifrar com o tempo.

Foi quando se levantou, pegando o colete sobre a mesa do centro. Já tinha tomado um banho, colocado seu uniforme limpo, e agora restava apenas pegar suas coisas e partir rumando ao encontro de Naruto no local previamente indicado por Shikamaru.

Olhou para Kakashi largado em seu sofá e percebeu, finalmente, que seria a primeira vez que ele ficaria exatamente sozinho na vila desde a morte de Sakumo, já que Naruto também partiria. De repente, sentiu-se idiota por não ter pedido a Sakura que ficasse de olho no rapaz, mas ao mesmo tempo, Kakashi já estava grandinho o suficiente para saber se virar completamente sozinho.

Era quase um jounin, afinal.

Yamatou coçou a nuca, ainda incomodado com a falta de percepção de toda a situação. Mesmo que ele já fosse capaz, Kakashi ainda era só um adolescente aporrinhador com amigos estranhos. Naruto servia como suporte quando Yamato estava em missões, e Yamato serviu como suporte, talvez o mais próximo de figura paterna, desde que Sakumo se foi.

Perdeu as contas de quantas vezes cuidou do moleque adoecido por uma gripe qualquer, ou de quantas fezes o arrastou para o banheiro, porque aquela fase de não querer tomar banho foi a pior. Foi Yamato quem agilizou a venda daquela casa gigante onde Sakumo morava, porque seria muito mais fácil cuidar dele se ele fosse o seu vizinho, como era nos dias atuais.

E agora, Yamato sentia como se fosse deixar seu irmão mais novo pirralho completamente sozinho pela primeira vez na vida.

— Ei, como o Naruto também vai sair em missão comigo, então eu quero que você...

— O Naruto-sensei vai com você? – Ele interrompeu franzido o cenho — Então... Eu também vou?

Yamato arqueou uma sobrancelha.

Naruto não tinha dito?

— É, ele vai comigo. É uma missão que só nós dois podemos fazer, ou seja, vocês não vão.

Kakashi o encarou por um momento, como se estivesse processando alguma coisa, e então girou seu corpo, voltando à posição sentada de antes.

— O quê? – O mais velho perguntou confuso com aquela reação.

— Meu time vai ficar parado por todo esse tempo, ou...?

O sorriso veio fácil ao rosto de Yamato quando percebeu que ele não fazia ideia do que ia acontecer, e mais que isso, achava que talvez fosse ser promovido. Naruto não o tinha dito, com certeza, que Sakura assumiria o time, e só por isso Yamato quis ter uma bola de cristal para assistir o momento quando acontecesse.

— Não sei. – Mentiu descaradamente — Talvez...

Mas Kakashi não era besta, e o olhou daquele jeito desconfiado. Acabou que a risada veio fácil ao mais velho, que resolveu ignorar aquela inquisição antes que o rapaz começasse a fazer perguntas demais.

— Como eu ia dizendo, já que o Naruto também não vai estar aqui, eu quero que você tome o dobro de cuidado.

— Você sabe que eu não tenho mais dez anos, né, senpai?

Toda vez que aquele senpai saia, Yamato se sentia com dezenove anos novamente, mas já eram quase trinta.

— Sei, e é justamente por isso que quero que você tenha cuidado. Não é porque você é ninja que deve descuidar das coisas rotineiras. Tome banho todos os dias, continue se alimentando bem, não aceite ilícitos, tranque as portas quando estiver fora, não deixe a louça acumular, certifique-se que tem roupa limpa, troque a roupa de cama com frequência, e use camisinha.

...

— Vai me lembrar de não aceitar doce de estranhos também?

— Não aceite doce de estranhos!

Kakashi revirou os olhos e Yamato aproveitou para uma boa risada, porque seu vizinho tinha uma alma de velho, hábitos de velho, e era metódico como um velho. Ele sabia que o rapaz não faria nada idiota, e que possivelmente nada de mais aconteceria, mas era sempre bom deixá-lo em alerta.

Uma vez vestido em seu colete, Yamato colocou a mochila nas costas e foi até genkan para calçar seus sapatos. Kakashi se levantou, seguindo o homem em sua camisa azul claro e bermuda surrada, fazendo com que Yamato comentasse, logo depois de trancar a porta, que ele deveria comprar algumas roupas para ficar em casa. O adolescente revirou os olhos resmungando algo sobre não ser necessário, já que ele não recebe ninguém em casa, mas Yamato insistiu ao passo que desciam as escadas do prédio baixo onde moravam.

Foi quando atingiram a rua pacifica que ambos se olharam finalmente, Kakashi enfiando a mãos nos bolsos.

— Toma aqui as chaves do meu apartamento – Yamato disse entregando o chaveiro — Continua regando minhas plantas, tá?

— Ah, falando nas plantas, aquela lespedeza vai precisar de uma caqueira nova. – Kakashi lembrava antes de enfiar as chaves no bolso — A raiz está subindo.

— Você pode aparar a raiz, não precisa deixar crescer.

— Mas aí a planta não morre?

— Não, é só não cortar a principal.

— Mas não é pelas pequenas que a planta pega os nutrientes?

— ... – Yamato podia explicar, e até queria fazê-lo, mas percebeu que levaria tempo demais — Tem um livro chamado Botânica Caseira, volume 3, na minha estante, lá você encontra como fazer uma poda de raiz.

Kakashi fez uma careta.

— Não posso só levar na floricultura?

— Não, não pode. Não leve na floricultura, entendeu?

Mesmo depois de anos, ainda era péssimo quando alguém se aproveitava de informações privilegiadas para se divertir daquele modo, afinal, ali estava o olhar espertalhão do Hatake mais novo, que riu depois de um momento.

— Chama logo a Ino-san para sair, Tenzō-senpai! Você sempre fica todo bobo perto dela...

— Eu não sou o tipo dela, com certeza seria rejeitado. – Disse de novo, porque não era a primeira vez que Kakashi entrava nesse assunto, e não seria a última, com certeza.

— Besteira! Você é bonitão! Eu ouvi a Kurenai dizer que as mulheres gostam de caras de ombros largos, sorriso gentis e confiantes. Você é tudo isso.

Yamato deu uma risada mais longa.

— Você tá querendo me dar conselho amoroso quando nem namorada você tem? Quando você conseguir uma, aí você fala comigo sobre isso.

— Eu não tenho namorada porque não tem ninguém que eu goste. – O outro argumentou — Ao contrário de você, que gosta de alguém, mas prefere se apegar a isso de não sou o tipo dela.

No passado, Yamato conheceu Ino através de Sakura, e não foi paixão à primeira vista, longe disso. Ele a achava bonita, e como as duas sempre estavam juntas, Yamato acabava esbarrando nelas com certa frequência, principalmente no hospital. Nesses encontros ao acaso, Yamato se viu tropeçar num sentimento platônico, sim, porque Ino jamais ficaria com alguém como ele. Todos os affairs da loira eram homens misteriosos, esguios, que chamavam atenção pela beleza e olhar sedutor.

E como Kakashi tratou de ressaltar, Yamato era gentil.

Definitivamente, não era o tipo de Ino.

— Você não gosta de ninguém porque é cabeçudo demais – O outro retrucou com humor — Se desse uma chance à Rin, tenho certeza que iria nascer um sentimento bonito por ela.

O rapaz fez outra careta.

— Você tem que parar de me empurrar pra Rin. Ela é legal, mas não rola. Além disso, eu não sou fura-olho.

— ... Tem o Gai também...

— E não sou gay.

— Tá bom.

No tempo dele. Yamato pensou enquanto Kakashi o lançava aquele olhar de tédio.

— Já vou indo, então. Se cuide, Kakashi.

— Você também, senpai. Volte vivo.

Yamato esperou, mas para sua surpresa, viu apenas uma mão sendo erguida na sua direção. Arqueou uma sobrancelha confuso e então deu uma longa risada.

— Sério que você quer se despedir com um aperto de mão?

— O quê? Não é assim que se despede de alguém?

— De alguém, sim, mas não de mim. Vem cá! – Yamato exigiu puxando o mais novo prum abraço — A pessoa, depois de anos cuidando da outra, tem que lidar com cada invenção... – Resmungou com humor enquanto sentia Kakashi envolver seus braços na sua cintura.

— Você é sentimental demais, senpai.

— E você cresceu um pouco, hein? Daqui a pouco vai estar mais alto do que eu.

Kakashi sorriu divertido.

— Volte antes que eu comece a te chamar de baixinho.

— Me respeita... – O outro alertou sem realmente estar com raiva — Até depois, Kakashi.

— Até, senpai.

.

.

.

Como de costume, Kakashi e Rin estavam sentados à espera do terceiro integrante do time no campo de treinamento três. A garota, escorada numa árvore, conversava com o amigo que estava sentado no chão em posição de lótus, vestido naquela mascara escura que tornava difícil a leitura de suas expressões. Não falavam de nada muito profundo, ou secreto, apenas foram para onde a conversa fluía, de modo que uma longa hora se passou até Obito finalmente dar o ar de sua graça.

A recepção, no entanto, não foi como a de costume. Obito, é claro, chegou berrando a desculpa do dia – uma velhinha precisava de ajuda com suas sacolas – mas Kakashi não retrucou, deixando os dois integrantes atônitos com a mudança repentina na dinâmica do grupo.

— Você tá doente?

Foi Obito quem perguntou, se aproximando com visível preocupação, mas Kakashi apenas deu os ombros antes de revelar, num tom normal demais, que não adiantava reclamar com ele se havia um atraso maior ainda vindo de outra pessoa, e, de fato, Naruto ainda não havia dado sinais de sua presença, sendo ele alguém que não tinha o costume de se atrasar mais do que quinze minutos.

— É mesmo, o Naruto-sensei não tá aqui.

A voz de Rin se manifestou para os dois, que uma vez desencostada da árvore, acabou girando no próprio eixo como se procurasse algum sinal de vida.

— Ele não vem. – Revelou Kakashi com um ar blasé — Saiu numa missão ontem.

Obito franziu o cenho, tal como Rin, que logo perguntou:

— O sensei te avisou?

— E se ele não vem, por que a gente tá aqui? – Obito emendou confuso, colocando as mãos na cintura.

Kakashi deu os ombros.

— Ele não me avisou, eu soube pelo senpai, mas como na nossa última reunião ele disse que nos encontraríamos hoje para o recebimento da próxima missão, achei que deveríamos esperar de qualquer forma.

Haviam muitas duvidas flutuando na troca de olhares que aconteceu entre Rin e Obito, que olhou para Kakashi em busca de respostas, mas encontrou, ao invés disso, as mesmas dúvidas. No final, não era como se Obito achasse que o mascarado pudesse saber muito mais do que estava simplesmente dizendo, mas ao mesmo tempo, o amigo parecia tão indiferente...

— Você acha que vão mandar alguém no lugar do sensei? – Obito perguntou, se agachando na frente de Kakashi antes de levantar os óculos alaranjados.

Viu o maxilar coberto pelo tecido se movimentar de maneira característica do inicio da fala, mas a voz de Kakashi não chegou a sair.

— Talvez Kakashi seja promovido! – Rin cortava antes que Kakashi respondesse, se agachando também para formar aquele circulo de três — Talvez ele que coordene nossa próxima missão!

— Eh, Bakashi! – Obito disse num sobressalto, tentando mascarar uma série de sentimentos conflituosos que surgiram com a mera menção à promoção jounin do amigo, que todos sabiam que estava bem próxima — Você vai ser promovido e não nos contou?

— Eu acho que não. Não deve ser isso, porque, se fosse, eu teria sido convocado na Torre. – O outro respondeu de maneira muito prática — Só achei que, como o sensei se deu ao trabalho de nos pedir que viéssemos aqui hoje, então talvez devêssemos esperar, mesmo que ele não esteja na vila.

Rin ponderou em silêncio enquanto Obito soltava um longo ruído de quem pensa.

— Talvez não tenhamos missão hoje. – Disse por fim cruzando os braços — Você sabe qual foi o tipo de missão em que o Naruto-sensei foi designado?

Kakashi negou com a cabeça.

— Só sei que foi algo urgente.

...

— Que droga. – A voz feminina se fez presente — Eu tava contando com o dinheiro da próxima missão para comprar um colar novo. – Suspirou com desanimo em sua reclamação direcionada a ninguém em particular.

— Que colar?

Kakashi revirou os olhos no momento em que a voz de Obito surgiu naquela pergunta idiota.

— Não é como se a gente não fosse sair em missão, Rin. Só não vai ser com o sensei. – Kakashi ressaltou inclinando o corpo para trás, apoiando suas mãos na relva baixa — Vamos esperar mais um pouco, e aí vamos na Torre saber da nossa situação.

— Vocês não vão precisar.

...?

Os três ergueram suas cabeças na direção da voz logo acima deles, encontrando a kunoichi sentada no galho grosso da árvore mais próxima, observando-os enquanto comia aqueles palitos de cenoura. Obito foi o único que manteve o cenho franzido diante da mulher, pois Rin, logo ao seu lado, desfez a expressão confusa para algo surpreso, os olhos abertos com um brilho empolgado.

Quando olhou para o outro integrante masculino, no entanto, Obito viu uma expressão incomum, como em uma missão, mas... diferente. Obito não sabia explicar, não conseguia.

— O quê? Vocês não têm língua não? – A mulher perguntou daquele jeito desaforado, recebendo o mesmo silêncio confuso em resposta.

Quer dizer, confuso no caso de Obito.

O longo suspiro escapou pela boca dela, que saltou da árvore com classe e começou a dar passos, ficando a poucos metros de distância do grupo antes de colocar uma mão na cintura, exibindo sua hitaiate azul escuro presa entre os cabelos, o colete verde padrão, a camisa azul escura mais justa, e ao invés das calças, ela usava shorts.

A intrusa.

O cabelo rosa balançava com o vento fraco, e os olhos verdes miraram cada um deles, começando por Obito, passando por Rin, e terminando em Kakashi. Ela não sabia dizer como os outros dois estavam se sentindo, nem prestou atenção neles nos momentos que se seguiram, porque Rin só conseguia pensar em como estava certa o tempo todo. Seu coração estava a mil e todas as possibilidades que surgiam a partir daquele encontro faziam Rin se sentir ansiosa.

— Mal educados... – O resmungo veio quase indiferente enquanto mastigava aquele último palitinho de cenoura. Limpou a mão na bunda, e voltou a olhá-los apenas quando engoliu o que tinha na boca — Tudo bem, eu começo. Naruto tá em missão, e eu vou ser a nova capitã do time de vocês. Nosso time.

— O quê? – Obito gritou. — Como assim nova capitã? Eu nem te conheço! Nunca te vi na vida!

— Pensei que você tinha me visto naquele outro treino de vocês, também no centro, e depois lá no distrito Uchiha.

O garoto quase engasgou quando ela citou todos aqueles encontros sem sequer titubear, ainda mantendo aquela expressão indiferente, como se não se importasse. A viu quase sorrir satisfeita diante do engasgo, e aquilo o fez querer fazê-la engolir toda presunção.

A mulher suspirou com humor, Rin notou, mal se contendo diante da expectativa.

— E, é, eu fui designada para tomar conta de vocês, então não sejam mal educados e se apresentem, assim a gente pode se conhecer e pular pra parte onde eu faço alguma coisa com vocês. – Ela disse parecendo desleixada.

Desinteressada.

— Por que você não se apresenta primeiro, hein? – Obito berrou — Foi você quem apareceu de repente sem falar nada com nada!

Rin viu a mulher manear a cabeça, fazendo aquela expressão de quem considera algo justo.

— Tudo bem, eu começo então. Meu nome é ...

— Haruno Sakura. – Rin disse sem conseguir se segurar — One Punch Sakura.

...

Sakura olhou para a menina com as sobrancelhas arqueadas e olhos cautelosos. Desde que pisou ali, aquela garota parecia inquieta de um jeito muito confuso. Evitou contato visual, porque, vai que ela é louca, mas quando ela a interrompeu dizendo seu nome daquela maneira tão deslumbrada, Sakura entendeu que tinha uma fã louca no seu time.

Era só o que faltava.

.

.

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CARAI MENÓ, NOIS TÁ COMO?

AHAHAHAHA

GENTE DO CÉU, EU AMEI ESSE CAPÍTULO! ESPERO QUE VOCÊS CURTAM!

THAYSE UCHIHA , VC É DEMAIS! FELIZ ANIVERSÁRIO ATRASADO, AINDA BEM QUE LANCEI CAP PERTO, PQ AI FICA FELIZ ANIVERSÁRIO ANTES E DEPOIS, ESSE CAPÍTULO DE HJ EU DEDICO PRA TI 3

OBRIGADA A TODOS PELOS COMENTÁRIOS E PELA COMPANHIA!

Próximo capítulo: TESTE DO GUIZOS? SÓQUENÃO! (vai ser um tiquinho diferente, né gente?)

CONTINUEM COMIGO, TEM MUITA COISA PELA FRENTE!