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Falso Silêncio
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O silêncio que se estabeleceu no campo de treinamento três era, no mínimo, constrangedor. Os olhos da menina vacilaram quando percebeu que havia verbalizado um pensamento de maneira tão abrupta, mas o fato é que, dentro dela, as coisas estavam borbulhando como nunca antes. A ansiedade causada pela dúvida acerca da recém aparecida mulher de cabelos cor-de-rosa transbordou no momento mais constrangedor da vida de Rin, e tudo o que ela queria naquele momento tão embaraçoso era saber usar doton para se enfiar embaixo da terra e nunca mais sair.
Entretanto, como suas habilidades se limitavam ao uso do ninjútsu médico, Rin permaneceu parada, dura. Os olhos vacilantes viajavam pelo cenário, passando por Sakura de maneira tão rápida que a figura dela era registrada em sua mente através de flashes, como fotografias. A chunin segurou o excesso de tecido de sua vestimenta discretamente, buscando algo em que se apoiar, ao mesmo tempo que engolia a própria saliva, esperando por qualquer reação vinda não apenas de Haruno Sakura, mas também dos dois companheiros de time.
Sim, Kakashi estava bem ali ao seu lado, e parecia tão alheio ao constrangimento do momento. O olhar dele permanecia reto, encarando a mulher no uniforme ninja padrão como se estivesse tentando resolver algum tipo de enigma, enquanto Obito tinha uma careta confusa em seu rosto parecendo brevemente surpreso, um tanto confuso, e até mesmo traído.
Mas Rin não se importou.
Não.
O que a tomava naquele momento foi o olhar de piedade que Sakura a lançou, misturado com uma espécie de decepção. Na verdade, talvez Rin estivesse confundindo as coisas. Talvez Sakura estivesse franzindo as sobrancelhas daquele jeito por vergonha alheia. Era o mais provável.
Concordou com a cabeça olhando para a mocinha de cabelo castanho enquanto os dedos se embrenhavam nos próprios cabelos. A certinha estava acuada e obviamente arrependida do momento fã maluca, afinal, o pescoço tinha desaparecido naquele encolher de ombros que soava exagerado. Tudo o que vinha dela soava exagerado, aliás.
Bem... Sakura não estava exatamente irritada com a interrupção, sequer se importava com isso. O problema era ter uma fã no time, que obviamente tinha expectativas sobre a figura de One Punch Sakura, mas que logo se decepcionaria, afinal, Sakura não se considerava tão digna de sua fama no mundo ninja. Sequer entendia o porquê de ter alguém que a admirasse.
Suspirou.
— ... É, esse é meu nome, mas vocês podem me chamar só de Taichō, ou Sakura. Ou os dois... Enfim. Escolham. – Maneou a mão no ar num gesto de quem pouco se importa sobre como seria chamada. Virou-se para Obito por fim, as sobrancelhas arqueadas, o ar blasé — Tá vendo? Só você não me conhece.
A provocação feita daquele jeito tão tanto-faz fez com que Obito tivesse um sobressalto. Ele quis responder, até abriu a boca de modo exagerado, mas a verdade é que se Rin sabia quem Sakura era, então Kakashi muito provavelmente sabia até mais, o que era uma merda, já que nenhum dos dois se deu o trabalho de lhe dar algumas informações, apesar de Kakashi ter se mostrado um pouco curioso sobre o que Obito havia descoberto. Tinha que resolver isso depois.
Fez um bico por fim, cruzando os braços sobre o peito.
— E daí? Não é grande coisa. – Resmungou em resposta, tentando manter o pouco do orgulho que tinha. — Além disso, foi só um nome. Isso não é uma apresentação!
Sakura deixou o ar sair dos pulmões com um ruído. Como Naruto aturava aquele moleque?
— Tá, e o que você quer saber, afinal? – Perguntou desistindo de qualquer debate. Já estava se sentindo cansada e a ideia de abandoná-los ali já estava ficando tentadora demais para insistir em qualquer discussão com o Saskoruto. Por que ele não podia só perguntar pros outros dois? A certinha parecia saber bastante histórias mirabolantes sobre ela, e o Júnior... Ele certamente sabia o suficiente.
Ela o olhou discretamente por um brevíssimo momento, os olhos negros ainda atentos. De alguma forma, o olhar dele não a incomodava, mas ao mesmo tempo havia essa inquietação causada pela sensação de estar sendo... Sendo o quê? O que Kakashi queria olhando para ela como se fosse algum tipo de missão? O que era aquele olhar?
Sakura não sabia. Não queria saber.
Se pensasse demais sobre aquilo, a vontade de ir embora surgiria mais forte, ela sabia, e por Naruto, a kunoichi de cabelos cor-de-rosa não poderia simplesmente abandonar o trio de palermas que lhe fora designado. Tudo o que restava era suportar aquela situação e tentar algum costume sobre o olhar estranho que a cercava.
— Ué! Fala alguma coisa relevante pra gente, como... Sua especialidade, alguma coisa que gosta de fazer, hobbys, sonhos pro futuro...
...
Sakura queria saber quem havia ensinado que uma apresentação precisava de tudo isso. O que ela gostava? O que ela não gostava? Que diferença isso iria fazer na hora que estivessem morrendo durante uma missão? Pareciam perguntas para se fazer quando você quer conhecer alguém melhor, e puts, sonhos para o futuro? Desde quando ninjas podem sonhar com o futuro?
A mulher quis rir em escárnio.
Ela quis fazer um longo discurso sobre como a vida ninja arrancaria todos os sonhos dele antes que pudesse sequer pensar em tornar os tais sonhos em objetivos reais. Ela queria dizer que gostava quando o inimigo morria antes que ela ficasse ferida demais, e não gostava quando precisava fazer sacrifícios em prol de uma missão. Queria dizer que seu hobby era se manter viva, e que seu sonho para o futuro era apenas de viver um dia de cada vez, porque era isso o que o mundo ninja tinha a oferecer.
Ela olhou para os três, um de cada vez. A certinha ainda parecia desconfortável, mas lembrava do jeito com que ela falava com os outros dois, a gentileza na voz, a risada, a preocupação em ser alguém que somasse com o time. O retardado-Uchiha lhe lembrava um pouco do Naruto de muitos anos antes, e também de Sasuke de um jeito meio aleatório. Todo aquele jeito turrão e espalhafatoso era, na verdade, apenas um jeito de proteger os amigos de alguém como ela, não é?
E tinha o Júnior. Hatake Kakashi. Filho de seu sensei.
Filho do seu falecido sensei.
Sakura reprimiu um longo suspiro pensando que talvez devesse ter trazido mais daquelas cenouras.
— Tá. – Disse breve enquanto o pensamento se organizava — Eu sou Haruno Sakura, e tem poucas coisas que eu gosto, muitas que eu não gosto... Meus sonhos para o futuro, eu não tô afim de falar, e em relação aos meus hobbys... eu tenho muitos hobbys. Ah, e eu sou uma ninja médica.
Ou algo assim. Completou mentalmente.
— Ela acabou não dizendo nada. – Obito resmungou para Rin sem intenção de provocar a tal nova capitã do seu time, e só então se empertigou para começar seu próprio relato — Meu nome é Uchiha Obito, gosto de ajudar as pessoas, não gosto de gente metida, meu hobby pé fazer caminhadas, e meu sonho é resgatar a honra do meu clã. – Disse inflando o peito.
Honra do clã, é? Sakura repetiu mentalmente antes de continuar.
— E sua especialidade? – Ela perguntou porque era a única coisa realmente relevante.
— Ninjutsu.
— É claro. – Ela resmungou para si do que para qualquer outro — Certo, agora você. — Apontou para a certinha com a cabeça, que teve um sobressalto antes de se aprumar.
— Eu... Eu sou Nohara Rin... Gosto de sair com minhas amigas... Não gosto de... Plantões longos... Meu hobby é colecionar conchas, e... hã... meu sonho é... – Ela olhou para Sakura hesitante — É me tornar uma grande ninja médica. Minha especialidade é ninjútsu médico.
Sendo uma jounin ingressa na divisão de ninjas especiais, vulgo ANBU, Sakura utilizou de todo o seu treinamento para não revirar os olhos umas trinta vezes, e apostava que o sonho de Rin era, na verdade, se tornar uma grande ninja médica como One Punch Sakura. O que era bizarro, já que uma iryō-nin conhecida como One Punch não deveria ser exatamente boa em curar pessoas, não é?
Ela deveria se inspirar em Tsunade, que era uma ninja médica de verdade, e não uma fraude como Sakura.
— Ok. Agora... – Sakura disse antes de girar seu olhar para encontrar o último do trio. — ...você.
Eles se olharam, finalmente, sem que ela logo desviasse seus olhos verdes para qualquer outro lugar, e o silêncio brevíssimo que se fez não era de nenhum outro a não ser das duas figuras a se encararem. Não havia animosidade naquela troca de olhares, e por mais que Sakura tentasse disfarçar, ela sabia que aqueles olhos negros estavam procurando qualquer sinal de qualquer coisa.
Assim como Sakura momentos antes pensou, Kakashi também se permitiu imaginar que ela certamente sabia o suficiente. Foi ela quem disse que Obito era o único que não a conhecia ali, não foi? Quando seus olhos se ligaram sem interferências, Kakashi sentiu como se, pela primeira vez na vida, Haruno Sakura o estivesse vendo. Não foi um passado de olhar, não foi pela sua visão periférica, não era suas costas, ou sequer sua espada.
Não.
Haruno Sakura estava olhando diretamente para o seu rosto. Para os seus olhos. E o que ela enxergava ali? Kakashi não sabia dizer direito, apesar de encontrar tantas coisas estranhas e pouco precisas por trás do verde daquelas írises que pertenciam à terceira aluna de seu pai. Ele podia não saber dizer com certeza o que estava se passando na cabeça dela, mas na dele... Kakashi se sentia disposto a não perder uma reação dela sequer.
Ele queria registrar o jeito com que ela falava, as palavras que usava, o modo que se movia, as expressões, o som de sua voz, seu cheiro... Ele queria descobrir o que fazia daquela mulher uma criatura tão especial a ponto de seu nome soar como uma lenda mundo afora, a ponto de Tenzō a elogiar tanto, a ponto de Naruto a admirar, e a ponto de seu pai se dedicar tanto ao treino de alguém.
Sim, porque em suas memórias mais distantes, ele conseguia ver Sakumo chegando atrasado depois de um intenso treino com a Sakura-chan. Também lembrava daquele livro velho sobre os fundamentos de genjutsus que ele leu para poder dar opções mais certeiras para a garota com um controle de chakra ideal ao aprendizado das artes da ilusão. Lembrava da dedicação, e de como ele falava deslumbrado para os amigos sobre o progresso único de Sakura, da aposta certeira de que ela iria se tornar uma das melhores ninjas de sua geração.
Apesar de tudo, Kakashi não lembrava de Sakura. Parecia que eles sequer tinham se conhecido, apesar de lembrar de Naruto e de Sasuke brevemente. Segundo Naruto, Sakura estava sempre ocupada, seja com as atividades ninja ou com o trabalho, e ele só entendeu o porquê de ela ter um trabalho além do ofício ninja quando se deu conta de que ela era uma órfã civil, sem direito a assistência da vila, sem sobrenome famoso, e com fome.
Naruto também só pareceu entender isso um pouco depois, mas não vinha ao caso.
O caso é que seu pai havia morrido supostamente pelas mãos do seu segundo aluno, que fugiu da vila junto com os Uchihas desgarrados. Naruto não saiu de perto dele desde então, e ele achava que a tal da Sakura logo faria sua aparição, mas... Sakura nunca o procurou. E talvez a sua curiosidade sobre se baseava no jeito com que Naruto sempre falava dela, de como ela era forte, brilhante, de como confiava nela com a própria vida, de como ela era a aluna favorita de seu pai, e todas aquelas outras coisas...
A aluna favorita de seu pai.
O que ela tinha de tão especial afinal de contas?
Ele definitivamente não se importava de ela não ter aparecido em sua infância, mas por que as pessoas falavam tanto dessa pessoa que, agora de frente para ele, não parecia muito mais do que alguém enfezada. Por que Naruto confiava em alguém tão desleixada? Por que Tenzō parecia tão animado ao falar dela? Por que seu pai a escolheu?
...
— Meu nome é Hatake Kakashi. – Ele começou com sua voz séria. — Eu sou especialista em Doton, Raiton e Kenjutsu. Eu gosto de ler, não gosto de cheiros fortes, meu hobby é cozinhar e eu não tenho um sonho para o futuro.
...
Houve silêncio no campo de treinamento três.
Não era o tipo confortável, ou constrangedor. Não era o tipo de silêncio bom, mas também não era ruim. Houve o silenciar de todas as vozes, ao passo que o ruído do vento fraco ficava mais audível, juntamente ao farfalhar das folhas das árvores tão altas ao redor deles.
O silêncio era confuso, até indistinto, e mesmo que os outros dois presentes ousassem falar, ainda assim haveria silêncio no ar... Entretanto, naquela troca de olhares entre Kakashi e Sakura, todas as palavras se misturavam em conjunto e tudo o que não podia ser dito em voz alta era colocado em evidência de maneira turbulenta, e ainda que estivesse tudo ali na honestidade daqueles olhos verdes e na curiosidade dos olhos pretos, eles eram incapazes de decifrar os códigos.
No final das contas, nunca houve silêncio.
— Certo. – Ela disse depois de um momento não muito longo, rompendo o contato visual com o garoto de cabelos prateados — Agora que estamos todos devidamente apresentados, podemos continuar.
Precisavam continuar.
Rin e Obito se empertigaram sem sequer notarem o todo o caos que havia acontecido durante o curto momento em que Kakashi e Sakura se encontraram em seus olhares. A capitã colocou as mãos na cintura num sinal de preparação, e poderia dizer que todos os três pareceram um pouco ansiosos com qualquer que fosse a expectativa do que viria a seguir.
— Hoje vamos fazer um exercício simples para que possamos conhecer nossas habilidades melhor e garantir que ninguém vai atrapalhar ninguém durante as missões. Vocês provavelmente já fizeram isso com Naruto quando foram admitidos como alunos dele, mas agora vamos refazer como um treino. – Deu os ombros olhando para a floresta como se procurasse alguma coisa.
— Do que você tá falando afinal? – Obito perguntou um tanto impaciente.
— Do teste das bandeiras, é claro. – Ela respondeu sem olhar para ele.
Rin piscou sendo pega de surpresa por um instante. O teste das bandeiras tinha sido o marco de transição entre a fase pré-ninja e sua firmação como genin, consistindo em uma atividade onde o grupo teve que procurar duas bandeiras escondidas no perímetro do campo de treinamento e cravá-las num dos três pilares no centro da área descampada. Naruto, enquanto professor, defendeu a área para simular um combate real, ao passo que a pegadinha do tal teste era que só haviam duas bandeiras criando a ilusão que apenas dois dos três seriam aprovados.
Se não fosse a perspicácia de Kakashi na época, Rin e Obito teriam fracassado miseravelmente. Por sorte, conseguiram trabalhar em equipe e fora Obito quem cravou uma única bandeira no topo do tronco central.
Olhou para Obito que já parecia determinado, e depois para Kakashi, que centrado, apenas confirmou com a cabeça minimamente. É isto. Eles estavam prontos.
— Começamos agora...? – Obito perguntou depois de um momento longo demais, onde a mulher apenas continuou olhando para o meio das árvores.
— Eh... Esperam só mais um pouquinho.
...
O trio se entreolhou novamente, dessa vez, confusos. Até mesmo Kakashi demonstrou sinais de quem não estava entendendo muita coisa até que, absolutamente do nada, um moleque nanico saia correndo do meio das árvores na direção da mulher de cabelos cor-de-rosa, que tinha um sorriso satisfeito no rosto ao notar as mãos e joelhos do rapaz sujas de terra.
— TÁ PRONTO, TIA SAKURA!
— Meu garoto! – Sakura soltou enquanto lançava um hi-five com o rapaz. — Gente, esse aqui é Yamanaka Inojin, e ele vai ser meu assistente hoje! – disse com um sorriso satisfeito ao ver a careta de Obito, que já estava pronto para retrucar quando Sakura voltou a falar — Tratem dele muito bem.
O Uchiha recuou sendo pego de surpresa pelo tom velado de ameaça que a voz de Sakura projetou tão plenamente. Engoliu seco, resolvendo que não iria perguntar mais nada enquanto assistia Sakura conversar brevemente com o moleque recém chegado antes de se aproximar do trio com passos desleixados.
Sakura fez um gesto típico para todos se aproximarem, e hesitante, Obito foi junto ao seu time. Estavam próximos o suficiente num círculo fechado apenas para que a mulher deixasse claro que se o tal Inojin se ferisse durante o teste, ela iria mandar todos eles para o hospital.
Ok...
— Então é isto! – Sakura disse em voz animada, dando as costas para voltar para perto do menino loiro — Vocês têm quatro horas para terminar o teste, e podem começar!
Se dissesse que sabia o que esperar, Sakura estaria mentindo. Ela não se deu ao trabalho de tentar prever o papel que cada um ocuparia naquele teste que ela mesma fez um dia. Naquela época, Sasuke cravou uma bandeira sozinho no tronco, enquanto ela e Naruto fizeram uma manobra para cravarem juntos a outra que sobrou. Apesar da teimosia, Sasuke foi uma peça fundamental para conseguirem executar o plano com sucesso, mesmo que Sakumo não tenha utilizado uma fração de sua determinação para pará-los.
Ali, no entanto, estavam três chunins graduados que já sabiam o fundamento principal para executarem aquele teste com maestria: Trabalho em equipe. Inatamente, era isso que Sakura esperava ver, e gostou do jeito que os três se entreolharam antes que Kakashi sacasse sua tantō.
Não fazia sentido entrar em combate antes de achar as duas bandeiras. Seria uma perda de tempo e recursos, já que ele ficaria ocupado demais e se cansaria antes dos outros dois poderem sequer voltar para a posição, mas ela também não se importava: Se fosse para eles falharem, então que falhassem logo. Ela já queria voltar para casa, tomar seu suco de caixinha, ajudar Ino na floricultura, perambular com o Kiba... Qualquer coisa.
Entretanto, o que aconteceu acabou lhe pegando completamente desprevenida.
Ao invés de partir para cima dela, como Sakura imaginou segundos antes, o garoto apenas passou o polegar na lâmina, rasgando sua pele com um corte superficial para que o sangue escorresse por sua digital.
Sakura sequer deu-se conta quando parou de respirar.
Katsu?
Kakashi iniciou a série de selos do jutsu já tão conhecido, e na duração daquele ínfimo momento, a mulher sentiu seu coração acelerar de forma que as batidas ecoavam tão fortes que ela podia sentir por todo o corpo. Tudo era câmera lenta, e sua audição ficou tão turva. Ela não conseguia pensar, suas pernas pararam de se mover, e de repente ela se sentiu tão tensa, ansiosa. Engoliu seco quando viu aquele último selo.
Céus...
Quanto tempo fazia que não os viam? Os cães de Sakumo. Os lobos.
Sequer lembrava da última vez em que falou com Katsu, a invocação principal de seu professor. O lobo branco orgulhoso que, mesmo ao prender suas presas no pior dos inimigos, jamais sujava seu pelo de sangue.
Sakura reviveu tantas memórias naquela fração de segundo que seu estômago revirou. Se sentiu fraca, nauseada.
Como Katsu estaria depois de todos esses anos? Ele ainda estava vivo? Ele...?
Ele a culpava?
— Kuchiyose no Jutsu!
A mão do garoto tocou o chão e a fumaça subiu rapidamente. Por trás da nuvem esbranquiçada, Sakura olhou para os olhos do rapaz, que se pegou olhando para ela também. Mais um segundo que pareceu uma eternidade se fez. Kakashi viu o entreabrir dos lábios femininos, viu o jeito que o resto de ar escapou tenso de sua boca para então ser inspirado com muito mais força.
Sakura só lembrou de respirar quando viu os olhos dele, e tinha certeza que ele vislumbrou o abalo no verde por trás da fumaça que subiu.
Um instante se passou e a fumaça se dissipou.
— Awn, tia Sakura! Eles são fofos!
...
— O que...?
Foi a única coisa que escapou dos seus lábios quando a voz de Inojin a acordou do torpor. Sakura ainda se sentia tão confusa, sua cabeça latejava numa repentina dor, mas ainda assim, ela olhou para Kakashi buscando uma resposta mesmo que a pergunta jamais tenha sido feita.
Ele a olhou, mas a resposta veio de Rin.
— São os cães Hatake. – Ela disse para Sakura como se não fosse óbvio — O Buru já tá tão grande! Olha o Pakkun também!
— E aí, Rin-chan? E o paspalho tá aqui também, né?
Era um pug.
Um pug minúsculo junto de outros sete cães de tamanho e raças variadas. Alguns sequer pareciam ter raça, o que não era um problema, mas... Sakura esperava cães gigantes de pelo branco e expressão feroz, e não oito pets vestidos com roupas azuis e hitaiates.
— QUEM VOCÊ TÁ CHAMANDO DE PASPALHO?
O pug o olhou Obito por um momento e virou a cara, como se acabasse de determinar que não valia a pena.
— EI, NÃO ME IGNORA!
Puta que pariu... O que será que tinha acontecido com os cães Hatake originais? Onde estava Katsu? Kakashi o tinha conhecido, não é? Será que já havia morrido? Será...?
Sua cabeça doía enquanto assistia Rin e Obito interagirem com os oitos cães enquanto o Hatake lhe olhava de maneira quase enigmática, as sobrancelhas brevemente franzidas. Era uma surpresa para ele que Sakura estivesse esperando outra coisa? Ou será que seu abalo o deixou confuso?
Não importa, pensou levando a mão à cabeça, esfregando sua testa ao fechar os olhos por um simples momento. Precisava retomar o controle e se livrar daquele impulso que a fazia querer sair daquele lugar. Ela precisava lembrar do porquê estar ali.
— Tia Sakura, olha só!
A voz de Inojin a despertou, fazendo com que seu olhar mirasse o cão miúdo que se aproximava com o rabo balançando. Ficou parada por um momento ao se deparar com a criatura de pelo caramelo, olhos adornados por um tom mais escuro de seu pelo, assim como as orelhas e patas. O cachorro marchava em seu andar atrapalhado. Um filhote. O único que não usava uma hitaiate.
— Esse é o Bisuke – A voz de Kakashi soou fazendo com que Sakura levantasse seu olhar para encontrá-lo — Ele ainda está em treinamento e não sabe falar.
Sakura concordou com a cabeça absorvendo a voz em tom comum que Kakashi havia usado para explicar o porquê daquele cão ter marchado na direção dela tão descuidadamente. Se olharam, ela e o animal. Fofo, de fato. Pensou antes de se abaixar para içá-lo do chão, fazendo um carinho no topo da cabeça.
— Tia, deixa eu ver!
Se virou para Inojin, que também fez carinho com a sua mão pequena no topo da cabeça do ninken parecendo completamente encantado pelo breve contato com o filhote.
Naquele momento, Sakura se sentiu um pouco mais... estável, apesar da cabeça ainda latejar.
Suspirou sentando-se ao chão, seu olhar concentrado no movimento da mão de Inojin na cabeça de Bisuke que também sentou. Ficaram um momento ali enquanto o trio de chunins os observaram, cada qual mergulhado no próprio pensamento diante da cena tão... íntima? Kakashi mantinha seu cenho franzido ao ver Sakura olhar de maneira tão perdida para aquele simples movimento de mão. Ele notou os fios bagunçados do cabelo dela, e como o contraste com o tecido azul deixava seu tom um pouco mais intenso.
— O que vocês tão olhando? – A voz dela surgiu de repente, fazendo os três se empertigarem — O tempo tá passando, é melhor irem de uma vez. – Disse sem sequer olhá-los — Mas esse aqui vai ficar conosco. – Informou antes de trocar aquele olhar com Kakashi, que apenas confirmou com a cabeça.
É mesmo... Havia um teste para ser feito.
Kakashi deu a ordem para os cães, que sumiram em vultos para locais distintos do vasto campo de treinamento, enquanto os três chunins adentraram em meio as árvores, saltando através dos galhos grossos com a precisão adquirida pelos anos de treino. Passaram-se poucos metros antes que a voz de Obito, no entanto, chamasse a atenção dos outros dois que pareciam focados demais em suas próprias mentes.
— Por que vocês não me disseram que a conheciam?
Não havia aquele tom indignado que o menino habitualmente usava, nem mesmo parecia zangado de alguma maneira. O tom de Obito era de uma dúvida genuína que talvez pudesse esconder um breve ressentimento. Rin o olhou de maneira direta enquanto seguiam Kakashi um pouco mais a frente, que sequer fez menção de parar.
— Eu não tinha certeza se era ela. – Rin respondeu por fim, achando que tal frase explicaria tudo.
— Podia ter me dito da sua suspeita. – O outro retrucou em sua obviedade.
— Eu sei, mas... – A moça encolhia os ombros — Sei lá... Eu sempre quis conhecer ela, mas nunca tive oportunidade... Eu só não quis parecer boba compartilhando uma suspeita que poderia ser coisa da minha cabeça.
Obito concordou com a cabeça.
— Você pode me dizer as coisas, Rin. Eu não vou achar você boba por algo assim.
— Cuidado!
Foi Kakashi quem gritou bem a tempo dos três conseguirem fugir do tronco enorme que se desprendia de uma engenhosa amarração. Uma armadilha, é claro. O garoto não tinha apenas escondido as bandeiras como também havia entupido o campo de treinamento com diversas arapucas.
— Aquele moleque fez isso sozinho? – Obito perguntou com sua expressão chocada.
Kakashi quis responder com uma provocação sobre como qualquer um que tivesse prestado atenção nas aulas conseguiria fazer aquilo, mas se manteve sóbrio diante da pergunta do menino, que não precisava de uma resposta realmente.
— Vamos conversar menos e prestar mais atenção no caminho a nossa frente. – Ele disse assumindo uma postura de liderança que era facilmente aceita pelos outros dois — Ela chegou atrasada também. Talvez tenha colocado algumas armadilhas mais elaboradas pelo campo, então não vacilem.
— Hai!
Obito e Rin disseram em uníssono antes que Kakashi avançasse novamente pelo caminho, enquanto pensava sobre seus motivos para não ter compartilhado todos os seus conhecimentos sobre a mulher, suas suspeitas.
No momento em que a viu com Naruto naquela árvore, Kakashi soube que algo iria mudar. Sakura era uma kunoichi de elite, passava meses em missões dificílimas e mal voltava a Konoha. Em todos esses anos, ele nunca viu Sakura assistir um treino seu sequer, nem mesmo para fazer companhia a Naruto, então foi natural a desconfiança surgida no momento em que colocou os olhos nela.
E as coisas não pararam por aí, afinal, Sakura ficou na vila perambulando com seus amigos como se não tivesse nada melhor para fazer, algo atípico para os ninjas da ANBU, que estavam sempre em alerta; entretanto, o que lhe pegou de jeito foi saber, por Tenzō, que Naruto sairia em missão sem o time 7. Naquele instante, Kakashi ligou todos os pontos e sabia que Sakura os estaria esperando no campo de treinamento três.
Ele poderia ter dito a Obito.
Kakashi poderia ter contado tudo a ele de maneira muito categórica, mas falar sobre Sakura implicava falar sobre outras coisas, e foi pelo receio de contar mais do que pretendia que ele manteve tudo para si, afinal, ainda que fosse um idiota, Obito conseguia ser estranhamente sensitivo com certas questões e ele não queria ter que dar maiores explicações, tampouco queria mentir.
A omissão soava melhor.
Não demorou muito para que logo alcançassem Pakkun, que surgiu para eles saltando de um galho superior para informá-los de que as localizações das bandeiras tinham sido encontradas.
— Certo – Kakashi disse virando-se para a dupla — Pakkun vai acompanhar vocês na direção de uma das bandeiras e eu pego a outra. Lembrem-se das armadilhas. Nos encontraremos lá na frente para a tomar o território dela.
Obito franziu o cenho.
— Precisa de toda essa seriedade? Ela é só uma iryō-nin... – Resmungou antes que pudesse perceber o tamanho da besteira que havia dito bem ao lado de Nohara Rin. — Quer dizer, não que ela seja uma médica ruim, ou coisa assim, mas...
Rin fechou os olhos tentando encontrar aquele ponto de equilíbrio que a impedia de, às vezes, gritar com Obito.
— Obito, ela não é só uma iryō-nin, ela é a iryō-nin. – Disse sem transparecer ter ficado ofendida — Sakura-taichō não é qualquer médica. Ela não fica atrás no campo de batalha, e as histórias dizem que ela consegue derrotar seus inimigos no primeiro soco.
— Não a subestime, Obito. – Kakashi completou antes que o garoto retrucasse, olhando sério para amigo — Precisamos ir sérios ou não venceremos.
— Hai. – O Uchiha cedia diante das palavras dos amigos, entendendo que se ambos estavam sérios, então ele também se uniria a eles. — Então não vamos perder mais tempo.
Acenaram com a cabeça antes de partirem.
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Estava deitada na relva baixa, o vento batia suavemente em sua pele exposta causando-lhe uma agradável sensação de paz. Havia o barulho do correr de Inojin, que brincava com Bisuke pela clareira com risadas e tropeços. Sakura mantinha seus olhos fechados sentindo o sol, a brisa, a relva, os sons... Às vezes os pássaros voavam rápido por ali, significando que a paz das árvores havia sido perturbada, mas ela não se apressou.
Não.
Sakura se permitiu silenciar sua mente conturbada naquele momento em que não precisava se passar de durona na frente de três pivetes chatos. Ela se permitiu relaxar na tentativa de fazer o latejar de sua cabeça cessar enquanto internalizava o olhar daquele que era o legado de seu professor. Ela se permitiu soltar o ar com expirar abrupto de quem ainda não está pronta para aquilo, mas que precisa fazê-lo.
Abriu os olhos mirando o céu azul e as nuvens flutuantes. O dia estava realmente bonito e não tão quente, significando que logo o outono chegaria, sua estação favorita. Fechou os olhos novamente para aproveitar aquele último instante de calmaria mental antes de se levantar chamando Inojin e Bisuke para perto. Fez uma série de selos rápidos, algo apenas para se precaver, e então os mandou para perto dos troncos ao fundo.
Virou-se para as árvores passando a mão nos cabelos para limpá-los dos pedacinhos da relva que se prenderam nos fios e então, em menos de um segundo, uma enorme bola de fogo surgia em sua direção. Sakura sorriu com o canto do lábio antes das chamas a alcançarem.
Vamos lá.
As chamas envolveram o ambiente de forma abrasiva, o calor abrupto surgindo com intensidade. Obito se sentiu orgulhoso do tamanho daquele jutsu, mas lembrou-se bem do aviso de seus companheiros, por isso saltou para fora das árvores, lançando shurikens em diagonal para onde Sakura deveria estar. Quando as chamas cessaram, o corpo da mulher estava caído do chão, levando apenas um segundo para se transformar em toco de madeira.
Foi quando ele girou, finalmente percebendo que ela já estava bem nas suas costas. Conseguiu desviar daquele soco dela por pouco, e então uma série de golpes se iniciou. Ela tinha aquele sorrisinho no rosto, como se sequer estivesse se esforçando, mas Obito iria mostrar do que era feito. Começou a intensificar seus movimentos, e mesmo que atentasse à esquiva perfeita, Sakura não parecia estar surpresa.
Começou a identificar o padrão dos movimentos dela, percebendo as nuances dos socos e chutes deferidos, por isso, naquele movimento dela de baixo para cima, Obito achou uma abertura que poderia aproveitar-se. Girou o corpo rapidamente, jogando suas mãos para o chão para emendar um chute alto, o problema foi que a mão dela agarrou rápido seu tornozelo, e antes que ele pudesse perceber, a mulher girou no próprio eixo, segurando-o pelo pé para lança-lo contra uma árvore.
O impacto fez sua visão embaçar por um instante, mas ele estava satisfeito com seu desempenho, pois viu o outro surgindo do alto à contraluz, e Sakura só conseguiu ver a silhueta de Kakashi, mas foi o suficiente para unir os braços num x frente ao corpo, defendendo-se do golpe elaborado. Forte, ela pensou quando seus olhos se encontraram por um breve momento antes de ele saltar para longe.
Faltava uma.
Mas Sakura não estava preocupada com Rin.
Kakashi avançou pelo fronte, e ao contrário de Obito, seus golpes eram mais técnicos. Havia a precisão metódica de alguém que se dedicou ao treino de maneira exemplar, e Sakura tinha que admitir que se não o levasse a sério, talvez ele conseguisse acertá-la, foi quando Obito se juntou a luta, e a trocação de golpes se tornou mais intensa. O Uchiha não tinha tanta técnica, parecia um tanto afoito, o que causou um certo desequilíbrio na forma com que atacavam.
O trabalho deles, em conjunto, ainda era bom, mas era como se Kakashi descesse ao nível dele para sincronizar os golpes. Ela precisava separá-los, porque a certinha estava em algum lugar, esperando o sinal deles para cravar a bandeira no local indicado.
Não gostou quando a viu sorrir no meio do combate, como se de repente tudo estivesse dançando conforme sua música, mas ele não teve tempo de calcular o que estavam fazendo de tão óbvio, afinal, quando ela abaixou daquele jeito tão improvável, sua mão voou direto na direção de Kakashi, que desviou por pouco.
— CUIDADO!
O Hatake gritou tarde demais, porque a sola da bota dela o acertou bem no queixo, lançando-o ao ar, e enquanto voava, viu Kakashi tomando um golpe tão forte quanto, indo parar do outro lado da clareira. Atingiu o chão rolando, as rapidamente forçou o corpo a se manter de pé
— Cadê a amiguinha de vocês? – Sakura perguntou coçando o nariz. — Não me façam ir atrás dela, hein...
— Você não vai encostar na Rin!
— Obito, não!
— KATON: GŌKAKYŪ NO JUTSU!
Sem esperar aquela reação tão honesta, Sakura acabou rindo. Qualé? O que ele achava que ela iria fazer com a certinha? No máximo iria dar um chute na barriga dela, mostrar o que um controle de chakra perfeito faz com iryō-nins, mas o Naruske deveria achar que ela iria matá-la.
A bola de fogo, dessa vez, parecia até mais quente que a última, mas não importava. Kakashi saltou para o alto, mas mesmo que fosse exatamente rápido, Sakura estava mais perto de Obito, e só precisou de um soco direto naquele estômago desavisado para fazer o menino viajar direto para o tronco de uma árvore. Nunca iria esquecer, entretanto, da expressão do moleque. Aqueles olhos surpresos... Sakura queria ter podido tirar uma foto.
Mas aí ele voou girando com o impacto de seu soco embebido em chakra, as costas atingiram a primeira árvore, partindo-a ao meio, e depois a segunda, que segurou bem apesar de ter quebrado em algumas partes. Kakashi olhou para o amigo cuspindo sangue, que conseguiu se levantar cambaleante, mas o idiota era tão idiota que não percebeu a óbvia armadilha.
A corda agarrou seu pé, e num passe de mágica, Obito estava pendurado de cabeça para baixo.
— VIU, TIA SAKURA? FUNCIONOU!
— Eu falei que ia! Você é demais, Inojin!
O plano foi comprometido.
— Vai me contar o que a certin.. Rin tá fazendo? – Sakura perguntou sorrindo para Kakashi com visível deboche.
Maldito Obito. Ele pensou, afinal, o desgraçado era a chave para vencerem naquele teste estúpido. Reprimiu o pensamento enquanto a encarava, e dessa vez, não havia entrelinhas: Era a preparação para a luta, e ela era One Punch Sakura por um motivo, não é? Ele levou a mão ao cabo da tantō em suas costas assumindo que não deveria pegar leve, se ficasse se segurando nada aconteceria.
Era hora de mostrar a que veio.
Pegou no cabo da tantō embainhada em suas costas, Sakura ainda mantinha sua expressão desafiadora no rosto ao olhar para o homem que, de repente, avançava a toda velocidade. Tinha que mantê-la ocupada, afinal, ele era o único que poderia segurá-la para que Rin executasse o salvamento de Obito, então ele deu tudo de si no silvo da lâmina recém desembainhada.
Desferiu um golpe diagonal descendente veloz o suficiente para fazer qualquer um entender que a quela batalha seria definitiva, mas Sakura continuava sorrindo ao executar aquele desvio. Ele avançou na tentativa de pressioná-la, os golpes da lâmina cada vez mais intensos, mas a mulher... Ela era como água, escorregadia, maleável... Nenhum golpe era suficiente, e quando achava estar perto de finalmente acertá-la, Sakura dava um jeito inusitado de evadir. Era bizarro. A frustração foi inevitável quando percebeu que até as aberturas nos movimentos dela eram tão efêmeras que sequer conseguia pensar em como se aproveitar delas.
Mas Kakashi não podia parar. Ele tinha que ser melhor que isso.
Jogou a tantō para o alto, trocou mais alguns golpes com as mãos livres, fingiu girar para executar um chute, mas ao invés disso saltou para recuperar a lâmina que voltava para si, tentando estocar Sakura a partir de um ponto mais alto. Atingiu o chão cravando a miniatura de katana na terra batida, mas logo a puxou avançando contra a mulher, que já não tinha mais um sorriso no rosto.
Ele era bom.
Sem duvidas alguma, Hatake Kakashi era um shinobi completo. Foi forçada a sacar uma kunai já que não tinha levado sua lâmina para aquele treino, defletiu alguns golpes, o bloqueou, escapou, mas... Ele era veloz e sua defesa era decente o suficiente para fazê-la pensar duas vezes antes de fazer qualquer movimento descuidado. Kiba não mentiu quando disse que ele era bom, e agora, Sakura se via obrigada a levar aquela luta a sério.
A kunai se chocou com a tantō produzindo um ruído alto pelo local, ambos mediram forças enquanto se encaravam através do brilho solar refletido nos metais de suas armas. Se encararam, se reconheceram. Naquele olhar, Sakura e Kakashi sentiram que ambos podiam ver muito mais do que os seus próprios golpes, mas aquilo era uma luta que precisava continuar, por isso a kunoichi mandou seu chakra pela lâmina escura, que sem o tratamento adequado, apenas explodiu em pedaços bem na cara do Hatake, que se desequilibrou por um segundo.
Nesse meio tempo, a mulher recuou alguns metros. Kakashi se preparou quando a viu enfiar a mão na bolsa traseira imaginando o que viria a seguir, mas para sua surpresa, o que ela tirou dali de dentro foi um par de luvas pretas.
— Vou levar você a sério, Kakashi. – Disse calçando uma de cada vez sem muita pressa — Vamos ver do que você é capaz.
Foi nesse momento que Rin conseguiu tirar Obito da segunda armadilha que tinha sido colocada bem embaixo da primeira. Sim, Obito caiu duas vezes no mesmo tipo de arapuca, que tinha sido armada no mesmo local e conseguiu ouvir o risinho da criança maléfica que tinha feito aquilo ao fundo, mas ao invés de se sentir humilhado, Obito se sentiu inferior diante do que se passou pelos seus olhos.
Kakashi e Sakura lutavam de uma maneira completamente absurda.
— Obito, a missão! – Rin ralhou antes de puxá-lo pelo braço, porque, é, eles precisavam plantar pelo menos uma daquelas bandeiras no toco, mas do que adiantava se ele não conseguia sequer performar uma fração daquela batalha.
— Vamos seguir o plano, certo? – Ele respondeu depois de um segundo, levantando-se com determinação. Precisava mostrar a que veio.
— Sim, eu vou dar a volta novamente. Quando ela vier até mim, você planta.
— Ok, vai!
Se separaram novamente, e naquele momento, Obito ativou seu sharingan, mas ao invés de se jogar na luta, ele esperaria uma oportunidade, afinal, se não conseguia lutar daquele jeito, então pelo menos ajudaria o time a vencer.
Um ninja deve ver através da decepção.
Foi o que Naruto lhe disse uma vez.
Não era a hora de ser teimoso.
Observe, Obito... Repetiu para si mesmo vendo Sakura avançar contra o outro.
Nunca tinha se sentido tão pressionado em sua vida. Cada golpe era desviado por um triz, e de repente não conseguia mais atacar. Toda a sua atenção estava focada na evasão, porque nenhuma defesa era páreo para aqueles socos, não importando a qualidade dos protetores: One Punch Sakura não podia ser parada por isso. Ela estava mais rápida, mais focada, e ele podia sentir que perderia aquela luta assim que ela acertasse o primeiro golpe, por isso deu tudo que tinha naquela série de desvios, tentando tomar distância sem sucesso.
A mulher era um monstro.
Foi questão de tempo até ela acertá-lo, e por reflexo, Kakashi até colocou o braço na frente do corpo, mas nada o protegeria. Sentiu o impacto do golpe junto com a liberação do chakra de maneira pontual, a dor surgiu rápida tomando conta de todo seu braço enquanto suas costas quebravam uma rocha alta em pequenos pedaços, mas seu corpo não parou. O impacto foi tão absurdo que Kakashi não teve forçar para parar o movimento, sendo jogado mais alguns bons metros além da rocha.
O braço estava quebrado, ele constatou quando finalmente se colocou de pé, cambaleante. Ele levantou seu rosto na direção dela, vendo a parada como quem esperava pelo próximo round. Testou a possibilidade de utilizar seu braço esquerdo mesmo debilitado, mas a dor era tão ridícula que ele acabou descartando a ideia. Como ele ia vencer? Taijutsu era impossível, e Kenjutsu estava fora de cogitação.
Só restava uma coisa a fazer...
— Doton: Tsuchi Nami no Jutsu!
Todo o chão começou a tremer em ondas violentas a partir do garoto mascarado. Sakura riu com o canto do lábio, porque era óbvio que ele perceberia que era impossível vencer num combate à curta distância. Acabou saltando, sabendo que era exatamente isso que ele queria, e não se surpreendeu quando o fogo surgiu do meio das árvores num jutsu já muito conhecido por ela.
Flor de Fênix.
Juntou os dedos num selo simples, trocando de lugar com um toco qualquer logo depois de perceber, no fundo da clareira, a certinha invadindo o território. Sakura saltou na direção dela sem importar-se com os outros dois, que logo se prontificaram a atrasá-la com shurikens lançadas por Obito através de um pergaminho de invocação em massa e Kakashi com o jutsu do Dragão de Raio.
Sakura girou, saltou, derrapou... Usou uma kunai para bloquear algumas das armas ninjas que teimavam em alcançá-la, mas jamais parou se movimento em direção a kunoichi que se aproximava dos troncos em uma corrida veloz. Sakura tinha que admitir que ela até era rapidinha, mas não tão rápida. Saltou por cima dela, e assim que atingiu o solo, seu punho acertou o chão fazendo tudo tremer.
A certinha tropeçava.
Viu Obito se aproximando de maneira quase desesperada. Mexer com a certinha causava tudo isso nele? Revirou os olhos ao chegar perto de uma Rin vacilante e quando seus olhos se encontraram, Rin foi ao chão. Oh, céus... Usou um genjutsu rank B, não muito elaborado, e a mocinha – que nem havia brilhado – ia ao chão antes de chegar perto dos troncos.
Estalou a língua três vezes enquanto balançava a cabeça negativamente antes de olhar para Obito que... Oh, merda.
Lá estava ele saltando o suficiente para cravar uma bandeira no topo do tronco, e Sakura se sentiu idiota por subestimar o plano deles, afinal, achou que Rin fosse aquela quem teria a importante incumbência de finalizar a missão. Bem... Um ninja deve ver através da decepção, foi o que Sakumo-sensei lhe disse um dia.
Então Sakura apenas abriu um sorriso quando o Uchiha esbarrou de cara no chão e sua ilusão desapareceu.
— O tempo acabou – Ela disse mal conseguindo segurar a risada diante da expressão amuada de Obito — Vocês falharam.
— É melhor olhar de novo.
Sakura girou o corpo para ver Kakashi plantado no topo do tronco central com a bandeirinha – a cor-de-rosa – ficada na madeira maciça.
— Humpf... – Ela se permitiu resmungar com um sorriso, satisfeita por pelo menos um deles ter enxergado através do genjutsu complexo que tinha colocado no campo de treinamento pouco antes do início de toda aquela batalha. — Ora, ora... Parece que eu estava enganada.
Kakashi sorriu satisfeito com a declaração torta de Sakura, que no final das contas, admitia que eles haviam superado as expectativas dela. Com os olhares presos um no outro, sequer perceberam que soavam provocativos, como se a batalha tivesse provocado um desejo estranho de arrancar dela aqueles sorrisinhos satisfeitos, e Sakura parecia adorar ser surpreendida.
Ele desceu do tronco para se unir ao time quando a voz de Inojin surgiu abrupta no campo de treinamento, junto com latidos esganiçados de seu ninken Bisuke. Sakura enaltecia o garoto loiro com elogios às suas armadilhas plantadas de maneira muito engenhosa, e Kakashi tinha que admitir que o trabalho havia sido feito de maneira bem decente.
Se virou para acordar Rin do genjutsu, que piscou para ele atordoada num primeiro momento, mas logo se recuperou, feliz por terem concluído a missão, e Obito, apesar de se mostrar contente por ter passado do diabo do teste, também tinha um sentimento amargo na boca, afinal... Kakashi, que não tinha nada de especial, tinha conseguido ver através do genjutsu de Sakura, enquanto ele, mesmo com o sharingan ativado, não conseguiu perceber a ilusão.
Preciso treinar, pensou enquanto fingia não se sentir incomodado, vendo Rin se preocupar em excesso com aquele braço quebrado de Kakashi. No final das contas, era sempre Kakashi.
— Ok, então o teste de hoje acabou. Vejo vocês amanhã para a nossa primeira missão, lá no portão leste da vila, às...
— É só isso? – Obito emendou antes que ela pudesse continuar.
Esse menino não tem educação?
— O quê? Vocês concluíram o teste. Não tem mais nada para fazer.
— O Naruto-sensei fazia avaliação das nossas habilidades depois do treino.
Sakura suspirou enquanto pousava as mãos na cintura. Naruto tinha que ser tão... didático.
— Olha, eu não sou sensei de vocês. – Sakura resmungou observando que todos os três pareciam um pouco decepcionados com a resposta dela. Céus... Quem era ela para avaliar qualquer coisa? — Mas, tá... Vamos ver... – Coçou a cabeça — Obito, prum genin-
— Chunin.
...
— Prum chunin, você tem um bom nível de taijutsu, suas bolas de fogo são boas, sua leitura de batalha é satisfatória, mas... Seu problema é que você é ansioso. Sua primeira bola de fogo foi mais estável, maior, e com uma economia melhor de chakra, a segunda foi medíocre, você só desperdiçou chakra e ainda me deu abertura. Eu poderia ter te matado ali. Você se afobou. Além disso, você ficou afoito quando lutou junto a Kakashi, e isso foi perceptível em cada golpe. Você precisa aprender a controlar melhor seu temperamento, ou vai acabar atrapalhando, e... Seu sharingan... Você precisa treinar mais ele.
Obito ouviu tudo atentamente percebendo que, pela primeira vez, alguém lia seus movimentos muito além da simples técnica. Naruto sempre disse que ele precisava focar no taijutsu, mas Sakura foi a primeira a adjetivar seus movimentos de forma sentimental. Ansioso, afoito, afobado... Ela tinha razão. No meio da luta, Obito acabava sendo mais coração do que cérebro, mas era assim que todo herói de shounen fazia, não é?
Mas os heróis de shounen também treinam.
Concordou com a cabeça de modo resignado, surpreendendo Sakura brevemente. A mulher realmente achou que ele começaria a gritar naquele tom indignado de sempre, mas o que veio foi apenas a aceitação de suas palavras, e na opinião dela, pareceu que ele a havia aceitado, mesmo que só um pouco.
Bem...
Olhou para Kakashi, que estava sentado em posição de lótus, Rin ao seu lado prestando socorro.
Ela tinha pegado um pouco pesado com ele.
— Já você é excelente. – Ela disse gesticulando um pouco. Tecer elogios era esquisito, principalmente quando ele mantinha aquele olhar estranho para ela, como se estivesse curioso. — Movimentos precisos, leitura de batalha de alto nível... Seu controle de chakra é bom, seu taijutsu também é impressionante. Tenho certeza que se quiséssemos matar um ao outro, você teria me mostrado truques ainda mais incríveis, e a única coisa que posso dizer sobre você, para melhorar, é tentar entender o equilíbrio da tantō. Você poderia ter me pressionado um pouco mais se entendesse a arma que maneja.
Sorriu ao final, mas não porque estava tentando ser gentil, e sim porque se sentiu igual ao seu professor, anos antes, dizendo aquelas mesmas coisas para ela quando estava aprendendo sobre kenjutsu. Parecia que algumas coisas nunca mudavam, e apesar daquele garoto ser um grande shinobi, ainda lhe faltava experiência.
O viu concordar com a cabeça, mas diferente de Obito, ele parecia estar avaliando-a de alguma forma, e quando estava prestes a se perder um pouco nos pensamentos, viu o brilho verde do jutsu de Rin se espalhar pelo braço do rapaz.
Hm... Tinha a certinha ainda.
— E você, Rin... – Sakura começou enquanto encurtava o espaço entre eles de maneira vagarosa — Vocês sabem trabalhar em equipe. Kakashi e Obito performaram uma boa luta em conjunto apesar de tudo, e você conseguiu ajudar salvando-o da armadilha. Você cumpriu o plano como o esperado, eu suponho, mas... Sua leitura de combate é péssima. Você entrou na pior hora possível e totalmente vulnerável. – Disse se agachando na frente de Kakashi, Rin tinha olhos arregalados, mas Sakura não se importou, tirando a mão dela de cima do braço quebrado do outro — Pensei que mesmo que fosse uma kunoichi medíocre, talvez seu ninjutsu médico fosse bom, mas vejo que não.
E então o chakra de Sakura se fez presente, e Kakashi sentiu as palavras dela na sua pele. Era muito mais suave, morno. De alguma forma, soava até como um carinho, mesmo que houvesse o incômodo do regenerar. A diferença era gritante, até no tempo em que o osso se unia, como se jamais tivesse sido quebrado.
Ele olhou para Rin, vendo-a se encolher em vergonha.
— Se isso fosse uma missão de verdade, você teria morrido ou um dos dois teria morrido tentando proteger você. – Sakura disse de maneira bem sincera, mas não havia nenhuma tentativa de diminui-la. Tudo o que Sakura dizia era em tom neutro. — Ninjas médicos devem ser os últimos a morrerem. Se nós morrermos primeiro, então todos morrem. Não devemos entrar em combate, nem surgir no campo de batalha de maneira desleixada. A leitura do combate é essencial para podermos executarmos salvamentos, e a velocidade da nossa cura é determinada pelo nosso controle de chakra, que precisa ser perfeito. Durante uma luta, quanto mais rápido você puder curar um companheiro, mais rápido o inimigo morre.
A mulher se levantou após se certificar que o braço do outro estava em perfeito estado. Ela e Rin se olharam, e a menina de cabelo castanho nunca se sentiu tão decepcionada consigo mesma. Tudo o que queria era mostrar à Sakura que era uma kunoichi promissora, era o que todos lhe diziam, mas agora, diante daquelas palavras, Rin se sentiu uma fraude.
— Tia Sakura, a gente já vai pra casa? – Inojin perguntou, ainda com Bisuke nos braços.
Sakura olhou para o trio por cima do ombro se perguntando se havia sido muito dura com a menina que parecia ter uma grande desilusão consigo mesma. Bem... Na época, os ensinamentos de Tsunade não foram nada sutis, e foi com ela que Sakura aprendeu a ser cirúrgica com suas palavras, apesar de querer dizer ainda que Rin deveria abandonar o oficio ninja, porque era evidente que ela não tinha estômago para isso, mas haviam coisas que eram melhor absorvidas quando a própria pessoa entendia por si mesma.
— Ah, sim. Você tá com fome, né? Mas o Bisuke fica.
— Mas... Tia Sakura...
— Nem faz essa cara para mim que eu não posso te ajudar nessa – Riu — Sua mãe me mata se eu te deixar aparecer com um cachorro em casa e, além disso, esse não é o tipo pet. Bisuke é um cão ninja de invocação. – Sakura explicou tirando o animal dos braços de Inojin — Ele tem que ficar com a matilha.
Rin ouvia o diálogo como plano de fundo, seus olhos focavam na relva verdosa a sua frente, que mesmo sendo pisoteada, ainda parecia intocada. Dentro de si, as palavras de Sakura remexiam em todas as suas bases e em tudo aquilo que queria se tornar. Ela já sabia que tinha um longo caminho, mas achou que estava indo bem. Achou que poderia encontrar o lugar onde seria um nome tão relevante quanto Senju Tsunade e, principalmente, Haruno Sakura.
— Vem, dá um abraço nele e vamos devolvê-lo ao Kakashi-kun.
— Tá bom... Tchau, Bisukinho~
Levantou os olhos para ver o menino de cabelo loiro dar um último abraço no cão ninja. Sakura o tomou nos braços com delicadeza antes de levantá-lo para encostar seu nariz no dele. A viu rir como se fosse uma criança, ao passo que o rabinho caramelo balançava para lá e para cá numa velocidade de quem está animado demais. Quem a visse daquele jeito, segurando um filhote nos braços, jamais diria que se tratava da maior ninja médica de todo o mundo.
Ela devolveu o cão para os braços de Kakashi, que logo o afagou com um coçar no pescoço antes de deixá-lo partir numa nuvem de fumaça.
— Bem, por hoje é só. – Sakura disse com as mãos na cintura — Vejo vocês amanhã, para nossa primeira missão, no portão leste, às 14 horas. Os detalhes da missão serão dados amanhã, mas adianto que será uma Rank-A, então estejam preparados.
Rin viu a mão dela pousar sobre a cabeça loura da criança de olhos azuis, a viu olhar para ele com um sorriso gentil demais antes de dar as costas para seguir seu caminho. Eles continuavam conversando, mas Rin não prestava atenção, ao contrário, tudo o que pensava era sobre como seu objetivo se afastava cada vez mais. Tudo o que desejava ser, tudo o que sonhava ser... A distância aumentava cada vez mais, e mais que isso, ela se sentiu um verdadeiro estorvo para o time.
A menina quis crescer, por isso, quanto se levantou junto aos seus companheiros, seu peito se encheu de coragem. Ela sabia o que precisava ser feito e o momento era aquele. Não haveria outra chance. Seu peito inflou quando segurou a respiração, e então o ar saiu quando abriu a boca, certa de que suas palavras a alcançariam.
— Me treine.
Franziu o cenho surpresa quando a voz ecoou nas exatas palavras que queria dizer, e quando Sakura levantou a cabeça na direção do trio, também franzindo seu cenho numa visível confusão, as palavras foram repetidas, juntamente com um passo a frente da pessoa que as dizia...
Hatake Kakashi.
— Eu quero que você me treine, Sakura-taichō.
Rin olhou para o garoto mascarado ao seu lado e pela segunda vez naquele dia, a menina se sentiu uma completa fraude.
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Era noite.
Um manto estrelado cobria Konohagakure com sua plenitude serena.
Deitado na grama baixa das margens do canal que cruzava a vila, o garoto olhava para os astros percebendo que não sabia muito sobre eles. Tudo bem, haviam estrelas, constelações, e dava para se orientar mais ou menos por aquela miúda que chamavam de cruzeiro do sul, mas o resto? Ele não entendia nada de astronomia.
Aquilo era Órion? Lira? Perseu? Aquele outro amontoado... Aquele lá mais à esquerda, aquilo era Sextante?
Ele não sabia.
O vento estava frio naquela noite morosa, mas era agradável quando tocava suavemente sua pele. Estava com aquela camisa sem mangas que usava como uma segunda pele por baixo daquela outra mais folgada, os pés estavam descalços, e resolveu deixar a hitaiate no móvel perto da janela de seu quarto, que estava aberta aliás.
Tenzō iria ficar um pouco decepcionado se soubesse que tinha sido tão desleixado com a segurança de sua residência, mas, em sua defesa, todo o resto havia sido feito com esmero. Era só uma janela aberta, então tudo bem.
Coçou a barba que jamais existiu ainda com seus olhos atento ao brilho longínquo que chegava a seus olhos das estrelas que presenciaram todos os segredos do mundo. Olhando assim, numa noite tão estranha, Kakashi sentia que havia algo místico nelas, como se o cosmos fosse algo aleatório demais, inevitável demais.
Num segundo de distração, o ninja de cabelo prateado acabou se perdendo no vão de suas memórias, mas ao contrário do que se esperava, foram as memórias recentes que lhe invadiram. Se pegou pensando em sua nova capitã e no jeito com que ela o olhou quando ouviu seu pedido abrupto. Pensou na falta de resposta dela.
Tudo bem que não havia feito nenhuma pergunta, mas era o tipo de declaração que merecia uma resposta a altura. Uma negativa ou uma confirmação. Qualquer coisa. Mas ao invés disso, Sakura deu-lhe as costas e foi embora junto ao menino que riu antes de se virar, como se dissesse no mais honesto dos conselhos, que era melhor desistir.
Talvez fosse.
Ele levantou a mão esquerda, o braço estirado, os dedos abertos. Conseguia ver as estrelas pelo espaço entre os seus dedos, que pareciam estar ao alcance de um fechar de mão, mas só pareciam. No final das contas, as estrelas jamais poderiam ser alcançadas, e talvez já tivessem desaparecido na imensidão do universo, mas para Kakashi, elas ainda brilhavam intensamente.
Fechou a mão lentamente atentando para cada musculo que tornava o movimento possível, e sem tentar reprimir a si mesmo, acabou revivendo a sensação do chakra de Sakura em sua pele, se misturando o seu próprio para conduzir um fluxo estável. Era quase imperceptível, exigindo sua máxima concentração para encontrar o fino fio de chakra dela, mas uma vez que o encontrou, sentiu a suavidade, a gentileza.
Sequer lembrava do que ela dizia para Rin enquanto o curava, porque estava prestando atenção naquele chakra esverdeado que intensificavam o verde mais forte dos olhos dela. Ela tinha uma expressão focada, quase como naquele momento em que olhava para Inojin acariciando seu filhote, e nesses momentos, Sakura parecia uma pessoa completamente diferente.
Na verdade, Sakura era diferente do que ele esperava.
Naruto falava como se ela fosse a pessoa mais legal do mundo, e Tenzō a admirava pela fidelidade aos seus amigos. Seu pai era um caso a parte, falava dela com um entusiasmo tão bobo... E eram essas coisas que Kakashi esperava encontrar nela. Ele esperava ver a mulher mais legal do mundo, fiel aos amigos e que lhe trouxesse entusiasmo.
O que ele encontrou foi uma mulher que parecia arrogante em alguns aspectos e enfezada como se tivesse sido obrigada a estar ali, mas...
Kakashi se sentou, abaixando a máscara por um instante para sentir a brisa no rosto. O cheiro da água, da grama, do solo... Tudo isso invadiu o seu nariz de maneira confortável. Olhou para o horizonte sem realmente tentar enxergar alguma coisa, apenas admirando a paisagem em sua plenitude efêmera, afinal, passado um milésimo de segundo, a paisagem já não era mais a mesma.
E fora nos segundos tão rápidos que em que seus olhos encontraram os dela que Kakashi percebeu.
Não era a pessoa mais legal do mundo, nem a dedicação aos amigos, sequer poderia nomear como algo que lhe pudesse lhe deixar entusiasmado. Longe de tudo isso, Kakashi percebeu algo indefinido, algo que o prendeu, algo que ele precisava decifrar naqueles olhos verdes tão honestos.
...
Recolocou a máscara antes de se preparar para voltar para casa, afinal, logo sairia em missão e precisava dormir.
Sim, Kakashi precisava dormir.
.
.
.
Eram duas e quarenta quando Sakura chegou ao portão leste da Vila da Folha sem se preocupar em dar qualquer desculpa para seu atraso. Obito tinha se esforçado para chegar cedo, e só por isso tinha sido capaz de ficar sozinho com Rin por alguns minutos. Eles não conversaram. Obito nem sabia o que dizer para a garota que parecia tão resignada.
Não podia negar a vontade de ter feito Sakura calar a boca quando começou aquele discurso sobre Rin ser medíocre, porque dava para resumir nessa simples palavra, mas ao encontrar aquela expressão no rosto da companheira de time, Obito soube que deveria deixar as coisas acontecerem. Sakura não tinha sido maldosa em seus dizeres, e talvez... Talvez Rin precisasse ouvir.
Todos eles precisaram, e a mais prova disso foi Kakashi pedido a ela que o treinasse.
Kakashi tinha chegado cinco minutos antes das duas, e Sakura apareceu, finalmente, pedindo apenas que a seguissem sem dar margem para nenhum deles a retrucarem. Aquela mulher não era mais a Sakura enfezada que espiara seu treino semanas atrás, aquela era Sakura-taichō, e a diferença era clara até no modo em que falava.
Partiram da vila em velocidade, tomando uma rota que ele nunca havia tomado antes. Durante o trajeto, ela passou as coordenadas da missão, dizendo que não se tratava de um contrato como a maior parte dos serviços ofertados, mas que estavam numa operação militar a serviço da Vila da Folha e seus aliados, foi nesse momento que Obito sentiu a seriedade de tudo o que estavam fazendo. Nunca tinham feito uma missão por Konoha, e tudo parecia tão mais sombrio enquanto ela relatava o que deveriam fazer: Confirmar a morte do esquadrão invasor de Kirigakure.
Também disse como iriam operar, deixando claro que não fariam acampamentos, mas sim pausas escalonadas, algo que deixou Obito um tanto apreensivo, afinal, não tinha trazido tantas pílulas do soldado consigo, mas faria o necessário. Não seria um estorvo para o time.
E assim, a primeira missão do time Naruto, capitaneado por Sakura, havia começado.
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— Ela teve uma noite péssima, Kiba. – Ino disse com seu semblante preocupado — Teve pesadelos, acordou se tremendo... Eu não sei se essa missão foi uma boa ideia.
— Eu encontrei com ela antes de ela partir, perguntei se ela se sentia preparada pra isso e ela me respondeu que sempre estava pronta para uma missão. – Kiba fez uma breve pausa, desviando o olhar de Ino para o seu chá de tom âmbar.
— Eu só queria que essa missão fosse rápida e simples. Ir e vir, sem surpresas. Fico pensando nos alunos de Naruto, no que eles podem... Eu não sei, Kiba. — Suspirou tentando aliviar sua expressão, mas sem sucesso — Eu só tô tão...
Sentiu a mão de Kiba tocar a sua e não recusou o gesto, apertando os dedos dele como quem precisa de um pouco de forças.
— Não dá pra fazer nada agora, só torcer pra que dê tudo certo – Ele disse olhando de maneira firme para Ino — Eu vou confiar que a Sakura vai fazer o melhor pela missão, voltar para casa em segurança e sem recaídas.
Ino assentiu brevemente sabendo que era a única coisa que poderiam fazer no fim das contas.
— Eu também.
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ERA POV DO KAKASHI QUE VOCÊS QUERIAM? ERA ISSO?
AHAHAHAHAH
! GENTE DO CÉU !
Eu e a Agatha_Lis fizemos um super podcast para falar do que a gente mais gosta: FANFIC.
Em breve vai ter link do tube tube, mas por enquanto vocês podem conferir no link a baixo, e seguir o insta do projeto para apoiar a gente :3
episode/3McVbPifY8HNNX2hTh8oYJ?si=cia7C2PCRmW4SXaOehFKdg&dl_branch=1
AGORA SIM
GOSTARAM DO CAPÍTULO?
CONTINUEM COMIGO, A FANFIC TÁ SÓ COMEÇANDO (começo longo esse, né? k)
