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Lugar seguro
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Nunca antes haviam participado de uma missão daquela maneira tão sóbria, correndo pelos galhos grossos como animais em alerta. Sakura tinha seus passos tão silenciosos que fazia os outros três soarem como elefantes atrapalhados. Ela era sorrateira, precisa. Seu pisar cauteloso evidenciava o quão técnica aquela mulher era em suas missões, fossem elas simples ou não, e somado a postura austera, Sakura parecia ter configurado sua mente para se ater unicamente à conclusão daquela missão.
Os outros três não sabiam direito para onde estavam indo, mas seguiram em linha reta no primeiro dia por dentro da mata fechada, evitando as estradas comuns e as trilhas ninjas que geralmente eram marcadas no mapa. Fizeram apenas duas pausas curtas nas primeiras vinte e quatro horas: uma de uma hora, outra de duas horas. Mantiveram a velocidade cadenciada. Não estavam viajando em velocidade máxima, entretanto, eram velozes o suficiente para cobrirem uns bons quilômetros rapidamente.
Ao final do primeiro virar de relógio, Obito e Rin já demonstravam breve sinais de cansaço, entretanto a tensão que permeava o grupo de maneira tão atípica os impediu de cederem. Ambos ainda permaneciam num estado de alerta, ao passo que o único que verdadeiramente parecia preparado era Kakashi, que mantinha o foco no ambiente ao redor, atentando para os pormenores da missão que lhe foi dada.
Na terceira parada que fizeram, a voz de Obito se projetou num comentário contido, mas antes que Rin pudesse responder aquele início de conversa, Sakura os impediu. Tudo o que fosse dito nas sombras das folhas poderia ser ouvido por aqueles que nelas estivessem. Não havia conversa paralela. A comunicação era mantida com o único propósito de assegurar o andamento da missão, sendo qualquer outro assunto dispensável.
Rin e Obito pensaram em Naruto por um momento, sentindo falta da fogueira calorosa que os aqueciam para as conversas despretensiosas ao final dos dias, porque as missões com seu sensei eram assim, todas tranquilas. O clima amistoso não existia sob a figura de liderança de Haruno Sakura, a mulher que Rin tanto admirava. Talvez fossem as palavras severas ditas no treino, mas Rin já perguntava a si mesma se tudo o que pensava de Sakura era apenas uma construção daquilo que ela desejava ser um dia.
Talvez ela encontrasse a resposta naquela missão.
A menina olhou para as costas de Kakashi, que corria brevemente a sua frente. Estavam na formação de losango, com Kakashi e Obito nas laterais, Sakura na fronte e Rin na retaguarda. Kakashi já havia feito missões com outros times, visto outros ninjas em ação e lutado com inimigos que os outros dois jamais viram. Será que era comum que as missões fossem tão hostis? Onde estava o companheirismo? O trabalho de equipe?
Como ter trabalho de equipe com pessoas que mal se comunicavam?
Rin continuou mergulhada em seus pensamentos que iam e vinham nas horas que se arrastavam. O cheiro da mata úmida começava a passar desapercebido pelo olfato, ao passo que o vento mais firme que era produzido pelos passos velozes já havia se tornado comum. Rin ainda não sabia para onde estavam indo exatamente, mas Obito notou o zigue-zague estranho que Sakura começou a executar por volta da metade do segundo dia, jamais se aproximando demais da estrada ou das trilhas comuns, mas sempre se embrenhando na vegetação mais espessa.
Às vezes faziam uma parada de minutos nas margens de uma nascente, pouco depois de Kakashi retornar de algum lugar. Ele e Sakura tinham essas trocas de olhares pontuais nas quais o companheiro apenas sumia por um período de tempo não muito longo, retornando em silêncio como se nada tivesse acontecido. Obito desconfiava que ele verificava o perímetro para que as paradas pudessem acontecer, mas não tinha absoluta certeza. Se fosse isso, só evidenciava o quanto Sakura confiava nas habilidades ninja do outro.
Foi no terceiro dia que Obito percebeu que algumas paradas de Sakura não eram calculadas. Ela olhava para troncos desgastados, para folhas amassadas e também para qualquer sinal não muito claro que chamasse sua atenção. Parecia executar o trabalho de um rastreador. A mulher não dizia uma palavra sequer, apenas considerava algo em seu intimo de continuava a correr junto com os outros três. Se passadas setenta e cinco horas, Sakura pediu que Rin e Kakashi trocassem de posição.
Kakashi agora cuidava da retaguarda.
Era final de verão.
A mata selvagem ainda se via quente em sua umidade característica. Haviam os vapores sutis que exalavam das plantas num cheiro às vezes agradável, mas muitas vezes enjoativo. As árvores eram grandes, com troncos grossos e folhas verdosas, que se misturavam com os arbustos mais baixos, trepadeiras, cipós maduros, flores, insetos, parasitas... Para onde olhasse, se focassem bem, poderiam ver uma trilha de formigas acabando com a folhagem de uma árvore que já parecia velha.
Ao pôr-do-sol, os animais menores se escondiam, fossem estes carnívoros ou não. Alguns, mais destemidos, se aventuravam por dentro do mato selvagem, buscando os esconderijos daqueles que não conseguiriam se defender, mas ao mesmo tempo torcendo para não esbarrarem em animais maiores que pudessem findar suas vidas ali.
De volta a esse ambiente tão caótico, Sakura se sentia ansiosa.
Era na floresta tão densa onde suas batalhas mais sangrentas haviam ocorrido. Em meio às árvores, Sakura havia dado fim a mais ninjas do que poderia até mesmo se lembrar, porque as vidas desses homens e mulheres não eram memoráveis o suficiente. Não havia remorso. Se seus inimigos tinham, nas perspectivas dele, motivo para atacarem, então que lidasse com a possibilidade da morte, assim como ela lidava todos os dias quando se colocava de pé.
Fácil era se acostumar com a vida na Vila da Folha, que apesar de sua corja, tinha o calor amistoso do abraço de um velho conhecido. Acostumar-se com a cama macia, a comida pronta, as risadas... O cheiro de limpeza era, sem dúvida, seu preferido. Os banhos fáceis em chuveiros com elaboradas duchas, e as sandálias que jamais se afundavam em lama.
Não era estranho que tivesse se acostumado com aquilo em tão pouco tempo.
Ali, na floresta, Sakura se sentia no limite.
Em algum momento, a kunoichi se pegou pedindo a sabe-se lá quem que nada acontecesse. Torceu para que o cosmos pudesse lhe dar uma missão tranquila, com uma ida segura e uma volta branda. Se agarrou a possibilidade de que poderia manter os três que a acompanhavam em segurança. Sakura se permitiu ter esperança de que seu retorno como ninja regular seria pacifico.
Entretanto, no meio da escuridão que se formava quando as sombras da floresta se projetavam com mais intensidade naquele último suspiro de luz, Sakura se sentia ansiosa da pior maneira possível. O tom alaranjado que até poderia lembrar a plenitude dos astros a fazia temer. Era na escuridão onde os ninjas mais medonhos se escondiam como animais peçonhentos à espreita, assim como os olhos do maior cão que já vira um dia fizeram.
Na última noite em que se permitiu dormir, Sakura teve o pior dos sonhos. Os olhos castanhos brilhavam ao entardecer mais belo, olhando-a com uma intensidade jamais vista. Katsu era feroz, quase arredio, mas naquele olhar, ela viu algo que talvez somente Sakumo pudesse ter enxergado, mas que agora era revelado em seu infalível semblante.
Sakura enxergou resiliência.
E naquele momento, os olhos perderam a cor, tornando-se escuros, num tom quase preto, e só nesses olhos Sakura acordou com um arfar profundo, como se finalmente tivesse retomado a capacidade perdida de respirar; e quem ouvisse tal narrativa talvez não entendesse o porquê de tanto desalento, mas para ela, a mulher que tanto matou, lidar com a verdade naquele olhar beirava ao desesperador.
Em seus sonhos, Katsu de olhos escurecidos não a culpava.
Em seus sonhos, a verdade era jogada de forma irremediável, mas que verdade era essa? Sakura ainda não sabia, e na presença de Hatake Kakashi, que a olhava de tempos em tempos, a kunoichi sentia que só ela ainda não tinha aceitado.
Mas aceitado o quê?
Pisou no galho mais grosso, girou o corpo a dentro, desceu para a terra batida vendo, através da folhagem mais densa, a luz do sol fraca, sumindo ao fundo. Teriam mais vinte e cinco minutos, mais ou menos, de sol e após isso, a única luz que os guiariam seria aquela advinda da lua nova que tímida, esperava seu momento de brilhar.
— Obito. – Ela chamou num tom moderado, tentando se manter sã para o que estava prestes a acontecer. — Use seu sharingan e me diga o que vê. — Disse quando o rapaz alcançou o mesmo nível que o dela, mas jamais o olhou.
Sakura continuava olhando para frente, por entre a vegetação arredia, sabendo que seu alvo estava próximo, afinal, estava seguindo as pistas desde a hora cinquenta e três. Alguém tinha sobrevivido à investida de Yamato, ou ao menos tinha evitado o conflito. Naruto deveria estar embarcando naquele exato momento, o que significava que o tal alvo ou havia perdido o timming, ou não estava ali por ele.
— Não sei. – Obito respondeu depois de um momento — Não vejo nada diferente.
Ficou em silêncio sabendo que a falta de uma resposta deixaria o rapaz ao seu lado ainda mais ansioso em encontrar qualquer que fosse a coisa que Sakura gostaria que ele enxergasse. Ele precisava aprender a lidar com isso, ou pereceria tão rápido quanto pudesse jogar uma kunai.
— Kakashi, cuide de Rin. – Ela ordenou na voz mais presente. — Obito, você deve fazer tudo o que eu mandar sem hesitar, entendeu?
— Hai. – O menino disse tentando não transparecer o nervosismo.
— Se eu mandar fugir, você foge. Se eu mandar ficar, você fica.
— Taichō... – Rin se pronunciava num tom temeroso.
— Obito, o que você vê? – Sakura parou de repente, todos de pê no meio das árvores sombrias. Tinham vinte minutos de sol, mais ou menos e ela gostaria de encerrar tudo antes que o sol caísse de vez. — Se concentre.
...
— O ar... O ar é... Chakra!?
Os óculos alaranjados deixavam o rosto do garoto Uchiha, que finalmente, após vasculhar todos os lugares, compreendeu que o que precisava ver estava em todos os lugares, bem na sua frente, e quando a voz dele se projetou, todos conseguiram ver seu campo de visão se estreitar. Não conseguiam enxergar mais de dois ou três metros a frente, tudo se tornava uma névoa densa que os envolvia de maneira gélida.
Rin colou suas costas com as de Kakashi, que segurou o cabo da tantō com firmeza. Ele não parecia assustado, sequer surpreso. Com certeza, assim como Sakura, sabia o que estava prestes a surgir, afinal, ele foi o único em quem ela confiou para vistoriar os arredores. Era bizarro como conseguiam se comunicar sem mesmo trocarem uma só palavra, e Rin até poderia se perder nos pensamentos sobre as habilidades dos ninjas de elite, mas sua atenção foi tomada pelo bater firme de seu coração, que era a única coisa que conseguia ouvir com clareza.
Estava tão tensa. Segurou uma senbon com a mão na tentativa de parecer um pouco mais preparada, mas a verdade é que... Ela era uma ninja despreparada.
Próximo a eles, estava Sakura enfiando a mão na cartucheira enquanto Obito jazia ao seu lado, confuso, olhando para todos os lados. Tudo era chakra. Seus olhos não conseguiam ver através daquele nevoeiro, fazendo seu importante sharingan ser completamente inútil.
— Pare de tentar ver através da névoa. Você não vai conseguir. – Sakura disse de maneira séria enquanto calçava aquelas luvas pretas, num sinal de que não estava esperando uma batalha fácil — Ao invés disso, concentre-se no movimento que o chakra faz. Nada no mundo pode ocupar o mesmo espaço físico, então quando o chakra se mover, você vai precisar ser muito rápido. – Disse com uma frieza absurda — Ou vai morrer.
Ela disse tais palavras, mas na teoria, tudo parecia tão fácil... Obito se concentrou na atividade da predição, tentando determinar como toda aquela massa de chakra flutuava ao redor deles, determinando seu fluxo, sua cor, sua densidade... Ele tentou com afinco, mas havia tensão, e medo. Havia algo dentro dele que gritava um tudo ou nada. Nunca antes se sentiu tão aflito, privado de seu principal instrumento.
— Eu... – Deixou escapar enquanto tentava, e tentava, e tentava...
Até que finalmente enxergou exatamente o que deveria. Um vão se formava enquanto o corpo se materializava numa fração de segundo. Abriu a boca para alertar, levantou a mão que segurava a kunai, mas o golpe foi mais rápido. A sola emborrachada voou direto em sua barriga, jogando-o para o lado. Ele mal viu o que aconteceu, tendo suas costas atingido o tronco da árvore mais próxima, que não ficava tão longe assim.
— Então os boatos são verdadeiros... – Ouviu através da névoa ao passo que se colocava de pé rapidamente, voltando à posição onde Sakura se encontrava. A voz era sombria, assim como a figura que carregava a maior espada que já havia visto na vida. Uma longa lâmina, como a de uma guilhotina, que atingia as costas da mão de Sakura com precisão. — A flor da morte voltou ao lar.
Obito sentiu um calafrio. Se Sakura não o tivesse jogado longe, a espada estaria cravada em seu crânio provavelmente, mas ao invés disso, a mulher sustentava toda a força que ele emitia através da lâmina na única mão que tinha erguido. Eles mediam forças enquanto se olhavam, e o garoto pôde ver as bandagens que o cobriam, juntamente a hitaiate opaca que carregava o símbolo da névoa oculta.
— Biwa Jūzō... O que um dos sete espadachins da névoa faz tão longe de casa? – Ela perguntou de maneira tão desdenhosa quanto o outro.
Eles saltaram em recuo, o homem apoiando a espada tão longa quanto ele nos ombros, simulando uma expressão relaxada que, na verdade, era apenas fingimento. O homem estava pronto para matar.
— Se eu te disse que estou apenas de passagem, você me deixará ir? – Respondeu revelando os dentes afiado por trás dos lábios rachados.
Obito engoliu seco só de pensar nas histórias que escutava sobre o esquadrão de elite de Kirigakure, os homens especialistas em assassinato oculto. Os Sete Espadachins da Névoa eram lendas no mundo shinobi, compondo um grupo sanguinário de alto calão, que teve quatro dos seus sete membros assassinados por Maito Dai, um genin de Konoha que se revelou muito mais forte que qualquer outro.
Sakura e Jūzō ataram seus olhares um no outro, ambos medindo a expressão que não se mostrava nenhum pouco confiável. A kunoichi da folha não estava num dia bom para conversa fiada, e se alguém daquele naipe estava rondando o trajeto de Naruto, então esse alguém precisava ser neutralizado.
— Não importa o que eu disser, não é? – O homem falou apertando o cabo da longa espada — Eu já devia saber que uma vez no seu rastro, a batalha é inevitável.
De repente, o homem se dissipava na névoa como se fizesse parte dela. Obito tentou enxergá-lo, mas era exatamente como antes. Tudo era uma massa densa de chakra flutuante, e a única coisa que lhe restava era prestar atenção nos movimentos ínfimos que se projetavam através da materialização do homem. Tudo dependia de seus olhos, ele supôs, vendo Sakura parada no meio do campo.
Uma iryō-nin era o suficiente contra um ninja de elite como Biwa Jūzō? Obito não sabia dizer, mas sabia que precisava lutar, porque como Sakura fez questão de ressaltar, a alternativa era a morte.
A mulher, no entanto, sofria com o clima que se instaurava naquele lugar. A frieza do vapor simulado com chakra, o silêncio mortal que se mostrava tão atípico da floresta habitada por tantas criaturas, e a falta de visão que se intensificava com o entardecer fatídico... Tudo fazia com que seu corpo reagisse. Se sentia vibrar com a possibilidade da luta e a necessidade da rápida finalização.
Seus lábios entreabriram deixando o ar escapar com uma breve nuvem projetada para frente. Cerrou os punhos sentindo o próprio chakra correr perfeitamente pelo seu corpo, conectando todos os membros. Acumulou um pouco na mão ferida pelo bloquei abrupto da espada pesada, e num instante, como se fosse algo que sequer precisasse pensar para fazer, o corte desaparecia, restando apenas o sangue que havia escorrido por dentro do tecido arruinado de sua luva preta.
Mais um dia, mais uma luta.
E seria tão fácil se estivesse sozinha. Um soco no chão e seu inimigo seria obrigado a revelar-se, acabando com aquele joguinho barato de esconde-esconde na névoa fajuta, mas ao invés disso, Sakura se obrigava a ser mais calculista, afinal, haviam outros três que dependiam de sua sensatez. Um golpe errado era o bastante para que qualquer um deles perdesse a vida antes mesmo de entender o que estava acontecendo.
Não bastasse lidar com a necessidade da batalha comedida, ainda tinha aquela coisa dentro de si que teimava em tentar tomar o controle de tudo. Ela precisava se manter sóbria, mas na névoa esbranquiçada, Sakura conseguia ver mais nitidamente os olhos de Katsu, tal como em seus sonhos, e aquilo a perturbava.
— Apareça logo, desgraçado. – Ela praguejou ouvindo o farfalhar das plantas, o esfregar da terra, o vento cortante e toda a floresta. Fechou a mão com muito mais força. — Apareça logo... – Desejou num concentrar-se torto de quem estava lutando para não ceder aos próprios demônios.
— Cuidado! Rin!
Obito gritou pronto para correr na direção da menina, mas viu Sakura se lançar mais rápida que uma kunai na direção dos dois chunnins que permaneciam em sua posição, entretanto, no momento em que sua visão conseguiu ter o vislumbre da cena, seus ouvidos captaram o longo silvo que fora finalizado num chocar alto das duas lâminas.
Kakashi havia girado tão rápido que Rin sequer entendia o que havia acontecido. Num misero instante, o garoto sacou sua tantō enquanto invertia suas posições. O bloqueio foi certeiro. O zunir das lâminas ecoou floresta adentro fazendo os pássaros escondidos deixarem seus ninhos. O inimigo era forte. Eles se olharam por um segundo antes do homem recuar rapidamente, evitando aquele primeiro golpe que Sakura desferia com agilidade.
Juntando-se aos companheiros, Obito pôde ver o inicio daquela série de golpes trocados entre o espadachim e a médica. Uma vez desarmada, qualquer um poderia dizer que Sakura estava na desvantagem, tendo que desviar dos golpes agressivos da espada gigantesca que o homem brandia num agitar fervoroso, mas apesar da agilidade impressionante, a kunoichi até mais baixa que os dois garotos que a acompanhava conseguia esquivar-se de maneira exemplar.
Era como se o treino dela tivesse sido focado exclusivamente da arte de evadir.
Rin mal conseguia acompanhar a olho nu, tendo a dificuldade aumentada pela névoa insistente que os rodeava, Kakashi, entretanto, conseguia medir a luta de maneira mais analítica. Obito tinha o sharigan, mas o chakra deles eram como borrões por debaixo de um véu. Era difícil dizer o que estava acontecendo, mas Kakashi viu quando a mulher se lançou para o lado rapidamente, a arma do homem atingindo o solo com força. O espadachim precisou de um momento para erguer a lâmina novamente, mas a médica não precisava sequer da metade do tempo, e girou num movimento preciso, acertando aquele soco no flanco masculino.
Ele tombou para o lado num óbvio desequilíbrio, ergueu a espada num movimento descuidado, conseguindo bloquear aquele outro soco dela que se seguiu, esse muito mais poderoso, fazendo a lâmina da arma ressoar com o impacto do chakra descarregado.
— Quantos vieram com você? – Ela perguntou descendo outro soco — Me responda!
O golpe eclodiu com um barulho agressivo, fazendo o homem acuado se desfazer em água. Clone. Sakura pensou um instante antes da lâmina feroz passar rasante logo acima de sua cabeça, que fora livrada por um rápido derrapar no terreno recém molhado. Jūzō girou o corpo, emendando um chute baixo com o solado do pé na kunoichi, que era lançada contra uma rocha.
A careta em seu rosto não era de dor, sequer de raiva. Aquela expressão era a contenção de todos os impulsos que a fazia querer acabar aquela luta num só golpe. Sakura precisava de informações, mas ao mesmo tempo haviam três pessoas que não eram capazes de lidar com alguém como Biwa Jūzō que, assim como seus comparsas, adorava um jogo de esconde-esconde.
— Muitos vieram comigo, flor da morte. – O homem disse em sua voz oculta na névoa — Mas nossos objetivos, como pode ver, divergiam.
Ela odiava isso.
Odiava a conversa fiada.
Os dizeres pela metade.
O jogo de gato-e-rato.
Seus olhos passearam pelo campo de batalha deixando as palavras dele irem para qualquer lugar que resolvessem ir, porque no final das contas os motivos dele, se divergiam dos que vieram com ele, não importava. O destino do homem fora selado quando ele pisou no território do País do Fogo e cruzou o seu caminho.
Ela coçou o rosto por um segundo, o tecido arranhando sua pele enquanto os ruídos mudos da floresta se propagavam em ondas vívidas nos seus ouvidos. A sensação da neblina, a umidade, a baixa visão... Todo o nublar de seus sentidos causava, na verdade, o efeito oposto ao desejado. Sakura se sentia cada vez mais intensa, como se pudesse ver melhor, ouvir melhor, e sentir melhor.
Haruno Sakura era um animal em caça.
Captou o silvo da lâmina junto ao movimento de corte bruto que se fez através da opaca nuvem que os cobriam. Suas pernas se mexeram por reflexo, sequer notando a troca de golpes entre os dois shinobis armados com suas lâminas, ou mesmo o jeito como o terceiro entrou na luta com todos aqueles chutes coordenados. O barulho era alto, mas nos ouvidos dela, tudo era silêncio até o encantar dos mil pássaros soar repentino, num grito esganiçado que chamava a morte.
— Chidori!
Aquele com cabelos prateados iluminava o caminho com um azul crepitante que irradiava a partir de sua mão, cruzando rapidamente o espaço para atingir seu oponente, que apenar arregalou os olhos. Daquela distância era impossível errar, e como o destino, os mil pássaros voaram juntos para destruir aquilo que não era o verdadeiro inimigo. Mais uma vez, a figura diluía-se em água.
— Clone? Como? Não tem água aqui perto!
Foi a voz do Uchiha questionando o óbvio, mas a pergunta, na verdade, deveria ser uma bem diferente.
Sakura virou-se emendando um soco forte naquele que surgia novamente à suas costas, o clone se desfazia rapidamente ao passo que uma risada discreta ecoava. É claro...
— Você acreditaria, flor da morte, que eu nunca tive a intenção de concluir a missão que me foi dada? Acreditaria se eu dissesse que deixei todos aqueles ninjas para morrer na mão do Shinobi de Madeira apenas por uma chance de escapar? – Ele perguntou fazendo a névoa abrandar — Se eu disser que não me importa seu jinchuuriki, você acreditaria e me deixaria ir?
Todos os três viram a espada afiada brilhar no último suspiro do sol contra o pescoço de Nohara Rin.
— SOLTA ELA!
...
Franziu o cenho milimetricamente ao ver a cena tão... errada. Sem nem mesmo olhar para Obito, Sakura podia sentir a agitação em ver o objeto de seu desejo encurralada pelo inimigo que não hesitaria em tirar-lhe a vida, e pior era o sentimento da impotência, porque Obito certamente sabia que suas habilidades não chegavam nem perto do necessário para executar um salvamento de sucesso. Na verdade, naquela situação, até a própria Sakura duvidava que pudesse fazer alguma coisa para salvar o pescoço da menina.
Então era isso.
A médica que jamais conseguia salvar as pessoas encontrava-se novamente num beco sem saída, onde as possibilidades eram praticamente nulas, e todas as hipóteses levavam ao encontro fugaz com sua velha amiga. A morte.
Devia ter dito a ela durante aquele treino que desistisse. Devia tê-la impedido de seguir em frente com essa ideia ridícula de se tornar uma iryō-nin, porque Rin era boa demais para o ofício. Certinha demais. E todo shinobi competente sabia que sujar as mãos era fundamental para se manter vivo nesse mundo inescrupuloso onde pessoas eram ferramentas de outras pessoas.
Era sua primeira missão com time 7.
O time Naruto.
E como se o mundo quisesse deixar bem claro que tinha sido uma péssima ideia, lá estava Nohara Rin, a garota que a idolatrava, presa por um dos mais violentos shinobis já visto no mundo.
Sem perceber, Sakura levou sua mão lentamente às costas, buscando o cabo da espada que não estava em sua posse. É claro... Havia deixado a tantō no armário junto com a máscara de gato que havia se tornado sua pele por longos sete anos. Ali, Haruno Sakura não era a flor da morte, mas sim One Punch, e o que isso significava? Ela não fazia a mínima ideia, mas gostaria de poder ter a opção de mostrar o que era capaz de fazer quando decidia ser aquela que ceifava vidas.
— Solte a garota e eu vou te dar uma morte rápida – Sakura disse de repente, sem entender porque as palavras estavam saindo sem que pudesse sequer pensar sobre elas — Mate-a, e você vai desejar nunca ter cruzado o meu caminho.
Kakashi a olhou por um momento, e nem mesmo a névoa abrandada era capaz de tornar opaco aquele par de olhos verdes estranhamente determinados. Flor da Morte? One Punch? Não... Nenhuma de suas alcunhas era capaz de definir a figura que falava tão firmemente, mas ele não sabia, e jamais poderia saber, que por trás de toda aquela pose, Sakura temia a morte mais uma vez.
Não própria, mas a dos outros.
Porque era sempre assim, por mais ínfimo que fosse, diante de uma morte que podia evitar, Sakura temia o tal fatídico encontro, e ali, frente a Rin, a médica pensou em sua verdadeira missão.
A sua missão, na verdade, era tomar conta daqueles três, porque foi para isso que havia retornado a vila. Foi pra isso que Naruto a chamou. Sakura estava em Konoha para ficar de olho nos três alunos de Naruto que não tinham experiência nenhuma com combates de verdade, e tudo bem que Kakashi pudesse ser colocado em algum nível acima, mas ainda era parte daquele grupo a qual se comprometeu a cuidar.
Como poderia olhar para Naruto novamente logo depois de ter deixado sua preciosa aluna morrer?
Mas, mais que isso, Sakura olhava para a garota que tanto a admirava. Nohara Rin era sua fã louca que provavelmente tinha expectativas irreais demais sobre sua pessoa, mas que a motivava de algum modo. Tudo o que ela desejava era ser alguém como a Haruno Sakura das histórias que lhe fora contada, entretanto... A verdadeira Sakura era apenas uma assassina.
— Minha única opção é morrer, então? – O shinobi perguntou firmando sua lâmina.
Num segundo, Sakura avançou com uma velocidade assustadora, e seu rosto não brilhava mais os verdes olhos determinados. Não. Isso tinha se apagado quando a espada do homem rasgava o pescoço da menina sem remorso algum, e sequer conseguiu reparar na falta de sangue, ou mesmo no desaparecer do corpo falso que se transformava numa poderosa corrente elétrica, imobilizando por um segundo o shinobi que sofria o impacto do primeiro soco.
One Punch Sakura?
Não para Biwa Jūzō.
Um soco apenas era pouco demais para o que ele merecia.
Não havia nada em sua mente além da promessa feita segundos antes para o homem que resolvesse assassinar Nohara Rin diante de seus olhos. Ela o derrubou com o primeiro soco, arremessando-o contra a rocha mais próxima, que fora destruída no processo, diminuindo a rotação com que o corpo girava devido ao impacto. O espadachim, entretanto, não soltou sua espada, e a cravou no solo de maneia apressada, fazendo-a funcionar como um freio, mas antes que pudesse planejar seu próximo movimento, o vislumbre da morte o encontrou.
Recebeu um chute alto, seu corpo foi projetado para cima além das árvores com a dor consumindo suas terminações nervosas a partir das costelas quebradas. Foi na descida que conseguiu unir as mãos com dificuldade na execução do jutsu mais desesperado de sua vida. O dragão de água surgia poderoso como uma serpente feroz prestes a causar todo o tipo de destruição, mas nada era capaz de parar a morte e seus encantos.
Sim... Porque a morte era linda quando vista na flor cor-de-rosa que roubava seu brilho fúnebre.
Ela irrompeu através da água, segurando seu braço para girá-lo com força, fazendo as costas do homem atingir o chão com um impacto brutal. O ar escapou dos pulmões de maneira abrupta, o sangue foi cuspido junto a dor pontual que irradiou pelo seu corpo já quebrado. Sakura subiu em cima do homem, os punhos exalando o chakra esverdeado que, para alguns, poderia simbolizar a cura, mas que para o homem era apenas o prenúncio do fim.
Um soco. A dor. A cura. Outro soco.
Era assim que a flor da morte acabava com seus inimigos.
Cada golpe emanava o chakra curativo que regenerava seus inimigos numa velocidade absurda, mas não a tempo de deixá-los reagir, porque ao mesmo tempo, os socos quebravam todos os seus ossos, dizimando seus órgãos no processo. Era sangue por todos os lados, misturado com a terra molhada, e o cheio pútrido da flor mais que não hesitava.
E aqueles que assistiam finalmente puderam compreender a natureza daquela alcunha tão obscura, afinal, cada golpe dado exalava ondas de chakra esverdeado numa onda torta que se assemelhava a pétalas de uma bela flor.
Era isso o que Obito, Rin e Kakashi viram quando alcançaram os dois ninjas que selavam o destino um do outro.
Quem vivia, quem morria.
— Ele já tá morto... – Obito sussurrou sem compreender o porquê de a mulher não parar, observando a cena com uma espécie de pesar em seu semblante. O que era aquilo?
Nem se deu conta quando o amigo sumiu do seu lado num vulto, avançando contra a cena de maneira tão descuidada que nem soava como algo que Kakashi faria.
Ele derrapou pelo terreno enlameado, e num movimento preciso, alcançou o braço da kunoichi bem a tempo de parar aquele outro golpe. Tudo aconteceu rápido demais. Num instante, ele sentiu suas costas atingirem o chão com brusquidão, o joelho da mulher transpassava seu corpo, mantendo-o imobilizado juntamente com o segurar da mão solta. Eles se olharam por um momento, Sakura ainda mantendo aquele punho ameaçador a centímetros de seu pescoço e a voz de Rin ecoando num grito nervoso pela floresta noturna.
Viu quando o lábio da mulher entreabriu, o ar súbito entrando em seus pulmões como se a acordasse de um torpor violento. Ela o olhou folgando sua imobilização, mas ele não se mexeu. Não. Kakashi permaneceu em sua posição, atado pelo olhar da mulher que parecia tão perdida... Foi com um movimento suave que ele ergueu um braço para segurar aquele que ainda teimava em permanecer contra seu pescoço, sentindo o tremor do corpo feminino reverberar na pele encoberta pelo tecido úmido de sangue e água.
Havia sangue por toda parte. Os respingos na pele alva se misturavam a água que escorria pelo cabelo cor-de-rosa, mas a cor que dominava aquele enlear de olhares eram os verdes tão honestos que, mesmo que tentassem, jamais conseguiriam esconder a angústia.
— A Rin tá viva – Ele disse depois de um momento — Era um clone meu com henge.
A respiração dela era turva, mas a viu concordar com a cabeça num gesto mínimo. Haruno Sakura parecia acuada de alguma forma, ainda que não precisasse estar. Ele não representava nenhum perigo à mulher do olhar honesto, pelo menos era no que acreditava, porque a verdade é que Sakura enxergava muito além, temendo as descobertas que poderia fazer ao encontrar, no âmago daqueles olhos escuros, a verdade que ela tanto se negava.
...
Ela saiu de cima dele atônita, se afastando com passos vagarosos até a espada do homem derrotado, que jazia fincada no chão como uma lápide eterna. Rin e Obito aproveitaram o momento, correndo até o amigo que erguia o corpo sem muito esforço. Foi Rin quem perguntou se ele estava bem, e ele apenas murmurou um sim silencioso enquanto acompanhava as costas femininas contemplarem algo que jamais entenderia.
Biwa Jūzō era um dos três Espadachins da Névoa que sobreviveram ao encontro com Maito Dai. Um shinobi de Kirigakure que havia passado no mais terrível dos testes de graduação, tendo que assassinar toda a sua turma para se tornar um ninja da névoa. Por toda sua vida, as pessoas o trataram como se fosse uma ferramenta qualquer que servia apenas para o proposito de seguir as ordens de seu Senhor, seja ele o Mizukage ou o Daimyō.
Uma vida sem glória, sem propósito.
E após a perda dos quatro companheiros, o que sobrou do grupo mortal dos ninjas de elite da névoa se dissipou. Cada um tentando, a seu modo, fugir dessa vida cruel que lhes fora destinada. Biwa Jūzō teve essa única oportunidade de deixar deserdar sua vila durante uma importante missão. Ele não se arrependeu, em momento algum, de ter deixado seus companheiros para morrer nas mãos do shinobi da folha que manipulava madeira, porque o sacrifício deles traria sua liberdade.
Não sabia, entretanto, que acharia alguém ainda mais impiedoso.
Ao menos o que sobrou de seu corpo fora enterrado junto a sua espada fincada na terra batida, perdida para sempre no meio da floresta sem nome que testemunhou a sua única e mais sincera tentativa de ser mais do que um ninja.
No final, o destino de um shinobi não tem nada de glorioso, e seu maior prazer antes da morte foi perceber, nos olhos verdes que jamais hesitaram, que ela também sabia disso.
...
Após a batalha, nenhuma palavra foi dita. Obito e Rin pareciam compartilhar do sentimento de desconfiança, ao passo que Kakashi parecia resoluto o suficiente para continuar a viagem imediatamente após o comando silencioso de Sakura. A mulher estava suja dos pés a cabeça, com marcas da batalha na forma da terra encrostada no tecido azulado de suas vestes, juntamente com os fragmentos de plantas e o sangue que se misturava à água utilizada pelo ninja falecido.
Correram através da noite serena, a floresta também não ousou pronunciar-se diante do quarteto que cruzava seus domínios numa linha reta, rumando rapidamente para o litoral. Ao invés do passo cadenciado de outrora, os ninjas corriam a todo vapor na tentativa de acompanhar a kunoichi mergulhada em suas próprias questões, se segurando naquele único fio de estabilidade que ainda existia dentro de si.
Sakura precisava chegar em algum lugar dentro dela, fora dela.
E após uma corrida estranha que perdurou uma noite inteira, os ninjas desembocaram, finalmente, naquele descampado que os permitiam ver o breve tom de roxo que se espalhava pelo céu, anunciando a chegada do sol complacente. O horizonte os agraciou com uma longa lufada do vento marítimo, e o cheio da maresia preencheu os sentidos dos recém chegados, que observaram a mulher não parar.
Foi Obito o primeiro a se sentar na areia poucos passos após o findar da floresta, esticou as pernas cansadas enquanto mantinha o silêncio que, longe de Sakura, soava mais agradável. Rin se sentou ao lado dele, soltando um brevíssimo ruído de cansaço no processo, e tal como Obito, manteve os olhos na mulher que cruzava a longa faixa de areia escura e pedras na direção da água do mar.
Kakashi permaneceu de pé, também assistindo a cena da moça com cabelos cor-de-rosa esvoaçantes vencer o frio da brisa marítima, que quando a poucos passos do chegar ao mar, simplesmente livrou-se do colete ninja, e também daquela camisa azul marinho, largando-os na areia como se precisasse se livrar daquilo com urgência.
— O que ela tá fazendo? – Obito perguntou num resmungar típico, e Rin viu o rosto rubro do companheiro de time diante do despir-se da mulher mais velha.
— Para de olhar, Obito. – Foi sua resposta mais urgente juntamente com aquele puxar de orelha quase gentil que deu no amigo, tentando esconder seu próprio constrangimento pela repentina ação de Sakura.
— Foi mal! Foi mal! – O outro respondia colocando ambas as mãos sob os olhos, fazendo Rin soltar um suspiro que disfarçava seu estranho bom humor, como se falar daquele jeito ajudasse a dissipar a estranheza que permeou durante toda a noite. Por reflexo, olhou para Kakashi, que jazia ainda de pé olhando o horizonte.
Olhando para Sakura.
Deixando seus rastros na areia, a mulher abandonava a hitaiate, os sapatos, as calças... Sakura mantinha apenas aquela malha firme que adornava seus seios e a calcinha larga antes de iniciar sua caminhada sob as águas salinas que iam e vinham em ondas. O controle de chakra perfeito permitia que nem mesmo as mais violentas desestabilizassem seu andar, e o corpo franzino não combinava em nada com a kunoichi de horas antes.
Sakura parecia diferente.
E Kakashi não deixou de notar como a luz breve do sol coloria seu tom de pele, ou como os cabelos se agitavam com as lufadas mais intensas, e até mesmo aquele borrão disforme que era a cicatriz em seu torço não se passou desapercebido pelo olhar do rapaz, que contemplava a vista ampla do horizonte em que a mulher invadia, havendo uma singularidade intimista no momento em que ela parou de andar, e ele podia apostar que ela fechou os olhos naquele levantar de cabeça, permitindo-se absorver os primeiros raios de sol.
Não desviou o olhar e sequer constrangeu-se com a semi nudez diante de si. A verdade é que ele até poderia centrar-se nas curvas do corpo dela, mas algo além lhe chamava.
O que ela estava fazendo? Obito perguntou momentos antes, e agora Kakashi se fazia a mesma pergunta juntamente com aquela outra que deu início a tudo:
Quem era aquela mulher?
Ele não tinha uma resposta para a pergunta, mas quando ela sumiu de sua vista, deixando o corpo afundar na água salgada, Kakashi desconfiava estar no caminho certo para encontrá-la.
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A manhã correu rápido naquele beira-mar moroso onde se encontravam, sendo o primeiro local em que de fato pararam para descansar devidamente, sem o peso da missão corroendo seus nervos. Não muito longe, havia um rio que fazia do mar sua foz, fazendo sua doce e cristalina água ser o mais precioso bem dos quatro ninjas, que mataram sua sede, lavam suas peles, e descansaram às margens calmas, concentrando-se apenas no barulho remansoso da correnteza inevitável.
Sakura não falou muito, sequer interagia direito. Tudo eram comandos ou afirmações que até poderiam ser interpretadas como indiferença, mas que definitivamente não era isso. Talvez nem ela entendesse muito bem a cena que protagonizou, resultando na morte do ninja que renegara sua aldeia, entretanto, de alguma forma, nenhum deles a culpava por não entender, até porque eles também não entenderam.
Mesmo Obito, que geralmente gritava indignado sobre tudo, ficou calado de maneira complacente, como se prestasse solidariedade a mulher em seu quase silêncio, porque para o garoto, não conversar era como não existir. Foi graças a ele que a conversa surgiu tranquila entre os três membros originais do time Naruto, que pouco a pouco iam relaxando seus músculos enquanto esperavam o peixe assar naquela fogueira pequena que improvisaram. Seria a primeira refeição que teriam desde que saíram da vila, abandonando a ração que ingeriram durante todo o percurso.
Obito acabou dormindo e Rin cedeu àquele cochilo tão desejado juntamente ao garoto. Kakashi também se sentia cansado, precisava admitir, mas o sono não o pegou. Ao invés disso, o garoto enfiou os pés na água, olhando para o curso natural do rio enquanto deixava seu rosto respirar sem o tecido negro que geralmente o cobria. Não que quisesse fazer de seu rosto um grande segredo, seus amigos mais íntimos o viam o tempo todo, sendo a máscara necessária apenas pelo motivo único de seu olfato apurado.
Cheiros fortes o incomodavam desde que se lembrava, por isso ele aproveitava esses momentos longe do centro atabalhoado de Konoha para respirar um pouco do nada. A natureza, é claro, tinha seus odores, mas diante da vastidão do mar com seu sal exalante, os outros aromas ficavam encobertos, permitindo ao Hatake que se deixasse levar pelo vento fresco de uma manhã confusa.
Abriu os olhos quando ouviu os passos, mas não se virou para ver quem era. Kakashi esperou que Sakura se aproximasse em seu passo de gato, se agachando ao seu lado para encher aquele recipiente improvisado de bambu que havia conseguido na floresta. Ele não a olhou, ela não o olhou. Ambos estavam bem cientes da presença um do outro, e ele conseguia sentir aquele cheiro dela encoberto pelo mar. Era doce, de alguma forma.
— Obrigada por me parar.
A voz dela surgiu de repente, cortando o vento com tanta suavidade que Kakashi até poderia achar que estava ouvindo alguém falar lá de longe. Ele projetou seu rosto brevemente na direção dela, deixando seus olhos encontrarem o rosto feminino que mirava o recipiente cheio. Ela não o olhava.
— Mas não faça mais isso. – Disse naquele tom brevemente mais ríspido, porém livre de qualquer raiva — Eu poderia ter matado você.
O garoto balançou as penas dentro da água fria, deixando seu olhar se perder novamente no contorno do rio que desaguava no mar. Sakura não esperou uma resposta, levantando-se logo em seguida para ir embora no mesmo passo macio com que tinha chegado. Kakashi jogou a cabeça para trás olhando para o céu azulado, tão bonito...
— Você jamais faria isso.
Disse depois de um momento sem saber direito porque externou um pensamento tão aleatório. Ela ainda estava próxima o suficiente para escutá-lo? Ele não sabia, e não se importou. Continuou olhando para o céu sem saber que Sakura hesitou por um segundo antes de continuar seu caminho para longe.
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Tiveram mais algumas horas para descansarem antes de retornarem, finalmente, a Konohagakure. Kakashi acabou investindo o pouco tempo que tinha num descanso meditativo à sombra de uma árvore ao passo que seus outros dois companheiros dormiam escorados um no outro, e o garoto de cabelos prateados meio que shippava. No final das contas, Rin e Obito até formariam um casal bonitinho se a garota sua amiga pudesse olhar mais carinhosamente pro lesado Uchiha.
De toda forma, Sakura ficou à vista.
Talvez por isso nenhum dos três ousou comentar o que se passou na floresta, ou talvez fosse o óbvio cansaço que um cochilo de poucas horas jamais afastaria. Nenhum deles poderia dizer com certeza, mas naquele momento, eles não estavam aptos a tentarem entender o que havia acontecido, nem absorver a morte tão bruta que presenciaram pela primeira vez.
Quando Sakura apareceu, Obito estava coçando o olho com um resmungo baixo de que poderia dormir o dia todo, e não só ele, Rin parecia concordar apesar de ter respondido com uma risada sutil. Deles, só Kakashi parecia ter conhecimento que dormir faria o corpo cansar ainda mais, e o melhor era se manter desperto para a volta, utilizando de técnicas de relaxamento com chakra nos momentos de pausa para aguentar o árduo trajeto.
O anúncio da retomada da viagem não pareceu ter um efeito empolgante em Obito, que apenas concordou com a cabeça enquanto levantava uma mão na direção de Kakashi num pedido mudo para que o amigo o içasse. Kakashi o fez sem as habituais provocações que geralmente sairiam de sua boca, dando um desconto para o amigo que, pela primeira vez, saiu no tipo de missão que não parecia férias.
Rin foi vencida por um bocejo enquanto passava as mãos na bunda para tirar a poeira, dando uma olhada vagarosa ao redor para redescobrir a linda vista que o mar lhe oferecia. Soltou uma risada sem saber direito o porquê, e então virou-se para os outros dois, vendo Obito arrumar os óculos sob a cabeça, e Sakura mais além, esperando que eles anunciassem estarem finalmente prontos.
Na sua visão, Sakura parecia diferente. Não era a mesma pessoa que havia invadido seu treino com Naruto, também não era a mulher no centro com seus amigos, tampouco a capitã recém chegada que parecia não gostar de perder tempo com bobagens. Durante a missão, Rin a percebeu inquieta, mas achou que poderia ser algo de sua cabeça já que as palavras ouvidas durante o primeiro exercício que fizeram fez seu astral diminuir, entretanto, depois de tudo o que tinha vivido nas últimas horas, a menina sentia que Sakura estava... instável?
Essa era uma boa palavra para descrevê-la?
Rin não sabia, e diante da exaustão, a menina resolveu que por hora esse seria seu único pensamento sobre a kunoichi que estava muito além das histórias que havia ouvido durante os anos.
— Obito, você vai aguentar voltar? – Kakashi perguntou com um semblante preocupado — Você tá péssimo.
O Uchiha revirou os olhos.
— O que você esperava? Estamos a sei lá quanto tempo sem dormir direito. Eu não sou de ferro como você. – Justificou esfregando o rosto com preguiça — Mas não se preocupe, Bakashi, eu vim preparado.
Sakura observava a cena de longe se sentindo estranhamente aérea. Seus pensamentos iam e vinham como se flutuassem nas estranhezas de sua mente conturbada. Ela não conseguia pensar em algo de maneira centrada, não conseguia sequer absorver as coisas que tinham acontecido durante aqueles poucos dias, e mesmo que tenha conseguido encontrar seu um segundo de paz quando se deixou ser engolida pelo mar, no momento em que saiu, tudo voltou daquele jeito estranho.
Ela ainda lembrava da sensação morna dos primeiros raios de sol que tocaram sua pele suja pelo sangue do inimigo, e lembrava da sensação das ondas logo abaixo de seus pés, lembrava da água salina abraçando seu corpo, dos sons abafados que não alcançavam seus ouvidos submersos, e lembrava dos pensamentos lhe escaparem diante daquele momento em que o ar lhe faltou, entretanto as memórias eram cada vez mais distante ao passar dos segundos arrastados da manhã, que para ela, tinham sido uma eternidade.
Tudo o que ela queria era voltar para casa, e era estranho pensar em voltar para casa porque, meses antes, tudo o que ela não queria era voltar para Konoha. Era estranho ter esse pensamento de querer o conforto de um lar que nem dela era, afinal, ela não tinha uma casa. Tudo o que ela tinha era a boa vontade de Ino e a paciência de Kiba, e talvez isso fosse a sua casa ou talvez fosse só um lugar no qual ela preenchia com a sensação do lar por não ter, de fato, um.
Não sabia. Não queria saber.
O que ela queria era apenas a sensação segura que tal casa lhe propiciava, porque ainda que sua mente aérea estivesse lhe beneficiando com uma estranha resignação, Sakura sentia a fragilidade dessa sensação que poderia se esvair em um segundo, e se isso se fosse, ela não saberia do que era capaz. Passou a mão nos cabelos desviando o olhar dos três que conversavam mais a diante se perguntando o que eles estavam pensando da tão gloriosa One Punch Sakura, que finalmente revelava sua real natureza como a inevitável Flor da Morte.
Sorriu amargamente para o musgo numa pedra próxima ao rio quando percebeu, finalmente, estar envergonhada por tudo o que tinha mostrado naquela missão, mas eles precisavam saber, não é? O que era a vida ninja de verdade, e o que ninjas grandes como ela se tornavam quando viviam por tempo demais. Missões longas que levavam seu corpo ao limite, decisões difíceis, descontrole... No final das contas, todo ninja tinha que estar preparado para isso.
Olhou para as próprias mãos e ainda conseguia ver o sangue do espadachim entre seus dedos, escorrendo quente como se nenhuma água pudesse lavá-lo. Levantou o rosto para os três vendo Kakashi com as mãos na cintura enquanto falava com Obito, e aquele sangue em suas mãos podia também ser dele, ou até mesmo da certinha à sua esquerda, ou do Obito, que enfiava a mão no bolso e tirava a solução para todos os seus problemas.
Pílula do soldado.
É claro...
— Você sempre traz isso nas missões, 'Bito. – Rin disse com um suspiro — Já te disse várias vezes que ingestão regular de pílulas do soldado levam ao vício.
O garoto reprimiu o sorriso diante do apelido que as vezes escapava da boca de Rin, e ele amava ser alguém a quem ela tinha um jeito único de chamar.
— Além disso, quando chegar na vila, você vai tá bem pior, porque os efeitos colaterais disso... – Kakashi completou — Confia em mim. Já tive que tomar numa missão com o Gai e foi uma merda depois.
— Olha, eu sei, tá? – Obito disse segurando a bolinha marrom entre os dedos — Mas apesar de sempre trazer, eu nunca tomo porque não preciso, vocês sabem, mas eu também quero chegar em casa o mais rápido possível, então vou tomar só uma.
Kakashi suspirou vendo-o colocar na boca antes que ele e Rin pudessem falar qualquer coisa. Esperaram um momento, e logo o rapaz parecia ter ganhado toda aquela energia novamente, com a pupila brevemente dilatada e o chakra correndo um pouco mais rápido.
— Prontinho! Agora aguento uma volta sem problemas!
— Quero ver quando o efeito passar no meio da viagem de volta... Eu não vou te carregar.
— Bakashi, eu trouxe mais, ok? Tomo outra!
Rin maneou a cabeça querendo dar um longo sermão no amigo, mas se sentia tão exausta que ver a recuperação do rapaz a fez pensar que talvez devesse ceder aos esteroides ninja também. Ela olhou para Kakashi como se pedisse algum tipo de permissão, e o garoto apenas encolheu os ombros como se dissesse você que sabe.
— Obito, me dá uma também.
— Uh, tem certeza?
— Arrã. Apenas me dá uma, por favor.
O garoto concordou com a cabeça, tirando mais uma daquelas bolinhas e ofertando-a a amiga, que a ingeriu com uma careta. Não que as pílulas tivessem gosto, mas só de saber o que viria mais tarde, quando os efeitos colaterais surgissem, Rin já se sentia um tanto arrependida, o que não durou muito tempo já que logo a disposição voltou ao seu corpo como nunca antes havia sentido, e tudo parecia mais claro, sua mente acelerada. Rin sentia como se pudesse vencer qualquer batalha.
— Não quer uma também, Kakashi? – Obito perguntou tirando a terceira do bolso.
Quantas ele havia trazido?
— Tô bem. – O Rapaz respondeu fazendo uma nota mental de pedir à Naruto, quando este retornasse, para que ensinasse técnicas de relaxamento para longas missões àqueles dois, porque senão, logo teriam dois viciados em seu time.
O que ele não sabia, é que já havia uma em seu time.
Viciada esta que assistiu toda cena de sua posição brevemente mais afastada, e que sentiu seu pensamento clarear só pela ideia de que Obito pudesse ter aquilo que tanto a confortou durante anos. Um falso conforto, mas tempos desesperado exigiram medidas desesperadas. Ela viu a primeira saindo do bolso dele quase que em câmera lenta, notou a cor, o formato, de alguma maneira, até o cheiro sentiu mesmo que não houvesse nenhum. Os lábios entreabriram quando o viu colocar na boca, e sem perceber, deu dois passos sorrateiros na direção dos três que conversavam sobre tudo o que ela já sabia.
Mas ela não ouviu. Não. Tudo o que sua mente capitou foram as pequenas bolinhas marrons que saiam do bolso do rapaz uma atrás da outra, como se ali fosse houvesse um estoque infinito daquilo que ela tanto precisava se afastar, e ainda que não fossem as mesmas que usavam na ANBU, já eram o suficiente para que toda aquela estranheza se dissipasse de sua mente titubeante.
Ouviu Kakashi recusar aquela terceira na mão do rapaz, e só então foi notada pelo garoto eletrizado pelas substâncias daquilo que havia consumido. Obito e Sakura se olharam, a expressão da mulher beirava ao receio enquanto que o outro parecia confuso. O Uchiha continuava encarando-a sem saber ao certo o porquê daquela estranha incerteza que o acometeu, até entender que talvez sua capitã quisesse uma daquelas.
Sim, ela queria.
Queria muito.
Sakura estava disposta a dar tudo o que tinha se aquilo significasse poder deixar todos aqueles pensamentos de lado por apenas um momento e seguir sua viagem sem a preocupação latente de estar decepcionando todos aos seu redor. Ela queria poder fazer o que precisava fazer sem sentir que era uma vergonha para Naruto ao deixar Rin quase morrer, ou mesmo colocar todos os três numa situação tão extrema sem que eles sequer tivessem o mínimo preparo para isso. Queria poder não se sentir um completo fracasso ao matar um homem que só tentou fugir da vida de merda que tinha em sua vila. Queria poder não se sentir tão culpada por quase ter matado o filho do seu falecido sensei, homem me a valorizou quando nenhum outro achou que valia a pena.
Tudo o que ela queria era poder seguir em frente sem o peso de tudo o que havia vivido em tão pouco tempo. Queria poder esquecer o olhar de Katsu em seus olhos, que resiliente, parecia dizer que não a culpava por nada, tentando fazê-la enxergar a verdade por trás da história que tanto se agarrou durante todos esses anos, porque se tudo isso fosse mentira, então o que sobrava para ela? Qual o papel dela nisso tudo?
— Você quer uma, taichō?
Quero.
Era a palavra que veio em sua mente como um grito desesperado em busca de um segundo de paz no caos dos pensamentos atordoantes que se emaranhavam na longa história de sua vida de vergonha. Sakura queria poder aceitar e seguir em frente, queria poder continuar seu caminho sem arrependimentos, queria poder vencer suas batalhas sem sentir-se uma farsa.
A mão de Obito se projetou na direção dela, ofertando a solução mais danosa aos seus problemas de maneira tão insignificante que até soava como uma piada. Ele não fazia ideia do que realmente estava fazendo, e quando a mão dela se esticou até a dele, seus dedos alcançaram a superfície daquela tão pequena bolinha marrom, sentindo a textura porosa em sua digital que estava podre com o sangue de todos aqueles que já havia matado.
O vento se fez mais forte trazendo a o gosto salino direto das ondas mais altas que se projetaram lá no horizonte. Tudo era mar, sol, o farfalhar das plantas não tão longínquas. Tudo era o tempo, e a energia infinita que conectava tudo o que era vivo na terra.
— Sakura.
Talvez por isso a voz de Kakashi tenha se projetado daquela maneira tão certa no chamado de seu nome, e mesmo que ela não tenha entendido o porquê, seu rosto girou na direção do dele fazendo com que seus olhos se encontrassem no meio do caos de seus pensamentos, que dissipavam por um segundo diante dos olhos escuros que a miravam.
Era como se ele pudesse ver por trás de tudo, e Sakura se sentia tão exposta todas as vezes que seus olhos se encontravam daquele jeito tão inesperado. O que ele via? O que ele conseguia enxergar por trás dos olhos verdes que sempre eram tão honestos em seu propósito? E mesmo que estivesse diante de tudo, ele podia entender o que estava acontecendo? Ela tinha medo, e queria distancia daquele rapaz a quem jamais poderia acrescentar algo bom em sua vida.
Ela devia ter recusado. Devia ter voltado ao posto do esquadrão 4 da ANBU. Devia ter ido a Ame, ter encontrado Sasuke, tê-lo trazido de volta.
— Tá ficando tarde. – Ele disse depois de um momento — Vamos voltar logo.
...
Ela fechou os olhos por um momento, engolindo todo aquele receio, afastando todos os pensamentos, recuperando aquele único fio no qual podia se agarrar para se manter sã por apenas um momento, o suficiente para que, quando abrisse seus olhos novamente, soubesse exatamente o que fazer. Só por isso, Sakura pôde recuar seu braço, lembrando que precisa tomar jeito na sua vida.
— Guarde isso, Obito. E não me ofereça novamente. – Ela deu as costas sem importar-se com o que quer que cada um deles estivesse pensando — Vamos embora.
Partiram, finalmente, adentrando a floresta para finalmente retornarem ao lar.
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A fumaça se propagava pela saleta apertada que era seu escritório na Torre Hokage. Os inícios de meses sempre eram agitados demais com o ir e vir de ninjas em suas missões, e ele, como o comandante dos jounins, era responsável por manter tudo funcionando de forma correta, atentando às necessidades da vila para que sempre tivesse contingente em caso de um ataque surpresa.
Lia o ofício a sua frente enviado por nada menos de Hyuuga Hinata, pedindo o adiamento da assembleia em mais alguns dias pois seu primo, Hyuuga Neji, havia saído em uma missão. Era ridículo ter que adiar o cronograma por conta de um ninja apenas, mas eles eram os Hyuugas e Shikamaru não queria mais encrenca. Carimbou o papel com mais força do que pretendia antes de assinar e colocar na pilha de documentos que deveriam ser protocolados.
Foi nesse momento que três ninjas invadiram sua sala, cada um com a aparência pior que o outro. A menina, Nohara Rin, parecia estar à beira de um desmaio, mas se mantinha de pé com aquele olhar vago enquanto o Uchiha parecia irritado. Certo... Olhou para o único que parecia profissional o suficiente se perguntando onde diabos estava a capitã do time 7.
— Onde está Sakura? – Shikamaru perguntou antes que qualquer um pudesse falar.
— Não sabemos. Ela nos mandou vir aqui reportar a missão para você, e somente a você.
Shikamaru franziu o cenho se empertigando na cadeira ao olhá-lo com mais atenção. A fumaça saiu pelo canto de sua boca enquanto ele tirou o cigarro para apagá-lo no cinzeiro.
— Ela está na vila?
— Sim.
— Continue.
— Verificamos o território como requisitado na missão e encontramos Biwa Jūzō, um dos remanescentes dos Sete Espadachins da Névoa. Entramos em combate. Sakura o neutralizou e não houve baixas. Conseguimos a informação que todos os outros que vieram com ele já tinham sido mortos, e pela natureza de suas palavras, ele era um desertor.
Ouviu em silêncio o breve relato se perguntando o que diabos tinha acontecido para que aqueles três parecessem tão exaustos. Queria perguntar se viram o barco de Naruto partir. Se haviam encontrado rastros dos outros ninjas derrotados, e como Biwa Jūzō havia morrido.
Mas os três estavam horríveis.
E Sakura não estava ali.
Shikamaru levantou se sentindo irritado de repente, porque era de uma extrema irresponsabilidade que a capitã de um time deixasse seus subordinados relatarem uma missão tão importante como aquela quando ela que deveria estar ali enfrentando as perguntas que ele tinha para fazer, afinal, Biwa Jūzō era um ninja de elite na névoa que poderia ter muito mais informações sobre o que estava acontecendo com o terceiro Mizukage supostamente desaparecido, e ao invés de trazê-lo vivo, a mulher o matava?
...
— Devo dizer que missões por Konoha são confidenciais. Não comentem com outras pessoas. – Ele disse abrindo aquela janela que ficava atrás de sua cadeira, colocando o pé no parapeito — A missão está concluída. Estão dispensados. – Disse antes de sumir por ela.
— Porra, a gente tá morrendo e ele só diz isso? – Obito resmungou quando já estavam sozinhos, soltando um ruído de dor logo em seguida – Caralho, minhas pernas tão me matando. Não tô sentindo meus dedos.
— Eu acho que vou desmaiar – Rin disse se escorando na mesa do outro.
Kakashi suspirou cansado antes de unir os dedos num selo característico do jutsu de seu sensei. Kage Bushin no Jutsu. Seu clone pegou Rin nos braços enquanto ele colocava Obito nas costas, partindo pela janela em direção ao hospital de Konoha.
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Saltou pelos telhados naquela velocidade que só ninjas conseguem atingir sabendo exatamente onde poderia encontrar seu alvo tão irresponsável, chegou ao centro de Konoha que estava agitado naquela tarde quente de verão que logo daria seu adeus final em prol da chegada do outono. Desceu para a rua principal tomando cuidado com o fluxo de pessoas, foi cumprimentado por um comerciante em sua barraquinha, aquele que sempre lhe vendia fumo. Acenou distraído antes de iniciar as passadas mais rápidas na direção da lojinha de paredes amarelas bem pintadas.
As portas eram de vidro e na frente havia um canteiro com flores frescas em variadas cores. Ele nunca entendia porque Ino deixava flores ali que podiam ser facilmente roubadas, ainda que raramente acontecesse. A placa pomposa era decorada com lespedezas entalhadas ao redor do nome Floricultura Yamanaka, que era pintado em roxo e amarelo de maneira caprichosa.
Colocou a mão na porta e a abriu com um solavanco, abrindo sua boca para perguntar em alto e bom tom onde diabos estava Haruno Sakura, mas sua voz sequer chegou a se projetar no lugar que misturava todos aqueles aromas vindos das plantas. Haviam tantas cores ali, tantos perfumes. Era um lugar bonito, calmo, como uma pintura bem feita para te fazer pensar sobre tudo e ao mesmo tempo nada. Ino era boa com decoração, e era impressionante como as cores das flores se misturavam em uma harmonia desarmoniosa.
Foi nessa pintura que ele viu sua eterna companheira de time sentada no chão em seu avental rosa bebê e cabelos presos naquele longo rabo de cavalo, sustentando em suas mãos a mulher em vestes azuis e verde que se agarrava a ela com soluços intensos de um choro desesperado. A voz se projetava pelas paredes, as mãos agarravam a loira que a abraçava com força, sendo o esteio de todos os conflitos que rodeavam a capitã do time 7.
Shikamaru e Ino se olharam.
Ele assentiu com a cabeça antes de virar-se para o lado, girando a placa pregada na porta por uma ventosa. Fechado, agora era exibido para todos que passassem pelas portas largas de vidro, e então finalmente as deixou, resolvendo ir à academia ninja buscar seu sobrinho que passaria o resto do dia com ele.
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Subiu as escadas rapidamente, acessando o andar superior que era reservado aos quartos da residência. Não ficou perdido diante das portas sóbrias de madeira, afinal, ainda que não fosse presença frequente, já conhecia aquela casa de outros carnavais, e só por isso segurou o trinco com a certeza que encontraria o quarto certo, entretanto, o abriu com cuidado, imaginando se talvez fosse encontrar seu alvo dormindo o sono dos justos.
Colocou a cabeça para dentro reconhecendo a janela estreita com cortinas leves, o móvel rústico com produtos e mais produtos sobre seu tampo de madeira. Viu o guarda-roupas que deveria estar abarrotado de coisas, e também aquelas mesas de cabeceiras fofinhas que destoavam da rusticidade pelas cores pasteis com que foram pintados. Na cama grande, em meio aos lençóis brancos, estava seu alvo, agarrado em travesseiros e com uma expressão não muito feliz.
Ele sorriu quando seus olhos se encontraram, relaxando seus ombros ao reconhecer o semblante cansado, porém limpo da moça de cabelos cor-de-rosa que estava deitada, toda encolhida, na cama de Yamanaka Ino.
Kiba entrou no local sem dizer uma só palavra, e Sakura apenas assistiu ele tirar aquele casaco remendado que ele tanto gostava, pendurando-o no puxador saliente do guarda-roupas de Ino. Ele usava uma camiseta sem mangas na cor salmão, um tom que Sakura não achava que ficaria tão bem nele. Ele sentou-se na cama, e então se deitou, esticando o braço por cima da cabeça dela num claro convite para que se acomodasse nele.
— A Ino vai te matar se te pegar deitado aqui. – Ela disse olhando para a cara cínica do homem.
— Relaxa, rosinha. A Ino sabe que eu tô aqui. – Respondeu com aquele sorriso torto de quem não pretendia mover um músculo sequer.
Sakura soltou uma risada fraca antes de abandonar o travesseiro fofo para substituí-lo por um Kiba quentinho, aconchegando-se naquela costela que ele oferecia sem se importar com nada além do conforto que precisava sentir. O homem a acolheu como sempre fazia, cheirando seus cabelos com aquele ruído característico de quem estava verificando alguma coisa. Ele tinha suas manias, tudo bem, ela não se importava. Tudo nele era confortável, inclusive as manias.
— Como você tá? – Ele perguntou depois de um momento, passando a mão para um lado e para o outro no torso dela.
— Cansada – Sakura respondeu depois de um momento, os olhos semiabertos focando algum lugar do quarto apenas por costume. — Eu tô tão cansada, Kiba. – Disse num quase choramingo, sem forças para evitar quaisquer que fossem as palavras que surgissem em sua mente — A gente esbarrou logo no Biwa Jūzō, e eu queria pegar ele vivo, mas... Ele pegou a certinha, e eu já não tava bem, aí... aí... Kiba, aí eu o matei. Eu matei o Jūzō na base do soco.
— Sakura, tá tudo bem. – Ele disse quando percebeu que as palavras começaram a ficarem pesadas demais para ela — O Biwa já tava no bingo book. Todo ninja de Konoha era ordenado a matá-lo se o visse.
Ela ficou em silêncio, os dedos sobre a camiseta do homem se arrastaram num puxar breve do tecido. Kiba a olhou, ainda arrastando sua mão pela lateral do corpo dela num carinho suave.
— Sua equipe voltou viva da missão, e você a concluiu com excelência. – Ele disse num tom mais brando — Você fez tudo certo, Sakura. Tá tudo bem.
— Kiba, eu matei ele no soco, sabe? Ele já tava morto e eu continuei socando. Eu sei nem o que me deu, eu só... – Ela soltou o ar com um riso sem graça — O Kakashi teve que me parar, senão eu ainda estaria socando ele à essa altura, e, céus... eu quase matei o Kakashi quando ele fez isso.
— Mas não matou. – Kiba interrompeu.
— Por pouco. Muito pouco. – Ela completou imediatamente projetando seu rosto na direção do dele, os olhares se encontrando nos receios dela e nas certezas dele. — Kiba, eu quase matei o filho do meu professor.
— Mas não matou, Sakura. Entendeu? Você não o matou.
— É, mas... Foi quase, e eu nem sei por que eu parei!
Kiba girou o corpo para, fazendo as costas dela tombarem no colchão com suavidade, a cabeça dela ainda apoiada em seu braço. O homem a olhou mais sério, mais presente. As fendas que formavam sua íris negras mediam força com o olhar conflituoso da mulher que não conseguia aceitar aquilo que ele enxergava com tanta clareza.
— Sakura, você parou porque você sabe exatamente quem são seus aliados, e mais que isso, você sabe quem deve proteger. – Eles se olharam por um longo momento, o rosto de Sakura ganhando aquele tom avermelhado no nariz e ao entorno dos olhos — Não se torture com o que você quase fez, mas se orgulhe daquilo que você efetivamente fez. Todo mundo tá vivo. Todo mundo voltou bem.
A mulher confirmou com a cabeça e Kiba a puxou novamente para aquele abraço tão necessitado, não só por ela, mas por ele também que passou dias tentando não transparecer a inquietação sobre tudo o que poderia ocorrer naquela missão de Sakura. Depois de vê-la praticamente morta em seus braços, ele não queria admitir, mas ele gostaria não a perder mais de vista, só por precaução.
Ela derramou uma ou duas lágrimas antes de sussurrar, em meio aquele abraço tão quente, aquilo que também precisava dizer.
— Eu tô limpa.
Kiba ergueu a cabeça para olhá-la com aquele sorriso relaxado demais,
— Eu sei. – Respondeu num sussurro, como se fosse um segredo, vendo a moça revirar os olhos com um sorriso breve nos lábios — Tá cheirosa também.
— Às vezes eu te odeio. – Ela disse quando passou a mão no rosto dela para tirar aquela única lágrima presa no canto de seu olho.
— Você não conseguiria odiar o cachorrão aqui. – Se olharam naquela troca de humores estranhamente renovados — Mas eu tô muito feliz que você tá tomando jeito, rosinha. Fiquei preocupado com você.
As palavras dele eram ditas naquele tom esganiçado de sua voz mais arranhada, mas ela sentia a sinceridade de maneira muito plena. Kiba não era desses que ficava falando muito sobre o que sentia, geralmente deixava os próprios sentimentos de lado, ela sabia, mas ali ele estava de coração aberto e tudo porque ela foi capaz de deixar o seu também aberto.
Ela sorriu antes de continuar, colocando a mão no rosto dele para brincar com a barba que havia sido aparada recentemente.
— O Obito parecia ter um estoque infinito no bolso, e eu quase peguei uma, quase, mas aí o Júnior me chamou e eu consegui dizer não. – Disse, fazendo um momento de silêncio logo em seguida, focalizando nos pelos do rosto do homem antes de levar seu olhar ao dele, que jazia tão sereno. — Eu acho que o Júnior percebeu que eu sou uma viciada.
— Não importa. – Kiba disse logo em seguida — Que ele saiba, então. Não faz diferença. Eu só tô muito feliz que você tá aqui, que esses seus olhos enormes ainda são os seus olhos, e que essas palavras são suas. Eu tô muito aliviado, Sakura. Eu tô muito feliz.
Kiba viu quando ela se encolheu com o rosto vermelho, não do choro dessa vez. Sakura o empurrou para o lado, voltando àquela posição onde ela podia apenas se afundar do lado dele e esconder seu rosto num gesto que fazia anos que ele não presenciava. Riu com um sorriso largo que não cabia no rosto pela nostalgia de uma Sakura que se escondia de vergonha.
Certas coisas nunca deveriam mudar, ele pensou quando a ouviu pedir naquele resmungo baixo que ele parasse de dizer coisas tão constrangedoras. Diante daquilo, ele esperou apenas um momento antes de fazê-la olhar para ele, piscou para a moça daquele jeito cínico e a beijou com um encostar suave de seus lábios.
— Tá aí a minha rosinha. – Disse contra os lábios dela, porque aquele apelido nunca foi por conta do cabelo dela, mas sim pelos surtos de vergonha que só ele presenciava, e que diminuíram ao longo do tempo, mas que eram sempre maravilhosos quando aconteciam.
— Eu te odeio. – Ela disse disfarçando muito mal aquela risada que lhe escapava, deitando novamente a cabeça em Kiba. O ouviu rir enquanto passava mão na lateral de seu corpo, naquele carinho sobre o suéter verde que vestia. Ficaram em silêncio por um breve momento, vendo o sol se esconder atrás de uma casa pela janela de Ino, e só então Sakura continuou. — Você sabe dos pirralhos? Eu meio que fiz uma missão sem acampamentos, então...
— Eu lembro de você chamando a princesinha gostosa de terrorista, mas eu acho que esse termo é melhor usado em você mesma. – Ele riu — Os moleques tão tudo ferrado. Quer dizer, pelo menos a certinha e o Uchiha. O Júnior os deixou no hospital e foi minha irmã quem prestou atendimento. Ela voltou pra casa a pouco, né, aí me falou que eles tinham dado entrada, e foi assim que eu soube que você tinha voltado aliás.
— Mas eles tão bem? Você sabe que pra quem não tá acostumado, pílulas do soldado podem ser... complicadas.
— Eles só precisam de um longo período de descanso, e se reidratarem, porque alguém né esqueceu que pessoas precisam de água.
— Ei! Não dava pra ficar indo pelas margens do rio o tempo todo!
— Cantis existem pra isso...
— Vai te catar, Kiba.
Kiba riu.
— Relaxa, rosinha. Eles tão bem. – Disse dando os ombros — E o Júnior foi pra casa, provavelmente tá dormindo uma hora dessas. A Hana deu uma olhada nele também, disse que tava em ótimas condições, como esperado do Sakumo Júnior.
— Ele é incrível. Bastante habilidoso como você disse. Usou um jutsu que eu nunca vi na vida, e se tivesse pego no Jūzō talvez ele o tivesse matado.
— Olha só, parece que o Júnior impressionou a capitã nova. – Ele disse num tom contemplativo — Cuidado, Sakura, porque esses novinhos só sabem pensar em uma coisa...
— No que, Kiba? No que os novinhos só sabem pensar?
Eles se olharam, Kiba abriu um sorriso cínico.
— Aprender novos jutsus, oras.
— Eu te odeio muito.
O homem riu mexendo os ombros, e não negava o alivio dos últimos dias naqueles gestos mais relaxados. Só ele e Ino sabiam como tinha sido os últimos dias, e vendo Sakura ali, ele só queria provocá-la mais e mais.
— Você só vai reportar a missão amanhã, né? – Ele perguntou em seguida.
— Acho que sim? Não sei? ... ? Eu mandei os meninos reportarem, mas não sei como foi isso. Não sei se o Shikamaru ficou com alguma dúvida.
— Tá aí, usa isso como desculpas pra ir ver o teu crush. Vai lá secar o Nara.
— Deixa de ser besta – Ela disse com humor, se empertigando na cama para ver o bico amuado do homem — Prefiro secar você nessa camiseta. Olha esses braços... Esse peito... — Ela arrastou a mão — Nunca gostei de lavar roupa, mas nesse tanquinho...
Kiba gargalhou puxando a mão de seu abdômen antes de se inclinar para buscar aquele outro beijo mais longo, cheio daquelas risadas que os impediam de, de fato, se beijarem direito.
— Ei, se vão transar, eu gostaria que fosse no sofá ao menos.
Eles viraram para ver Ino adentrando o espaço em toda a sua glória. O cabelo loiro estava solto, e usava um cropped laranja de mangas. Quando obteve a atenção dos dois, ela os jogou suco de caixinha lembrando que Sakura precisava se hidratar.
— Tem espaço pra mim, ou devo deixar os pombinhos às sós? – Perguntou ouvindo os agradecimentos que vieram quando tinham os sucos em posse.
— Sempre tem espaço pra você, gostosa. – Kiba respondeu vendo Ino levantar o dedo do meio para ele.
— Me erra, Kiba. – Ela respondeu vendo Sakura rir daquele jeito despreocupado que geralmente tinha, e adorou que ela parecesse tão bem.
Sakura chegou para o lado, trazendo Kiba para perto, e Ino logo ocupou a outra extremidade da cama, se permitindo segurar a caixinha de suco de Kiba para que ele pudesse lhe oferecer aquele outro braço.
Ino tinha segurado Sakura pelo tempo que ela precisou ser segurada, lhe deu banho, lhe fez comer enquanto conversavam, lhe colocou na cama com a promessa de que logo voltaria. Ela já estava bem quando a deixou, mas não totalmente bem, e a preocupava deixá-la só quando sabia que a moça precisava de companhia, entretanto, havia esse pedido enorme de arranjos que ela precisava terminar.
Por sorte, Kiba havia aparecido bem a tempo, e ainda que não tivessem combinado nada, o trabalho em conjunto tinha dado seus frutos. Sakura estava rindo com seu aspecto bem melhor. Esticou a mão por cima de Kiba para segurar a da amiga, que sorriu para ela num agradecimento mudo, e a única coisa que Ino conseguiu responder foi com aquele eu te amo soprado.
— Hoje eu tenho certeza que não tem desgraçado mais sortudo que eu – Kiba disse de repente — Quantos homens podem dizer que dividiram a cama com Haruno Sakura e Yamanaka Ino ao mesmo tempo?
Ino revirou os olhos ao mesmo tempo que Sakura, ambas rindo com a quebra do momento tão brusca.
— Olha... – Ino respondeu mordendo o lábio ao final.
— Então... – Sakura disse logo em seguida, coçando debaixo do nariz.
— O quê? Quem? Quem foi o cara e por que não foi eu?
As meninas dividiram uma risada longa às custas do bico confuso que fazia lugar nos lábios de um Kiba insistente em saber o misterioso homem que já havia tido essa inenarrável honra.
— Não foi você porque você não teve um pesadelo ruim e precisou de um lugarzinho seguro na cama da mamãe e da Tia Sakura.
Kiba precisou de um segundo para entender, soltando um longo ah! quando percebeu do que se tratava. Sakura riu um pouco mais quando os outros dois iniciaram uma longa conversa sobre ele ser o primeiro da fila para um ménage, e talvez fosse estranho assumir aquilo durante uma conversa tão sugestiva, mas Sakura teve a agradável sensação de que o seu lugar seguro era exatamente ali, com aqueles dois.
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Era noite. Ele estava sentado em posição de lótus na varanda de casa, frente ao tabuleiro de shogi do seu falecido pai. Do outro lado, havia seu sobrinho Inojin coçando sua cabeça loira ao ter suas peças encurraladas numa jogada mais agressiva de Shikamaru, que até tentava, mais nunca conseguia pegar leve quando se tratava daquele jogo.
Estava frio, por isso ele usou aquele quimono de tecido mais grosso, deixando os cabelos soltos sem se preocupar com o calor no pescoço. Inojin, no entanto, usava um casaco de capuz lilás, desses bem bonitinhos. Ele queria usar um quimono também, tal como Shikamaru, mas este não permitiu. A última coisa que precisava era Ino o culpando por ter deixado que o moleque pegasse um resfriado.
Inojin escolheu sua jogada de maneira quase aleatória, e Shikamaru acabou dando uma risadinha quando percebeu que foi o pior movimento possível. Olhou para o garoto pronto para explicar o porquê de o movimento ter sido uma merda quando notou a presença de um shinobi em seu telhado. Olhou para cima vendo o homem prostado como uma gárgula na quina do telhado quadrado, e Inojin olhou por reflexo para a mesma direção, acabando por encarar os olhos perolados que o miravam.
Shikamaru soltou o ar com irritação antes de fazer um gesto para que o ninja se aproximasse, ao passo que Inojin se levantava, correndo para trás de seu tio, onde parecia seguro ficar na presença dos ninjas que não mediam olhares tortos para si. Segurou no ombro do Nara enquanto o recém chegado reverenciava o Jounin Comandante.
— Qual é a urgência, Hyuuga? – Shikamaru perguntou sem se esforçar para lembrar o nome daquele ninja.
O shinobi, ao invés de responder, apenas esticou um pedaço de papel selado com o símbolo do orgulhoso clã. Shikamau aceitou o papel, girando de todos os lados como se buscasse uma pista do que era aquilo. Quando voltou a atenção ao homem, o pegou olhando daquele jeito errado para seu sobrinho, foi quando Shikamaru se levantou, mostrando uma postura mais agressiva. O olhou por um longo momento, a cara de poucos amigos.
— Algum problema? – Perguntou vendo o shinobi recuar e partir, sem dizer uma só palavra.
Suspirou passando a mão na cabeça do menino antes de romper o selo para ler o conteúdo daquela mensagem.
"Agradeço por ter acatado meu pedido.
- Hyuuga Hinata."
...
Enfiou o papel dentro do quimono sem muita preocupação. Mesmo se mostrando uma pessoa completamente desprovida de emoção, às vezes Hinata o agraciava com pérolas, talvez em nome do passado em que colaboraram juntos por um bem maior. Ele não sabia, mas tinha vontade de saber se, caso precisasse, ela ainda estava disposta a lhe dar uma mão.
Na época tinha sido mais fácil medir sua índole, mas agora, Hinata lhe soava completamente vazia, e dessa forma, totalmente não confiável.
— Tio...
O Nara despertou de seus pensamentos virando-se para o rapaz que ainda segurava nas suas vestes, como ainda não tivesse tido a certeza que poderia soltá-lo. Shikamaru se agachou frente ao sobrinho sinalizando que ele podia continuar.
— Tio, eu... Eu tava com um amigo e... – Disse hesitante, medindo a reação do adulto a sua frente que tentava não franzir o cenho — E, é.. Ele é Hyuuga, né... O pai dele não queria que ele falasse comigo, mas nosso professor colocou a gente pra fazer uma coisa, e aí... Aí... A gente conversou, e ele agora é meu amigo, mas o pai dele não sabe...
Shikamaru falhava miseravelmente na sua missão de tentar transparecer naturalidade, porque todos os sinais vermelhos acenderam no momento que aquele primeiro tio foi dito, mas ele esperava, torcia, por algo diferente. Torcia com todas as forças.
— Aí eu perguntei a ele por que ninguém do clã dele gosta da gente, e ele falou... Ele falou que era por causa do meu pai.
Forçou a respiração a sair regulada, mas por dentro, Shikamaru estava completamente congelado como raras vezes havia ficado. Ele abriu a boca, pronto para interromper, mas aquele era Yamanaka Inojin, filho de Yamanaka Ino, e ninguém nunca interrompia um Yamanaka determinado.
— Tio, o que meu pai fez? Quem é ele?
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AAAAAAAAAAAAAAAAAAA GENTE DO CÉU! CONTINUEM COMIGO QUE TÁ SÓ ESQUENTANDO!
KindestHuntress obrigada por todos os teus comentários! (me aflige não conseguir responder, mas deixo aqui meu carinho ahahaha)
Thayse, você é uma querida sempre 3 obrigada por tudo!
