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As batalhas que travamos.
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Através dos vidros da janela, os raios do sol incidiam no cômodo com a plenitude majestosa do iminente final do verão. A vila estava como sempre, provavelmente, já que o burburinho da rua movimentada podia ser ouvido daquele quarto no primeiro andar do prédio onde acordou, e ainda que houvesse as lembranças do momento em que fora levado para aquele lugar, Obito não conseguia discernir com precisão quanto tempo havia passado.
Na sua mente brevemente atordoada, talvez horas tivessem se passado, ou talvez dias, anos... Ele não poderia dizer com certeza, principalmente quando suas pernas ainda jaziam doloridas com um latejar breve nos seus joelhos e tornozelos. O quadril também reclamava, mas a cabeça era, sem dúvida alguma, o lugar onde a dor chata mais o incomodava.
Não que estivesse morrendo de dor de cabeça, longe disso, mas a dorzinha fina o acordou do sono profundo lhe fazia querer dormir novamente. Esfregou o rosto sabendo que o mau hálito deveria estar corroendo seus dentes de alguma forma, olhou envolta vendo flores frescas num jarro modesto na quina da mesa de cabeceira, e por fim reparou no soro pendurado que era ligado diretamente a uma agulha enfiada no seu braço.
Suspirou fechando os olhos.
Decidiu, no fim das contas, que esperaria alguém entrar em algum momento, seja um enfermeiro, médico, ou qualquer outro, e isso incluía a sua avó. Segundo seu conhecimento geral sobre hospitais, em algum momento alguém apareceria, dessa forma relaxou sobre a cama não muito confortável, mas o suficiente para que pudesse se deixar concentrar-se nos sons e sensações de seu corpo, entrando naquele estado raro de meditação onde conseguia sentir o próprio chakra.
Não permaneceu muito, como sempre, pois assim que sua mente resolveu desligar das questões temporais, outras questões surgiram. Nohara Rin. A sua companheira de time adentrou seus pensamentos fazendo com que o garoto esquecesse das dores, entrando num estado de alerta. Precisava vê-la! Afinal, ele lembrava bem de como ela parecia até pior que ele quando chegaram na vila, tendo que ser carregada inconsciente nos braços de...
Kakashi.
O maldito sempre roubando sua cena.
Dessa vez, entretanto, Obito estava disposto a perdoar, afinal, Rin estava passando muito mal e não era hora de pensar em chamar a atenção dela num momento como aquele.
Acabou sentando-se na cama, a coluna ereta enquanto tentava imaginar onde estariam suas roupas, identificando o móvel branco no canto que poderia servir para guardar alguns pertences. Ignorando a dor nos joelhos, levantou-se rapidamente, sendo impedido pelo repuxar do equipo, que arrastava o suporte do soro com um ruído característico.
Praguejou em reflexo, virando-se apenas para processar que precisava se livrar daquilo, e por isso colocou a mão sob a acesso, pronto para puxar sem nenhuma hesitação, mas fora impedido quando a porta se abriu. Girou o rosto já pensando na desculpa para estar tirando aquilo quando se deparou com o motivo de toda aquela agitação.
Nohara Rin.
— Obito! O que você tá fazendo? – Ralhava naquela blusa preta que não cobria seus ombros.
O garoto arregalou os olhos em surpresa, fazendo uma rápida análise de tudo o que via sobre ela: Seus cabelos curtos bem alinhados com a faixa lilás entre eles, combinando com a pintura roxa de suas bochechas. Ela vestia um short curto com meias altas, e parecia renovada com o tom da pele saudável.
— Rin! Você tá bem?! – Ele emendou a pergunta com velocidade, vendo-a recuar brevemente com a explosão do garoto.
A menina deixou o ar escapar pelo nariz enquanto suavizava sua expressão de maneira natural, o sorriso fácil aparecendo em seu rosto inevitavelmente. Colocou uma mão no quadril, pendendo o corpo e a cabeça para o lado ao olhar seu amigo naquela bata de hospital.
— Eu tô bem. Acordei ontem, já recebi alta... – Disse deixando que Obito absorvesse as palavras no tempo dele, porque o conhecia bem demais para saber que só depois que tivesse a mais absoluta certeza daquilo, ele descansaria. — Você, no entanto, deveria estar deitado.
O garoto riu jogando uma mão para a nuca num coçar nervoso. Abriu um sorriso largo, daqueles bem característicos de sua personalidade animada.
— Já vou deitar de novo – Respondeu sentando na cama, percebendo as dores no corpo com mais clareza no processo, mas fingindo não sentir nada diante da garota — Quanto tempo faz que eu tô aqui, Rin?
— Você dormiu por dois dias inteiros. Sua vó ficou bem preocupada.
— Ah! Hehe... Acho que subestimei os efeitos da pílula do soldado.
— Obviamente. – Ela riu antes de se aproximar com aquele seu jeito tranquilo, colocando uma das mãos no ombro dele para empurrá-lo delicadamente. — Se deite, Obito.
Ele corou devido ao tom de voz brando que ela usava, que somado ao toque gentil em seu ombro, o fez pensar que ela era realmente a garota mais bonita em que já havia posto os olhos. Quando finalmente se acomodou em seu leito, sorriu de modo sereno em reflexo ao de Rin, que jazia tão delicado em seu rosto perfeito. Ele quase suspirou, porque em seus sonhos, a cena finalizava com o encostar de seus lábios, coisa que claramente não aconteceria naquele momento, afinal...
Kakashi aparecia.
Com um sobressalto, a mocinha recuou com as bochechas coradas, quase como se tivesse sido pega fazendo algo errado, observando o garoto de cabelos prateados em sua calça moletom larga entrar no local com chinelo de dedo. Ele olhou para Rin com um clássico desinteresse, e depois olhou para um emburrado Obito, que parecia bem o suficiente para, em apenas um olhar, declarar que ele não era bem-vindo ali.
— Atrapalhei alguma coisa? – Perguntou enfiando a mão nos bolsos, ainda parado na porta do local.
— É claro que não! – Rin emendou com urgência.
— Bakashi! Você sempre chega na pior hora! – O outro disse com um bufar indignado.
Kakashi suspirou.
— Que bom que você tá melhor – O Hatake disse sem muita vontade de continuar um diálogo que iria acabar em Obito querendo arrancar sua cabeça fora. Ele se aproximou de Rin e tirou de um dos bolsos aquela caixinha retangular com um canudo grudado na traseira. — Não tinha o de baunilha que você gosta, então eu trouxe achocolatado.
— Ah... Obrigada, Kakashi.
Obito a viu pegar a caixinha da mão dele e espetar o canudo no furinho, sem demorar para perceber que haviam chegado juntos ao hospital, mas que Kakashi deveria ter se comprometido a pegar qualquer coisa para comerem, já que ele também tirou um achocolatado do outro bolso logo em seguida.
Os garotos se olharam.
— Você quer? – Kakashi perguntou com a caixinha na mão.
— ... É só de chocolate?
— É.
— Quero.
Rin até pensou em dizer que era melhor esperar alguém vir dar uma olhada em Obito antes de ofertar qualquer tipo de alimento, mas resolveu deixar passar em prol do bom relacionamento de sua equipe. Viu Kakashi perguntar como ele estava enquanto puxava aquela cadeira do canto para perto da cama, ambos conversando sobre trivialidades de repente, e a garota sempre gostava desse clima tranquilo que às vezes imperava no teu time.
Sentou-se também, acomodando-se no leito próximo aos pés do rapaz, ingressando naquela conversa com adendos pontuais e risadinhas das besteiras. Era um breve momento de alívio antes de finalmente ingressarem no assunto latente a qual até mesmo Rin evitava pensar desde que havia acordado, e que Kakashi deliberadamente ignorou, como se não tivesse nada para ser dito.
Foi Obito quem perguntou por Sakura, olhando para Kakashi e depois para Rin com um semblante brevemente mais sério. Os três ficaram num silêncio que pareceu uma eternidade, mas que na verdade durou apenas um instante diante dos olhares trocados entre Obito e Rin, Obito e Kakashi, Rin e Kakashi. Ninguém queria começar, e de fato, o jeito com que o ninja mascarado os olhava era exatamente como se perguntasse há algo a ser dito?
Na opinião de Rin, sim, havia algo a ser dito, mas ela não sabia como dizer, ou mesmo o que dizer.
— O quê? – Obito soltou com aquele incômodo pelo cessar das falas — Vocês não tiveram notícias dela?
— Sim... hmmm... Segundo uma amiga enfermeira, ela esteve aqui na manhã seguinte, perguntou por nós três, e então foi embora.
O Uchiha fez uma careta sem sequer perceber, talvez ainda fazendo mal juízo da mulher que agora comandava seu time, mas foi apenas quando seu olhar encontrou Kakashi olhando perdido através da janela que aquele ruído de reprovação o escapou. Rin se resignou quando percebeu que logo começariam a se atacar.
— Ei, Bakashi! Você não achou estranho tudo o que aconteceu? – Obito perguntou com aquela agressividade nas palavras — O jeito que ela agiu durante toda a missão foi, no mínimo, esquisito! E ela ainda matou o cara daquele jeito tão...
— Tão o que, Obito? – O outro perguntou, a expressão ganhando aquele tom mais sério — Brutal? Sanguinário? – Continuou dizendo as palavras como se não possuíssem nenhum efeito em si — O que você esperava dela? Que ela se sentasse com ele e o convidasse pra tomar chá?
Tudo o que saia da boca de Kakashi era dito daquela maneira indiferente, demonstrando ter resolvido toda e qualquer questão que pudesse ter tido sem grandes problemas, mas Obito não estava disposto a ceder naquela conversa, e logo o olhou com um misto de ofensa e irritação.
— Você viu a mesma coisa que eu? Viu ela socar o cara já morto até garantir que ele estivesse irreconhecível? – Perguntou pasmo com a capacidade de Kakashi superar certos assuntos — E mesmo que tiremos isso da equação, a mulher parecia uma psicopata arrastando a gente floresta adentro sem nos dizer uma palavra do que tava acontecendo!
Obito olhou para Kakashi esperando alguma reação, mas a expressão do amigo continuava tão indiferente quanto antes, como se tudo o que Obito dissesse não passasse de vãs reclamações, e aquilo foi suficiente para fazer o Uchiha ficar ainda mais irritado.
— A Rin podia ter morrido àquela hora, droga! – Esbravejou mais alto — Como você pode confiar em alguém que quase deixou a Rin morrer?!
— Eu sei que você é idiota, Obito, mas você sempre consegue me surpreender nesse aspecto. – Kakashi disse ainda naquele tom indiferente, mas Rin conseguiu sentir o sentimento afetado que permeava aquela fala. Obito, no entanto, arregalou os olhos pronto para retrucar, mas o outro apenas continuou: — Antes de entrarmos em combate, a primeira coisa que a Sakura falou foi para que eu ficasse de olho na Rin.
— Grande merda! – O outro gritou — Ela nem sabia que era um clone naquela hora!
— Não importa se ela sabia ou não, porque ela cobriu esse ponto na hora que me mandou cuidar da Rin. – Ele disse sem hesitar em suas palavras diretas.
— E se você falhasse?! E se você não fosse suficiente?!
Kakashi sorriu como se tivesse acabado de ouvir uma piada e Rin temeu o que estava por vir, sabendo que tanto ela quanto Obito precisavam ouvir o que estava prestes a ser dito. Ela abaixou a cabeça discretamente, mas Obito continuou olhando furioso para o garoto mascarado, que não vacilou em seu olhar superior para o companheiro de time acamado.
— Se eu não fosse suficiente, Sakura jamais teria me dado essa incumbência – Ele disse tranquilo enquanto olhava para o outro — Afinal, ao contrário de você, eu levo o meu treino muito a sério.
— Ah, vá se foder você e seu treino! – Obito cuspiu raivoso — Você é tão arrogante que basta um mínimo destaque pra você esquecer que essa mulher é um perigo pro nosso time! E daí se ela confiou em você pras rondas? E daí que você conseguiu lutar com um Espadachim da Névoa de igual para igual? Isso não tira o fato de que você quase morreu nas mãos dela! – Esbravejava com fúria, magoado pelo ar superior do outro que apenas o encarava com aquela indiferença contida. — Ela é um perigo para o nosso time! Se não morrermos de inanição, ou nas mãos do inimigo, vamos morrer nas mãos dela, e isso vale apena só porque ela confia em você?
A tensão pairava no ar com um peso maior do que eles podiam carregar. Rin olhou pelo canto do olho para Obito, que tentava disfarçar o orgulho ferido naquela expressão irritada de quem prioriza outras questões para não encarar a realidade, e a menina sabia disso porque era a mesma coisa que ela fez desde que ouvira as duras palavras de Haruno Sakura durante o único treino que tiveram.
Os lábios dela entreabriram na vontade de dizer alguma coisa que, de alguma forma, pudesse mediar aquele conflito instaurado de maneira tão firme, mas não havia nada que pudesse dizer, porque Kakashi estava certo, e talvez Obito também estivesse certo... Talvez One Punch Sakura não fosse a heroína que achava que ela fosse.
Sakura era incrível de fato, e Rin nunca se esqueceria da potência do jutsu medicinal somado a habilidade absoluta que a kunoichi mais velha tinha de esquivar, porém, mesmo assim, tudo o que ela fez foi levá-los ao limite numa missão que eles claramente não estavam preparados, e isso poderia mesmo tê-la levado a morte, mas até que ponto isso era culpa da instabilidade dela e não de sua própria... incompetência?
Até que ponto Sakura era responsável por tudo aquilo?
Ela olhou para Kakashi e não precisou que ele abrisse a boca para encontrar sua resposta.
Mas Obito precisava.
— Eu ainda não entendi o que você espera dela, Obito – Kakashi começou, recostando na cadeira com aquele ar desdenhoso que podia facilmente se apropriar — Na verdade, eu não sei o que você espera da vida ninja no geral, porque tudo o que você fala soa como se você esperasse viver dentro de um mangá desses que lemos no tempo livre, mas deixa eu te contar uma novidade: Ninjas não são heróis. – Disse dando os ombros — Nós fazemos o que precisamos fazer, e isso inclui passar dias sem dormir, comendo mal, e ainda assim estar apto a lutar contra o inimigo. O que Sakura nos fez passar não foi nada, e digo mais, não é ela o perigo para o nosso time: Você é.
— Era só o que faltava!
— Você acha que as missões vão ser sempre como as que fazemos com Naruto-sensei? Acha que as lendas como os Sannis não sujaram as mãos? Acha que todos merecem uma batalha honrada? – Kakashi questionava o olhando com perplexidade — Acorda, Obito! Só existem dois tipos de ninjas no mundo: aqueles que morrem cedo demais e aqueles que se sentem inúteis por serem fortes o suficiente para sobreviverem, mas incapazes de conseguir salvar um companheiro, e o primeiro tipo é o verdadeiro risco.
Obito arregalou os olhos diante da fala firme do companheiro de time, sendo as palavras muito mais duras do que ele jamais poderia pensar que fosse. Eles se encararam, o acamado recuperando sua expressão mais endurecida enquanto o outro apenas mantinha seu semblante preciso de qualquer que fosse a adversidade. Essa era a diferença entre eles, não era? Kakashi estava preparado, e Obito não. Era sempre isso.
Entretanto, admitir isso de maneira genérica era uma coisa completamente diferente de encarar a verdade por trás do conteúdo daquela fala tão cruel, mas necessária. Rin sabia disso, afinal, nem ela conseguia absorver direito sem se sentir pessoalmente ataca, porque ainda que em nenhum momento Kakashi tenha se dirigido a ela, ainda assim ela sabia que tudo aquilo lhe servia como uma carapuça perfeita.
O que Rin esperava de Sakura? Bem... Essa era uma pergunta bem óbvia. Ela queria conhecer essa kunoichi legendária que trazia esperança para os campos de batalha. A médica que realizava procedimentos impossíveis com o mínimo de recurso. A mulher que poderosa que fazia seus inimigos recuarem ao vislumbre de sua presença.
Essa era a Sakura que ela esperava, e para ser sincera, a tal One Punch ainda era tudo isso, só que muito mais além, ela também era a Flor da Morte, a kunoichi instável que sabia deu as ordens certas, confiou nos companheiros certos, tentou até mesmo ensinar alguma coisa àquele que não parecia muito útil, e mais que isso, ficou transtornada quando pensou não conseguir salvar todos que estavam sob sua proteção.
Era muito fácil falar das vitórias gloriosas que os ninjas conquistavam, mas por quantas derrotas esses mesmos ninjas não tinham passado? Quantas situações foram exatamente iguais àquela vivida dias antes na floresta sem nome pelo qual correram? Quantas vezes Sakura não viu seus companheiros morrendo com a certeza que não podia fazer nada mesmo sendo a tal grandessíssima e aclamada Haruno Sakura de Konoha?
— Obito, eu não sei se Sakura confia em mim ou não. Isso não me importa, honestamente. – Kakashi continuou depois daquele breve momento de silêncio — Eu confio nela, e pra mim isso basta.
Os lábios formavam uma linha rígida em seu rosto endurecido, ainda lutando contra as palavras de Kakashi que lentamente se acalmavam ao encontrar aquele tom de voz mais brando que geralmente usava, entretanto, nos olhos escuros do rapaz, Obito pôde ver a sinceridade do amigo. Ele sempre admirou o ninja mascarado em um segredo não muito discreto, e queria alcançá-lo como um alguém tão bom quanto ele, mas nessas horas a diferença ficava mais evidente do que Obito gostaria de admitir.
Ele abriu a boca para insistir, porque se recusava a deixar por isso. E daí que Kakashi confiasse nela? Ele era apenas um membro dos três, e aquilo deveria ser decidido por unanimidade ao invés de se contentarem pelo voto de um. Obito até conseguia admitir que talvez estivesse tendo a ideia errada do que viria pela frente, mas a verdade é que quanto mais ele corria com os melhores, mais ele percebia que não merecia estar ali.
Foi quando a mão de Rin agarrou o tornozelo dele com suavidade e os olhos castanhos o alcançaram mais presentes. Ela parecia uma bandeira da paz fincada no solo remexido após uma intensa batalha.
— Nós precisamos treinar, 'Bito.
...
Foram as palavras dela, tranquilas, honestas, que o fizeram fechar os lábios outras vez antes de desviar seu olhar para um lugar além deles. O vento fez as cortinas balançarem com tranquilidade e lá fora o sol brilhava. Ele precisou de um segundo mais longo para poder acomodar toda aquela frase construída por Rin, encontrando um lugar dentro de si para colocá-las, e só então pôde responder logo após um gole daquele achocolatado com que foi presenteado.
— É... Precisamos sim.
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Quando acordou naquele dia, vendo o sol brilhar através da janela estreita do quarto, Sakura sentiu que o dia lhe reservava boas vibrações. Ela olhou para o lado para ver Kiba ressonar baixinho com o peito subindo e descendo daquele jeito ritmado de quem dorme o sono dos justos, e nas bochechas coloridas de vermelho, a mulher de cabelos cor-de-rosa se sentiu com sorte.
Ela o esperou acordar aconchegada nos braços dele sem pressa. Kiba era do tipo calorento, não gostava dessa coisa de dormir de conchinha, mas às vezes Sakura só ignorava isso e se fazia confortável o suficiente nos braços adormecidos do homem, que no final das contas acabava fazendo da kunoichi seu travesseiro de agarrar. Tudo bem. Ela meio que gosta às vezes.
Naquele dia, Kiba acordou com um bocejo longo demais antes de conseguir pronunciar aquele bom dia preguiçoso para que, como de costume, começassem aquele bate-papo matinal regado a risadas relaxadas demais. Acabaram saindo da cama apenas quando o homem resolveu que estava com fome demais para continuar deitado. Não demorou muito para que, depois de um ritual matinal de higiene, Sakura e Kiba desfrutassem de uma deliciosa porção de cereal de milho com leite integral.
Quando saíram de casa, não perceberam que se vestiram combinando: O homem estava com aquela camisa mais larga de cor amarela, e a mulher tinha se enfiado numa camiseta cavada de mesma cor. Foi só quando alcançaram o centro agitado, ele com o braço em cima dos ombros dela, e ela adornando-o pela cintura, que ambos notaram os olhares e finalmente se deram conta, com uma risada, que amarelo era a cor do dia.
Entraram na floricultura Yamanaka como dois bobocas felizes demais sem nenhum motivo aparente, dando um bom dia animado para uma Ino que, pasme, também vestia amarelo. Bem... o avental dela era amarelo, que ficava harmonioso com o branco daquela blusa dela que deixava nus os ombros da moça atrás do balcão.
Os três conversaram animadamente por alguns poucos minutos, Ino reclamando que estava pressentindo algo esquisito para aquele dia tão atipicamente feliz. Sim... Afinal, nem todo o dia para aqueles três eram assim, cheios de luz, e foi justamente para preservar essa tão estranha calma alegre que Sakura maneou a mão ao vento, dizendo à amiga que parasse de procurar agulha em palheiro.
Aproveite o dia.
Simples.
Kiba, é claro, concordou. Sempre relaxado, o homem já havia interiorizado que viver um dia de cada vez significava aceitar as coisas ruins que acontecem, e aproveitar as coisas boas que lhe são oferecidas, tal como duas mulheres tagarelas que conseguiam discutir por tempo demais sobre a vizinha supostamente bisbilhoteira que passava o dia todo na janela do primeiro andar olhando a vida dos outros.
Bem... Em Konoha não há muito o que fazer, o homem admitia, principalmente na terceira idade.
Falaram sobre o trio de chunins que estavam sob a tutela de Sakura, esta última informando de maneira desleixada que estavam todos bem, tendo o Uchiha do time sido liberado do hospital dias atrás. Falaram também sobre os boatos de que Tenten e seu time também haviam esbarrado num dos remanescentes dos Espadachins da Névoa nos arredores de Kumo, mas no caso dela, o ninja havia conseguido escapar com vida.
Foi só depois do papo fácil que Kiba olhou para o relógio pomposo de Ino na parede da loja e então, com as mãos nos bolsos, disse que era hora de ir, afinal, a assembleia jounin começaria em pouco tempo. Oh, sim... O momento em que todos os jounins presentes na Vila da Folha se reuniriam para discutir assuntos relevantes da classe, como se fossem algum tipo de sindicato, sendo que muitas das reinvindicações eram só arquivadas pelo Hokage vigente.
Sakura não participava de uma dessas há anos, enquanto Kiba não fazia muito esforço para comparecer, geralmente indo quando dava na telha, e raramente se comprometia com as discussões, se resguardando à função de mero ouvinte, afinal, a palavra que prevalecia geralmente era a dos Hyuugas, e ele já se sentia de saco cheio da empáfia do tal clã.
Naquele dia, no entanto, o ninja estava disposto a se arrastar até aquele local apertado e mal iluminado com o intuito genuíno de não deixar a moça de cabelos cor-de-rosa passar por tal tortura sozinha, por isso, quando ele anunciou ser o momento de finalmente se mandarem, Ino torceu o nariz perguntando onde diabos estavam os coletes verdes, recebendo um dar de ombros da mulher sua amiga juntamente a um piscar relaxado demais do shinobi barbado que, antes das reclamações sobre suas vestimentas começarem, saíram rapidamente na direção da Torre.
O trajeto foi curto. Enquanto conversavam, sequer perceberam a estátua imponente de Hiashi se aproximar, contornando aquela rotatória até a entrada do local. Havia alguns ninjas de baixa patente no saguão, e Sakura pôde ver as costas de Tenten desaparecerem no subir de escadas que a levaria para a sala de conferências. Kiba cochichou algo sobre a bunda da kunoichi especialista em armas ter crescido, fazendo a mulher de olhos verdes soltar uma risada baixa.
Não fizeram muita hora ali no térreo, apenas o suficiente para cumprimentarem alguns companheiros antigos, sorrirem polidamente e, finalmente, subirem em bando antes que Shikamaru descesse para convidá-los ao buraco onde tais reuniões aconteciam.
Enquanto subiam, Sakura reparou que ela e Kiba, somado a mais uns dois ou três ninjas, eram os únicos a não estarem de uniforme, destoando da multidão armada que juntos passavam pelas portas vermelhas escancaradas. Se agruparam conforme foram entrando, buscando algum espaço pessoal no meio de todos os shinobis que nem eram tantos assim, mas que imprensados na sala não-tão-grande causava a sensação de um grande contingente.
Como esperado por Kiba, mal se conseguia enxergar o fundo da sala de tão obscura que era, mas o cheiro era o mesmo: Fumo e ervas aromáticas, além do fedor do mofo por trás das tábuas de madeira que sustentavam as paredes. Ele segurou Sakura perto da entrada, afinal, as frestas da porta era o único lugar por onde o vento poderia dar conforto ao seu nariz sensível, e a mulher não se importou em ficar mais atrás, esperando que todos se acomodassem.
Shikamaru esperava sentado naquela almofada suja ao lado do lugar mais pomposo que era reservado ao Hokage, mas este último já não comparecia mais a tais reuniões desde... Desde muito tempo. O comandante dos jounins deu uma longa tragada quando a movimentação foi cessada, e esperou pelos seus últimos convidados fazerem a entrada desnecessariamente pomposa que sempre faziam.
Ele esmagou a bituca no cinzeiro em pedra verde-jade, olhando para as cinzas acumuladas naquele espaço minúsculo juntamente aos restos dos cigarros que desperdiçou em longas reuniões. Foi com os olhos ali que ele sentiu a movimentação. Os passos arrastados dos ninjas abrindo espaço para os dois figurões que se os honravam com sua presença: Neji e Hinata Hyuuga.
Sakura quase deu meia volta e saiu da sala em protesto quando viu as túnicas farfalhantes nas sombras do espaço estreito. Ninguém dizia nada sobre o atraso planejado da dupla que, em seus quimonos finos e bordados a mão, entravam como se fossem divindades. Neji no mais puro dos brancos, a postura ereta, o queixo erguido, o ar superior...
Ele exibia aquela testa lisa ao pentear seus longos cabelos para trás, mostrando a todos a dissolução do selo para a família secundária, afinal, para todos os outros, os Hyuuga agora eram um só. Não havia mais castas dentro da família mais importante de Konoha, algo que só aconteceu devido aos ideais de Hinata, que vestida em preto puro, não carregava nenhuma expressão em seu rosto. Ao contrário de Neji, a mulher não emitia nenhum ar de empáfia ou superioridade. Era como se ela sequer fosse capaz de sentir sentimentos humanos, e aquilo só fazia com que Sakura quisesse dar dois tapas naquela bochecha de porcelana, só para ver o que acontecia.
Mas ao invés de fazer o que tinha vontade, a mulher apenas observou os dois por um breve momento antes de simplesmente girar o seu olhar até um Kiba parado, com expressão quase séria, as mãos nos bolsos... Ele não olhava para os recém-chegados, preferindo manter seus olhos nas várias sandálias ninjas espalhadas por aí, e só levantou a cabeça quando sentiu o ombro de Sakura atingir seu braço com suavidade. Eles se olharam e ela sorriu esperta, como se dissesse todas as palavras que ele precisava ouvir.
Kiba acabou sorrindo para ela também, e talvez fosse contra a regra de etiqueta social, mas ele acabou puxando aquela mão largada dela, fazendo-a adornar sua cintura antes de sussurrar contra o ouvido dela "Isso vai ser um saco". Sakura riu mexendo os ombros brevemente, e sem emitir um som sequer, seus lábios se mexeram no formar das palavras "pelo menos vamos passar por isso juntos".
A dupla de olhos perolados se posicionou logo na frente, perto do assento vazio do Hokage, atraindo os olhares de toda a ralé ninja presente no ambiente, mas Shikamaru não os olhou, ao invés disso, ele deu um longo suspiro resignado antes de se levantar, catando no bolso largo do uniforme aquele papel amassado com as pautas do dia no ignorar deliberado dos olhos de Neji, que se pudesse, o mataria ali mesmo.
— Sério que ainda tem gente reclamando do uniforme? – Sakura perguntou discretamente ao homem ao seu lado quando Shikamaru começou a expor o primeiro problema do dia. — Pensei que já teriam desistido a essa altura.
— Todo mundo odeia esse colete verde, Sakura, e isso não mudou com os anos. Quer dizer, ainda tento entender o porquê desse monte de bolsos quando ninguém carrega tantos pergaminhos assim.
— O Segundo Hokage não tinha nenhuma noção de moda.
— Na época dele, dizem que todo mundo vivia armado até os dentes, então até que fazia sentido esse acolchoamento extra, mas agora... Só atrapalha.
— Tipo, tudo bem que até que tem uns caras que ficam bem gostosos nele, mas... neh.
— Sério que alguém no mundo além de mim fica bem nessa porcaria?
Sakura o olhou com uma sobrancelha arqueada, porque Kiba era sempre tão convencido... Ele sorriu cínico sem se preocupar com qualquer possível repreensão pela conversa paralela, afinal, era comum nesse tipo de reunião que os ninjas presentes simplesmente dispersassem diante dos problemas mundanos que nunca eram resolvidos, e além de tudo, a voz de Shikamaru era monótona o suficiente para que só quem estava bem na frente prestasse atenção, quem ficava atrás tinha o benefício da penumbra para esconder os bocejos.
— Você é tão convencido que nem tem graça te elogiar – Sakura revelou com humor trocando o peso para o outro pé — Mas, sim, tem mais pessoas que ficam bem na porcaria do uniforme, como o nosso palestrante do dia. Shikamaru é um gostoso.
— Começou... – Kiba gemeu em desgosto fazendo com que a mulher desse uma breve risadinha.
— Não seja ciumento – A outra pediu com visível deboche — Quer dizer, eu só tô te respondendo. O Shikamaru fica gostoso nesse uniforme verde escuro, e teve aquela época que ele andava com a pele de cervo por cima, você lembra?
— Aquele lixo fedido?
Sakura riu.
— Kiba, fala sério... O Shikamaru é gostosinho, vai!
— Não sei o que você vê nele. – Suspirou com um dar de ombros mínimo, fazendo aquele bico amuado no processo — O cara ou tá com cara de sono, ou tá com cara de quem quer matar cinco. Não tem meio termo. Além disso, ele é... Magrinho demais. – Resmungou jogando aquele braço por cima dos ombros de Sakura.
— Qual o problema dos magrinhos? – Ela perguntou divertida — Dizem que quanto mais magro o cara é, maior a é kunai. – E então se esticou para tentar enxergar o pacote guardado dentro das calças escuras do homem que continuava falando com aquela expressão de quem queria estar bem longe dali.
— Você quer uma kunai ou uma escavadeira? – Kiba retrucou revirando os olhos.
— Para de ser chato – Resmungou fazendo uma careta ao perceber que estava muito escuro para conseguir ver o que queria — Apenas finja que você é gay por cinco minutos e olha pra esse homem... Olha essa voz, essas mãos... Imagina ele te comendo naquele casarão velho onde ele mora, a casa caindo aos pedaços enquanto ele mete com força...
— Olha, se eu fosse gay, talvez eu pegasse o Shikamaru, maaaas... Eu que comeria ele.
...
A sala era escura e o homem já estava acostumado com todo aquele burburinho de fundo que se estabelecia em toda reunião jounin que participou. Era normal que as pessoas acabassem se distraindo quando o tema da assembleia fugia um pouco do interesse, mas em toda sua história como Comandante dos Jounins, Shikamaru nunca teve sua capacidade ninja tão subestimada quanto naquele dia.
Ele estava ali, de pé, frente a todos os jounins presentes na Vila da Folha, dando a importante notícia de que sim, eles ganhariam novos uniformes em breve, um mais leve, com menos bolsos, melhor ajustados ao corpo... Era uma ótima notícia para todos que realmente precisavam usar o uniforme diariamente, mas ele entendia que, para aqueles que optavam por vestes casuais em suas missões, o assunto era um tanto entediante.
Tudo bem a conversa paralela.
Mas, puta que pariu, Sakura e Kiba estavam falando dele na cara dura, sem nenhum pudor, e achavam mesmo que ele não estava conseguindo ler os lábios daqueles dois fofoqueiros? E estava tudo ótimo enquanto Sakura o chamava de gostoso. Particularmente, ele sentia seu ego masculino inflar de uma maneira pouco usual, mas do nada, o Kiba estava falando em comer ele?
Puta. Que. Pariu.
— Ué, por quê? – Sakura questionou desdenhosa — Senhor ativo master.
— Você sabe que não é isso... É só que ele é tão magrinho que seria esquisito ele me comer. Imagina... Eu de quatro e ele me enrabando. – Fez uma careta — É esteticamente mais bonito se eu o comer.
Sakura riu e Shikamaru reprimiu uma careta.
— Você está começando a plantar imagens na minha cabeça, Kiba...
— Só falta você dizer que quer me comer de novo.
...
— Obviamente o uniforme será distribuído gratuitamente, e iremos fazer a transição de maneira... – O Nara se concentrava nas palavras que precisavam ser ditas, tentando tirar sua atenção daquela conversa ridícula sobre... sobre pessoas comendo pessoas.
Mas de alguma forma, Shikamaru se sentiu incapaz de evitar aqueles lábios que fofocavam sem nenhum pudor, sabendo que os pares de olhos perolados estavam afiados logo ao lado, captando qualquer nuance para atacar. Shikamaru tinha que se manter capaz, entretanto...
Kiba e Sakura estavam plantando imagens na cabeça dele!
— Tá vendo, eu te comi daquela vez e foi esteticamente bonito. – Ela riu sacana, olhando-o com uma sugestão — É questão de clima.
— O clima que rola entre nós dois, rosinha, não rola com mais ninguém. Você sabe... Aquilo não funcionaria se fosse qualquer outra pessoa no seu lugar.
— ... Droga...
Kiba deu uma risadinha antes de deslizar a mão pelo ombro nu dela, trocando um olhar significativo com a moça, que não escondeu estar pensando a mesma coisa que ele.
— Tinha uma salinha vazia aqui do lado, né?
Eles sorriram um para o outro.
— ... então levante a mão quem concorda com as novas diretrizes para o uniforme ninja. – Shikamaru disse, mais alto, mais firme.
Céus!
Talvez fosse o longo tempo que estava sem dar umazinha o estivesse fazendo ficar vulnerável demais às ideias repentinas que estavam sendo postas em evidência, sejam ele comendo Sakura em sua casa até as paredes tremerem, seja ela e Kiba transando em qualquer lugar apertado do prédio, ou até mesmo Kiba lhe comendo... mas Shikamaru se recusava a ceder às imagens mentais enquanto ele falava de... De o quê?
Diante da chamada, os braços começaram a levantar como cascatas, fazendo com que Kiba rapidamente se aprumasse ao lembrar que, é, eles estavam numa reunião de trabalho. Sakura suspirou divertida revirando os olhos antes de resmungar que talvez devessem ter apenas pulado a reunião e ficado em casa para outras atividades, mas a vida os levou para aquele lugar onde Sakura percebeu de novo que Kiba tinha um apelo muito forte em si, ao ponto de ela simplesmente esquecer a imagem do Nara lhe comendo no casarão em prol da ascensão da imagem do Inuzuka lhe comendo de quatro numa sala vazia daquela Torre.
— E aí, vamos de sim ou não? – Kiba perguntou referindo-se à votação, e em seu rosto, ela pôde ver a promessa de um futuro breve melhor.
— Com você é sempre sim, Kiba. – Ela piscou antes de erguer a mão e ele riu, levantando o braço de uma vez só.
...
Continuou de pé frente aos outros sem mexer-se um centímetro sequer, seus olhos enxergavam tudo sem que precisasse direcionar o olhar para qualquer canto que fosse, e a escuridão nojenta daquela sala permitia que discrição para as veias saltadas em seu rosto. Sim, o Byakugan ativado em reunião como aquelas eram comuns. Neji gostava de ficar atento às conversas paralelas, porque eram nelas que as opiniões se revelavam, no entanto, não pôde evitar aquele olhar de soslaio que deu para sua prima.
Não.
Prima não.
Para a chefe do clã.
Hinata também tinha o byakugan ativado em sua expressão neutra, como sempre, e vê-la tão sóbria diante daquela conversa vulgar fez com que o sorriso brotasse no seu rosto sem que percebesse. Hinata era perfeita em suas linhas de expressão tão suaves, seus olhos eram preciosos demais para demonstrarem qualquer reação a pessoas que não mereciam sequer estar em sua presença, principalmente aquelas que se recusaram a entender sua posição perante a mulher mais importante de Konohagakure.
Sóbria, a mulher de longos cabelos escuros olhava firmemente para o comandante dos jounins, um homem medíocre que não merecia metade dos títulos que tinha, e que só provava ser indigno da posição que ocupava quando permitia a dois desqualificados falarem tantas asneiras sobre sua pessoa. Shikamaru era um promiscuo assim como Sakura e Kiba. Todos eles eram farinha do mesmo saco, e Neji desconfiava que a aliança de Konoha com Suna se mantinha apenas pelas visitas do shinobi à cama da Princesa da Areia.
Ele reprimiu um ruído de desagrado sem perceber sua expressão azeda transparecer na penumbra da sala de reuniões, caindo seu olhar para o assento do Hokage enquanto sua mente maquinava tudo aquilo que poderia ser feito por Konoha se Hinata pudesse sentar-se naquela almofada.
Konoha seria outra vila.
Mas ao invés disso estavam presos ao sistema ineficiente do Primeiro Hokage, que foi negligente em administrar a posição dos clãs perante a sociedade. Foi por isso que os Uchihas se revoltaram, e era por isso que os Hyuugas sofriam ao ter que carregar toda aquela vila nas costas enquanto ninjas de classe inferior ganhavam méritos em cima de seus feitos.
Enquanto Shikamaru falava de maneira indistinta sobre o abastecimento nos acampamentos volantes, Neji pensava em como tudo poderia ser diferente se fosse ele e Hinata como Comandante dos Jounins e Hokage.
...
Bocejou sem nenhum pudor ao riscar o penúltimo item da lista amassada que carregava consigo fazendo uma nota mental para não adiar tanto assim esse tipo de assembleia pelo bem de sua sanidade. Provavelmente já passava de meio dia, mas ele não podia dizer com certeza já que não havia nenhum relógio por perto ou janela que pudesse ver a posição do sol, sendo o roncar breve de sua barriga seu único indicativo de hora.
Olhou para o cinzeiro se perguntando se seria muito mal-educado acender outro cigarro, virou-se para frente para ver a dupla Hyuuga com a mesma cara de cu que sempre tinham antes de mirar o fundão, percebendo Kiba e Sakura praticamente se comendo com olhares. Senão tivesse ouvido a conversa anterior, Shikamaru até poderia se perguntar se eles finalmente estavam namorando oficialmente, mas provavelmente não era o caso.
Bem, ele não se importava.
Enfiou a mão no bolso e puxou aquele último com filtro junto ao isqueiro surrado que carregava por aí, tomando seu tempo para colocar o cigarro na boca antes de tentar cinco vezes até que a chama se acendesse. Deu uma tragada mais profunda enquanto ignorava o olhar de reprovação advindo de Neji e então, finalmente, voltou a falar.
— A última pauta do dia, é claro, fica reservada à promoção dos nossos chunins. – Ele anunciou sem muito entusiasmo — Para hoje, a capitã do time 13, Tenten, indicou oficialmente sua aluna, Yuhi Kurenai, para compor o quadro de jounins da Vila da Folha.
— Uh, finalmente a promissora vai ganhar a promoção dela. – Kiba soltou apoiando o braço sobre os ombros de Sakura.
— Qual a especialidade dela mesmo? – Sakura perguntou virando-se para Tenten, que abria espaço entre os colegas para se posicionar ao lado do comandante.
— Assim como você, rosinha, a Kurenai é boa de genjutsu.
— Ah, mas será que ela sabe mesmo como usar todo o potencial da arte da ilusão?
Kiba e Sakura sorriram um para o outro.
— Isso só você consegue. Inclusive, estou com saudades...
A pedido de Shikamaru, Tenten reforçou as habilidades de sua aluna para os presentes, destacando as aptidões técnicas que faziam de Kurenai uma excelente candidata ao posto de jounin, ressaltando também não haver mais nada que pudesse ensiná-la.
Não demorou para que Shikamaru assumisse a palavra novamente, finalmente abrindo a votação que deveria ser unanime para a efetivação da proposta.
Tenten foi a primeira a levantar a mão completamente animada, o olhar dela esbarrando no de Sakura que também levantou a mão junto a Kiba. Em seus olhares, havia aquela promessa de se encontrarem depois para beber um pouco naquele boteco que frequentavam quando mais jovens, e assim, num segundo, com a unanimidade dos braços erguidos, Shikamaru anunciava a efetivação da promoção de Yuhi Kurenai, a mais nova jounin da Folha.
Ver sua amiga com aquele sorriso orgulhoso fez com que Sakura lembrasse daquele dia fatídico em que retornaram para a Vila depois da conclusão de seu treino, ela e Tsunade. Nunca esqueceria da voz intensa de sua mestra exigindo uma reunião de emergência apenas para pôr em pauta a promoção de Sakura como jounin. O rosto da Sannin das Lesmas era puro orgulho, e Sakura conseguiu viver aquele momento com felicidade antes de pensar se Sakumo sentiria orgulho também.
... bem...
— E agora... Hatake Kakashi. – Shikamaru disse quase com um suspiro — Todos nós já sabemos de suas aptidões, então vamos começar logo a votação. Quem for a favor, por favor levante sua...
— Eu sou contra! – Sakura gritou apressada lá de trás.
O comandante maneou a cabeça sem importar-se com a interrupção, afinal, quanto mais cedo terminassem, mais cedo poderia ir almoçar. Ele tirou o cigarro da boca antes de voltar a falar:
— Então encerramos por hoje. Nos vemos daqui a-
— Posso saber o porquê?
...?
Shikamaru arqueou uma sobrancelha apenas na direção da voz que raramente se pronunciava em casos como aquele, enxergando até mesmo a expressão surpresa de Neji diante da fala de Hinata, que se mantinha com aquele ar indiferente, contrastando com as palavras ditas. O Nara tragou mais profundamente quando viu o verde nos olhos de Sakura cintilarem como quando se está prestes a entrar na mais aguardada das batalhas.
— É claro que pode, Hinata. – Ela disse sentindo a mão de Kiba escorregar pelo seu ombro, deixando de tocar sua pele por um instante. Certo... Kiba ainda estava ali, Sakura registrou engolindo seco antes de abrir sua boca novamente.
— É Hinata-sama para você. – Neji a corrigiu antes que a outra pudesse continuar. Sakura o olhou, mal contendo a vontade de rir que repentinamente lhe surgiu.
— É Hinata-sama para você, Neji, que é membro secundário da família e responde a sua matriarca, eu, no entanto, não devo formalidade alguma a ela.
O homem hesitou em sua expressão ofendida. Como ela podia desrespeitar sua posição e a posição de Hinata perante todos os jounins da Vila? E mais ainda, por que aquele cachorro ao lado dela estava se sentindo no direito de rir? Todos os pares de olhos naquela sala esperavam pela resposta do Hyuuga, que abriu a boca pronto para recuperar seu orgulho, mas que fora interrompido pelo toque modesto de Hinata em um sinal de que deveria se resignar.
Seu sangue fervia diante do deboche exibido naquele olhar esverdeado que a mulher de cabelos cor-de-rosa sustentava em sua face. Ele queria arrancar aquele sorriso dela, e era completamente capaz de fazê-lo, não fosse a ordem explícita que a líder de seu clã decretou no mais contido dos movimentos. Ele recuou, sem saída, enquanto a mulher de longos cabelos escuros se mantinha neutra.
A expressão dela era neutra, mas a palavra perdia o sentido diante da questão que era reforçada sem nenhuma hesitação por parte da mulher Hyuuga.
— Diga, Sakura.
E na mera ação de esperar por uma resposta, a neutralidade cultivada por anos era perdida, mas apenas Shikamaru parecia ter notado em sua repentina inquietude, tragando mais forte ao notar os olhares curiosos dos colegas que assistiam em silêncio na expectativa de... de o quê?
Qual era a expectativa e por que Nara Shikamaru se sentia tão urgente?
— Ele não está pronto. – Sakura se limitou a dizer sem desviar seu olhar dos perolados inexpressivos que a mirava.
— Você diz isso, mas tenho conhecimento das habilidades desse jovem ninja, e diante do baixo contingente militar da vila, devo pedir que reconsidere seu voto. – Hinata disse tão seca quanto um galho de uma árvore morta — Pelo bem de Konoha, precisamos de mais jounins em campo.
Sakura franziu o cenho com um sorriso no rosto numa expressão divertida de quem não está entendendo o porquê daquela fala. Sim, a mulher concordava que o contingente de Konoha estava baixo em relação às outras vilas, entretanto, isso poderia ser facilmente resolvido...
— Bem, então ao invés de mandar crianças para o campo de batalha, que tal você e seu primo pegarem algumas missões de verdade? – Sugeriu com visível deboche, sabendo que as condições da promoção de Hinata não foram por aptidão ou mérito. Hinata graduou-se de genin para jounin quando tinha apenas 14 anos, e nem sequer participou de um exame chunin na vida, tudo isso porque era inadmissível para o clã Hyuuga que sua líder fosse de patente inferior.
O fato de que a matriarca do clã mais importante de Konoha tinha a habilidade de um genin não era um segredo. Todos os presentes sabiam das articulações feitas para que a mulher pudesse crescer em patente sem ter sequer saído da Vila da Folha. O registro de missão de Hinata constava dezessete missões rank-D e uma rank-C, algo ridículo para um jounin formado, mas ninguém ousava dizer nada sobre isso, afinal... ela era A Hyuuga.
Hinata permaneceu calada por um segundo maior do que se é considerado aceitável para uma resposta indiferente, mas Shikamaru não conseguiu perceber nenhuma hesitação por parte da mulher, o que era estranho porque aquela austeridade somada a falta de expressão ia de encontro com todas as palavras ditas. Hyuuga Hinata jamais se incomodaria em levar sua melodiosa voz num caso tão desnecessário, e mesmo nas reuniões em que Naruto se mostrava contra a promoção do ninja, Hinata nunca se importou o suficiente para pedir a ele que reconsiderasse.
O Nara olhou para Kiba enquanto soltava fumaça pelo nariz, imaginando se o teor da conversa não-tão-privada de pouco antes tinha sido o suficiente para trazer Hinata de volta ao mundo dos vivos, afinal, mesmo que toda Konoha soubesse do relacionamento livre de Sakura e Kiba, ainda assim, Hinata não tinha como ver a dinâmica deles pessoalmente. Talvez tivesse sido uma surpresa para ela, mas no final das contas, Shikamaru não sabia.
Sequer Kiba sabia.
— Alguns de nós são mais valiosos na Vila, Sakura. – Hinata se limitou a dizer, ainda em seu tom polido. — E não muda o fato de que estamos precisando de mais ninjas para compor nosso contingente militar. Hatake Kakashi já tem feito coisas impressionantes segundo os relatórios, e creio que ele será um excelente reforço para a Konoha.
Sakura deixou escapar uma risada sem humor, a fala de Hinata ecoando em sua mente raivosa de novo e de novo. É claro que alguns eram mais valiosos na vila, mas não ela. A matriarca Hyuuga sequer merecia ser chamada de kunoichi dado suas habilidades que eram piores que a das crianças na academia, e a mulher de cabelos cor-de-rosa apostava que até mesmo Inojin poderia derrotá-la sem muito esforço.
A promoção de Kakashi estava fora de cogitação, e não porque não o achava capaz, mas porque havia decidido deixar isso por conta de Naruto, mas após o apelo da mulher que parecia ter saído direto de seu sarcófago para aquela reunião, Sakura tinha uma nova motivação para adiar a promoção do jovem ninja, e Kakashi que lhe desculpasse, porque aquela desculpa esfarrapada de estão faltando ninjas não descia pela sua garganta.
Isso não deveria ser um motivo para apressarem a promoção de todos aqueles adolescentes, ao contrário, deveriam focar no treinamento da futura geração e colocar os ninjas presos na vila para trabalharem. Hyuuga Neji, por mais arrogante que fosse, tinha poder suficiente para executar os mais diversos tipos de missões, assim como Aburame Shino que estava sendo desperdiçado na Academia Ninja, e o próprio Nara Shikamaru que não pegava missões que não fossem diplomáticas a anos, sem falar em...
... Era isso!
Sakura não conteve o sorriso repentino, levando a mão a boca como se tentasse esconder um segredo que de repente lhe fora revelado. Ela olhou para Shikamaru com seus olhos arregalados no vislumbre de uma nova ideia, algo que o Nara não conseguiu desvendar a tempo, pois logo ela estava mirando Inuzuka Kiba, que era especialista em ler as diversas expressões contidas nos olhos verdes da mulher. Kiba abriu aquele sorriso largo antes de passar a mão pelo queixo de maneira presunçosa, confirmando com a cabeça num gesto cumplice que não passou desapercebido por Shikamaru.
O que ela estava tramando?
— Shikamaru, o regimento ainda o mesmo de dois anos atrás?
O homem franziu o cenho antes de responder.
— Sim.
— Então ele não sofreu nenhuma alteração? – A mulher perguntou fazendo a animação escapar por cada palavra ansiosa daquela pergunta, mas o Nara continuava tentando desvendar o que diabos ela queria com aquela confirmação.
— Precisamente – Ele disse tirando o resto de cigarro da boca e jogando-o no chão sujo antes de pisar, sem importar-se com a higiene ou etiqueta, afinal, a única coisa que ele queria entender era o que estava prestes a acontecer.
Sakura se virou para Hinata com um sorriso esperto que não causou nenhuma reação na posição da mulher, ao passo que Neji já tinha o semblante irritado, provavelmente tentando prever o que vinha a seguir assim como o Nara fazia ao olhar para a mulher.
— Você alega que estamos com um déficit de pessoal, não é? – Sakura questionou Hinata sem conter aquela animação que surgia.
— Você é surda? Foi exatamente o que Hinata-sama disse! – Neji respondeu em sua voz mais irritada — Quer por escrito, ou..-
— Neji, eu não estou falando com você, e até onde eu lembro, Hinata sabe falar sozinha.
Não precisava ser nenhum bom leitor de pessoas para perceber a raiva transbordando através dos olhos perolados de Hyuuga Neji, que precisou novamente daquele toque contido de Hinata para recuar em seu ímpeto de fazer Sakura engolir a própria língua.
— Esqueceram da antirrábica do Neji. – Kiba ouviu alguém comentar e riu comedidamente, esperando Sakura conseguir todas as confirmações que precisava.
— Não, Sakura. Não sou eu quem alego. Há um déficit de pessoal qualificado em Konoha que precisamos repor com urgência.
Era tudo o que a kunoichi precisava ouvir.
— Ora, então eu tenho uma solução muito prática, minha cara Hinata. – E caminhou entre as pessoas na direção de Shikamaru, ficando à frente de todos aqueles ninjas curiosos que já esperavam algo digno de Haruno Sakura, porque ela nunca decepcionava. — Segundo o regimento, quando há um déficit de ninjas, então nós podemos abrir uma votação para resgatar ninjas em plena aptidão física que, por qualquer motivo, foram postos na reserva.
...
— Sakur- – Shikamaru chamou, de repente, muito urgente, mas a mulher apenas o olhou por um breve momento antes de continuar com as palavras que ele jamais pensou que um dia fosse escutar na vida.
— Eu proponho a reintegração de Yamanaka Ino à plena atividade do corpo ninja de Konoha.
Silêncio.
O ar denso cheirando ao fumo se propagou pesado entorno do Nara, que olhou para cada rosto presente, vendo a ideia se formar na mente de cada ninja e, de alguma forma, começar a ser aceita. Havia tantos amigos de Ino ali, tantas pessoas que foram contra aquela aposentadoria dela que Shikamaru teve a mais plena certeza de que, mesmo com a influência dos Hyuuga, se acontecesse uma votação, Ino seria reintegrada, afinal, só eram necessários trinta por cento de aprovação para que acontecesse.
O homem olhou para Hinata em busca de uma solução, e conseguiu ver, por um brevíssimo momento, o abalo pelas palavras de Sakura. É claro que ela faria isso, era óbvio que na primeira oportunidade ela tentaria fazer Ino volta a ativa, mas... Mas... Ele passou a mão pelo rosto com rapidez enquanto enfiava a mão no bolso em busca de mais um cigarro apenas para perceber que não havia sobrado mais nenhum.
— Eu voto sim! – Kiba gritou lá de trás, sorrindo para Sakura como se aquilo fosse algo deles. Algo único e precioso. Sakura sorriu para ele naquele mais bonito dos sorrisos.
— Eu também voto a favor! – As cabeças giraram para ver Tenten com sua mão erguida — Tá na hora de ela voltar a ativa, não acham?
Um burburinho começou com pessoas entrando em concordância com as palavras de Tenten, lembrando da época de ouro de Ino-Shika-Chō e de como as habilidades da família Yamanaka podiam mudar o jogo em diversa situações. Alguns ainda manifestaram receio pelo que aconteceu, outros apenas pareciam incertos em manifestar qualquer reação enquanto Hinata permanecia com seus olhos bem atentos a tudo.
Shikamaru engoliu seco com sua mente entrando em pane como nunca antes havia acontecido, e tudo o que ele mais desejava naquele momento, vendo Sakura andar pelas pessoas para buscar aquele abraço de Kiba, foi um único cigarro.
Apenas um.
— Você só pode estar de brincadeira – Neji riu de repente, fazendo o burburinho cessar. Sakura e Kiba, ainda naquele abraço de felicidade, giraram seus rostos para olhá-lo. — Você quer colocar a mulher que deixou um espião entrar na nossa vila para fazer parte do corpo militar, tendo acesso a informações privilegiadas? – Ele disse rindo — Quem garante que aquela vagabunda não trabalha pros Uchihas no lugar do namoradinho dela?
— Cuidado, Hyuuga, de como você fala da Ino – Sakura bradou apontando o dedo na direção dele.
— O único erro da Ino foi se apaixonar por um idiota – Kiba disse de repente, a voz mais alta e presente, sua expressão séria — Muitos aqui fizeram isso, o problema é que, no caso da Ino, o idiota não era um herói.
As palavras de Kiba ecoaram firme fazendo Sakura recuperar a compostura diante dos Hyuugas, não porque tinham sido suficientes, mas por fazê-la lembrar que estava lidando com muito mais coisas além do óbvio. Ela olhou para o homem de bochechas pintadas de vermelho vendo seu olhar se manter duro frente aos perolados da mulher que não demonstrava nada para ninguém exceto para o próprio Kiba.
— Além disso, já faz anos que isso aconteceu, e se ela estivesse mesmo trabalhando pro inimigo, então muita coisa já teria vazado, afinal, não tem ninguém que consiga resistir ao jutsu dela. Ela é a Yamanaka mais forte. Nem o pai dela conseguiu usar o jutsu do clã com a eficiência dela. – Tenten se pronunciava de maneira mais branda, recebendo o olhar nervoso do antigo companheiro de time com indiferença.
— Isso é ridículo! — Neji praguejou em irritação, virando-se para Shikamaru numa obvia exigência — Você é o Comandante, impeça isso!
Os olhos se voltaram para o shinobi em verde escuro que buscava desesperadamente uma maneira de invalidar todas as palavras de Sakura, mas a filha da puta tinha conseguido cobrir todos os pontos, e nem mesmo o próprio Hokage poderia interferir numa proposta baseada no regimento, sendo sua última alternativa a votação que obviamente perderia se acontecesse naquele momento.
Ele olhou para Neji e depois para Hinata logo ao lado antes de virar-se para ver os olhos verdes de Haruno Sakura que lhe miravam de volta com uma confiança estranha, como se estivesse formando uma cumplicidade que jamais existiria.
E tudo o que ele queria era a porra de um cigarro.
— De acordo com o regimento, a proposta apresentada é colocada para votação na assembleia seguinte – Ele disse de maneira apressada, a mão ainda no bolso procurando o menor sinal de qualquer cigarro ali — Por hoje, a reunião está encerrada.
Seu rosto tempestuoso fez Sakura franzir o cenho sem confusão, notando que talvez ele não tivesse gostado muito da ideia de ter Ino de volta a ativa, mas talvez fosse outra coisa, ela pensou poucos segundos antes do apressado Nara, em seus passos largos, alcançá-la ainda no salão.
— Na minha sala agora.
Shikamaru não esperou uma resposta e sua expressão dizia, de maneira muito clara, que Sakura não deveria ignorar tal ordem, mas a mulher apenas arqueou ambas as sobrancelhas antes que ele lhe desse as costas em sua irritação e saísse da sala como uma panela de pressão prestes a explodir. Sakura olhou para Kiba, que a olhou de volta com suas sobrancelhas franzidas de um jeito cômico, ambos segurando a risada que inevitavelmente escapou num eco conjunto.
A mão feminina foi à própria boca quando a dupla Hyuuga se dirigiu a saída. Neji não os olhou, apesar de sua aura irritadiça também exalar um desprezo na direção do casal, enquanto que Hinata apenas fingiu que o mundo ao seu redor não existia, passando direto pela porta com sua postura perfeita de alguém que evitava se mexer desnecessariamente.
Kiba enfiou as mãos no bolso acompanhando a saída deles com o olhar diferente, a sensação de riso quase lhe escapava quando mirava a indiferença no rosto da mulher que um dia ele tanto amou. Aquela não era a Hinata que ele conheceu, não era sua companheira de time, não era sua amiga, sequer sua conhecida. Aquela mulher era uma fração do que um dia foi a menina que ele conheceu, e às vezes Kiba precisava repetir tudo isso em sua mente para que, quando o olhar dela hesitasse diante do seu, ele soubesse que era tudo mentira.
Ele virou-se para Sakura em seguida, o ar relaxado surgindo no olhar travesso que se espalhava por aquele repuxar do canto de sua boca. O sorriso torto surgiu ao ver Sakura fazer aquela cara preocupada, como se Hinata ainda tivesse algum tipo de poder sobre o humor do homem apenas por se fazer presente numa sala, por isso Kiba não teve pressa naquele silêncio breve que se fez entre ele e Sakura, que se desfez com uma careta da moça seguido dos velhos desaforos de sempre.
— Eu ainda vou ter o prazer de ver ela cair de cara no chão depois de tropeçar nessa tapeçaria que ela chama de roupa.
Não segurou a breve risada que seguiu, porque Sakura sempre parecia ter só dez anos quando começava a fazer esse tipo de comentário tão infantil.
— Se você não for atrás do Nara, vai acabar nunca realizando esse teu sonho. – Comentou com aquele sorriso zombeteiro — Que bicho será que mordeu ele?
Sakura fez uma careta.
— Será que ele não gostou da minha proposta para a próxima reunião? – Ela perguntou visivelmente confusa — Não faz sentido se for isso.
— Talvez ele esteja irritado com a nossa conversinha. – Kiba piscou — Nós dois sabemos que ele tava prestando atenção em tudo.
A mulher simulou inocência e Kiba apenas riu negando com a cabeça.
— Eu não disse nada demais.
— Você nunca diz nada, né rosinha? – O outro debochou sem muita pretensão.
— Se ele ficou irritado com tão pouco, é porque o ego masculino é muito frágil. Digo, a gente não disse nada de mais... Ele deve tá puto por outra coisa.
— Bem, você bateu boca com os bibelôs de Konoha, né? Toda vez que isso acontece, é ele quem tem que resolver o pepino.
Ela revirou os olhos com exagero.
— É só mandar eles se foderem.
— Acho que ele ainda não aprendeu essa técnica diplomática – O outro disse com uma risada antes do olhar dela se parar no dele com cumplicidade.
Naquele breve momento, Sakura reviveu as palavras ditas na reunião e a possibilidade do retorno de Ino a fazia ficar agitada. Não conteve o sorriso que a pegou em apenas dois segundos, quase pulando de ansiedade diante de um Inuzuka Kiba contagiado por aquela energia bizarramente alegre que Sakura emanava. Ela era meio que como uma criança às vezes, mostrando essa expressão animada antes de se jogar de novo nos seus braços para um daqueles abraços apertados enquanto dizia, naquela voz de quem segura um grito, que a Ino iria voltar.
Ele não podia negar que a possibilidade de ter Yamanaka Ino de volta à ativa também a animava. Tudo o que ocorreu naquela época tinha sido injusto com a mulher, que não fez nada além de confiar seus sentimentos a alguém que definitivamente não merecia, e mais doloroso ainda foi o olhar azulado inundado em lágrimas salgadas ao ver Hinata sentenciá-la à reclusão ninja.
Ino nunca se sentiu tão traída, ele sabia. Nem mesmo o pai de Inojin tinha sido capaz de fazê-la se sentir tão enganada quanto o voto da sua velha amiga Hinata, que já havia se tornado essa mulher sem coração que todos conheciam, mas como sempre, Ino tinha essa coisa com seus amigos, preservando laços, amor positivo... e foi isso que a levou para a pior traição de sua vida.
A pior decepção.
— Eu tô doida pra contar pra ela! – Sakura disse mal se aguentando, e Kiba riu daquela felicidade compartilhada.
— Eu sei, e eu quero estar junto, ok? Então depois que falar com o Nara, passa lá em casa e a gente vai junto, certo?
— Eh? Você não vai me esperar?
— Eu vou é comprar saquê. – Ele sorriu torto e Sakura abriu um sorriso ainda maior.
— Tá! Boa ideia! Eu te vejo daqui a pouco! — Ela disse antes de se empertigar para dar beijo apertado naquela boca desavisada e finalmente partir com destino ao irritado Shikamaru.
Kiba deu uma breve risada antes de, com seus passos vagarosos, se encaminhar para fora da sala, vendo Sakura no final do corredor olhar para trás e acenar com uma animação preciosa demais. Ele piscou para ela sentindo que, é, o dia estava excelente. Apesar dos contratempos, definitivamente aquele dia podia ser classificado como um dia para ser aproveitado.
Continuou seu caminho sem nenhuma pressa pelos corredores apertados da Torre Hokage, às vezes esbarrando em algum funcionário desavisado que surgia abarrotado de papéis. Ele não invejava trabalho burocrático, por isso tinha recusado sumariamente aquele cargo na delegacia, que se resumia a preencher formulários e mais formulários. Kiba gostava de ação, mas não todo tipo, por isso ele se contentava com suas missões Rank B, que rendiam o suficiente para se sustentar, não exigiam tanto, e geralmente não duravam tanto tempo.
A verdade é que, em algum momento de sua vida, Kiba começou a jogar numa zona segura nos diversos aspectos da sua vida, e não que ele tivesse medo de assumir riscos, mas havia algo dentro dele que media o que valia e o que não valia a pena, principalmente na vida ninja, por isso pegar missões menos complicadas soava bem aos seus ouvidos. Ele conseguia pagar as contas, não lhe faltava nada, e... bem... ele continuava vivo e com saúde, o que já era algo grande tendo em vista tudo o que aconteceu em sua vida.
No entanto, em sua vida pessoal, essa medida era um tanto mais complexa tendo em vista toda sua trajetória amorosa com a moça que, quando o via, fingia que nunca o tinha conhecido, quando na verdade gemia seu nome num implorar tortuoso por mais. Toda vez que esbarrava em Hinata, Kiba tinha que relembrar que aquela mulher de anos atrás – a mulher por quem ele foi apaixonado – já não mais existia, e tudo o que seus olhos viam era uma casca vazia.
Uma casca que provocava algo nele.
Com as mãos nos bolsos, ele iniciou o descer de escadas em direção ao segundo andar do prédio fedido, local de muitas salas de reuniões. As paredes cor creme eram encardidas pela falta de manutenção, e ele até conseguia ver os reparos malfeitos nas colunas de madeira que seguraram algumas shurikens e jutsus agressivos. Bem, nenhum prédio passou por uma reforma desde o Golpe dos Uchihas, o que resultou em vários reparos apressados, que serviam como uma metáfora para como Konoha lidava com seus problemas.
Escondendo-os.
Pelo cheiro úmido que invadiu suas narinas, Kiba soube que alguma sala por ali estava sofrendo com uma infiltração, mas não era problema seu. Ele continuou descendo degrau por degrau, entrando no corredor curvo do segundo andar para alcançar a outra extremidade. Era um prédio muito mal dividido na sua opinião, mas novamente não era seu problema. Bocejou na metade do corredor antes de dar um sorrisinho de canto ao lembrar dos pulinhos mal contidos de Haruno Sakura em sua excitação pela possibilidade da volta de Ino.
É, ele meio que gostava daquele sorriso.
Na verdade, a presença de Sakura lhe era benéfica em diversos aspectos, e era estranho pensar que nunca foram tão amigos antes de se unirem pela tragicidade de seus romances, sem isso, eles não tinham muita coisa em comum além de serem ninjas e estudarem na mesma sala quando alunos da academia. Naquela época, Sakura era uma órfã turrona e fedida, que não parecia muito inclinada a fazer amizade, e ele não se importava o suficiente para notar os óbvios motivos por trás de um comportamento mais arredio.
Ele não tinha nada para conversar com ela, e por muito tempo foi dessa maneira, mas ouvia falar dela aqui e ali, primeiro por sua irmã, que comentou ter dado dicas de como iniciar os estudos sobre ninjútsu médico à menina que nunca sequer pensou que seria a maior iryō-nin de sua geração, depois Naruto não parava de falar nela e no Sasuke, e aí teve o golpe, a saída dela da Vila junto a Senju Tsunade, a fama enquanto One Punch Sakura, e o retorno para casa juntamente ao pseudo-casamento com Uchiha Shisui, o único Uchiha para quem as pessoas nunca viravam a cara.
Nesse tempo, Kiba não se importava com ela. Sakura era só a companheira de turma que deu certo na vida e esfregou na cara de todos que o pedigree não determina sua eficiência enquanto ninja, e mais que isso, ela parecia ser algum tipo de lenda salvadora que era casada com outra lenda salvadora, enquanto que ele ainda morava na casa da mãe, pegava missões não-tão-complicadas e tinha que se esgueirar no meio do distrito Hyuuga – lidando com todos os byakugans possíveis – para poder ter cinco minutos com a líder do clã que parecia não mandar em nada efetivamente.
Afinal, era inadmissível que Hyuuga Hinata tivesse um romance com um vira-lata como ele.
A líder do mais importante clã de Konoha jamais poderia sujar sua castidade com alguém inferior como ele, sem importância. E daí que foram os Inuzukas que colaboraram para a coleta de informação sobre a movimentação dos Uchihas nos prédios públicos? E daí que foram seus cães que conseguiram localizar os Sanins Lendários? E daí que ele passou quase vinte-e-quatro horas em um buraco com Hinata para protegê-la naquela retaliação que resultou na perda dos olhos de Hanabi?
E daí?
Ninguém lembrava dessas coisas.
Sua kekkei genkai* nem era tão chique assim, com olhos coloridos que enxergam além do alcance... não... sua transformação só evidenciava o chakra sujo do clã corrompido – nas palavras do saudoso Hyuuga Neji. Nada nele era digno de Hyuuga Hinata, a herdeira de Hyuuga Hiashi, herói de Konoha, e em algum momento a própria Hinata pareceu começar a acreditar naquilo.
Na verdade, talvez sempre tenha acreditado.
Ele não sabia.
Não importava.
— Kiba, podemos conversar?
Mas não pôde negar a surpresa desagradável ao vê-la, depois de tanto tempo, abrir a porta de uma daquelas salas na Torre e dizer aquelas palavras num desprovimento completo de emoção. Houve um tempo em que ela apenas o içaria para dentro e o jogaria contra a primeira parede para, em seu romance clandestino, aproveitarem a situação, mas ali, diante dos olhos perolados sem expressão, Kiba apenas deixou aquela careta escapar sem nenhum remorso.
— Não.
Disse virando o rosto, as mãos nos bolsos, pronto para continuar seu caminho, mas a mão delicada da moça tocou seu braço num segurar breve. Ele olhou para os dedos brancos demais antes de subir seu olhar para o rosto da mulher que tentava manter sua neutralidade, mas Kiba conseguia enxergar bem a resistência por trás daqueles olhos.
— Eu insisto.
...
Ela removeu o toque breve, retornando a sua posição em uma postura perfeita e ele, com um suspirou, acabou girando seu corpo naquele gesto relaxado demais, entrando na sala logo após ela abrir passagem. Era uma sala modéstia, com uma janela mais larga, uma mesa de madeira e estantes com arquivos e mais arquivos. Ele nunca tinha estado ali, mas era quase uma cópia perfeita da sala de Nara Shikamaru no andar superior.
Coçou a barba olhando para todos os cantos sem muita discrição, e então finalmente se virou para a figura feminina prostrada como uma estátua de tão alinhada em suas vestes mais escuras que o céu noturno. Eles se encararam por um momento sem dizer absolutamente nada, talvez medindo o clima estranho naquela sala vazia.
O que ela queria afinal de contas? Fazia anos que não ficavam na mesma sala sozinhos, anos que ela sequer lhe dirigia a palavra, então o que teria acontecido para que ela do nada quisesse falar com ele pessoalmente e sem a presença de Neji?
Se pudesse apostar, diria que o motivo daquela reunião informal tinha um belo rabo, pernas de tirar o fôlego e lindos olhos verdes.
— Cadê teu cão de guarda? – Ele perguntou, a voz largada, o olhar indiferente... Era quase como se não quisesse saber de verdade e estivesse apenas registrando que sentia falta da presença de Neji.
— Neji deve estar na sala do Hokage neste momento. – Ela respondeu com seu tom de voz habitualmente neutro — A assembleia de hoje lhe causou certa consternação.
— Consternação – Kiba repetiu com uma risada. — Certo, então posso presumir que essa nossa conversa não é de conhecimento dele...?
— Precisamente. – Disse em resposta — É melhor que ninguém tenha conhecimento do que vou lhe pedir aqui.
Ele concordou com a cabeça, uma sobrancelha arqueada... Não podia negar a curiosidade em saber o que diabos Hinata queria depois de tanto tempo e o que causou essa urgência em falar com ele, porque, sim, quando ela o solicitava numa sala de maneira tão sorrateira, então havia algo muito urgente que ela precisava tratar.
— Ok, e o que você quer me pedir? – Perguntou de uma vez.
— Que faça Sakura recuar.
Kiba riu.
— O quê? Eu escutei direito? Você quer que eu...? Que eu o quê?
— Que você convença Sakura de que a proposta dela para a próxima reunião é um erro.
Novamente, a risada de Kiba escapou antes que ele sequer pudesse tentar reprimi-la, mas ali estava Hinata em sua pose inabalável, ainda com a postura tão exemplar que nem parecia humana. Ele riu em deboche, passando a mão nos cabelos com a piada mais estranha que poderia escutar naquele dia, de repente, esquisito.
— Você só pode tá brincando com a minha cara de novo. – O homem resmungou com um humor sarcástico, surpreso pelo pedido tão ridículo.
— Há muito mais em jogo do que você imagina, Kiba. – Ela respondeu em sua voz austera, a pose tão neutra que nem parecia que estava fazendo um pedido de verdade. — É imperativo que Sakura desista dessa ideia, ou que, no mínimo, você não a apoie.
...?
O quê?
Kiba estreitou os olhos para a mulher a sua frente, ainda processando as palavras dela na tentativa de compreender o que diabos ela queria com aquela conversa completamente desnecessária, tendo em vista que ele jamais deixaria de apoiar Sakura em qualquer que fosse a empreitada em que ela se metesse, e mais ainda, jamais iria contra a possibilidade de Ino retornar ao mundo ninja de maneira plena.
Ele nunca faria isso.
De repente, Inuzuka Kiba quis gritar com aquela casca oca que o olhava tão desprovida de qualquer significado, e que usava a figura de seu antigo amor para pedir algo tão chulo, emboscando-o numa sala qualquer como se fosse ser o suficiente para que ele, em nome do saudosismo, aceitasse o mais indecoroso dos pedidos depois de anos sem sequer dirigir-lhe um olhar.
Dessa vez, Kiba não riu. A expressão do homem era dura, seu olhar irritado contendo o rancor dos anos que se seguiram, perguntando-se por que diabos não tinha passado reto e fingindo que aquele pedido de conversa jamais tinha existido, mas a curiosidade foi maior, e como sempre, a única coisa que sobrava em quando se tratava dele e de Hinata era arrependimento.
— Já terminou? – Ele perguntou sem nenhuma tentativa de não soar afetado e a viu, por um milésimo de segundo, recuar.
— Você...?
— Eu o quê? – Ele interrompeu dando os ombros sem nenhuma paciência para a voz distante da mulher a sua frente — Já ouvi o seu pedido, agora preciso sair dessa sala e comprar uma garrafa de saquê, dessas bem caras, para tomar mais tarde com Ino e Sakura.
— Kiba, eu não pediria isso a você se não fosse de extrema importância.
Ele não queria se iludir, mas parecia que aquela mulher a sua frente vacilava em uma voz um tanto mais urgente, menos vazia. O homem estreitou seus olhos fazendo uma expressão confusa de alguém já sofrido demais para crer em mudanças repentinas, ou ferido demais para acreditar que ela pudesse, de alguma forma, ainda se importar.
— E qual a importância de manter Ino longe da vida ninja? – Ele perguntou curioso, dando uma única oportunidade para que a mulher colocasse as cartas na mesa — Por que você está me pedindo isso?
Os olhos perolados arderam por um segundo, ele percebeu, naquele hesitar de quem reluta em seus próprios pensamentos.
— Hina, ainda sou eu... Você ainda pode confiar em mim.
...
Ela abriu a boca com um tremor hesitante, os olhos presos nos dele que sérios, mantinham suas palavras firmes e ele soube que Hinata queria contar, mas então seus lábios se selaram e os olhos esquivaram para um canto qualquer.
— Eu não posso dizer.
Kiba soltou o ar com uma risada amarga antes de passar a mão nos cabelos castanhos.
— É claro que não pode – resmungou antes de suspirar para recuperar sua compostura — Hyuuga Hinata não confia em ninguém além de si mesma, não é? – Ele continuou naquele tom falsamente indiferente.
A mulher o olhou pelo canto dos olhos, subindo o olhar como quem, de alguma forma, se desculpa timidamente.
— Eu confiei em você vindo aqui, isso não é o suficiente? – Questionou naquele tom de voz mais baixo, mais envergonhado, e Kiba sabia que ela mal conseguia sustentar aquele olhar no dele.
— Você não confiou, Hinata, você se arriscou. É diferente. – Ele disse quase didático, as mãos nos bolos inquietas, o olhar endurecido. Kiba a fitou por um momento mais longo, ela incapaz de dizer qualquer outra palavra, e de repente, o viu soltar uma dessas risadas antes de desviar seu olhar, completando com um resmungo — E depois de todos esses anos, é pra isso que eu sirvo.
— Se fosse sua preciosa Sakura, você não se importaria com a falta de motivos. – A voz dela surgiu de repente por cima do resmungo do homem, como se quisesse atacar uma reclamação com outra. Ele arqueou a sobrancelha para ela ao perceber o tom de voz quase afetado por baixo daquela pose e nesse momento, Kiba só conseguiu pensar em uma resposta para aquilo.
— Se fosse minha preciosa Sakura, eu saberia os motivos sem nem mesmo precisar perguntar.
...
Os olhares se mantiveram firmes um no outro, Hinata titubeando em seu semblante neutro, e parte dele soube que toda a distância estabelecida por ela era justamente porque diante dele, as máscaras caiam mais rápido do que ela podia prever, mas ele não se importou.
Ao invés disso, Kiba suspirou dando passos na direção da porta, porque não havia mais o que ser dito, e quando sua mão alcançou a maçaneta, sentiu o toque da moça em sua pele. Os dedos longos em pura porcelana apertavam sua pele maltratada pela vida produzindo uma sensação esquisita de queimor, como se aquele toque fosse presente demais, mesmo que mínimo. O homem ergueu a cabeça para vê-la mais perto do que gostaria, seus rostos sérios se encararam num clima conflituoso.
Novamente, os lábios dela entreabriram numa tentativa falha de dizer-lhe alguma coisa, mas Kiba já não queria mais ouvir. Ele se sentia tão cansado daquele drama e de toda a empáfia do clã heróico de Konoha... Sua cota de conflitos com Hyuugas já havia sido estourada há muito tempo, ao passo que nem aquele olhar que ela o dava conseguia fazê-lo fraquejar em sua saída.
A mão masculina pousou sobre a da mulher com cuidado, mas apenas para desfazer aquele aperto de seus dedos. Hinata não valia a pena, sua mãe já dizia em outras épocas.
— Cuidado, princesa, ou sua mão pode cair ao tocar a plebe.
Sem esperar uma resposta, o homem fez seu caminho para fora daquela sala, os passos firmes ecoando no som da sola emborrachada em contato com o chão polido, ouvindo o fechar da porta com um bater contido sem saber se a mulher tinha resolvido ficar ou ir embora, mas não fazia diferença, afinal, o que ela fazia ou deixava de fazer já não lhe afetava mais.
Assobiou uma canção que ouviu durante uma viagem de barco para o país das ondas enquanto descia as escadas com a cabeça erguida, tentando esvair a torrente de sentimentos que de repente se misturavam dentro de si, e ele sabia bem aonde chegaria caso insistisse em reviver todo aquele caos que o acometeu depois de um término conturbado, então ele se apegou àquela canção e à missão de comprar o melhor dos saquês, torcendo para que Sakura não se demorasse muito.
Bem, ao menos com ele, ela nunca se atrasou.
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Nervoso era uma palavra muito simples para descrever o estado de urgência com que Nara Shikamaru andava pelos corredores até sua sala. Nem mesmo sua secretária pessoal ousou cumprimentá-lo quando o viu passar reto pela porta, fechando-a com um bater mais forte do que o habitual. Lá dentro, ele vasculhou as gavetas sem se importar em bagunçar toda a sua arrumação pouco metódica dos itens, procurando incansavelmente por aquele maço de cigarro que escondia por ali.
Uma caneta caiu no chão junto com o tinteiro, derrubou também aquela caixa com clipes de papel, e enquanto enfiava a mão lá no fundo, se cortou com aquela ferramenta esquisita que tinha a única função de remover grampos de papel, mas não se importou com o barulho, nem mesmo com a sujeira em seu chão recém limpo. Não. Nara Shikamaru queria apenas encontrar um misero cigarro para conseguir, de alguma forma, clarear sua mente e pensar em um plano de contingência para a merda que Sakura havia feito minutos atrás.
Ele revirou os papéis em sua mesa, puxou alguns arquivos nas estantes, tateou com urgência nas prateleiras mais altas e empoeiradas apenas para se frustrar cada vez mais com a sua incapacidade de achar a merda de um cigarro! Olhou para o cinzeiro e por um segundo se passou em sua mente se não poderia fumar uma bituca, mas aquilo já estava se tornando um descontrole total.
Passou a mão pelos cabelos desarrumando seu amarrar preciso, tirou a liga que os prendia e deixou sobre a mesa completamente desorganizada por seu surto. Com a mão apoiada, e o olhar fixo em uma mancha na parede próxima à porta, Shikamaru tensionava seu maxilar numa mordida furiosa ao reviver cada segundo daquela reunião de merda que havia acontecido, se perguntando o que ele achou que aconteceria quando colocasse Hinata e Sakura no mesmo espaço.
Imbecil!
Gritou mentalmente, refletindo num sussurrar raivoso que escapava de seus lábios, as mãos se fechando em punhos enquanto imaginava todas as consequências daquela proposta de Haruno Sakura em seus surtos de justiceira. Ele devia ter dito a Naruto que era um erro tê-la de volta na vila. Devia ter dito ao Hokage que aquela mulher era um perigo para todos, e assim como Jiraya e Tsunade, estava melhor a quilômetros de distância.
Mas não... Nara Shikamaru achou que fosse uma boa ideia trazê-la de volta, não só pela segurança da vila, mas também por Ino, que estava prestes a lidar com duas bombas, afinal, seu sobrinho certamente não havia se contentado com a resposta medíocre que deu sobre sua paternidade, fazendo um discurso sobre como o importante é quem você quer ser, e não suas origens.
Ninguém se contentaria com essa merda de conversa fiada, principalmente alguém que tinha herdado toda a expertise de uma mulher que conseguia desvendar os maiores mistérios com apenas um olhar, mas Shikamaru realmente queria poupar sua mais antiga e importante amiga, sua única família, de ter que lidar com a grande questão de Yamanaka Inojin.
Nem conseguiu dizer a ela que o moleque havia lhe feito tal pergunta tão assustadora, também não conseguiu passar mais de quinze minutos disfarçando. Estava fumando mais, bebendo mais, e até mesmo comendo mais. Estava ansioso. Todas as vezes que olhava nos azuis dos olhos de Inojin, era como se ele sentisse a ameaça surgindo numa simples sentença: ou você me conta, ou eu pergunto a ela.
Céus...
Não era algo com que ele estava apto a lidar, principalmente porque era Ino quem devia respondê-lo, mas ao mesmo tempo, seria tão ruim que ele tivesse essa conversa com seu amado sobrinho? Seria complicado demais dizer-lhe que seu pai foi o homem que mais trouxe risco a uma vila acabada pela tentativa de golpe militar? Que o homem por quem Ino foi apaixonada era um espião sórdido que apenas trouxe desgraça e desconfiança? Que por causa disso, hoje Ino não tinha um reconhecimento sequer por todos os feitos?
E como se não bastasse, agora Shikamaru tinha que lidar com os riscos de ter Ino voltando à ativa como kunoichi de Konoha.
Bateu na mesa com o punho cerrado em sua fúria que se intensificava a cada instante com os pensamentos copiosos de que não havia o que fazer, e tudo o que ele mais precisava era da porra de um simples cigarro.
— Shikamaru?
A porta se abriu e Sakura estava lá, de pé, como se não fizesse ideia do porquê de seu nervosismo. Aquela carinha confusa, quase inocente, o fazia querer gritar com ela a plenos pulmões apenas para tentar fazê-la entender a merda que tinha feito apenas por dizer o nome de Ino naquela merda de reunião!
— Você faz alguma ideia da merda que você fez? – Ele perguntou, os olhos arregalados em sua raiva.
— ... ? Eu... – Sakura hesitou sem saber ao certo do que exatamente estavam falando — Acho que não estou compreendendo muito bem...
— É claro! A única coisa que você entende é de como encher o cu com pílulas do soldado e matar pessoas!
A mulher arregalou os olhos num recuar surpreso pelo ataque gratuito que estava recebendo e por um momento até quis rir sem saber se era de puro nervosismo repentino ou por qualquer outro motivo.
— Wow... – Ela levantou as mãos em sinal de paz — Eu acho que você não está em condições de ter uma conversa.
— Vai se foder, Sakura! – Ele disparou — Você tem noção do transtorno que você vai causar com essa... essa... coisa impulsiva de ter Ino de volta ao corpo ninja?! Você já parou para pensar nas consequências disso para a Ino?
Ela franziu o cenho confusa. Toda a linguagem corporal de Nara Shikamaru era de alguém pronto para quebrar tudo o que visse pela frente, incluindo a própria Sakura, mas isso não a deteve, porque nada fazia sentido na fala do homem.
— Eu tô cagando se você vai ter que lidar com choro de Hyuuga – Ela rebateu colocando a mão na cintura em visível deboche — É ridículo pensar que você podia ter feito isso há muito mais tempo, mas se segurava para não ter que lidar com a ladainha do Neji.
Shikamaru riu em escárnio antes de sua expressão voltar a ficar enfurecida. Como Sakura poderia dizer aquelas coisas sem nem mesmo entender com o que estava lidando? Hyuugas? Ela não sabia de metade da influência que eles tinham sobre os Lordes Feudais.
— Não venha com essa conversa pra cima de mim, como se eu não me importasse com a Ino, porque tudo o que eu fiz foi para protegê-la! – O homem mantinha sua voz elevada, batendo na mesa ao final da fala com seus olhos irritados.
— Cala a boca, Shikamaru! – A mulher rebateu com uma expressão de nojo — Você não fez absolutamente nada e deixou essa situação avançar até o ponto que só restou à Ino se contentar com uma vida medíocre!
— Eu mantive ela a salvo todos esses anos! Eu estive do lado dela em todos os momentos! Eu tava aqui quando tudo aconteceu, enquanto você tava mundo afora se entupindo de pílula do soldado a ponto de sequer lembrar o próprio nome! Você não sabe de nada! É só uma garotinha egoísta que acha que entende das coisas, mas você já parou para pensar se a Ino quer isso?! Já parou para perguntar a ela se ela quer voltar?
A ferida cutucada sangrava cascatas dentro da kunoichi, que não podia negar não ter estado ao lado de Ino quando esta mais precisou. Naquela época, Sakura já estava na ANBU como uma kunoichi de alto nível, e Shikamaru tinha razão em suas palavras, porque ela já não ficava sem as pílulas naquele tempo. Foi só quando retornou de uma invasão em Kirigakure, que Sakura tomou conhecimento da gravidez de Ino, e também de toda a situação sobre isso.
Ino, é claro, jamais a culpou por não ter estado lá, mas Sakura sentia como se fosse mais uma falha na sua lista imensa, uma que nunca foi jogada na sua cara como naquele momento, e como todo animal acuado, Sakura optou pelo ataque.
— E de que serviu estar todos esses anos com ela se você é incapaz de confiar nela? Você é o pior de todos, Shikamaru! Se escondendo atrás dessa pose de protetor quando na verdade é apenas um covarde que remediou a situação para evitar ter trabalho!
— Covarde... – Ele repetiu com uma risada.
— Sim! Um covarde que tá aí se convencendo que fez isso tudo por ela, mas a verdade é bem clara: Você não tem coragem, e tenta tirar a dela! — Gritou se aproximando dele — Tá se achando o protetor quando na verdade Ino nunca precisou de alguém que a protegesse, mas sim de alguém que a apoiasse, e essa pessoa obviamente nunca foi você!
— E você a apoiou muito, não é, Sakura? Ir no distrito Hyuuga e ameaçar todos eles é uma grande forma de apoio!
— Foi muito mais do que você fez em toda a sua vida, e você sabe disso.
Eles se encararam com o ar tenso envolta deles, os olhos de Shikamaru em fúria ao verem os verdes ardendo em sua certeza esquisita, porque aquela mulher era desse jeito, briguenta e encrenqueira, mas tudo soava tão honesto que nada parecia refutar suas palavras, principalmente quando cutucavam aquela ferida que nunca sarou nele.
— Desista dessa merda – Ele disse em tom de ameaça — Não me importa o que você ache de mim, eu só quero que você recue nessa sua proposta de merda na próxima reunião.
— Vai se foder.
A voz baixa dela se projetou no espaço mínimo entre eles, e foi a gota d'água para seu temperamento. Num momento impensado, ele estava com a mão na nuca dela, os lábios próximos ao ouvido da moça enquanto suas sombras se mesclavam como uma só. Sakura sentiu seu corpo travar, podendo abrir e fechar sua boca, piscar e ouvir aquelas palavras sorrateiras de quem está pronto para usar qualquer carta que tivesse.
Não que ele a conhecesse muito bem, mas a verdade é que a história de Sakura não era nenhum segredo, e ele acabava ficando um degrau mais próximo de tudo por conta de Ino, que às vezes lhe falava da amiga tão sofrida. Bastavam algumas palavras, ele sabia, para quebrar aquele espírito, e era tudo o que ele precisava naquele momento.
— Não tá cansada de perder as pessoas, Sakura? Se elas não morrem, como foi com seus pais e Sakumo, elas te abandonam, como Shisui e Sasuke. As únicas pessoas que te suportam são aquelas que você abandonou, porque sabe que mais cedo ou mais tarde vai fazer alguma merda e cagar tudo.
— Shikamaru – Ela disse em seu tom moderado, a voz tremula pelo esforço em articular as palavras — Eu vou te dar uma única oportunidade de me soltar antes que eu coloque esse prédio abaixo junto com seus ossos.
— É só isso que você sabe fazer, não é? Destruir coisas e ma- – O homem parou sua frase no meio quando o brilho na testa da mulher se projetou intenso, as linhas negras percorrendo seu corpo a partir do selo liberado. Shikamaru hesitou quando sentiu sua sombra enfraquecer diante da força bruta que o chakra liberado provia a mulher, e nos olhos verdes, ele soube que não era uma ameaça vazia.
Desfez seu jutsu.
— Tá vendo? – A mulher disse refazendo o selo em sua testa — Um covarde. – E então se virou sem hesitar, saindo pela porta com um bater moderado, que o irritou ainda mais.
Shikamaru socou a parede assim que a viu sair, as palavras dela ecoando em sua mente conturbada em vergonha, arrependimento e desespero, mas ele estava disposto a lidar com tudo isso desde que pudesse, de alguma forma, garantir que não perderia mais ninguém, afinal, assim como Sakura, Shikamaru tinha certa experiência em perder pessoas.
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Após fechar a porta, Sakura escapou daquele lugar como se todos os seus demônios a estivesse perseguindo. Não parou por um só instante de correr, não cumprimentou qualquer pessoa que cruzou seu caminho, não percebeu o chão que pisava ou o sol não-tão-forte em sua pele... Sakura apenas correu em velocidade, saindo do prédio em direção a nenhum lugar específico enquanto sua mente fervia diante de todas as coisas ditas.
As lágrimas brotavam de seus olhos mesmo que ela tentasse contê-las com todas as forças que tinha, mas era muito mais forte que ela, tão forte que precisou fugir daquela sala antes que começasse a chorar frente ao homem que não disse nenhuma mentira. Tudo o que ela sabia fazer era destruir coisas e matar pessoas. Tudo o que ela tinha feito por toda a sua vida foi patinar entre aquilo que achava certo e o que de fato era certo.
Um filme não muito longo lhe ocorreu com as imagens aleatórias de uma infância conturbada, e por algum motivo ela lembrou-se daquele coelho que jamais conseguiu matar quando estava passando fome naquela vida miserável que teve. Ela lembrou-se do seu pelo branco, dos olhos vermelhos, e dos filhotes que surgiram do nada daquela toca profunda.
Quantas vezes havia dormido com fome? Quantas vezes recusou qualquer ajuda por medo que as pessoas vissem nela o que ela enxergava com tanta clareza? A dor, a miséria, a vergonha... Mas quem ela era estava bem evidente, não é? Já não devia magoá-la mais ouvir tais coisas, porque ela sabia no fundo de seu ser que era tudo verdade. Era tudo quem ela era.
Continuou correndo com toda a velocidade que tinha, a respiração ofegante em seu peito dolorido, o sol queimando sua nuca num calor estranho e Konoha era apenas um borrão estranho que passava diante de seus olhos com as lembranças estranhas e confusas que lhe acometiam. Sakura chorou enquanto pisava nos telhados, avançando, seguindo sempre em frente.
Essa era a sua história.
A história da garota que não tinha nada.
Foi deixada sozinha quando nasceu, criada na rua da miséria, não teve pais e ninguém achava que ela poderia se tornar muito mais do que apenas uma sem-teto qualquer. Ela não era filha de alguém importante, não era a reencarnação de deuses, não tinha nenhum poder único que lhe fizesse especial. Não. Sakura era a garota que não tinha nada, e foi a partir disso que ela construiu tudo.
Mas ainda havia algo que a segurava naquele passado de miséria, algo que ela não conseguia se livrar, e por isso as palavras de Shikamaru ainda faziam tanto efeito sobre si. Por isso ela chorava no diminuir dos seus passos, parando na quina daquele telhado mais alto para se agachar em na vastidão das feridas abertas para permitir que sangrem. Ela chorou lágrimas vermelhas que sujavam suas mãos.
Tudo o que ela precisava era se libertar de seus demônios, e para isso, ela não podia deixar que ninguém mais roubasse o que havia conquistado às custas de seu sangue e suor, às custas de sua dor e miséria, às custas de seu espírito. Era tão injusto que logo Shikamaru lhe jogasse tais coisas na cara, era injusto que ele usasse sua culpa contra ela para tentar roubar aquilo que era tão precioso e singular, para tentar fazê-la pensar que logo Ino desacreditava nela.
Passou a mão no rosto se sentindo confusa, irritada, disposta a não deixar que ninguém tirasse dela as coisas que faziam dela quem era, e não se tratava da dor, vergonha e miséria, mas sim daquilo que as pessoas lhe deram quando viram aquilo que ela nunca pôde ver, e ainda que não conseguisse enxergar, Sakura sabia que havia algo a ser descoberto, e para isso precisava assumir que seus erros jamais a definiriam.
Quando percebeu, ali estava ela no telhado da casa que um dia chamou de sua, onde suas paredes guardavam grande parte daquilo que se tornou e pelo qual queria ser lembrada. A Shisui em suas paredes sólidas de um amor magoado, trancada com mais demônios de seu passado. Ela desceu do telhado, ficando frente a porta larga, olhando a madeira velha maltratada pelo tempo.
Ali dentro, havia uma Sakura que se permitiu ser quebrada, e algo dentro de si dizia que era hora de encará-la para finalmente entender quem era agora, mas será que estava preparada? Será que ela poderia entrar ali sem ceder a toda dor? Se antes a raiva a levou naquele lugar com a desculpa turva de que precisava recuperar aquilo que jamais havia perdido, Sakura agora pensava se num momento de podia dar mais esse passo sem que no dia seguinte tivesse que lidar com o olhar magoado de Kiba e a preocupação de Ino.
É claro que Kiba havia se livrado daquele monte de pílulas do soldado, mas ela já não estava ali atrás daquilo. Não... Sakura só queria as coisas que deixou tirarem dela sem que sequer percebesse, só que havia esse sentimento que a fazia hesitar. Ela não sabia se podia continuar, se era forte o suficiente para lidar de frente com aquele abandono, porque sim, ele só foi embora e a deixou quando ela achou que finalmente sabia fazer as pessoas ficarem.
Tocou a porta com suavidade, permitiu sentir a textura da madeira num arrastar contemplativo dos dedos e quando sua mão deixou a superfície, a mulher pousou a testa ali, com os olhos fechados, tentando absorver alguma coragem para entrar, ao mesmo tempo que sabia que não estava pronta. Ela não queria dar chance para uma recaída, não queria dar uma chance para que tudo a consumisse como antes fez.
Sakura queria se encontrar, mas talvez não fosse o momento.
Ela não sabia.
Ela sabia.
...
— Sakura?
Girou a cabeça por reflexo vendo o garoto de olhos languidos passar numa camisa coincidentemente amarela, usando aquelas calças mais largas e chinela de dedo. Sem a hitaiate e com uma máscara avulsa, Hatake Kakashi parecia estranhamente casual.
— Tá tudo bem? – Ele perguntou quando um segundo mais longo passou e ela não conseguiu responder o seu chamado.
— O que você está fazendo por aqui? – A mulher perguntou por cima sem querer da uma resposta digna à questão feita anteriormente.
— Tava na casa do Obito. – Deu os ombros enquanto mantinha sua pose comum de ombros caídos e olho desinteressados, que se desviaram dela por um segundo para mirar a porta atrás dela antes de continuar — Você mora aqui?
Ela olhou para trás e depois para ele novamente sendo pega de surpresa pela questão tão tranquila do rapaz que sequer se abalou ao ver seu rosto choroso. Sakura passou a mão nos cabelos tentando algum tipo de resignação, mas falhando miseravelmente aos olhos que, de alguma forma, a desvendavam.
— Não mais – Disse breve — Só preciso pegar algumas coisas.
Confirmando com a cabeça, Kakashi desviou seu olhar para o tempo, deixando seus olhos se perderem entre o topo dos telhados, o céu azulado e as nuvens sabendo que os olhos verdes se desviaram dele por um momento também para enxergarem o que ele buscava no céu.
Quando ele voltou a olhá-la, Sakura sorriu com o canto do lábio, abaixando sua cabeça brevemente.
— Você já comeu? – Perguntou em seguida, vendo-a arquear uma sobrancelha em surpresa pela pergunta deslocada — Tô indo em casa cozinhar alguma coisa, se você quiser, pode almoçar comigo.
Ela estreitou os olhos com um sorriso que de repente lhe invadiu mais largo, as palavras dele soando em sua mente como algo divertido pela sugestão repentina de que almoçassem juntos, mas não era ela tentando constrangê-lo, mas apenas genuinamente surpresa pelo convite, e de repente, Sakura percebeu que precisava apenas de algo bom para aliviar seus sentimentos, ainda que não fosse fazer tudo passar, era um bom respiro.
— Quem sabe da próxima – Ela respondeu numa recusa tranquila e o viu concordar com a cabeça antes de seus olhos se encontrarem novamente, e Sakura podia jurar que o viu sorrir antes de virar-se num gesto vagaroso demais, completamente sem pressa de chegar a lugar nenhum.
Ela também não precisava se apressar, e só bastava dar um passo de cada vez.
— Kakashi... – Chamou de repente, vendo-o girar a cabeça em sua direção com as sobrancelhas arqueadas — Te vejo quarta, às cinco, no campo de treinamento três. Não se atrase.
O sorriso surgiu presente por baixo da máscara antes que ele confirmasse com a cabeça num gesto preguiçoso e, novamente, fizesse seu caminho pela rua plana, erguendo sua mão num aceno de despedida. Ela olhou para as costas dele por um momento mais longo antes de se virar para a olhar aquela porta mais uma vez.
Um dia, Sakura jurou, ela iria voltar pela Sakura presa ali dentro, iria libertá-la de tudo, e nesse dia ninguém mais poderá quebrá-la. Ninguém mais poderá derrubá-la.
Um dia.
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A casa jazia pacífica naquele meio de tarde ensolarado. A luz breve do sol entrava nos cômodos com a tranquilidade do começo do outono. Ainda não estava tão frio, mas logo o clima mudaria para que o cair das folhas começasse, e o sol não seria mais tão quente, apesar de ainda brilhar entre as nuvens no céu.
Mas ali, dentro daquela casa afastada do centro, já nas margens de Konoha, ela entrou com suavidade, abrindo a porta já tão conhecida para ver os móveis tranquilos da sala. Tirou os sapatos tomando um excesso de cuidado para não fazer nenhum barulho e adentrou o recinto em busca daquele a quem sempre encontrava um porto seguro.
A primeira noite que passaram juntos, Sakura estava completamente bêbada. Ele a tirou daquele beco imundo sabe-se lá o porquê, e a levou para sua casa, deitando-a em sua cama, e deixando-a dormir por uma noite completa sem nenhuma preocupação. Quando acordou, Kiba estava dormindo no fuuton ao lado, ressonando em seu sono profundo.
Lembrava de querer ir embora de fininho, mas sentiu que deveria ao menos um agradecimento. Ficou acordada na cama dele, em silêncio, morrendo de sede à espera do despertar de seu companheiro de quarto, que parecia não ter nenhum compromisso matinal, e talvez tivesse passado a manhã toda daquele jeito, não fosse a invasão de Tsume, sua mãe, que abriu a porta num solavanco exigindo que o homem despertasse.
Sakura quase engasgou quando seus olhos se encontraram, a mulher ficou parada na porta com uma careta que durava tempo demais na opinião da kunoichi de ressaca, e então, depois de ouvir o filho resmungar qualquer coisa indistinta, ela apenas declarou no seu tom de voz alto demais que Kiba desse um banho em sua namorada e descesse com ela para comer.
Depois desse dia, Kiba lhe deu o apelido de rosinha.
Ela continuou seu caminho silencioso pela casa pacífica procurando os rastros do homem que já deveria estar por ali, encontrando Akamaru deitado na cama larga num ressonar baixo em sinal de seu cansaço, passando pela cozinha para encontrá-la em perfeito estado. Tudo ali lhe era familiar, trazendo a boa sensação de estar, de alguma forma, em casa, e quando avançou para a área de serviço, o encontrou frente àquela máquina de lavar chique que ele insistiu em comprar.
Não hesitou em suas passadas, dessa vez um pouco mais rápidas, na direção daquelas costas largas encobertas pelo tecido amarelo de sua roupa. Sakura o enlaçou pela cintura num abraço apertado, se aconchegando nas costas do homem que apenas sorriu de canto ao apertar o botão para iniciar a lavagem. O barulho brando vindo da lava-roupas se fez presente, e Sakura sentiu as mãos dele sobre as suas, folgando aquele abraço apenas para que ele pudesse se virar e envolvê-la também em seus braços.
Havia um carinho singular naquele toque que os envolvia no abraço de dores compartilhadas, e não precisavam de palavras para saber que era justamente o que o outro mais precisava naquele momento. O acolher mútuo era sentido naquelas mãos firmes dele que a mantinham contra seu corpo quente, ao passo que as dela o agarravam naquele respiro necessário.
Ela sabia que algo havia acontecido com ele, e ele sabia que algo havia acontecido com ela. Eles podiam sentir aquela energia um no outro como sem sequer se olharem nos olhos, e naquele momento de silêncio, ambos buscavam um pouco de força para se livrarem, de repente, de um cansaço súbito que os acometiam.
Com os olhos fechados, ela sentiu a mão dele acaricia seu cabelo de maneira gentil, relaxando seu corpo de tal maneira que a fazia querer chorar, mas ao invés disso, ela ergueu seu olhar para encontrar o dele. Sorriram um para o outro de maneira cúmplice antes que ela pudesse deitar a cabeça em seu peito para mais um momento em que se permitiam ser apenas duas pessoas magoadas.
— O que aconteceu com você, Kiba? – Ela perguntou num sussurro discreto, ainda sentindo aquele carinho em seus cabelos.
— Hinata me emboscou na saída. – O homem respondeu depois de um momento, sentindo a careta da mulher sem sequer precisar olhar. Ele deixou uma risada escapar antes de continuar — Mas ela já não tem o poder de me ferir, Sakura. Eu só... – Suspirou sem saber ao certo como continuar, mas tentando de verdade encontrar as palavras — Eu só odeio que depois de anos, ela ainda queira tudo de mim sem estar disposta a me dar nada em troca.
— O que ela queria? – A mulher perguntou afastando seu rosto para vê-lo.
— Que eu te convencesse a mudar de ideia sobre a Ino – respondeu sem humor — Que eu fizesse isso baseado numa confiança cega que já não existe mais. Eu dei tudo a ela, Sakura, e ela ainda me procura pedindo mais. – Ele riu — E eu só consigo ter raiva de ter sido tão idiota naquela época, disposto a sacrificar minha vida por ela quando única coisa da qual ela estava disposta a abrir mão era de mim.
Sim, porque Kiba era essa pessoa que se doava por completo quando sentia alguma coisa, não sabendo ser metade. Ele estava disposto a tudo, Sakura sabia, para que ele e Hinata pudessem ter um futuro juntos, e ela odiava que ele se sentisse envergonhado dessa parte de si que não media esforços por aqueles que gostava. Ela se sentia furiosa que logo ele, alguém tão leal, tivesse que se decepcionar desse jeito com alguém que ele tanto amou.
— Ela é a única idiota nessa história, Kiba. Você foi o único que deu a ela uma saída, o único que estava disposto a fazer de tudo... Ser sincero com seus sentimentos não é motivo para que você sinta raiva de si mesmo. Não faz isso. – Sakura disse em súplica, colocando a mão no rosto dele num gesto afável — Não odeie nada em você por ela. Não mude nunca.
Kiba segurou a mão dela em seu rosto, olhando-a com intensidade antes de fechar os olhos para absorver aquelas palavras, numa tentativa genuína de se convencer que não havia nada pelo qual se arrepender, e ele confiava em Sakura o suficiente para saber que, ao menos para ela, ele era suficiente em todas as suas palavras. Quando abriu os olhos, ele girou o rosto brevemente para beijar-lhe a palma da mão antes de abrir um sorriso para aqueles olhos verdes.
— Sabe que eu não consigo recusar nenhum pedido seu, não é? – Ele curvou o canto da boca num sorriso típico que a fez balançar a cabeça negativamente antes de se empertigar para buscar um beijo pequeno. — Andou chorando? – Perguntou com um franzir de sobrancelhas e ela encolheu os ombros discretamente ao ser pega no flagra.
— Só um pouco.
— Sakura, o que o Nara fez? – Ele perguntou com a voz um tom mais baixo, olhando-a por um momento mais longo apenas para vê-la hesitar em seu abrir de boca e fechar.
— Ele não fez nada. – Disse tomando um tempo para decidir as palavras que queria usar — Nós... Conversamos... E ele não me disse nada do que eu já não sabia.
— O que ele te disse? – O outro insistiu, seu olhar sério em uma visível preocupação da qual Sakura se escondia em seu olhar baixo.
— Kiba, você acha que eu fui impulsiva demais? Acha que eu fiz isso porque quero compensar alguma coisa? – Ela perguntou em sua aflição, segurando o tecido da camisa dele com mais força — Você acha que eu fiz isso por mim e não por ela? Porque, Kiba, talvez a Ino goste da vida que leva agora, talvez ela não queira voltar e eu a coloquei numa situação que... que... Kiba, eu não quero que ela me odeie. Eu não quero perder a Ino também.
— Ei! – Ele chamou num sussurro enquanto a segurava, mantendo-a firme naquele abraço — Sakura, você não vai perder ninguém, entendeu? A Ino nunca vai conseguir te odiar, nem se ela tentar muito – Ele riu breve em sua preocupação — E se ela quiser continuar nessa vida dela, então nós recuamos na proposta e tá tudo bem. Não é isso que vai destruir a amizade de vocês, eu garanto.
A voz dele preenchia aquele espaço com a certeza gentil de alguém que a conhecia melhor do que qualquer outra pessoa, porque assim como Ino, Kiba era alguém que sempre esteve presente para levantá-la, e nos braços dele, Sakura se permitiu chorar silenciosamente enquanto sentia a ternura cálida do fim de tarde cair sobre a casa que podia chamar de lar. Tudo era confortável ali, da cor das paredes à barba aparada, tudo era acolhedor.
— Tá tudo bem, rosinha. Eu tô aqui. – Ele disse fechando os olhos enquanto o cheiro dela exalava doce em seu nariz, sentindo as lágrimas úmidas no tecido de sua camisa, assim como o barulho miúdo de seu choro chegava aos seus ouvidos junto com o centrifugar da máquina de lavar logo atrás, e ele tinha o tempo do mundo para ela desde que, no final daquele abraço, ele pudesse ver naqueles olhos que ficaria tudo bem.
No final das contas, Kiba e Sakura precisavam da mesma coisa.
...
Quando o choro cessou e ela se afastou brevemente, Kiba a assistiu passar as mãos no rosto para enxugar aquelas lágrimas que manchavam sua tez. Ele sorriu tranquilo para ela, que lhe devolveu o gesto com uma risada quase envergonhada. É, ficaria tudo bem, pensou antes de se oferecer para levá-la em casa, e Sakura soube naquele momento que Kiba estaria com ela o tempo todo, assim como disse que queria estar, quando contasse sobre o que havia acontecido na reunião.
Ela concordou com a cabeça, seguindo-o pela casa para buscar aquele casaco remendado que ele tanto amava, reparando numa emenda desleixada se desfazendo em uma costura frouxa, mas antes que ela pudesse lhe contar, o homem virou-se com aquela jaqueta de couro preto que usava quando mais novo. Sakura não conteve o riso ao passar os braços por dentro da peça, que ficava um pouco larga, mais ainda lhe servia bem.
Quando finalmente saíram, Akamaru surgiu ao lado deles em passos suaves, e Kiba segurou a sua mão enquanto a noite se projetava no céu, surgindo com as constelações ao adormecer do sol no horizonte longínquo. Eles andaram pelas ruas vendo as lojas fechando e os bares abrindo, viram as pessoas indo para casa, as crianças correndo, os pássaros voltando para seus ninhos... Konoha era viva.
Não houve palavras no trajeto, ambos concentrados nos sons a sua volta, ao mesmo tempo que processavam as próprias questões, ligados apenas por aquele dar de mãos que raramente acontecia entre eles, e quando perceberam, alcançaram a rua central que os levava ao prédio charmoso onde ficava a Floricultura Yamanaka, e logo ao lado, a entrada da casa se fazia presente numa porta de cor branca.
Foi Sakura quem a abriu sem sequer olhar para Kiba, e mesmo com movimentos vagarosos demais, a mulher não hesitava em seguir sempre naquela direção que estabeleceu, sendo acompanhada pelo homem que se livrava dos sapatos assim como ela, e adentrava a residência com cautela, descobrindo um cheiro agradável de canela exalar por todos os lados.
— Oi, docinho – A voz melodiosa de Ino os alcançou quando se viram ocupando a cozinha — Hoje teremos pão caseiro, porque sou uma moça muito prendada – Riu concentrada em seu afazer no balcão — E fiz bastante, então junte-se a nós, Kiba.
A loira girou sua cabeça por cima do ombro para ver o casal recém-chegado de pé em sua cozinha, o rosto tranquilo evidenciava que o bom humor da manhã ainda perdurava em seu espírito animado. O cabelo estava solto, mas sua franja jazia presa para que não atrapalhasse em sua tarefa de sovar a massa. Ela os olhou e Sakura sabia que tudo já havia sido revelado, porque nos olhos verdes a preocupação era visível até para quem não a conhecia direito.
— O que houve? – A loira perguntou virando-se completamente, o rosto assumindo um tom mais sério. Sakura encolheu os ombros, mas não hesitou eu olhar frente a Ino, nem mesmo quando sentiu a mão de Kiba em seu ombro.
— Eu preciso te contar uma coisa. – Disse numa voz mais baixa, o olhar cauteloso. Ino franziu as sobrancelhas ao olhar para ela e depois para Kiba, como se tentasse desvendar o que estava por vir. — Ino, eu... Na reunião de hoje cedo, durante a votação pros novos jounins, a Hinata acabou dizendo que nosso contingente estava desfalcado e aí eu vi uma brecha no regimento, porque nesses casos dá pra...
— Sakura – A mulher interrompeu com sua voz mais didática — O que você fez?
Sentindo o breve aperto da mão de Kiba em seu ombro, a kunoichi de cabelos cor-de-rosa olhou firme para Ino, disposta a enfrentar quaisquer que fossem as consequências de uma atitude impensada confiando nas palavras do homem ao seu lado, que se mantinha firme em seu apoio incondicional.
Era hora da verdade.
— Eu propus que tirássemos você da reserva.
...
O silêncio pairou na cozinha de Yamanaka Ino, que jazia parada frente aos dois com seu semblante franzido numa espécie de confusão estranha. Parecia que as palavras ainda não tinham feito muito sentido em sua cabeça, como se não fizesse sentindo nada do que estava sendo dito.
— O quê...? – Perguntou confusa — Você tá dizendo que...?
— Que você vai voltar à ativa. – Sakura respondeu ainda com um tom cauteloso, vendo a mulher de longos cabelos loiros arquear ambas as sobrancelhas, deixando o ar escapar como se tivesse levado um forte soco. Surpresa, era a melhor palavra para descrever aquele par de olhos azuis que escaparam de Sakura para Kiba na busca de uma confirmação daquelas palavras, vendo nos olhos em fendas que sim, era tudo real.
Ela fechou a boca enquanto piscava algumas vezes, olhando para os pés da dupla a sua frente, de repente se sentindo aturdida, levou a mão ao rosto no ato débil de cobrir a boca ao passo que sua mente lhe bombardeava com tantas coisas ao mesmo tempo, com tantas possibilidades. Girou o corpo, ficando de costas para eles, o silêncio ainda dominando o local, mas em sua mente só havia aquele turbilhão de coisas que se recusavam a acreditar.
— Isso é verdade?
Perguntou ainda de costas, apoiando as mãos no balcão enquanto mirava a massa do pão encanelado que sovava minutos antes. Ela ainda não conseguia acreditar. Sua mente rejeitava essa possibilidade.
— Sim, Ino. — A voz de Kiba soou mais grave — A proposta vai ser votada na próxima assembleia, mas não precisamos de uma votação unanime. Trinta por cento dos presentes será o suficiente para que você possa assumir seu cargo como jounin novamente.
Tão pouco... Trinta por cento.
Ela ainda tinha amigos jounins que achavam injusta sua aposentadoria forçada, certamente poderia contar com eles, e ainda havia seu próprio clã, que leais, votariam ao seu favor. Poderia contar com Kiba para fazer campanha com os Inuzukas, não é? E tinha os Akimichi também, e os Nara... e... era bem mais do que trinta por cento.
Dava pra voltar.
... ela podia voltar.
Sakura esperou paciente olhando para as costas da mulher que parecia tão... tão... talvez fosse seu ímpeto ansioso, mas ela queria se adiantar em suas desculpas, dizer que tudo poderia ser desmanchado, que nada precisava mudar se Ino não quisesse, mas Kiba ao seu lado, com a mão escorregando pelo seu braço, segurou sua mão pacientemente. Tenha calma, era o que ele dizia sem mesmo precisar pronunciar as palavras, e ela confiou nele, atando aquele dar de mãos de maneira mais firme.
Então viu Ino desatar o nó do avental, tirando-o por cima da cabeça para colocá-lo em cima do balcão de maneira displicente e nesse momento, o coração de Sakura parou de bater por apenas um segundo antes que ela pudesse se virar, seu cabelo loiro formando um arco, e seus olhos azuis iluminados por um largo e feliz sorriso.
— Eu vou voltar! – Ela disse mal contendo a voz emocionada que invadia seu tom melodioso — Céus, eu... Eu vou voltar!
Tamanha era a felicidade da mulher que seu corpo precisava, de repente, transmitir tudo aquilo de todas as formas. Ela começou a dar pulinhos na direção dos dois, livrando o coração de Sakura de todas aquelas dúvidas ridículas que um dia nublaram seu juízo, porque ela não precisava pergunta a Ino se ela queria voltar à vida ninja, afinal, todos os dias ela dava esses sinais claros de que nada a faria mais feliz. Elas se conheciam bem demais para duvidarem de sua percepção uma da outra.
— Eu tô tão feliz que...! — Ino dizia em suas palavras animadas, a voz brevemente mais alta, agarrando Sakura com seus braços num daqueles abraços apertados que aqueciam até o mais triste dos corações, e era tudo o que a mulher de cabelos cor-de-rosa precisava para ter a mais absoluta certeza de que seria impossível perder isso.
Era esse o algo maravilhoso que ambos, Sakura e Kiba, precisavam naquele dia conturbado pelo qual passaram. Era desse momento, com uma Ino emocionada em seus abraços longos e apertados, que a dupla pôde esquecer de tudo por um momento na crença que ninguém poderia lhes roubar o que tinham conquistado, e mesmo que as pessoas tentassem fazê-los desacreditar, mesmo que em algum momento hesitassem em seus propósitos, ainda assim não haveria mais volta.
Eles eram quem eram.
— Sakura, obrigada! Obrigada! Eu nem sei o que dizer, eu só tô tão feliz... Obrigada! – A loira dizia tão emocionada, tão dada e grata às oportunidades, tão entregue ao sentimento que fazia aquela chama dentro de si, sua própria Vontade de Fogo, queimar ainda mais intensa.
Yamanaka Ino era uma kunoichi orgulhosa de Konohagakure, e sua história de tropeços era também uma história de vitórias. Nunca um Yamanaka conseguiu dominar com tanta eficiência os jutsus de seu clã, fazendo história nas diversas missões que participou e virando o jogo a favor de seu time. Nunca um ninja foi tão preciso na arte mental, e ninguém poderia tirar isso dela.
— A gente precisa comemorar decentemente – Kiba disse de repente, abrindo a geladeira da moça para tirar aquela garrafa de saquê escondida lá trás — Esqueci de comprar uma, mas prometo que amanhã já trago aquela chique que vocês gostam.
Ino o olhou com o azul cintilando em sua íris, a euforia do momento ainda dominando movimento seu, cada sentimento, e só por isso ela deu dois passos largos, cruzando a cozinha tão depressa, para segurar o rosto do homem entre as mãos.
— Kiba, obrigada! – Ela disse de maneira genuína e Sakura apenas arregalou os olhos em surpresa quando ela o beijou de repente, pressionando seus lábios contra os do homem que, quando percebeu o que estava acontecendo, aprumou seu braço num enlaçar de cintura e aprofundou aquele gesto antes de recuar. — Céus, eu to tão feliz!
— Eu também – O homem disse naquele tom cínico enquanto piscava o olho para ela, que apenas o largou para com aquele enorme sorriso em seu rosto.
— Droga, agora acho que tô com ciúmes – Sakura comentou com uma risada, olhando para Kiba que lhe soprou um beijo antes de buscar aqueles copos.
— Não precisa, meu amor – A voz de Ino surgiu num cantarolar melódico, e antes que Sakura respondesse, a mulher já estava com os lábios colados no dela, num daqueles beijos intensos com sabor de novidade. — Tem Ino para todos.
— É normal eu me sentir sexualmente confusa agora? – Sakura perguntou enquanto a loira apenas riu, indo até um Kiba estático para tirar a garrafa de saquê da mão dele, juntamente com os copos, e se servir de uma dose.
— Ok, nós temos uma situação aqui – O homem disse com uma expressão mais séria — E podemos resolver ela não-tão-rapidamente lá no quarto.
— Vai sonhando, cachorrão. – Ino disse com uma risada, passando uma dose para ele — A pessoa te dá uma mão e você já quer o corpo todo...
— Ah, eu quero mesmo.
E de repente tudo era felicidade naquela cozinha, que logo retornou para o principal assunto da noite com Ino pedindo para que relatassem precisamente o que tinha acontecido na reunião. Sakura contou, junto com Kiba, sobre cada detalhe, aproveitando o momento para destilar veneno contra Hyuuga Neji, mas ocultando sua conversa privada com Nara Shikamaru.
Kiba também preferiu não contar sobre Hinata, deixando que a noite de Ino fosse composta apenas das melhores coisas que haviam acontecido naquele dia, e se contagiando com a energia luminosa que a loira emanava em todos os seus sorrisos, até mesmo o pão recém-saído do forno parecia mais radiante quando segurado por ela naquelas luvas grossas de cozinheiro.
Foi quando a porta se abriu e todos viraram suas cabeças na direção do garoto que adentrava a residência junto a uma sacola de plástico, cumprimentando os presentes com a naturalidade de quem os conhecia bem demais para cumprimentos polidos.
— Demorei porque só tinha o refri bom lá embaixo – Inojin comunicou colocando a garrafa sobre a mesa — E não tinha zero açúcar, mãe. – Emendou antes que a pergunta surgisse.
— Tudo bem, querido, não é um problema. Agora vem cá com a mamãe, que eu tô morrendo de vontade de apertar você!
— Ah, mãe... Calma... tá, chega... mãe... – Resmungava sem conseguir lidar com o ataque de Ino, que o atacava com uma série de beijos nas bochechas do menino, fazendo Sakura soltar uma risada tranquila enquanto virava a última dose daquela garrafa de saquê. — Mãe, o que deu em você?
— O quê? Eu não posso abraçar o filho que eu carreguei por nove meses na minha barriga? – Ela resmungou com um bico dramático — Inojin, é que você é tão fofinho!
— Uh, mãe... mãe... – O ataque recomeçava e Sakura se virou para Kiba, perguntando se a mãe dele era assim com ele quando mais novo, que respondeu com um manear de cabeça, dizendo que toda mãe era um pouco assim. — Mãããaae...!
— Tá bom, tá bom! – A mulher fez uma careta — Sinto falta de quando meu bebê era um mesmo um bebê e não reclamava quando eu o enchia de cheiros.
— Nah, Inojin, não seja chato... A Ino tem boas notícias hoje, e só quer dividir com você um pouco. – Kiba resmungou apoiando a cabeça na mão e com seu rosto presunçoso, ele claramente queria que alguém contasse e logo as novidades.
— Que boas notícias? – O moleque perguntou olhando para o homem com certa desconfiança, em seguida viu a tia lhe piscar ansiosa para finalmente ver a própria mãe manear a cabeça.
— Aí, Ino, quanto suspense! – Sakura disse levantando em meio a seu surto ansioso — Inojin, tua mãe vai voltar a trabalhar como uma kunoichi de Konoha! Surpresa!
O garoto arqueou as sobrancelhas vendo sua mãe lançar uma careta para Sakura, que sorria satisfeita com sua revelação não muito elaborada. Sem saber muito bem o que isso significava, Inojin coçou o cabelo, trocando o apoio do corpo para a outra perna.
— Ah, que bom, mãe. – Ele disse sem muito entusiasmo, fazendo Kiba e Sakura franzirem o cenho — Quando você... recomeça?
— Querido, ainda não é nada certo, então não tenho uma data para voltar a pegar missões. – A mulher respondeu sem estranhar a reação pouco animada do rapaz, que parecia cada vez mais confuso.
— Hm... Pensei que você era o tipo de kunoichi que ficava em escritório, mãe. – Ele soltou ocupando um lugar à mesa — E não do tipo que pegava missões.
— O quê? – Sakura soltou em indignação.
— Ninja de escritório... pff.. – Kiba riu desejando que ainda houvesse saquê naquela garrafa — Tua mãe, Inojin, é uma das maiores kunoichis da nossa geração. Uma jounin de alta classe.
— Sim! Você nunca escutou as histórias sobre ela? De como ela salvou uma vila inteira?
O garoto arqueou uma sobrancelha, ainda cético, sem saber muito bem como processar aquela informação, e quando foi retrucar, sua mãe interrompeu.
— Quando vocês falam disso, parece até que eu fiz sozinha... – A outra disse com um suspiro, rasgando um pedaço do pão ainda quente para prová-lo. — E o Inojin não sabe, gente. – Ela riu — As pessoas pararam de falar de mim, vocês sabem.
Sakura fez uma careta entendo que, é, depois do escândalo da gravidez, somada a aposentadoria apressada, Yamanaka Ino virou um tabu em Konoha, sendo as únicas pessoas quem lembravam de seus feitos aqueles mais próximos, enquanto os outros preferiam apenas fingir que Ino nunca atuou em missões.
— Eu pensei que pelo menos você ou o imbecil do Nara pudessem ter contado algumas histórias pra ele – Kiba soltou com uma careta.
— Ah, eu não vou tá me gabando por um monte de coisa que eu fiz a tanto tempo... E, pera, imbecil?
Kiba maneou a mão como um sinal de que era uma besteira dele, mas a Yamanaka levantou aquela sobrancelha, girando seu olhar para Sakura em busca de uma resposta para a animosidade de Kiba com relação à Shikamaru, recebendo uma resposta muito insatisfatória da mulher, que mexeu a boca para formar a palavra "ciúmes", e Ino até poderia acreditar que de fato era apenas isso, mas... sua intuição lhe disse que não.
Entretanto, não houve espaço para insistir na questão, pois logo a voz de Inojin se fez presente.
— Eu achei que a mamãe tinha parado quando era chunin...
— O quê? – Sakura exclamou — Ok, Inojin, você só vai dormir depois que eu te contar o quão incrível é a tua mãe, que sim, é uma jounin de Konoha.
— Conta aquela do polvo. – Kiba falou — Até hoje fico de cara com o tamanho da audácia dessa mulher. – Ele riu lembrando da história.
— Oh, céus... – Ino suspirou sabendo que, pelo resto da noite, toda a sua vida ninja seria resumida nas palavras exageradas de Haruno Sakura e Inuzuka Kiba, e por isso ela apenas começou a colocar a mesa com seu pão caseiro orgulhoso, cheio de canela.
As lembranças vieram rápido enquanto Sakura falava, gesticulando com exagero, ao passo que Kiba complementava a explicação dela com detalhes singulares daquilo que Sakura deixava passar. Inojin os olhava como se estivesse ouvindo um conto sobre alguém completamente diferente, sem conseguir enxergar sua mãe naquela posição de ninja que vivenciou tantas batalhas complicadas, salvando pessoas e companheiros com jutsus tão precisos.
É claro que ele sabia que seu clã era composto por ninjas, e que sua mãe vinha da linhagem principal, mas ao mesmo tempo, Yamanaka Ino parecia apenas sua mãe, a dona da floricultura da cidade que cozinhava bem e era chata com o horário de dormir, no entanto, nas palavras de Sakura e Kiba, ela era uma kunoichi formidável que jamais abandonava seus companheiros, concluindo suas missões com excelência mesmo nos piores cenários.
Ino era incrível.
Quando ele a olhou discretamente depois de ter ouvido sobre Ino-Shika-Chō, Inojin viu sua mãe sentada à mesa, o cabelo loiro caindo sobre o ombro nu em sua pele mais clara, os olhos azuis pareciam se divertir diante das histórias contadas, ficando brevemente vermelha por estar sendo o centro das atenções por tanto tempo. Havia um ar nostálgico envolta dela, um ar mais leve, como se ela de fato pertencesse àquele universo de forma intrínseca, e naquele momento ele soube que sua mãe era muito mais do que os olhos podiam ver.
Havia muito mais por trás de Ino do que ele mesmo imaginava, e ele que já se orgulhava dela, ficou ainda mais animado com toda trajetória exposta, engrandecido por seu legado que ele ainda estava desvendando, afinal, Inojin ainda não fazia ideia de quem foi aquela outra pessoa que, junto à Ino, lhe possibilitou a existência.
Quando eles haviam se conhecido? Seria seu pai um homem tão emblemático como sua mãe? E onde estava ele agora? O que havia acontecido para que Ino precisasse parar com as missões? Por que ela estava retornando? Quem era seu pai? Qual era a sua história?
...
— Agora é hora de dormir, querido. – Ino disse depois de um momento, sorriso para ele com suavidade — Na verdade, já passou da hora, então vamos subir bem rápido para tomar um bom banho e deitar.
...
Ele concordou com a cabeça, sabendo que não havia como discutir. Ino pediu que os outros dois arrumassem a bagunça antes de subir junto com o filho, cantarolando alguma canção antiga, sem nenhuma noção de tudo o que se passava entorno dela. Sem saber que logo tudo iria ser revelado sem que ela pudesse sequer pedir um tempo para preparo.
Sakura a viu sumir pelas escadas junto do filho, e na companhia de Kiba, começou a recolher a louça. Não se falaram muito, fazendo apenas comentários aqui e ali sobre o que estavam fazendo, e antes mesmo que perceberam, naquele clima vagaroso que os permeavam, Sakura e Kiba já tinham terminado de lavar e guardar a louça.
Se olharam cumplices, cansados, felizes. Kiba se aproximou sem pressa da moça, depositando um beijo tenro nos lábios rosados.
— Já vou indo então, rosinha – Ele disse depois de um segundo, ainda perto demais.
— Que tal você dormir aqui hoje? – A mulher perguntou logo em seguida, apoiando os braços nos ombros do homem, que riu da proposta tão repentina.
— Não sei se a Ino vai gostar de dividir a cama comigo também.
— Eu tenho um quarto agora, esqueceu? – Disse divertida, vendo-o manear a cabeça com aquele sorriso meio relaxado, meio cansado — Eu nunca o usei, mas acho que hoje é uma boa oportunidade pra estreá-lo.
— Hm... É que hoje eu não tô muito pra sexo...
— Eu tô falando de dormir, Kiba – Ela riu em sua explicação, porque sabia que ele havia entendido logo no começo — Dorme comigo. – Insistiu brincando com os cabelos da nuca masculina.
Kiba hesitou por um momento, olhando para ela e depois olhando na direção da porta. Não sabia se devia ficar, não sabia se queria ficar. Era estranho, mas havia essa pequena parte dele que queria lamber as feridas antigas por medo de abrir algumas novas, enquanto havia essa outra parte que estava apenas sendo ele mesmo.
— O Akamaru pode ficar com o sofá, que é muito confortável, e eu também sei que você é calorento, não vou ficar em cima de você – A voz dela surgiu novamente naquele argumento sem sentindo, afinal...
— Ah, não... Acho que hoje, isso é exatamente o que eu quero. – Ele disse com uma risada, ao passo que ela buscou aquele outro beijo um tanto delicado, deixando seus lábios se demorarem nos dele por um segundo mais longo antes de recuar para que ele pudesse continuar — Me leva pra cama, rosinha.
Sakura sorriu.
— Vamos lá.
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*SIM, INUZUKA KIBA TEM UMA KEKKEI GENKAI, e eu vou explicar melhor isso conforme a história for avançando, mas aqui já ficamos sabendo que o clã Inuzuka tem uma linhagem genética privilegiada ahaha
Ai gente, desculpem a demora, mas a tendinite me pegou, tentei escapar e não consegui ): AHAHAHA
E AI, MEU POVO? GOSTARAM? Querem me matar pq não disse quem diabos é o pai do moleque? KKKK
CONTINUEM COMIGO! LOGO TEREMOS MUITO MAIS!
