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Volta

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Era uma calma manhã de outono no território da Vila da Folha anunciando um final de setembro cheio de incertezas. Os pássaros já tinham começado a migrar para algum outro lugar, por isso o canto silvestre não podia ser ouvido nos arredores silenciosos daquele bairro em específico, algo que não passou desapercebido por aqueles que ali viviam, mas que também não foi motivo de lamentos.

Distantes do centro, grande parte dos moradores se beneficiavam da quietude solene que permeava as ruas de tijolos, aproveitando o sossego matinal para atividades leves, como pintura, meditação... Não que os pássaros os incomodassem, mas a maioria se dizia ter mais afinidade com o silêncio contemplativo das manhãs frias, que os certificavam que a ordem era mantida.

Tal afinidade talvez fosse por um motivo bastante evidente, entretanto seria muita presunção associar o apreço pelos silêncios com uma herança genética. O byakugan não tinha nada a ver com aquilo. O finesse era uma questão de criação. Valores. O clã Hyuuga era um desses cheiros de tradições e regras morais que muitos podiam ter como arcaicas, mas que era justamente aquilo que os diferenciava da mediocridade com a qual muitos outros clãs se contentaram.

No distrito Hyuuga, no pátio aberto do casarão principal, o silêncio nobre imperava absoluto. Era a maior residência de Konoha, com ornamentos característicos de sua cultura mesclando toda a estrutura nobre da casa, que, apesar de tudo, era tida como humilde. Era na varanda interna, com vista para o descampado de terra batida em que muitos treinaram a arte do Punho Gentil, que a mulher se encontrava.

Sentada na cadeira ornada próxima a mesinha redonda, a mulher de longos cabelos negros mantinha seus olhos baixos, direcionados no livro fino e surrado que tinha sobre a mesa. A leitura silenciosa avançava sem muita pressa, seu olhar escorregava pelos caracteres num absorver profundo de seus significados em conjunto, mas a postura ereta e a expressão neutra faziam com que fosse impossível determinar qual compreensão a mulher tinha dos poemas lidos.

Oh, sim..

Poderia ser até mesmo confundida com um quadro tamanha era a perfeição daquela cena. Os longos cabelos se mesclavam em tom com o tecido pomposo de suas vestes, que por sua vez contrastavam com a tonalidade clara de sua pele excessivamente pálida. Na mesa, o chá esfriava dentro da xícara decorada, exalando um suave aroma de ervas frescas, e a folha amarelada do livro foi virada com um gesto delicado. Sem dúvida alguma, Hyuuga Hinata era o maior e melhor exemplo de austeridade e beleza.

Até mesmo aqueles com olhos inferiores podiam notar a casta aura que exalava através dos gestos comedidos de um simples virar de página. Um fio de seu cabelo caiu errante deslizou escorregadio entre os outros, se desprendendo da organização metódica do pentear reto, e novamente aquela mulher executava o mais modesto dos gestos para recolocá-lo em seu devido lugar, com classe e beleza.

Perfeita.

Neji se sentia extasiado pela visão privilegiada de poder assistir sua matriarca em momentos tão íntimos. Ela não parou sua leitura, mesmo que o barulho oco dos passos na madeira ecoasse singelos pelo ambiente aberto, e seque fez menção de cumprimentá-lo quando o homem se aproximou o suficiente, puxando aquela cadeira com um cuidado excessivo para não perturbar a nobre leitura.

Um criado fez a honras de aparecer momentos depois, aproximando-se da mesa com cautela. Cordial, trouxe o par daquela xícara decorada, enchendo-a com o mesmo chá do qual Hinata tinha sido servida. O cheiro das ervas era renovado no breve espaço entre eles antes de ir, lentamente, dissipando-se na vastidão do ambiente, e Hinata não falou uma palavra sequer, concentrada naquela leitura dos poemas escritos pelos anciões de seu clã. Um tesouro que nem todos tinham habilidade para apreciarem, mas que caia perfeitamente bem aos olhos sacros daquela mulher.

Sorveu o líquido esverdeado sentindo o amargor das ervas se espalhar por sua língua. Franziu os lábios de maneira contida, tentando reprimir a careta de desagrado ao perceber que o tempo de infusão tinha sido excessivo. Como ousavam servir Hinata com tanta mediocridade? Sua prima era benevolente demais para repreender os criados, mas era para isso que ele estava ali, sempre ao lado dela.

Sua função era muito clara.

Quando Hiashi morreu, Neji desacreditou Hinata como líder do clã. Ela era inapropriada de maneiras quase impossíveis para alguém que havia nascido com o sangue mais puro entre todos os Hyuugas. Frágil, insegura... O jeito com que ela falava o causava profunda perturbação. Tudo o que ela fazia evidenciava quão despreparada era para assumir a função mais importante de Konoha, mas foi em nome de sua promessa, feita quando era apenas uma criança desentendida, que Neji se comprometeu a ser o que Hinata precisasse, mesmo que ela ainda não soubesse do que precisava.

Por isso ele foi tão severo no começo, cobrando que ela seguisse os costumes do clã. Era inadmissível que sua líder andasse em companhias tão aquém de sua posição, e mais ainda, lhe causava pavores que estivesse parte de um time tão despreparado. Teve que ser rígido para prepará-la e protegê-la, mas conseguiu afastá-la daquela gente inferior que ela insistia em chamar de amigos.

Desde quando um líder tem amigos?

Quase desistiu daquela menina irritante quando a pegava fugindo, na calada da noite, para se esfregar naquele arruaceiro que demorou muito tempo para entender qual o lugar dele perante Hinata. Inuzuka Kiba foi o último obstáculo que enfrentou para tornar aquela mulher uma líder digna para todo o clã Hyuuga, e ele sabia que tinha sido por um triz, mas conseguiu manter Hinata imaculada, pura, como deve ser.

O único a se deitar com ela seria aquele que produziria o futuro do clã, e ninguém mais. Alguém digno, tal como ela. Alguém que tivesse os mesmos olhos, a mesma estirpe...

Ele desviou o olhar de maneira repentina, repreendendo seus próprios pensamentos antes mesmo que pudessem surgir com firmeza, quase como se olhos de Hinata pudessem desvendar seus pensamentos sem nem mesmo precisar olhar para ele. Viu seu reflexo disforme no líquido da xícara numa tentativa de se recompor, lembrando a si mesmo que deveria ser ele a sujar as mãos e repreender aquele servo incompetente, que ousou servir tal porcaria a sua matriarca.

Sim.

Era ele quem deveria sujar as mãos sempre, para manter puras as mãos daquela mulher, e por isso não se importaria em fazer tudo o que era necessário pela honra de seu clã, pela honra dela. Não se importaria em ser tido como um tolo carrasco se fosse pelo bem de Hyuuga Hinata. Neji se jogaria na lama num chafurdar feliz se isso significasse manter a ordem e o poder nas mãos dela.

— Eu gostaria de me desculpar, Hinata-sama – Ele começou em seu tom de voz mais baixo, arrependido — Pelo modo que agi na assembleia. A exaltação surgiu-me com tamanha brusquidão ao presenciar o desrespeito com a tua imagem.

As palavras chegavam sem ruídos aos ouvidos da mulher, ele sabia, mas ela não desviou seu olhar daquilo em que estava imersa. Passou mais uma página, a expressão tão neutra que qualquer outro poderia duvidar se de fato as palavras a alcançavam, mas não ele. Neji sabia que ela ouvia sua voz com nitidez, e não esperava outro tratamento.

Hinata lhe dava a indiferença que merecia.

— A leviandade com que falam teu nome, o desacato perante tua presença... Me enoja saber que essa é a elite de nossa vila, mas não é desculpa para a maneira que agi. – Ele soltou o ar para aliviar os pensamentos, que reviviam as imagens infames daquela reunião — E aquela... sugestão... Como ousam colocar aquela traidora como membro de nosso corpo ninja? Ninguém consegue perceber que ela é um perigo para todos nós?

A mulher continuava em silêncio. Não havia alteração naquela pintura perfeita que era Hyuuga Hinata em sua leitura matinal, mas que já não era tão beneficiada pelo silêncio. Neji tinha o olhar perdido entre os objetos na mesa, olhando para sua prima de tempos em tempos, como quisesse se certificar que ela ainda estava ali, ao seu lado, ouvindo seu monologo.

— Até mesmo Hiruzen parece não compreender a gravidade dessa ofensa à segurança da Vila. – Disse em um devaneio, lembrando da conversa improdutiva na sala do Hokage. — Entretanto, depois de afastar a raiva, tenho minha visão mais clara como só nós podemos ter. Essa situação pode ser o que precisamos. – Olhou para a mulher por um momento, vendo-a passar mais uma página daquele livro. — Konoha ainda sofre com as consequências da tentativa de golpe, e nossos aliados sofrem conosco. Se Suna ou Kumo acharem que Hiruzen e o conselho estão negligenciando a segurança da vila, as alianças podem ser questionadas, e os Senhores Feudais terão que tomar uma atitude.

Neji parou, não porque tivesse acabado, mas por ver o olhar da mulher finalmente sair de sua literatura para encará-lo, como quem diz que agora sim ele é digno de sua atenção, e naquele momento, o homem se sentiu encorajado, inclinando seu corpo para frente, fazendo-se mais perto com uma empolgação perversa diante dos olhos perolados que não eram nada como os seus.

— Tenho conhecimento com os conselheiros de Kumogakure, posso pegar uma missão qualquer para sair da Vila sem levantar suspeitas, e então deixá-los a par das negligências do Hokage, evidenciando o receio de que irão colocar uma espiã numa posição privilegiada. Há dados importantes dos nossos aliados também escondidos em Konoha, e eles terão que se proteger. O Raikage certamente não irá ignorar meu alerta. – Sua voz era baixa tal como o rastejar de uma serpente, e mal continha o sorriso que insistia em invadir seu rosto ao contar de sua tramoia. Hinata, no entanto, apenas o olhava no sustento de sua posição. – Também sei que não posso subestimar Nara Shikamaru, por isso preciso tirá-lo da Vila antes de partir, mas isso é muito fácil... Um chamado de Suna basta. Posso providenciar com alguns conhecidos que seja sugerido uma reunião com o Comandante dos Jounins sobre o ataque que houve ao jinchuuriki do Ichibi. Ele nunca recusa a oportunidade de servir como concubino de Sabaku no Temari.

"— Shikamaru, distraído em sua promiscuidade, só notará o burburinho quando for tarde demais, afinal, conhecemos o temperamento de A, que exigirá as providencias devidas de Konoha em nome da aliança formada, e com Naruto em seu território, o conselho decidirá por eliminar Yamanaka Ino, como deveria ter sido feito há muito tempo, mas... – Ele riu — Shikamaru vai lutar. Sakura vai lutar. Até mesmo aquele cachorro imundo vai se meter, e é aí que todos verão a incapacidade do Hokage em manter a ordem, não restando alternativa a não ser...

— Pare.

A voz da mulher surgiu em timbre moderado. Ela nunca passava daquele volume porque nunca precisava. Todos os Hyuugas se calavam à menor demonstração de sua insatisfação, e com aquela simples palavra, Neji soube que deveria apenas recuar. Num sobressalto repentino, ele vacilou em sua articulação, olhando com atenção para a mulher inexpressiva, que continuava a sustentar seu olhar neutro.

Durou apenas um segundo, e então ela retornou, com indiferença, sua atenção para a leitura dos poemas. O silêncio adentrou novamente aquele espaço com a morte das palavras sorrateiras de Neji, que apertava os dentes com força em reflexo do pensamento acelerado que não entendia o porquê daquela ordem tão repentina. Ele a olhou com hesitação, tentando compreender os motivos que a faziam negar o que estavam bem diante de si.

Era obvio que depois de tudo, eles seriam aqueles que administrariam a Vila. Depois de tudo, a ordem seria retomada como nunca antes Konoha havia visto. Eles poderiam elevar os status de Konoha. Hinata poderia ser a Hokage que a Vila merecia, e mais que isso, sobre seu comando, tudo seria ideal.

Então por quê?

— Hinata-sama, eu..

— Neji – A voz dela soou cortando as palavras dele antes que qualquer pergunta ou justificativa pudesse proferidas, os olhos se mantendo no livro que tinha nas mãos. — Devo lembrá-lo que o clã Hyuuga cumpre com a sua palavra, e dessa forma, honremos com o juramento que meus ancestrais fizeram ao Primeiro Hokage. Nós somos os Hyuuga da Folha, protetores da Vontade de Fogo, leais à Vila e ao Hokage seja ele quem for.

— .. Mas, Hinata-sama! – Ele hesitou, pego desprevenido pela fala precisa da mulher que sequer alterava sua voz diante das palavras, parecendo recitar um canto decorado que repetia todas as noites. Sim, Neji concordava com ela, mas Hiruzen não era o Hashirama, e a Vila estava em risco pela incapacidade administrativa de um velho que deveria se aposentar e dar lugar a quem realmente era apto a ocupar tal importante cargo. — Essa é a nossa oportunidade de..

— Pare. – Ela repetiu levantando seu olhar para ele novamente, dessa vez com um semblante severo. O homem engoliu a seco, sentindo o olhar censurá-lo — Devo lembrá-lo ainda que foi esse excesso de ambição que levou os Uchihas à desgraça. Me surpreende que logo você queira manchar a imagem de nosso clã por tão pouco.

A vergonha corrompeu todos os pensamentos de Neji, que abaixou a cabeça em seu arrependimento. Quando Hiashi morreu, Hinata não era ninguém digna de atenção, e tudo o que ela se tornou era fruto da determinação do homem em torná-la alguém digna de se ter como líder, por isso, e apenas por isso, Neji sentiu aquela ponta de orgulho pela fala certeira que cortava todos os planos feitos, destruindo tudo pelo bem maior da honra de seu clã.

Sim, ela estava certa.

Apesar de querer explicar que não estava tentando ir contra a Vila da Folha, Neji resolveu apenas confiar que Hinata conhecia suas verdadeiras intenções. Tudo o que ele queria era o bem de Konoha, o que poderia ser melhor alcançado se suas posições na Vila fossem mais firmes, mais assertivas, entretanto, ela tinha razão em temer manchar a imagem imaculada que fora construída pelos seus ancestrais. Precisavam ser idôneos para manter a confiança da população, e mais que isso, deveriam estar prontos, pois Neji sabia que o momento deles chegaria de uma forma ou de outra.

Naquele momento, entretanto, ele abaixou sua cabeça repreendendo seus próprios pensamentos enquanto a mulher tomava o último gole daquele chá indigno de seus lábios. Era como se ele não tivesse dito uma palavra sequer, porque o semblante dela era sempre o mesmo, sem temor, sem abalo. Hinata era o símbolo maior da ordem.

A protuberância no pescoço masculino subiu e desceu num engolir amargo de alguém que pensava, em sua própria insignificância, sobre tudo o que estava acontecendo.

Hinata passou a página de seu livro, sendo aquela a última, ele pôde ver.

— Se me permite, Hinata-sama, ainda precisamos resolver a situação de Yamanaka Ino.

...

A mulher não respondeu, continuando a olhar para os caracteres escritos com um pincel de cerdas trabalhadas. Tudo escrito à mão, encadernado numa brochura artesanal que constituía a arte de fazer livros. Ele piscou, de repente irritado com a indiferença, e assumiu uma postura mais assertiva, arrumando seu tronco na cadeira decorada.

— Sei que no passado votamos para a aposentadoria dela em um ato de boa fé com o Comandante dos Jounins, na tentativa de fazê-lo enxergar que não somos inimigos, mas ele obviamente prefere se manter avesso a qualquer progresso que possamos propor, e nesse caso, não podemos abaixar a cabeça para as vontades dele. Não mais. Aquela mulher precisa ser eliminada urgentemente.

— Depois de tanto tempo, você acha, meu primo, que vale apena sujar as mãos com tão pouco? – Hinata perguntou ainda olhando para seu livro — Mantivemos nossos olhos atentos durante esse tempo, vimos que ela é tão inofensiva quanto as flores que vende. Não acho que ela configura qualquer perigo para Konoha.

— A questão não é mais essa, Hinata-sama. – Ele retrucou rapidamente — É sobre preservar a honra, como você mesma ressaltou. Aquela mulher desonra todo o corpo ninja de Konoha. Desonra nossos ideais, e mais que isso, a volta dela passa a mensagem errada. Sim, ela é inofensiva, mas depois daquele rebuliço na frente de todos, precisamos fortalecer nossa posição, não concorda, Hinata-sama?

...

O silêncio pairou por um momento, o suficiente para que os olhos de Hinata finalizassem aquela última linha do poema intitulado retorno. Ela demorou um segundo a mais naquela última palavra antes de fechar o livro com vagarosidade, não havia pressa, afinal. Pousou ambas as mãos em seu colo, ergueu seu olhar para o acompanhante daquela manhã, e o encarou por um segundo mais longo, avaliando aquela expressão dele.

— Compreendo sua preocupação, mas não acho que precisamos ir tão longe. – Ela disse com sua expressão tão neutra, que sequer parecia estar falando sobre assassinar alguém — Basta vencer a votação para que ela não retorne. Se tivermos a maioria, nossa posição estará melhor evidente para todos e qualquer um. Os Aburames votarão conosco, assim como os Sarutobi, além do nosso próprio clã, e os Uchihas remanescentes que estão desesperados por qualquer sinal de respeito.

— Ainda não é o suficiente. – Neji alertou. — Infelizmente, Yamanaka Ino é... popular. Precisamos acabar com isso antes da votação. Tirar Shikamaru da Vila e-

— Sakura ainda estará aqui. – A mulher interrompeu. — Jamais tocaremos em Ino durante a vigília de Sakura, e mesmo sem ela, ainda haverá um punhado de outros ninjas que estão dispostos a dar a vida por essa mulher. Além disso, qualquer deslize nessa operação colocará em risco nossa índole, e como já disse, prezo pela preservação da honra de nosso clã acima de tudo.

...

— Em outras épocas, Hinata-sama, eu até diria que parece que sua preocupação está mais em manter sua amiga viva do que manter a honra dos Hyuuga.

Eles se encararam por um momento, os olhos perolados da mulher eram os mesmos de sempre, sem vida, sem vontade, mas os de Neji... os de Neji revelavam muitas coisas, e naquele momento, era algo como desconfiança. Ele a olhou por um longo segundo, sustentando aquele ar estranho em meio ao silêncio, medindo a expressão da mulher que jamais se alterava.

Hinata não respondeu, apenas continuou olhando-o com indiferença, sem desviar seus enigmáticos olhos perolados dos seus, e só por isso Neji sorriu antes de continuar.

— Mas você não é mais aquela garotinha. Você é Hyuuga Hinata.

Os olhares permaneceram um no outro até o momento em que ela apenas se levantou num gesto econômico, como sempre, alisando o tecido nobre de suas vestes num arrumar perfeito de sua imagem antes de voltar a olhá-lo, dessa vez de cima.

Dessa vez mais séria.

— Esperaremos a votação acontecer sem interferências. Caso o resultado não nos seja favorável, você poderá tomar as providencias que quiser, e não volte a me aborrecer sobre isso.

Ao fim, a mulher se virou em direção à passagem que a levaria para dentro do casarão, iniciando seus passos em postura perfeita sem esperar por uma resposta. Não era necessária uma resposta. Entretanto a voz de Neji soou atrás de si como num riso perverso da cobra peçonhenta que espera paciente.

Como quiser, Hinata-sama.

A mulher não parou, Neji notou, e então sorriu.

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Os olhos abriram preguiçosos, seu corpo estava tão relaxado que poderia voltar a dormir instantaneamente caso não tivesse percebido estar sozinho naquela cama. Ele piscou algumas vezes, sonolento, sentindo que poderia dormir a manhã toda, mas ficou olhando para o lado esquerdo da cama onde Sakura preferia dormir, vendo o travesseiro vazio e o lençol amassado como prova de que ela de fato dormiu ali.

Fechou os olhos um tanto absorto no pensamento de que estava sozinho, e era até melhor que fosse assim, mas então ouviu uma exclamação baixa ser dita no recinto e percebeu, finalmente, que ela nunca tinha ido embora. Abriu os olhos novamente antes de abaixar a cabeça num gesto moroso demais para encontrar, sentada na beirada da cama, as costas encurvadas da mulher que estava, obviamente, ocupada com alguma coisa.

Floricultura Yamana: As melhores flores estão aqui.

Ele leu os caracteres escritos naquela blusa branca larga demais para alguém tão franzina, que parecia uma criança fazendo alguma traquinagem quando silenciosa naquela beirada de cama, entretida com o que tivesse em mãos. Kiba a olhou por um longo momento, os cabelos rosados um tanto bagunçados, os ombros se mexendo em sinal do que tinha nas mãos, o abaixar de cabeça pontual... Essa era a kunoichi que causava medo nos mais diversos campos de batalha?

Preguiçoso, ele se arrastou pela cama com um ruido escapando de sua garganta, a viu girar o rosto por cima do ombro no revelar do verde brilhante de seus olhos, que divertidos, acompanharam a saga do homem sonolento em se sentar atrás dela, apoiando a cabeça no ombro da moça para ver o que diabos ela tanto aprontava naquela manhã a ponto de lhe ter tirado o benefício de acordar com ela bem ao seu lado.

Sakura a cabeça dele tombar no seu ombro e os braços adornarem sua cintura num pendurar-se de quem provavelmente tombaria de sono caso não se agarrasse em algo. Ela riu baixinho voltando seus olhos para o que tinha nas mãos, sentindo os olhos dele acompanharem a agulha ágil que tinha nas mãos para fazer um bom remendo naquele rasgo que tinha visto no dia anterior no casaco dele.

Kiba soltou um ruido sonolento, piscando enquanto assistia Haruno Sakura mostrar toda a sua habilidade com costura por um breve momento, antes de simplesmente levar seu nariz para bem próximo do pescoço dela, num absorver do cheiro de cama da moça, que se encolheu com um tremelique.

— Faz cócegas! – Disse numa risada, parando sua costura por um breve momento.

— Pensei que já estava acostumada – Ele soltou em sua preguiça, voltando a deitar a cabeça em seu ombro de maneira relaxada demais.

— Eu estou, mas ainda faz cócegas.

A risada preguiçosa dele veio fácil naquela manhã tão calma, e ele voltou a assistir o retomar daquele reparo tão cuidadoso que ela fazia, transpassando a agulha pelo tecido escuro com uma absurda certeza do que estava fazendo.

— E meu casaco, doutora, vai sobreviver à cirurgia?

Ela riu.

— Ainda estamos finalizando os procedimentos, mas acho que já posso declarar que esta cirurgia foi um sucesso. – A mulher disse com uma risada — Ainda hoje, ele poderá voltar para casa em segurança.

— É uma ótima notícia.

— É sim.

Os olhos de fenda se fecharam em sua sonolência enquanto sentia a moça trabalhar, ficou ali, em silêncio, quase dormindo com a cabeça apoiada no ombro feminino, e num piscar de olhos, a mão dela tocou seu rosto de maneira suave. Kiba abriu os olhos preguiçosos, olhando para os verdes que se projetavam na sua direção. Acabei, ela sussurrou, recebendo um murmuro em confirmação, juntamente com um ajustar dos braços dele em torno dela.

A mulher levantou o tecido do casaco bem na parte remendada, mostrando ao homem o resultado de seu bom trabalho, que sorriu com o canto da boca ao ver que, de fato, era muito melhor do que o que ele habitualmente faria.

— Até nisso você é boa – Ele deixou escapar em reflexo de seus pensamentos — Obrigado.

— Não há de quê. – A resposta veio em tom divertido enquanto ela iniciava o processo de guardar aquela linha de cor chumbo, prendendo a agulha na linha do carretel antes de jogá-lo naquela cesta aos pés da cama. — Dormiu bem? – Perguntou passando as mãos por cima dos braços dele que a enlaçavam.

— Como uma pedra – Ele respondeu sentindo a risada baixa dela — Mas esse colchão precisa ser amaciado.

— Ah, eu concordo. A espuma ainda tá muito firme.

— Depois a gente resolve isso – Sua voz soou despretensiosa, mas Sakura apenas deu uma risada da promessa por trás de tudo aquilo — E você, rosinha, dormiu bem?

— Como um bebê – Disse com um suspiro, deitando a cabeça para trás num momento breve de silêncio — Você tem alguma coisa pra fazer hoje?

Hmm... Só passar na Hana pra falar da assembleia... – Suspirou, de repente, cansado — Ela já deve estar sabendo do que aconteceu, mas vai querer saber os detalhes por mim.

— É engraçado que a Hana-senpai seja uma chunin mesmo sendo chefe do clã. – Sakura disse num devaneio. — Gosto do seu clã.

Kiba riu.

— Você sabe que na época até tentaram me fazer chefe disso argumentando que eu virei jounin e herdei a kekkei genkai, mas... – O homem fez uma careta — Hana é mais velha. Por direito, o lugar é dela, e eu não tenho vocação alguma para ser chefe de qualquer coisa. Além disso, ela é mais diplomática que eu.

— Ah, eu sei. – Sakura disse fechando os olhos em seu relaxamento, sentindo o calor morno do corpo de Kiba lhe envolvendo em uma boa madorna. — Você não tem paciência pra essas coisas.

— É. Diplomacia envolve lidar com Hyuugas, e minha cota de paciência com eles já estourou a muito tempo.

A mulher abriu os olhos brevemente à mera menção do clã e encarou a porta do armário a sua frente, deixando as palavras dele se acomodarem nos cantos daquele quarto estreito. Sakura passou a mão num carinho gentil pelos braços que ainda a adornavam esperando, porque ele não tinha terminado ainda que não fosse dizer mais nada, ela sabia.

O sentiu aconchegar sua cabeça naquela curva de seu pescoço, tomando um tempo para processar todas as palavras que flutuavam confusas em sua cabeça. Depois de uma longa noite de sono, livre da irritação, o pensamento dele o levava a todos aqueles lugares que há tempos não revisitava. Torceu os lábios numa careta em desagrado, fechando os olhos para se concentrar na sensação física do contato com Sakura, e então finalmente suspirou.

Há muito tempo, Kiba e Hinata se apaixonaram quando tudo era novo e possível, mas a vida aconteceu, e a herdeira da casa principal dos Hyuuga não era uma opção para o segundo filho de um clã inferior. Ela precisou se adequar a posição que ocupava como chefe do clã, e ele achou, por um pequeno momento, que isso os beneficiaria. Que ela enquanto líder poderia finalmente escolher seu próprio destino, o que não aconteceu.

Nunca acontecia.

Pouco a pouco ela mudou. Primeiro as roupas, depois o jeito, então os sorrisos e o olhar. Até a voz parecia cada vez menos com a da Hinata que conhecia, mas ainda assim, por baixo de todas essas camadas de adequação, quando estavam à sós, ela conseguia ser aquela garota por quem se apaixonou, e em cada suspiro ele encontrava uma declaração de amor velada, mas era só o que ele queria enxergar, não é? Ele foi um brinquedo na mão dela.

Todas as promessas, todos os planos... Nada disso era suficiente perante o lugar dela em Konoha. Uma vida ao seu lado em qualquer lugar do mundo não era o bastante para que a moça dos longos cabelos negros abdicasse dos seus privilégios. Ela era importante demais para ir embora com ele naquela noite fria de inverno, foi isso que ela lhe disse naquele telhado enquanto ele se via perdido no mar de angústia em seu coração partido.

E tudo bem que ela quisesse se sacrificar por Konoha. Que quisesse se tornar essa Hinata sem alma que perambula por aí, mas bem que ela podia ter lhe deixado a par um pouco antes ao invés de alimentar todos os sonhos infantis que ele achou que pudesse realizar ao lado dessa mulher por quem ele estava disposto a dar tudo para salvá-la do destino cruel que fora lhe reservado no momento em que Hiashi morreu.

Kiba se sentia tão bobo. Como se tivesse sido vítima de uma pegadinha sem graça. Ele não aguentava ver o que ela se tornou nas mãos de Neji, e não aguentava ver aqueles olhos cheios de vida mudarem para algo tão... Desconhecido. Entretanto, não havia muito o que fazer além de lidar com a humilhação das palavras dela naquela noite, com a inferioridade de sua posição, e mais ainda, com a insuficiência de seu ser perante a tão importante Hyuuga Hinata.

Se ela esperava que fossem continuar amantes clandestinos, se enganou. Havia outros para ocupar a cama dela, talvez o próprio primo fosse o primeiro candidato a isso, mas não importava. Kiba resolveu não se importar, ainda que o ferisse, ainda que vê-la naquelas reuniões fosse doloroso. Kiba resolveu que, pouco a pouco, aquele não se importar da boca pra fora seria genuíno, e agora, depois de tanto tempo, ele sentia que havia conseguido chegar nesse ponto, restando apenas a vergonha e o arrependimento.

Sakura puxou o rosto com gentileza, torcendo seu tronco brevemente para se acomodar naquele braço dele que a apoiava. Ele deixou que as pernas dela deslizassem por cima da sua, se aprumando para deixá-la confortável naquele colo dele. De alguma maneira, havia um sorriso faceiro naquele rosto, divertido, e o homem arqueou a sobrancelha numa visível questão.

— Se você quer saber, eu teria fugido com você.

Foi o que ela disse, assim, com aquela cara cínica em seu sorriso de lábios rosados. Ele riu daquele olhar que ela sustentou, encarando-a como se fosse um espelho, suas expressões entrando em harmonia, como se os segundos gastos revivendo aquele encontro mais recente jamais tivessem existido.

— Mentirosa.

O homem respondeu divertido, vendo-a piscar aqueles olhos verdes sedutores demais, honestos demais.

— Fugiríamos para salvar o Sasuke, no meu caso.

— Ah, é claro... – Ele riu deixando que a mão dela brincasse com os pelos de sua barba naquela sensação conhecida da mão calejada tocando seu rosto, e ficaram um momento em silêncio, compartilhando a divertida melancolia de suas tragédias.

— Posso dizer uma coisa egoísta? – A moça perguntou sem olhar para os olhos do homem, que apenas confirmou com um murmuro, esperando pela tal coisa egoísta — Eu sei que você sofreu muito por isso, mas eu meio que fico feliz que você não tenha ido.

O sorriso já não existia nos lábios dela, o olhar mais baixo não conseguia mirar os olhos de fenda na revelação mais óbvia que ele já havia ouvido na vida. Ficou em silêncio sentindo aqueles dedos em seu rosto e a sensação boa das mãos dela até que finalmente o verde brilhou na direção certa, os olhos se encontraram sinceros.

— Eu fico feliz que você tenha me encontrado.

... Kiba permaneceu em silêncio diante das palavras, observando aquele olhar cauteloso e corajoso que jamais tinham tido o ímpeto que estavam tendo naquele dia, e talvez os próprios olhos estivessem intensos demais naquela troca, porque a moça não aguentou por tanto tempo, desviando num misto estranho de vergonha e vulnerabilidade. O homem quis dizer alguma coisa, quis chamá-la, mas não conseguiu.

Sakura entreabriu os lábios, a mão escorregando do rosto masculino para deixar aquele contato para trás, mas foi pega de surpresa quando ele a segurou, depositando novamente em seu rosto, e o que aquilo significava, ela não sabia. Não ousou tentar saber.

— Você ainda a ama, não é?

A voz dela soou longa num timbre baixo pela quietude do quarto, vibrando no corpo dele, alcançando os ouvidos com clareza. Ele piscou demoradamente, as palavras vagando em sua mente de maneira quase aleatória, e quando percebeu, deixou o ar escapar pelas narinas numa risada silenciosa.

— Não mais – Ele respondeu deixando o olhar pender sobre ela, mostrando a sinceridade daquelas palavras — Ontem eu, é, fiquei com raiva por ela ter me pedido algo como aquilo depois de tanto tempo, mas hoje... Hoje eu só sinto vergonha de ter sido tão emocionado naquele tempo. – Ele riu sem humor deixando o olhar morrer para algum lugar no pescoço dela, o pensamento distante, solitário. — Eu não a amo, Sakura. – Ele soprou um sussurro ao final e Sakura quase não pôde escutar.

Quase.

O silêncio retornou suave naquele quarto enquanto a mão dele deslizava pelas pernas expostas num vai e vem suave em harmonia com aquele carinho que a moça fazia em seu rosto. Sakura odiava que ele ainda se sentisse daquela forma depois de tanto tempo, odiava que ele ainda se torturasse por algo que não tinha nada de errado. Os sentimentos dele foram intensos o suficiente para que ele se fizesse disposto a largar tudo por Hinata, e não havia nada do que se envergonhar.

Na verdade, quem devia se envergonhar era a própria Hinata de sua resposta maldosa aos sentimentos do homem a quem ela tanto declarou amar; e mais ainda, quando ouvia Kiba remoendo suas escolhas, Sakura lembrava de Shisui e de como ele a abandonou sem nem mesmo dizer adeus. Ela fechou os olhos, de repente irritada, porque Hinata teve tudo e desprezou. Hinata teve aquele amor nas mãos e descartou. Hinata teve Kiba como Sakura jamais teve Shisui.

Quando o olhar dele retornou ao dela, seus lábios lentamente se aproximaram num tocar caloroso das cicatrizes de seus corações, e então outro beijo, e mais outro. Ela sorriu naquela troca, e ele sorriu contagiado, aprumando-a em seu colo, confortando-a em seus braços no calor suave da manhã fresca de outono. Ela o beijou mais uma vez demorando seus lábios nos dele como uma pergunta e uma resposta ao mesmo tempo, e ele aceitou todas as questões, concordando com todas as respostas.

Tudo bem.

— A gente devia descer, não é? – Ele disse um momento depois — Nem sei que horas são, mas acho que a Ino já acordou.

— Ah, falando em Ino... – A moça disse num suspiro — Não vamos comentar sobre meu desentendimento com o Shikamaru pra ela, tá?

— O quê? Você tá... doida? – Ele disse surpreso — Ontem eu não disse nada, mas foi porque eu não quis estragar o momento dela, mas hoje... Sakura... Você não pode esconder isso dela.

— Eu não vou esconder – Sakura se adiantou em dizer — Só não vou contar agora.

— Isso vai dar merda. – Kiba resmungou olhando para Sakura em um aviso sincero.

— Pensa comigo, a Hinata foi atrás de ti depois de todos esses anos pra pedir que você me fizesse recuar, e o Shikamaru fez a mesma coisa comigo, puto. – Ela disse mais séria — Tem algo nessa história que não tá batendo.

Kiba estreitou os olhos para a moça em seu colo percebendo ter ficado tão imerso nas próprias questões a ponto de sequer perceber o padrão evidente. Sim, era estranho que logo após a assembleia, Hinata tenha se arriscado para aquele pedido, sendo que nunca antes ela o havia procurado novamente, enquanto Shikamaru transtornado, tentou de tudo para que Sakura desistisse.

De Hinata eles já não esperavam muita coisa, mas Shikamaru... Não fazia sentido ele ser contra a volta da companheira de time.

— Você acha que o Shikamaru e a Hinata tão de conluio?

Sakura o olhou sério por um longo momento.

— Eu não faço ideia. – Disse em seguida — Os pedidos podem ter vindo de motivos diferentes, mas é muita coincidência. Tem algo ali. Shikamaru tava muito impaciente, o que me faz pensar se a Ino está correndo algum tipo de perigo.

Kiba hesitou diante da fala sem saber direito como proceder a partir dali.

— Você vai recuar então?

— Não. Nunca. – A outra respondeu rápido demais — Nada vai acontecer a Ino enquanto eu estiver aqui, mas eu quero saber o que tá por trás de tudo isso antes, e até eu descobrir, a Ino não pode saber do que aconteceu depois da reunião.

— Sakura...

— Eu sei, mas o Shikamaru é um amigo de longa data dela. Eu não quero criar um conflito entre eles por besteira.

Ao ouvir a frase, Kiba fechou os olhos e balançou a cabeça negativamente num gesto de reprovação, precisou esfregar o rosto por um momento, porque a capacidade de Sakura de se colocar num lugar sem importância era ridícula. Como assim "por besteira"? Kiba pensou em deboche ao lembrar da expressão dela na lavanderia, e das dúvidas que surgiram apenas porque Shikamaru foi um completo babaca.

— Sakura, o que o Shikamaru te disse? – Ele perguntou mais sério — Quais foram as exatas palavras dele?

... O olhar verde se desviou do dele por um momento, ela parecia querer escapar daquela conversa de alguma maneira, mas Kiba já não tinha uma expressão suave no rosto. Ele estava esperando daquele jeito sério demais, e num momento depois, a viu revirar os olhos antes de voltar a encará-lo.

— Kiba... eu não... ele... – Ela o olhou encolhida, hesitante. Não sabia como começar. Não queria contar. Não queria reviver. Mas Kiba estava ali com seus olhos no dela numa espera que poderia ser eterna caso ela não lhe respondesse de uma vez. Soltou o ar enquanto deixava seu olhar cair para sua mão apoiada no ombro dele, num segurar daquele abraço. — Ele disse que... que eu sou uma viciada, que só faço merda... que as pessoas que eu me importo ou morrem ou me abandonam, e que se isso não acontece, é porque eu as abandonei primeiro. – Ela riu constrangida, se encolhendo um pouco mais, tentando evitar que seu rosto pudesse ser visto enquanto as palavras iam sendo ditas em um volume cada vez mais baixo — Ele disse que eu só sei destruir coisas e matar pessoas...

A voz dela sumiu como se a frase se perdesse em algum lugar daquele quarto não tão grande, e quando a quietude mais uma vez retornou, a moça sentiu as mãos dele lhe segurarem mais firme. O homem ergueu a cabeça, olhando para o teto branco do quarto enquanto balançava seu corpo minimamente para frente e para trás. Kiba estava sério, e Sakura conseguia senti-lo tentando controlar a raiva naquele respirar mais pesado.

— Kiba, ele não disse nada do que eu já não sabia – Ela disse mais baixo, segurando naquela camisa dele ainda encolhida em seus braços — A verdade não pode me ferir.

— Que porra de verdade, Sakura?! – Ele soltou irritado — Do que ele sabe pra tá falando desse jeito com você?!

— Eu matei pessoas, destruí coisas. Sou uma viciada, fiz mais merda do que deveria, as pessoas ao meu redor morrem ou me deixam, e antes que isso acontecesse a vocês dois, eu fui embora. – Havia aflição naquela voz mais aguda, o olhar dela implorava por algo, mas Kiba não conseguia aceitar — A Ino sempre esteve aqui quando eu precisei, e no momento em que ela estava passando por um inferno, aonde eu tava? Eu deixei você ferido, deixei a Ino com a corja, deixei o Naruto sozinho e...

— Para. – A voz dele era presente, firme. Um comando que deveria ser ouvido, mas a moça apenas se sentiu tão indigna dos braços que a seguravam, da casa que a abrigava, e da confiança que não merecia. — Para de ser tão severa consigo mesma. Para de se culpar pelo que você não tem culpa, Sakura. Eu e Hinata não demos certo e isso não tem nada a ver com você. Ino engravidou por vacilo dela, e isso não tem nada a ver com você. Naruto... Puts, Sakura... O Naruto nunca esteve sozinho.

Lagrimosos olhos o miraram em um pedido estranho, uma súplica confusa de alguém que ainda relutava em sua aceitação. Os braços do homem a enlaçaram mais forte, e ele encostou a cabeça na dela tentando encontrar uma forma de fazê-la entender tudo o que era tão claro e evidente. Tudo estava diante dela, bem na frente na frente dos mais honestos olhos verdes.

— Sim, você é uma viciada, mas essa foi a única merda que você fez, e fez só pra você. Você voltou, várias vezes você voltou. Várias vezes você tava comigo, com a Ino, e mesmo longe, você sempre olhou por Naruto. – Kiba fechou os olhos sentindo a respiração tremula da moça diante das palavras que dizia, a mão dela também tremia naquele segurar forte em seu ombro, e ele só queria fazê-la entender tudo o que era tão claro pra ele — Você não abandonou ninguém, e eu ainda tô aqui, não é? Eu tô aqui.

Ele estava ali.

Kiba estava bem ali envolvendo-a em seus braços de força, de fé, e suas palavras tinham tanta intensidade que Sakura sentia seu peito doer naquela absorção das coisas que ele dizia. Das coisas que ela já sabia. Ela se agarrou nele com as lágrimas manchando a camisa do homem naquele afundar de seu rosto em seu peito, o choro silencioso se propagou, sendo sustentado pelas firmes mãos que estavam ali, sempre estiveram.

Havia um conflito dentro dela. Um nó atado e firme que insistia em prendê-la naquele lugar estranho, afundando-a no vão da miséria em que se criou. Sakura era uma sobrevivente. Todos os dias ela lutava por quem era e pelo que queria ser. A todo momento, Sakura se sentia no limite, e era exatamente a culpa que a segurava, o arrependimento. Assim como ele, Sakura remoía algumas escolhas sem saber se as faria diferente caso pudesse voltar atrás, e isso a assustava mais que tudo.

Mas Kiba estava ali.

Kiba, Ino, Naruto... Todos eles ainda estavam ali em sua fé inabalável na mulher que ainda não sabia bem o que tinha dentro de si, e naquele choro miúdo, no agarrar firme no homem que a envolvia, ela se permitiu odiar todas as palavras de Shikamaru, ela se permitiu negar cada frase dita, se permitiu sentir raiva por ter duvidado daquilo que era tão sólido, do que era tão firme.

— Eu também fico feliz de ter te encontrado.

Os olhos dela se abriram pegos naquela frase dita tão baixa, tão perto de sua pele que Sakura não ouviu um só fonema, ao invés disso, ela sentiu a vibração no seu corpo penetrando seus poros, invadindo seu ser e se acomodando naquele lugar dentro dela que guardava todas as coisas boas. As coisas importantes. As coisas que deveriam permanecer intocadas.

Ela o beijou.

Ainda que não tivesse a força para se libertar e a culpa ainda a corroesse, Sakura sentia que podia avançar em meio ao terreno enlameado de seus sentimentos, se permitindo aceitar que sim, sentia culpas demais, e que sim, as tais verdades de Shikamaru a feriram mais do que deveriam, porque não eram de fato verdades. Porque tudo tinha um motivo, uma história.

E se ela tinha ido embora, não foi por querer. Não foi buscando o abandono deles. Ela só não conseguia suportar estar naquelas lembranças danosas, ela não conseguia se conectar com o que era importante. Sua mente estava nublada pelo vício, pela vontade de fazer algo significativo, pelo resgate de quem era e das promessas feitas. Foi por isso que ela foi embora, e nessa distância não havia abandono daquelas pessoas cativas em seu coração, mas o abandono de si mesma.

O abandono da Sakura que se permitiu confiar, e frágil, se quebrou em pedaços quando percebeu que de novo estava sendo deixada para trás na insuficiência de seu ser, e nas lágrimas que rolaram de seu rosto invadindo o beijo longo que acontecia, ela se sentia, de repente, compreendida, porque eles eram iguais na dor. Porque eles foram insuficientes para aqueles que se doaram.

Seus lábios se separaram, os olhos se abriram tranquilos. Havia um novo sol, um novo dia. A mão dele deslizou por sua coxa e ela sorriu o mais bonito dos sorrisos em sua tristeza copiosa.

— Obrigada. – Ela disse num sussurro.

Ele sorriu meio relaxado, meio tímido.

— Chega de chorar, tá bom? – Disse naquela voz suave, combinando com o clima gentil do quarto sereno.

— Certo. – Ela concordou no passar de mão em suas bochechas marcadas — Viu, sem choro.

A cumplicidade estava no olhar, no clima envolto, nas palavras não ditas.

— Agora vamos descer antes que a Ino venha aqui. – Lembrou melhorando sua voz, se fazendo mais comum, mais brando, e Sakura adorava aquela normalidade, a facilidade. — Vou manter seu plano, rosinha, mas se ela me perguntar, eu vou contar tudo.

A mulher revirou os olhos com humor. Não tinha muito o que fazer, afinal, se Ino a perguntasse, Sakura também não teria para onde correr.

— Tá. Vamos ficar atentos à movimentação e tentar descobrir alguma coisa, agora... Quer tomar um banho e comer em algum lugar?

— Hm? Vai evitar o café com a Ino?

— Ela não tá em casa.

O homem franziu o cenho.

— Ué?

— Inojin já foi pra Academia, e dia de hoje, ela tem um encontro com nosso Comandante.

— ... Esse cara não merece a Ino. – Kiba disse com um suspiro resignado.

Sakura sorriu em concordância.

Não merecia mesmo.

.

.

.

O estranhamento ao encontrar o lugar completamente vazio lhe pegou rapidamente. A sensação de que algo estava errado permeava seu ser desde a hora do jantar do dia anterior, quando comemorou a possibilidade do seu retorno pleno à vida ninja. O comentário de Kiba a pegou, assim como a explicação de Sakura lhe pareceu a mais esfarrapada desculpa que já tinha chegado aos seus ouvidos, mas deixou passar em um voto de confiança no destino, assumindo que tal sensação era algo sem importância.

Mas se havia algo que a vida ensinou para Yamanaka Ino, era que a intuição não deveria ser ignorada.

Acordou cedo, como de costume. Tomou um banho longo, se vestiu naquele vestido azul bebê que lhe deixava com o quadril mais largo, viu seu bebê despertar num bom dia preguiçoso e teve um belo café da manhã na companhia solitária de seu filho, que a encheu de perguntas sobre Ino-Shika-Chō. Ela gostava de vê-lo animado com seu orgulho infantil transbordando naquele monte de dúvidas que tinha. Talvez ela devesse ter dito antes todas aquelas coisas para ele, mas agora já não importava.

Depois de mandá-lo para a Academia Ninja, Ino saiu para o seu compromisso do dia na casa daquele que era o segundo homem mais importante da Vila: Nara Shikamaru, o Jounin Comandante.

Normalmente, quando chegava no velho casarão dos Nara, Ino era recebida ainda na varanda por um homem de aparência cansada vestido num quimono desbotado enquanto olhava para um tabuleiro gasto, naquele dia, no entanto, não havia ninguém para recepcioná-la. A casa estava aberta, no entanto, mas não havia um sinal de vida além da dela.

Cautelosa, ela entrou na residência um tanto incerta, encontrando um caos completo. Shikamaru era desleixado, sim, mas não naquele nível. Estava tudo fora do lugar: copos por toda parte, pratos com restos de comida, roupas sujas espalhadas por todos os lugares, e fazia quanto tempo que ele não lavava aqueles pratos? Torceu o nariz se sentindo enojada quando abriu a geladeira. Ó céus... O que tinha acontecido? A casa parecia um grande cinzeiro com as cinzas espalhadas pelos caminhos comuns, e ela se pegou completamente atordoada.

Saiu limpando tudo, recolhendo as roupas, os pratos... Trocou as roupas de cama, mudou as cortinas por aquelas guardadas no armário, deixou todas as janelas bem abertas para o ar circular por toda a residência malcuidada. Nem sabia quantas horas havia passado naquela missão repentina de limpar absolutamente tudo, e mesmo assim, Shikamaru não deu um sinal sequer de vida.

A mulher focou na faxina, ocupou a mente na tentativa de não pensar sobre o que tudo aquilo significava, tentando não criar teorias e mais teorias acerca da situação em que Shikamaru se encontrava, porque aos seus olhos, aquele nível de desleixo era quase um pedido de socorro. Seria muita presunção dela imaginar que os problemas do homem eram relacionados a ela e somente a ela? Era muita arrogância pensar que de alguma forma estava causando sofrimento à Shikamaru?

Foi limpando aquele espelho oxidado na parede do banheiro que Ino viu seu reflexo em meio a rachadura que o dividia, observando os olhos azuis, os cabelos loiros, as linhas de expressão aprofundadas pelo tempo. Já não tinha mais aqueles dezoito anos em que se sentia capaz de tudo. Já não tinha mais os dezenove em que achou que finalmente viveria sua história de amor. Já não tinha mais os vinte, quando se tornou mãe, e a partir daquele momento, deixou também de ser ninja.

Ergueu seus dedos formando o selo do tigre, o primeiro selo que era ensinado na Academia Ninja. Frente ao seu rosto, as unhas bem pintadas brilhavam, o cabelo perfeito se mantinha como uma moldura chique para o rosto sério, e num frenezi, seus dedos executaram todos os selos existentes com a precisão de uma kunoichi de elite, o chakra era manifestado com a astucia de alguém que sabia exatamente o que fazer.

Parou de repente, os dedos entrecruzados, os polegares se tocando. O selo secreto que permitia o uso do jutsu de sua família. Ino sentia a energia fluir por todo seu corpo, a consciência do chakra era absoluta, a mente pronta para ser transferida e dominar seu alvo, que diante daquele espelho, era ela mesma. Sim... Naquele momento, ela era seu próprio inimigo, porque não parava de pensar naquela sensação de mau presságio que a invadia.

Abaixou as mãos num apoiar delas na pia a sua frente, ainda olhando a mulher séria no espelho rachado. A Vontade de Fogo queimava no azul de seus olhos, qualquer um poderia ver, mas aquela chama deveria mesmo brilhar tão intensa? Ela deveria retornar? Quantos problemas isso não estava trazendo à Shikamaru, que já parecia estar lidando com alguma situação tensa.

Deixou o ar sair pela boca afastando seus pensamentos, terminou aquela faxina antes que percebesse, e por fim, restou apenas preparar aquelas marmitas para que o homem não morresse de inanição em seu desleixo habitual. A mente da mulher pairou no vão das memórias por um momento, a faca amolada rompia as fibras da carne vermelha, a visão daquela primeira missão como o time 10 lhe surgiu, o sangue escorreu na tábua de plástico que usava, Shikamaru, tão novo, sorriu daquele jeito contido quando finalmente derrotaram o primeiro inimigo, e o barulho firme da faca atingindo a tábua se dispersou no ambiente, dando lugar aquele outro ruido firme dos passos vagarosos.

Ino não virou seu rosto para vê-lo, concentrando-se na missão de tratar aqueles bifes e torná-los comestíveis, mas seus ouvidos treinados ouviam tudo. Os passos ficando mais altos, o roçar do tecido em movimento, o suspiro dado e até mesmo quando os ruídos cessaram naquele último de quem acabara de se sentar na almofada velha daquela mesa baixa, Ino ainda podia ouvir o silêncio. Ela sentia os olhos dele tentando se manterem no seu longo cabelo loiro, mas falhando em sua missão.

Não era incomum a falta de conversa em alguns momentos. Não era incomum que ele chegasse cansado. Não era incomum que ele não a quisesse ali.

O que era incomum, na verdade, era aquela sensação de que havia algo errado, e talvez fosse isso nublando seu juízo, mas Ino apenas continuou no seu afazer, esperando paciente pelo momento em que ele certamente abriria sua boca para lhe dizer qualquer coisa. Talvez compartilhasse seu problema. Talvez não. Ela não sabia, mas ficou ali torcendo para que o problema não fosse ela.

— Você tem que parar de fazer faxina aqui. – Ele disse de repente — Me sinto um explorador.

A mulher deixou uma risada escapar num balançar breve de cabeça. Não o olhou.

— Eu não faria se você fizesse.

— Quando eu tenho tempo, eu faço.

— Ter tempo é diferente de ter disposição, afinal, tempo você até tem. E use o cinzeiro, Shikamaru. Você não é mais uma criança.

Com o cigarro recém aceso na mão, Shikamaru se viu sorrindo com o canto da boca sem saber direito o motivo. Não olhava para as costas de Ino, porque nem naquela posição isso era fácil. Puxou a porcelana escura para perto fazendo um barulho extra naquele arrastar pelo tampo da mesa para deixá-la saber que tinha acatado sua ordem.

— Tava pensando no Chouji hoje. – Ele disse depois de um momento olhando fixamente para o canto da mesa de madeira, tendo Ino em sua visão periférica. — Me bateu uma saudade daquele biscoito de gengibre.

...

— Eu também tenho pensado bastante nele esses dias... – Ela riu brevemente num devaneio qualquer — Depois eu faço uma fornada pra você. Podemos até fazer uma visita ao túmulo dele e comer lá.

...

Sério, Shikamaru franziu o cenho diante da fala da mulher ainda com seu olhar na quina da mesa, de repente, sentiu a cabeça pesar e a deitou brevemente naquele momento de confusão. Por que ela sempre tinha que ser tão... tão... Afastou a mão que sustentava o cigarro e esfregou o rosto com a outra sugando o ar no processo. Ambos os cotovelos se apoiaram na mesa, as mãos se uniram num entrelaçar de dedos ao mesmo tempo que o homem encostava sua testa ali.

— A Sakura já te contou?

A voz dele surgiu diferente do habitual, quase com uma culpa contida, um receio estranho nas palavras cansadas enquanto a mulher selava aquele recipiente com carne tratada. As mãos dela ainda estavam no plástico rígido, seus olhos focavam aquela tampa num tom de rosa claro enquanto ela tentava entender o que estava acontecendo ali, o porquê daquele repentino estranhamento.

Shikamaru, no entanto, aguardava com suas mãos ainda unidas em sustento de sua cabeça pesada. Será que Sakura havia contado tudo? Ela tinha razão quando o chamou de covarde, ele pensou, afinal, deixou para voltar para casa só quando não restou nenhuma pequena pendência, usou o caminho mais longo, caminhou como se tivesse um problema na perna, tudo na expectativa de encontrar aquele casarão vazio, como sempre.

Mas não.

Ino estava ali, como sempre.

E agora ele não sabia bem onde estavam, o que ela sabia, o que ela não sabia.

Ele não se arrependia de uma palavra sequer que tivesse dito à mulher de cabelos cor-de-rosa, se pudesse, faria de novo e muito pior. Ele destroçaria Sakura naquela sala, a quebraria mais do que já era, a faria chorar como nunca antes ela imaginou que pudesse, mas ela era surpreendentemente arredia, estranhamente forte para alguém que tinha tantas feridas abertas. Nada do que dissesse funcionaria com ela. Nada a faria recuar, afinal, era do futuro de Ino que estavam falando.

A melhor amiga dela.

A melhor amiga dele.

Era justamente por isso que ele não se arrependia. Era por isso que ele faria ainda pior se significasse mantê-la segura, e ele queria poder dizer que passaria por cima de todos se fosse preciso, mas era mentira. Era uma linda mentira. Essa frase combinava muito mais com Sakura que fazia o que precisava fazer com coragem, ao contrário dele que remediava situações.

— Mas é claro que sim. Foi a primeira coisa que ela me contou. – Ino riu breve, nostálgica. — Acho que consigo os trinta por cento. Digo, ainda não sentei com o meu pessoal, mas não tenho dúvidas que vão todos votar a favor. Posso contar com os Akimichi, e também com os Inuzukas. Ah, tenho alguns amigos jounins soltos, como a Sakura, a Tenten, o Lee... E... Tem você. – Ela finalizou olhando por cima do ombro na direção dele — O líder do clã Nara.

A cabeça dele se ergueu bem a tempo, os olhos se encontraram naquele ambiente estranho em que raramente habitavam. Ainda havia aquela cautela incerta permeando os olhos de ambos por motivos completamente diferentes.

Shikamaru forçou um sorriso, que aos olhos de Ino, não pareceu muito feliz. Ela manteve sua expressão enquanto o avaliava, tentando entender de onde vinha toda aquela sensação que os envolvia naquela tarde que deveria ser de mais completa felicidade.

— Shikamaru, o que tá acontecendo?

Hesitante, ele desviou o olhar quando este foi intenso demais para ser sustentado, e num movimento vagaroso, depositou o cigarro naquele cinzeiro sobre a mesa antes de voltar a olhar para a mulher já virada completamente para ele em sua expressão confusa, preocupada.

— Os mesmos problemas de sempre – Ele disse de maneira vaga, tentando desviar a atenção daqueles olhos para algum outro lugar ainda que soubesse que jamais conseguiria. O olhar dele se desviou, e com aquele ar resignado, ele se levantou de maneira contida.

Alto.

Shikamaru era alto.

No uniforme ninja, o homem parecia até mais sério. O olhar dele era sempre preciso, afiado como a lâmina de uma kunai, analítico como nenhum outro antes dele foi. Shikamaru era um homem forte, esguio, e aquelas cicatrizes que surgiam a partir de seu pescoço o conferiam um ar ameaçador, mas não para ela, jamais para ela. Para Ino, Shikamaru era o mesmo garoto preguiçoso que bocejava sempre que recebia uma missão. Shikamaru era o menino que dormia nas aulas e se entupia de biscoitos com Chouji na varanda daquela casa.

Eles se olharam.

Baixa.

Ino era baixa.

Naquele avental acinzentado, ela nem parecia a kunoichi letal dos campos de batalha. Naquele azul dos olhos preocupados, ninguém poderia dizer que estavam diante da mulher que aterrorizou shinobis apenas com um selo de mão. A pele dela era perfeita, era visível a maciez, a viscosidade, nada parecido com o que esperavam de uma kunoichi que conseguia descobrir qualquer segredo.

O homem deu um passo na direção dela, mas a mulher permaneceu parada com uma mão apoiada na beirada da bancada de pedra, vendo o olhar dele hesitar em algum lugar do seu pescoço sem conseguir manter-se em contato com os azuis dos olhos dela, e naquele momento, Ino engoliu a seco.

— Eu tô sempre te dando problema, não é? – Ela disse de repente fazendo-o olhar para ela com uma brusquidão inesperada — Eu imagino que a Hinata não tenha gostado nenhum um pouco da ideia de me ter de volta no corpo ninja, assim como o Neji. Eu sei que eles já devem estar te atormentando a essa altura.

— Ino... – Ele soltou quase num sussurro como um pedido para que ela não continuasse, porque ele já sabia o que ela iria dizer. A conhecia muito bem a ponto de conseguir prever com tão pouco.

Mas ela apenas riu.

E não havia humor naquela voz, ao invés disso, havia uma frustração que ele odiava ver naquela voz dela.

— Eu fiquei tão feliz quando a Sakura me contou que nem mesmo parei para pensar no que isso tudo significava. Venho tentando não pensar, de verdade, porque... Quando eu penso em todo esse tempo que passei longe das missões, em tudo o que já aconteceu, e em todos os problemas que minha volta pode causar a você... Eu quero muito voltar. Eu quero muito, Shikamaru, mas... Será que vale a pena?

...

Não, não vale.

Era o que ele deveria responder.

Não vale arriscar sua vida e tudo o que você tem de preciso para estar lá fora se doando por algo que não existe. Não há nenhuma glória nesse trabalho, e ele nem entendia direito o porquê de se chamarem de ninjas, quando na verdade a palavra mercenários combinava muito mais com o tipo de serviço que ofertavam, porque era isso, eles matavam por dinheiro, morriam por uma Konoha suja com líderes cansados e população alienada que não merecia o sangue de alguém como Ino.

Konoha não merecia Ino.

Mas esse não era o real motivo por trás da sua resistência com o possível – e provável – retorno de sua companheira de time ao mundo ninja. Havia outras questões. Questões mais determinantes, e ele gostaria de dizer que estava sendo altruísta o suficiente para protegê-la de todo mal, mas a verdade era que Shikamaru estava sendo apenas egoísta, justificando a si mesmo com cumprimento de uma promessa velha feita no leito de morte de um homem que ele não se importava muito.

Deveria dizer a ela para não voltar. Deveria dizer a ela, com todas as palavras, que não valia a pena e aproveitar o momento de hesitação naquele passe que ela estava prestes a dar para impedir que continuasse naquele caminho. Era a oportunidade perfeita. Sakura tinha lhe entregado isso de mão beijada ao não contar sobre a conversa que tiveram, mas... Shikamaru era incapaz de fazer isso.

Mesmo sabendo que faria de tudo para impedir aquilo, Shikamaru era incapaz de jogar Ino ao escárnio das esperanças perdidas. Ele era incapaz de mostrar sua verdadeira face e expor suas verdadeiras preocupações.

Ele não merecia Ino.

Mas era a única coisa que ele tinha, e naquele ponto, ele sentiu que a perderia de todo jeito.

Só restava decidir como ele a perderia.

— A Sakura e o Kiba ficaram hora ontem falando das coisas que eu fiz no passado, contado daquela vez, você lembra? Na Vila da Chuva, quando eu entrei mente naquele polvo gigante que invocaram. Eu nunca vi o Inojin tão empolgado em saber sobre como o nosso jutsu funcionava, nas possibilidades. – Ela deixou uma risada escapar, o olhar se perdendo em algum lugar nos pés do homem, que parado, escutava solene — Eu nunca vi ele me olhar com aquele orgulho... Nós somos ninjas. Uma vez Sakura me disse que o coração do shinobi não muda, e eu vi isso no meu filho. O coração de um shinobi. O meu coração.

— Você não tem que se preocupar com nada disso. – O homem disse com seus olhos sérios — Dos Hyuugas cuido eu, você sabe. Treine um pouco se achar que está enferrujada, e não se torture com o passado, porque nada disso te define. Você nunca deixou de ser ninja, seu coração não mudou, é só com isso que você tem que se preocupar.

Covarde era uma boa palavra para definir Nara Shikamaru, que usou de toda a sua artimanha para dizer aquelas palavras tão firmes. Havia verdade na sua mentira, porque era assim que as boas mentiras eram contadas, rodeadas das verdades, e talvez alguns entrassem em choque quando percebessem que o homem em quem ela mais confia a estava enganando com tanta destreza, mas a verdade... Ah, a verdade...

A verdade é que ninguém engana Yamanaka Ino.

Ela se deixa ser enganada.

É ela quem se permite ser dobrada pelas bonitas palavras de Nara Shikamaru, não porque quer ser uma vítima, não porque não quer lutar pela verdade, mas sim porque confia. Ela confia no homem que dizia a pior das mentiras, enfeitando-as com as mais belas verdades.

— Você vai voltar. É tudo no que você deve focar e o resto... deixe que eu resolvo.

...

O sorriso nos lábios dela foi genuíno. Havia conforto ali, segurança. Ela deu dois passos cruzando a cozinha e seus braços o abraçaram com o amor que ele nunca esteve disposto a abdicar. O amor que sobrou. Shikamaru a abraçou também, tão baixa, tão pequena, ele a abraçou protetor sabendo que era ela quem o protegia de si mesmo. Ino era seu escudo contra os demônios que o assombravam. Os demônios da solidão.

A vida ninja era assim, solitária.

Laços, seu pai já dizia, eram necessários, mas sempre voláteis. A morte estava sempre a espreita, e senão ela, então a vida fazia o trabalho de desatar os nós. Para ninjas como eles que nunca conseguiam trabalhar com a certeza do amanhã, ter alguém precioso era o pior dos castigos, e quando esse alguém era vulnerável aos mais sórdidos ataques, então tudo ficava pior.

Ele mentiu olhando nos olhos dela.

A única coisa que ele ia resolver era aquela ideia absurda de que Ino retornaria, porque ele sabia, de certo sabia, que assim como os corações deles não mudaram, o de Neji continuava o mesmo. Ele sabia dos perigos, temia pelo destino. Era um covarde, sim, porque ele poderia quebrar qualquer um para protegê-la, exceto ela mesma. Ele era incapaz de destruir aquele sonho, aquela vontade, e só restava ao ninja incentivar sua única família, fingir que a apoiava, abraçá-la naquela comemoração íntima, sabendo que faria de tudo para aquele sonho jamais se realizar.

O coração do shinobi não muda.

Era nisso que ele confiava para saber que ela sobreviveria a decepção. Que a frustração não apagaria a chama de seus lindos olhos azuis, e que do mesmo jeito que ela se reergueu diversas outras vezes, Ino se ergueria novamente. Ela era forte, brilhante. Tudo o que Konoha não merecia. Tudo o que ele não merecia.

Ele mentiu.

Descaradamente, Shikamaru mentiu.

— Eu sei que você é Comandante dos Jounins, e que por isso não pega missões que não forem essenciais, mas... – Ela disse recuando brevemente para olhá-lo com aqueles belos olhos azuis, os mais bonitos que já viu — Quando eu finalmente for autorizada a pegar missões novamente, eu gostaria que você estivesse comigo na minha primeira se for possível. – Ela sorriu o mais belo dos sorrisos no mais genuíno dos pedidos — Como nos velhos tempos.

... .. .

— É claro, Ino. Somo Ino-Shika-Chō afinal. Sempre seremos.

As palavras a alcançaram produzindo aquela felicidade quase infantil de tão genuína, ela sequer notou o sorriso falso, nem prestou atenção nos olhos amargos. Ino se agarrou à confiança absoluta que tinha no homem, e sorriu o mais genuinamente que conseguiu antes de abraçá-lo novamente ainda mais apertado na tentativa vã de fazer aquela sensação de que tinha algo errado ir embora.

Mas ela não foi.

.

.

.

Na volta solitária para casa, o caminho parecia um pouco mais longo. Sua mente jazia um tanto mais em paz naquele caminhar distraído, onde os olhos enxergavam um caminho conhecido, e os pés executavam o comum trabalho de seguirem em frente.

Era uma tarde não muito quente, não muito fria, configurando o clima ideal para um dia sem grandes expectativas. Se na manhã do dia anterior era uma estranha certeza de que algo grande aconteceria, agora a sensação era de um dia meio cinza, sem grandes alardes, mas cheios daquelas pequenas coisas singulares que valem a pena serem lembradas.

Tinha as mãos nos bolsos enquanto olhava o horizonte sem realmente enxergá-lo. A paisagem já era tão familiar que lhe passava desapercebido, assim, aquelas casas de formatos diferentes, as cores castigadas pelo sol e chuvas das diversas estações, o calçamento mais antigo do que ele, e as árvores que perdiam suas folhas. Era outono. Tempo de permitir que as folhas caíssem para que, na primavera seguinte, novas brotassem em seus lugares.

Antes, entretanto, um longo inverno de solidão se estabelecia, e só então o novo nascia.

Ou renascia.

Espirrou quando o vento frio soprou mais forte, o nariz estava um pouco mais gelado do que desejava numa tarde como aquela, e foi Akamaru quem choramingou em seguida, num reclamar resignado de que não estava preparado para a friagem dos dias que se seguiriam. O homem suspirou em concordância, apesar de calorento, ele também não gostava muito de frio.

Seguiram juntos para desembocar naquela rua mais larga que os levaria ao seu destino final, a casa perto dos muros, mas antes tinham que passar por toda a divisa social das casas comuns para as casas dos heróis de guerra, os bibelôs de Konoha, os ceguetas... Os Hyuugas.

Surpreendentemente, naquela tarde fria, sentada na praça vazia, estava a única daquele clã por quem ainda tinha alguma consideração. Sentada em sua postura exemplar, as mãos sobre o colo traziam um ar de solidão. Hanabi era tão bonita quanto sua irmã, e quem não a conhecia até poderia dizer que seus modos eram tão refinados quanto, mas a verdade é que a garota sempre teve uma personalidade única.

Hanabi era extrovertida, espevitada. Gostava de conversar, falava alto, gesticulava em animação e gargalhava com vontade. Ele lembrava dela ainda nanica em seu choro atrás da irmã, lembrava dela um pouco mais velha no hospital, tratando da visão roubada com uma absurda resiliência. Não se deixou abater pela deficiência, e aceitou o destino que lhe encontrou com uma estranha naturalidade.

Kiba a adorava como uma irmã mais nova que nunca teve. Ter ela por perto o fazia se sentir um pouco mais velho, um pouco mais responsável, afinal, como filho caçula era sempre tido como mimado... No caso dele, ele sempre sentiu que Hana era a favorita de sua mãe, mas nunca se importou muito com isso, afinal, ele era o favorito da Hana, e no final das contas, ele tinha essa irmãzinha por tabela.

A irmãzinha que apesar de não ter mudado em essência, teve que se adequar a essa nova realidade imposta com roupas que lembravam os Lordes Feudais mais velhos e uma postura intensa de quem não precisa se misturar com todos os outros considerados inferiores, mas a visão do topo era solitária, ele imaginava quando a via naquele banco de praça.

Se aproximou com o ar relaxado deixando seus passos mais ruidosos de propósito. Foi Akamaru que, num claro ato de não se importar, a tocou na perna com a ponta do nariz, esperando que ela sorrisse no reconhecimento inconfundível da textura macia do pelo do cão.

— Quanto tempo, Akamaru.

— Hime-sama, você vai pegar um resfriado se ficar assim, de bobeira, numa praça vazia. – Ele disse ainda com suas mãos nos bolsos, mantendo aquela distância segura em reconhecimento do lugar inferior que fora colocado.

— Bobagem. – Disse maneando a mão ao vento — Estou bem protegida neste meu quimono.

— Não acho que ele cobre o suficiente do seu pescoço.

— Meus cabelos tratam de protegê-lo do vento – Ela retrucou rapidamente, dessa vez jogando os fios brilhosos para trás num gesto que soou divertido aos olhos do shinobi — E dito isso, espero que você esteja adequadamente protegido.

— Não se preocupe comigo. Estou com um casaco bastante quente, e eu não pego resfriados tão facilmente.

— É o que todos dizem. – Ela riu, porque a mesma resposta serviria para ela — Mas como você está? Me conta alguma novidade.

— Oh, uma novidade... – O homem ficou pensativo por um momento, soltando um longo ruido — Ah! Vou começar a treinar um novo cão, o Akemaru, para me acompanhar nas missões.

— É mesmo, o Akamaru teve filhotes, não é? Mais um grande ninja se aposentando... – Ela suspirou acariciando a cabeça do animal ao seu lado — Você merece um bom descanso, Akamaru.

— Ele vai descansar bastante, sim. Vou garantir uma boa aposentadoria para ele. – Kiba disse trocando um olhar com o animal, que tinha uma energia estranhamente leve — Mas e você, Hime-sama, tem alguma novidade pra mim?

— Você sabe que meus dias não são muito agitados – Ela riu — Mas Hinata-nee-sama me permitiu ter um jardim particular e agora eu sou uma jardineira amadora.

— O quê? – Ele compartilhou daquele ar zombeteiro dela — Você usa um avental e luvas?

— E tenho uma tesoura daquelas grandes também – A moça levantou as mãos para deixá-lo a par do tamanho — Mas não se preocupe, porque é claro que alguém me ajuda, senão meu jardim seria de barro remexido apenas, mas sinto que ele já está bem bonito.

— O que você tem plantado?

— Ervas para chá na maior parte, mas também plantei algumas flores. Eu não lembro direito como se parece a cor roxa, mas o jardineiro que me ajuda disse que são dessa cor.

— Hm... roxo... – Ele pensou um pouco — É como azul, só que meio vermelho.

Hanabi cobriu os lábios com a mão para tentar disfarçar a risada que surgiu.

— Não foi uma explicação tão ruim, vamos.

— Foi péssima, na verdade. – Ela riu sem piedade — Vamos lá, você consegue melhor.

— Tá... hm... Sabe mirtilo? A fruta.

— Sei.

— Roxo tem gosto de mirtilo.

...

A gargalhada explodiu na voz da doce Hanabi, que não se importou em moderar seu volume na praça vazia em que estavam. Ele sorriu na privacidade dos olhos sem luz de Hanabi, aproveitando daquele bom humor infinito, que logo se tornou uma zombaria discreta sobre a incapacidade do homem em explicar qualquer coisa que fosse. Conversaram por mais um longo momento, Kiba sempre mantendo aquela distância que os mantinham seguros em seus diferentes lugares, até que finalmente as vozes cessaram, restando apenas a contemplação do breve encontro.

Ele sorriu por um momento se sentindo estranhamente leve com o olhar de Akamaru, e então ele pensou sobre o passado, sobre quem ele era, sobre o que estava disposto a fazer e até onde queria ir por ela, Hinata. Olhando para Hanabi, Kiba pensou em Hinata, e então soltou um riso soprado quando se pegou querendo fazer aquela velha pergunta de sempre.

Não. Ele não a amava mais. Não havia esse tipo de sentimento, e ele não estava mais disposto a ir a lugar nenhum por ela, mas... Ela ainda era Hinata, não é? Podia não ser aquela garota por quem se apaixonou, mas certamente ainda era a mesma Hinata que gaguejava nervosa de anos atrás, apesar de não ser a mesma também... Era confuso, mas ele não se sentia assim.

Hanabi esperava tranquilamente em seu sentar refinado. Em silêncio, ela parecia como um daqueles Hyuugas cheios de empáfia, mas ele conseguia ver por trás daquele tecido que ela usava nos olhos, e só por isso ele se permitiu perguntar, sabendo que antes mesmo de ele entender, Hanabi já entendia.

— E a Hinata? Como ela está?

A moça sorriu gentilmente ao deitar sua cabeça sobre o ombro naquela imagem quase inocente, entretanto, dessa vez, Kiba não sorriu de volta.

— Nee-sama está como sempre. – Ela disse em suas palavras certeiras — Nada mudou no clã Hyuuga.

O homem concordou com a cabeça deixando as palavras já tão conhecidas se esvariem no tempo como se jamais tivessem sido ditas. Dessa vez, Kiba não sorriu amargo. Dessa vez, Kiba sentiu como se ele não tivesse mais nada a dizer, e havia esse vazio estranho enquanto ele olhava para a moça mais nova, descobrindo que talvez quisesse parar de perguntar aquilo sempre.

Talvez ele não se importasse mais.

Mas... era só um talvez.

Sem muito mais o que ser dito, Kiba se despediu da jovem moça antes que fosse abordado pelos guardas à espreita e continuou seu caminho ao lado de seu fiel companheiro. Passo após passo, com o frio suave deixando seu nariz um pouco mais gelado do que gostaria, Inuzuka Kiba continuou na direção de sua casa e não olhou para trás, mas se tivesse, encontraria Hanabi ainda sentada aproveitando o ar fresco de um território neutro.

Mais que isso, Inuzuka Kiba encontraria a rua pacífica em uma estranha sensação de um vazio melancólico, mas não era o vazio da falta de pessoas, e sim um vazio mais profundo, como daqueles onde as coisas que existem se esgotam. Se olhasse para trás, o homem das bochechas coloridas no mais genuíno vermelho veria o negro absoluto do tecido pesado, e mais ainda, ele veria o branco de sua pele que soava intocado, mas que ele já conhecia com suas mãos e boca.

Kiba conhecia aquela pele e todas as suas curvas. Ele conhecia cada centímetro daquele corpo ereto em sua postura perfeita que cruzava o espaço em passos dignos de alguém que nunca tinha pressa, porque não havia urgência no vazio melancólico das coisas que existem e se esgotam, Hinata sabia bem.

Alcançou a praça em seu caminho livre, cruzando a trilha de lajotas para chegar ao banco ocupado pela moça mais nova, também ereta numa postura impecável. Sentou-se ao lado dela em silêncio, ambas tão similares e tão diferentes ao mesmo tempo. O vento soprou e o cabelo castanho, quase preto, teve alguns de seus fios bagunçados, mas a moça não se importou, assim como sua irmã mais velha.

Contemplaram.

Hinata observou o horizonte e o céu em sua imensidão alaranjada enquanto Hanabi sentia o frio do vazio melancólico das coisas que existem e se esgotam. As irmãs Hyuugas contemplaram. E então, o toque suave dos dedos longos da mulher mais velha foram sentidos pela mais nova em seus dedos mais ásperos, e então as mãos se entrelaçaram num aperto gentil, e já não havia mais um vazio melancólico das coisas que existem e se esgotam, mas sim o vazio melancólico das coisas que se preenchem.

A mulher vestida com o quimono negro olhou para a jovem irmã ao seu lado, que ainda privada de visão, projetou seu rosto na direção da outra como se pudesse vê-la, e talvez pudesse, Hinata jamais descartaria a possibilidade dos olhos de Hanabi conseguirem enxergar a sua alma.

— Como ele está?

Era a pergunta que ela sempre ouvia.

— Acho que bem.

A outra respondeu com sua sinceridade, as vozes cessando para um daqueles momentos mais longos de silêncios confusos, onde o pensamento de alguém se perdia em algum lugar distante.

— Ele ainda pergunta por você. – Hanabi disse depois de um tempo, apertando os dedos da irmã naquele dar de mãos gentil.

O olhar de Hinata, para todos que passassem ali, era indecifrável. Muitos diriam que era frio como o mais alto pico, ou indiferente como a lua sempre a pairar no céu noturno, mas Hanabi, mesmo que não pudesse ver, podia sentir aquele olhar, e estranhamente ela quis rir, pois a única explicação que tinha era que sonhos perdidos tinham um gosto amargo.

Talvez roxo tivesse mesmo gosto de mirtilo.

...

— Hanabi, — Hinata chamou depois de um longo momento, o tom de voz mais baixo num sussurrar — eu tenho uma missão para você.

.

.

.

Era final da tarde quando a apertada cozinha naquela casa do centro cheirou deliciosamente bem. O forno foi aberto pela mulher, que com um pano grosso nas mãos, puxou a forma redonda da grade de inox que guardava o bolo de aparência fofa. O sorriso nos lábios surgiu animado com a perspectiva de ter acertado aquela receita de cabeça enquanto lembrava de uma música velha que tinha ouvido em suas andanças.

O desenformou com a maestria que não sabia que ainda tinha, encantando-se com a aparência da casca firme e plana. A calda já estava pronta, e era prudente esperar o bolo esfriar um pouco antes de jogá-la por cima, mas ela se sentia com um bom humor estranho naquela tarde de outono, envolvendo-a numa sensação de que era capaz. A calda caia em sua textura brevemente espessa, o chocolate se espalhava no escorrer por toda a superfície quente e plana, escorrendo pelas laterais de um jeito bonito.

Não podia negar a satisfação em ver o brilho da calda perfeita, quase optou por deixá-lo daquela maneira, mas resolveu que queria mais tons ali em cima. Trilhou um caminho com aquelas bolinhas de chocolate colorido formando caracteres específicos enquanto murmurava aquela canção não muito animada, mas que não saía de sua cabeça.

Foi na primavera que passou por aquele vilarejo ao norte, Tsunade usava vermelho numa rara mudança daquele haori verde. Tomou o melhor dos chás, uma erva tão doce que parecia um crime adoçá-la, mas alguns ainda o faziam. Lembrava dos cabelos claros do rapaz que lhe piscou um olho travesso, e sem conseguir sustentar o flerte, desviou envergonhado. Ela era tão jovem. Tão ingênua.

As palavras de Tsunade eram um incentivo, mas ela era tímida demais para uma iniciativa. Naquele tempo, pensar em garotos era se sentir mal com seu próprio corpo. Não se achava bonita, nem mesmo simpática. Não tinha atributo nenhum além de sua disposição para o trabalho, o que não era muito relevante no campo do romance, ou mesmo da sedução, mas aquele garoto deve ter visto algo em seus ombros curvados e testa gigante.

Talvez fosse o mesmo que Shisui viu, já que se esbarraram naquele mesmo lugar, pouco antes de Tsunade resolver seguir com a viagem. Ele era popular e bonito. Tinha aqueles olhos irresistíveis, o sorriso gentil, e parecia sequer dar-se conta do apelo que tinha com todas as garotas da vila. Ela riu quando o viu tropeçar naquele caminhar em sua direção, como se não fosse um ninja de elite já com tão pouca idade.

Mas não era essa memória que lhe invadia.

Não.

Era do rapaz de cabelos claros que lhe piscou um olho. Era da música não tão animada. Era do chá, tão doce... E ela adorou o tom de vermelho do haori de sua mestra, quase querendo um igual para si, mas tímida demais para pedir. A verdade é que Sakura gostava de haoris. E de chás doces. E de música.

Ela gostava de bolo.

E quando terminou sua decoração atenta, Sakura sorriu satisfeita para o seu trabalho num admirar gentil do cheiro bom que exalava pela casa, da calda brilhante e da decoração. Sorriu porque lembrou-se com perfeição daquela receita, conseguindo reproduzir todo o processo mesmo após anos sem sequer tocar em farinha de trigo. Foi só depois de um momento que ela resolveu arrumar toda aquela bagunça e deixar o bolo esfriar, mas só um pouco, porque Sakura também gostava de bolos quentinhos.

Quando colocou o último prato no escorredor, a mulher olhou por cima do ombro com um ar divertido num fazer manha atípico de sua personalidade. Viu a loira que entrava arquear a sobrancelha intrigado com a recepção. Sakura girou com seus cabelos cor-de-rosa levantando brevemente pelo movimento.

— Bem-vinda ao lar, minha kunoichi.

Ino deu uma breve risada antes que Sakura esticasse os dois braços na direção do bolo na mesa, fazendo com que ela o olhasse daquele jeito curioso antes de ler a inscrição feita com bolinhas de chocolate colorido.

"Ino melhor kunoichi"

O riso escapou fácil em seus olhos cansados e corpo meio mole. Os ombros caíram em sinal da lerdeza que a invadia naquela tarde de outono tão estranha, piscou devagar antes de mirar a mulher de olhos verdes com aquela expressão animada que se sustentava naquele sorriso, e ali ela se demorou um pouco mais para absorver uma mínima fração do bom humor da outra, mas no brilho daquele olhar, Ino soube que ela tinha notado.

Sakura sempre notava.

Abaixou a cabeça e deixou aquela risada soprada lhe escapar novamente, sentou-se à mesa evitando contato visual com a mulher à sua frente enquanto, de maneira quase natural, passou o dedo na calda que se acumulava na beirada do prato, colocando na boca para sentir o gosto do chocolate se espalhar.

— Foi você quem fez? – Perguntou antes de olhar para a amiga, que ainda parecia animada o suficiente, apesar daquele notar. Será que ela deixaria passar? Será que estava disposta a fingir que não sabia? Porque Ino estava. Ino estava disposta a não falar de seus problemas.

— Sim. – Sakura respondeu apoiando ambas as mãos na mesa, que ainda estavam meio úmidas por conta dos pratos recém lavados — O chocolate é de vosso agrado?

Ino riu daquela formalidade fajuta.

— Está muito a contento. Parabéns pela calda. – Respondeu tentando manter aquela pose formal, falhando quando o dedo se arrastou novamente pela borda do prato num pegar de mais daquele chocolate.

— O bolo está ainda melhor, confie em mim. — Jurou num virar rápido para pegar aquela faca maior na gaveta, e Ino até pensou em pedir que ela pegasse a espátula apropriada, mas resolveu que não era relevante. A faca de cortar peixe seria o suficiente. Serviria.

— Ah, eu confio. Você é a melhor boleira dessa Vila. – Disse partindo o bolo bem no meio daquele melhor escrito na superfície — O Kiba não quis ficar pra comer junto?

— Oh, não... Eu só comecei a fazer o bolo depois que ele saiu. – Deu os ombros — Ele disse que tinha alguma coisa com a Hana hoje, não pôde ficar muito mais, aí quando eu fiquei sozinha, meio que bateu a vontade de fazer esse bolo.

— Lembra de guardar um pedaço pra ele. Pega um prato?

— Ah! Claro! Toma.

Quando a fatia tocou a porcelana, as duas perceberam o quão fofa estava a massa, mas não do tipo que empapa na boca, mas do jeito certo. Ino cortou um pedaço com a mesma faca grande antes de colocar na boca. Ainda estava um pouco quente, mas apenas o suficiente para aquecer o corpo numa tarde de outono, e o sabor breve de laranja dominou o paladar da mulher, que nostálgica, lembrou-se de uma época que parecia ter acontecido há séculos, mas que tinha sido praticamente ontem.

— Isso tá ótimo, Sakura – Ela disse de maneira genuína, sorrindo para a amiga que lhe sorria de volta de um jeito tão gostoso. Havia um tipo de felicidade naqueles olhos que raramente estavam ali, e Ino quase conseguiu contagiar-se por aquela sensação. Quase.

Mesmo que Sakura soubesse que havia uma inquietação em Ino, ainda assim, ela conseguia lhe dar esse olhar cheio de uma felicidade inocente por algo que não tinha muito a ver com ela, e que provavelmente não mudaria em nada a sua vida, mas lá estava ela lhe fazendo um bolo tão gostoso como a muito tempo não fazia, e sorria daquele jeito tão leve, como poucas vezes conseguia, enquanto a assistia comer apenas um pequeno pedaço do bolo de laranja com chocolate que havia feito.

— Tá muito... bom... – Ela disse deixando a cabeça pender para baixo, apoiando-a nas costas da mão que usou para colocar aquele pedaço na boca. A voz falhou naquela súbita vontade de chorar que lhe escapou antes mesmo que pudesse controlar.

Fazia quantos anos que não chorava daquele jeito? Fazia quanto tempo que o cansaço a vencera como estava fazendo naquele fim de tarde em sua cozinha cheirando a bolo de chocolate com laranja? Fazia quanto tempo que Sakura lhe tocou daquele jeito, puxando-a para si naquele abraço tão aconchegante quanto o gosto do bolo quente que ainda estava em sua boca?

Ino chorou da mesma forma que chorou anos antes naquele sofá velho quando contou a Sakura que estava grávida. Naquele tempo, sua barriga ainda era modesta nos poucos meses de gravidez e sua amiga, cedida ao vício, não notou o brevíssimo ganho de peso que fez Ino abdicar seus croppeds. A verdade é que não era a barriga que incomodava, mas sim o significado daquilo.

Carregava em seu ventre o filho de um espião.

Contou para Sakura com coragem, olhando diretamente naqueles olhos verdes dilatados, sabendo que sua melhor amiga precisava urgentemente de ajuda, mas Ino não tinha como ajudá-la. Não daquele jeito. Naquele momento, Ino só tinha coragem para contar a Sakura e esperar a reação comum de todas as pessoas ao seu redor... O choque, a indignação, a desconfiança e até mesmo certo desprezo.

Era assim que as pessoas a olhavam quando o escândalo surgiu. É claro que a filha espevitada dos Yamanaka iria se desgraçar desse jeito, diziam as pessoas, criada com muita liberdade. Muitos se afastaram, é claro. Outros apenas a olhavam com pena. Foi Shikamaru quem sugeriu, de maneira muito contundente, que ela deveria fazer um aborto, e não podia julgá-lo por isso, afinal, tudo se resolveria se ela apenas arrancasse aquele embrião de dentro de si e apenas fingisse que nada aconteceu.

Sem a criança, eventualmente as pessoas esqueceriam.

Da maneira mais racional possível, era exatamente o que ela deveria fazer. Era o que todos esperavam que ela fizesse.

Naquele dia em que contou para a sua amiga, que ainda estava vestida no uniforme da ANBU, Ino esperou que Sakura lhe dissesse a mesma coisa. Elas eram amigas afinal, Sakura lhe conhecia como se fosse a própria casa, e sendo assim, tudo o que a mulher com a tantō nas costas faria era em prol da sua segurança.

Do seu bem-estar.

Mas aí, naquela face já tão conhecida, nem mesmo a sensação agitada das pílulas foi capaz de camuflar o sorriso tão leve que brotou. Ino não entendeu absolutamente nada quando o viu surgir, achou que Sakura não tinha entendido absolutamente nada, estava zombando de si, ou até mesmo drogada demais para processar as informações, mas... não era isso.

Não era nada disso.

Como se fosse um livro, Sakura a leu num desvendar suave de suas entrelinhas e naquele sorriso gentil que lhe ofertou, Ino viu pela primeira vez que carregava no ventre não o filho de um espião, mas um filho seu; e mais que isso, naqueles olhos verdes, quando nem ela se permitia sentir algo que todos julgassem tão impróprio, viu Sakura feliz pela sua felicidade.

Porque sim... Por mais que o pai dele fosse um espião que talvez a tenha enganado por tanto tempo, e por mais que sua vida fosse mudar completamente, aquele filho era fruto do amor de Yamanaka Ino. Aquele garoto era fruto dos seus sentimentos sinceros e era só isso o que importava.

Foi isso que viu no sorriso de Sakura.

Foi isso o que Sakura viu nos olhos azuis de Ino.

No bolo de laranja com calda de chocolate, os caracteres tortos da decoração infantil lhe diziam aquilo que já sabia, mas foi nos olhos de Sakura que encontrou a felicidade que procurou nos olhos de Shikamaru mais cedo e não achou. Nos braços dela, encontrou a certeza genuína de um seja bem-vinda de volta, e no cheiro do bolo de laranja encontrou o aconchego.

Ino chorou do mesmo jeito que chorou quando Sakura a abraçou naquele outro dia.

Não houve o proferir de uma só palavra. Não houve nenhum ruído além do choro mais alto da mulher de loiros cabelos enquanto a outra a amparava em seus braços quentes. Era outono. Já estava um pouco frio e Ino não gostava de usar casaco, tinha se acostumado com a pele meio gélida naquela época do ano, mas gostada daquele tipo de calor aconchegante misturado com o conforto suave do cheiro do xampu dela.

Sakura a conhecia tão bem.

E Ino sabia que ela estava escondendo alguma coisa também, mas não como Shikamaru. O que Sakura escondia era diferente, ela tinha certeza, como naquele mesmo dia em que ela saiu dizendo que ia dar tudo certo, e na manhã seguinte não havia mais nenhum Hyuuga em seu telhado. As coisas que Sakura escondiam nunca ficavam muito tempo debaixo do tapete, porque tudo o que ela fazia era para a sua mais absoluta felicidade.

Com Shikamaru, no entanto, Ino nunca soube o que ele escondeu debaixo do tapete anos antes, e a poeira logo acumulou. Não cabia esconder mais nada, ela sabia. Ino sempre sabia. Mesmo assim, ela escolheu confiar, porque no final tudo o que ele fazia era para o seu bem também, não é?

Mas estar bem não é estar feliz.

...

— Vai ficar tudo bem, Ino – Sakura disse num sussurro — Mal posso esperar para lutar ao seu lado de novo.

Era tudo o que ela precisava escutar.

Era tudo o que ela esperava escutar, mas não de Sakura, é claro, e talvez por isso tenha sido tão especial quando ela disse. Tão sincero.

Talvez por isso Ino finalmente conseguiu se livrar da sensação de estar incomodando a todos, de estar sendo um estorvo novamente com suas questões intermináveis. Sakura não parecia cansada, e até tinha cozinhado um bolo, algo tão raro... Sakura não parecia cansada.

Sakura parecia disposta.

Feliz.

Então Ino apenas confiou naquelas palavras tão honestas dos olhos mais verdes de toda Konoha. Como alguém podia ter olhos tão brilhantes? Parecia um crime. Sakura tinha essas cores bonitas, vivas. Foi isso o que Ino pensou quando a mulher recuou brevemente, enxugando suas lágrimas com os polegares com aquele sorriso leve ainda em seus lábios.

Ino sorriu.

Constrangida, feliz. Ino sorriu.

.

.

.

O sol nascia mais tarde naquela época do ano, mas ainda era só o começo do outono, por isso não estranhou quando viu os raios luminosos saírem por detrás das nuvens quando acordou. Estava bem cedo, é claro, mas gostava de se manter pontual, como seu pai. Tomou um banho mesmo sabendo que iria passar a manhã suando pelo excesso de movimento, comeu alguma coisa leve, não queria o estômago pesado, e então saiu de casa com aquela camisa azul escuro com linhas grossas nos ombros.

A camisa era velha, ele tinha que admitir. O tecido já estava gasto, e havia rasgos ali e acolá, mas ele não iria para nenhum lugar importante, então resolveu que era adequado usar aquela camisa meio pequena que tinha desde quando era um genin. Oh, sim... Era uma roupa muito velha, mas ele guardava de recordação, usando às vezes para treinar um pouco.

Enfiou a mão nos bolsos da calça larga do uniforme ninja e continuou andando pela Vila pouco movimentada. Não teve pressa, estava dentro do horário. Cumprimentou alguns feirantes, viu uma mulher rechonchuda passar com uma bacia enorme na cabeça e outra mais magrinha atrás com dois cestos de palha, havia uma criança bocejando com ela e isso fez Kakashi soltar uma risada.

Ele também estava com sono, mas reprimiu aquele bocejo ainda que ninguém o fosse repreender.

Estava frio, mas não tanto. Enquanto caminhava, pensou nos casacos que tinha no guarda-roupa, fazendo uma nota para lavá-los antes que o frio pesado começasse, porque odiava o cheiro de roupa guardada há tempo demais. Também pensou nas meias que tinha e sabia que muitas estavam com o elástico gasto, e foi só ai que a voz de Yamato surgiu em sua mente num lembrete: compre roupas novas.

Fez uma careta e depois riu. Ele não precisava de roupas novas porque raramente saia, então não tinha necessidade de estar tão arrumado, mas é, as meias ele iria comprar, definitivamente. Gastar dinheiro a toa não era com ele, por isso ele preferia deixar que as roupas ficassem bem velhas, quase inúteis, e só ai comprava mais – sem excessos.

O cheiro do orvalho conseguiu transpassar o tecido grosso de sua máscara, mas desse tipo de cheiro Kakashi até que gostava. O vento balançou seus cabelos, que estavam meio sujos, afinal, fazia dois dias que não lavava. Bem... Não que ele fosse um imundo, como Obito, mas achou que seria um desperdício lavá-lo no dia anterior sabendo que teria que lavar novamente no dia seguinte.

Era melhor deixar meio sujo.

Na real, tava limpo, só não tinha mais o cheiro tão forte do xampu, e era isso o que o incomodava, porque ele gostava de estar cheirando bem. As roupas podiam ser velhas, mas o cheiro era de novo.

O campo de treinamento três era cativo do time 7, ele já sabia. Seu pai sempre levava os três genins para lá, e depois Naruto também os arrastava até lá sempre que podia, por isso ele foi direto para aquela rocha próxima a uma árvore, sentando-se à sombra da folhagem enquanto sentia a brisa calma carregar o cheiro do orvalho direto para seu nariz.

Depois de meia hora, ele acabou se deitando na pedra depois de tirar bainha de couro com a tantō nas costas e colocá-la ao seu lado. Fez os braços de travesseiro e resolveu que poderia tirar um pequeno cochilo, afinal, ele já sabia que ela se atrasaria, mas gostava de se manter no horário. Fechou os olhos.

Normalmente, diz-se que quando os olhos se fecham é a escuridão que se vê na forma de algo imenso e preto. Algo assim... Mas quando você fecha seus olhos de leve, sem apertá-los, e está num lugar claro o suficiente, a verdade é que você algo como vermelho, que às vezes pode ser meio alaranjado, ou até mesmo meio rosa. No caso dele, era alaranjado.

Abria o olho de leve quando notava o movimento mais brusco da relva, e fechava novamente quando percebia ser só algum animalzinho procurando alguma coisa. Um pássaro voou logo acima de si, provavelmente atrasado para sua migração, mas ele não sabia que espécie era aquela. Uma hora se passou meio rápido, meio lento. O sol estava um pouco mais forte e qualquer pessoa em sã consciência já teria ido embora.

Mas ele ficou.

Ficaria a manhã toda deitado naquela pedra, com os olhos fechados em sua preguiça, pensando em nada objetivamente, quase numa meditação. Ele sentia seu próprio corpo trabalhar, o coração bater, o chakra circulando por todos os lados, e nesse sentir-se, mais meia hora se passou.

Tudo bem.

Passou a mão no rosto quando sentiu algo como uma formiga subir pelo seu rosto. As danadas estavam ficando cada vez mais ousadas, ou talvez achassem que ele estava morto, afinal, mal se mexia. Já tendo tirado a mão de sua posição como travesseiro, ele abaixou a máscara negra que vestia num gesto displicente e coçou seu rosto. O cheiro da mata invadiu suas narinas, porque em seu relaxamento, ele esqueceu de bloquear com chakra, mas foi só por isso que pôde sentir, na brisa suave que o tocou, o cheiro doce escondido por debaixo tantos outros aromas.

Abriu os olhos.

Sakura bocejava enquanto caminhava na sua direção com cerca de duas horas e pouco de atraso.

Ele a olhou por um momento, registrando o cabelo levemente mais longo do que naquele dia em que a viu naquele campo de treinamento pela primeira vez, e estava também com uma blusa verde três quartos e um short colado. A cartucheira não estava na perna, também não viu a bainha da tantō, mas percebeu o breve pedaço de pele que aparecia entre as botas de cano alto e o short preto colado.

É, ela não usava a sandália ninja comum, tipo a dele. A dela tinha um cano que ia até abaixo do joelho, e parecia ser resistente o suficiente para aguentar algumas pancadas. Dizem que as mulheres gostam de manter suas pernas perfeitas, sem cicatrizes, e para alguém como Sakura que tinha pernas tão bonitas, ele imaginou ser normal querer protegê-las um pouco mais.

Ela se aproximou e ele logo se sentou num curvar de costas esperando que ela desse aquele outro longo bocejo antes de começar a falar.

— Foi mal – Disse fungando com o nariz, mas não se deu ao trabalho de explicar o motivo do atraso. — Acho que exagerei no horário.

— Tudo bem.

Sim, tudo bem, porque ele sabia que mais cedo ou mais tarde ela iria aparecer.

O que ele não sabia é que Sakura tinha acordado exatamente na mesma hora que ele, mas ficou na cama ao lado de Ino, olhando para o teto num mar de pensamentos. Por que tinha aceitado treiná-lo? Onde ela tava com a cabeça? Quase não se levantou, porque se achou uma louca. Ela não tinha nada para ensinar a ele.

Passou cerca de uma hora completa se torturando entre o desejo de simplesmente fingir que esqueceu e comparecer para lhe dizer que tinha sido um erro. Não passou se passou pela sua cabeça treiná-lo realmente, mas foi só quando entrou no banheiro do andar superior e deixou seus olhos encararem o reflexo da mulher ali que Sakura cedeu, porque ainda que não soubesse o motivo pelo qual tinha aceitado aquilo, ela percebeu que... talvez certas coisas não precisem de um.

... No final das contas, ela achou que seria interessante descobrir, e isso só aconteceria se ela o treinasse de fato.

E agora ela estava ali, de pé, perto da pedra onde ele havia cochilado durante as duas horas e meia que ela levara para decidir se o iria treinar parecendo não ter considerado apenas ir embora. Ele esperou. Talvez esperasse até mais. Ela não sabia.

Achou que não queria saber.

...mas a dúvida continuava ali, sorrateira.

— Senta direito – Ela disse cutucando o meio das costas dele, e quase por reflexo, ele arrumou a postura num arquear de suas costas. Sakura deixou uma risada escapar quando ele a olhou com surpresa.

Ok, Kakashi poderia ser divertido.

Foi o que Sakura pensou naquela expressão dos olhos escuros, mas o que não sabia é que sua diversão podia aumentar absurdamente se soubesse que ele havia ficado brevemente corado por tão pouco. Ele não estava acostumado com toques dos outros, e ela só o havia tocado uma vez para curá-lo com aquele chakra quente e verde e outra quando ele a interrompeu na floresta, dias atrás.

Os chutes e os socos do treino, ele não contou como toques válidos.

Mas aquela cutucada foi tão... aleatória. Tão desnecessária que soou até um pouco... íntimo? Afinal, ninguém cutuca uma pessoa que não tem intimidade daquele jeito tão abusado.

O garoto pigarreou.

— Você não trouxe a sua tantō.

Não era uma pergunta, mas precisava de uma resposta. Ela deu os ombros minimamente antes de passar a mão nos cabelos, parecia pensar um pouco, mas nada muito profundo. A expressão dela era tranquila, mas um pouco distante, e demorou um momento para que ela o olhasse.

— Não vou precisar. – Parecia indiferente, mas a verdade é que havia algo a mais por trás, só que Kakashi não perguntou. — Você tem uma kunai aí?

— Sim – Enfiou a mão na cartucheira e lhe passou uma. Quando ela pegou o metal pesado pelo cabo, seus dedos encostaram nos dele por um brevíssimo segundo. Nenhum dos dois registrou esse toque, mas ele notou o olhar dela enquanto analisava a lâmina afiada.

Ela notou também que Kakashi a olhava, mas dessa vez, aquilo não lhe causou nenhum tipo de ansiedade.

— Mostra aqui a sua tantō. – Pegou a pequena katana quando ele a ofereceu, pendurando a kunai no dedo indicador da mão esquerda.

Sakura desembainhou a espada com cuidado, olhando a lâmina deslizar pela bainha de couro antes de finalmente erguê-la para o céu. Kakashi a observada girar a arma de um lado para o outro, as vezes realizando alguns cortes no ar que produziam um silvo mais longo. Ela não era tão alta, e suas mãos eram pequenas, mas ela empunhava de forma exemplar, fazendo todos aqueles movimentos parecerem intrínsecos.

Não podia negar, ela era boa com aquela arma.

Mas isso ele já sabia.

— O artesão fez algo bem decente aqui – Ela disse satisfeita — É uma boa lâmina, a empunhadura é bem firme, mas... É muito pesada. – Riu — A minha é bem mais leve.

— Eu pedi assim. – Ele explicou recebendo um olhar curioso — Toda vez que eu jogava ela, ela acabava desviando um pouco. Eu sei. – Kakashi se adiantou quando viu que ela iria dizer algo óbvio — Eu tava colocando muita força, mas achei melhor mudar o peso dela a ter que me acostumar com lançamentos mais fracos.

— Teu pai ia querer te matar – A mulher disse de repente, o sorriso alargando com o pensamento. — Céus, você passou quase uma semana inteira com isso nas costas naquela última missão. Agora eu entendo porquê você só vive curvado.

O rapaz maneou a cabeça com um dar de ombros mínimos, praticamente lhe dizendo que não se importava com isso. Ela quis rir daquela expressão dele, tão preguiçosa, que sequer parecia com algo que surgia em seu rosto com frequência, mas resolveu apenas manter aquele sorrisinho divertido nos lábios ao invés disso.

— Você faz essa cara pra mim, mas é justamente o peso dela que provoca as aberturas óbvias dos seus ataques. O equilíbrio tá todo errado, e a culpa não é exatamente sua, mas sim da arma pesada. – Ela explicou enquanto levantava e abaixava a arma de maneira negligente, medindo seu peso — Eu sei que a lógica é a arma se adequar ao portador, mas a verdade é que existe um certo limite pra isso, senão você acaba descaracterizando a arma.

Não desviou o olhar dela, prestando atenção no jeito que os ombros femininos se moviam naquela explicação, o jeito que a mão se apoiava na cintura com naturalidade... Ainda eram os mesmos trejeitos que tinha visto das outras vezes que estiveram juntos, mas agora havia algo diferente. O jeito com que ela falava, as palavras... Tudo parecia... Diferente.

O quê havia mudado?

Todas as vezes que se viram desde o retorno dela à Konoha, Sakura parecia inquieta, é verdade. Ela parecia estar nos lugares com um enfezamento transbordante, fazendo parecer estar ali por mera e pura obrigação, mas naquele momento, entretanto, com aquelas roupas meio casuais, Kakashi enxergava a diferença.

Sakura parecia mais leve.

— Você vai dizer que a minha arma não presta, né? – Perguntou depois de um momento, vendo-a sorrir sem nenhum remorso. Ele fechou os olhos num suspiro. — Sabe, essa aí foi um pouco cara.

— Ah, eu imagino que sim, – Ela disse divertida — mas não tem jeito, Kakashi: Você vai ter que comprar uma nova e treinar um pouco mais para se adaptar ao peso mais leve.

No devolver da tantō, seus dedos se tocaram novamente, mas novamente nenhum deles registrou aquilo. Não houve um sustentar de olhar também. Kakashi apenas ficou olhando para a empunhadura um tanto gasta de sua arma já muito usada num considerar das palavras da mulher, entretanto, foi tirado dos seus pensamentos quando ouviu aquele ruído característico do espreguiçar.

Foi nesse momento que ele olhou para Sakura vendo-a esticar os braços acima da cabeça. Ela tinha um nariz arrebitado, ele percebeu, e suas orelhas eram furadas apesar de não usar nenhum acessório ali. Desviou o olhar quando percebeu que ela iria abrir seus olhos com aquele ruído de satisfação.

Quando olhou a espada novamente, Kakashi já não pensava sobre ela.

Ele pensava sobre Sakura.

— Então... Nosso treino acabou? – Ele perguntou sem seguida naquele tom de voz indiferente que lhe era habitual, mas a verdade é que Kakashi se sentiu um pouco... decepcionado, percebendo por tabela que tinha ficado animado com o treino.

Mas ele não a deixou perceber o isso.

Bem, pelo menos tentou, porque ela percebeu.

— Eu devia ter trazido a minha – A mulher suspirou — Mas... eu não sei onde minha tantō tá.

...

Os olhares se sustentaram um no outro por um momento, Kakashi processando aquela informação com estranheza. Franziu o cenho para ela, deitando a cabeça levemente para o lado numa visível questão. Sakura deu os ombros, pouco se importando com aquela careta estranha com que ele lhe olhava.

— Como assim não sabe onde tá?

Ela não devia uma explicação para ele, principalmente quando ele se sentia tão à vontade para usar aquele tom de voz quase zombeteiro com ela. Normalmente, ela sequer se daria ao trabalho de responder, mas a verdade é que ela estava achando aquilo divertido. Não tinha um motivo para respondê-lo, mas também não tinha um motivo para não o responder.

E de todo modo, ela também caçoaria de alguém que perdeu a própria arma.

— Minha amiga guardou e eu meio que não quis acordar ela para perguntar onde tá. – Explicou vagamente, mas ainda assim ele apenas riu num balançar de cabeça, embainhando a própria tantō.

— Melhor eu guardar a minha antes que você a perca também.

— Ah, vai te catar, moleque. – Tentou soar séria, mas a verdade é que ela riu. Kakashi era tão sério em todas as vezes que se esbarraram, que era até estranho perceber esse lado zombeteiro dessa pessoa que costumava a encarar tão intensamente.

Ela se sentou ao lado dele naquela pedra, e ele se afastou um pouco para dar lugar a ela antes de guardar aquela kunai que fora devolvida também. Ainda era cedo demais e parecia um desperdício voltar para casa quando o clima estava tão bom. Sakura gostava dos outonos, porque era frio na medida certa, quente na medida certa. O vento soprou suave e os cabelos dela balançaram, Kakashi só pôde ver a lateral do rosto dela naquele olhar de canto, e achou bonito o jeito com que colocou aquela mecha atrás da orelha.

O silêncio pairou um pouco mais longo naquele frio suave e Kakashi se percebeu querendo dizer alguma coisa para quebrá-lo, mas não porque estava esquisito, não era isso. Ele queria que ela continuasse falando, mas ao mesmo tempo não queria continuar perguntando como se estivesse interrogando-a ou coisa assim. Era estranho, mas o bom humor dela lhe acuava mais do que aquele enfezamento.

Ela falava com ele parecendo tão tranquila. Tão leve. E ele quis perguntar o que havia mudado naqueles últimos dias que se passaram. Queria perguntar o que aconteceu com ela no dia que a encontrou no Distrito Uchiha, queria... Queria que ela falasse alguma coisa.

Mas ela só se sentou ao lado dele e olhou para o horizonte.

— Você já pode ir se quiser.

Foram as palavras dela depois de um longo momento vendo o sol se mover por trás da copa das árvores, fazendo uma sombra suave na relva tranquila. O dia estava lindo. A voz dela soou tão à vontade, tão...

Ele não queria ir.

— Você quer que eu vá?

...

Sakura sorriu com o canto do lábio achando graça da pergunta, e sua resposta foi apenas um dar de ombros genuinamente desinteressado. Ela não olhou para ele, mas ele estava com os olhos naquele rosto o tempo todo, absorvendo aquela expressão dela de uma maneira nova.

— Tanto faz. – A voz dela surgiu um tempo depois, juntamente com o projetar suave de seu rosto na direção do dele.

Verde.

Eram tão verdes.

E como a copa das árvores, seu tom era clareado pelos raios solares que surgiam por ali num firmar do tempo suave. Havia algumas nuvens, é claro, mas o sol estava ali em todo aquele verde, e ele conseguia ver claramente aquele brilho. Ele podia ver tudo.

Pela primeira vez, Kakashi desviou o olhar antes dela.

Pela primeira vez, Sakura não se inquietou com o olhar dele.

Talvez porque o brilho do sol fosse muito forte naqueles olhos verdes, talvez porque dessa vez foi ele quem se sentira exposto. Ele não saberia dizer, tampouco ela.

E novamente houve silêncio.

...

— Cadê suas cenouras? – Ele perguntou olhando para o céu, para o azul, onde era seguro. A ouviu rir baixinho naquela manhã tão diferente.

— Por quê? Tá com fome?

O mascarado hesitou com aquela resposta desleixada, o arquear da sobrancelha indagativo, o jeito com que ela parecia estar com um humor tão firmado... Aquilo o fazia sentir-se intimidado. Ela riu quando as respostas das perguntas nunca chegaram, e ele se sentiu um tanto idiota naquele dia.

Ele não esperava aquele bom humor, nem aquela conversa, nem aqueles olhos. Ele não esperava aquela manhã tranquila, nem a cutucada em suas costas, e também não esperava aquelas botas de cano alto.

— Só senti falta delas – Ele resmungou por fim, quase como se não quisesse ser ouvido.

Mas ela ouviu, e precisou de dois segundos para responder.

— Não preciso mais delas. – A voz era limpa, um tanto orgulhosa. Pelo canto do olho, ele viu que ela parecia contemplativa, e como se tivesse percebido, ela o olhou. — A fase mais complicada já passou.

...

Ah, é...

Sakura não explicou muito mais, afinal, aquele era Hatake Kakashi. Naquele olhar dele, ela teve a certeza de que ele sabia exatamente do que ela estava falando, e talvez até quisesse adentrar ao assunto mais profundamente, mas algo nele o fez recuar.

Só que ele não sabia, e jamais teria como saber, que ela até pensou em levá-las naquele treino apenas por precaução, porque estar na presença dele, daquele olhar, a deixava ansiosa. Ela nunca quis conhecê-lo porque não havia nada que pudesse acrescentar na vida dele, nem mesmo quando Sakumo era vivo. O garoto já nasceu com uma estrela na testa, sendo tudo o que ela jamais seria, e depois da morte do pai, ele estaria melhor com Naruto.

Na presença dele, entretanto, Sakura percebia que seus receios eram outros.

Antes, ela apenas não queria descobrir que eventualmente Sakumo teria um outro preferido. Um com o qual ela não poderia competir. Era meio triste descobrir, depois de tanto tempo, que sentia ciúmes de um bebê que nem falar sabia, mas Sakura resolveu ser boa consigo mesmo ao perceber aquilo, afinal, Sakumo tinha sido o primeiro adulto a lhe dar atenção, então era normal ficar tão... preocupada.

Mas aí ele morreu, e tudo isso ficou para trás.

— O que era aquele jutsu que você usou na missão? – Ela disse repentinamente, olhando para o mesmo horizonte. — Chidori, eu acho. – Completou quando o percebeu confuso.

Estavam conversando entre silêncios longos demais, e talvez nem pudessem chamar aquilo de conversa de fato, talvez fosse só um momento compartilhado. Um desses que eles se lembrariam como esquisitos, ou peculiares. Tudo bem. Nenhum deles se preocupou com o futuro naquele momento.

Era a primeira vez que ele se sentava com ela. Que eles conversavam. E tudo bem que aos olhos dos outros pudesse parecer estranho, porque aos deles não estava sendo. Naqueles longos silêncios entre as perguntas desconexas, havia anos de ausência, de curiosidade, de medo e frustração. Nos silêncios era onde Kakashi e Sakura se percebiam com mais intensidade, e nas palavras, eles desvendavam as entrelinhas.

— Ah, eu... Eu o inventei com base no rasengan do sensei. – Kakashi respondeu como se não fosse grande coisa — Como não dá pra colocar natureza elemental no rasengan, eu tentei umas coisas diferentes, e aí surgiu o chidori.

A risada fraca veio natural aos lábios dela, escapando com um som breve daqueles risinhos discretos. Ela tinha uma voz bonita na opinião dele, e ele queria que ela continuasse falando, porque ela parecia tão bem com aquele sorriso leve, e aquela expressão de felicidade era algo que ele não achava que fosse ver tão cedo.

— Acho que não preciso dizer que é um jutsu incompleto, não é?

Foi a vez da voz dele escapar numa risada. É claro que ele sabia.

— Sim. O Naruto-sensei fez questão de me dizer. – Ele riu — Mas em alguns momentos dá pra usar, tipo naquela hora.

— Bem... É um jutsu poderoso, bastante bonito também. Eu nunca vi nada igual.

Estaria mentindo se não dissesse que gostou do que ela lhe disse naquele contemplar de manhã. A voz dela era tão suave, tão comum, e tudo o que ela falava soava bonito. Não era exatamente os elogios, nem as palavras escolhidas... O que o fez gostar tanto daquilo era o jeito com que a voz dela chegava aos seus ouvidos.

Ela não tinha mais aquele ar enfezado de outras vezes, nem parecia tensa, ou mesmo acuada. Sakura parecia tão relaxada... E ele foi pego de surpresa nesse ar tranquilo que a envolvia, que o contagiava. Tudo o que ele queria é que ela continuasse falando sobre qualquer coisa. Ele só queria que ela falasse.

— Os outros dois estão bem?

A voz dela soou novamente sem esperar que ele agradecesse pelo que ela tinha dito, e Kakashi se sentiu um pouco idiota por estar esquecendo de convenções sociais tão simples. Agradecer um elogio era o mínimo, não é? Ele não queria ser rude. Ele não queria que ela o achasse rude, mas... ele só esqueceu.

Na verdade, ele só não conseguiu pensar no agradecer.

— Sim. Tão treinando muito desde a última missão. – Respondeu sem muito mistério, olhando para o chão dessa vez. Todos os lados eram preenchidos por algum tom dessa cor, e ele sentia que tudo era verde.

— Treinar sozinho só reforça seus erros.

Mas o cabelo dela era cor-de-rosa, com certeza.

— É... Eu sei. Por isso pedi pra você me treinar.

E naquela risada que ela deixou escapar, a voz dela também era rosa.

— Não sei se tenho muito para te ensinar, na verdade. Você é um ninja completo, até mais que eu. – Ela disse sem olhá-lo — Vi no seu arquivo que domina todas as transformações da natureza. Seu taijutsu é excelente, kenjutsu de alto nível... Suas habilidades são comparáveis a qualquer jounin de Konoha.

— Exceto aos ninjas do seu nível.

— Do meu nível, é?

O jeito com que ela falava o fez pensar que tinha dito qualquer besteira, mas depois, quando o olhar dela caiu para o lado e os olhos se encontraram, ele soube que a tinha levado para algum lugar que ela não costumava ir com frequência. Teve medo de que o clima bom se acabasse, teve medo de que os olhos verdes iluminados se fechassem para ele, mas não aconteceu, e ele conseguiu ver tudo através daquele olhar.

— ...não seja bobo.

Foi a única coisa que ela disse, e nem parecia uma censura. A frase foi solta do mesmo jeito que todas as outras, tão leve, tão tranquila. Sakura se divertia com cada palavra que saia da boca dele, não porque era engraçado, mas... A verdade é que quando Sakumo morreu, a criança traumatizada que era não quis ver o filho do homem que a tornou quem era por medo de perceber semelhanças demais.

Sim, Sakura teve medo de que ele fosse exatamente como Sakumo era.

Havia muitos medos entorno daquele menino de olhos tão escuros, mas que naquela luz branda do sol de outono pareciam um pouco cinza. Ela sorriu de canto para ele, quase cumplice, porque ela viu o quão boba ela mesmo foi por todo esse tempo. Kakashi não era nada como Sakumo. Seus olhos eram tão diferentes...

A jovem Sakura, anos atrás, não queria pensar em ter que lidar com a sombra que achou que Kakashi fosse ser. Não queria ter que lidar com o olhar magoado por ela ter falhado em matar Sasuke, causando por tabela a morte de Sakumo. Não queria ter que lidar com a perda de seu legado, porque não era seu de verdade. Era tudo de Kakashi.

Sim.

Ao lado dele numa manhã como aquela, Sakura conseguia entender porquê o negou por tantos anos. Ela teve medo que ele fosse mais um desses que queriam tirar tudo dela, ou melhor, que a mostrasse que ela nunca teve nada. Sakura não queria se perceber naqueles olhos, não queria sentir que estava roubando algo dele. Tudo o que ela queria era seguir em frente.

Se ele um dia a culpou, ela não sabia.

Um dia, quem sabe, ela descobrisse.

Mas ali, ela se permitiu aceitar todas essas questões e descobrir que nem mesmo ele poderia tirar Sakumo de si, porque tudo o que seu sensei a ensinou era apenas dela e somente dela.

— Sakura?

E meio que ela gostava de como ele chamava seu nome.

— Desculpa. – Ela balançou a cabeça brevemente, como se voltasse à realidade — Eu me perdi em pensamentos.

— No que você tava pensando?

Ela sorriu.

Ele corou.

— Que preciso ir pegar minha tantō.

— Será que sua amiga já acordou?

— Não essa... Uma outra tantō.

Kakashi franziu o cenho, mas ela estava lá sorrindo ainda como se o agradecesse.

— Você vai agora?

E aí a viu olhar ao redor, para o horizonte, para as árvores, para a relva... Ela olhou para o céu e pareceu suspirar. Aquilo era uma lágrima no olho dela? Ela parecia tão em paz.

— Acho que posso ir agora sim.

...

— É muito longe?

— Não. Na verdade, nunca esteve tão perto.

— Quer que eu vá com você?

— Não... É algo que eu preciso fazer sozinha.

...

Eles se olharam por um longo minuto e então ela finalmente se levantou sem dizer muito mais, mas ele permaneceu sentado na recente incapacidade de mover-se. Sakura passou a mão na bunda, limpando seu short preto, e então virou-se para ele.

— A gente se vê no final de semana, tudo bem? Se você não arrumar uma tantō a tempo, eu trago uma pra você.

— Sábado?

— Às 8. – Ela riu como se lembrasse de algo — Até depois, Kakashi.

— Tchau, Sakura.

...

Ele iria chegar às 7.

.

.

.

O frio era estranhamente acolhedor naquele meio de manhã de uma quarta-feira de outono, sua estação favorita. As ruas de Konoha eram as mesmas, mas as pessoas já estavam vestindo roupas mais pesadas. Passou por uma casa com um canteiro cheio de flores na frente sabendo que logo elas murchariam assim como todas as plantas que não resistem ao outono. Ela não entendia muito de flores, mas sabia que elas sempre voltavam a florescer na primavera.

Flores sempre voltam.

Quando alcançou o Distrito Uchiha, tudo era tão diferente daquela época em que só uma criança. Perambulou muito em todas aquelas ruas, principalmente naquela que levava aos casarões. Alguns Uchihas não gostavam da presença dela, porque ela não era uma deles, mas tudo bem, ela já estava acostumada com o sentimento de ser indesejada.

Ela lembrava de ver Sasuke várias vezes correndo atrás do irmão. Quando se encontravam, eles sempre se olhavam, mas quase nunca se falavam. Teve um dia que se encontraram no final da rua principal, ela já estava indo para o próximo bairro numa eterna andança por algo que pudesse distrai-la, e Sakura estava indo para casa com as mãos enfaixadas de tanto ter treinado. Naquele dia, Sakura recebeu um cumprimento respeitoso dele, com a cabeça.

Segurando a risada por dois quarteirões, Sakura explodiu num gargalhar depois daquele cumprimento, sabendo que ele estava treinando que nem um louco porque ela o tinha derrubado naquele treino de taijutsu. Sasuke sempre foi tão orgulhoso, e ser derrubado por uma garota que morava na rua...? Sakura riu, e depois percebeu que naquele cumprimento contido, Sasuke a reconheceu.

Mas aquele dia não era sobre Sasuke.

Não.

Aquele dia era sobre ela.

Então quando Sakura olhou aquela porta de madeira que dava acesso ao local que guardava tantas outras memórias, ela parou. Teve que limpar seus pensamentos, todos eles. Ela queria estar presente ali de corpo e alma, sentindo tudo o que aquela casa já não tinha mais a oferecer. Ela queria estar completamente imersa no que estava prestes a fazer, porque ela finalmente tinha entendido.

Tocou a madeira sentindo sua textura porosa e logo Shisui veio à mente com seu sorriso encantador, mas era estranho perceber que, de alguma forma, não doía tanto.

Sakura entrou no lugar precisando aplicar força extra na porta, e lá estava aquele sofá, aquele aparador, a poeira e também aquele vaso com flores caídas. Aquelas flores ali não voltariam a florescer, mas tudo bem, não era um problema. Abriu uma cortina, mas só um pouco, para a luz do sol conseguir tocar as paredes naquele tom claro, e naquela sala mais iluminada, Sakura franziu o cenho.

Sempre foi daquele jeito, tão grande? Era estranho, porque ela tinha certeza de que a casa não tinha crescido, mas então por que não se sentia sufocada como antes? Acabou soltando uma risadinha mínima em sua confusão aleatória. Tudo bem, que fosse grande. Ela não estava se importando tanto assim, mas era tão... tão... esquisito...

Não fazia tanto tempo que tinha estado ali, não é? Ela ainda lembrava das sensações sufocantes que se acometeram, mas agora, naquele momento, Sakura se viu tão... limpa. A mulher via tudo com tanta clareza, e os móveis eram móveis, as paredes eram só paredes, e aquele porta-retrato no aparador era... Era só uma memória. Tirou o bilhete com aquela frase pequena escrita à mão na letra inconfundível de Shisui, mas o sorriso em seus lábios não era pela lembrança do dia em que recebera aquilo. Não.

O sorriso era pelo seu próprio bom humor.

Olhou para a foto daquele casal apaixonado, e quem diria que naqueles olhos tão bonitos de Shisui estaria a maior das sacanagens? Tudo bem, homem não presta mesmo. Colocou o indicador sobre o rosto da moça ao lado dele, deslizando pelo retrato de felicidade que ela estampava em sua expressão. Por que tinha deixado de usar vermelho mesmo? Sempre foi a sua cor.

Quer dizer, ainda era.

Certas coisas não precisavam mudar, ela sabia. Agora ela sabia.

Ela ainda era aquela Sakura da foto, mas também já não era mais ela. Tanta coisa havia mudado, tanta coisa havia acontecido... Nem ela sabia ao certo o que havia mudado desde sua última visita àquela casa, mas lembrava da voz de Shikamaru lhe sussurrando todas aquelas coisas em seu ouvido, e era estranho porque ela acreditou nele, achou que era tudo verdade, mas não era.

Não era mesmo.

Foi Ino quem lhe mostrou isso naquele dia, quando chorou em seus braços ao comer um pedacinho de bolo. Ela não tinha medo de perder as pessoas. Não era isso. Ela tinha medo de perder a si mesma nas pessoas, afinal, toda vez que você cria um laço, você multiplica a si mesmo. Você se doa. E Sakura se doou tanto pra tantas pessoas... Ela só não queria perder esses pedaços dela que estavam por aí com Ino, com Kiba, com Naruto...

... com Sasuke, com Shisui...

Então ela guardou aquele pedaço tão importante, aquele tão sólido, deixando-o intocável até mesmo por ela. Ela guardou aquela parte que doou para Sakumo, esquecendo que ele também doou uma parte de si para ela em todos aqueles ensinamentos, na dedicação, no cuidado... Ele doou seu legado.

Ela foi tão egoísta com isso, que as pessoas a conheciam por Segunda Tsunade, mas não como discipula de Sakumo, porque isso era dela e apenas dela. Era tudo o que restou desde sua morte. Foi por isso que ela não quis treinar Kakashi, né? Ela não queria dividir com ele. Não queria.

Foi só naquela manhã que ela descobriu que não dividiria nada, que o que era dela continuaria sendo dela, mas que poderia multiplicar, e aí o que ele pegasse seria dele, e apenas dele.

Era confuso? Talvez. Na mente dela fazia todo o sentido.

As coisas nunca foram mais claras.

Riu devolvendo o porta-retrato ao seu lugar, dessa vez, a foto estampada para qualquer um que quisesse ver. Era uma foto bonita de um casal bonito. Tudo bem.

Tudo bem.

Continuou seguindo pelo recinto, passando pelos portais e corredores, sentindo o ar empoeirado e o frio de um outono acolhedor. A porta que alcançou estava entreaberta, ela lembrava de ter um problema na fechadura que Shisui nunca consertou, e ela até poderia ter feito, mas... quem liga. Era só uma fechadura.

Entrou no quarto que um dia chamou de seu vendo aquela cama larga e o lençol azul. Ela suspirou vendo aquele abajur amarelado, a cômoda com cinco ryōs amassados sobre ela, o troco do pão da última vez que esteve ali.

Ah... A última vez que esteve naquele quarto...

Se ela soubesse que era a última, talvez ela pudesse ter pegado suas coisas, mas ela não sabia. Ela não sabia de nada. Não sabia que aquela parte de si em Shisui seria um de seus grandes traumas, porque aquela parte que ela deu a ele era... preciosa. Muito preciosa. E apesar de não ser por aquela parte de si, Sakura também estava ali por ela, mas só um pouco.

A parte que ela procurava ali, na verdade, era a que estava no guarda-roupas.

Por isso o abriu vendo todas as roupas dele e dela em cabides, dobradas... As gavetas estavam lá com meias, calcinhas, cuecas... Tinha aquela blusa vermelha que ele a havia dado, com o símbolo do clã Uchiha nas costas. Ela nunca usou. Mas acabou pegando aquela vermelha com zíper na frente que simplesmente amava. Talvez ainda coubesse, ela não sabia. Pegou também aquele casaco vermelho, e na gaveta de baixo, pegou sua hiatiate.

Ah... Tão brilhante...

O metal polido refletiu a moça de olhos verdes que segurava o tecido vermelho com cuidado. Tinha sido Ino a lhe dizer que vermelho era definitivamente sua cor, por isso ela trocou o azul escuro por aquele vermelho, e de fato, vermelho combinava muito com ela.

Achou uma bolsa larga na parte de cima. Estava empoeirada como tudo ali, e tinha cheiro de mofo, mas tudo bem, ela poria tudo para lavar na nova máquina que Ino havia comprado semana passada. Achou aquele blusão velho com o logo antigo da floricultura, e também tantas outras coisas... Havia tanta coisa ali.

Mas foi só naquela porta da direita que ela encontrou, finalmente, o que estava procurando. Ali estavam os coletes ninjas dela e de Shisui, as calças de uniforme, bandagem... Ali eles guardavam alguns equipamentos também, todos imprensados numa só bagunça. Aquela parte nunca ficava organizada apesar de seus esforços. Foi no meio de todo aquele caos que ela encontrou...

Fazia tanto tempo que ela não tocava naquela empunhadura gasta? O fitilho em padrão vermelho e branco ainda estava lá, assim como o fitilho rosa que seu mestre havia colocado também. Sua tantō era linda. Um belo presente de Sakumo, com uma lâmina tão clara que exalava o chakra aplicado, por isso a fama como Canino Branco. A bainha estava gasta, mas continuava bem bonita.

Sorriu para a arma. Sorriu para si mesma.

Sua primeira tantō.

A colocou na bolsa junto com as outras coisas, e então voltou para o guarda-roupas em busca daquela última coisa que precisava, procurando-a por algum tempo até descobri-la lá no fundo, toda amassada. Sacudiu a blusa algumas vezes com um sorriso nos lábios antes de lhe dar uma boa olhada. Branquinha, sem nenhum rasgo ou furo. O desenho vermelho das mangas continuava bem vivo naquele padrão de zigue-zague triangular.

A dobrou sentindo-se como se tivesse acabado de cumprir uma das missões mais longas de sua vida, e foi estranhamente fácil. Estranhamente libertador.

Sakura saiu do quarto com a bolsa no ombro, continuou andando pelo lugar só por dar. Só porque podia. Botou a cabeça para dentro do banheiro e quase não enxergou nada, estava escuro demais. Viu aquele quadro com uma paisagem exótica e constatou que continuava não gostando daquilo, viu a estante abarrotada de pergaminhos, todos cheios de cupins e saiu de fininho.

Passou na cozinha também.

Ali seu sorriso morreu um pouco quando viu a janela quebrada com pedaços de madeira por cima. Kiba com certeza tinha voltado ali para arrumar a bagunça, ela sabia sem nem mesmo precisar perguntar. Foi ali que ela percebeu seus passos fazendo eco, e a poeira que já não existia mais no chão quase limpo. A porta do armário estava quebrada, e ela olhou lá para dentro, encontrando absolutamente nada.

As pílulas não estavam mais lá.

Sakura ficou um instante muito longo olhando para todos aqueles objetos, a mesa, a madeira... Ela olhou para a pia, para a janela. A janela prendia seu olhar de uma forma mais intensa, e de repente ela quis ver Kiba. Ela quis vê-lo, senti-lo. Ela quis abraçá-lo.

Mas antes de virar-se e sair, ela acabou sorrindo de novo quando percebeu. Ah, sim... A vida era uma tão cíclica. Foi naquela cozinha que seu vício começou, então nada mais justo que também terminasse ali, não é? Então ela jurou, com a mão sob o balcão, que nunca mais colocaria uma pílula do soldado na boca novamente. Nunca mais.

Ali, ela prometeu não voltar para a ANBU também, senão inevitavelmente acabaria voltando ao vício.

E então, depois de firmar as palavras em sua mente, ela arrumou a bolsa no ombro e deu meia-volta, passando pelos cômodos sem muita pressa. Fechou a porta de madeira com cuidado, céus, as dobradiças não iam aguentar outro arrombamento. Riu do pensamento antes de olhar para o tempo. Era hora do almoço.

Deu uma última olhada para trás, pensou em Shisui. Pensou nos olhos dele, no sorriso dele. Pensou nele e não doeu tanto assim.

Voltar para Konoha era bom.

...

Voltar era bom.

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