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Verdades

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Móveis eram feitos para durarem, mais ou menos. Tudo dependia da qualidade, construção, material usado... Havia uma série de pormenores que determinava a durabilidade de um item mobiliário, inclusive o modo de utilização. Naquela casa, por exemplo, os principais móveis eram de excelente qualidade, a maior parte naquele tipo de madeira maciça, mas com um tratamento menos sofisticado, permitindo que o preço fosse mais acessível.

E por principais, o dono da casa queria dizer a cama, o sofá, e a mesa da cozinha.

A cama era o local em que ele dormia, então obviamente precisava ser perfeita; o sofá era onde ele passava o tempo, recebia visitas, também precisava ter uma resistência perfeita; e a mesa da cozinha frequentemente recebia suas refeições favoritas, às vezes deixava coisa ali em cima, coisas pesadas, e precisava ser de grande robustez para suportar o pique de um ninja.

Naquela noite, Inuzuka Kiba tinha acabado de jantar as sobras do almoço. Ele não gostava muito de cozinhas, por isso sempre trazia alguma coisa da casa da irmã ou contava com um convite de seus amigos, geralmente Yamanaka Ino ou Aburame Shino, mas naquela noite, Kiba ficou em casa para comer as sobras deliciosa do almoço da casa da sua irmã, e quando terminou, resolveu comer a sobremesa.

A mesa ele sabia que era de qualidade, mas a cadeira... Ele se surpreendeu. As pernas não cediam nem diante daquele rebolado intenso de Sakura sobre seu colo, se mantendo firme enquanto ele a comia com as mãos, se esbaldando nos seios deliciosos logo a sua frente. Sakura era uma delícia. O gemido gostoso que escapava da boca dela era seu maior deleite diante daqueles peitos.

Ela rebolava na mão masculina querendo mais daqueles estímulos precisos, e Kiba nunca imaginou que fosse gostar tanto daquela blusa de zíper vermelha que ela estava usando... Afinal, bastou um puxar delicado e aquele par de peitos estava bem na sua cara, pedindo, implorando para serem lambidos. Ah... Aqueles mamilos entumecidos eram tudo o que ele mais queria pôr na boca.

Quer dizer...

Diante do quão molhada ela estava, ele até tinha uma ideia melhor do que queria chupar naquele momento, mas Sakura estava tão imersa, agarrada em seus cabelos, rebolando na sua mão... Ele adorava os arfares entrecortados e a expressão de prazer diante dos suspiros sôfregos. Ele adorava como a buceta dela contraia em seus dedos e como ela se esfregava desesperada pelo orgasmo.

Riu contra a pele dela, a mão por baixo daquela saia azul que deixava o rabo dela três vezes mais gostoso, como se fosse possível. E aquelas pernas... Céus... Ele sentia que queria morar no meio daquelas pernas, e foi com esse pensamento que ela gemeu mais alto, mais agudo, e ele se sentiu mais homem, mais capaz. Ela tremeu se agarrando nele como se precisasse de algo para mantê-la firme, e Kiba continuou movendo seus dedos enquanto ela sentia o prazer acumulado em seu ventre transbordar.

Ele não teve dúvidas.

Num frenesi, ele se levantou segurando-a pelas coxas e rapidamente a colocou em cima da mesa. Sakura arfou, jogando a cabeça para trás para receber aquelas lambidas quentes em seu pescoço antes que ele simplesmente resolvesse lamber seus lábios úmidos e inchados. Apertou os dedos dos pés e segurou nos cabelos dele enquanto Kiba saboreava sua sobremesa. Tão deliciosa e suculenta, era de fato a comida favorita dele. Amava aquele gosto intenso, amava ter sua cabeça no meio daquelas pernas, amava quando ela puxava mais forte seus cabelos.

Puta que pariu. Sakura era gostosa prum caralho.

O pau dele latejava dentro das calças e ele precisou enfiar uma mão lá para dar uma atenção ao seu rapaz. Se masturbava como podia, os movimentos não muito ritmados, porque sua atenção estava toda naquela bocetinha molhada que ele tanto apreciava.

Kiba...

Ahh... Porra, a voz dela... Era incrível. Quando ela o chamava daquele jeito, quase implorando, ele só queria mais do gozo dela. Foda-se seu pau, ele queria fodê-la mais com aquela mesma mão, enfiando dois dedos enquanto sua língua continuava trabalhando ali.

Goza pra mim, gostosa.

O jeito que ela se mexia, quase como se tentasse fazê-lo ir mais fundo, querendo tudo o que ele podia dar a ela, e ele dava. Céus... Ele só queria sentir ela tremer na sua boca. Os gemidos ficavam mais altos, mas ele sabia que ela tentava segurar com aquele morder de lábio mais forte. Ele pensou nos peitos dela expostos para qualquer um que resolvesse entrar na sua cozinha, pensou naqueles fios grudados na testa dela devido ao suor, pensou nos olhos verdes nublados pelo prazer.

Caralho. Ele quase podia gozar só com isso.

Mas foi ela que encontrou o caminho primeiro, empurrando-o para longe de sua vulva enquanto se deixava sentir. Kiba beijou a coxa dela com seus lábios manchados do prazer, os rastros dela por todo aquele sorriso sacana que ele lançou para a mulher ofegante, que não desviava seus olhos verdes de luxuria. Sobremesa? Ela era a refeição principal.

— Vem cá minha rosinha.

Foi o que ele disse enquanto se inclinava sobre ela, deixando beijos pela barriga suada, alcançando aqueles peitos com uma longa lambida antes de finalmente beijar a boca dela. A língua dela era quente, exigente, mas a mão dela em sua nuca era delicada. O beijo cessou por um momento, os lábios ainda perto demais do outro, e ela lhe deu um beijo menor, mais rápido.

— Ainda não acabei com você – Ele sussurrou contra a pele dela enquanto arrastava sua boca pelo pescoço feminino num sentir daquele gosto salgado — Quero te comer a noite toda.

Ela deu uma risada naquele arrepio que lhe percorreu por todo o corpo. Kiba era o tipo de cara que sabe comer uma mulher do jeito que ela quer ser comida, e ela gostava de como se sentia desejada, de como aquelas palavras soavam únicas quando ditas na voz grave em seus ouvidos.

— Não se ilude, Kiba – Ela soltou deixando que ele chupasse sua pele e explorasse seu corpo com aquelas mãos famintas — Sou eu quem ainda não acabei. – Disse num sussurro, puxando-o pelo cabelo para que o rosto ficasse exatamente frente ao seu, e ela o olhou com uma promessa. A mais erótica das promessas. — Só consigo dormir depois do meu leitinho.

Ele sorriu.

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Acordou com a respiração brevemente acelerada, o teto claro era mal iluminado pelo sol que vazava do tecido não tão grosso da janela. Ele engoliu a seco enquanto tentava trazer à tona as imagens de seus sonhos noturnos que lhe escapavam muito rápido no silêncio pacífico daquele quarto. Kakashi levantou a cabeça para olhar na direção do seu pau fazendo volume no cobertor e então deixou-se tombar novamente no colchão macio com um breve franzir de cenho.

O que bosta ele tava sonhando tanto para acordar sempre de pau duro?

Ele não sabia, não poderia saber, mas se pudesse receber uma pista do universo, talvez esta fosse em forma de um par de botas de cano alto. Talvez... No final das contas, só restou a Kakashi um longo banho frio.

Merda.

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O tilintar dos metais podia ser ouvido por qualquer um nos arredores do descampado do campo de treinamento que era cativo por todas as gerações do time 7. Golpes e mais golpes eram desferidos numa velocidade assustadora, fazendo os pequenos animais se esconderem em suas tocas por ali.

Kakashi tinha completa ciência das habilidades de seu oponente no manejo daquela arma, talvez por isso ele sentisse que ela podia prever seus golpes com tanta maestria. Ele segurava aquela tantō com empunhadura desgastada num cor-de-rosa mais escuro que os cabelos dela. A lâmina, no entanto, brilhava como nova, e era bem mais leve que a que ele costumava usar.

Muito mais leve.

Era quase uma tortura ter que regular sua força com base numa arma que parecia ser feita de papel, então talvez fosse por isso que seus golpes nunca a acertavam, mas ele não tinha muita certeza do que estava fazendo de errado para que a mulher conseguisse escapar até dos golpes mais certeiros que ele desferia.

E não era pela capacidade absurda que ela tinha de executar aquele tanto de desvios. Não era isso. Era quase como se ela pudesse ler sua mente. Nenhum golpe parecia ser uma surpresa para ela, e aquela kunai nas mãos femininas parecia ser bem melhor manejada que a lâmina que ele segurava, porque Sakura conseguia acertar seus golpes, de novo e de novo.

Mas também não era como se ele não estivesse conseguindo pressioná-la, porque ele estava e tinha plena consciência disso. Um vacilo, e ele poderia vencer aquele duelo. O problema é que ela não vacilava apesar de estar sonolenta naquela manhã, porque sempre entre os intervalos, Sakura soltava num daqueles longos bocejos e comentava ser doida para dormir.

De todo modo, num frenesi, Kakashi sentiu a espada vibrar em sua mão pelo choque entre os metais, eles mediram força por um momento, encarando um os olhos do outro, e naquele verde, o rapaz teve a certeza de que iria perder mais uma rodada, porque logo ela recolheu a sua lâmina, fazendo-o desequilibrar com o abrupto desajuste no peso. Kakashi, no entanto, não cambaleou, mas não foi rápido o suficiente para evitar aquela rasteira sorrateira que o fez cair com a bunda no chão.

Quando percebeu, tinha uma kunai apontada para o seu pescoço por uma mulher que sustentava um sorrisinho esperto nos lábios. Ele a olhou por apenas um segundo, registrando a expressão do rosto dela antes de voltar para a realidade de sua nova derrota e suspirar ao deixar o corpo ceder. Com as costas na grama, Kakashi mirou o céu claro, mas meio frio, enquanto que Sakura se agachava perto dele logo após guardar aquela kunai na cartucheira.

— Você ao menos cansa? – Ele perguntou depois de tirar um momento para regular a própria respiração.

Sua resposta veio com uma risadinha primeiro, e depois um bocejo. Assim como ele, Sakura tinha suor no corpo, o que fazia aqueles fios grudarem na pele de seu rosto, mas a respiração dela estava tão regular que parecia nem ter se esforçado.

— Pode não parecer, mas eu estou cansada sim. – Finalmente a voz dela se projeta em algo mais consistente que os ruídos sonoros de sua voz.

Eles se encaram por mais um momento num silêncio que foi preenchido pelo vento frio que sopra suave as folhas das árvores. O semblante tranquilo da mulher o faz perceber que ele ainda não se acostumou com aquele sentimento de leveza, apesar de que naquele treino, Kakashi já estava conseguindo manter seus olhos nos dela por mais tempo, e aquele verde estava tão diferente... Aquela era uma outra Sakura, mas mesmo antes, Kakashi já sabia que havia muito mais por trás dela.

Muito mais dentro dela.

Desviou o olhar para o céu, vendo as nuvens flutuarem acima de suas cabeças. Sakura bocejou novamente, bem ao lado dele, e quando Kakashi a olhou novamente, percebeu que ela também olhou para o mesmo céu que ele. Ela fazia isso sempre, olhava para onde ele estava olhando como se procurasse saber o que diabos ele tanto via através de seus olhos escuros.

Quando voltaram a se olhar, havia uma pequena lágrima no canto do olho dela, fruto do bocejo enorme que a acometeu segundos antes. Kakashi fechou os olhos e ergueu o tronco de maneira abrupta, mas Sakura ficou parada enquanto o observava sentar-se em posição de buda.

— Acho que já tá na hora de pararmos, né? – O rapaz perguntou quando ela o imitou naquele gesto. — Tá quase na hora do almoço.

— É, vamos encerrar por hoje. – A voz dela se projetou com certa morosidade antes que ela esticasse os braços para cima no espreguiçar-se ruidoso — Céus, eu tô morrendo de sono. – Comentou num resmungo antes de coçar o olho com preguiça.

— O que você fez que não dormiu direito?

Sakura suspirou diante da pergunta.

— Fiquei de papo com um amigo – Ela deu os ombros — Acabei perdendo a hora de dormir. – Sakura o viu considerar aquela resposta por um momento, mas não lhe deu tempo para continuar nessa linha de perguntas — Você foi bem no treino, mas eu tenho que dizer que você precisa parar de exagerar na força com que segura a tantō.

Ele fez uma careta como resposta.

— A sua é muito leve. Mais leve do que as da loja.

— Bem, sim, mas ela não é mais leve do que uma tantō deveria ser – Sakura disse como se explicasse alguma coisa, mas Kakashi conseguiu ver o deboche por trás das palavras dela e soltou uma risada. — Tá achando engraçado, é?

— .. Não... – Negou com aquela voz divertida, maneando sua cabeça naquela provocação quase muda.

— Oh, então traga sua tantō de uma tonelada da próxima. – Sakura sorriu com uma gentileza exagerada. — E vamos ver o que você é capaz de fazer contra a minha tantō levinha demais.

— Aposto que consigo me sair melhor do que fui hoje, ainda que não seja suficiente para uma vitória de verdade – Ele respondeu naquele tom mais ainda divertido, porém mais sincero, e recebeu um arquear de sobrancelha em resposta — Fala sério, você consegue prever meus golpes melhor que o Obito com o sharigan ativo.

— Você tem que parar de provocar o Obito desse jeito, o coitado.

Kakashi deu os ombros para aquele aviso que não era um aviso, afinal, o jeito dela evidenciava que era apenas um comentário qualquer. Ela não se importava com as provocações internas, e ele meio que adorava isso.

— Não muda de assunto. – O outro disse se inclinando na direção dela com seus olhos desconfiados — Eu sei que você tem um truque.

Sakura deixou a risada escapar num volume mais alto, uma risada completa que ele nunca escutou antes, somado a isso, havia aquela postura relaxada, os olhos divertidos, e o sorriso largo que produzia aquelas marquinhas mais puxadas nos cantos dos olhos.

— Um truque – Ela repetiu no meio daquela risada sonora — Falando assim, parece até que estou fazendo algo fora do comum, mas a verdade é que não tem truque nenhum além dos seus óbvios erros. Oh, não me olhe assim... Você é um ser humano também, Kakashi, e está permitido errar.

Ele revirou os olhos, virando o rosto para enxergar as árvores e sua imensidão não tão mais verdes. As folhas iam caindo pouco a pouco, e as que ainda estavam ligadas aos galhos perdiam sua cor lentamente. O suspiro veio ao ouvir o som da risada dela, e quando voltou a olhá-la, sequer o verde de seus olhos estavam lá, porque ela simplesmente se deitava na grama.

— No que eu errei? – Ele perguntou por fim, se inclinando para o lado para tentar ver o rosto deitado, conseguindo uma visão muito insatisfatória. Sakura bocejou.

— Em tudo, basicamente. – Foi isso que ela disse enquanto sentia a moleza invadir seu corpo — Eu sei que muita gente diz por aí que a tantō é uma katana em miniatura, mas a verdade é que ela está mais para uma adaga grande. É claro que ela admite toda a movimentação utilizada para o manejo de uma katana, mas só isso deixa o usuário bem vulnerável.

"— O lance é que, pelo tamanho avantajado, a movimentação de uma katana se torna mais fluída e imprevisível, mas com uma arma tão curta, essa movimentação passa a ser óbvia apesar da agilidade. Aí você me vem com uma movimentação de katana, somado a um desequilíbrio por não estar acostumado com o peso da arma... – A mulher suspirou — Tudo se tornou bem óbvio para mim."

...

Ouviu tudo de maneira contida, olhando para a moça deitada a sua frente, as penas esticadas, os braços abertos... A barriga dela ficava bem plana daquela posição, com as costelas brevemente elevadas sob o tecido mole de uma blusa vermelha. A viu olhar para ele sem levantar a cabeça, e talvez ela o estivesse avaliando, mas ele não se importou.

Continuou considerando as palavras dela enquanto olhava para o relevo abaixo daquela blusa bonitinha, um tanto curtinha, e até podia ver o começo daquela cicatriz, porém ele não se ateve muito ali, porque seu olhar ficava indo e vindo daquele par de peitos, mas apenas pela simples tentativa de mirar aquele par de olhos verdes.

Só por isso.

Acabou pigarreando antes de se arrastar para o lado dela, vendo os olhos dela se fecharem numa morosidade pós treino bem atípica. Se deitou ao lado dela deixando a barriga para cima e esticando os pés. Olhou para cima, voltando a lembrar das palavras dela.

— Isso quer dizer que eu deveria acrescentar a movimentação típica a de uma adaga ao meu estilo de combate? – Ele perguntou depois de um momento, sem saber direito se ela estava ou não acordada.

O vento soprou mais morno para um dia de outono.

— Exatamente – Foi a resposta dela, quase num murmuro orgulhoso. O silêncio pairou por um segundo a mais antes de ela abrir seus olhos, projetando seu rosto minimamente na direção dele — E agora você sabe o motivo pelo qual ela não pode ser tão pesada, não é?

Ele sorriu.

— No próximo treino eu vou vencer você – Ele prometeu, e Sakura riu divertida com o tom de voz dele.

— Você é mesmo bem metido, né? – Foi a resposta dela, com aquele sorriso nos lábios que a deixava ainda mais interessante. — Isso tu não puxou ao teu pai.

As sobrancelhas arquearam na direção dela, mas seus olhares não se desviaram. Ela continuou ali, com aquele ar preguiçoso, e talvez fosse o sono a deixando mais aberta a qualquer outro tipo de assunto, porque ela pareceu esperar que ele perguntasse, afinal, ele certamente perguntaria.

— Não pareço com ele?

...

Sakura sorriu.

— Nenhum pouco. Quer dizer... Naruto vê uma semelhança absurda entre vocês, mas pra mim... Pra mim, você é só inteligente, como o sensei.

Droga de olhar calmo que ela tinha, e voz bonita, que mesmo cheia daquela sonolência, continuava chegando bem aos seus ouvidos. Ele coçou o nariz antes de desviar seus olhos dos dela por um breve momento, apenas para olhá-la novamente e conseguir responder:

— Talvez eu me pareça com a mamãe.

A mulher maneou a cabeça num considerar daquela sugestão.

— É... Ela parecia ser meio metida mesmo. – Ouviu Kakashi dar uma risada antes que pudesse continuar — Eu não a conhecê-la de verdade, mas lembro dela às vezes na floricultura. Lembro da roupa azul, bem bonita, e a cara de metida.

— Você tá falando da minha mãe, hein — Kakashi disse com aquele tom falso de alerta.

— O quê? Ela tinha mesmo cara de metida. A Ino concorda comigo. – Disse como se fosse um atestado de sua opinião imparcial. — E provavelmente era metida, porque você é metido e isso não vem do sensei. Ou talvez você seja o esquisitão da família que nasceu metido sem mais nem menos.

Kakashi balançou a cabeça negativamente com uma risada bem-humorada. Aquela provocação jamais seria suficiente para tirá-lo do sério, no entanto, ao olhar para o céu pacífico, Kakashi se sentiu estranho. Ali, enquanto olhava aquele sol fraco logo acima de si, Kakashi lembrou-se do nome dela, Haruno Sakura, e do verde intenso que lhe mostrou tudo no primeiro encontro de seus olhares, mas que ao mesmo tempo não facilitou a missão de entender o que havia por trás daquilo tudo.

Haruno Sakura.

A aluna favorita do seu pai. A pessoa forte que todos confiavam. A pessoa divertida de quem Naruto e Yamato tanto falavam.

One Punch Sakura.

A mulher que derrotava seus inimigos com apenas um soco e causava admiração em todos aqueles que desejavam seguir os passos para ir além da masterização do ninjútsu médico, alcançando a excelência no combate desarmado.

Flor da Morte.

A sanguinária kunoichi de Konoha, que bradava uma tantō sem a menor piedade, onde seus golpes exalavam chakra no formato da última flor que seus inimigos poriam os olhos.

Sakura-taichō.

Sua comandante enfezada que parecia sequer suportar a ideia de estar na presença de qualquer um deles.

E por trás de todos os títulos, e até mesmo de seu sobrenome sem significado, havia ela. A mulher que estava deitada ao seu lado, com os olhos fechados em sua respiração calma. O peito subia e descia. Os cabelos cor-de-rosa caiam na grama verde enquanto os lábios entreabertos evidenciavam o sono que se agarrava a ela sorrateiramente.

Ele a olhou por um longo momento, mais longo do que qualquer outro momento. Talvez fosse estranho pensar que estava olhando alguém dormir, e se ela acordasse, talvez achasse esquisito, mas... Mas Kakashi continuou olhando enquanto pensava naqueles olhos verdes inquietos no meio da floresta, e a hesitação que demonstraram frente a ele naquele momento tão desesperando onde ela acabou ceifando uma vida do modo mais cruel.

Tudo bem, ele a entendia. Quer dizer... Ele podia imaginar como era se sentir insuficiente. Como era sentir que estava perdendo. Em algum momento, o próprio Kakashi se sentiu assim quando perdeu seu pai, e mesmo sendo uma criança, ele desejou ter podido fazer alguma coisa. Mas não podia. Ninguém podia.

Nem mesmo Sakura.

Finalmente seus olhos se desprenderam do rosto dela, e Kakashi encarou o nada naquele fechar dos próprios olhos.

— Sakura? – Ele chamou baixinho, sua voz se misturando ao vento fraco que soprava despretensioso.

A resposta, entretanto, não surgiu. Ela estava dormindo, é claro, no sono dos justos, e ele percebeu que não queria acordá-la realmente, que queria que ela dormisse naquele começo de tarde tão fresco de um outono tão estranho, tão mais estranhamente frio e quente ao mesmo tempo.

E assim como o clima, apesar de não querer que ela acordasse, ao mesmo tempo, Kakashi quis ouvir a voz dela e ter certeza de que aquela ainda a era a mesma mulher por trás dos títulos. A Sakura dos olhos verdes. Só Sakura. Então, o rapaz abriu seus olhos para a vastidão azul no céu ensolarado antes de projetar seu rosto para o lado e encontrar aquele par de olhos lhe mirando como uma verdadeira incógnita.

— Kakashi... – Ela respondeu num sussurro sonolento com um sorriso fraco em seus lábios — Oi...

Ela conseguia ver, não é? Mesmo com seus olhos verdes quase fechados, ela podia ver a vermelhidão por trás do tecido grosso que cobria o rosto masculino, Kakashi tinha certeza, e mesmo assim ele continuou mantendo o contato visual, livre de qualquer tentativa de esconder. Sakura que visse o que quisesse ver. Ele que mostrasse o que quisesse mostrar.

Não importava.

Num sussurro, ele continuou:

— Por que você resolveu me treinar?

Os olhos dela continuaram ali, quase fechados naquele enxergar breve. Sakura se sentia tão sonolenta, como se pudesse embarcar num longo sono sem sonhos ali mesmo, à mercê do tempo, da vida, e do olhar atento de Hatake Kakashi, que parecia deixar aquela curiosidade inquietante do lado para se munir de uma outra coisa. Algo que ela ainda não conseguia identificar, talvez porque até ele não soubesse bem o que ela.

Não importava.

O que estava diante dela, no entanto, era aquela fatídica pergunta aleatória demais, certa demais.

Sakura acabou fechando seus olhos por um momento, o corpo relaxado na grama pedia por um longo cochilo sem se preocupar com a luminosidade de um dia de sol. Podendo sentir o olhar de Kakashi, a mulher apenas soltou um longo e preguiçoso ruído como quem pensa, mas a verdade é que sua mente já não estava querendo trabalhar de maneira tão precisa, e no final, a resposta dela veio num tom vago demais.

— Hmmm... Por que será...

E estranhamente Kakashi não se irritou com a falta de precisão, porque não precisava ser preciso. Nem tudo precisava de um motivo claro, ou de um propósito oculto. Talvez ela só estivesse entediada e tivesse resolvido fazer alguma coisa sobre isso, ou talvez fosse apenas para agregar algo de valor ao caminho ninja do rapaz. Tudo bem.

Mas seus olhos acabaram um pouco mais evidentes quando os lábios dela se entreabriram novamente, apesar para completar naquela voz arrastada pelo sono:

Eu só pensei que seria um bom primeiro passo.

E então, Sakura finalmente dormiu.

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O frio já não era tão incomodo passado alguns dias desde a chegada do outono, a costumeira troca de estação trouxe também os casacos de todos para fora dos guarda-roupas, e também alguns cachecóis. Um homem passou com uma sacola transparente cheia daqueles novelos de lã, e o pensamento flutuava tranquilo entre a satisfação de uma noite mal dormida e uma manhã tranquila onde nada acontecia.

Era quase meio-dia, perto da hora do almoço, e ele tinha acordado quase naquela hora sem nenhum remorso, saindo da cama vazia para tomar um longo banho e ir atrás da moça fujona que lhe abandonou sorrateira sem nem mesmo um adeus. Ele riu do próprio pensamento, tão dramático que parecia fã desses romances malucos do Jiraya.

Passou pelas ruas do centro sabendo que ainda estava bem longe do seu destino final, e foi dobrando aquela esquina que os olhos do homem esbarraram na figura familiar de seu comandante. Ele estava com as mãos enfiadas nos bolsos enquanto esperava a mulher da banca de fumo encher aquela sacola transparente com sabe-se lá quantos gramas ele estava comprando.

Fez uma careta sem perceber.

Primeiro porque alguém que ganhava tão bem certamente tinha dinheiro para comprar cigarro do bom, mas Shikamaru era um pão duro que estava ali, gastando as moedas no pior fumo que existia. Kiba não fumava, mas ele entendia de fumo porque seu pai era cativo do cigarro artesanal, e lembrava do seu velho reclamando que nada que vinha daquela banca prestava.

Mas... foda-se.

Foi o que Kiba pensou quando continuou seu caminho, dessa vez com a cara amarrada denunciando o recém desagrado. Ergueu o queixo enquanto remoía a raiva que lhe surgia ao lembrar de tudo o que ele tinha dito para Sakura, e claro, feito para Ino. Ele nunca teve nada contra o Nara, na verdade, até o considerava um cara legal, sem muito atrativo, mas agora... Agora ele era só mais um filho da puta.

Shikamaru não notou o olhar, estava atendo demais conferindo se a velha da banca estava colocando tudo como ele pediu, por isso não conseguiu evitar o desequilibrar do seu corpo quando o ombro firme do outro trombou nele com força. Céus... Ele praguejou algo quando percebeu que quase caiu, e olhou para trás pronto para mandar quem quer que fosse ir à merda, mas aí...

— Olha por onde anda, otário.

Inuzuka Kiba largou num tom nada amigável enquanto continuava seu caminho sem nem olhar para trás. Shikamaru ainda o queria mandar à merda, mas engoliu as próprias palavras junto com a saliva que tinha na boca antes de se resignar, virando para a velha assustada que lhe encarava.

— Vish, meu filho... tá tudo bem aí?

— Não foi nada. – O outro disse em resposta, se recompondo — Quanto devo?

...

Atingindo uma distância moderada, Kiba percebeu que tinha sido completamente irracional com aquela atitude perante o Comandante, afinal, onde já se viu trombar em alguém daquele jeito? Se arrependeu da ação tão medíocre. Deveria era ter colocado mais força para ver o desgraçado cair com a cara em todo aquele fumo e depois deveria ter sentado a porrada nele até que ficasse irreconhecível.

Essa era a atitude que deveria ter tido.

Mas outras oportunidades surgiriam, ele pensou de maneira mais analítica. Oportunidades melhores.

Seguiu seu caminho pelas ruas não tão movimentadas quanto esperava, Akamaru ao seu lado já parecia ter se arrependido de lhe acompanhar. Cada vez mais, o cão parecia querer paz de sossego ao invés de agitação, mas tudo bem, afinal logo Kiba teria um novo cãozinho para treinar e finalmente daria uma boa aposentadoria para seu fiel companheiro.

As ruas foram ficando para trás lentamente ao passo que alcançava aquela área florestada dentro da própria vila, logo após o canal que cortava o território de Konoha. Ele caminhava tranquilo, as mãos nos bolsos, o rosto calmo... As pessoas iam ficando cada vez manos frequentes ao passo que os pequenos animais se faziam mais populosos no meio de toda aquela vegetação óbvia dos campos de treinamento.

Não tinha pressa. Abriu seu caminho por entre as árvores com passos suaves de quem não quer assustar nenhuma pequena lebre desavisada, e logo se viu no território que era parte do campo de treinamento três, onde habitualmente os integrantes do time 7 treinavam. Ele não entendia o porquê de sempre ser aquele campo de treinamento, mas também não era um problema criar uma tradição aleatória.

Foi com esse pensamento que sua visão alcançou a clareira através dos espaços entre os troncos das árvores, enxergando Sakura e Júnior ambos deitados na grama enquanto conversavam. Franziu o cenho para a cena enquanto Akamaru se acomodava num sentar-se cansado ao seu lado, e se pôs a observar a cena por um momento não muito longo. Sakura parecia adormecer antes que enquanto o outro pareceu sobrar acordado num olhar para o tempo tedioso.

Enfiou a mão nos bolsos e fez seu caminho até a dupla, sendo notado pelo garoto que rapidamente se sentou enquanto o olhava se aproximar. Kakashi tinha um olhar quase avaliativo, e era um tanto esquisito se vê sendo medido da cabeça aos pés de maneira tão descarada, mas Kiba não se importou, afinal, o seu verdadeiro alvo acordava logo em seguida, lançando para ele aquele olhar esverdeado divertido.

— Tá perdido?

— Acho que sim. Vim achando que iria encontrar um treino de kenjutsu, e me deparei com um treino de dormir.

Ela riu antes de mandar o homem recém-chegado se catar, e Kakashi permaneceu em silêncio ao vê-lo circular a área para pegar a bainha da tantō dela, juntamente a lâmina ao lado do garoto mascarado. Em nenhum momento, Kiba o cumprimentou, assim como Kakashi não fez nenhuma questão de dizer qualquer coisa.

O barulho da lâmina deslizando na bainha se fez presente, e o homem barbado a jogou por cima do ombro, olhando para Sakura logo em seguida com certa expectativa.

— E aí? Você vai se levantar ou vou ter que te carregar?

— Por que você é tão chato? – Ela perguntou fazendo um bico — Tava num cochilo tão bom, né, Kakashi?

Sakura olhou para o rapaz sentado ao seu lado, vendo através do movimento de seus olhos, que ele havia lhe lançado um sorriso tranquilo. Era esquisito que ela soubesse que ele estava sorrindo apenas vendo os olhos dele? Sakura não sabia dizer, mas achava bonitinho que ele tivesse essa capacidade de ser tão expressivo mesmo cobrindo metade do rosto.

— Vai ser melhor depois de almoçar, quando se deitar numa cama confortável – Kiba disse emendando na pergunta dela. — Vem, rosinha. A Ino deve tá esperando.

Ela resmungou algo incompreensível naquele bico que ainda sustentava antes de aceitar a mão que o homem a ofereceu. Kiba a içou para cima, esperando que ela se esticasse assim que colocou seu corpo de pé, Kakashi, no entanto, ficou em sua posição observando ela passar as mãos na própria roupa para se certificar que não havia nenhum pedacinho de grama grudado em suas vestes.

Foi Kiba quem notou aquele olhar de Kakashi no pescoço da moça, e olhando naquela direção, viu um pedaço de folha mínimo ali. Sem pensar muito, ele tirou a sujeira dali e jogou no chão, recebendo um agradecer aleatório da mulher antes que ela pudesse virar para o rapaz.

— A gente se vê na quarta, Kakashi – Ela disse daquele jeito tranquilo, recebendo uma confirmação de cabeça do rapaz antes de sentir o braço de Kiba pousar sobre seus ombros.

Sem perceber, o jovem Kakashi deixou uma careta escapar.

— Vai ensinar o que para ele no próximo? A dormir de bruços? – O homem riu ao final, recebendo um revirar de olhos longo enquanto começava a andar na companhia da moça.

Kakashi os observou se afastarem a passos vagarosos. Sakura logo apoiou aquela mão na cintura dele enquanto seguiam para a trilha entre as árvores. Ele a ouviu rir de alguma coisa que Kiba cochichou no ouvido dela, algo inaudível, mas que se Kakashi pudesse apostar, diria que tinha sido um comentário sobre ele, porque logo Kiba o olhou sobre o ombro, encontrando o rapaz ainda sentado.

Finalmente o Inuzuka o estava observando com um olhar mais claro, porque tudo antes soou como uma indiferença mal-educada, afinal, nem mesmo um cumprimento recebeu, mas Kakashi não ligou para isso, sustentando seu olhar para o outro com uma nova curiosidade nascendo ao lembrar da moça de cabelos cor de rosa com aquele haori bordado com o emblema do clã Inuzuka nas costas, e mais ainda, lembrou daquele dia no centro em que eles andavam juntos.

...

Eles namoravam?

Kakashi olhou Kiba dos pés à cabeça, ao passo que o outro franziu o cenho como se não tivesse entendido nada, olhando de volta para Sakura, apenas para resmungar que não gostava de como o menino a olhava.

— Não vai me dizer que tá com ciúmes dele. – Sakura riu ao ouvir aquele comentário besta, projetando seu rosto para trás. Viu Kakashi ainda sentado e parecia um pouco surpreso ao encontrar seu olhar. É, ele podia ser divertido quando parecia tão desconsertado aleatoriamente. Talvez ele fosse um fã do clã Inuzuka, afinal, Kiba sempre foi popular com as crianças devido aos cães e tudo mais.

Ela acenou para ele com um sorriso, e ele devolveu o aceno daquele jeito próprio dele. Vendo-os se afastarem, Kakashi até teve um pouco de curiosidade em saber o que estavam conversando, mas acabou que não ficaria por muito tempo, afinal, Kiba não era muito moderado no volume de sua conversa.

— O quê? De um adolescente? – Kiba gargalhou não muito educado. — Ainda mais um desses que se veste que nem um mendigo.

Filho da puta. Kakashi pensou num resmungo antes de vê-los, finalmente, deixar a clareira e sumirem.

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— E aí, quer passar naquela loja ali também?

O garoto falava de maneira engraçada por conta do pirulito em forma de bola que estava acomodado na boca, fazendo volume naquela bochecha esquerda. Obito vestia um moletom de capuz com bolso canguru na cor azul, o símbolo do clã jazia bordado nas costas, como em todas as roupas usadas por ele.

Naquela tarde, estava um pouco frio, por isso seus planos iniciais consistiam em ficar dentro de casa, debaixo dos lençóis de sua cama, mas seus planos foram alterados por um Kakashi aleatório, que apareceu na sua casa com aquela camisa largada de mangas longas na cor chumbo.

Não que Kakashi não pudesse aparecer assim, inesperadamente, em sua casa, mas o que lhe deixou mais surpreso foi o convite para acompanhá-lo enquanto fazia compras, e Obito até achou que fosse compras de supermercado, mas a verdade era que o amigo queria alguém para lhe dar opiniões sobre...

Roupas.

— Não... Acho que tá bom. – Kakashi respondeu dando os ombros enquanto verificava o volume das várias sacolas que carregava.

Nunca viu Kakashi gastar tanto de uma vez só.

Já era de conhecimento geral que ele era um pão duro, e sendo assim, não gastava mais que o necessário, mas naquela tarde, Kakashi comprou tanta coisa que Obito ficou se perguntando se ele tinha jogado fora todas as roupas que tinha, incluindo as cuecas. No final das contas, agora Kakashi um belo novo acervo de peças e só restava a Obito retomar os planos para o final daquela tarde.

Foi Kakashi quem iniciou a despedida, mas cutucando seu bolso, já pronto para voltar para casa, o garoto de capuz achou aquele papel amassado lá no fundo e rapidamente chamou o outro, que virou com aquela sobrancelha arqueada ao ver Obito lhe estendendo um papel. O pegou sem questionar, apenas para descobrir ser um vale compras da livraria local.

— Eu tentei escolher alguma coisa, mas você é sempre chato para livros – Obito maneou a cabeça antes de continuar — Então optei pelo vale compras, assim acabo não errando.

A explicação foi ouvida por um Kakashi que ainda parecia confuso com aquele gesto, sem entender o porquê de estar ganhando algo tão fora de época.

— É pelo seu aniversário, Kakashi. – Obito disse quando percebeu a expressão dele — Feliz aniversário.

Oh.

Demorou dois segundos para que ficha caísse. Seu aniversário de dezessete já tinha passado fazia alguns dias, mas Obito não lhe tinha presenteado com nada, ao contrário de Rin, que o entregou um belo conjunto de talheres, desses ornados que só se usa quando se convida alguém para comer na sua casa.

Não que ele esperasse qualquer tipo de presente, mas desde que formaram um time, Rin nunca deixava seu aniversário passar batido, assim como Yamato, que lhe dava sempre alguma aleatoriedade caso estivesse na vila, ou Naruto, que o levava no Ichikaru para pagar um jantar.

De Obito, às vezes ele ganhava presentes, às vezes não. Tudo dependia do quão próximo a data ele lembrava.

— Não precisava. – Kakashi respondeu ainda segurando o papel entre os dedos, olhando para um Obito com aquela expressão de quem não quer demonstrar ter se importado — Vou comprar alguma coisa bem legal. Valeu.

— Depois você me diz o que comprou. – O outro respondeu enfiando as mãos no bolso do casaco — Até mais, Kakashi.

Se despediu do amigo, que iniciou seu caminhar para o outro lado sem muita pressa, se misturando às pessoas que iam e vinham em seus próprios ritmos. Kakashi olhou para o papel em sua mão se perguntando se deveria aproveitar e passar na livraria naquele momento, ou se deveria ir para casa, guardar todas aquelas roupas e voltar em alguma outra oportunidade.

Considerou suas opções por um breve segundo antes de iniciar seu caminho para aquele beco apertadinho que cortaria caminho até a rua da livraria. Estava bem perto, então, mesmo carregado de sacolas, Kakashi resolveu que uma passadinha rápida não faria mal, até porque havia esse novo mangá que ele queria ler, então...

Cruzou pela porta de vidro fazendo o sino acima dela tilintar. O homem por trás do balcão o cumprimentou com polidez apesar de Kakashi ser uma figura bastante frequente naquele estabelecimento. Sem demora, o rapaz deixou o seu olhar vagar diretamente para os lançamentos de ficção, que ficavam na primeira prateleira, mas não era ali que ele queria ficar, por isso continuou seu caminho para o fundo da loja, deixando seus olhos passearem pelas capas que eram exibidas.

Era um saco ficar rodando entre as prateleiras quando se estava cheio de compras, mas apesar do arrependimento, ele já estava ali e por isso continuou andando pelos corredores estreitos enquanto resistia a vontade de parar a todo instante para folhear alguma obra que lhe chamava atenção pela tipografia, ou pelo título, ou pelas cores, ou até mesmo tudo junto. Praticamente deu a volta naquela loja relativamente grande, chegando naquela sessão que guardava os mangás.

Bem, ele queria dar uma olhada em todas as coisas, principalmente naquele livro franzino chamado Laranjeiras, mas acabou que devido a sua bagagem, resolveu pegar algo mais certo para seu gosto. Um bom mangá. Desses de edição única para não se torturar com continuações. Foi naquela sessão, enquanto olhava a lombada de um com capa dura que Kakashi ouviu aquela voz.

— Hatake Kakashi, é? Quanto tempo...

O rapaz girou o rosto apenas para ver o cabelo alongado, os ombros caídos, aqueles olhos castanhos sacanas lhe encarando com certo divertimento enquanto girava aquela senbon de um lado para o outro na boca.

Shiranui Genma.

— Ah, e aí?

O outro o olhou de cima a baixo, arqueando a sobrancelha.

— Teu apartamento pegou fogo e queimou todas as tuas roupas? – Ele perguntou confuso — Quanta coisa, cara.

Bisbilhoteiro.

Genma era assim, soltava uma piada em forma de pergunta para fazer as pessoas se justificarem antes que percebessem. Alguns caíam na pegadinha, tipo o Gai, outros conseguiam ver através da técnica mais antiga de fofoca, mesmo que em um primeiro momento o ímpeto de responder sinceramente tivesse lhe acometido.

— Só renovando as opções. – Disse de maneira indiferente, como sempre. — E você? Tá fazendo o que aqui?

Era uma mentira, é claro, mas Genma não precisava saber do real motivo por trás daquilo, principalmente porque tudo o que caia na boca dele acabava na boca de Kurenai e Aoba, então a melhor técnica era mudar de assunto.

Não que o motivo fosse grande coisa também, ele só resolveu acatar a sugestão de Yamato.

Só isso.

— Cheguei não faz muito tempo da missão, né? 'Cê sabe. A Tenten-sensei voltou mais cedo, deixou a carrasca da Kurenai no comando, e aí... Enfim. Tô atrasado com o mangá do Deus Shinobi. Vim comprar os últimos dois volumes.

— Se tu quiser, eu posso te emprestar o meu. – Kakashi disse dando os ombros — É só tomar cuidado pra...

— Não dobrar, não amassar, não arranhar a capa, não sujar de gordura as páginas, não comer enquanto lê... – Genma resmungava num tom cansado — Prefiro comprar uma cópia pra mim. É mais seguro.

— Você quem sabe. – Respondeu sem nenhum remorso.

Foi só nesse momento que Kakashi e Genma escutaram o tilintar do sino acima da porta, e com ele as vozes femininas em uma risada longa e pouco educada se fizeram presente. Genma foi o primeiro em se esgueirar para a extremidade da prateleira onde estava, apenas para espiar a entrada da loja, seguido de Kakashi, que o imitou naquele spot encontrado.

— Olha essa gostosa – Genma sussurrou mais para si do que para Kakashi — Puta que pariu.

Yamanaka Ino, sem seu cropped roxo adentrava a loja com seus longos cabelos loiros presos num rabo de cavalo que, nos sonhos mais profundos de um jovem Shiranui Genma, imploravam para serem puxados durante um boquete que só ela sabia fazer, porque aquela boca prometia a melhor chupada da vila, ele sabia bem.

Aí tu tá me dizendo que nunca tentasse fazer aquela coisa com chakra?! – Ino perguntou em tom divertido enquanto andava na frente da outra distraída com os livros.

Eu não disse que eu nunca fiz, tô dizendo que eu não faço sempre porque tem cara que não aguenta! – A outra justificou daquele jeito mais imperativo, fazendo Genma franzir as sobrancelhas para enxergar melhor aquele cabelo cor-de-rosa.

— Aquela é One Punch Sakura?Ele perguntou ao mascarado, que se mantinha discreto em sua camuflagem junto ao amigo.

— É. – Concordou observando a moça com aparência mais descansada, apesar de achar que ela ainda não tinha dormido o suficiente. — Minha nova capitã.

— Que belo upgrade, hein? – Genma soltou enquanto analisava a moça que se seguia para o outro lado da livraria — Bem melhor olhar pra essa bunda aí que tá olhando pra do Naruto-sensei, hein?

Kakashi revirou os olhos antes de deixar sua posição, percebendo que estava parecendo um stalker psicopata se escondendo numa livraria a menor menção da sua capitã. Genma, no entanto, ficou ali um pouco mais, percebendo que elas iam na direção da sessão que ele nunca pôde ir.

...

— Vem, Kakashi! – Ele disse puxando o amigo pelo braço. As sacolas se fizeram ruidosas, mas não o suficiente para que Genma se incomodasse enquanto usava todo seu treinamento para se manter oculto para observar com curiosidade o par de kunoichis se afastar.

— O que diabos você tá fazendo? – Kakashi perguntou quando foi jogando para o outro lado — A Sakura é uma ninja de elite, você acha que ela já não notou a gente aqui?

— Se ela tivesse notado, ela não estaria indo para lá. Vê só! – Apontou para o destino das moças, que passava para a sessão adulta da livraria sem nenhum constrangimento, ainda animadas naquele papo besta. — Eu quero saber o que elas vão comprar.

— Pra quê? – Kakashi perguntou num sussurro exasperado enquanto sentia suas bochechas esquentarem.

— Como assim pra quê? – O outro perguntou no mesmo tom — Quero saber do que a Yamanaka Ino gosta, porra.

O mascarado revirou os olhos como resposta, fazendo o outro estreitar os olhos com ceticismo.

— Não vem dar uma de puritano pra cima de mim, ou vai dizer que não quer saber qual tipo de putaria essa tua capitã gosta de ler? – Genma perguntou com aquele olhar sugestivo — Será um romance BDSM? Um daqueles melosos cheios de eu te amo? Um treco mais Kama sutra?

E a cada sugestão Genma que fazia, Hatake Kakashi se pegava mais e mais vermelho. Ele não queria imaginar Sakura desse jeito, lendo ou fazendo essas coisas, porque era inapropriado, afinal, ela... Ela era sua capitã. Eles precisavam manter uma distância para respeitarem um ao outro.

Mas Genma era um pervertido de primeira categoria.

— Kakashi, tua capitã é gostosa, mas eu não trocaria a Ino por nada desse mundo. – Disse voltando a encarar as duas naquela sessão proibida para menores de 18 anos — Aqueles peitos, cara... Aqueles peitos...

Oh, sim.

Ino tinha aqueles peitos, aquela barriga, aquela pele, e o cabelo. Ino tinha o olhar, e as mãos. Ino tinha aquela micro blusa que pedia para ser tirada, e na mente de Genma, ela usava uma calcinha minúscula socada no meio do rabo, com certeza, e Kakashi reconhecia que ela era uma mulher bem bonita, o suficiente para que Yamato fosse apaixonado desde sempre por ela.

Mas... O rapaz não estava no clima para apreciar os dotes evidentes – e os não evidentes – de Yamanaka Ino.

Não.

Kakashi, quando virou seu rosto já rubro na direção das meninas, encontrou Haruno Sakura, sua capitã, balançando um livro laranja para lá e para cá enquanto conversava qualquer coisa com a amiga. Elas riram antes que Sakura se inclinasse sobre Ino para ver o que a outra tinha nas mãos, e Kakashi viu aquele short colado, a pele da parte descoberta da coxa dela, viu também aquelas malditas botas de cano alto, e quando ela se virou, dessa vez com um livro capa vermelha na outra mão, Kakashi viu a blusa mais folgada se acumular entre os peitos dela, formando um óbvio contorno.

E aí ele viu o rosto dela distraído, e os olhos, e...

Puta que pariu.

Elas estavam saindo daquela sessão e vindo na direção dele, e Kakashi teve quase certeza que tinha sido visto. Se escondeu naquele seu lugar com Genma ao seu lado também mais encolhido, mas Kakashi sabia com todos os pelos do seu corpo que tinha sido descoberto, e sabendo de como a personalidade de Sakura poderia ser maldosa, ele resolveu tomar uma atitude desesperada, afinal, a última coisa que ele queria é que ela o taxasse de perseguidor quando aquela situação nem culpa dele era.

Por isso, nada mais justo do que simplesmente jogar Genma à boca dos leões com um chute inesperado, fazendo o amigo cambalear ao proferir um palavrão em surpresa. Nunca imaginaria que seria traído daquela forma, e logo por Hatake Kakashi, mas até mesmo Genma sabia que um ninja precisava ver através da decepção, e por isso, naquele exato momento em que fora jogado para fora do seu esconderijo, ele percebeu que poderia cair com a cara direto nos peitos mais deliciosos do País do Fogo.

Se iria cair, então ele cairia no ouro.

O que ele não sabia é que Yamanaka Ino era uma kunoichi de elite, e que um adolescente atrapalhado jamais a atingiria. Não precisou de muito para que ela apenas desviasse, e o garoto trombasse no display atrás de Ino, derrubando-o junto com todos aqueles livros expostos numa pirâmide.

— Falei que tinha um moleque se esgueirando – Sakura disse à Ino, cruzando os braços no processo, e o par de livros continuava em suas mãos. — Por que você tava brechando a gente, hein moleque? – Ela continuou naquele tom intimidador, se inclinando na direção de Genma caído.

— ... e-eu – A capacidade de fala do menino tinha sido perdida, e a única coisa que ele havia ganhado era o tom avermelhado nas suas bochechas.

— Para com isso, Sakura. – Ino resmungou mais branda — Deve ser só mais um dos teus fãs. – Comentou puxando a amiga para finalmente olhar o rapaz caído em seu constrangimento — Ah, olha isso. — E se inclinou na direção dele, deixando-o ainda mais nervoso com aquela situação — Você podia ter se machucado... – Ino falou com seu rosto bem na frente dele, e aqueles olhos azuis enormes lhe encarando, ao passo que aquela mão de longos dedos se aproximou apenas para segurar o metal que ele levava na boca — Senbons não são brinquedos, ok? – Completou puxando a arma da boca dele antes de lhe lançar uma piscadela.

Genma nunca se sentiu tão nervoso, sabendo que seu rosto estava tão vermelho quando a capa do livro que One Punch Sakura segurava numa das mãos. Ele, que sempre admirou a dona da floricultura, nunca pensou que estar tão perto dela fosse lhe deixar tão nervoso, e talvez fosse pela situação de merda em que fora colocado – maldito Kakashi – mas ele sentia que não conseguia pronunciar uma só palavra diante daquela mulher, e daqueles peitos.

— Ah, Ino, acho que ele é um ninja – Sakura disse levando a mão até a cabeça dele e puxando aquela bandana amarrada — Vê? Isso aqui é uma hitaiate.

— Oh. – A outra exclamou com humor — Um ninja bem atrapalhado, hein.

— Não se fazem mais ninjas como antigamente – A mulher de cabelos cor-de-rosa comentou com aquele tom um pouco crítico antes de jogar a hitaiate na direção do menino — Vamos embora, Ino. Deixa o moleque aí. – E nem esperou antes de continuar seu caminho pelo corredor longo.

Mas Ino ficou para trás apenas para se inclinar novamente na direção do rapaz, e aqueles peitos ficarem mais evidentes para o jovem estatelado entre os livros. Ele segurou a respiração sem nem perceber quando ela disse, daquele jeito legal demais:

— Diga A.

Genma hesitou, sendo pego de surpresa, mas Ino estava com aquele ar despreocupado e esperou que ele processasse o pedido em sua mente, abrindo a boca com um ruído entrecortado de um prolongado A. Foi aí que seu rosto ficou ainda mais vermelho quando ela devolveu a senbon para os seus lábios.

— Pode fechar a boca agora.

Ele fechou. Ino riu.

— Tome mais cuidado da próxima.

A mulher piscou e se foi num rebolado único.

E Genma se pegou preso naquela piscada, naqueles peitos, naquele rebolado. Ele se pegou completamente preso em todos aqueles livros e no sentimento constrangido que lhe acometeu como nunca antes. Precisou de um momento para se recompor, ainda que as bochechas continuassem naquele tom mais rubro, e amarrou sua hitaiate novamente na cabeça como antes.

Jurou Kakashi de morte em seu íntimo, mas não estava realmente com raiva. Não... Aquela piscadinha no final valeu por todo o tombo e constrangimento. Aquilo era mais material do que ele teve em toda sua vida. Ino, de certeza, era a mulher mais estonteante que ele já havia posto os olhos, Genma estava mais que convicto.

Se levantou para encontrar o amigo traíra que lhe empurrou para o destino fatídico, mais o filho da puta não estava ali. Não. Quem estava, no entanto, era o dono da loja com uma expressão nada amigável.

Alguém ia ter que limpar aquela bagunça.

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Se o perguntassem como escapou tão rápido daquela livraria, Hatake Kakashi não saberia responder. Seu único pensamento foi o de que não poderia ser pego por Sakura numa situação como aquela, e então tudo lhe ocorreu muito rapidamente: jogar Genma como uma isca e usar todo seu treinamento para sair sem ser percebido.

Também não sabia dizer se havia concluído sua missão emergencial com sucesso, mas tinha grandes chances de Sakura tê-lo deixado passar desapercebido, e por isso ele se manteve calmo naquela volta acelerada para seu apartamento, lá no final do centro. Não queria nem pensar o que teria acontecido caso ela conseguisse flagrá-lo a espiando.

Entrou pela janela, sem querer subir escadas, e largou todas aquelas sacolas no chão do quarto. Antes de guardar, ele teria que fazer uma triagem daquilo que gostaria de manter no guarda-roupas e daquilo que doaria – ou jogaria fora no caso de algumas peças. No final das contas, ele resolveu apenas tirar tudo das embalagens, dobrar em duas pilhas, e deixar sobre a escrivaninha perto de sua janela de maneira temporária.

Quando finalmente conseguiu relaxar, Kakashi resolveu que era a hora de tomar um longo banho para começar a se arrumar. O pessoal tinha combinado de se reunir na churrascaria para comemorar a promoção da Kurenai, a primeira jounin de seu grupo, e apesar de não estar exatamente animado, Kakashi queria ver os amigos que passaram tempo demais longe de casa.

Sim, ele estava com saudades.

Por isso ele se livrou daquele moletom preto com o qual saiu e a calça larga, ficando apenas com a máscara avulsa que usava e sua cueca. Enfiou a mão nos bolsos só para se certificar que não tinha nada, e foi aí que encontrou o vale-compras que não conseguira usar mais cedo. Encarou o papel por um momento, e como se fosse um portal, Kakashi foi sugado para as memórias recentes de uma Sakura na livraria em suas botas de cano alto enquanto saía em busca dos livros de capa vermelha e capa laranja.

Coçou a cabeça ao desviar o olhar para um canto qualquer do quarto num estalar de língua nervoso, porque Genma era sempre um filho da puta desavergonhado que ficava falando um monte de besteira sobre Yamanaka Ino, a dona da floricultura e objeto de afeição de Yamato, mas com isso ele estava acostumado, mas com aquela faladeira sobre Sakura ser isso ou aquilo... Com isso Kakashi não estava tão acostumado assim.

Que ela era bonita, bem, isso ele já sabia. Qualquer um que tivesse olhos poderia constatar isso sem problemas, mas quando Genma ficava gritando no pé de seu ouvido para que ele ficasse olhando para a bunda dela ou qualquer outro lugar, Kakashi se sentia nervoso. Oh, sim. Principalmente porque ele já tinha reparado em tudo aquilo.

Balançou a cabeça negativamente para recuperar o controle de seus pensamentos, sabendo que por baixo da máscara que usava, o tom vermelho o dominava. Olhou para o papel que ainda estava em suas mãos praguejando um xingamento para Genma enquanto sua mente se demorava na figura de sua capitã e no jeito que ela se inclinava sobre Ino, sussurrando algo com aqueles lábios rosados antes de pegar o livro das mãos da amiga.

Um livro que, parando para pensar, Kakashi sentia que era familiar.

Não que ele tenha reparado por mais de dois segundos naquela capa, mas ele sabia que já tinha visto aquele laranja em algum outro lugar que não nas mãos dela. Olhou para os lados de repente, colocou o vale-compras sobre a escrivaninha e, dentro de uma das gavetas, achou as chaves do apartamento do vizinho. Nem se preocupou em colocar uma roupa de tão urgente que ficou em sanar a dúvida que de repente lhe invadiu.

A porta do seu apartamento era ao lado da porta do apartamento de Yamato, o que significava que eles basicamente moravam juntos. Ele entrou rapidamente, acendendo a luz do apartamento que cheirava a plantas. Na estante da sala, Yamato exibia uma vasta coleção de livros sobre botânica, estudos sobre chakra, e outros escritos acadêmicos, no entanto, dentro do quarto dele, em cima de uma prateleira de madeira, havia aqueles livros que ele não queria exibir para qualquer um que entrasse em sua casa.

Ali, Kakashi encontrou um romance de fantasia muito bom, um outro livro contava uma história bem brega de um monge moribundo que, segundo Yamato, era um livro fantástico, mas para o adolescente metido que investigava aquela sessão, parecia só mais um romance chato e meloso.

"Será um romance BDSM? Um daqueles melosos cheios de eu te amo? Um treco mais Kama sutra?"

A voz de Genma surgiu sorrateira em sua mente enquanto ele passava os dedos nas lombadas em velocidade, para então encontrar aquele mais miúdo, quase perdido entre os outros maiores. Quem o visse, diria que não tinha valor, que talvez fosse sem sentido pela cor chamativa e capa pouco trabalhada, mas para Kakashi... O garoto ainda não sabia, mas havia acabado de encontrar sua alma gêmea.

Icha Icha Paradise.

E no folhear que de despretensioso não tinha nada, Kakashi acabou naquele prefácio escrito pelo próprio autor, que acabava dedicando o livro para todos os homens apaixonados que não tiveram seus finais felizes, deixando claro que isso não significava que eles precisavam ser infelizes por tabela. Kakashi estreitou os olhos sem entender muito bem, mas achou um pouco poético.

Fechou o livro, olhou a capa com mais atenção. Escrito por Mestre Jiraya.

Engraçado que um dos três Sannins Lendários tivesse exatamente esse nome, mas o garoto não se ateve a isso. Não, ao invés disso, Hatake Kakashi acabou se sentando na cama do outro enquanto pulava para a primeira página daquela história, e não precisou avançar muito para entender o porquê daquele livro estar escondido na parte mais obscura da livraria.

Era um livro erótico.

Um desses bem explícitos com detalhes bem detalhados, mas não do tipo enfadonho, que não acaba em lugar nenhum. A cena em questão era bem... bem escrita, e mesmo tendo zero experiência com sexo, Kakashi conseguia visualizar nitidamente o que os corpos faziam, e com mais um pouco de imaginação, ele até podia ver Sakura lendo aquilo na privacidade do seu quarto enquanto...

Merda.

Ele praguejou completamente vermelho, as bochechas pegando fogo de uma maneira que ele nunca tinha sentido. Céus... Fechou o livro em seu constrangimento súbito antes que tivesse uma ereção de verdade no quarto de Yamato, por isso ele apenas colocou a literatura debaixo do braço e fugiu dali como se estivesse fazendo algo muito errado, apagou todas as luzes antes de correr para sua casa, para o seu quarto, se deitando na cama para encarar o teto com o livro repousando bem ali em cima de seu peito.

"Será um romance BDSM? Um daqueles melosos cheios de eu te amo? Um treco mais Kama sutra?"

Novamente a porra da voz inconveniente de Genma se fazia presente em sua mente, se mesclando com a ideia de Sakura lendo aquilo e... e...

...

Engoliu seco tentando clarear as ideias, focando na narrativa daquela bela história. A primeira parte do livro era um... um... hã... um ato que Kakashi até considerou comum. Não era nenhuma posição esquisita, como se espera num Kama sutra, ou cheio de uma melosidade entediante, nem mesmo contava com alguma relação de submissão ou dominação a nível de um BDSM.

Para Kakashi, foi um momento bem normal, mas muito interessante e bem colocado, se é que ele podia dizer algo assim sem nunca ter feito nada do tipo.

O primeiro capítulo, na verdade, era bem tranquilo. Havia um mistério envolto num drama, mas as cenas complementares eram sempre divertidas com um tom de comédia sem exageros, e o protagonista quase sempre acabava tendo algum contato íntimo com alguém, que era narrado de um jeito que fazia Kakashi querer experimentar a sensação, e não apenas construir uma piscininha no umbigo.

Quando terminou aquele capítulo, Kakashi fechou o livro e olhou para o teto. Estava vermelho, mas pelo menos estava sozinho, seu pau estava duro, mas ele não queria bater uma, e por fim sobrou apenas um par de botas de cano alto em sua mente, que o fez puxar a própria máscara num frenesi enquanto se levantava, soltando um ruído frustrado para o vazio do quarto.

— O que tá acontecendo comigo!?

Pobre Kakashi... Um jovem adolescente descobrindo literatura erótica enquanto sentia, pela primeira vez, algum tipo de interesse a mais em outra pessoa. E logo ele que pensou que poderia seguir sua vida de maneira mais resoluta uma vez sanada toda aquela curiosidade sobre a figura de cabelos cor-de-rosa se viu, de repente, numa armadilha.

É verdade que a tal curiosidade não o impedia de viver, mas é que todas as vezes que falavam dela, Kakashi imaginava o que diabos ela tinha de tão especial. Quem era essa mulher, a incrível Sakura do Naruto, a divertida Sakura do Yamato, a mais promissora aluna de Sakumo...? Ele ainda não sabia bem o que eles viam nela, mas ele sabia mais ou menos o que via, e para ele...

Para Hatake Kakashi, aquela busca pelo algo especial de Haruno Sakura estava se tornando um tanto perigosa, e agora ele se sentia navegando em águas desconhecidas, muito mais do que antes, num campo que ele definitivamente não dominava, e sequer um sextante tinham lhe entregado para que essa navegação fosse um pouco mais segura, mas ele não sentia que queria voltar atrás.

Na verdade, nem tinha como.

Por isso, o jovem homem coçou sua cabeça com as duas mãos num gesto exasperado, logo depois, apontou para o próprio pau e implorou num comando imperativo para que ele se comportasse, e só então suspirou derrotado, os ombros caindo, os olhos fechando... Dois segundos em silêncio e, de repente, ele abria os olhos ainda mais urgente.

— Porra!

Pela primeira vez na vida, Hatake Kakashi estava atrasado.

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Se olhou no espelho mais uma vez, conferindo se tinha escolhido as roupas certas para conquistar o coração de uma certa kunoichi. Já era a quinta troca de roupa, e ele sabia que estava atrasado, mas não tinha muito o que fazer: preferia chegar atrasado a chegar feio.

Daquele look ele gostou. A camisa era aquela preta padrão que todo Uchiha tem no armário aos montes, mas ele achou que dava um toque despojado à sua aparência, como se ele não tivesse se importado muito em escolher. Colocou uma calça de cor clara, um tom de bege que ele jamais saberia o nome, porque tinha ouvido em algum lugar que contraste é bom. Pegou aquele sobretudo azul de capuz, e suas sandálias ninja habitual.

Estava pronto.

Lindão.

Deu um tapa no cabelo, penteando para ficar mais cool, do tipo "acordei perfeito". Era isso. Hoje ele iria conquistar Nohara Rin com uma agradável conversa e um sorriso encantador. Pegou a carteira, o colírio, as chaves de casa e saiu do quarto pronto para arrasar um só coração.

— Awn, Obitinho! Você tá tão lindinho!

— Vó!

Naquele momento, Obito se sentiu inseguro. Será que ele estava lindinho para a terceira idade ou lindinho no geral? Aliás, o que lindinho significava naquela situação? Era bom estar lindinho? Porque Obito queria estar parecendo um daqueles caras legais dos mangás que estão sempre com um ar descolado, deixando as meninas vermelhas só com a sua mera presença, e ele não sabia muito bem se lindinho se encaixava nessa descrição.

Na verdade, ele só queria deixar Rin vermelha, as outras poderiam nem mesmo notá-lo, ele não se importava. Ele só queria um sinal de que Rin poderia sentir algo parecido com o que ele sentia para se encher de coragem e finalmente, de uma vez por todas, deixar muito claro que ele era completamente e irrevogavelmente apaixonado por aquelas bochechas lilases.

— O quê?! – A mulher perguntou, de repente, se sentindo reprimida — Não posso elogiar meu neto?!

— É claro que pode! Mas eu não quero ficar awn, eu quero ficar uau.

Dando uma risadinha daquela declaração tão vergonhosa, a avó de Obito maneou sua mão com humor. Obito estava mesmo naquela fase de só pensar em garotas, e não que antes ele não o fizesse, mas agora estava muito mais evidente. Tudo o que seu neto fazia parecia ter como objetivo conquistar a garota dos Nohara.

— Sabe, meu bem, você não tem que ficar tentando se ajustar pra conquistar alguém. Você sabe, não é?

E ele odiava essa conversa.

Obito já sabia as exatas palavras que viriam com aquele discurso sobre ser ele mesmo e de como a garota certa apareceria no momento certo, etecetera. Ele não queria ter que escutar toda essa baboseira de novo e de novo, porque isso era conversa fiada, não era? Amor é sobre lutar para conseguir a garota, e ele estava disposto a se esforçar por isso, afinal, Rin valia a pena.

Rin sempre valia a pena.

— Eu sei, vó. Só quero tá bonito. Nada de mais. – Disse fazendo pouco caso da situação — Faz tempo que não nos reunimos todos juntos.

— Se você quer saber, eu te acho muito bonito. – Ela respondeu simpática, fazendo o menino sorrir com aquela expressão de é claro que você acha. — Na verdade, hoje você tá até mais parecido com seu pai. Sua voz até tá mais grossa.

Arqueando uma sobrancelha, Obito se sentiu brevemente curioso. Não que ele se importasse em parecer ou não seu pai, mas sua avó não era de falar essas coisas com tanta frequência. Para ela, o assassinato dos seus pais era algo pesado demais para se encarar de frente, e ele entendia o evitamento com relação a todas as memórias, entretanto, quando ela dizia algo com aquela claridade, Obito sentia que deveria prestar um pouco de atenção, ainda que estivesse atrasado.

— Então talvez eu esteja mesmo bonitão – Obito disse apenas para tentar ser gentil. No clã Uchiha, todo mundo tinha um certo padrão de beleza, mas isso não significava que todos eram realmente atraentes. — E minha voz tá grossa mesmo?

Com um sorriso divertido, a idosa apreciou a juventude de seu neto por um momento. Mesmo tão alto e com a voz tão mais grossa, Obito ainda era um garoto avoado e sem experiência alguma. Era bonito enxergar o mundo com certa ingenuidade, ainda que ele não pudesse admitir que ainda era tão ingênuo, mas tudo bem. Era algo da idade, a senhora Uchiha Yuno sabia bem.

— É claro que está. Seu pai tinha uma voz muito grossa, como trovões, e a sua está indo pelo mesmo caminho. — Ela respondeu tranquila, resolvendo ocultar a parte em que quando ele gritava, a voz afinava novamente, mas isso logo ia passar provavelmente. — Além disso, querido, o ano está quase terminando e logo será seu aniversário de dezoito... Já pensou nas suas opções?

Bem, faltavam pouquíssimos dias para outubro chegar, e sim, talvez logo o ano fosse terminar, mas Obito ainda sentia que seu aniversário ainda estava bem longe, e por isso ele vinha evitando pensar nessas tais opções, que não eram muitas, é claro, mas o suficiente para que ele pudesse considerar algumas coisas sobre seu próprio futuro, e a de seu clã também, afinal, assim como Shisui, Obito era um dos mais próximos da linhagem principal.

Ele olhou para a sua avó tentando transparecer certa neutralidade. Não queria pensar muito no que tinha para fazer após atingir a tão esperada maior idade, que não mudava muita coisa na prática, afinal, as responsabilidades militares já o colocavam num patamar diferente nesse aspecto. Nenhum ninja é uma criança ou adolescente normal. O conceito de infância era diferente para eles, ainda que alguns pudessem se beneficiar um pouco mais dessa passagem da vida.

— Vó, eu não quero assumir um cargo no corpo policial de Konoha – Ele disse de maneira muito contundente, olhando para a mulher a sua frente com sinceridade. — A polícia de Konoha acabou quando o clã Uchiha se dividiu, e mesmo que ainda fosse uma instituição séria, eu duvido que eles fossem admitir um Uchiha novamente na corporação.

Oh, sim.

Na gestão do Segundo Hokage, Senju Tobirama, o clã Uchiha recebeu a responsabilidade de assumir uma instituição de caráter autárquico, mas servente ao estado, que serviria para manter a segurança dos civis no perímetro da Vila da Folha. Na prática, a polícia servia para aliviar o trabalho dos ninjas regulares, ANBUS, e divisão de inteligência, já que garantia que havia contingente suficiente em Konoha para lidar com uma possível invasão, faziam rondas periódicas para lidar com possíveis conflitos de caráter civil ou não, e ainda atuavam na proteção dos prédios públicos.

De acordo com o que Obito sabia, a polícia foi considerada pelos seus parentes como um cala a boca para conter uma possível revolução, o que não funcionou por muito tempo e só os deu poder suficiente para que atacasse. Nos dias atuais, era uma instituição quase falida que tentaram dar aos Inuzukas, mas eles apenas riram da proposta feita, é claro, pelos Hyuugas. Ninguém quer receber sucata, e a polícia era isso.

Não que Obito fosse muito ligado em politicagem, mas era de conhecimento comum que os Hyuugas tinham modificado algumas estruturas para dar poder aos clãs mais próximos deles, e dessa forma, a Divisão de Inteligência e a Academia Ninja tinham ido parar nas mãos dos Aburames, assim como a Polícia de Konoha passou a ser dos Sarutobis, marcando também uma ruptura de relações com os Inuzukas.

Para os Uchihas, não sobrou nada. O golpe, além de acabar com a reputação e confiança popular, também diminuiu a quantidade de membros disponíveis. Não eram mais o maior clã de Konoha. Talvez ainda fossem o sexto, ou sétimo, mas o maior era os Hyuugas, sem sombra de dúvida. Era por isso que os Uchihas que sobraram ficaram tão próximos das vontades de Hyuuga Hinata, todos desesperados por um pouco do status que antes tinham.

Mas Obito sequer lembrava da época que ser um Uchiha significava ser algo bom.

Ele tinha cinco anos quando tudo aconteceu, e agora, quase trezes anos depois, ele sentia que não queria tentar ingressar numa instituição tão falida quanto a polícia, apesar de sua avó querê-lo fazer seguir os passos de seu pai, que foi um importante inspetor dentro da organização.

Na verdade, Obito sempre quis ser um ninja que inspirasse as pessoas. Queria recuperar o nome do seu clã e fazer toda a Vila da Folha entender que, é, alguns Uchihas fizeram coisas erradas, mas os que ficaram ainda eram confiáveis. Obito queria reconhecimento por sua força e feitos, assim como muitos outros ninjas, mas...

...

Ainda que quisesse tudo isso, o jovem ninja havia esbarrado na dura realidade ao conhecer, pela primeira vez, um ninja que inspirava pessoas, que era reconhecido por sua força e seus feitos superavam a barreira da linhagem.

Haruno Sakura era esse tal ninja, e ela era tudo o que ele queria ser, só que ao mesmo tempo era tudo o que ele não queria ser. Tudo bem que ela inspirava pessoas, que tinha o reconhecimento... Mas ela não era nada como Obito imaginava que um ninja desse calibre fosse. Ela era debochada, chata e incrivelmente... ... .. machucada.

Foi isso que ele percebeu depois de todas as palavras que Kakashi lhe disse naquele dia no hospital, e por muito tempo ele se sentiu com raiva do amigo, mas quando esse sentimento foi superado e as palavras do outro se acomodaram em sua mente, Obito pôde ver com mais clareza que ela era exatamente aquilo: uma sobrevivente.

Só há dois tipos de ninjas no mundo, Kakashi disse, mas ele não queria ser nenhum dos dois. Obito queria ser um terceiro tipo, mas ele ainda não sabia bem como poderia atingir esse terceiro tipo. Não sabia que caminho tomar para chegar nesse objetivo, e era por isso que ele não queria pensar muito sobre o que deveria fazer no futuro, porque a única coisa que era bem clara em sua mente era que ele precisava treinar.

E só isso.

O primeiro passo era ficar forte, e o resto viria depois, ele imaginava.

Mas nada nesses passos parecia incluir um cargo na polícia, principalmente quando isso iria afastá-lo de seus preciosos amigos, e só estando junto deles, Obito seria capaz de protegê-los. Era protegendo-os que ele se tornaria o terceiro tipo. O que salva e sobrevive. O que não se machuca. O que pode até ser chato e debochado, mas certamente não é machucado, e sim curado.

Ah, Obitinho! Você ia ficar tão fofo no uniforme...

Obito riu num revirar de olhos. É claro que sua avó não ficaria chateada com aquilo, não é? Tudo bem que ele tivesse um legado e não quisesse assumi-lo. Ela entendia isso.

— Soube que nós ninjas vamos ganhar um uniforme novo, vovó. Vou ficar mais bonito nele. Não fofo. Só bonitão.

— A Rin-chan não vai resistir a você, hein.

— V-VÓ! – A voz dele afinou naquele chamado constrangido enquanto a idosa apenas se permitiu rir da expressão do menino. — N-não é a Rin!

— Ah, então já que não é ela, não vai ter problema se ela se irritar com você por chegar atrasado, não é? – A mulher disse com uma risadinha — Ainda bem, ainda bem...

Mas Obito apenas arregalou os olhos, virando-se rapidamente para o relógio sobre a mesa antes de gritar.

— NÃO ME ESPERAR ACORDADA, VÓ!

E assim, saiu como um furacão de dentro de casa.

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Apertou a faixa branca de seu casaco branco na cintura enquanto ria do resmungo da garota ao seu lado que não parava de reclamar sobre como era insuportável fazer parte do mesmo time que Shiranui Genma, e que Yamashiro Aoba só era mais suportável porque passava mais tempo calado. Segundo Kurenai, ambos eram dois idiotas machistas que objetificavam qualquer mulher que surgisse na vista deles.

Rin apenas dava risada de todas aquelas reclamações, não porque achava engraçado o comportamento daqueles dois, mas porque Kurenai nunca mudava. Ela nunca desistia de tentar mudar o mundo, o que era ótimo. Ela era linda com os olhos vermelhos e o cabelo cacheado que ondulava em seus ombros. Naquela noite, Kurenai usava um batom vermelho intenso, e por baixo do casaco preto, usava um vestido colado.

Fazia alguns meses que não se viam, porque o time dela havia saído nessa missão de longa duração, e agora estavam de volta com a maior novidade desde a aprovação de Obito como chunin: A promoção para jounin de Kurenai.

Não duvidava da força da amiga, mas se pudesse apostar, diria que Kakashi era quem seria promovido primeiro, mas tudo bem. Estava feliz e animada por ela, como se aquela nova patente abrisse as portas para todos os outros finalmente adentrarem a vida adulta, porque para ninjas há dois caminhos para a maior idade: Fazer dezoito ou se tornar jounin.

Naquele momento, enquanto andavam, Kurenai era uma adulta perante a lei, ainda que tivesse apenas dezessete anos, e não que isso causasse algum tipo de inveja em Nohara Rin, mas era estranho pensar que sua amiga resmungona agora ocupava um cargo tão determinante na Vila da Folha, podendo coordenar até mesmo missões Rank S, assim como Naruto-sensei e Sakura-taichō; algo que parecia bem distante da realidade da própria Rin.

Mas aquele dia não era de lamento. Não. Aquele dia era um momento de comemoração para os que haviam se formado juntos na academia ninja, e não era Rin quem iria transformar a vitória da amiga em algo pesado demais para se lidar. Rin estava feliz, animada, e cheia de uma esperança de que se caso conseguisse se esforçar de verdade, ela poderia estar ao lado da amiga como uma kunoichi de elite.

Elas poderiam lutar lado a lado, quem sabe.

— O Asuma tá na vila? – Rin perguntou quando viraram a esquina da loja de especiarias, ambas se aproximando do destino final.

— Não. – A outra respondeu encolhendo os ombros — Eu acho que ele não vai mais voltar.

De repente a expressão de Kurenai era um pouco triste naquele encolher-se disfarçado. Rin continuou olhando para ela, repuxando o canto do lábio num sorriso de apoio. Não havia muito o que dizer desde que Sarutobi Asuma e seu pai, Sarutobi Hiruzen, haviam brigado por divergências políticas, acarretando no debandar-se do mais novo para o grupo denominado Os Doze Guardiões Ninja. Agora Asuma servia diretamente ao Lorde Feudal do Fogo, e tudo sobre patentes e militarismo não se aplicava mais a ele.

— Vocês não se falam mais?

— Eu o enviei algumas cartas, mas elas nunca foram respondidas. – Kurenai disse abaixando a cabeça, os olhos enxergando seus pés naquela sandália mais alta — Acho que não importa mais.

Rin ficou em silêncio por um momento enquanto o vento frio soprava no rosto delas, agitando os cabelos num desarrumar nada gentil de todos aqueles fios. A garota com cabelo mais curto já não sabia o que dizer, porque não fazia sentido que Asuma se afastasse até mesmo do grupo, mas era uma decisão que iria muito além dos seus próprios conhecimentos. Só Asuma sabia dos próprios motivos.

Kurenai a olhou com um sorriso triste antes de arrumar aquela mecha para trás da orelha. Ela era tão bonita com aquele rosto alongado, e o batom vermelho a fazia parecer uma modelo de revista.

— Tá tudo bem. – Disse dando os ombros — Não vou ficar me torturando pelas decisões dele.

— Sim. – A outra anuiu — No final das contas, não vale apena, não é?

— É, meio que não quero mais ficar pensando no Asuma. Ele sabe onde eu moro, não é mesmo? – Ela riu — Além disso, não é como eu estivesse esperando por ele. Tenho outras coisas para me preocupar agora, como a comemoração da minha promoção!

Rin sorriu para amiga, que enfiou a mão nos bolsos do casaco bem ajustado ao corpo para lançar um olhar cúmplice a moça de cabelos castanhos. As amigas enroscaram seus braços uma na outra enquanto faziam aquele resto de trajeto até o local que seria palco da comemoração não tão íntima de Yūhi Kurenai: o Churras-KO.

O lugar era tradicional da Vila da Folha, reunindo ninjas e civis para momentos de confraternização, seja com jantares à dois ou até mesmo comemorações mais amplas. Alguns mais velhos chamavam aquele lugar de bar pela carta de bebidas alcoólicas exóticas que era ofertada aos clientes, mas em alguns momentos, o Churras-KO também oferecia shows com bandas locais e até mesmo noites de promoção de rodízio.

Ou seja, era um lugar bastante eclético.

Por isso não foi surpresa quando ambas acabaram por encontrar o local meio cheio, num abarrotamento de ninjas com seus coletes verdes e civis que procuravam um pouco de diversão naquela noite. Elas olharam para as pessoas sentadas às mesas distribuídas de maneira ordenada pelo salão, mas não encontraram ninguém conhecido em especial.

Se olharam em dúvida. Não estavam adiantas, mas também não estavam atrasadas. Esperavam que ao menos alguém tivesse chegado um pouco mais cedo e reservado uma mesa grande, mas não parecia ser o caso. Kurenai foi quem saiu na frente puxando Rin pela mão para desbravar aquelas mesas mais afastadas, separadas por divisórias de bambu para criar esse clima mais discreto. Foi ali que finalmente esbarraram nos dois retardados que haviam se sentado ali ao invés de reservar o mesão do salão.

Shiranui Genma e Yamashiro Aoba.

— Puts, vocês são idiotas? Essa mesa dá, no máximo, umas seis pessoas. – Kurenai reclamou apoiando suas mãos nos quadris.

— Kurenai, tu é um porre, na moral. – Genma suspirava diante da mulher — Relaxa que o garçom falou que logo iria nos mover para uma mesa maior lá atrás. Só estão limpando tudo. Dá um crédito pra nossa inteligência, ow.

— Humpf. Como se vocês merecessem. – As bochechas dela coraram brevemente pelo constrangimento de ter dado um esporro sem necessidade, mas... Oh, bem... Ela não iria se desculpar por isso.

— Oi, Rin. – Aoba cumprimentou com um sorriso tranquilo enquanto as duas ocupavam um lugar logo à frente deles. — Faz tempo que não nos esbarramos. Como vão as coisas?

Aoba estava um pouco diferente do que Rin se lembrava, mas não era nada que ela pudesse identificar com muita certeza. Talvez fosse só um estranhamento pelo tempo que não se encontravam, afinal, o garoto era praticamente seu vizinho, sendo eles amigos por conveniência. A moça em sua saia branca respondeu polidamente enquanto uma conversa branda se iniciava.

Pouco depois, Anko e Shinuze chegaram juntas. As duas eram dois anos mais velhas que todo o grupo, porém não era algo que as impediam de andar junto do pessoal. Shizune ocupou um lugar ao lado de Aoba, mas foi Genma quem rasgou elogios nada galantes sobre a moça, recebendo uma longa risada em deboche como resposta a qualquer expectativa que ele pudesse ter.

Fizeram alguns cumprimentos, pediram algumas bebidas, e então a questão surgiu:

— Kakashi e Obito vão vir?

— Kakashi já era para estar aqui, não é? – Anko disse olhando ao redor — Ele nunca se atrasa.

Rin sorriu torto para a dupla sem saber muito bem como responder. Era uma verdade que Kakashi não costumava se atrasar, o que a fazia pensar se ele tinha desistido de comparecer. Olhou para Kurenai com discrição, apenas para receber um pouco de conforto em troca, porque, é... Rin meio que queria ver Kakashi naquela noite, sem a desculpa de precisarem treinar ou qualquer outra coisa relacionada ao trabalho.

Aquela saída para comemorar a promoção de Kurenai era a desculpa perfeita para estar num lugar diferente com ele, tentar ter outro tipo de conversa, e quem sabe até mesmo outro tipo de interação. Rin esperava – torcia – para que ele notasse algo diferente nela, a ponto de que sua atenção fosse capturada, seja pela beleza ou até mesmo por qualquer outra coisa.

Não que o Churras-KO fosse um lugar propício para a magia do amor acontecer, mas Rin confiava que a fagulha poderia surgir a qualquer momento e em qualquer situação. Ela só queria uma chance, apenas uma chance, para que pudesse mostrar para Kakashi que o que sentia não era apenas uma admiração pelo ninja que ele era, mas sim algo muito além.

A possibilidade de ele não ir, entretanto, nunca se passou pela jovem cabeça de Nohara Rin, que de repente, se sentiu ansiosa pelo tal encontro que não era bem um encontro, mas que poderia vir a ser a ponte para um. Foi por isso que ela olhou por cima do ombro para a porta do local na esperança de que, naquele exato momento, Hatake Kakashi entraria em toda sua glória e seus olhares se cruzassem num momento mágico.

Mas não foi isso o que aconteceu.

Rin encarou a entrada por um momento vendo pessoas desconhecidas transitarem ali num ir, mas nenhuma delas era o alvo de seu desejo, então ela virou-se para sua mesa, olhando para o copo suado a sua frente e resolveu apenas entregar na mão do destino sem saber que que o jovem Hatake estava a poucos metros dali, andando com rapidez pela sensação péssima que era estar atrasado.

Como as pessoas conseguiam? Como elas se atrasavam daquele jeito sem sentir um pingo de remorso? As pessoas o estavam esperando, e ele estava uma hora ou duas atrasado! Era uma imensa falta de respeito, e Kakashi não queria ser desrespeitoso com ninguém, mas acabou que seu pau não queria descansar nem com água fria, e ele acabou batendo uma punheta furiosa no chuveiro.

Se orgulhava disso?

Não.

E ele até queria se justificar, dizendo para si mesmo que era apenas uma ereção aleatória, mas não era. Aquilo tinha sido consequência de ler pornografia em pleno horário comercial, sabendo que teria um compromisso logo mais. Onde estava com a cabeça? Se perguntava exasperado enquanto vencia a noite fria, recebendo como resposta do universo a imagem mental daquele par de botas de cano alto, seguindo daquela cena em que uma moça surgia apenas com seus sapatos para o protagonista, e meio que tudo se mesclou em sua mente.

Porque, para Kakashi, botas de cano alto tinham muito mais apelo.

— Não! – Ele disse para si mesmo naquele tom imperativo, precisando diluir a imagem em sua mente e focar em coisas práticas, como seu atraso por exemplo. Por isso ele adiantou seus passos o suficiente para virar aquela esquina e trombar em...

— Olha por onde anda!

Uchiha Obito.

Eles se encararam confusos por um momento, reconhecendo um ao outro antes mesmo que Kakashi pudesse responder aquele pequeno desaforo que havia recebido. O ninja mascarado colocou uma mão no quadril, arqueando a sobrancelha ao perceber o estado de Obito.

— Tu tava dormindo? – Perguntou confuso.

— Como assim? – O outro indagou mais confuso ainda.

— Parece que pegou a primeira roupa que viu e saiu sem nem pentear o cabelo.

— Bakashi! Você não entende nada de moda! – Ralhou assim que a ofensa discreta o atingiu, afinal, quem foi que tinha ajudado Kakashi a comprar pilhas de roupas ainda naquela tarde?! — E olha quem fala! Por que diabos você se atrasou? Dormiu demais?

O rapaz pigarreou em resposta, como se tivesse acabado de perceber que não poderia passar um sermão no amigo quando estava tão ou mais atrasado que ele.

— Algo assim – Respondeu dando os ombros — Vamos logo antes que achem que desistimos.

Com um resmungo, Obito resolveu apenas seguir o chamado sem continuar aquela discussão, afinal, tinha uma certa pessoa que ele estava bastante ansioso para ver, dessa forma, logo chegaram ao local, passando pela porta rapidamente enquanto procuravam a mesa certa. Àquela altura, o grupo já tinha sido movido para uma mesa maior e não foi difícil ver os três assentos vagos que eram reservados para os que ainda não haviam chegado.

Foi quando Rin se virou e viu Kakashi.

Ela segurou a respiração porque ele era tão lindo, e com aquele ar despojado ele ficava ainda mais interessante. Se sentiu corar à medida que ele se aproximava ao lado de Obito, e talvez estivesse aí o motivo do atrasado do rapaz, mas ela não pensou muito nisso porque logo Kurenai se levantou sem nenhum aviso prévio, abraçando primeiro Obito e depois Kakashi.

— Obrigada, gente! – A mulher agradecia as parabenizações ditas ao pé do ouvido pelos amigos que acabara de abraçar — Logo vamos estar nos reunindo de novo, dessa vez para comemorar a sua promoção, Kakashi.

— Não tô com pressa, mas vai ser bom – Ele sorriu tranquilo antes que pudesse olhar para a mesa num cumprimento geral. Genma o lançou o dedo do meio, fazendo Kakashi encolher os ombros, mas foi Rin quem disse aquele oi mais discreto, porém muito presente. — Rin, você tá bonita.

Foi um elogio polido, dito daquele jeito desinteressado de sempre, mas para uma Nohara Rin apaixonada, aquilo tinha valido toda a noite, ao passo que Obito apenas fez uma careta em desagrado enquanto que Kakashi virou-se para Kurenai assim que ouviu aquela risadinha saindo dos lábios vermelhos.

— E você também, Kurenai. Tá muito bonita.

Não esperou nenhuma resposta, apenas resolveu ocupar o primeiro lugar vazio que viu, ao lado do pervertido Genma que queria lhe assassinar, mas a jounin foi rápida em segurar o braço do rapaz, dizendo que ele deveria sentar-se ao lado da companheira de time que ainda estava corada, entretanto, todas aquelas pessoas eram ninjas, e Obito também foi rápido em se voluntariar para ocupar aquele mesmo lugar, já que Kurenai não queria mais se sentar ali.

...

Eu vou matar o Obito – A mulher de longos cabelos negros resmungou ao sentar-se ao lado de Genma, enquanto Kakashi acabou sentando-se na ponta, e Obito ao lado de uma Rin que não estava muito atenta a qualquer coisa que ele pudesse oferecer.

— Tu tava dormindo, Obito? – Foi Aoba quem perguntou — Parece que nem trocou de roupa para ir pra cá.

— Deu tempo nem de passar um pente no cabelo – Genma completou pegando um pedaço de carne que estava assando no centro da mesa.

— Vão se foder – O outro respondeu com um bico.

— Como tu pretende conquistar alguém com esse visual, Obito? Ninguém gosta de homem bagunçado não. – Anko dizia naquele tom de voz debochado.

Para com isso, Anko! – Shizune se pronunciava entre risadinhas, sabendo exatamente o que a outra estava fazendo. — Obito, não liga pra esse povo. Você tá ótimo pruma noite no Churras-KO. Não sei nem por que a gente se arruma pra vir pra cá. Olha a Kurenai como tá, e só tem bêbado aqui.

— Eu me arrumo para mim, ok? Quero estar sempre bonita, independentemente do local onde eu esteja. – Ela disse com propriedade, sorvendo um pouco daquela bebida estranha no copo.

— Tu batizasse essa água, não é? – Genma estreitou os olhos para ela — Agora que é jounin vai virar alcoólatra?

— Cala a boca, Genma. – Kurenai respondeu revirando seus olhos exageradamente — Agora tu é o quê? Fiscal de copo? Me poupa. Vai tu e teu refrigerante pra área kids.

— Quero saber o que a Tenten-sensei vai achar disso! – Ele respondeu com aquela falsa autoridade que tinha.

— A Tenten-senpai vai achar maravilhoso ter mais uma companheira de copo – Anko disse com uma risada — Foi com ela que tomamos nosso primeiro porre, né Shizune?

— O seu, sim... O meu foi com a Tsunade-sama. – Ela riu com a memória — E pra curar minha ressaca, ela me deu mais uma garrafa de saquê no outro dia.

— É mesmo... – Rin suspirou de repente, recuperando seus modos perante o efeito do elogio de Kakashi — Você treinou com ela por um tempo, né?

— Uhum. Mas ela teve uma viagem importante para fazer e agora eu tô por aqui no hospital e em algumas missões que envolvem selamento. Tô me especializando nisso.

— Sempre fico curioso com algumas técnicas de selagem – Kakashi disse, finalmente vendo algo pelo qual se interessava surgir como pauta — Já li um pergaminho na casa do Naruto-sensei que falava sobre um selo de cinco pontas que parecia bem versátil.

— Oh, sim. Eu conheço esse selo, mas ele serve mais como um reforço. Ele é facilmente rompível se não tiver uma base mais forte. – Shizune explicou tomando um golinho da sua bebida batizada também. — Eu diria que a sua medida para decidir usá-lo ou não é a longevidade da coisa selada, e claro, a quantidade do que você vai selar, presumindo que seja algo embebido em chakra.

— Ah, sim, mas eu tava pensando em pequenos amontoados — Ele continuou esticando os hachis para pegar um pedaço daquele frango grelhado, trazendo-o para perto da cabeça ainda distraído com o que falava — Tipo, algo como senjutsu, ou...

Kakashi sabia, por certo sabia, que era feio ficar gesticulando com os hachis na mão, principalmente quando havia alguém bem ao seu lado. Ele manteve aqueles talheres erguidos próximo a cabeça com o pedaço suculento de frango balançando, mas ele era um ninja de elite, e jamais deixaria aquilo cair mesmo distraído, entretanto ele não contava com aquela mão agarrando seu braço e puxando-o para trás.

Manteve-se firme quando virou o rosto, vendo os lábios femininos abocanharem o pedaço de comida com uma destreza absurda. Ele corou quando percebeu os olhos verdes lhe encarando divertidos, e os cabelos rosados caindo brevemente para o lado por conta do inclinar da cabeça dela na sua direção.

Houve silêncio na mesa.

Todos estavam um tanto chocados pela audácia da mulher de cabelos cor-de-rosa em apenas comer do frango no talher de Kakashi sem nem ao menos perguntar se podia. Ninguém, entretanto, podia perceber a vermelhidão tomando conta do rosto do rapaz, exceto Rin, que o observava há tempo suficiente para perceber qualquer nuance. Ele parecia completamente desconsertado, e tudo bem, porque Sakura era desconcertante, mas Rin queria em seu íntimo que Kakashi pudesse corar quando olhasse para ela também, e não só para Sakura.

Hmmmm... Ino, eu disse que a gente deveria ter pedido frango também! – Ela choramingou ao arrumar a postura e virar-se para a loira logo atrás — Isso tá tão bom!

— Sakura, a gente não ia aguentar comer tudo isso. – A loira riu ao colocar a mão na cintura. — Para de ser olhuda.

A mulher suspirou para a amiga como se fosse uma criança recebendo um sermão. Ele viu as bochechas dela um tanto coradas e ali soube que ela havia bebido um pouco também, assim como Yamanaka Ino que estava com aquele ar um pouco mais solto.

Quando seus olhos voltaram a pender na mesa, Sakura acabou focalizando o rosto de Shizune um pouco mais distante. Ela a cumprimentou com um aceno energético, sendo retribuída com um aceno animado da mais nova, foi então que ela viu Kurenai, e depois Rin, e aí Obito...

— Hmm... Confra da turma é? – Ela perguntou em volume moderado, inclinando-se novamente para perto de Kakashi para falar discretamente com ele — Tome bastante água para não sofrer com a ressaca amanhã.

Kakashi pigarreou.

— E-Eu não tô bebendo.

— Não?

— Não...

— E tá esperando o que pra começar?

— Eu não bebo.

— Não?

— N-não...

— Bem... Já que está sóbrio... – Ela disse maneando a cabeça enquanto chegava um pouco mais perto do rapaz, os lábios próximos ao ouvido dele — Ajeita essa postura. – Sussurrou fazendo o rapaz logo erguer o peito com um sobressalto.

Ela deu uma risadinha sem saber direito o porquê, apoiou uma mão no ombro de Kakashi e olhou para o resto dos seus genins. Kakashi estava claramente vermelho sem conseguir olhar direito para ela enquanto tentava não pensar em nada em específico. Ele só encarava Aoba, depois Anko, depois Shizune... Os únicos três que pareciam já ter normalizado Sakura naquela situação.

— E vocês aí, tão namorando?

Obito quase cuspiu todo o suco que estava tomando em cima da mesa, engasgou-se e acabou com suco de laranja saindo pelo seu nariz enquanto Rin parecia tão desconsertada que tinha esquecido como funcionava a fala.

— Vou considerar isso como um sim. – Ela disse rindo daquela tragédia, ao passo que Kakashi nem conseguia pensar direito.

— Sakura, deixa de ser inconveniente com os meninos. – Ino disse maneando a mão para a mulher com divertimento — Vamos embora.

— Pera aí, Ino! Tá vendo aquela ali? É a Promissora, a nova jounin. – Ela disse apontando para a mulher de batom vermelho, que se empertigou sem saber direito o que fazer. Aquela era One Punch Sakura e a outra era Yamanaka Ino, que mesmo na reserva, tinha lá sua fama de impiedosa.

Mas ela não entendeu o porquê de ter sido chamada de promissora, e também não perguntou.

— Parabéns pela promoção! – Ino disse polidamente — Não vai se apaixonar por quem não deve hein? Foco na carreira.

Kurenai concordou com a cabeça sem entender aquilo direito, mas resolveu interpretar como um sinal.

Chega de Asuma na sua vida.

— Para com isso – Sakura riu daquela fala aleatória da amiga.

— É um bom conselho!

— Eu sei!

Rin ainda não sabia onde enfiar a cara, mas mais que isso, ela não entendeu toda aquela intimidade de Sakura e Kakashi. Até poderia supor que fosse culpa do álcool, e talvez fosse um dos motivos, mas ela parecia muito diferente desde a última vez que a viu. Algo tinha mudado, e não era só Sakura e seu humor, mas sim outra coisa. Algo entre Kakashi e Sakura tinha mudado, algo em Kakashi tinha mudado.

— Ah! Sakura! Olha! – Ino dizia de repente quando tinham acabado de anunciar sua partia — O bonitinho da livraria!

Sakura estreitou os olhos na direção de um Genma encolhido na cadeira.

— Ah, Kakashi! Você e o stalker se conhecem! – Ela disse parecendo divertida, mas Kakashi estava tenso de repente, porque ele também era o stalker da livraria.

Tomara que Genma não abra essa boca enorme! Ele pensou desesperado enquanto Ino se aproximava dele com aquele ar bêbado de quem está apenas seguindo o fluxo.

— De novo com essa senbon na boca? – Ela perguntou num suspiro enquanto o garoto mal conseguia respirar, os olhos arregalados em sua tensão. Ter Ino tão perto assim o fazia perder a capacidade de falar, e isso era terrível! — Ah, você tá comendo o frango? Hm... – E foi quando a mão dela passou de novo na frente do seu rosto, ele sentiu o peito dela roçar no topo da sua cabeça quando ela pegou sua senbon da boca e espetou o frango com ela para provar da comida — Ah, Sakura... Dá próxima a gente definitivamente tem que comer esse frango.

Ino devolveu a senbon à boca de Genma soprando um agradecimento ao final, e então se despediram de todos com aquele jeito leve de duas pessoas que beberam só o suficiente para ficarem um tanto mais alegres. Os ninjas mais novos permaneceram num silêncio breve enquanto observavam-nas sair pelo corredor, Ino naquele rebolado único que fazia Genma querer perder a cabeça, e Sakura...

Sakura não estava naquelas botas de cano alto, infelizmente, mas Kakashi percebeu, no fundo de sua mente, que não eram aquelas botas que tinham tanto apelo. Definitivamente não eram elas.

Ele abaixou a cabeça brevemente, olhando para o seu prato por um momento enquanto as bochechas ardiam um pouco. Queria um momento de privacidade, apenas um segundo para processar aquele rosto tão próximo ao seu, e aquela voz soprada perto de sua orelha. Ele precisava de um momento para registrar as pernas, mas tudo o que tinha era a coluna ereta e uma mesa repleta de pessoas que se entreolhavam.

— Você ouviu do que ela me chamou? – Kurenai perguntou um tanto nervosa — Eu acho que é algo bom, né? Né..?

— Relaxa – Shizune riu — A Sakura é tranquila. Provavelmente é algo bom sim. – Deu de ombros — Mas eu tô querendo é saber dessa história de bonitinho da livraria — Ela continuou provocativa, olhando para Genma que parecia ter perdido a alma.

Anko riu.

— Desembucha, Shiranui. Que merda tu aprontasse?

— E-Eu não fiz nada!

— Tu sempre faz alguma coisa, Genma. – Aoba resmungou com humor — A Sakura-taichō te chamou de stalker.

Parte da mesa logo se concentrou em arrancar do jovem shinobi o que diabos tinha acontecido para aquela interação repentina acontecer, mas havia um trio que estava apenas existindo na mesa, cada qual com seu pensamento, um mais profundo que o outro. Obito ainda estava claramente imerso em ter sido confundido com um possível namorado de Rin, o que significava que aos olhos dos outros, eles formavam um bonito casal.

Para ele, a noite tinha valido a pena ainda que não conseguisse conversar direito com a menina, afinal, ela ainda estava ali olhando para Kakashi como se quisesse alguma coisa, e de fato... Rin queria.

Mas não era o que Obito estava pensando.

— Ela estava bem bêbada, não é? – Rin riu brevemente — Até parecia mais à vontade com você.

Kakashi levantou o olhar sabendo que aquela fala era direcionada a ele. Não pensou muito sobre as palavras dela, porque sua mente ainda estava conturbada com tudo aquilo, e só por isso acabou respondendo com uma justificativa muito plausível.

— É que ela tá me treinando.

Rin arqueou as sobrancelhas, e Obito também.

— Então ela aceitou. – O Uchiha disse surpreso — Parece que ela não é tão inacessível quanto parece.

Kakashi deu os ombros sem ter muito o que falar depois disso.

— Já faz quanto tempo? – A voz de Rin soou novamente.

— Tivemos só uns... Quatro ou cinco treinos. É recente. – Respondeu se sentindo de repente incomodado com aquele interrogatório — Eu vou no banheiro.

Kakashi se levantava enquanto Rin desviava o olhar para Obito ao seu lado, que parecia um pouco mais sério. Ela não sabia se eles estavam tendo o mesmo pensamento, mas obviamente algo o tinha tocado. Rin colocou a mão sob o joelho dele com delicadeza e sorriu gentilmente.

— Temos que treinar ainda mais duro, tá?

— É. – Ele respondeu com as bochechas vermelhas — Conto com você.

Ele sorriu gentilmente para Rin, que absorveu aquela energia para tentar combater aquele outro sentimento que começava a surgir dentro de si. Desde que lembrava, Kakashi tinha toda a sua atenção, sendo alvo do seu amor a mais tempo do que ela poderia se lembrar, entretanto, naquele exato momento, diante do sorriso que dava para Obito, Rin começou a perceber poderia sentir outras coisas pelo rapaz... Coisas que não eram bonitas, nem eram dignas de alguém que declarava amar outra pessoa... Rin começou a sentir inveja, porque mais do que o amor de Kakashi, Rin sempre desejou ser treinada por ela.

Haruno Sakura.

...

As conversas sessaram com brusquidão em todas as mesas do local diante do barulho de pratos caindo da bandeja do garçom. O homem jazia caído em meio ao caos instaurado no salão, e no meio dele estava Kakashi, dois passos atrás com as mãos nos bolsos e olhar cansado, e em cima da bandeja estava ele.

Cabelo preto, olhos tão escuros quanto os cabelos. Seu rosto era inconfundível, sua presença superava a de qualquer outro ninja no ambiente. Aquele momento marcava o seu retorno.

— COMO ESPERADO DO MEU RIVAL! – Ele berrou a plenos pulmões diante da esquiva de Kakashi, que suspirou com divertimento.

— É você quem vai pagar isso – Kakashi resmungou deixando um sorriso se espalhar pelo seu rosto. Ele não precisava de um momento sozinho mais, tudo o que ele precisava era se distrair.

— Não há preço diante do brilho da primavera da juventude. – Ele disse com um sorriso típico enquanto levantava o polegar.

— Tem preço sim. – O gerente surgiu do nada com uma expressão de poucos amigos, fazendo o sorriso de Gai entortar numa careta.

Kakashi riu.

— Bem-vindo de volta, Gai. Senti sua falta.

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No calmo fim de tarde daquele dia, o frio breve invadiu a residência da mulher pela janela aberta na sala, mas aninhada nos braços da sua amiga, Yamanaka Ino não quis sair de sua posição para fechá-la, ao invés disso, deixou que o ambiente cedesse à baixa temperatura enquanto tomavam aquele chá com leite, cortesia de Tenten, que tinha trazido aquele mix de ervas que só podia ser encontrado em Kumo, e que lá era preparado daquela forma.

Sakura fazia uma careta toda vez que bebericava, comentando que estava com saudades do bom e velho chá verde, mas Ino conseguiu gostar mais daquele sabor neutralizado, um pouco mais cremoso e adocicado, apesar da cor não ser tão interessante.

— Sabe, a gente podia aproveitar que estamos as três na vila e sair pra tomar uma – A voz de Sakura surgiu logo após mais um bebericar daquele chá, e Ino já apostava que o dela estava frio. — Saquê, barzinho...

— Já fizemos isso esses dias, eu e você, Sakura, e eu não vou ficar deixando o Inojin na casa do Shikamaru só porque eu quero encher a cara.

— O Kiba toma conta dele – A outra solucionou o caso com aquele semblante despreocupado — Kiba é ótimo com crianças.

— Me poupa, Sakura. – Ela riu da proposta, porque seu filho e Kiba não eram melhores amigos exatamente, apesar de se darem relativamente bem. — Mas é verdade... Faz tempo que não nos juntamos assim, né? Todas as garotas da sala. A última vez foi... – A outra pensou um pouco. — Nossa, acho que você ainda tava com o Shisui.

— Droga, foi mesmo – A voz da moça veio num resmungo — Vocês ficaram planejando meu casamento. – E riu antes de fazer uma nova careta, dessa vez pela ideia de se casar com Shisui — Ainda bem que isso nunca aconteceu, céus...

— Quem poderia adivinhar que Shisui, o cara mais cobiçado dessa vila, era um babaca? De santo só tinha a cara mesmo. – Ino suspirou, tomando o último gole do seu chá — Tudo o que eu desejo pra homem babaca é que eles se apaixonem por aquele tipo de mulher que tem talento pra fazer macho sofrer, sabe? Elas existem pra vingar as trouxas como a gente.

— Aí, mas eu acho que agora, depois de sofrer tanto, eu sou esse tipo. Hoje eu faço macho sofrer.

Ino riu uma longa gargalhada.

— Tô vendo. O Kiba que o diga, né, amiga?

— Ah, mas o Kiba é meu amigo. A gente não tem nada pra tá nesse pé de fazer sofrer.

— Ah, é?

— É, poxa! Não é porque transamos que nós temos, sei lá, algum tipo de compromisso.

— Hm. Tá bom.

— Ah, Ino... Não começa...

— Mas eu não disse nada! Só concordei!

— Tô falando que se eu tivesse um namorado, ou algo do tipo, eu seria dessas que faz o macho se arrastar aos meus pés.

Ou algo do tipo... – Ino repetiu com uma risada. — Aí, Sakura, você é a melhor.

— O quê?

— Nada! Só tô falando que você é ótima.

— Não dá pra conversa contigo. – Disse por fim, bebericando um pouco mais daquele chá — E esse chá é horrível. Onde já se viu pôr leite no chá?

— Eu acho que tô andando muito com o Kiba, porque eu só consegui pensar que a junção do chá de buceta com o leitinho quente. – Disse antes de deixar uma outra risada escapar, desta vez compartilhada pela amiga, que se esticava para pôr a xícara na mesa de centro, desistindo completamente daquilo.

— Só esse tipo chá combina com leite, porque esse da Tenten... Eca.

— Ah, mas a Tenten nem gosta de leitinho, né amiga. Pra ela é só cházinho.

— Tu é muito merda, Ino. – Sakura riu — Mas ela é quem tá certa, tanto é que tá aí, feliz. Zero traumas. Enquanto nós, que curtimos o leitinho, estamos aqui, cheias de rancor e querendo mais leitinho.

— Aí amiga, tu tá muito é bem servida com o Kiba, sei nem do que tá reclamando... Eu que não tenho mais salvação e desisti. Você sabe. Nunca mais terei leitinho na minha vida. Agora eu sou só mãe. Cabo essa minha época de degustadora de leite.

— Lá vem você com essas conversas de morta de novo. – Sakura suspirou — Pra quem não dá há mais de sete anos, tu tá bem exigente, e sem motivo nenhum, porque o Yamato...

Antes que Ino pudesse suspirar em divertimento com o rumo daquela conversa, as meninas foram interrompidas pelo som abrupto do abrir da porta. Elas giraram seus rostos na direção do corredor da entrada, ambas com cenhos franzidos, apenas para ver Inojin passar furioso por elas sem dizer uma palavra sequer.

Ino escorregou para o lado, colocando os pés no chão enquanto se perguntava o que diabos tinha acontecido, já ia chamar o nome do filho de maneira severa, mas foi interrompida por Sakura, que também de pé, cumprimentou um velho conhecido.

— Shino.

— Peço desculpas por entrar desse jeito, mas como ele deixou a porta aberta...

Aburame Shino era o líder de seu clã, sendo o único que tinha assumido mesmo que os pais ainda estivessem vivos. O clã dele assumiu diversas funções após o golpe Uchiha, incluindo o setor que deveria ser responsabilidade do clã Yamanaka: A Divisão de Inteligência. A fama deles, enquanto chefes desse setor, era de torturadores impiedosos que faziam de tudo para arrancar informações, e dada as peculiaridades de seu jutsu, qualquer um podia adivinhas quais os métodos utilizados.

Mas não era por isso que Ino ficou tão apreensiva ao vê-lo. O que a deixava tão preocupada numa visita aleatória de um homem que ela não era tão íntima, era o fato de que ele era o diretor da Academia Ninja, local onde seu filho estudava.

— Não se preocupe com isso, Shino. – A loira falou dando a volta no sofá, enquanto Sakura permanecia em sua posição — O que aconteceu?

Oh, sim.

Não precisava ser nenhum gênio para descobrir que Shino tinha acompanhado Inojin até sua casa, e que somado a entrada pouco educada de seu filho, significava que algum problema estava acontecendo.

— Inojin se envolveu numa briga feia com os alunos de outra turma. – Ele disse no seu tom habitual, tirando os óculos redondos que usava geralmente para exibir seus olhos sérios. — Ninguém se machucou, mas eu resolvi vir até aqui para falar sobre o motivo de toda essa animosidade.

Sakura viu os olhos preocupados de Ino se concentrarem unicamente nas palavras do Aburame, que ainda parecia o mesmo cara quieto de sempre. Shino nunca foi de muita agitação e quase sempre estava com Kiba para cima e para baixo, mas tudo isso mudou depois do golpe, principalmente quando os Hyuuga começaram a interferir em toda o equilíbrio entre os clãs.

Os Aburames ganharam mais destaque, sendo colocado até como o segundo clã mais importante de Konoha, mas isso veio com uma submissão velada aos Hyuugas, e um distanciamento natural com qualquer outro clã, Sakura, no entanto, sabia que ele e Kiba continuavam amigos apesar de não se verem mais com tanta frequência, e sabia também, através daqueles olhos negros tão diretos, que ele não tinha mudado em sua essência.

Shino apenas dançava conforme a música.

E tudo bem. Cada um sobrevivia do jeito que podia, uns se adequando, outros se isolando...

Mas ali, Shino não estava sendo apenas o diretor escolar. Havia uma espécie de consideração naquele gesto de vir pessoalmente conversar com Ino sobre algo que o filho dela tinha se envolvido, porque ele poderia muito bem ter mando qualquer coordenador, ou até mesmo mandado apenas um comunicado por escrito, mas não. Shino estava ali pessoalmente, sem seus óculos, falando com Ino da maneira mais direta que ele conseguia.

Não só para Sakura, mas também para Ino, aquilo também significava que toda a animosidade poderia ter motivos muito mais profundos e até mesmo além do próprio Inojin do que ambas poderiam imaginar. Sakura viu nos olhos de Ino que no fundo já sabiam do que se tratava, mas havia aquela esperança de que tudo não passasse de uma briga infantil por um lápis ou uma caneta.

Ino torcia para que fosse só isso, do fundo de seu coração.

— Os alunos da outra turma o viram conversando com alguns amigos sobre algumas missões que você fez anos atrás. – Ele disse, e Ino engoliu seco com a mera menção de sua pessoa — Eles começaram a provocá-lo por acharem que era mentira. Eles são novos demais para saberem que você foi uma das maiores kunoichis dessa vila, então acharam que Inojin estava inventando aquelas histórias.

— Céus... – Ino suspirou de maneira pesada, colocando a mão no rosto com uma clara preocupação, e Shino a viu envelhecer anos naquele gesto. Ele colocou a mão sobre o ombro dela, fazendo-a encará-lo novamente.

— Não se preocupe, Ino. Eu resolvi tudo na escola e deixei bem claro que Inojin não mentiu em nada do que disse, mas devo dizer que alguns alunos Hyuuga se envolveram antes que eu pudesse intervir. – E Shino odiou ter que falar aquelas coisas, principalmente quando ela parecia já saber o que viria — E o Inojin certamente escutou quando eles disseram que o filho de um espião não poderia dizer nada confiável.

...

— Merda.

Foi tudo o que ela respondeu. Era tudo o que tinha para ser dito.

Todos naquela sala sabiam da trágica história da kunoichi que trouxe um espião para dentro de Konoha, e dele engravidou. Todos sabiam das consequências por trás das decisões errantes de Yamanaka Ino, que se perdeu pelo intenso amor que sentira pelo homem que apenas mentiu para ela, e mais que isso, todos sabiam que ele se foi levando junto toda a esperança e futuro, deixando apenas aquele embrião fecundado no ventre da mulher.

Qualquer um no lugar dela quebraria, mas não ela. Não Ino. Afinal, enquanto ela tivesse amor, então ela conseguiria se manter firme, e o amor permaneceu com ela na forma daquele filho abençoado que não havia herdado quase nenhum traço do pai. O amor permaneceu em Ino na forma do cuidado, da aceitação, da coragem e do seguir em frente.

Particularmente, Shino nunca achou justo o que tinha acontecido com ela. Não era justo logo alguém como Ino, cheia de vida e energia, ser punida por algo que fugiu ao seu controle, mas ele não era ninguém para ir contra a decisão dos antigos líderes do seu clã, que de conluio com os Hyuugas, fizeram com que ela fosse jogada à margem, entretanto isso não significava que Shino era uma pessoa melhor que seus pais. Não.

Outra votação aconteceria e novamente seu clã votaria com os Hyuugas, ainda que pessoalmente ele torcesse para que fosse tudo em vão. Shino verdadeiramente gostaria que ela recuperasse tudo o que era dela, principalmente quando ele viu aqueles olhos titubeantes, e não precisava ser nenhum grande observador para perceber o duvidar instaurado ali.

O amor permaneceu em Ino, e ele odiava que esse mesmo amor fosse usado contra ela daquela forma. Logo aquele amor que deveria permanecer intocado. Logo aquele que não era mais frágil, mas sim sensível. Logo aquele que não tinha culpa de absolutamente nada.

Ele odiava fazer parte daquilo, porque ainda que não estivesse envolvido diretamente, a passividade também era uma ótima forma compactuar com um lado.

Shino recolheu aquela mão do ombro dela enquanto Sakura dava a volta no sofá para ampará-la. Ele as olhou por um momento, percebendo que Sakura sussurrava algumas coisas para a mulher enquanto ela se permitia apenas ser abraçada. Ele não tentou escutar uma só palavra. Não cabia a ele invadir a privacidade delas daquela maneira.

Ele deveria partir naquele momento, mas não o fez.

Ao invés disso, Shino voltou a falar.

— Sei que o que aconteceu hoje pode ser um pouco desanimador, mas não se deixe abater. Inojin brigou com os outros alunos pela sua honra, então lute por ela também. – Ele disse com seus olhos mais intensos — Recupere tudo o que é seu, Ino. Eu estou torcendo por você.

Ino pareceu atordoada pelas palavras repentinas, olhando para Shino de maneira surpresa ao passo que ele apenas recolocava seus óculos escuros. Se olharam por um momento, e Ino soube que todas as palavras dele eram o mais profundamente sinceras ainda que no fim das contas, o voto dele fosse de Hinata. Ela concordou com a cabeça numa promessa muda, sabendo que não havia mais nada a ser dito e só então ele se virou para sair.

— Obrigada, Shino.

Ele pôde ouvir antes de cruzar a porta para sair da casa, olhou por cima do ombro por um pequeno momento, sentindo-se indigno de qualquer agradecimento, afinal, ele não podia fazer muito mais além de torcer por ela, ainda que soubesse que não deveria alimentar aquela esperança. Quando finalmente se foi, Shino sentiu o vento tocar seu rosto com um longo soprar, trazendo consigo um pensamento sorrateiro que sempre pesava mais em sua consciência.

Shino pensou em Hinata e no time 8, pensou em Kiba e nos motivos, pensou em si mesmo por fim antes de puxar seu sobretudo longo para aquecer-se melhor. Naquele frio, nem mesmo o uniforme cinza dos sensores era capaz de mantê-lo quente, mas certamente os pensamentos eram o suficiente para distraí-lo durante a volta para casa. Shino torcia, mas torcer não resolvia problemas.

Ino sabia bem disso.

As mãos de Sakura seguravam seus braços ao passo que o verde dos olhos dela lhe encaravam com uma súplica. O que ela estava pedindo? Ino não conseguiu entender, mas tinha uma ideia breve do que poderia ser. Engoliu a seco enquanto revivia num looping o relato de Shino feito momentos antes. Repassou as informações, de novo e de novo, na tentativa de encontrar aquele ponto de partida para o que precisava dizer.

Sim.

Estava na hora de dizer para ele, não é? Ele tinha que saber para se munir com escudos impenetráveis assim como ela um dia fez, entretanto, mesmo que seu escudo fosse fortificado, e que as palavras não a machucassem mais, havia uma única vulnerabilidade naquela defesa impenetrável. Havia Inojin e sua inocência. Havia seu filho, que não tinha culpa de absolutamente nada, mas que sofria as consequências de tudo. Havia essa criança, que nascida do ventre profanado, foi criada sem conhecer a sua história.

Tudo o que Ino queria, como mãe, era proteger seu filho. Ela não sabia direito como fazer isso, afinal, a maternidade não vem com um manual de instruções, então ela teve que usar o melhor do seu discernimento na tentativa de manter aquele seu único filho a salvo dos olhos daqueles que se recusavam a entender. Se havia alguém que deveria carregar a desonra, esse alguém era ela, e apenas ela.

Mas como lutar contra um inimigo que não se pode simplesmente derrotar em uma daquelas batalhas frenéticas? Como lutar contra o julgamento das pessoas que sequer a conheciam direito? Como mostrar ao mundo que seu filho, Yamanaka Inojin, era tão inocente quanto qualquer outra criança levada? E mais que isso, como dizer a uma criança que ela era hostilizada por conta de coisas que ela sequer poderia ter escolhido?

— Ino...

A voz de Sakura se projetou cautelosa no espaço entre elas, fazendo com que os olhos de Ino se erguessem num gesto automático. Elas se olharam, as mãos de Sakura ainda nos seus braços como se procurassem-na manter naquele lugar mais raso, e não na profundidade dos seus sentimentos conturbados. A loira balançou a cabeça em uma negativa breve, contida. Não sabia muito bem o que queria dizer, o que queria fazer, ao invés disso havia apenas o que precisava fazer.

— Eu tenho que ir falar com ele.

O timbre baixo soou como um sussurro que se misturava com o vento frio a invadir a sala por aquela janela aberta. O frio nunca a incomodou, mas a fazia perceber o quão quente eram as mãos de Sakura em sua pele, e o quão firme era aquele segurar. O que havia ali era uma força única, mas não era só isso. Havia também outras coisas, coisas que Ino não queria lidar naquele momento, mas que era necessário.

Houve um momento em que ela negligenciou aqueles olhos verdes com a boa justificativa de que precisava focar nas próprias merdas, mas quando Sakura estava diante dela suplicando, Ino não podia dar as costas.

— Não é sua culpa, Sakura.

— Se eu soubesse, eu jamais teria dito qualquer coisa a ele.

— Não seja boba. – Ino respondeu séria demais — Eu quem deveria ter contado a ele. Eu deveria ter tido a ele quem eu sou há muito tempo. – Disse com uma força estranha lhe invadindo, uma certeza tão intensa que ela sequer sabia de onde vinha — Eu nunca o vi me olhar daquele jeito antes. Eu nunca o vi ter tanto orgulho de mim.

Sakura permaneceu em silêncio, incapaz de dizer algo diante daquela mulher que demonstrava algo que há muito tempo não via naqueles olhos. Por um longo momento, nenhuma das duas se mexeram, e quem visse de longe até poderia soar estranho, mas não para elas. Jamais para elas. Ino e Sakura se olharam e se fortaleceram uma na outra.

Quando Sakura soltou os braços de Ino, elas não falaram uma palavra sequer. Não havia mais o que ser dito. Se olharam por mais um segundo antes que a loira desse as costas, seguindo para a escadaria que a levaria para os quartos. Atrás daquela porta tão comum, Ino achou que encontraria Inojin, mas não foi o caso. Quando entrou no local, o descobriu vazio e tão frio quanto a sala em que estava.

Ela suspirou antes de se aproximar da janela aberta, colocando os longos dedos no parapeito de madeira. Não precisava ser nenhuma especialista para saber onde Inojin tinha ido, mesmo assim Ino quis confirmar. Ela ergueu uma só mão com sua mente livre de qualquer dúvida. E daí se a descobrissem? E daí se soubessem que iria utilizar um jutsu daquela magnitude? Ino não estava se importando com aquilo.

Nada importava.

O indicador e médio se uniram enquanto todos os outros dedos permaneceram abaixados no selo que formou bem a frente de seu rosto, e quando fechou os olhos, de repente, Ino sentiu toda Konohagakure. Todas as mentes, tão frágeis, as presenças, os chakras... Ela sabia onde estava cada um deles, mas foi naquele casarão em particular onde achou seu alvo.

Abriu os olhos se deparando com o anoitecer no horizonte através daquela janela, tão bonito... E só depois de um simples e breve contemplar, Yamanaka Ino se lançou por ela com seu cabelo fazendo um arco, seus pés emularam chakra nas sandálias de salto, e como se nunca tivesse parado, a kunoichi de Konoha saltou entre os prédios rumando a casa de Nara Shikamaru.

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Ele estava na varanda quando ela chegou, muito mais rápido do que ele esperava, mas ainda assim Yamanaka Ino pousou com a classe de uma kunoichi de elite bem na sua frente, sem ruídos, sem vacilos. Ino estava ali em sua longa saia roxa e cropped de mesma cor. Shikamaru a olhou por um momento antes de colocar uma mecha do próprio cabelo para trás e levantar-se.

Estaria mentindo se dissesse que esperava que ela chegasse daquele jeito, com aquele olhar tão decidido que há muito tempo ele não via. Alguns diriam que, diante da situação, aquele olhar significava algo bom, mas Shikamaru não tinha tanta certeza. Ele não tinha certeza de nada àquela altura. Esperava de Ino lágrimas, arrependimento... Esperava que ela aparecesse em sua casa desolada.

Aquela mulher, entretanto, não parecia nem um pouco abalada. Não. Ino parecia estar pronta para lutar, com sua mente completamente focada em apenas um objetivo, e Shikamaru sabia disso porque já havia visto aqueles mesmos olhos tantas vezes nas missões que foram juntos. Ele via claramente o poder dela, a decisão.

Mas que decisão era essa?

— Ino...

— Ele te contou? – A voz dela era firme, tão firme que Shikamaru se sentiu voltar no tempo.

— ... mais ou menos. Como você está? – Ele perguntou na tentativa de sondar, de entender o que diabos estava acontecendo.

— Isso não importa. Eu vou até ele.

Ela começou a fazer seu caminho para dentro da casa, mas Shikamaru sentia que estava tudo completamente errado. Não era para Ino estar daquele jeito. Nada justificava uma reação tão resoluta por parte da mulher que há não muito tempo estava preocupada com a possibilidade de ter que lidar com a questão muito óbvia no qual sua vida girava.

O homem segurou o braço dela antes que ela passasse reto por ele. Ino girou seu rosto na direção dele, os olhos azuis pareciam um longo mar de águas profundas, e por um segundo Shikamaru se sentiu perdido.

— O que foi?

A voz dela o alcançou depois de um momento sem nenhum floreio. Era dura, direta.

— O que você vai dizer pra ele?

A viu estreitar os olhos diante da pergunta.

Shikamaru hesitou achando que havia revelado mais do que pretendia com uma pergunta tão descabida, e Ino não parecia como a dona da floricultura que aceitou o que a vida lhe ofereceu. Não. Ino parecia exatamente como uma kunoichi preparada para uma guerra, e no olhar direto que ela lhe lançava, Shikamaru sentiu como se ele fosse o inimigo.

Ele a soltou.

E apenas depois disso, ela respondeu.

— A verdade, é claro.

A verdade.

Shikamaru sentiu a garganta seca quando engoliu a saliva que tinha na boca e não ousou acompanhá-la nem mesmo com o olhar. Ino passou reto por ele, com passos firmes e sua expressão talhada em pedra. Ela sabia, ele pensou em desespero. Ela sabia de tudo. O pensamento girou em sua mente fazendo com que ele tivesse que controlar sua respiração de maneira mais densa, mas a verdade é que se sentia sufocado.

Com dois passos débeis para frente, Shikamaru se permitiu inspirar o ar gelado para dentro dos pulmões. Ele o prendeu por um segundo e então soltou como soltaria a fumaça de um cigarro. Ino tinha usado aquele jutsu, ele sentiu, mas não teria dado tempo de vasculhar a sua mente e descobrir os seus mais sórdidos segredos que não deveriam ser segredos para ela. Nunca deveria ter escondido coisas, mas... mas...

Ele estava desesperado.

Tão desesperado quanto estava naquele exato momento enquanto Ino fechava a porta do quarto onde Inojin estava, e Shikamaru não sabia o que a verdade traria. Ele não sabia o que tinha feito, e de repente, todos os seus motivos pareciam tão sem sentido diante... diante daquela Ino.

A mão foi ao rosto em reflexo do choque.

A verdade acabaria com eles.

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Quando se sentou na beirada do colchão, Inojin finalmente levantou seu olhar para a mulher de longos cabelos loiros. Ela sorriu um pouco, mas só um pouco, colocando a mão no joelho dobrado do garoto de maneira tão suave que parecia até mesmo uma pluma o tocando. Inojin não sorriu de volta. Ele não conseguia, mas isso Ino já esperava. Gostava que ele fosse assim, tão autêntico, apesar de que às vezes dificultava um pouco as coisas.

— Quer me contar o que aconteceu na academia? – Ela perguntou com a voz baixa, munida de toda aquela força que encontrou perdida em algum lugar de si mesma.

— O Sensei deve ter falado para a senhora. – A resposta dele era breve, educada. Apesar da óbvia tristeza, ele ainda conseguia ser gentil a sua maneira, e isso fez Ino sorrir genuinamente.

— Sim, mas se você quiser me contar do seu jeito, eu gostaria de escutar.

Inojin pareceu considerar por um momento, olhando para o par de olhos que eram iguais aos seus. Não demorou muito para que ele desviasse seu olhar juntamente a um negar com a cabeça, e Ino não podia imaginar o que se passava ali dentro. Jamais saberia. Ela ficou em silêncio por um momento, sem saber ao certo como continuar, mas Inojin, escondido atrás de seus joelhos, resolveu mostrar o caminho.

— A senhora é mesmo forte como a tia Sakura disse que a senhora é?

Ino maneou a cabeça avaliando a questão exposta enquanto pensava sobre a forma com que Sakura narrou aquelas missões no outro dia. Acabou rindo ao lembrar de Kiba dizendo que aquele tal polvo era do tamanho da Torre Hokage, mas logo seu sorriso cessou.

A princípio, sua resposta ser um sonoro não, mas isso era somente a sua modéstia falando mais alto, porque depois de tanto tempo, não significava muita coisa ter realizado tantas missões. Ninguém se lembrava dessas histórias, e Ino não queria viver do passado.

Mas ali, diante da pergunta de seu filho, ela resolveu que modéstia nunca lhe caiu bem.

— Sim. – Ela respondeu em um tom direto — Eu sou uma das kunoichis mais fortes que existem no mundo, e com certeza sou a Yamanaka mais forte na história do nosso clã. Sua tia não mentiu. Você não mentiu.

As palavras dela eram firmes, cheias de uma certeza que reverberava em tudo que sua voz alcançava, mas Inojin não a olhou. Ele continuou encolhido com a cabeça baixa sem nenhuma indicação de que pretendia mudar de posição.

— Querido...

— Então por que você parou? – Ele a interrompia naquela voz mais baixa, mais confusa em sua tristeza. — Por que você não é mais ninja?

...

A verdade... Muitas vezes ela não é fácil, e quase sempre ela tinha um preço, mas Ino não hesitou. Não havia o que hesitar quando o preço já havia sido pago durante todos aqueles anos, e ainda houvesse consequências, então ela pagar novamente o que quer que fosse, porque a verdade, naquele caso, era a única coisa que ela tinha a oferecer.

— Porque eu conheci seu pai. – Disse em sua voz mais séria, mas ainda assim havia um tom aveludado ali — Eu conheci seu pai e engravidei. Por isso me fizeram parar.

Os olhos azuis se revelaram curiosos naquele erguer de cabeça. Havia também cautela, e todas as perguntas que poderiam surgir daquelas pequenas frases estavam estampadas nos olhos azuis que a encaravam. Ele não precisava fazê-las.

— Eu conheci seu pai numa missão nos arredores de Yukigakure. Eu e Shikamaru fomos até lá para escoltá-lo até um vilarejo menor nos arredores de Konoha e foi durante essa missão que eu me apaixonei por ele.

O garoto não sabia o que pensar ou que falar. Ele não sabia sequer o que estava sentindo enquanto Ino proferia aquelas palavras num tom tão claro. Inojin nunca havia escutado sua mãe falar daquele jeito sobre seu pai, na verdade, ele nunca tinha escutado nada sobre seu pai até aquele dia na academia, quando as crianças mais velhas do clã Hyuuga o jogaram aquilo na cara.

Tudo o que sabia de seu pai era que seu tio dizia, e não era nada realmente claro. Deduziu, ainda muito novo, que algo sério tinha acontecido entre ele e sua mãe, porque ela nunca falava dele e por isso ele também nunca perguntou. Nunca ousou. Não queria magoá-la, ou fazê-la sentir-se insuficiente de alguma forma, mas tinha que admitir que gostaria de saber, mesmo que isso a magoasse um pouco... mesmo que a história não fosse feliz.

Inojin queria saber.

E Ino finalmente estava ali para contar, revivendo aquelas memórias que ela guardou em algum lugar longínquo em sua mente na expectativa de que se perdessem, mas elas jamais se apagariam, sequer desbotaram. Enquanto falava, ela lembrava nitidamente da neve, do frio. Ela lembrava do vapor que saía de suas bocas ao rirem durante aquela conversa boba sobre as árvores que durou um dia inteiro. Ela lembrava do casaco pesado que usou, e das botas quentes que mantinham seus pés aquecidos, e lembrava daqueles olhares do homem que amou que às vezes surgiam nos olhos azuis de seu filho.

— Eu comecei a ir com frequência naquele vilarejo para vê-lo, e ele também à Konoha para me ver. Não demorou muito para que firmássemos um relacionamento. Um namoro. E ele acabou se mudando para cá por tabela. Tudo aconteceu muito rápido, querido.

Tudo aconteceu muito intenso.

Porque mesmo que Ino já se aventurasse nas várias camas dos homens que lhe chamavam atenção, ela nunca se viu arrebatada por um sentimento que a fazia querer mais que apenas o sexo. Ela nunca se viu querendo os sorrisos, as tardes entediantes ao lado de alguém, mas com ele foi diferente. Com ele, seu coração se apertava de um jeito que ela nunca antes experimentou. Com ele, Ino se sentia mais viva. Mais feliz.

Ela se entregou sem saber doar-se pela metade. Gostava dele e de como ele enxergava a vida. Gostava dele e de como ele a enxergava. Ino o amou como nunca achou que o amor poderia ser, porque ela sabia que era algo intenso, mas não aquele intenso. E eles tiveram uma boa vida naquele breve para sempre que viveram, ainda que tudo tivesse começado com uma mentira.

— Ele era mesmo um... um... ...

Uma mentira que se transformou em verdade.

— Sim, meu bem. Seu pai era um espião, e eu descobri tarde demais.

A voz dela não vacilou naquele dizer tão direto. Não titubeou ou hesitou. Não havia o porquê temer diante dos olhos aflitos que lhe encaravam, porque tudo o que Ino tinha era a mais pura verdade em seu coração, e essa verdade podia ser cruel e ingrata, mas era libertadora de maneiras que só alguém munida de tanta certeza podia entender.

Ele era um espião.

Os sinais, pouco a pouco, foram surgindo cada vez mais evidentes. Shikamaru, que nunca gostou dele, foi o primeiro a desconfiar, mas Ino já sabia no fundo. Ino sempre sabia. Vivendo com ele a tanto tempo, ela percebia certos padrões de quem esconde coisas, e lentamente aqueles olhos foram revelando a culpa, porque a mentira dele começou a se tornar verdade.

Ela via naqueles olhos que ele a amava, e quanto mais esse amor crescia, mais culpa surgia; e não se precisa ser um grande conhecedor da vida e das relações humanas para saber que carregar tanta culpa uma hora corrompe a alma. Ino podia ver naqueles olhos dele o conflito, a dor. Ino via tudo. Ino sabia de tudo, ainda que não soubesse exatamente o que era. Ela sabia.

Por isso, naquele final de tarde em que eles se encontraram debaixo daquela laranjeira nas terras que pertenciam ao clã Nara, deitados no tecido quadriculado que ele forrou a grama selvagem, Ino o viu chorar quase que sem motivo ao olhá-la. Naquele beijo que se seguiu, ela sentiu a verdade. O homem que amava já não aguentava mais todas as mentiras, ele já não podia suportar a vida dupla que levava.

De um lado, Fugaku exigia informações, do outro havia essa hesitação pelo sentimento inevitável que surgiu pela mulher que ele se propôs a enganar.

Yamanaka Ino era a melhor e maior fonte de informações sobre Konoha, não apenas pelo jutsu ou cargo, mas também pelo conhecimento que tinha com as pessoas. Por ser querida, confiável e popular. Mas ela não era esse tipo de ingênua, tudo o que falava para ele sobre os outros era quase calculado, porque ela sabia, no fundo sabia.

Mas foi só naquele beijo triste e tão cheio de um amor culposo que Ino teve a mais plena certeza de tudo. Ela teve certeza de que aquele amor era real, mesmo em todas as mentiras, e aos pés daquela árvore ele a amou, Ino o perdoou. Ela o perdoou de tudo por um momento, e se entregou como jamais antes tinha feito. Ali, enquanto seus corpos se tornavam um, não houve nenhuma mentira.

Nos olhos dele, ela finalmente encontrou apenas verdade.

— No mundo ninja, nós precisamos treinar nossas emoções para as mais complicadas situações, mas imprevistos acontecem aos montes nesse ramo – Ela riu soprando o ar pelo nariz — e ele não contava que iria se apaixonar de verdade por mim. Foi por isso que a missão dele foi um fracasso, e foi por isso que ele se entregou.

Naquele mesmo dia, quando voltaram para dentro dos muros de Konoha, Ino foi beijada mais uma vez no portão leste sabendo que era um último beijo. Dessa vez, foi ela quem chorou, e naquele eu te amo soprado, o homem que amava partiu para confrontar seu destino, sem saber que deixava para trás um filho.

— Eu só descobri que estava grávida de você depois, mas independente disso, os Hyuugas tiraram da vida ninja de qualquer jeito. Eles queriam meu cargo, querido. Minha gravidez e essa história com seu pai foi só um bom motivo para me tirarem do jogo com classe. Por isso eu parei.

As palavras dela ainda eram claras, firmes, e apesar de ter remexido em toda aquela história que tanto lutou para deixar guardada, Ino se sentia mais leve. A verdade era mesmo libertadora, mas será que essa mesma verdade era o suficiente para libertar aquela criança que a olhava de uma maneira tão nova? O que Inojin estava sentindo? O que estava se passando na cabeça dele?

Ele a culpava? Ele sentia raiva?

Ela escorregou seus dedos pela pele tão alva dele na busca pela mão pequena que segurava firme nos próprios tornozelos. O olhar dele era carregado de uma cautela enigmática, e Ino se perguntou se seus próprios olhos também podiam emular aquele sentimento. Suas mãos se tocaram, e ele não resistiu quando ela entrelaçou seus dedos aos dele.

— ... então é por isso que todo mundo... .. é por que eu sou filho de um...

— Não. – Ela disse rápido, sem se preocupar em interrompê-lo. — Você é filho de Yamanaka Ino. Meu filho. Você é filho de uma das maiores kunoichis que esse mundo já viu, herdeiro de um dos maiores clãs de Konoha. Você é fruto do meu mais profundo e sincero amor. Você é meu filho, Inojin. Meu filho, e filho do homem que eu amei, e não importa quem ele foi para as outras pessoas, porque para mim, ele foi apenas o meu primeiro amor. Ele me deu você, e eu nunca vou me arrepender disso.

Ela apertou um pouco mais a mão dele se sentindo forte. Se sentindo munida de uma estranha força que sempre esteve dentro dela. Ino se sentia livre quando não tinha mais nada a esconder, porque sim, se pudesse voltar no tempo, ela confrontaria aquele homem que amou, ela o rejeitaria, mas ela jamais se arrependeria do filho que teve. Inojin era seu filho, e naqueles olhos ela se lembrou de quem era.

Yamanaka Ino deixou que tirassem tudo dela, inclusive sua própria identidade, mas o que era importante ainda estava ali dentro, guardada com todas aquelas memórias. O que era realmente importante ainda vivia dentro dela e queimava tão forte quanto sempre queimou.

As lágrimas surgiram nos olhos dele, discretas, miúdas. Ele segurava a careta de choro, fazendo seu nariz e olhos ficarem ainda mais vermelhos enquanto as lágrimas se amontoavam, formando aquelas mais pesadas, mais grossas, até escorrerem. Ela olhou a primeira cair, e depois a segunda se misturar à primeira, e só então ela passou o polegar no rosto dele, ainda sustentando um sorriso.

— Querido... – Ela chamou antes que ele pudesse se lançar aos braços dela, e ele já estava tão grande. Inojin estava crescendo tão rápido. Ela sentiu falta do bebê que balbuciava em seus braços, sentiu falta das risadas gostosas que ele distribuía a todo instante. Sentiu falta das mãos gordinhas, e do barulho fofo que ele fazia chupar a chupeta.

Ino o beijou no topo da cabeça, entre os cabelos que todos diziam que eram iguais aos dela, mas não eram. Aqueles cabelos loiros tinham a mesma textura grossa dos cabelos do pai, e às vezes ele fazia aquela mesma expressão pensativa que o pai dele também fazia. O olhar de deboche era todo do pai, porque Inojin podia ser uma criança tão debochada quando se propunha a ser.

Ela o abraçou mais forte, aconchegando-o em seus braços. Fechou os olhos com força sentindo que também podia chorar naquele momento, e não tentou segurar. Não tentou evitar. O que estava ali dentro de si deveria se sentido.

— Está tudo bem, meu filho. – Ela disse num sussurro tão claro, porque tudo estava completamente claro em sua mente, como se nunca antes ela pudesse enxergar as coisas com aquela limpidez. Ino soltou o ar e abriu seus olhos, enxergando as paredes de cor creme, os móveis velhos, e uma rachadura na madeira escura. — Agora eu vou pegar tudo o que é meu de volta. Tudo o que é nosso, e então você vai se orgulhar de mim e de quem é. Então ande de cabeça erguida e se orgulhe do seu nome, o resto, deixe que eu cuido.

Sim.

Estava na hora de Yamanaka Ino recuperar tudo o que lhe foi tirado. Estava na hora da valente kunoichi parar de se esconder atrás dos seus demônios e ir atrás de tudo o que se deixou perder. Não havia por que temer seu passado quando já havia feito as pazes com ele, e agora, o último nó era desatado. Ela estava liberta. Ela estava pronta para lutar contra tudo e todos.

Ela ia lutar.

E Inojin sentiu aquela força, aquela energia e a certeza de que não havia nada que pudesse parar sua mãe quando ela se decidia de algo. Ele sentiu nos braços e nos olhos, ele sentiu no próprio sangue, e ele se orgulhou das palavras dela. Se orgulhou do passado dela ainda que não pudesse entender tão bem o que tudo aquilo significava, ainda que algumas páginas ainda estivessem em branco.

Mas por hora... Por hora era suficiente.

Por isso ele concordou com a cabeça, pedindo em sua voz miúda para que voltassem para casa, e Ino assim o fez, segurando seu pesado filho nos braços antes de sair pela janela do cômodo, sem dar-se ao trabalho de despedir-se do dono da casa, afinal, naquele momento, Ino só estava disposta a lidar com a verdade, e Shikamaru não era exatamente um cristal translucido.

Não demoraram para chegar na entrada da floricultura, a loira abrindo a porta para encontrar a mulher de cabelos cor-de-rosa à espera. Elas se olharam por um segundo apenas, e a tensão em Sakura se dissolveu como um torrão açúcar em contato com a água. Foi quando Inojin finalmente fora colocado no chão, e Sakura correu para lhe dar um longo abraço, sussurrando coisas no ouvido dele que não chegaram aos ouvidos de Ino.

Mas tudo bem, porque ele acabou rindo do que ela tinha dito, e provavelmente era sobre surrar as crianças que o incomodaram. Sakura era sempre tão briguenta... no entanto, não se demoraram tanto ali. Ino estava cansada, Inojin também, e por isso seguiram em frente, subindo as escadas. Depois um banho, Inojin foi posto na cama por sua mãe, que insistiu de novo para que ele comesse alguma coisa, mas ele não tinha fome.

A mão dela pousou nos cabelos dele com um carinho, e ela o olhou por um momento com ternura antes de dizer:

— Eu sei que você ainda vai pensar muito em tudo o que eu disse, mas se quiser ajuda para pensar – ela riu — eu estou aqui, tá? Apenas lembre eu te amo.

Ele concordou com a cabeça, sorrindo um pouco por sentir, finalmente, que tinha essa abertura muito clara. Sim, a verdade era libertadora por mais dura que fosse, e às vezes o preço dela era uma relação mais estreita. Quando Ino se levantou, no entanto, o garoto conseguiu segurar o tecido daquela saia longa num puxar gentil. Mãe, ele pronunciou um tanto baixo, mas não havia receio na sua voz.

Ino olhou para trás por cima do ombro, as sobrancelhas arqueadas numa visível questão, pedindo que ele continuasse.

— Como ele era...? Como era o meu pai?

...

Ela sorriu antes desviar o olhar, levando a mão ao rosto de maneira pensativa. Inojin a observava, vendo como ela parecia viajar em memórias estranhas e divertidas. Ela suspirou por fim, balançando a cabeça negativamente antes de lhe olhar novamente.

— Ele era ridículo. – Falou antes de dar uma risada — Tinha um senso de humor muito peculiar, algo que às vezes eu vejo em você. Adorava provocar e eu nunca o vi se irritar com nada. Mas ele era muito sensível também, adorava contemplar a natureza, e sabia o nome todos os tons de cores possíveis. Nada era só azul ou verde. Era azul-celeste, azul-anil, azul-escuro, azul-marinho... Nunca pensei que cores podiam ter tantas variações. – Ela deu os ombros — E eu gostava de como ele segurava minha mão.

O garoto a olhava atento, revirando os olhos ao final com aquela declaração melosa. Meninas eram assim, todas frescas, ele pensou ao perceber o ar mais brando naquele final. Eles se olharam por mais um momento, e ambos perceberam que estava tudo bem. Tudo ia ficar bem.

— E qual era o nome dele, mãe? Como ele se chamava?

...

Ino sorriu.

— O nome dele era Sai.

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MEU DEUS DO CÉU.

É ISTO.

CONTINUEM COMIGO QUE TEM MUITO MAIS PELA FRENTE.