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Oi, sumida
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Nuvens pesadas coloriam o céu com um cinza tempestuoso enquanto a cidade era coberta pela chuva pesada que caía em pingos grossos sobre tudo ao seu alcance. Era comum as pessoas acabarem se escondendo aqui e ali, procurando abrigo do frio eminente que se projetava junto ao vento forte, mas não para os que moravam na região.
As peles eram pálidas, os dedos engelhados. Era até normal que as roupas fossem feitas de um material resistente à água, mas só os mais endinheirados conseguiam pagar por tal luxo. No geral, o esperado daquelas pessoas era andar molhado, de modo que raramente havia roupa realmente seca para ser usada.
Paredes enlameadas, musgo e lodo crescente nas adjacências. Uma trepadeira aquática crescia por uma grade metálica que já havia perdido seu brilho prateado, ganhando um tom triste de ferrugem que, para a natureza, não significava muita coisa.
Todos se acostumaram com o frio, com o molhar, com a doença.
Uma mulher passou inutilmente com um guarda-chuva armado sobre sua cabeça. Era vermelho, ele sabia, mas debaixo de todo aquele acinzentar nenhuma cor era de fato uma cor. Tudo era como sombras noturnas ou penumbras intensas que guardavam os piores terrores.
O choro de uma criança se fez presente de dentro do prédio abandonado, mas o som da chuva caindo nas marquises abafava qualquer ruído, assim como o cheiro de enxofre e podridão disfarçava qualquer aroma, e o que restava a água levava.
Passo após passo, o homem sentia seus dedos deslizarem dentro da sandália emborrachada, mas por dentro daquela capa suja, ele estava seco. A água escorria pelo tecido impermeável, pingando em gotas nas poças pelo qual passava sem pressa. O capuz impedia que seu cabelo fosse atingido, mas inevitavelmente a chuva alcançava seu rosto inexpressivo.
Não demorou para alcançar o portão grosso de metal da mais alta construção que jazia naquela cidade sem vida. Levantou o braço de uma forma quase delicada, e o bater com as costas dos dedos mal produziu o ruído característico, que acabou sendo abafado pela chuva. De alguma forma, entretanto, alguém ouviu, e os portões rangeram ao se abrirem.
O local era escuro, mas ao menos seco. Ele continuou com seus passos cadenciados num andar moroso sem preocupar-se com as gotas que escorriam pelas suas vestes e molhavam o chão quase seco. O barulho de seus passos ecoava naquele salão vazio enquanto ele seguia seu caminho, sabendo exatamente onde estava indo e quem o estava esperando.
Subiu uma escadaria de degraus baixos sem pular um sequer, colocando a mão nua sobre o corrimão para sentir a ferrugem arranhar seus dedos engelhados, sem importar-se muito em cortar-se ou sujar-se.
Ele seguiu em frente, alcançando o primeiro andar do prédio sem muito alarde, desembocando naquela sala maior onde duas cadeiras jaziam ocupadas perante a pesa velha de madeira fofa pela umidade. Com a iluminação de apenas uma vela tudo parecia um pouco fantasmagórico, mas ele já havia se acostumado com as quedas de energia do local, fazendo com que seus olhos conseguissem distinguir as duas silhuetas sem sequer precisar sentir seus chakras.
As duas pessoas o olharam em espera.
Sem pressa, ele puxou o capuz no revelar de seu rosto pálido, recebendo um sorriso sorrateiro daquele homem à direita. Nenhuma palavra foi dita antes que ele se livrasse completamente daquela capa que vestia, jogando-a numa cadeira desocupada que fedia a mofo.
— Okaeri, Sasuke-kun.
Disse aquele à sua esquerda todo sorrisos em sua voz de serpente. Os olhos cintilaram para ele com desejo, mas o homem nada fez além de continuar encarando o outro com uma expressão tão inexpressiva quanto a própria.
— E então?
O outro finalmente se pronunciava depois de um momento quando percebeu que Sasuke não tinha intenção de começar a falar sem algum incentivo, no entanto, sua voz desprovida de qualquer emoção que fosse.
— Não há indícios do retorno da Kyuubi a Konoha. – A resposta veio rápida num tom de voz preciso, mas Fugaku só retornou a falar quando o eco da voz de seu filho já tinha morrido nos cantos da sala.
— Será difícil conter a Kyuubi caso o Jinchuuriki alcance seus objetivos. – Ele considerou ainda sem demostrar muito através de sua expressão. — Talvez seja esse o momento mais oportuno.
— Você pensa em atacarmos agora? – Orochimaru perguntou se divertindo com a possibilidade. — Apesar de arriscado, eu não me oporia. Só preciso de mais alguns dias para me acostumar com o sharingan.
Sasuke reprimiu uma careta em desagrado, mas não por muito tempo, já que Fugaku tratou de continuar:
— O que você acha, Sasuke?
...
— Acho que morreremos se o fizermos.
O eco cessou, mas Orochimaru continuava com sua expressão divertida ao ouvir aquilo, assim como Fugaku não se alterou com as palavras, parecendo já saber que aquela seria a conclusão do filho sobre a pauta.
— E o que você sugere? – Perguntou curioso, e sem demora, seu filho respondeu.
Fukagu não era um homem feliz. Nunca foi realmente. Talvez fosse por isso que toda vez que seus lábios se curvavam num sorriso, sua expressão se assemelhasse cada vez mais com uma careta sombria.
Sasuke, no entanto, não esboçou reação.
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Havia várias maneiras de se mandar uma mensagem em segredo através dos ares. Pássaros de diferentes espécies para cada tipo de viagem ou estação eram treinados para se passarem desapercebidos pelos céus de todo o continente, mas nenhum conseguiria cruzar o mar e viajar diretamente para as terras subtropicais do interior da grande porção de terra que formava o País do Fogo.
Além disso, mesmo em terras aliadas, mostrar as engenhosidades desenvolvidas para enviar e receber mensagens acabava soando como tolice, por isso optou por escrever uma carta aos moldes tradicionais. Não que tivesse algo muito elaborado para ser dito, mas precisava confirmar o andamento de toda aquela operação para os seus superiores. Não enviaria nada diretamente a Konoha, porque seria suspeito, ao invés disso a endereçou para o acampamento móvel na fronteira com o País do Relâmpago.
De lá, os homens saberiam a quem endereçar.
Por conta disso, acabou apenas contando trivialidades que não revelasse sobre suas atividades ou pudessem denunciar sua posição, já que até para ele era um pouco confusa. Não estavam em Kumogakure exatamente, e apesar de achar que aquele mar não era do País do Relâmpago, Yamato tinha a certeza de que a porção de terra onde estavam era parte de seu território. Tudo o que queria era apenas dizer "estamos vivos".
Longe de casa há tanto tempo, ele sentia como se fizesse anos desde a última vez que se deitara em sua própria cama.
Sentir falta de casa era algo frequente em seu ramo de trabalho, apesar de que havia um ditado torto sobre a casa de um ninja ser a sua missão. Não que ele discordasse, mas já fazia tanto tempo que não passava um bom tempo dentro dos muros de sua vila natal que tudo parecia um pouco borrado. Kakashi já tinha dezessete anos àquela altura, e se perguntou como ele estava.
Entregou o envelope ao ninja uniformizado que era encarregado de atender às necessidades dos ninjas de Konoha que ali estavam, e compunha o time de guarda do jinchuuriki do Hachibi, Killer Bee. O ninja fez uma mensura breve antes de partir com o envelope lacrado, partindo pela porta de madeira velha enquanto o outro entrava com um suspiro alto demais. Yamato girou em sua cadeira encarando o amigo mais novo que parecia ter emagrecido uns quilos.
— Não aguento mais toda essa comida sem graça. – Resmungou como uma criança emburrada antes de se jogar na cama baixa de palha — Sinto que estou perdendo todas as minhas forças.
Yamato riu.
— Uma dieta que não inclua rámem é novidade para você, não é? Mas veja pelo lado bom: sua pochete sumiu. – Disse com um sorriso em deboche, vendo o outro revirar os olhos em resposta.
— Eu não tinha uma pochete.
— É claro que tinha. Só não era tão evidente por conta do colete.
Naruto fez uma careta, e até quis responder com qualquer outra coisa, mas acabou que era uma discussão improdutiva. Uma tigela de lámem não ia se materializar na sua frente de qualquer modo.
— Como foi o treino da manhã?
A pergunta deixou o loiro um pouco sem jeito. Meses já haviam se passado e seu avanço naquela empreitada seguia a passos lentos.
— Acho que vamos demorar um pouco mais nessa etapa. – Um tom de falsa tranquilidade se fez presente na voz do Uzumaki — Mas estou progredindo. – Completou depois.
Yamato assentiu sem muito mistério, mas Naruto se sentia pressionado todas as vezes que a pergunta surgia. O loiro sabia que não eram perguntas impacientes, e sim seu amigo querendo saber do progresso de uma complicada missão, mas era inevitável não lidar com o sentimento de estagnação. Tinha feito uma promessa à Sakura, garantido coisas à Shikamaru, e até mesmo se humilhado perante o velho Hokage para que permitisse tal treino. Ele não podia se dar ao luxo de não progredir.
Fechou os olhos por um momento, o clima tropical daquela ilha lhe fazia sentir mais calor do que o habitual naquela época do ano. Os companheiros ninjas nativos diziam que só havia duas estações na ilha: verão e inverno, mas Naruto sabia que era outono pela quantidade de vento que sopra as folhas, ainda que fosse um vento mais quente.
O suspiro veio moroso. Seu corpo já cedia à vontade de dormir, mas eles ainda não tinham acabado. O dia só terminava quando Naruto perdia até mesmo a força para se manter em pé. Era o preço que tinha que pagar por ser rejeitado pela Kyuubi de novo e de novo, apesar de seu mestre temporário, Killer Bee, dizer que ele não precisa ser amigo da raposa para utilizar o chakra dela.
Mas Naruto não queria violá-la mais do que ela já tinha sido. Ele não estava disposto a subjugá-la.
Ele queria ser como Gyūki e Killer Bee, que mantinham uma boa relação e se ajudavam mutuamente, mas talvez não fosse possível. Talvez o ódio da Kyuubi fosse muito mais forte do que sua determinação. Talvez ele fosse muito mais fraco do que esperava ser.
Deu um sorriso fraco e amargo para o teto.
Pensou em Sasuke.
Como ele estaria agora? Sua aparência tinha mudado muito desde que eram crianças? Será que ele usava o mesmo corte de cabelo? As mesmas roupas? Será que ele estava bem de alguma forma?
Eram tantas as perguntas e nenhuma resposta, mas era isso que o impulsionava. Era isso que o mantinha motivado a continuar. Ele queria as respostas. Queria ver, sentir. Queria entender tudo o que ainda não tinha compreendido. Queria estar ao lado de Sakura naquela batalha que ele sabia que seria a última, ele podia sentir, e nesse sentimento negado por tanto tempo, Naruto encontrou a resposta para sua própria hesitação.
Precisava se fortalecer.
Seu corpo, sua alma.
Precisava crescer.
— Ai! – Resmungou quando sentiu a cota da katana descer contra sua testa com velocidade. Ao abrir os olhos percebeu que Yamato já não estava mais lá, mas viu Killer Bee parado dentro do quarto como quem espera.
Estava na hora de voltar ao treino.
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Caía uma fina garoa naquela manhã cinzenta, nada que fizesse as pessoas correrem para debaixo de abrigos ou armarem seus guarda-chuvas na tentativa de não se molharem. Aquela chuva não molhava de verdade, mas deixava tudo com aquele aspecto úmido, trazendo também um clima mais frio com os ventos vindo do Leste. Os cabelos se agitaram com uma lufada mais forte, mas os olhos da mulher não se moveram das inscrições talhadas na pedra.
Os nomes eram escritos em um grande amontoado como uma homenagem aos heróis que haviam dado suas vidas por aquilo que acreditavam. Pessoas que lutaram para manter acesa a chama que queimava em cada um dos ninjas em Konoha. A Vontade de Fogo permanecia intacta, passando pelas gerações com a solidez de um centenário baobá.
Representado na cor solene da pedra, o luto; entretanto sua forma lembrava a de uma única chama que jamais se apagaria. A chama negra que carregava o nome dos mortos em combate. O túmulo dos que não tiveram corpos para serem enterrados. A homenagem insuficiente para os que se sacrificaram pelo ideal ninja de virtude.
Ela lia os kanjis um a um, os nomes de cada pessoa penetrando na sua alma como lembretes de que lutava por algo maior que ela, e era importante acreditar nisso porque, caso contrário, seria apenas uma ferramenta do sistema, como uma kunai sem muita importância que pode ser jogada contra o inimigo e perdida sem valor. Sem a crença, eles não passavam de assassinos.
Mas mesmo acreditando, ainda assim, Sakura se sentia como uma assassina por muitas vezes.
Naquela manhã, a convocação veio cedo. Levantou suas armas na expectativa de encarar o inescrupuloso homem que servia como mão direita do Hokage, entretanto, para sua talvez grata surpresa, o próprio Hokage estava prostado em naquela almofada suja com seu arquivo de missão nas mãos. Não deram uma palavra sequer. Sakura apenas o encarou em desagrado antes de pegar a pasta parda que ele a ofereceu e sair.
Por que lutava por Konoha? Ela não sabia dizer direito. De prontidão, ela responderia que lutava pelos seus amigos, mas essa era uma luta individual e bem diferente daquela que acontece fora dos muros. Podia justificar sua devoção com um patriotismo tolo, ou até mesmo lançar a universal desculpa de que lutava, na verdade, pela paz.
A realidade era crua, entretanto.
Tudo era um jogo político, e os ninjas atuavam para a manutenção desses jogos. Respondiam a um Senhor Feudal covarde que não tinha ciência de metade das coisas que aconteciam em seu território, ou até mesmo obedeciam a vontade de um Hokage que claramente não tinha competência para estar num cargo tão determinante.
Mesmo assim, todos os seus amigos, todos os ninjas iam à luta sem hesitar.
E para proteger o quê?
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Pelo que Sakumo morreu?
Às vezes Sakura se pegava pensando sobre o que aconteceria se os Uchihas tivessem conseguido e Fugaku vestisse aquele chapéu ridículo que só fazia grandes ninjas parecerem tolos. Os planos de dele não pareciam envolver obediência às vontades de um Daimyō, tampouco cuidar de sua proteção. Fugaku, até onde Sakura sabia, queria independência.
Ela lembrou-se daquelas conversas que teve com Shisui durante daqueles jantares em que se serviam de comida de rua e saquê barato. Até falando sobre coisas tão pesadas, o rapaz conseguia manter sua voz doce e quase leve. Fora ele quem lhe disse, em sussurros discretos, sobre como Fugaku não tinha ideias ruins, e que seria interessante tomar decisões independente das vontades de alguém que só existe para coletar impostos.
A fala articulada de Shisui poderia soar como traição aos ouvidos de qualquer pessoa, mas Sakura se mantivera apenas curiosa, incentivando-o a continuar. Eles confiavam um no outro o suficiente para partilhar de opiniões não muito populares, e ela tinha uma queda pelo jeito que os olhos dele se projetavam quando parecia estar imaginando um novo sistema político, ou algo assim.
Apesar de achar que a figura do Daimyō era completamente descartável, Shisui achava que tomar o poder não era uma solução. Um regime autoritário não seria benéfico para ninguém, ainda que os Uchihas tivessem boas intenções em libertar o País do Fogo do feudo.
No final das contas, apesar das boas intenções, Fukagu também queria poder, assim como seus antecessores também quiseram antes. Se eles realmente quisessem transformar Konoha em algo melhor, então teriam gastado mais tempo reunindo simpatizantes ao invés de tentar matar a todos que ficassem em seu caminho. Não havia justificativa para o que fizeram, mas ela entendia a tendencia de Shisui em procurar alguma coisa boa nos motivos de sua família.
De seu clã.
Ainda assim, estavam todos presos na roda ninja. Todos eram ferramentas de um sistema bem maior e mais antigo que eles. Lutavam a guerra dos outros, e muitas vezes nem sabiam quais eram os objetivos daqueles acima de suas cabeças. Tudo era muito obscuro.
Pelo que todas essas pessoas morreram?
Sakura não ousaria tentar entender seus motivos, mas toda vez que seus olhos se prendiam ao nome de Hatake Sakumo, a kunoichi se sentia como se fosse a continuidade de algo maior que ela, algo que por muito tempo ela rejeitou, mas que agora insistia em voltar para si na forma de uma sensação de pertencimento.
Era por isso que ela lutava, não era? Pelo pertencimento desde sempre.
Estrépitos molhados se fizeram audíveis naquele lugar solene. A mulher não tentou vislumbrar quem era o tal recém-chegado, seus olhos não ousaram deixar o nome de seu sensei talhado na pedra enquanto se perguntava se ele teria se arrependido de treiná-la se visse o que ela se tornou, as coisas que fez... Se de alguma forma pudesse saber que não mancharia o nome dele ao usar seus símbolos, então ela teria mais certeza do que estava fazendo.
Mas talvez essa fosse a pegadinha. Sakumo estava morto afinal.
— Você vai pegar um resfriado assim – A voz esganiçada propagou-se além do silêncio e ela se viu curvando o canto de seu lábio.
— Essa chuvinha não serve nem pra isso, você sabe. – Disse antes de dar uma última olhada naquele nome de seu mestre e finalmente se virar para encarar o homem naquele casaco velho e mãos nos bolsos. Um cachorro minúsculo surgiu de dentro do capuz que cobria a cabeça do homem, e Sakura de repente voltou no tempo. — Akemaru!
O cão latiu em resposta, colocando sua língua para fora em excitação ao chamado. Sakura percebeu o agitar do rabo através do movimento atípico que o tecido cinzento fazia na cabeça de Kiba. Ela riu esticando os braços para buscar o cão de pelagem escura, num vermelho amarronzado.
— Bonita blusa. – Num tom gracioso, ele disse, enquanto olhava para os dedos dela acariciando o pelo do filhote em seus braços.
— Obrigada. – A resposta soou naquele mesmo tom. Eles se olharam com divertimento antes que ela pudesse encostar o nariz no pelo macio do cão em suas mãos — Céus, eu adoro o quão cheiroso ele é.
Ele até quis pedir que ela parasse de tratar Akemaru como pet, mas acabou que apenas reprimiu tal vontade em prol daquele ir e vir suave da mão dela na pelagem escura. Akemaru era um cão ninja e precisava ser tratado como um, mas Sakura apenas não resistia nunca ao olhar pidão que ele habilmente a lançavam em busca de algum aconchego.
— Quanto tempo você vai demorar nessa missão? – Ele perguntou finalmente, voltando seus olhos para ela antes que começassem a andar para longe da pedra memorial.
— Acho que volto em duas ou três semanas. – A mulher suspirou, o sorriso morrendo em seus lábios — Kiba, eu vou tentar fazer isso rápido, mas eles podem realizar a assembleia sem mim. Não deixe que isso aconteça.
— Não se preocupa. A Hana recebeu um circular com a informação de que a assembleia foi adiada. – Informou em tom um tanto mais sério, a expressão contida — Não sei qual é a dos Hyuugas, mas foram eles que solicitaram o adiamento.
Sakura franziu o cenho.
— Eles devem estar tentando convencer algum outro clã, ou pessoas sem clã a votarem com eles. Ou talvez Shikamaru esteja fazendo esse papel por debaixo dos panos.
— Nós dois sabemos que ele não se exporia desse jeito. O que quer que esteja acontecendo, se ele estiver participando, é por debaixo dos panos.
Akemaru a olhou com sua expressão confusa quando ela parou com as caricias sem sequer perceber. Estava pensando brevemente em tudo o que não fazia sentido, nas palavras raivosas que um dia saíram da boca de Shikamaru e sobre como ele estava ainda mais distante. Balançou a cabeça com um breve negar.
— Kiba, você não pode sair da vila enquanto eu estiver fora – Ela disse de maneira contundente — A Ino não pode ficar sozinha. Eu não acho que Shikamaru vá fazer algo contra ela diretamente, mas não gosto da ideia de deixá-la só com ele.
— Deixa comigo, rosinha. Pretendo encher o saco da Ino o suficiente. Sem você na vila, fico sempre entediado.
Ela deixou uma risada escapar ainda que seu coração estivesse apreensivo com a ideia de se afastar por tanto tempo. Talvez até essa missão fosse um desses planos precisamente calculados dos quais Shikamaru tanto se orgulhava. Olhou para Kiba e seu sorriso torto, sabendo que ele queria apenas que ela viajasse sem muitas preocupações e resolveu que confiaria cem por cento nele.
Não tinha porquê não confiar.
— Eu volto antes que você perceba. – Ela riu, voltando a passar a mão em Akemaru enquanto cruzavam os portões do cemitério de Konoha — E sinto que você vai ficar bem ocupado com esse aqui.
— Se você continuar mimando ele desse jeito, então talvez eu vá ter mais trabalho mesmo. – Respondeu pegando-o dos braços de Sakura e enfiando embaixo do casaco. Sakura riu.
— Quando nós éramos mais novos, eu sempre via você carregar o Akamaru desse jeito e ficava morrendo de vontade de passar a mão nele. – Ela disse rindo, mas Kiba só conseguia se sentir idiota por ignorá-la naquela época.
— Bem, agora você pode.
— É. Agora eu posso.
Os olhos verdes cintilaram para ele com uma leveza gentil, e ela apenas se inclinou na direção dela, buscando um beijo tranquilo. A garoa já não existia mais quando os lábios se tocaram, mas ele sentiu a pele dela um tanto úmida quando tocou as bochechas dela.
— Tá levando a capa de chuva? – Ele perguntou contra os lábios dela quando o beijo cessou, e ela apenas riu.
— É isso que você quer me dizer antes que eu parta? – O retrucar veio rápido naquele tom divertido.
— Você quer um poema de despedida?
— Você o faria se eu quisesse? – Ela provocou em desafio. Ele riu.
— Rosas são vermelhas, margaridas são amarelas. Sem sua boceta, minha cama não é mais bela.
— Margaridas não são amarelas. – Sakura riu passando a mão entre os cabelos enquanto ele dava de ombros — E tenho certeza de que logo você encontra outra boceta pra fazer sua cama bonita em minha ausência.
Será que ele tinha percebido? Sakura pensou quando se forçou a manter o sorriso debochado em seu rosto, sem entender direito porque um nó se formou em sua barriga. Ela até poderia fingir para si mesma que tinha sido uma cólica fora de tempo, mas a verdade é que ela se viu incomodada com a ideia de Inuzuka Kiba comendo alguma outra pessoa que não ela.
Mas ela manteve sua pose, ou achou que estava mantendo enquanto esperava uma resposta do homem que apenas a olhou daquele jeito cínico, mas talvez, só talvez, aquilo no fundo de seus olhos fosse cautela. No final das contas, a resposta dele foi apenas uma risada enquanto continuava a caminhar com as mãos nos bolsos e Akemaru com as patas dianteiras e cabeça para fora do casaco fechado.
Não demorou para chegarem naquela interseção onde deveriam se separar, e ainda bem que chegaram, ou teriam que enfrentar um silêncio confuso demais entre deles, cheio de pensamentos que não se sentiam preparados para lidar.
O céu continuava acinzentado quando ela se virou para ele.
— Cuida da Ino. – Ela pediu finalmente, evitando qualquer outro assunto.
— E você, se cuide.
Eles se olharam por um momento, e ela apenas assentiu silenciosamente antes de virar-se para seguir seu rumo, ambos se perguntando que diabos de até logo era aquele, mas só um deles estava realmente disposto a consertar isso. Agarrando o braço da mulher, ela virou-se para ele apenas para que pudesse ser beijada devidamente. Tiveram o cuidado de não esmagar o pobre Akemaru, mas ao contrário do beijo tranquilo de momentos antes, aquele era bem mais profundo.
— Vou estar te esperando. – Ele disse quase num sussurro contra seus lábios, sem sustentar tom brincalhão algum na voz. Sem fingir que aquilo era qualquer outra coisa além do explícito, e Sakura o beijou novamente.
E assim, finalmente se despediram.
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— Por que merda ela tá sempre atrasada?
Escorado numa árvore com seus braços cruzados e mochila aos pés, Hatake Kakashi deixou seu olhar vagar até o amigo resmungão. O encarou de maneira significativa por mais tempo do que o considerado aceitável, mas sua expressão era de pura incredulidade. Sério que logo você tá reclamando de atraso? Era o que ele dizia naquele olhar direcionado.
O outro, acocorado a direita do amigo, apenas fez um bico amuado antes de virar seu rosto para o outro lado. Em sua mente, Obito justificou sua reclamação com um breve pensamento "se ela se atrasa mais que eu, então posso sim reclamar."
De alguma maneira, os dois estavam certos, mas nenhum deles admitiria.
Naquela manhã nublada, o time sete tinha sido chamado muito cedo à Torre Hokage. Esperaram na antessala do escritório do Hokage enquanto sua capitã, Haruno Sakura, entrava para pegar a tão urgente missão. Quando ela saiu mais rápido do que eles esperavam, todos acharam que tinham levado alguma bronca ou repreensão, mas não.
Sakura saiu com a pasta nas mãos e os disse apenas que se veriam em duas horas no portão oeste.
Já fazia quatro horas desde então.
A primeira a chegar foi Nohara Rin, como de costume, alguns minutos depois, Kakashi apareceu com sua expressão de indiferença habitual. Eles conversaram um pouco, Kakashi notou as mãos dela mais ressecadas, mas não comentou nada. Apenas esperaram por mais quarenta minutos até Obito resolver aparecer, e então estavam ali entediados.
— Será que aconteceu alguma coisa? – Rin perguntou demonstrando breve impaciência. — É um atraso longo até pra ela, não é?
Mesmo sem nenhum direcionamento, Rin o estava encarando como se a pergunta fosse exclusivamente para ele. Kakashi arqueou uma sobrancelha em breve confusão. Como ele iria saber? Adoraria que fosse íntimo o suficiente de Sakura para saber os reais motivos dos seus atrasos, ainda que desconfiasse ser apenas ela não se importando com os horários.
De toda forma, ele resolveu responder apenas com um dar de ombros.
— A gente devia fazer alguma coisa. – Obito disse se levantando com aquela expressão de quem está louco para fazer merda — Tipo dar uma lição nela.
Rin arqueou a sobrancelha. Kakashi o olhou tedioso.
— Não, sério! Ela tá merecendo! Sempre se atrasa!
— Você sempre se atrasa e nem por isso damos uma lição em você. – O mascarado bufou.
— Mas ela se atrasa muito mais!
— Obito... Te aquieta, vai. – Rin suspirou num fechar de olhos cansado. Não estava no humor para ser mediadora naquela manhã.
O garoto voltou a exibir seu bico amuado ao agachar-se novamente em sua resignação, mas a mente custava a livrar-se da ideia de que Sakura merecia aprender uma lição para não se atrasar tanto. Ficaram em silêncio os três, Kakashi olhando para as próprias unhas com um interesse ridículo nelas, Rin cutucando o mato no meio-fio com uma vareta, e Obito apenas suspirava a cada minuto.
Foi ele quem a viu primeiro, andando na direção deles sem pressa nenhuma, quase como se debochasse da cara de todos os três. Não escondeu a careta de desagrado, mas a mulher sequer deu importância, porque além de irrelevante, seus olhos miraram logo no rapaz que se desencostava daquela árvore e a olhava num misto de surpresa boa e curiosidade.
Oh sim.
Kakashi se sentiu empolgado quando reconheceu aquela manga branca com padrões triangulares de zigue-e-zague que ela usava por baixo do colete ninja. Nem percebeu quando o canto da boca se curvou num sorriso. Eram os mesmos desenhos que seu pai exibia numa camisa parecida que usava, e não pôde negar ter gostado de vê-la carregando os símbolos de seu pai. Os símbolos dele.
Na verdade, ele gostou até mais daquela hitaiate brilhando no topo da cabeça em metal polido e tecido vermelho. Gostou da tantō embainhada nas costas, uma diferente da que ela havia levado nos treinos para ele. Uma com uma empunhadura gasta, mas bem bonita, e que ele se lembrava de ver bastante nas costas de seu pai.
E ela viu tudo isso no cintilar dos olhos escuros.
Aquela troca cúmplice de olhares durou apenas um breve momento, mas eles pareciam ter tido uma das mais longas conversas que se poderia ter. Quando ela finalmente parou na frente dos três, Kakashi teve de abaixar sua cabeça para assumir um tom mais profissional, mas estava sendo bem difícil quando ele só queria dizer qualquer coisa para ela, ainda que não soubesse muito bem o quê.
Desconfiava, entretanto, que se estivessem sozinhos as palavras logo chegariam.
Obito, no entanto, notou não apenas a mudança visual, mas o jeito com que ela chegou no local. Sakura estava completamente diferente daquela mulher que os levou ao limite durante a missão onde findaram a vida de um dos remanescentes dos Sete Espadachins da Névoa, e apesar do estranhamento na mudança de comportamento, Obito meio que se sentiu relaxar mais um pouco.
Talvez não fosse ser uma missão tão exaustiva.
Rin, no entanto, foi aquela que notou a troca de olhares entre Kakashi e Sakura, sem entender direito o que foi tudo aquilo. Ela se resignou em seus pensamentos, se sentindo um pouco feliz pelo bom humor da capitã e um pouco consternada por aquela intimidade inesperada que se fazia entre ela e o companheiro de equipe. Resolveu apenas observar, por fim.
— Bom dia – Sakura cumprimentou olhando para Obito e depois para Rin — Todos prontos?
— O que você tava fazendo que se atrasou tanto?! – Obito acusou rapidamente.
— Hm... Acho melhor você não saber...
— Como assim?!
— Tem coisas que é melhor não saber, Obito. – Ela alertou daquele jeito enigmático e ele não soube dizer se ela estava apenas brincando com a cara dele ou falando sério. — Mas e aí, tá pronto?
Ele pigarreou com um empertigar-se.
— Sim. – Disse segurando as alças da mochila em suas costas — Qual a missão, taichō?
— Informo vocês no caminho. – Disse dando alguns passos na direção do portão – Vamos lá.
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Como de costume, a saída da vila foi feita em máxima velocidade. Seguiram por uma trilha conhecida até um vilarejo próximo, famoso pelos bordéis e bares, e muito usado como ponto de apoio para viajantes civis que trafegavam por aquela rota. Foi estranho, na visão de Obito, ver a mulher os guiando por locais que ele já conhecida, afinal, sua primeira missão com ela tinha sido bem diferente do que estava habituado a fazer.
Não se demoraram muito naquele lugar, entretanto. Fizeram apenas uma parada para que ela pudesse encher um cantil que carregava e deixar que os outros fizessem o mesmo. Foi estranho vê-la sem pressa, murmurando uma canção qualquer enquanto andavam pelas ruas daquele lugar rumando à trilha novamente.
Era final da tarde quando eles pararam próximo a um campo com bétulas, com um riacho fazendo barulho distante em seus ouvidos. Para a surpresa do time, a mulher declarou que iriam acampar por ali, dando instruções para que Rin fosse achar lenha para a fogueira, e Kakashi providenciasse uma caça para o jantar enquanto ela e Obito cuidariam de armar o acampamento.
Foi quando ele não conseguiu mais conter as palavras.
— Ok, o que tá acontecendo?
Sim, o que diabos estava acontecendo? Quem era aquela mulher e o que tinha feito com a Flor da Morte? A essa altura era para eles estarem famintos enquanto sentiam a tensão em suas peles. Era para eles estarem o mais distante possível de Konoha, possivelmente desidratados e exaustos na busca da realização de uma missão que poderia acabar com suas vidas.
Mas ali estavam eles se preparando para passar a noite num campo de bétulas.
— Ué – Sakura franziu o cenho — Vamos acampar. Você sabe o que é isso, não é? Até um civil sabe o que significa acampar.
— É claro que eu sei o que é acampar! – Ele disse ofendido com a sugestão do não saber — Tô perguntando o que diabos você tá planejando!
— ... Acampar?
Se ele soubesse que poderia vencer, Obito certamente teria voado em cima dela para lhe dar uma boa surra. Sakura certamente sabia do que ele estava falando, porém ficava nesse joguinho de desentendida. Rin e Kakashi assistiam, esse último com uma sobrancelha arqueada em pena.
— Não isso! – Esbravejou — Da missão, da conduta ninja, de tudo!
Sakura fez uma careta enquanto encarava o rapaz tão energético em seus dizeres. Olhou para Kakashi pedindo por uma tradução, mas o rapaz parecia estar cansado de repente. Foi Rin quem deu um passo à frente, se aproximando dos dois com aquele ar enfadonho de quem pretende mediar uma situação.
— Acho que ele tá querendo saber o porquê de não estarmos executando essa missão da mesma maneira que a anterior.
Fechando os olhos, quase constrangido, Kakashi suspirou ao mesmo tempo que Sakura. Se Naruto estivesse ali, Kakashi imaginava que ele estaria tão envergonhado quanto, porque parecia que ele não tinha ensinado absolutamente nada, o que era uma mentira. Naruto tinha sido um ótimo sensei, desses que tem uma paciência extra para explicar as coisas, e talvez fosse isso que tivesse prejudicado seu time, porque... céus...
... era tão óbvio.
— ... porque não são a mesma missão? – Sakura respondeu, mas seu tom final era de pergunta. Ela suspirou novamente logo depois de ver o olhar raivoso de Obito e se perguntou, de novo, como Naruto fazia para domesticar esse animal chamado adolescente. — Olha, vamos apenas montar o acampamento. Eu explico tudo quando tivermos fogo e algo sendo preparado para comermos.
Rin concordou facilmente. Essa adolescente, apesar de ser sua fã louca, era um tanto mais fácil de lidar do que o outro, que fez um bico dramático ao cruzar os braços e retrucar até mesmo aquilo.
— Nos acampamentos, geralmente é a Rin quem ajuda o sensei a montar tudo. O Kakashi pega lenha, e ervas também porque é ele quem cozinha, e eu fico pra caçar alguma coisa.
— É, mas eu não sou atrapalhada como o Naruto. Rin vai pegar lenha porque sinto que ela vai me pedir um autografo a qualquer momento se ficarmos à sós, e você vai ficar porque é tão barulhento que se houver ladrões na área você atrairá todos, e se for o caso, é melhor eu estar junto. Sobrou pra Kakashi a caça.
Normalmente, Kakashi não reagiria às declarações abusadas de sua capitã, mas naquele momento ele quis muito rir. Ninguém o estava olhando, e só por isso ele foi capaz de abaixar a cabeça de deixar alguns ruídos escaparem enquanto Obito se controlava para não xingar a pessoa mais arrogante que ele já havia visto na vida – até mesmo mais do que Kakashi.
— Eu não sou barulhento! – Obito berrou.
...
Sakura o encarou por um longo momento, a sobrancelha arqueada, o ar sabichão... Obito corou suas bochechas em constrangimento quando percebeu, virando o rosto para o lado para resmungar com o resto de dignidade que lhe sobrou:
— Eu não sou barulhento.
— Tudo bem, tudo bem... – Sakura suspirou percebendo que tudo estava sendo motivo de revolta — Vai pegar nossa refeição, Obito. Kakashi, você fica.
Não houve demora após isso.
Obito logo se embrenhou pelas árvores em busca de animais pequenos e de fácil tratamento, talvez algum pássaro desavisado em seu ninho cheio de ovos. Rin, no entanto, engoliu a vontade de dizer para Sakura que não era esse tipo de fã, mas teve medo de receber uma dessas respostas rabugentas que pareciam estar sempre prontas na língua de sua capitã.
Enquanto pegava madeira seca, ela pensava sobre como tinha começado com o pé esquerdo, e de como todas as coisas tinham acontecido para que Sakura pensasse sempre o pior dela. Ela queria mudar isso. Queria que Sakura a enxergasse como alguém que tem potencial para se tornar uma ninja tão boa quanto ela, mas ao mesmo tempo, Rin sentia como se nenhum dos seus esforços fosse recompensado.
Desde que voltaram daquela primeira missão, ela se dedicou mais. Leu mais sobre técnicas de controle de chakra, participou de mais procedimentos no hospital, revisou tudo o que sabia sobre manipulação de ervas para antídotos, e treinou como uma desgraçada para aprimorar o ninjútsu base dos ninjas médicos.
Mas até que ponto isso era suficiente? Até que ponto ela teria evoluído em tão pouco tempo com um treino solitário das habilidades deficientes que ela já tinha?
Mais que isso, entretanto, ela queria arrumar uma forma de tentar consertar esse relacionamento que nasceu fracassado por conta de suas expectativas. Assim como qualquer shinobi, Sakura era magoada de formas que Rin jamais entenderia se não conseguisse alcançar um nível bem além do que estava, e Rin só pôde perceber isso depois de vê-la em ação, depois das duras palavras de Kakashi e depois de entender a sua própria deficiência.
Em seus pensamentos depressivos, Nohara Rin continuou a coletar madeira seca como lhe fora ordenado em outrora, enquanto isso, o acampamento ia tomando forma enquanto os ninjas restantes preparavam o acampamento, preocupados com uma possível chuva que pudesse surgir na madrugada.
Foi Sakura quem começou a armar as duas tendas que usariam, e Kakashi logo surgiu ao seu lado dando uma ajuda aqui e ali.
— Eu tenho uma pergunta. – Disse Kakashi de repente, rompendo o silêncio pacífico com sua voz em timbre brando. A mulher o olhou rapidamente em sinal de que ele poderia continuar, e então ele o fez: — O Sensei também tem uma blusa dessas?
Ela sorriu.
— O que você acha? – Sakura devolveu a pergunta enquanto puxava o tecido impermeável.
— Eu não sei. – Deu os ombros enquanto armava as varetas nas aberturas, observando de soslaio a mulher soltar uma risadinha.
— Só eu ganhei uma. – Ela respondeu se virando para ele brevemente — Pouco antes de ele ter saído na última missão, ele me deu essa blusa e a tantō.
Eles se olharam por um momento num reconhecer mútuo antes de ela se virar para voltar a fazer o que estava fazendo. Kakashi abaixou a cabeça para se certificar que tinha unido as partes das varetas com precisão, e então ergueu a cabeça novamente para ver as costas dela. A manga branca pulava para fora do colete verde, assim como a de seu pai fazia. O padrão vermelho era o mesmo, e até a tantō, não fosse o fitilho rosa, seria a mesma.
Encaixou a última parte por dentro do tecido e empurrou. No segundo seguinte, a barrava estava armada. Kakashi avaliou seu trabalho por um momento antes de olhar novamente para Sakura, que já estava colocando o sobreteto pesado sobre a barraca montada. Ele se aproximou quando a viu procurar pelas estacas para finalizar a montagem.
— E por que você resolveu usar agora? – Questionou assim, meio do nada. Meio como quem não quer nada.
Assistiu ela puxar a corda para prender o sobreteto à estaca no chão. A mulher jazia em silêncio, e Kakashi se sentiu inquieto pela falta de uma resposta. Talvez tivesse cruzado um limite, ou talvez fosse algo que ela quisesse manter para si. Ele não sabia dizer direito e normalmente ele deixaria o assunto simplesmente morrer, mas resolveu que não queria um clima estranho.
— ... Você não precisa responder. – Disse tentando aquele tom habitual de indiferença junto daquele dar de ombros antes de voltar à sua própria tenda para terminar o serviço — É só que... hã... você tá...
Ele quis fazer um elogio, mas não conseguiu pensar em nenhuma palavra que não o fizesse se sentir constrangido, por isso deixou a frase se perder enquanto pensava que deveria ter mantido sua boca fechada e terminado o serviço sem conversas paralelas.
— Obrigada – Ela disse com aquela voz em tom tranquilo, como se soubesse exatamente o que estava se passando na mente do rapaz. Kakashi virou-se na direção dela, e lá estava Sakura se agachando ao lado dele com um sorriso fácil. Ele corou, mas se ela percebeu, não comentou. — E não é que eu não queira responder, é só... hmmm... É que eu tenho vários pequenos motivos, mas toda vez que penso em dizer em voz alta, eles parecem um pouco insuficientes. – Ela riu.
Colocando a última corda na estaca, Kakashi a olhou ao cair da noite. Naquela parte da floresta, a luz do luar não conseguia penetrar as brechas nas folhas das árvores. Já estava ficando ainda mais frio, e havia uma nuvem estranha ameaçando a todos com uma iminente chuva. O rapaz só conseguia ver o rosto de Sakura porque estava bem perto, e sua voz competia com o ruído de uma cigarra escondida em algum lugar.
— Essa é a tantō que você foi pegar naquele outro dia? – Ele perguntou olhando para ela por baixo de toda a escuridão.
— Sim. Seu pai quem me deu também. – A mulher respondeu antes de puxar a pequena katana das costas e oferecer ao rapaz — Eu nunca a usei. – Completou quando ele segurou a empunhadura e fez uma careta.
— É leve.
Sakura riu.
— Me dá de volta. Você não merece segurar ela. – Disse provocativa. — Vem cá, bebê. Você tem o peso certo, não liga pra ele. – Falou olhando para a lâmina que refletia a pouca luz. Kakashi riu sacudindo os ombros enquanto ela embainhava novamente.
— Eu só disse que é leve... Não é uma crítica.
— É pra eu fingir que acredito?
— Eu estou quase me acostumando com o peso...
— Com aquela movimentação esquisita que você tá fazendo?
— Eu disse quase.
— Ah, quase... Tá certo.
Ela riu quando imaginou ter visto um bico por debaixo daquela máscara, e então se levantou para dar alguns passos até o meio do que seria aquele acampamento e olhar ao redor. Kakashi a seguiu com seu ar moroso, enfiando as mãos nos bolsos enquanto também olhava ao redor.
— Já tá esfriando e nada da Rin. – Ela suspirou. — Você acha que ela se perdeu?
Kakashi riu, apesar de também querer logo um fogo acesso para livrá-lo da sensação fria na pele.
— Ela pode ter as deficiências dela, mas é muito boa de localização. Até melhor que o Obito.
Considerando as palavras do rapaz, Sakura apenas se manteve cética. Rin não se mostrou melhor que Obito em nenhum aspecto até o presente momento, e aquele era Kakashi falando, o provocador que não perdia uma oportunidade de cutucar o amigo.
— Pode não parecer, mas ela é uma boa ninja – Ele continuou quando viu que ela não iria responder — Só não tem a orientação certa.
— Você tá reclamando do Naruto? – Sakura perguntou com um ar de riso, e Kakashi pareceu urgente em resolver o mal-entendido.
— Não! Não, o Naruto-sensei é um bom professor, mas a Rin é ninja médica. Ele não pode ajudá-la muito nesse aspecto.
Sakura riu com aquele olhar esperto.
— Cuidado, Kakashi. Parece até que você está sugerindo que eu a treine.
— Não precisa treinar, só dar umas dicas... Sei lá. – Ele suspirou. — Acho que ela só precisa que alguém aponte uma direção pra ela.
— É, talvez. Mas ela não pode esperar que isso caia do céu. Ela precisa procurar alguém que possa fazer isso.
— Meio que ela encontrou, né?
Sakura o olhou de soslaio, encontrando Kakashi também a olhando pelo canto. Eles se encararam por um momento até ela se desviar dele com uma risada.
— Bem, sim. Ela encontrou, mas e daí? – Sakura apoiou as mãos na cintura — Eu tô aqui e ainda não ouvi nenhum pedido.
Kakashi considerou as palavras dela por um momento antes de responder. Sakura tinha um ponto, mas também havia outros.
— Talvez seja minha culpa. Eu pedi pra você me treinar, e você só ignorou naquele dia.
— Você quer um pedido de desculpas? – Ela riu.
— Não. Eu só tô dizendo que talvez isso tenha acuado ela. A Rin pareceu surpresa quando soube que você acabou me treinando no final das contas.
Sakura deu de ombros de maneira indiferente.
— Se só isso é algo para fazê-la recuar, então ela não serve pra ser ninja. – Disse de maneira severa. Rin não tinha perfil para ser ninja, e isso era algo que Sakura tinha percebido nas atitudes dela naquele treino. Ela até tinha certo potencial se conseguisse parar de agir com tanta passividade.
A kunoichi de cabelos cor-de-rosa suspirou. Sim, ela até podia dar uma pequena ajuda a Nohara Rin, mas não o faria só porque tinha pena dela ou porque Kakashi estava pedindo. E foi com esse pensamento que ela olhou para o rapaz ao seu lado com o cenho franzido, de repente notando que Kakashi não era o tipo altruísta a ponto de interceder por outros...
— Você tem um crush nela? – Sakura perguntou absolutamente do nada, fazendo um desavisado Kakashi quase se engasgar com aquela pergunta.
— O quê?!
— Você gosta da Rin? – Ela perguntou de novo, as sobrancelhas arqueadas, o rosto divertido. Ah, o primeiro amor. Sakura pensou se inclinando na direção dele quando o viu desconcertado — Digo, você quer dar uns beijinhos nela?
— Não! – Nunca viu Kakashi negar algo tão alto. Ela riu. — Eu não gosto dela assim!
— Sabe, se você quiser, eu posso te ajudar. Sou uma ótima cupido.
— Não! – Ele disse novamente, constrangido com a suposição completamente errônea da mulher — Eu não gosto dela desse jeito! Quem gosta dela é o Obito!
— Bem, isso tá meio na cara. Digo, que o Obito gosta dela. – Sakura riu. — Mas, hm... Tem certeza de que você não quer dar uns beijinhos na Rin?
— T-Tenho! Ela é legal, bonita, mas não é o meu tipo... – Ele disse desesperado para que Sakura entendesse que ele e Rin não era uma possibilidade.
— Você tem um tipo? – Sakura continuou, adorando se divertir com aquele desespero estranho que o estava acometendo de repente — E qual é ele? Qual é seu tipo de mulher, Kakashi?
Kakashi quis morrer.
Ele quis que um meteoro acertasse a superfície da terra o engolisse em chamas, ou que a terra se abrisse abaixo dele e ele fosse levado para o além. Ele quis fugir. Quis que Obito chegasse gritando como sempre fazia. Quis que Rin aparecesse e fizesse Sakura se distrair com qualquer coisa. Ele quis que Naruto tivesse voltado da missão e esbarrasse neles.
Kakashi quis qualquer coisa para não precisar responder aquela pergunta, porque a única resposta que tinha o levava à uma resposta muito direta.
Você.
— ... e-eu...
Ele começou sem saber bem o que dizer.
— Você...
Ela disse naquele tom divertido se inclinando na direção dele.
Kakashi ficou ainda mais vermelho. Ainda mais sem jeito.
E então eles ouviram um ruido por trás dos arbustos e rapidamente se viraram naquela direção, vendo Obito e Rin se aproximarem a passos tranquilos. O garoto mascarado quase se ajoelhou em agradecimento, enquanto Sakura observou o coelho morto, já sem pele, que Rin carregava amarrado pelas patas, enquanto Obito segurava bastante madeira para uma fogueira.
Cavalheiro. Ela pensou sobre Obito com humor, assistindo Kakashi fugir da pergunta ao ir na direção daquele coelho morto, olhando-o como se fosse a coisa mais interessante no raio de dez quilômetros. A partir daí, Rin e Obito se juntaram para fazer uma fogueira enquanto Sakura apenas assistia seus genins trabalharem. Kakashi tinha um kit de cozinha dentro de um pergaminho, e ela achou aquilo uma preciosidade.
Fazia tanto tempo que ela não acampava numa missão que ela se sentiu nostálgica, lembrando da época em que era ela, Naruto e Sasuke. Lembrando como era sempre Sasuke que cozinhava, porque ela odiava cozinhar e Naruto só sabia fazer lamem instantâneo apesar dos esforços do sensei em fazê-los se dedicarem mais às questões de sobrevivência na floresta.
Viu Rin se oferecendo para ajudar Kakashi, que negou com aquela clássica indiferença. É claro que ele não gostava dela, pensou com uma risada contida ao lembrar de como Naruto ficava tentando chamar a atenção de Sasuke nas missões, e de como ela achava tudo tão cansativo, porque o Uchiha era um chato. Um chato que fingia muito bem.
Será que Kakashi fingia bem?
Foi com essa pergunta que ela resolveu chamar a atenção de todos para revelar os detalhes da missão.
Estavam a caminho da Vila da Grama, onde iriam encontrar um famoso figurinista. Sua missão era transportar as joias que fariam parte do figurino de uma importante peça de teatro que aconteceria no País do Chá. Ela ressaltou, apenas pela confusão de mais cedo, que a mudança de conduta se dava pelo teor da missão, que apesar de importante, não era uma operação de militar.
A missão era um contrato rank-A de média duração.
Obito pareceu satisfeito com a explicação, talvez por sua barriga estar cheia também. Rin não fez perguntas, assim como Kakashi. Todos comeram, exceto Sakura que preferiu se ater às barras de cereais que carregava na mochila, e o cozinheiro da noite se perguntou o porquê daquela decisão, imaginando se ela achava que ele cozinhava mal. Acabou não perguntando a ela, que combinou um rodízio para a vigília noturna. Primeiro ela, depois Kakashi, Obito e então Rin.
Os três se entocaram nas tendas enquanto Sakura escolheu uma árvore para se empoleirar juntamente à uma capa clara com duas listras mais escuras na barra. Kakashi conseguia espiá-la discretamente através do tecido da tenda que ocupava junto a Obito. Acabou cochilando por um momento, e abriu o olho bem a tempo de substituir sua capitã.
Ele subiu na árvore com um salto preciso, se colocando naquele galho grosso onde ela estava com as pernas esticadas naquelas botas de cano alto.
— Você conseguiu dormir? – Ela perguntou com uma sobrancelha arqueada. Não parecia cansada.
— Um pouco. – Ele respondeu sem muita demora — Vou dormir melhor quando o Obito trocar comigo.
— Pode dormir mais, se quiser. Eu te cubro aqui. – Deu de ombros — Não tô com sono, sabe?
— Você não precisa ficar sempre atenta. Podemos não ser tão bons quanto você, mas também somos ninjas.
Ela riu.
— Em você e no Obito eu até confio, mas na outra...
Kakashi revirou os olhos e ela colocou a língua para fora.
— Você gosta muito dela, vai. – Provocou antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.
— Não gosto dela. Ela é só minha amiga. – Respondeu enquanto se acomodava melhor naquele galho, as pernas balançando, as mãos apoiadas. — Eu queria é que o Obito se ajeitasse logo com ela, mas ela não parece notar ele desse jeito também.
— Sabe, essa viagem vai ser longa. Que tal a gente se empenhar para juntar esses dois?
Kakashi arqueou as sobrancelhas.
— O quê?
— Vamos lá, confie em mim. Vai ser legal. – Ela disse com aquele sorriso esperto de quem já tem tudo planejado — A não ser, é claro, que você não queira vê-los juntos porque gosta dela e...
— Eu não gosto dela. – Repetiu se sentindo mais apto a lidar com essa sugestão, e então olhou para as tendas por um momento antes de olhar para Sakura novamente, que esperava em expectativa — Tá bom. Você me diz o que fazer eu ajudo.
— Ótimo! – Ela disse com mais empolgação, se inclinando na direção dele com animação — Eu já tenho um plano...
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.
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Seguiram viagem assim que o sol nasceu. Por recomendação de Sakura, Obito escondeu os rastros do acampamento que fizeram e logo os alcançou por um caminho que ele não conhecia direito. Era engraçado como Sakura tinha esse ímpeto de sempre evitar os caminhos conhecidos, preferindo se embrenhar na mata onde a orientação se configurava de maneira diferente, mas Obito meio que estava gostando do ritmo daquela missão, que não era exatamente o que ele tinha com Naruto, mas não era horrível como fora naquela primeira missão com ela.
Viajaram por toda manhã, vendo o cenário composto por bétulas acrescer com grandes cedros de caules grossos. Eles saltavam por entre os galhos mais grosso, subindo cada vez mais para ficarem a uma distância segura o suficiente para evitarem animais terrestres. Avançaram por um longo momento evitando áreas descobertas até chegarem às margens de um rio.
Foi lá que Sakura decidiu que fariam uma pausa para o almoço, deixando que armassem o acampamento nas proximidades, mas não tão perto. Obito sabia que era uma medida de segurança, já que viajantes preferiam sempre seguirem por locais que ofertassem água boa para consumo, mas ele sempre achava um pouco exagerado. Todos eram ninjas ali e podiam lidar com ladrões ou quais quer outras adversidades.
Mas para Sakura, uma ex-ANBU, era imperativo que se mantivessem discretos, mesmo que o ritmo da missão não exigisse tanta discrição.
Naquele almoço, Sakura instituiu que Rin cozinharia, algo que fez Obito se agitar. Essa função era, geralmente, de Kakashi, porque ele cozinhava melhor.
— Então a Rin cozinha mal?
Ele odiava como Sakura distorcia suas palavras, mas ficou tão atrapalhado que apenas se retirou daquela discussão com o orgulho que lhe restava. Foi a capitã que o mandou coletar ervas e raízes porque queria comer um ensopado, ressaltando para que ele provasse de tudo para não trazer nenhuma erva amarga, e Obito só quis morrer um pouco mais. Odiava coletar plantinha porque não tinha nenhuma habilidade com isso. Para Obito, tudo era mato, mas ele resolveu que não iria contra aquele pedido e apenas se mandou, deixando para trás Kakashi, Sakura e Rin.
O garoto se escorou no tronco de uma árvore, vendo Rin organizar os materiais para cozinhar. Olhou para Sakura com discrição, vendo-a recostar também no troco de outra árvore, esticar as pernas, e puxar da cartucheira um livro nanico com uma coloração avermelhada que ele conhecia bem. Corou quando ela abriu o livro e começou a ler de forma relaxada.
Oh, céus... Como ela conseguia ler Icha Icha em pela luz do dia e no meio de pessoas?
Sakura tinha um sorrisinho no rosto, sua perna começou a balançar, as bochechas coraram brevemente, e ela parecia entretida o suficiente. Ele engoliu seco quando a viu morder o lábio para tentar segurar alguma expressão que ele imaginava, com muita vividez, em sua privacidade. Algo lascivo, erótico. Ele precisou virar o rosto para tentar afastar a ideia de que queria muito vê-la lendo aquilo, porque estava se realizando, e era totalmente diferente do que ele imaginou.
Até mesmo melhor, não fosse Rin estar ali e ele não... não poder fazer nada.
Mas o que ele faria de qualquer maneira?
Ele a olhou novamente pelo rabo do olho, vendo os joelhos se flexionarem e o par de coxas ficar mais evidente. Por que diabos ela usava aquele short tão colado? Por que inferno ela não usava aquelas calças largas que todo ninja usava? E por que droga ela ficava mastigando aquele lábio inferior enquanto virava as páginas daquele livro? Em que página ela estava? Qual era a cena que estava lendo?
...
Se levantou abruptamente quando se viu pensando demais sobre aquilo. Pegou seu cantil antes de dar uma arrumada discreta no pacote no meio de suas pernas, e se encaminhou para o rio. Sim. Precisava de privacidade para deixar seus pensamentos irem embora junto com o diabo da correnteza.
— Vai pra onde?
Rin perguntou com aqueles olhos curiosos.
— Pegar água, me refrescar um pouco. Você quer?
— Sim, por favor.
Ele catou o cantil dela antes de escapar rapidamente antes que Sakura falasse com ele, porque aí ele não aguentaria. Olhar para ela com aquele livro na mão? Era demais para o jovem Kakashi, que se sentia urgente em tirar qualquer que fosse o pensamento de sua mente. Ele tirou a roupa ao chegar perto do rio, deixou tudo num amontoado na beirada e se jogou na água fria.
Sakura, no entanto, continuou ali entretida em sua leitura enquanto imaginava o que podia ou não tentar com Inuzuka Kiba quando voltasse da missão. Jiraya era sempre tão criativo no uso de chakra, que ela acabava sempre imaginando o porquê de sua mestra não dar logo para ele.
Tudo bem que ele era um pervertido, mas uma vezinha não ia matar ninguém.
Em algum momento, Sakura precisou parar de ler. Não que ela não conseguisse ler uma boa sacanagem em público, mas percebeu a sua fã louca lhe olhando com curiosidade. A olhou de volta, e a viu desviar o olhar. Certo... Deu um suspiro antes de guardar o livro no bolso e se manter encarando-a até vê-la se incomodar. Rin a olhou de volta com ombros encolhidos, quase como se estivesse sendo pega fazendo algo errado.
...
— Q-que livro era aquele?
Ah...
— Icha-Icha Violence. Um best-seller.
Rin a olhou avaliando a expressão neutra que Sakura sustentava em seu rosto, juntamente com seu tom de voz que não revelava muito. Resolveu continuar.
— Sobre o que é?
— Bem... Dá pra chamar de romance. – Disse ela se levantando. — Quantos anos você tem mesmo?
— Dezessete. – Ela respondeu enquanto Sakura se colocava ao seu lado agachada — É um bom livro? – Emendou sem querer dar brecha para um silêncio esquisito.
Sakura considerou a questão.
— Digamos que ele tem o seu apelo. – Maneou a cabeça olhando para a menina. — A história é boa, mas bem clichê. O forte do livro é... seu conteúdo extra.
...?
— C-como assim?
O sorriso veio um tanto perverso nos lábios de Haruno Sakura, que normalmente não colocaria um livro com esse tipo de conteúdo nas mãos de uma adolescente, mas que estava começando a se divertir com todo o nervosismo de Nohara Rin. Por isso, Sakura enfiou a mão na cartucheira e puxou novamente seu livro de capa vermelha, entregando-o nas mãos da menina.
Sem demora, Rin abriu numa página qualquer e leu a primeira linha. Sakura conteve uma risadinha ao ver o rosto dela ficando cada vez mais vermelho enquanto ela absorvia cada palavra. Ah, a adolescência... Sakura pensou assim que a garota fechou o livro com um barulho mínimo, olhando para ela assustada.
— Entendeu? – Sakura perguntou apenas para receber como resposta um assentir frenético. — No próximo ano, quando você fizer aniversário, eu posso te emprestar se você quiser ler.
A menina quase se engasgou e Sakura riu.
— Vou ver onde está Kakashi com a sua água. Não saia daí...
E saiu se rebolando por entre as árvores, mal se contendo com a vontade de dar uma boa gargalhada. Chegou às margens do rio sem demora, vendo um amontoado de roupa sobre uma pedra e uma cabeleira prateada surgir de dentro da água.
Quando a viu agachada na beira do rio o chamando com um aceno de mão, Kakashi corou. Teve sorte de ter entrado na água com cueca, e mais sorte de o rio ser fundo o suficiente para lhe cobrir na altura da escápula. Ele tentou disfarçar o constrangimento, seguindo para onde Sakura estava.
— O Obito tá chegando, ok? – Ela avisou como se contasse uma fofoca quando ele ficou a uma distância aceitável. — Se perguntarem por mim, eu fui pegar uns peixes lá embaixo, certo?
— C-certo.
Ela se levantou com uma risadinha, se divertindo com a previsão do que aconteceria, mas logo se pegou encarando Kakashi por um momento. O rapaz sem máscara a encarou de volta, o cabelo molhado, o rosto vermelho... Daquele jeito ali, Sakura acabou se perguntando se ele era popular com as meninas da idade dele, porque ele era bem... bonito.
— Olha só... – Ela colocou uma mão na cintura — Você tem ombros largos.
E então piscou para ele antes de saltar para longe, e ele não entendeu nada. Absolutamente nada. Kakashi apenas se sentiu tão urgente em afundar seu rosto na água se xingar a si mesmo de idiota, porque... ó, céus... ó, céus...
Ombros largos? O que isso significava? Isso era bom? E aquela piscadinha? Ó, céus... Ele não sabia mais como agir ou o que fazer. Afundou na água fria sem saber o porquê de estar tão inquieto e, quando emergiu novamente, ouviu o grito de Óbito se projetando nada discreto.
Começou.
Kakashi pensou se distraindo um pouco de Sakura e seus comentários enigmáticos. Acabou saindo da água rapidamente, deu uns pulos para se livrar do excesso antes de se enfiar nas calças e naquela segunda pele acoplada à máscara para, finalmente, se lançar até o acampamento e encontrar Obito desesperado.
— EU VOU MORRER! – Ele gritou assim que viu o amigo chegar em seu cabelo molhado e braços expostos.
— O que tá acontecendo? – Kakashi perguntou, apesar de já ter uma ideia do plano sacana de Sakura.
— Kakashi, o Obito mastigou isso aqui, ó. – Ela mostrou uma planta bem esquisita, num tom de verde claro, com uma textura aveludada e pequeninas flores aqui e ali. O Hatake espremeu os olhos e cheirou por cima da máscara e olhou preocupado para Rin.
— EU VOU MORRER! – Obito gritou novamente quando viu a expressão do amigo.
— Isso é o que dá não prestar atenção na aula de botânica.
— VAI TOMAR NO TEU CU! EU TO MORRENDO! NÃO ME VEM COM LIÇÃO DE MORAL NA HORA DA MINHA MORTE!
Nessa hora, a saliva de Obito escapou da boca. Kakashi e Rin se entreolharam novamente sabendo que esse era um dos primeiros sintomas. O garoto Uchiha se agitou.
— Cadê a taichō? – Perguntou nervoso — Ela é uma ninja médica! Ela pode me salvar!
— Ela desceu o rio – Kakashi informou sabendo que ela deveria estar mais perto do que eles imaginavam. — Foi pegar uns peixes. Não acho que vai dar tempo de encontrar ela antes que você...
— Eu vou morrer... — O outro choramingou com a saliva escapando de sua boca por conta da dificuldade em engolir. — Diga a minha vó, Kakashi, que eu a amo, e se livra de uma caixa que tem embaixo do meu armário...
...
— Obito, relaxa. A Rin é ninja médica. Ela pode te salvar.
Ambos se viraram para Rin que parecia nervosa. Ela sabia que esse momento chegaria, ainda que tivesse se sentindo um pouco ofendida por Obito simplesmente esquecer que ela era uma médica, mas pudera... Ela nem sabia por onde começar. Apesar de saber como fazer o antidoto, ela nunca tinha realmente feito, e se sentiria muito mais segura se Sakura estivesse por ali para garantir que ela não estava errando em nenhum procedimento.
Mas ali estavam Kakashi e Obito na expectativa que ela salvasse o dia.
Ela não podia decepcioná-los.
— Ok, eu vi uma raiz ali por trás que é a base pro remédio. Kakashi, esquenta água pra mim? Vou lá...
— Vai.
Não demorou muito para que ela voltasse trazendo um monte de outras coisas. Kakashi a viu cutucando a raiz com uma kunai para extrair uma fibra mais grossa de dentro. Enquanto isso, Obito começava a ganhar um tom amarelado, juntamente a náuseas e uma moleza excessiva. Quando ele vomitou a primeira vez, Rin pareceu aflita e Kakashi olhou ao redor em busca de Sakura, porque o garoto não estava nada bem àquele ponto. Foi quando Rin finalmente terminou com o remédio, indo na direção do amigo que estava delirando.
— Um anjo...
Obito disse fazendo uma careta surgir na face do amigo. Brega... Kakashi pensou quando Rin o fez calar a boca ao derramar o remédio e fazê-lo engolir. Eles esperaram por um tempo e Rin começou a se sentir nervosa porque Obito ainda parecia perto da morte, mas então ele abriu os olhos e viu Rin. Só Rin. E ela era linda.
— Você me salvou.
Ele disse com um sussurro em sua voz mais grossa. Desde quando Obito tinha uma voz tão encorpada? Rin não sabia dizer, mas aquilo a fez corar.
— Como você se sente?
— Melhor. – Ele disse ainda com aquele timbre baixo e estranho, e talvez se não estivesse com a cabeça no colo de Kakashi ou todo babado, a cena ficasse mais interessante, mas aquele rubor no rosto de Rin... Era inédito para ele, principalmente porque seus olhares se ataram como nunca antes aconteceu.
E Kakashi acabou se perguntando por que diabos aquilo tinha que acontecer justamente com ele ali no meio.
Foi quando Sakura surgiu em meio as árvores com cinco peixes e um sorriso sacana na direção do Hatake, que se viu olhar para ela meio abobalhado também antes que a gritaria começasse.
Onde você estava? Eu quase morri! Dizia Obito com uma energia incomum a uma pessoa que esteve perto da morte, mas Sakura apenas deu de ombros dizendo que havia outro ninja médico na equipe, como ele bem presenciou.
Dessa vez, Kakashi desconfiou que o rubor de Rin foi pelo reconhecimento que Sakura demonstrou com a função dela no grupo, mas não cabia a ele determinar isso.
Depois da algazarra, eles conseguiram assar os peixes que Sakura tinha trazido. Trutas gostosas, temperadas com um mix de ervas que Obito trouxe – as não venenosas. Comeram rapidamente, tendo tempo para se refrescarem às margens do rio, e finalmente seguiram viagem subido por um pequeno aclive na direção do planalto que iniciava um descampado extenso.
Eles continuaram pela relva e se prolongaram um pouco mais pela noite intensa até encontrarem vegetação mais densa, onde Sakura os levou para uma caverna discreta, ideal para um acampamento.
Foi Kakashi quem pegou a lenha dessa vez, Obito ficando para descansar um pouco mais devido a toda emoção do dia. Rin voltou com ovos e um pássaro gordo já despenado. Sakura, como na noite anterior, não comeu, optando por umas frutas que tinha coletado no caminho.
Já era hora de todos dormirem, e novamente ela pegou o primeiro turno, se posicionando no alto de um cedro com as pernas esticadas na companhia daquela mesma capa de antes. Kakashi não teve uma boa visão dela naquela noite, mas na hora do seu turno, eles se esbarraram novamente no tronco de uma árvore, mas dessa vez o luar conseguia penetrar bem entre a folhagem, colorindo a pele dela com aquele tom brevemente lilás, brevemente azul.
Ele corou quando os olhos dela o encontraram naquele cintilar verde de seus olhos, e ele imaginou se ela conseguia ver a vermelhidão por baixo da máscara, mas sabia que não. Estava muito escuro apesar de tudo. Ele desviou o olhar por um momento, afastando aquele sorriso sacana que ela o tinha oferecido depois da pegadinha com o Obito, e também afastou aquele morder de lábios, e a piscadinha.
Kakashi se sentia inquieto naquele silêncio noturno ao lado da mulher mais aleatória que ele já havia conhecido, que agora andava por aí com suas cores, seus símbolos, juntamente ao cor-de-rosa de seus cabelos.
— Só pra você saber – Ela disse num sussurro moderado, fazendo Kakashi girar sua cabeça na direção dela. — O Obito não ia morrer. A erva era venenosa, sim, mas a quantidade que ele comeu só iria causar delírios por umas três horas. – Ela deu uma risadinha.
— Ele vomitou umas três vezes... – Kakashi respondeu olhando para ela como se perguntasse se tinha valido a pena.
— Não estou vendo ele reclamar – Ela retrucou com aquele ar sabichão e o outro apenas balançou a cabeça negativamente — Além disso, ele deveria saber que aquela planta é venenosa. Ele é um ninja afinal.
Disso Kakashi não podia discordar.
— De toda forma, parece que seu plano funcionou. Eu nunca tinha visto a Rin olhar daquele jeito pra ele.
Sakura riu.
— Eu só saí da floresta porque fiquei com pena de você no meio de todo aquele climão. Já estive no seu lugar com meus companheiros de time trocando olhares... – Ela suspirou — É um inferno.
— Tá falando do Naruto-sensei e do...?
— ... Sim...
— Oh.
Ela deu uma risadinha daquela reação, porque ele não parecia estar surpreso de verdade, e então desviou o olhar para o céu entre as folhas verdosas do cedro em que estava. Kakashi sabia quem Sasuke era, não é? Sabia o que ele tinha feito também? Ela o olhou discretamente para tentar enxergar alguma outra reação, algo escondido que ele não quisesse demonstrar, mas Kakashi parecia só... normal.
Os lábios dela se abriram em algum momento e depois de fecharam novamente. Sakura quis perguntar. Quis saber o que ele achava do terceiro membro do seu time, do garoto que havia participado ativamente do golpe e assassinado Sakumo a sangue frio, mas ela teve medo.
Deveria ter perguntado a Naruto se eles conversavam sobre isso, porque ela não saberia o que dizer se ele perguntasse alguma coisa a ela. Talvez ele até odiasse o Sasuke, mas ela poderia culpá-lo? E se quisesse vingança, como ele reagiria ao saber que ela estava lutando para trazê-lo de volta? Será que ele rejeitaria aquele relacionamento que eles finalmente construíram? Será que ele a julgaria por estar usando aquela tantō e aquela blusa enquanto tenta salvar o homem que matou seu mestre?
...
— Acho que vai ser uma merda se a Rin e o Obito começarem a namorar. – Kakashi suspirou — Ele vai ficar mais lesado do que já é nas missões.
Sakura o olhou precisando de um segundo para se situar na conversa, e então deixou todas aquelas questões para trás naquele momento. Ela não queria saber. Não ali, não naquela noite.
— Azar o seu e de Naruto. Eu só sou a substituta aqui.
Ele revirou os olhos para ela querendo dizer que ainda teriam muito tempo juntos, mas ele não sabia de fato. Talvez Naruto aparecesse ao final daquela missão e tudo voltasse a ser como antes, mas ele torcia para que isso demorasse um pouco mais, ou para que Sakura pudesse continuar na vila mesmo sem a obrigatoriedade de um time fixo. Ela era uma médica, não é? Poderia ficar no hospital também...
Ou talvez ele pudesse virar jounin e aí teriam missões juntos eventualmente.
...
Estava prestes a dizer qualquer coisa quando Sakura levantou um dedo para que ele fizesse silêncio. Ele também percebeu o ruído mínimo e abaixou a máscara para procurar pelo cheiro. Tinha alguém nos arredores. Alguém a espreita, ele soube. Indicou para ela, com um movimento de cabeça, a direção possível do intruso, coincidindo exatamente com a identificação dela.
Ela o olhou de maneira significativa e então bocejou alto, declarando que iria dormir um pouco. Kakashi assentiu, esperando pelo comando dela enquanto ela descia da árvore a passos tranquilos. Quando estava perto da caverna, Sakura lançou cinco shurikens e Kakashi saltou para a posição traseira, lançando mais oito para entre os arbustos.
Um vulto saiu de dentro dali, mas Sakura se jogou na direção dele. Os outros dois despertaram em sua agitação, mas só Kakashi e Sakura eram suficientes para lidar com um só intruso, que ficou parado contra uma árvore com as mãos erguidas como se dissesse querer paz, mas já era tarde demais. A única coisa que Sakura pôde fazer foi esvair o chakra de seus punhos antes de acertá-lo.
O homem caiu no chão pelo impacto do punho dela, e Sakura se apressou em imobilizá-lo de uma maneira parecia com o que tinha feito com Kakashi, segurando os braços dele com as pernas e apontando um punho para o pescoço dele.
Kakashi já estava ao lado dela, assim como os outros dois mais atrás chegaram a tempo de ouvir.
— Ei, Sakura, calma ai!
Ela franziu o cenho, finalmente vendo o que tinha dentro daquele capuz preto: uma máscara da ANBU. Os ombros dela caíram e ela revirou os olhos antes de levar sua mão a base do material rígido em forma de pássaro para revelar o rosto do invasor.
A voz era a mesma, assim como o cabelo e os olhos. Aquele sorriso ridículo que ele tinha nos lábios também era o mesmo, mas Sakura se controlou. Não que ela quisesse sorrir de volta, mas algo nela tendeu a estar grata por ele estar vivo. Vivo e aparentemente bem.
Mesmo assim, ele estava ali todo sorrisos e ela não sabia muito bem como queria reagir, por isso optou pelo clássico...
— O que você tá fazendo aqui, Shisui?
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E AI MEUS AMORES? ÚLTIMO CAPÍTULO DO ANO SAIU, E ESPERO QUE TENHAM GOSTADO! Nos vemos no próximo ano com muito mais nindo, e quem sabe, outra história quentíssima para vocês! Obrigada por estarem comigo nesse 2021 e espero ver todos vocês em 2022! Continuem comigo!
