Vinte e Cinco
Quando abri meus olhos eu me sentia de alguma forma diferente... quer dizer, eu estava diferente, pois agora tinha minhas memórias para ser acessível na hora quando eu quiser. Ainda me sentia pouco confusa, muitas coisas ainda estavam embaralhadas, mas aos poucos tudo estava se encaixando.
Levantei-me daquela cama, sentindo minhas costas doerem pelo tempo que fiquei deitada, tentei colocar meus pensamentos em ordem quando abria a porta do quarto, tentando imaginar por quanto tempo eu passei apagada. Pelas pequenas frestas de luz que vinha do lado de fora, sabia que não havia anoitecido. Meu interior estava ansioso, minhas mãos tremiam um pouco e estavam geladas. Eu queria ver Sarada, tocar nela, sentir seu cheirinho de morango e creme e abraçá-la, por que ela era minha menina.
Minha filha.
E eu não havia percebido o quanto eu estava nervosa quando vi que minha mão direita que estava segurando a maçaneta dourada e redonda tremer quando girava e abria a porta do quarto. Meu coração batia forte quando eu a vi sentada em sua cama, observava a correntinha prateada que era minha. Seus olhos me enxergaram e me segurei para não correr e embala-la em meus braços.
- Babá – sua voz era baixa.
Meus olhos ficaram marejados.
- Oi – e sorri, sentindo meus lábios tremerem.
Sarada desviou seus olhos para a correntinha aberta em suas mãos, parecia me esperar. Eu caminhei com passos um depois do outro até chegar para perto e sentei-me na cama ao seu lado e olhei com mais atenção as duas fotos que haviam ali, a minha e a de Sasuke. Ele queria que não dissesse nada para a menina, mas a verdade estava estampada naquele pingente que ele mesmo a presenteou sendo uma joia de sua mãe.
A minha joia.
- Eu só queria saber o que a sua foto está fazendo aqui, ao lado da do meu pai.
Umedeci meus lábios e os mordi, tentando segurar ao máximo que minhas lágrimas rolassem, a verdade entalada em minha garganta, esperando a hora para ser cuspida.
- Por que essa correntinha é minha.
Os olhos negros de Sarada ergueram-se para me fitar, suas bochechas estavam coradas, contrastando com sua pele pálida.
- E por que o papai me deu a sua correntinha então? – Sua pergunta saía de um modo lento, cauteloso.
Eu percebia que Sarada estava esperando uma resposta, aquela que podia acabar com a solidão em que ela se sentia, acabar com a ausência de uma pessoa em especial que a trouxe ao mundo.
E olhando no fundo de seus olhos negros com uma noite escura, eu contei a verdade:
- Por que eu sou a sua mãe.
E o choro veio em seguida, inundando e molhando todo o seu rosto, o deixando ainda mais vermelho. A correntinha que estava em suas mãos foi ao chão para que assim as suas mãos vazias tampassem os seus olhos.
Agi por impulso e a abracei, deixando minhas lágrimas rolarem também, agora com minha filha em meus braços.
Minha filha.
- Eu sinto muito, meu amor – minha voz saiu chorosa com ela ainda em meus braços que ainda mantinha as mãos no rosto. – Sinto muito por não está aqui por você. Mas o destino traçou a nossa separação, mas agora eu estou aqui, ele me trouxe até você.
- Como você... como você pode ser minha mãe e não lembrar de mim? – Sua voz soava desesperada e soluçando, havia tirado as mãos dos olhos que estavam vermelhos pelas lágrimas.
- Sua mãe não tinha condições de estar com você – a voz de Sasuke soou, trazendo nossas atenções para seu perfil parado no portal nos olhando com aquela expressão séria.
- Sasuke – murmurei.
Ele se aproximou com seus passos mediúnicos.
- Por que você disse que a minha mãe morreu? – A fúria de Sarada estava sobre ele agora, suas sobrancelhas franzidas, agora se pondo de pé. – Por que mentiu para mim, papai?!
- Por que eu morri.
Minha declaração trouxe sua atenção para mim, assustada.
- Morreu? – Ela parecia confusa. – Mas você está aqui!
- É um assunto complicado, Sarada – disse Sasuke.
Levantei-me da cama e me ajoelhei a sua frente, agarrei suas duas mãos que diferente das de Sasuke eram quentinhas. Funguei a coriza em meu nariz e observei seu rostinho que tomava o formato mais parecido com o meu formato, ela estava crescendo, parecia uma criança de quase nove anos agora.
- O meu parto foi de alto risco, e não resisti quando você veio ao mundo.
- Mas você está aqui.
- Eu sei, e é graças a uma amiga minha e a uma pessoa especial que deu sua via para me trazer de volta.
Sarada piscou algumas vezes.
- Então você voltou a viver de novo?
Assenti com a cabeça e sorri, soltando uma mão que segurava a sua e sequei as lágrimas que caíam em seu rosto.
- Mas quando voltei a vida, fiquei meses em coma e quando acordei não tinha mais minhas memórias. Era por isso que eu não lembrava de você. Mas aqui dentro – e peguei sua mão e levei ao meu peito – eu sempre soube que você era minha menininha.
- Seu coração está batendo muito forte.
Eu sorri mais, as lágrimas escapando de mim mais uma vez.
- É porque eu estou muito feliz por estar aqui com você, meu amor.
E uma lágrima rolou por seu rosto antes de ceder e me abraçar forte. Naquela hora eu podia sentir todo o meu interior transbordar de amor e aquecer o meu coração. Não existia mais nada nesse mundo que se comparava a alegria de poder abraçar a minha filhinha, aquela pessoinha que havia saído de mim, fruto do meu amor com a pessoa que eu amo.
- M-ma-Mamãe.
Eu não consegui mais aguentar e chorei mais, não conseguia explicar a emoção que eu sentia por ouvir aquela palavra sair da boca de Sarada. Eu me sentia completa, era como se tudo o que eu procurasse estivesse ali, em minha menina.
- Minha filha – e apertei com mais força contra mim, apertando meus olhos, sentindo seu cheirinho de morango com creme, aspirei mais o cheirinho de minha menininha.
Afastei um pouco para poder ver o seu rosto e sorri chorosa, observando cada detalhe de seu rostinho vermelho. Sequei as suas lágrimas novamente para beijar cada lado de seu rosto, sua testa, seu nariz e suas bochechas novamente e arrancando pequenas risadinhas dela.
- Eu juro que nunca mais me separarei de você.
- Você promete?
- Prometo
Ela levou para cima suas mãos e começou a secar meus olhos. Não contive e sorri com sua atitude gentil e apenas deixei ser tocada por minha filha, sentindo-me a pessoa mais sortuda do mundo. E foi nesse momento que desviei meus olhos para o lado podendo ver Sasuke ainda parado observando toda a cena e um pequeno sorriso era perceptível no canto esquerdo de sua boca.
Mordi o lábio, sabendo que ele não era só o meu patrão e sim o pai da minha filha, o homem para quem me entreguei por completo e que ainda era o dono do meu coração.
- Não quer se juntar a gente? – Perguntei, tentando quebrar o pequeno gelo que havia entre nós, a distância havia proporcionado aquela façanha.
E quando pensei que ele poderia ignorar aquele pedido, ele havia se ajoelhado ao nosso lado e agarrado nós duas, uma de cada lado de seu braço. E aquele contato com sua pele fria havia trazido à tona aquele friozinho gostoso circular meu estômago e aquele tremor em minhas pernas, consequência de nossa química e o quanto meu corpo reagia ao seu. E eu soube que por mais que eu ficasse longe daquele homem e o tempo passasse, no final era ele que meus pensamentos vagavam e meu corpo chamava. Por que depois de tudo que aconteceu em nossas vidas, eu ainda era loucamente apaixonada por ele. E não importava o que ele é ou deixa de ser, isso não mudava em nada meus sentimentos que eu tinha por ele.
- Vocês duas são as coisas mais importante da minha vida – ele disse, nos apertando mais contra seu copo, beijando o topo da cabeça de Sarada para depois beijar minha testa. Seus lábios gelados contra minha pele fizeram meu coração acelerar mais ainda. – Eu dou minha vida por vocês.
Apenas fechei meus olhos e me aconcheguei mais em seus braços por um momento, reconhecendo seu cheiro único que me deixava em paz.
- Também daria minha vida por vocês – e abri meus olhos, erguendo para Sasuke que nos olhava daquele jeito que eu via em minhas lembranças, depois olhei Sarada que me olhava. Levei minha mão ao seu rosto e o afaguei, fazendo-a fechar os olhos automaticamente. – Minha filha.
E nos separamos daquele abraço e tombei para trás, me sentando no chão, observando Sasuke fazer o mesmo e Sarada agora se agachar, observando nós dois.
- Hoje é o dia mais feliz da minha vida, por que estou com o meu papai e a minha mamãe.
- E pode crer que a partir de hoje estaremos sempre perto de você.
Senti a mão de Sasuke segurar a minha para em seguida levar até seus lábios e depositar um beijo cálido nas costas dela.
- Hoje também é um dia importante para mim, por que consegui reunir a minha verdadeira família.
Eu apenas sorri, sentindo uma lágrima solitária escapar de meus olhos. E eu concordava, depois de tudo que Sasuke passou em sua vida e seus relatos de uma eternidade que ele nunca quis, ele tinha o direito de ser um pouco feliz, e eu também estava feliz ao lado do homem que eu amo e do fruto de nosso amor.
. . .
Ino entrou no apartamento pouco depois de Sasuke ter ido embora. Para falar a verdade ele havia sentido a sua presença a alguns metros e foi embora para não dar de cara com ela, por que apesar de tudo, ele não era burro por não ter percebido que Ino não ia muito com a cara dele.
Eu ainda estava na sala sofrendo os efeitos que Sasuke causava em mim e de toda a situação estressante que passei a algumas horas atrás quando Ino paralisou quando me viu. A sua expressão ruim e o rosto vermelho, contrastando com as manchas pretas do rímel em volta de seus olhos indicava que algo havia acontecido.
- Sakura...
- Ino – a interrompi, aproximando mais dela. – O que aconteceu?
Ela fechou a porta atrás de si e me abraçou em seguida, chorando em meu ombro. Apenas abracei de volta preocupada com o que havia acontecido com ela.
- Terminei com Gaara.
- Quê? – Meus olhos arregalaram um pouco. – Como assim vocês terminaram?
Me afastei dela para poder enxergar seu rosto e ela estava péssima. Peguei a sua mão e puxei para o sofá e sentamos no de três lugares, ficando de frente para ela e esperando-a se acalmar para contar o que havia acontecido.
- Ah Sakura, eu sou uma idiota – ela fungou, limpando os olhos com as costas das mãos. – A Temari, aquela vaca, consegui. Ela conseguiu o que queria.
- O Gaara terminou com você?
- Não. Eu que terminei com ele. – E passou a mão no nariz, agora franzindo as sobrancelhas, parecia com raiva agora. – Eu peguei ele beijando a sonsa da Matsuri.
- Não posso acreditar que ele te traiu.
- O pior era que vi a Temari saindo do elevador antes de entrar nele, e o sorriso que ela tinha não me agradou em nada.
- Eu sinto muito, Ino.
Ela desviou os olhos, olhando um ponto acima de mim, talvez estivesse tentando prender as novas lágrimas.
- Eu briguei muito, disse um monte de coisas e acabei com tudo de uma vez. Ele tentou se explicar, mas não quis saber de explicações. Apenas joguei a cópia da chave na cara dele e fui embora. – E me fitou. - Eu te liguei várias e várias vezes, mas você não atendeu. Fiquei vagando por aí até vir para casa.
A abracei e ela retribuiu com suas mãos espalmadas atrás de minhas costas, mas logo me afastei com a posição desconfortável que causou pontadas no meu quadril. E Ino percebeu, assim como os machucados em minhas mãos e cotovelos.
Ela secou novamente seus olhos e me fitou com o cenho franzido.
- O que foi isso que aconteceu com você? Espera... – e balançou a cabeça para os lados. – Com meus problemas acabei esquecendo o seu encontro o outro... e esses machucados... – e seus olhos arregalaram. – Não me diga que foi ele que fez isso com você?
- Claro que não, Ino, por Deus.
E ela suspirou aliviada, mas ainda me fitava daquele jeito curiosa.
- E esses machucados?
Virei minhas mãos, observando os arranhões vermelhos por toda a minha mão. Contei toda a verdade, desde a hora que nos separamos até o momento que a vampira me atacou e que milagrosamente Naruto surgiu e me salvou.
- Ah meu Deus – e ela levou as mãos na boca. – E você, está tudo bem?
- Eu estou bem, graças ao Naruto. Eu perdi o celular na hora do ataque, por isso não atendi as suas ligações.
- Sakura, isso é quase inacreditável! – Seu rosto era incrédulo. – Vampiros existem.
- E são vários, pelo que o Naruto me disse.
Ela franziu as sobrancelhas.
- E que o Naruto fazia naquele lugar? Como ele te encontrou?
- Ele é um caçador de vampiros, ele mesmo me disse. Estava na cola da vampira que me atacou tinha um tempo, só esperou uma oportunidade.
- Acho que dá um pouco mais de alívio em pensar que tem um caçador que captura esses monstros.
Apenas desviei meus olhos e fitei as minhas mãos em meu colo, sentido uma angustia por saber que minha próxima notícia não iria deixá-la nada feliz.
- O Sasuke também é um.
- Sério?
Assenti com a cabeça e ergui meus olhos para ela.
- Ele me contou.
- Ele fez alguma coisa com você? – Ela quis saber, estava preocupada.
- Não – balancei minha cabeça para os lados. – Ele não fez nada.
- Espera..., mas você disse que não chegou a ir no apartamento dele.
- Ele veio aqui?
Seus olhos arregalaram e parecia pouco zangada.
- Não acredito!
- Calma, Ino, o Sasuke é diferente.
- Ah, pelo amor, né Sakura – e la estava irritada agora. - Não inventa de achar que vampiros apaixonados são bonzinhos que nem os filmes que a gente vê. – Ela segurou meus dois ombros. – Amiga, aquele cara é um monstro, um morto vivo que anda pela escuridão e se alimenta de sangue humano.
- Ele disse que me ama.
- Ah meu Deus, a coisa é muito séria – disse levando as mãos à cabeça agora, tombando o copo um pouco par trás.
- Eu senti que ele estava sendo verdadeiro.
- Qual a parte do V.A.M.P.I.R.O você não entendeu?
- Eu amo ele.
Ela balançou a cabeça para os lados, incrédula.
- Você perdeu o juízo.
- Ele me ama, Ino.
- Até ele enfiar as prezas no seu pescoço.
- Ele não vai fazer isso – e mordi o lábio. – E só para você ficar sabendo, se ele quisesse enfiar as presas no meu pescoço, ele já teria feito a muito tempo.
- Ele é um predador, Sakura. – Ino tentava de todas as formas mostrar o quanto Sasuke não era bom para mim. - E se caso você estiver... sei lá, apetitosa?
Eu sorri com a forma engraçada que ela havia dito, as sobrancelhas arqueadas.
- Eu confio nele.
Ela apenas suspirou cansada, se dando por vencida.
- Eu entendo sua preocupação comigo, mas não vou suportar ficar longe de Sasuke, não vou deixá-lo.
- Sakura, é um caminho sem volta... – ela se interrompeu. - Espera, está pensando em se transformar em um deles?
- Não... claro que não.
- Então como vai ficar isso aí? Por que amiga, o cara é imortal e você vai envelhecer um dia.
- Vamos viver um dia de cada vez como se fosse o último.
- Sakura – e sorriu incrédula –, você está louca.
- Talvez – e sorri mais, mordendo meus lábios. - Mas louca de amor.
E acabei gargalhando com sua expressão chocada pela forma que eu estava agindo, mais tranquila do que estava antes. Sasuke havia me tranquilizado quando se abriu para mim, eu podia sentir em meu coração que batia forte a cada palavra que ele dizia, a verdade esculpida em cada letra. Ele estava sendo sincero, verdadeiro, e eu acreditava nele, acreditava tanto que resolvi dar uma chance ao que estava rolando entre nós.
Eu o amava.
- Olha, não vou te julgar agora por que eu estou naquela fase de odiar os homens. – Começou Ino. - Preciso uns dias para colocar minha cabeça no lugar para depois dar um conselho certo a você.
- O Gaara foi um idiota por ter feito isso com você.
- Eu sei que foi. – Ela concordou. - E eu não vou ficar sofrendo por ele e me entupindo de sorvete dentro do meu pijama de coelho, jogada no sofá assistindo Diários de Uma Paixão ou Um Amor Para Recordar. Talvez eu chore só um pouco na minha cama, vou chorar por eu ter sido burra, e amanhã vou acordar renovada, linda, bela e solteira novamente.
Sorri, com o jeito diferente que Ino tinha para encarar seus problemas e não agir como eu fiz no término de meu namoro.
- Você é a fonte de inspiração para qualquer pessoa, Ino.
- Eu preciso me equilibrar para ter forças e impedir de você fazer uma burrada com sua a vida.
- Você fala como se eu fosse virar uma vampira a qualquer momento.
- Tudo é possível, baby. Principalmente você com essa expressão apaixonada e ignorando o fato de seu namorado ser um quase um conde drácula.
- O Sasuke não vai fazer nada comigo, e eu confio nele.
- Você tem certeza disso?
- Nunca estive tão certa em toda minha vida.
