Trinta
Era impossível relaxar, estava muito tensa, só havia ficado cara a cara com Itachi apenas uma vez, e aquele encontro não havia sido nenhum pouco saudável. E por mais que eu soubesse um pouco de sua história, e o fato de ele também ser uma vítima de seu próprio pai, eu não conseguia sentir nenhum pouco de confiança nele. Eu tinha medo do que Itachi pudesse fazer ou tentar prejudicar um possível plano que Sasuke começava a trabalhar contra seu pai para finalmente podermos vivermos em paz.
- E, aí? Não vai me contar qual vai ser o plano? Sei que você tem um. – Itachi me olhou novamente, e achei melhor permanecer calada, não sabia qual seria o próximo passo de Sasuke. – Isso é inacreditável, você está mesmo viva, e pelo cheiro ainda continua humana.
- O que exatamente você faz aqui, Itachi? – Sasuke o respondeu com outra pergunta, atraindo a atenção do irmão novamente para si.
Itachi descruzou os braços e começou a se movimentar pelo salão, despreocupadamente.
- Eu falei, vim fazer uma visitinha, já que anda bem quieto aprontando. – Ele pegou um objeto de enfeite em cima de uma mesinha e o colocou no lugar novamente. – A sua cria está enorme desde a última vez que a vi, e bonita também.
- Vamos conversar em meu escritório. – Sasuke se aproximou do irmão em passos grandes, me deixando para trás.
Itachi se virou ao mesmo tempo que eu tomava impulso para ir atrás deles, mas meus pés se retesaram no chão com a voz de Sarada:
- Papai.
Virei meu corpo para o lado, vendo a minha filha vindo diretamente do corredor que dava para a cozinha.
- Sarada – murmurei, sentindo os batimentos do meu peito acelerarem, meus pés agiram por impulso e caminhei em direção dela.
Os olhos negros de Sarada logo me enxergaram e um pequeno sorriso se formava em seu rosto.
- Ma... babá, você voltou – ela havia se interrompido naquela gafe, mas não podia culpá-la por esquecer que o fato de eu ser a sua mãe deveria se manter em segredo, principalmente agora que estávamos na frente dos olhos capitalizadores de Itachi.
- Claro, meu amor. – Sorri colocando minha mão em seu ombro, suprimindo a tensão que sentia, olhando no fundo dos olhos de Sarada, mandando uma mensagem para que ela não fizesse nada ou dissesse nada que pudesse confirmar as suspeitas de Itachi, por mais que não houvesse mais nada do que esconder já que ele havia decodificado tudo.
O nosso segredo havia sido desvendado.
Itachi soltou uma gargalhada que ecoou por todo o salão, trazendo nossas atenções para si mais uma vez.
- Não tem nem como negar, irmãozinho, a semelhança das duas é impressionante.
Sasuke me fitou com a expressão séria.
- Leve a Sarada para o quarto, já está tarde para ela está acordada.
Apenas assenti com a cabeça concordando e guiei Sarada com a minha mão em suas costas para as escadas, me esforçando para que minhas ações soassem o mais natural possível.
- Tenha bons sonhos, minha pequena sobrinha – disse Itachi quando começamos a subir as escadas.
- Vamos logo para o meu escritório.
Eu virei meu rosto a tempo de ver Sasuke andando a frente em direção a seu escritório e Itachi o seguindo logo atrás.
Quando entramos em seu quarto, tratei de fechar a porta e indo procurar em seu guarda-roupas suas vestimentas de dormir. Sarada já estava desabotoando o vestido e logo ele já estava no chão. Ajudei-a colocar a camisola lilás de algodão que batia até seus tornozelos e penteei seus cabelos antes de ela ir para a sua cama.
- Você comeu toda a comida do jantar? – Perguntei, cobrindo todo o seu corpo com o cobertor.
- Comi tudinho, pergunte para a Karin.
Sorri, sentando-me na borda da cama e passando a mão em seus cabelos lisos e macios.
- Confio em você para saber que comeu tudo.
- Mamãe.
- Hm. – Tirei minhas mãos de seus cabelos e os pousei em meu colo.
- Acho que o tio Itachi sabe que você é minha mamãe.
Suspirei, sentindo de repente um pequeno aperto no peito, uma sensação incômoda tomou conta de mim naquele momento. Eu sentia no fundo do meu coração que algo estava para acontecer e que aquele momento que estava com Sarada era precioso o suficiente para me deixar com medo.
Engoli a seco, tentando ignorar aquele sentimento ruim, não queria deixar minha filha preocupada. Apesar de não confiar em Itachi, eu não acreditava que ele pudesse fazer algo ali naquele momento.
- Ele disse alguma coisa para você? – Perguntei, segurando sua mãozinha quentinha num gesto de apaziguar aquele sentimento ruim.
- Ele disse que veio visitar o papai e eu.
- Ele vem sempre visitar vocês?
- Às vezes. Ele me trouxe uma boneca.
Ergui minhas sobrancelhas para cima.
- É mesmo?
E ela assentiu com a cabeça positivamente e apontou para sua mesa de brinquedos.
- Ela está ali na mesa com o senhor Popis.
Virei minha cabeça e fitei a boneca inteiramente de pano, com um vestido cor-de-rosa com estampas de florzinha e os cabelos amarelos de fios de lã amarrados em duas maria-chiquinha.
- Ela é linda – e sorri, voltando a fitá-la, percebendo que apesar de tudo, Itachi havia tido a delicadeza de trazer um agrado para minha filha. E agora vendo os olhos brilhantes de Sarada com o possível presente do tio, havia me confortado por alguns segundos de que ela não era exatamente odiada pela raça vampírica.
Por que era impossível não amar aquela criança amorosa que havia saído de mim.
- Amanhã nós vamos tomar chazinho e apresentá-la a Margareth e ao senhor Popis.
- E farei biscoitos de baunilha com gotas de chocolate para comermos enquanto celebramos o novo membro do chazinho.
Sarada sorriu, mostrando todos os dentes, animada com a nossa agenda de amanhã.
- Então vou querer um chocolate quente também.
Acabei soltando uma risada com a euforia que ela havia ficado, me fazendo aproximar e beijar o topo de sua cabeça.
- Ok, farei um chocolate quente também – e apertei seu nariz, fazendo-a fechar os olhos automaticamente. – Mas agora a senhorita terá que dormir, por que já está tarde.
- Me conta uma história?
- Claro – e ela se remexeu na cama, ficando de lado e puxando mais o cobertor até o pescoço e ficando encolhidinha. – Irei contar a da Tartaruga e a Lebre.
Sarada bocejou e seus olhos piscavam lentamente, sinal de que estava começando a ficar sonolenta.
- Eu queria uma de princesa, a Branca de Neve.
- Mas essa é bem legal também, você vai gostar – e tirei uma mexa de seu cabelo que estava caída em seus olhos.
Sarada não contestou mais e comecei a contar a história da Tartaruga e a Lebre. No começo ela ficou atenta a minha narrativa, mas conforme os minutos passavam seus olhos pesavam mais até não aguentarem ficarem mais abertos. E antes de finalizar aquela história Sarada já estava dormindo.
Permiti ficar algum tempo velando o sono de minha linda menina, observando atentamente cada detalhe de seu rosto infantil, o formato dos olhos e a boca, o nariz arrebitado e as bochechas coradas. Podia sentir meus olhos lacrimejarem e algumas lágrimas escaparem, descendo por meu rosto, e o aperto no peito se fez presente mais uma vez, me deixando mais assustada. Eu estava sentindo pressentimentos e não eram pressentimentos nenhum pouco bons.
Iria acontecer alguma coisa, e isso eu tinha certeza.
Levantei-me daquela cama e relutante deixei o quarto de Sarada, fechando a porta assim quando saí para o corredor. Tirei meu celular do bolso detrás do meu jeans e procurei em minha lista o número da Ino. Eu tinha consciência de que fui uma cretina e ligar para a pessoa que fui ingrata naquela hora do campeonato era uma atitude egoísta de minha parte. Mas eu sabia que só a Ino poderia me reconfortar diante daquelas sensações ruins que comecei a sentir de repente, queria saber se ela estava bem, ou a minha família.
Enquanto andava por aquele extenso corredor pouco iluminado com passos rápidos, escutava a linha chamar em seu número até cair na caixa postal. Tentei novamente e de novo, mas ela não atendia, e compreendi que deveria estar zangada comigo e eu não a culpava. Eu merecia aquele desprezo.
Tentei uma última vez e acabei por deixar uma mensagem em sua caixa postal enquanto descia as escadas agora.
- Ino... quando você ver essa mensagem me ligue, é importante... desculpe.
Eu podia ter dito mais coisas, me desculpado pelo fato de ter agido como uma vaca, mas o telefone não era a decisão mais inteligente de se desculpar. Eu preferi dizer as palavras certas quando estivesse cara a cara com ela, e juro que aceitaria seu julgamento calada, por que eu merecia.
Agora só me restava Sasuke para me queixar sobre aqueles sentimentos aterrorizantes e ele teria que me ouvir, assim como teria que me incluir em sua conversa particular com seu irmão. E por mais que eu sentisse receios de sua presença repentina, associada com meus sentimentos ruins, eu teria que encarar aquele problema de frente e ser forte o suficiente para proteger a minha família.
E assim quando meus pés deixaram os últimos degraus e se viraram na direção do escritório de Sasuke, algo totalmente fora do normal aconteceu, bateram na porta de entrada. Parei, virando meu rosto para o final daquele salão, fitando a porta de madeira fechada. Desde o primeiro dia que entrei naquela casa nunca ninguém havia batido a porta de entrada, ainda mais por que o portão de ferro era automático e controlado por Karin.
Mais três batidas.
A agindo pelo impulso meus pés me levaram em direção a porta e foi inevitável controlar as batidas desenfreada de meu coração que acelerava a cada passo que eu dava. E quando enfim cheguei, hesitei por alguns segundos com a mão na maçaneta redonda e dourada. Respirei fundo antes de gira-la e abrir a porta.
Prendi a respiração e meus olhos se abriram gradativamente, pois quem estava do outro lado da porta era a última pessoa que eu imaginava que pudesse ser.
- Ino? – Minha voz soou baixa e incrédula, observando minha melhor amiga a minha frente, aquela que eu estava ligando e que não me atendia. A mesma que imaginei estar zangada por eu ter fugido como uma covarde e que agora estava aqui, vestida inteiramente de preto e os cabelos que eram compridos agora estavam tão curtos que mostravam toda a sua nuca.
- Finalmente te encontrei.
Franzi o cenho dando um passo para trás, confusa com a sua aparição repentina. Eu havia pedido para Naruto proteger a sua segurança não havia nem duas horas e agora ela estava aqui, no olho do furacão.
- O que faz aqui, Ino? Quer dizer... como me encontrou? Eu acabei de ligar para você...
Ela me interrompeu ao mesmo tempo que agarrava o meu pulso firmemente.
- Não temos tempo, Sakura.
E todo o meu corpo ficou em alerta.
- Como assim...?
- Sakura! – A voz de Sasuke soou por todo o salão.
Com a outra mão livre Ino tocou o medalhão de Jashin que estava em seu pescoço e imediatamente um brilho cegante nos envolveu. Virei meu rosto para trás, vendo um borrão do corpo de Sasuke correndo em minha direção, a expressão apavorada, chamando por mim. Eu só tive tempo de esticar meu braço desocupado para ele antes de meu corpo ser todo sugado por um vórtice.
. . .
Quando entrei em meu pequeno apartamento aguentando metade do peso de Sasuke sobre o meu, o deixei no sofá e consequentemente meu corpo foi junto, caindo em cima do seu machucado, arrancando gemidos doloridos de sua parte.
- Desculpe – e me levantei rapidamente, ignorando o fato de meu corpo está inteiramente trêmulo e minhas mãos sujas de sangue.
Não havia sido nada fácil entrar no prédio com um homem ferido, ainda mais quando o porteiro estava de plantão e possivelmente ter visto tudo o que aconteceu. Sasuke usou seus dons de manipulação e hipnotizou aquele homem, apagado de sua memória tudo que havia presenciado. E assim descobrindo que havia chamado a polícia - um outro problema a ser tratado -, pois lá embaixo havia indícios de lutas e sangue de Sasuke pelo chão. Mas não queria pensar naquilo agora, eu tinha que cuidar dos ferimentos dele.
Corri até meu quarto e peguei minha caixinha de primeiros socorros e voltei para a sala a tempo de ver Sasuke retirando sua camisa, fazendo uma careta quando o tecido grudava na ferida. Engoli a seco com os buracos abertos por seu corpo, mas o maior era o de suas costas.
- Nenorocitule, deveria estar me seguindo – murmurou retirando toda a camisa.
Uma onda de culpa tomou conta de mim, se eu não tivesse saído com Naruto, ele não teria associado Sasuke comigo e isso não teria acontecido. Odiei-me por não ter escutado os alertas de Sasuke para me manter longe dele.
Sentei-me ao seu lado e Sasuke me deu as costas e a ferida era enorme.
- É melhor você se deitar de bruços, vai ser melhor para retirar os fragmentos da estaca – disse, abrindo a caixinha e tirando gases, álcool, pinça, bisturi e uma pequena lanterna de LED.
- Impossível – disse com a voz ofegante -, as balas de prata banhadas a água benta estão me queimando... por inteiro.
- Ok.
Com minha agilidade que havia adquirido nesses dois anos estudando medicina, higienizei com álcool os instrumentos que iria usar. Segurei com a boca a pequena lanterna com a luz LED direcionada ao ferimento para ter mais visibilidade. Limpando minhas mãos nas minhas roupas mesmo, coloquei as luvas cirúrgicas, tentando controlar o tremor de minhas mãos, mas estava difícil.
Respirei fundo algumas vezes para tomar controle de meu corpo e comecei o processo de tirar o mais delicadamente os fragmentos de madeira que estavam enfincados em sua carne. Demorei mais do que imaginei, pois tinha fragmentos enfincados próximo ao seu coração, e qualquer erro meu poderia enfincar em seu órgão, causando sua morte. Por isso eu tive todo o cuidado, ignorando aquela sensação de djavú, como se não fosse a primeira vez que houvesse tirado fragmentos de estacas dentro do corpo de um vampiro.
- Ah... – Sasuke gemeu de dor enquanto eu torci a pinça dentro de seu ferimento, sentindo a ponta de um fragmento da estaca que estava um pouco profundo.
- Desculpe – minha voz saiu estranha devido está segurando a lanterna com a boca, o suor descia por minha testa.
Com um pouco mais de jeitinho eu consegui agarrar com a pinça aquela ponta escorregadia da estaca e a puxei devagar até sair por completo, e para a minha surpresa era maior do que os outros fragmentos. Segurei a lanterninha com a mão e disse:
- Acho que esse é o último.
- É o último.
- Agora só precisa dar alguns pontos...
- Não precisa – e seu rosto virou-se para me fitar, os olhos estavam vermelhos.
Prendi a respiração por alguns segundos e desviei meus olhos para sua ferida que milagrosamente se fechava. Minha nossa... aquilo era... incrível.
- Tem razão, você não precisa de pontos – murmurei, a voz embasbacada diante daquele fenômeno sobrenatural, voltando meus olhos para os seus que continuavam vermelhos e um pequeno curvar se erguer no canto de sua boca.
- Regeneração é uma das vantagens de ser um vampiro – e virou seu corpo para mim. – Mas irei precisar de suas habilidades aqui na frente.
- Está bem... – e fitei os três buracos das balas de prata que estavam alojadas dentro dele. Ergui o bisturi para ele. – Terei que abrir um pouco a ferida para retirar a bala, e vai doer.
- Não importa, uma simples dor física não é nada comparada ao fato de algo grave pudesse ter causado em você.
E novamente a culpa me corroeu por aquela situação ter tomado aquele extremo enquanto abria a sua carne com o bisturi em seu ombro, ouvindo um arfar dolorido dele.
- Me desculpe.
- Não precisa se desculpar a cada dor que causa em meu corpo, Draga mea.
Com a pinça em meu poder eu agarrei a bala de prata e puxei de uma vez, arrancado mais gemidos dolorosos dele.
- A primeira – e deixei a bala cair em cima da mesinha de centro. – Você vai ter que se deitar para retirar a que está alojada no peito e na barriga.
E me levantei do sofá para dar espaço para ele, e assim quando ele se deitou eu sentei na ponta de espaço que me restava do sofá e comecei o mesmo processo para a retida das outras duas balas.
- Não estava pedindo desculpa por estar possivelmente lhe machucando – e enfiei a pinça dentro da abertura do bisturi. – E sim por você está assim por minha culpa – e puxei a segunda bala de seu corpo.
- Ah... – gemeu, os olhos me fitando com as sobrancelhas franzidas. – Você não tem culpa de nada, minha cara. Onde tirou esse tal absurdo?
Umedeci meus lábios evitando de olhar em seu rosto, a vergonha me consumia. E assim me concentrei em sua última ferida, as outras duas já estavam cicatrizadas, sem nenhum vestígio de marca ou cicatriz.
- Eu estava com Naruto quando você me mandou aquelas mensagens, e quando atendi a sua ligação ele havia acabado de ter me deixado na porta do prédio. – Ergui meus olhos e o fitei, minha boca tremia levemente, eu estava me segurando para não desabar. – Ele deve ter associado uma coisa a outra e acabou nos pegando juntos. Desculpe.
Ficamos nos encarando um ao outro, e o silêncio era aterrorizador, e amaldiçoei-me por agir sem pensar nas consequências. Estava me odiando naquele momento, e o silêncio de Sasuke só deixava tudo muito tenso.
- Fale alguma coisa – murmurei, pedindo desesperadamente que ele tivesse uma reação diante de minha confissão.
- Não quero mais falar no nome desse cara.
Mordi o lábio e assenti com a cabeça, me concentrando novamente na última bala alojada, e os meus olhos lacrimejando não ajudava em nada, só deixava tudo muito difícil. Eu era uma idiota. E a lágrima escapou sem querer, descendo por meu rosto e sendo amparada por um dedo de Sasuke.
- Não chore, miere. Por favor, não chore.
Funguei a coriza e sequei o resto de minhas lágrimas com meu braço.
- Estou bem – murmurei, puxando a última bala com a pinça, e observando a ferida cicatrizar como as outras. – Pronto – e deixei a bala cair ao lado das outras -, novo em folha.
Sasuke sentou-se no sofá enquanto eu arrancava as luvas e ficava de pé, não conseguia olhar para seu rosto e não sentir a culpa me corroer. Precisava ficar um pouco sozinha.
- Aonde vai?
- Lavar todo esse sangue... – e saí com passos meio que trôpegos, minha cabeça girava, dificultando um pouco meu equilíbrio, mas consegui chegar ao banheiro.
Não pensei duas vezes e arranquei toda aquela roupa suja e entrei no box, deixando a água do chuveiro cair em meu corpo, levando embora toda a tensão, o medo e a angustia que estava sobre mim. Fechei os olhos e me permiti chorar baixinho, perdendo a noção de tudo até sentir os braços de Sasuke me rodearem, seu corpo nu atrás de mim. Virei-me para sua frente e o abracei pela cintura enquanto a água do chuveiro caía em cima de nós, e não dissemos mais nada, e muito menos algo de excitante aconteceu. Os tremores de meu corpo aos poucos acessavam, assim como a vertigem. Agradeci internamente por nós compartilharmos da mesma conecção e o silêncio era tudo que eu mais queria. E por mais que me sentisse envergonhada pelas decisões que me levaram as consequências, eu queria que Sasuke ficasse ali, pois sua presença marcante me deixava de alguma forma protegida.
Depois do banho fomos para o quarto enquanto secava meus cabelos, procurei algo mais confortável para vestir e uma camisola de algodão caía bem naquele momento. Sasuke estava só de box preta, desavessava a calça, deixando cair sua carteira no chão.
- Fica. - Foi tudo o que consegui dizer, sentindo-me terrivelmente frágil, não queria passar aquela noite sozinha naquele apartamento.
Sasuke me olhou com aqueles olhos de ébano enquanto seu corpo erguia-se ereto depois de ter pego a carteira no chão.
- Eu não disse que iria embora. – Sua voz rouca com aquele sotaque carregado soou por todo o quarto enquanto caminhava em minha direção, deixando a carteira em cima da cômoda e a calça na cadeira giratória.
Reprimi um pequeno sorriso e subi na cama depois de puxar o cobertor para os lados. Sasuke deitou-se ao meu lado e nos cobriu, aproveitei aquele momento e me aninhei sobre ele, tentando inutilmente esquentar seu corpo gelado com o meu quente, minha cabeça em seu peito e sentindo as batidas aceleradas de seu coração. Seus braços me rodearam e nossas pernas se entrelaçaram umas nas outras, seu cheiro masculino mesmo depois do banho não havia sumido, apenas deixando um frescor suave e bom.
Suspirei profundamente, tentando aspirar mais o seu cheio e confortar-me depois dos acontecimentos no início da noite.
- O que foi, dragul meu?
- Nada – murmurei, mordendo o lábio. – Eu apenas gosto do seu cheiro.
Ele apenas me apertou mais em seus braços e beijou minha cabeça, me fazendo erguê-la para cima e fitar o seu rosto, um pequeno sorriso estava no canto esquerdo de sua boca.
- Também gosto do seu cheiro – e por um segundo pareceu que ele não estava mais comigo e sim navegando em devaneios profundos, seus olhos negros estavam nublados.
Estiquei-me um pouco e tomei seus lábios com os meus, trazendo-o de volta para mim. E funcionou, pois, ele me retribuiu aquele beijo com muita vontade, sugando meus lábios, nossas línguas dançando de um jeito sensual. Minhas mãos subiram por seu peito, segurando sua nuca e o puxando mais para mim, assim como a metade de seu corpo para cima do meu. Quando o ar me faltou, ele ainda continuou descendo sua boca por meu queixo até meu pescoço, e eu gostava das sensações que ele provocava em mim, arrancando-me gemidos. Com minhas mãos o puxei de volta para minha boca e nos beijamos mais uma vez, e outra, até que uma pequena vertigem me atacou novamente, e parecia que toda a cama que eu me encontrava deitada estava girando.
Me separei de Sasuke e mantive os olhos bem fechados, uma mão em minha testa.
- O que foi, Sakura? - Sasuke me perguntou, o tom carregado de preocupação. – Está sentindo alguma coisa?
Respirei fundo algumas vezes até sentir a tontura aliviar um pouco para abrir os olhos e enxergar um Sasuke com a metade do corpo para cima, sustentado pelo seu braço com a mão espalmada do colchão, me fitando preocupado.
- Foi só uma tontura que me deu de repente...
Ele se pôs de pé para fora num instante.
- Vou pegar algo para você beber – e saiu do meu quarto usando sua super velocidade, e quando pensei em ficar sentada, ele já estava ao meu lado com o copo de água esticado para mim. – Beba.
- Que rápido – murmurei, ficando sentada e agarrando o copo e bebendo toda a água. A tontura já havia aliviado. – Obrigada.
- Melhor?
Assenti com a cabeça.
- Sim. Foi uma pequena vertigem.
Ele pegou o copo de minha mão e o colocou em cima do criado mudo antes de voltar para cama.
- Você precisa descansar, o que passou hoje não foi nada fácil de digerir.
Eu não contestei, apenas voltei a me aninhar para perto dele e o cansaço daquele dia tomou conta de mim com mais força e acabei dormindo.
- Nu te duce...
Acordei a madrugada com murmúrios desconexos e o remexer no colchão. Abri meus olhos encontrando o quarto pouco iluminado.
- Stau... Stau...
Virei-me para trás e Sasuke estava dormindo ao meu lado, a respiração ofegante e as pálpebras fechadas se remexendo nervosas indicavam que seus sonhos não eram bons.
- Sara... – ele havia voltado a resmungar, e o nome pronunciado fez todo o meu corpo congelar por alguns segundos. - Nu te duce...
Sara?
Quem era essa pessoa? Suas palavras desconexas eram murmuradas em sua língua nativa para tentar entender o que dizia. Mas o mencionar daquele nome fez uma angustia tomar conta de mim. Eu tinha consciência de que poderia ser qualquer pessoa, parente... ou uma possível...
Balancei minha cabeça para os lados, crise de ciúmes nessa altura do campeonato nem pensar, era tolice. Eu mesma já tive alguém antes de conhecê-lo, e era normal ele ter tido suas paixões, foram anos de vida em sua eternidade... mas sonhar com outra mulher enquanto dividia a minha cama era realmente difícil de engolir.
- Sara...
Como era difícil de engolir.
Sem pensar duas vezes, sacolejei seu corpo e não demorou para despertá-lo num solavanco, os olhos abrindo de uma vez, e a respiração acelerada.
Esperei até que ele se situasse aonde estava, e quando seus olhos confusos pararam em mim, sorri, engolindo o gosto amargo que aquele nome que ele murmurava causou em mim.
- Sakura?
- Você estava tendo sonhos ruins e dizia coisas.
Ele respirou fundo, passando a mão na testa enquanto tombava para trás do colchão.
- Desculpe se te acordei.
- Que isso – e fitei a minha janela, o céu escuro estava tomando uma coloração mais clara. Eu poderia deixar aquilo para lá, era só um sonho. Quem não sonhava com um ex? Mas eu me conhecia o suficiente para saber que a curiosidade iria me corroer até me deixar paranoica, então tomei a decisão extremamente intrometida e joguei: - Quem é Sara?
Sasuke me fitou, o cenho franzido.
- O que você disse?
- Você estava murmurando coisas em romeno e algumas vezes o nome Sara.
Ficamos nos encarando por alguns segundos, o silêncio estava insuportável, mas esperava pacientemente a sua explicação, pelo menos uma explicação qualquer que confortasse o meu coração enciumado.
Ele desviou os olhos de mim e fitou o dia que dava inícios que iria amanhecer.
- Está amanhecendo – e jogou os cobertores para o lado e já colocava os pés para fora da cama -, eu tenho que ir.
E ficou de pé, agarrando sua calça que estava em cima da cadeira e a colocando com maestria.
Saí da cama e me aproximei dele que já puxava o zíper e abotoava a calça.
- Você está fugindo.
- Eu dormi demais, minha cara – e passou por mim e pegou a carteira, colocando no seu bolso de trás.
Estava ignorando minha pergunta.
Quando ele estava para passar por mim mais uma vez para sair do quarto eu agarrei o seu braço, o fazendo parar.
- Eu tenho que ir antes do sol sair por completo.
- Acho que um pouco de sol não irá matá-lo, já que se regenera com facilidade. Eu por outro lado irei me definhar em paranoia pensando que está me enganando, que existe outra. – E arqueei a sobrancelha, desafiando-o, irritada com seu descaso. – Sabe por que Sasuke Uchiha, se você ouvisse eu murmurando o nome do meu ex enquanto dividimos a mesma cama garanto que estaria me abordando como estou o abordando nesse momento.
- Eu não a abordaria, minha cara, pois não me acho no direito de cobrar nada já que estou levando você a ter uma vida limitada e um futuro nada bom. Mas confesso que iria segurar o ciúme para mim, e procurar o idiota para me fazer a comparação, e quando ver o quanto ele seria insignificante eu me contentaria, sabendo que sou melhor, mas no fundo saberia que era apenas uma fachada de conforto, e que o se ex seria a melhor opção, por lhe dar uma vida digna do que uma sob a escuridão se estiver ao meu lado.
Soltei o seu braço e o olhei incrédula.
- Nunca reclamei do fato de que nosso romance seria limitado. Se estou com você é por que eu te amo.
Ele não pareceu nenhum pouco abalado.
- Mas nunca irá desfrutar de um corpo quente. Isso é um limite para mim.
Pus minhas mãos em seu peito gelado, olhando bem no fundo de seus olhos.
- Eu não me importo.
Ele segurou meus ombros com suas mãos.
- Mas eu me importo o suficiente para tomar decisões que seja o melhor para você.
- Você... você está tentando dizer que vai me deixar?
- Não tenho essa coragem, sou egoísta o suficiente para ficar longe de você. – E depois de uns segundos em silêncio ele suspirou, soltando-me de suas mãos. – Ela foi uma pessoa importante para mim.
Pisquei algumas vezes tentando entender do que ele falava, até que a ficha caiu. Sara. Ele estava me respondendo, e como imaginava era alguém importante o suficiente para ele sonhar a noite.
- Foi? – Minha voz era mais baixa que um sussurro, a insegurança me possuía por inteiro.
Ele umedeceu os lábios e assentiu com a cabeça, concordado.
Prendi a respiração.
- Ela foi importante numa época muito distante, época quando eu era apenas humano.
- Ah...
Não tinha o que dizer, e toda o meu ciúmes e insegurança pareceu apenas bobeiras, e me senti com vergonha de mim mesma, xingando-me por ter bancado a idiota.
Sasuke continuou:
- Não sei por que estava sonhando com ela, mal lembro de seu rosto.
- Você... não se lembra?
- Não. – E levou a mão em meu rosto e afagou, colocando a mecha para detrás de minha orelha, o seu toque gentil foi o suficiente para deixar todo o meu interior agitado. – As lembranças se perdem com o tempo, tornando-se fumaça. Eu sei que existiu, mas a fisionomia completa não é distinguida com nitidez.
- Me desculpe.
E com as duas mãos em meu rosto ele me beijou os lábios.
- Não precisa se desculpar, floarea mea - e sorriu daquele jeito que fazia minhas pernas ficarem bambas. – Mas agora tenho que ir. O sol não me mata, mas a queimadura dói à beça.
Sorri mordendo o lábio e concordei com a cabeça.
- Ok.
. . .
Alguns dias se passaram depois daquela noite fatídica, e nem queria me lembrar no dia seguinte, os curiosos de plantão querendo desvendar o que havia acontecido na noite anterior. Óbvio que a polícia apareceu, mas nada foi concretizado e dei graças a Deus por não receber nenhuma visitinha de nenhum deles em meu apartamento.
Ino havia voltado da casa de sua avó e parecia mais concentrada em seus dons mediúnicos. Jantamos ontem a luz de vela só para treinar sua habilidade com o fogo, e confesso que ela estava boa, o que a deixava mais convencida, alegando que Gaara merecia um castigo em seu companheiro que carregava no meio das pernas. Óbvio que a repreendi por seus pensamentos nenhum pouco bom para a saúde e com custo consegui tirar aquela ideia maluca de sua cabeça.
Eu acho.
E hoje estava debruçada sob a privada botando para fora tudo o que comi ontem e alguma coisa a mais. As náuseas com que acordei de manhã impedia de chegar perto da cozinha, o cheiro do café da manhã revirava todo o meu estômago.
- Sakura?
Ino havia aparecido no banheiro, o rosto preocupado com meu estado lamentável.
- Estou péssima – disse, dando descarga naquela nojeira e caindo sentada no chão ao lado da privada, com os cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça estourando de dor nas mãos. – Acho que alguma coisa não me caiu muito bem no estômago.
- Você não comeu nada até agora – ela adentrou mais o banheiro parando ao lado do lavabo.
- Acho que foi a lasanha bolonhesa de ontem... – e meu estômago se revirou. – Droga, só de lembrar o cheiro...
Fiquei de joelhos em frente a privada e vomitei mais uma vez. Acho que iria morrer com todo esse vômito.
- Eca.
- Não quero ver lasanha bolonhesa nunca mais na minha vida – disse depois de dar a descarga novamente, fechando a privada e me sentando nela.
- Engraçado, por que ontem de manhã você estava vomitando horrores e não tinha comido lasanha alguma. – Ino disse com aquele quê de desconfiança, me olhando com aquele olhar superior que eu odiava. – E antes de ontem você desmaiou sem mais nem menos.
Não respondi, e Ino continuou com aquele ar de Sherlock Homes:
- Vocês dois estão se prevenindo?
Franzi as sobrancelhas, concluindo o que ela estava tentando supor.
- O que está querendo me dizer, Ino? Que estou grávida?! – Sorri quase que incrédula. – Impossível.
Ino apenas arqueou aquela sobrancelha direta que só ela faz quando quer questionar alguém ou coloca–la contra parede. E nem precisava ela dizer mais nada por que aquela sobrancelha bem feita já fazia todos os tipos de acusações, te deixando sem nenhuma saída. E eu me sentia encurralada por aquela sobrancelha, o que era ridículo, pois era só uma sobrancelha.
- Sasuke é um vampiro – comecei, me agarrando com todas as foças naquela lógica -, e vampiros não procriam. Não é?
Silêncio.
Senti minha garganta ficar seca, e continuei com meus argumentos:
- Eu assisti Diários de um Vampiro, e eles não procriavam. – Na minha cabeça aquele argumento fazia todo o sentindo. Eu não estava grávida, isso era impossível.
- Caralho, Sakura! – Ino explodiu alto o suficiente com as suas mãos na cabeça. - Isso aqui é a vida real, sua maluca, não uma série de televisão! Cinquenta por cento do que sabemos sobre vampiros é mentira e outros cinquenta por cento é desconhecido por nós. Não sabemos se eles são estéreos ou não. Eu não acredito.
Ela começou a andar em círculos pelo banheiro, e eu apenas me mantive sentadinha na tampa da privada, a respiração presa na garganta. Ela parou de repente e me olhou.
- Você pelo menos já conversou com ele sobre esse assunto? Se ele pode ter filhos?
- Não... – minha voz saiu como um fio. – Ino, como iria imaginar que vampiros pode ser férteis? Eles são mortos vivos.
Só o fato de ter pronunciado as palavras morto vivo o embrulho em meu estômago retornou com mais força.
- Eu não sei se vampiros são férteis ou não, Sakura, mas esse seu enjoo aí não é nada normal.
- Eu já disse foi a lasanha.
Ela bufou irritada.
- Vou pedir um teste na farmácia – e saiu do banheiro.
Eu sentia todo o meu corpo paralisado com a possibilidade de que poderia está esperando um filho. Olhei para a minha barriga e não havia nada de elevação. Enjoos não aconteciam só na gravidez e Ino estava se precipitando.
Era isso. Ino é histérica o suficiente para tirar a conclusão de que estou grávida sendo que nem eu mesma me sentia grávida.
Saí do banheiro depois de escovar os dentes e voltei para o quarto, tomei aspirinas e fui me deitar, aquela dor de cabeça era irritante. Acho que dormi e acordei com Ino me sacolejando.
- O que foi, Ino – murmurei, sonolenta, a visão aos poucos tomando foco e a enxergar de pé ao lado de minha cama com uma caixinha rosa na mão.
- Aqui. – Ela estendeu a caixa para mim, e bufei quando percebi o que era.
- Eu não estou grávida, Ino – e me sentei na cama, a fitando incrédula. - Têm muito pouco tempo que estamos transando, dias para falar a verdade, o que não resulta numa gravidez precipitada.
- Mas mesmo assim faz o teste – e jogou a caixa no meu colo.
Suspirei, enquanto revirava os olhos.
- Você não vai me deixar em paz mesmo, não é?
- Pode ter certeza que não.
Bufei mais uma vez agarrando a caixa e me levantando da cama e indo para o banheiro com ela atrás de mim.
- É só fazer xixi nele, caso não saiba.
Como resposta fechei a porta na cara dela. Era só o que me faltava.
Depois de tirar o aparelhinho para fora e ler todas as instruções atrás da caixa, fiz o procedimento.
Saí do banheiro em seguida com o teste na mão e dando de cara com Ino que estava de guarda.
- E, aí?
- Acho que tem que esperar – e observei a pequena telinha ainda em branco e que aos poucos tomava forma de dois pauzinhos vermelhos. – Ah meu Deus.
Ino chegou mais para perto, e todo o meu corpo estava congelado, petrificado.
- Você...
Desviei meus olhos do teste para a minha melhor amiga.
- Estou... grávida!
