Trinta e Um
Quando estamos numa montanha russa e o carrinho corre em alta velocidade por aqueles trilhos de ferro em aspirais, o nosso corpo fica em alerta e há uma rápida liberação de adrenalina. E como respostas imediatas, ocorre uma diminuição da circulação do sangue na área do abdômen, uma contração no estômago e liberação de uma maior quantidade de ácido. Tudo isso causa aquela sensação momentânea do frio e a barriga encolhe. A cabeça gira se não fixar o olhar num ponto fixo e por muitas vezes a bile sobe na garganta.
E a sensação que eu sentia naquele momento era trinta vezes pior.
Meus olhos estavam fechados fortemente, os dentes trincados e tudo girava, e girava, e girava... até que não senti mais nada, pois minha consciência havia me abandonado.
Quando minha consciência retornou, abri meus olhos lentamente, a pouca iluminação não dava para ver muita coisa. Minha cabeça doía e meu estômago não era dos melhores. Levei alguns minutos para perceber que estava caída no chão frio de terra batida e o cheiro úmido de mofo e algo a mais não era nenhum pouco agradável.
Com as mãos no chão impulsionei meu corpo e consegui ficar sentada, mas tudo girava ao meu redor, me fazendo levar a mão a cabeça e fechar os olhos mais uma vez para que aquela vertigem aliviasse.
- Você está bem?
Abri meus olhos novamente escutando passos pararem ao meu lado.
- Ino... – franzi o cenho, tentando enxergar seu rosto naquele escuro. – O que... o que está acontecendo? Que lugar é esse? Ai minha cabeça – e voltei a fechar os olhos mais uma vez.
Ela se agachou a minha frente.
- Me desculpe, vai demorar um pouco para seu corpo restabelecer com a viagem.
Abri os olhos, mal conseguindo enxergar seu rosto com a pouco iluminação.
- Viagem?
Do que ela estava falando?
Ino segurou meu braço e me ajudou a ficar de pé, e conforme a minha cabeça ainda girava, ela me conduziu até uma cadeira de madeira e eu me sentei.
Ela caminhou às escuras, remexendo nas coisas e logo em seguida uma fraca luz de uma vela iluminava o local, me dando o prazer do vislumbre de seu rosto e seu perfil enquanto depositava aquele pedaço pequeno de vela em cima de uma mesa de madeira velha que estava a minha frente.
- Aonde estamos, Ino? – Observei o cômodo nenhum pouco familiar e nenhum pouco bonito ou limpo. - Não estamos na casa do Sasuke.
E aquilo era óbvio. A casa de Sasuke que era toda trabalhada no luxo não se comprava aquele lugar fedido com poucos móveis escuros e velhos, uma lareira no fundo com um caldeirão preto pendurado. Uma pequena cama num canto, e um baú velho ao lado, sem contar em várias outras coisas, tudo bagunçado.
- Sim, não é a casa do Sasuke – ela concluiu, atraindo minha atenção para si. – Essa é uma cabana de uma velha senhora camponesa que vive nesse lado das montanhas um pouco longe da aldeia. Ela é uma espécie de curandeira, e nesse exato momento está vagueando pela floresta a procura de plantas medicinais. Isso nos dar algum tempo para conversarmos.
- Nós invadimos uma casa? – Eu a fitava incrédula, as palavras montanha e aldeia havia passado despercebido por mim. – Isso é contra a lei.
Ino apenas deu de ombros e puxou a outra cadeira de madeira velha e se sentou a minha frente.
- Isso é uma emergência.
- Emergência – murmurei, ainda incrédula. – Ino, não sei o que está acontecendo. Confesso que estou muito surpresa por ver você... por você ter surgido do nada e agora estamos – e olhei a minha volta – neste lugar. – Mordi o lábio e balancei a cabeça para os lados, tudo parecia tão errado, fora do comum. Eu estava confusa com aquilo tudo. – Não têm nem três horas que eu saí do apartamento aonde Naruto estava hospedado, implorando para que ele te encontrasse e fizesse a sua segurança. Você corre perigo, Fugaku sabe que existe bruxas Bragadini ainda viva. Ele vai atrás de você!
O incrível daquela minha agonia por ver a minha melhor amiga a minha frente depois de meses sem a ver, e ter jogado aquela bomba em cima dela, o seu semblante era calmo, como se tudo o que eu disse fosse nada. Seu autocontrole era de dar inveja, pois ao contrário de mim, eu estava uma devastação por dentro.
- Eu sei, Fugaku tem fontes muito seguras. Mas é você que corria perigo estando naquela casa.
- Como?
Minha respiração ficou presa em minha garganta.
Ino segurou as minhas duas mãos, seus olhos azuis fitando os meus, sérios.
- Sakura, eu vou ser muito direta agora. O plano do Sasuke em derrotar Fugaku nunca iria dar certo.
- Plano? – Minhas sobrancelhas uniram mais. – Ino, como é que você está sabendo do plano? Nós não nos falamos tem meses, não tem como você ficar sabendo do plano que o Sasuke está armando.
- Amiga, acredite, eu sei de muitas. E já adianto que não posso revelar muito para você. Mas acontece que o plano nunca iria dar certo, por que tem muitas falhas. Uma delas é o diário de Carlota, há algumas páginas arrancadas, e essas páginas são importantes. A segunda falha iria acontecer essa madrugada. Você seria morta pelo próprio Fugaku.
De repente meu coração havia falhado algumas batidas para depois voltar a bater num ritmo bem acelerado que incomodava. Meus olhos se abriram mais e meu estômago se contraiu num frio sinistro, que subia por toda a minha espinha.
- Mo-morta? – A palavra havia saído num sussurro, deixando um gosto amargo em minha boca.
Puxei minhas mãos de suas mãos, podia sentir as pontas dos meus dedos gelados.
- Sim, infelizmente.
Ino havia abaixado o olhar, e pela primeira vez desde que nos reencontramos, eu vi incertezas em seu rosto, uma tristeza que a consumia por inteiro.
Era difícil de engolir aquela informação. Eu iria ser morta aquela madrugada.
Eu iria morrer.
Por alguns segundos o rosto de Sasuke e de Sarava me veio à mente, eles iriam sentir a perda, principalmente minha pequena filhinha. Como ela iria sofrer, agora que nos reencontramos e estávamos tão conectadas em nossa relação maternal. Não achava justo eu morrer agora, quando tínhamos esperanças de vencer o homem de nossos pesadelos.
Mordi o lábio, sentindo todo o meu corpo tremer de medo, tentando achar uma solução. Ino pode estar sendo precipitada, não tem como uma pessoa saber de tudo. Aquilo era praticamente impossível.
- O Sasuke nunca iria permitir isso – minha voz saiu com uma certa raiva, a boca crispada enquanto meus olhos estavam em Ino.
Ela apenas ergueu seus olhos e me fitou com aquela expressão de seriedade que eu mal conhecia. Ino parecia uma outra pessoa, não só pelo seu corte de cabelo que a deixava mais adulta, mas sim as suas ações, a sua postura...
- Isso não está no querer dele – ela respondeu. – Fugaku vai aparecer nessa madrugada, vai pegar vocês de surpresa e acabará com a sua vida... e sinto dizer que a da Sarada também.
Meus olhos arregalaram e num rompante pulei da cadeira.
- Sarada! Não! Isso não. A Sarada não! – Segurei os ombros de Ino com as minhas duas mãos, minha voz soando histérica, o desespero me consumindo. – Ino, pelo amor de Deus, me leve de volta para pegar a minha filha. Preciso avisar o Sasuke, fugiremos de lá antes que ele chegue. Acho que teremos uma chance de fugir se agirmos logo, por favor... – soltei seus ombros e dei alguns passos tropeços para o lado, indo em direção a saída. – Eu preciso sair daqui...
Mas fui interrompida com um aperto em meu braço. Ino estava ao meu lado agora, me virando para sua frente.
- Sakura, por favor, se acalma...
- Como você pode me pedir calma, sabendo que a minha filha corre perigo de vida! – Explodi, soltando todos os meses de angustia em cima dela. Toda a minha frustração, todos os meus medos. – Eu passei anos longe da minha filha, ignorante sobre a sua existência, imaginando por que eu me sentia tão vazia e oca por dentro. Você não sabe o que é isso! E você não vai me impedir de tê-la ao meu lado mais uma vez.
- Não fiz isso por que eu quis ou por prazer de ver você sofrer! – Ela gritou na minha cara, segurando meu braço um pouco mais forte, o rosto sério e a magoa no olhar. – Eu fiz isso por que eu tive que tomar uma decisão. Uma escolha que não foi nada fácil para mim. Não pense que senti prazer de ver você separada de sua filha, e toda vez que você me perguntava de seu passado eu tinha que fingir que não existia nada de importante. Entenda pelo menos uma vez na vida que tudo o que eu faço é para o seu bem! Você é a minha melhor amiga, minha irmã. Não suportaria perder você também.
Calei-me, sentindo o peso daquelas palavras e o fardo de saber que a minha vida que eu tinha agora era graças a vida de Tsunade. Era doloroso saber que Ino havia escolhido entre mim e a sua queria avó. E ela havia optado por mim. Ela aguentou as minhas palavras agressivas e ofensivas a seu caráter enquanto fazia de tudo para que eu me sentisse em casa. Eu acabara de a magoar novamente enquanto ela estava ali, livrando minha barra dela centésima vez desde que eu me entendia por gente.
As lágrimas desciam por meu rosto descontroladas, meu corpo todo tremia. Eu não aguentava mais aquela sensação de aperto de que deveria sacrificar alguma coisa. Era insuportável.
- Eu já perdi muitas pessoas importantes nessa vida, Sakura – ela continuou, seu aperto havia afrouxado em meu braço. – Você encabeça o topo da minha lista de pessoas importantes para mim. Não suportaria perder você também.
E como se a sua última frase fosse uma apunhalada em meu coração, eu desmoronei.
- Me desculpe, Ino – e a abracei, deixando aquele sentimento tomar conta de mim, a angustia sufocando-me. – Me perdoe... me perdoe por ter sido uma idiota. Eu soube a verdade sobre a sua avó... e eu sinto muito e ao mesmo tempo estou grata. Estou viva graças a ela e a você. Me desculpe.
E quando seus braços me rodearam, me permiti sentir protegida pela minha melhor amiga que sempre estava ao meu lado nas horas mais oportunas. Ino não era só uma amiga irmã, ela era o meu anjo da guarda. E eu tinha sorte de tê-la ao meu lado.
- Eu entendo a sua raiva, juro que entendo, mas eu não tive escolhas. Fugaku não podia sonhar que você estivesse viva – e nos separamos, ela me olhou nos olhos. – As coisas saíram do controle.
Sequei os olhos com as costas de minhas mãos, e pude enxergá-la com mais nitidez.
- Fugaku tem muito informantes – ela continuou, depois que fungou o nariz, seus olhos estavam vermelhos também. – E um deles em especial estava localizado na casa do Sasuke, informando cada passo dele e da Sarada. E o fato de você ter chegado a casa causou suspeitas, a semelhança entre você e a Sarada é grande e essa informação chegou aos ouvidos de Fugaku. Ele mandou vasculhar o túmulo na Bélgica aonde você possivelmente foi enterrada e descobriu que estava vazio...
- Espera – interrompi, minha mente processando a pessoa que mais se definia a esse papel. - Informante?
Todas as minhas setas de desconfianças apontavam para Karin, a governanta robótica que orquestrava tudo milimétricamente. Olhando por vários ângulos ela daria uma bela informante para Fugaku, se fosse para julgá-la por seu jeito astuto e sigilosa. Mas uma lembrança do Sasuke dizendo com todas as letras que ela era fiel a ele, e que tinha total confiança nela me veio à mente na mesma hora. E confesso que era notável o modo como Karin tratava Sasuke e zelava por suas coisas e bem-estar, sempre eficiente a seu trabalho, um verdadeiro cão de guarda. E por mais que minhas expectativas dissessem que Karin era a traidora, eu sabia que não era, me restando apenas uma pessoa.
- Kakashi.
Ino soltou uma risada sarcástica.
- O próprio diabo.
Agora tudo estava claro e fazia sentido. O jeito repentino como ele me abordou com certo interesse. A forma como me olhava minuciosamente... ele tentou me hipnotizar. Ele queria se encontrar comigo fora da casa. O jeito como Sasuke ficou quando nos viu sozinhos.. forçando mais a mente e o conhecendo do jeito que o conheço, ele estava sendo cauteloso naquela hora. Sasuke o havia demitido em seguida.
- Ah, meu Deus – murmurei, chocada com a revelação. Kakashi havia passado a minha ficha completa a Fugaku. – O Sasuke sabia disso?
- Pergunte a ele depois – ela respondeu, voltando a ficar séria. – O fato agora é que Sarada está segura, você tem a minha palavra.
- Como... você pode ter tanta certeza?
O canto de sua boca curvou-se para cima.
- Esqueceu que ela é a minha afilhada? E primeiramente, ela é a sua filha, não iria deixá-la correndo esse risco. Foi a mesma coisa quando apaguei a sua memória. Eu vi nos olhos de Sasuke o quando ele podia amar aquele bebezinho que estava em seus braços, o brilho afetuoso que a olhava não deixou dúvidas. E por mais que eu estivesse odiando-o com todas as minhas forças naquele dia, sabia que ele ria cuidar do bebê, e isso me deu coragem para apagar a sua memória. Mas deixei um ponto de escape, uma chave para você recuperá-las um dia.
- A correntinha.
- Sim – e ela sorriu, mas voltou a ficar séria. – Estamos desviando do assunto principal, e não temos tanto tempo assim.
- E a Sarada, o que você vai fazer?
- Calma, está tudo sob controle. – E apontou para as cadeiras. – Vamos nos sentar, por que eu preciso te contar a história do começo.
Assenti com a cabeça e sentei-me na cadeira e Ino sentou na outra a minha frente. Ela suspirou, fechando os olhos por alguns segundos antes de voltar a abri-los e me fitar.
- Você se lembra do Hidan?
- Hidan, o barman que desapareceu depois de ter me dado o rosário de Jashin?
- Esse mesmo. Ele apareceu novamente duas semanas depois de você ter ido embora.
- Não acredito! – Eu estava bastante surpresa. – O que ele disse?
- Ele me contou toda a sua história, de ser um bruxo centenário, que trocou seus dons de fazer magia em troca da imortalidade.
- Isso é possível?
- Sim, e ele arcou com uma consequência muito grave. Não se pode mexer com o equilíbrio da natureza. Seu dom de visão o atormenta dia e noite, e como éramos "conhecidos" ele previu todo o nosso futuro e a confusão que estávamos metidas. Ele sabe de tudo.
- Estou impressionada, mas por que ele me deu o rosário, e não a você?
- Por que aquela noite algo iria acontecer com você e que não podia acontecer, foi isso que ele me disse. Estava na hora de você saber a verdade sobre os seres da noite. Mas vamos ao que interessa, ele disse que ganhou esse rosário quando ainda era um garoto. Uma mulher que o salvou lhe deu, dizendo para nunca sair sem ele, pois era o que iria protegê-lo das coisas ruins.
Ela tocou no rosário que estava em seu peito, fazendo minha atenção focar na joia. E só agora estava prestando a atenção na pedra marrom entalhada aquele triangulo invertido.
- Está um pouco diferente da última vez que a vi. O rosário não tinha essa pedra antes.
- Eu vou chegar lá – ela confessou, e voltei minha atenção a seu rosto. - Ele também me contou sobre o que o rosário faz, oculta os dons e a presença de um bruxo dos predadores, assim como protege do controle mental de um ser da noite. Mas o verdadeiro poder desse rosário é se locomover através do tempo.
- Então quer dizer que o rosário de Jashin pode nos fazer viajar no tempo? – Eu já podia ver uma ponta de esperança ali. – Ino, isso é maravilhoso – sorri, segurando as suas mãos. – Nós podemos voltar no tempo e impedir o Fugaku... não, nós podíamos impedi-lo de transformar toda a família em vampiro.
- Impossível, Sakura.
Franzi o cenho, meu sorriso morrendo aos poucos e a empolgação também.
- Como assim?
- Não podemos mexer na linha do tempo. Acredite, isso não é nada saudável, e além do mais, desestabilizaria tudo. Mexer com a linha do tempo têm consequências, consequências muito graves e uma delas é a nossa existência.
Suspirei derrotada, soltando as suas mãos.
- Então para quer serve um poder de viajar no temo se não podemos mudar as coisas erradas?
- Viajar no tempo precisa de prudência, cautela e sabedoria – ela disse com um ar de que já viu mais do que devia. – Se estou aqui com você nesse momento e te contando essas coisas é por que tenho uma missão... para falar a verdade, é uma lista de missões. E a minha missão agora é lhe confidenciar uma que só você poderá arcar.
- Missão?
- Sim, vou explicar melhor. – E se ajeitou na cadeira, curvando um pouco o seu corpo para minha frente. – Como eu disse antes, a sua morte está decretada nessa madrugada em seu tempo atual. A minha missão no topo da lista é tirar você daquela casa antes que isso aconteça. Mas antes eu tirei a sua filha, Sarada.
- Sarada? - Franzi o cenho. – Para aonde você levou a minha filha? Espera... como você fez isso? Não dava tempo de você aparecer na porta de entrada e no quarto da Sarada ao mesmo tempo.
Ela apenas apontou para o rosário pendurado em seu pescoço.
- Eu mexi no tempo.
- Pensei ouvi você dizer que não podia mexer no tempo por causa das consequências.
- Qual a parte da prudência e sabedoria você não entendeu? – Ela havia arqueado a sobrancelha, repreendendo-me. – Eu tenho uma lista de coisas que posso mexer.
- Uma lista.
- Sarada está salva e bem. Naruto vai tomar conta dela.
- Como é que é? – Me pus de pé, não gostando de nenhum pouco daquela história. - Você deixou a minha filha com o Naruto? Você ficou louca?
- Naruto é a melhor pessoa para cuidar da Sarada. Você mesma confiou minha segurança nas mãos dele.
Não tive argumento para contestar contra aquele fato, ela continuou:
- Nesse momento ele está saindo da cidade para encontrar a mim na sua linha de tempo e levá-las para o interior de Belogradchik, na Bulgária. Sarada precisa de treinamento para desenvolver suas habilidades e sangue de vampiro para se fortalecer. Ela precisa está forte o suficiente para lutar essa batalha contra o Fugaku.
- Você pirou? – Gritei, irada com o que Ino acabara de dizer. – Sarada não pode lutar! – Coloquei minhas mãos na cabeça, desesperada com o rumo daquela conversa, quando mais Ino dizia mais meu interior se contorcia. – Ino, pelo amor de Deus, a minha filha é apenas uma criança, ela não pode ficar no meio de um fogo cruzado...
- Ela é uma criança dampiro! – Ela me interrompeu, também ficando de pé, a voz sobressaindo a minha. – Sakura, você tem que entender que a Sarada não é uma criança como as outras. Ela tem habilidades maiores que a do próprio pai.
- E o que você quer que eu faça? – Minha voz saiu entredentes. – Que fique parada só olhando de camarote?
- Não. Você estará cumprindo sua missão.
- Missão – sorri incrédula, dando as costas para ela. – Você só me diz coisas vagas.
Ela suspirou.
- Está complicado explicar isso... você tem que confiar em mim, Sakura.
Me virei para ela e cruzei os braços, a boca franzida.
- Está um pouco difícil de confiar em você, pois a cada palavra que diz, eu entendo cada vez menos.
- Eu só peço que confie em mim – seus olhos eram uma suplica. – Eu vi você morrer muitas vezes, e de várias formas diferente, e não foi nenhum pouco agradável para mim. O único jeito que encontrei para que isso não aconteça é separar vocês três. Você viria comigo, e Sarada com Naruto.
- E o Sasuke? Acredito que ele não vá deixar isso barato. Ele vai atrás do Naruto.
- É por isso que estou contando com Itachi para isso.
Parei.
Surpresa era o que eu sentia naquele momento enquanto olhava para Ino.
- Itachi? Desde quando você conhece o Itachi?
- O encontrei a mais de cem anos no tempo, na época em que perdeu a sua amada. – Franzi o cenho, era impossível Ino saber da história trágica de amor de Itachi, a não ser... sua viagem no tempo. – Contei tudo a ele, principalmente o fato de que seu plano de conceber uma criança dampiro nunca viria acontecer, por que quem foi honrado com essa dádiva foi Sasuke e todos os vampiros de sua ramificação.
Franzi o cenho e descruzei os braços.
- Não entendi.
- Vou explicar melhor. Todos os dampiros que existem, todos eles, são todos da ramificação do Sasuke. Carlota sabia que um feitiço daquela magnitude tem que haver uma ponta para ser desfeito, e essa ponta é o próprio Sasuke. E por mais que Itachi quisesse quebrar esse ciclo, isso nunca iria acontecer, pois só um vampiro da ramificação do Sasuke ou ele próprio que pode quebrar esse ciclo. Mas para isso, a mulher que conceber a criança dampiro tem que sobreviver em sua forma humana. – E sua mão segurou meu ombro. – E você amiga, é a humana sobrevivente, a esperança de todos.
Eu não sabia o que pensar, eu não sabia como eu iria reagir aquela informação. Eu tinha consciência que fui a única mulher humana a sobreviver a um parto de uma criança dampiro. Eu sabia que o meu sangue era importante para a conclusão da cura contra o vampirismo. Mas eu não tinha ideia que a descendência de vampiros transformados por Sasuke tivesse essa dádiva, o próprio Sasuke ser o escolhido de uma bruxa centenária para quebrar aquele feitiço. Eu era a mãe de sua filha, a mulher que ele amava. E pensar que existi milhares e milhares de mulheres pelo mundo, os anos que existiu e que ele viveu, eu era a única que concebeu o seu fruto e que por um milagre estava viva.
Por um momento eu podia sentir o peso daquela responsabilidade sob as minhas costas. Só agora a ficha havia caído e percebido que a minha vida era mais importante do que eu pensava.
Ino continuou seu relato:
- Eu contei a Itachi o dia, mês e o ano que ele teria que agir quando chegasse a hora. Convenci a ele de entregar o diário de Carlota a Sasuke e contar toda a sua descoberta sem revelar sua verdadeira intenção. Disse que quando chegasse a hora, ele teria que fingir muito bem uma traição, pegar Sasuke em seu momento mais vulnerável e o prender num caixão e o esconder. Eu sei que pode parecer um plano muito radical, mexer com a vida das pessoas assim, mas você tem que entender, Sakura, foi o único jeito que achei para tudo dar certo. Em seguida Itachi iria se unir a Fugaku e abrir uma busca contra você, desviando todo o foco do esconderijo de mim, Naruto e Sarada até o treinamento dela fosse completado.
- Então quer dizer que o Itachi aparecendo de repente nessa noite era...
- Para concluir o plano – Ino respondeu, firme. – Ele esperava a minha chegada, e estava distraindo a atenção de Sasuke para que eu concluísse minha missão de tirar vocês duas da casa.
Desviei meus olhos para o chão, fitando meus pés, imaginando a cena de "traição" de Itachi. Sasuke me viu indo embora, e saber que Sarada não está mais lá...
- Ele vai ficar arrasado – murmurei, minha consciência atormentando-me, gritando para mim que não estava certo. Sasuke não merecia aquilo. Sarada não merecia ficar longe de mim e de seu pai. Mas conforme minha mente colocava todas aquelas informações em ordem, dava para entender um pouco aquele plano maluco de Ino. Ela estava jogando muito alto, um jogo sem voltas. – Sasuke confia cegamente naquele irmão... ele vai pensar que foi traído.
- Tudo por uma causa maior, acredite.
Ergui meus olhos para ela, e algo me veio à cabeça e que passou despercebido antes.
- Espera... você mencionou anteriormente você mesma na minha linha de tempo, não entendi exatamente o que você quis dizer.
- Eu sou a Ino de uma outra linha de tempo. Uma Ino que passou por tudo isso, que lutou com Fugaku e que viu sua filha crescer e ficar muito forte. – Se eu imaginava que não ficaria surpresa, eu estava enganada. – E antes que você me pergunte como será o fim disso tudo, quem ganha e quem perde, te digo que não posso te dar essa informação e muitas outras que guardo. Não posso interferir em suas escolhas e decisões daqui para frente. Eu só posso lhe contar o que é permitido e você vai ter que confiar em mim.
Minha boca se abriu e fechou novamente, a garganta seca e um frio estranho no estômago. Aquilo tudo era muito surreal, fora de tudo que eu já imaginei ou sonhei. Ino desafiava todas as leis do universo e me sentia tonta com tudo aquilo.
- Eu... Ino... isso está muito confuso. – Pisquei algumas vezes, levemente atordoada. – Tem meses que não a vejo e quando a reencontro é desse jeito... diferente...
- Eu sei, é tudo muito confuso mesmo. Levei semanas para processar as coisas que o Hidan me disse e quando vi tudo se concretizando de acordo como ele disse, eu fiquei assustada. Sakura, você precisa confiar em mim, acreditar em mim.
- Eu confio em você – e tentei sorrir, mas falhei dolorosamente. – Te conheço desde que me entendo por gente. E você sempre fez muito por mim, acreditar em você é o mínimo que posso fazer agora, mesmo achando tudo muito bizarro.
Ela sorriu, e segurou minhas mãos.
- É tudo muito bizarro mesmo, mas você sabe que sempre nos metemos em confusão, não é?
Desta vez eu tive que rir, por que não foram poucas as confusões que nos metemos nessa nossa jornada de amizade.
- Você não me disse ainda qual é a minha missão.
Ela soltou minha mão e tocou o rosário de Jashin em seu pescoço.
- Está vendo essa pedra?
- Sim, e é bem bonita por sinal.
- Essa é uma painita, uma pedra preciosa raríssima – e segurou o pingente arredondando. – E esse formato de tamanho e espessura só existe uma nesse mundo. – E aproximou para eu poder ver melhor, e toquei com as pontas dos meus dedos a pedra gelada. – Essa pedra no rosário de Jashin combinado com os meus poderes desencadeia o poder de viajar no tempo. A sua missão, Sakura, é recuperar essa pedra e entregá-la a mim em sua linha de tempo, eu saberei como agir na hora certa.
Desviei meus olhos da pedra para ela.
- E como é que eu vou achar essa pedra?
- Não posso te dizer, desculpe. Você vai ter que achar sozinha.
. . .
Eu estava em meu quarto, de frente ao espelho apenas de lingerie observando meu perfil de lado, especialmente o pequeno relevar em minha barriga. Era incrível como eu estava mudando num estado de tempo muito rápido. Só havia passado apenas uma semana depois que descobri que estava grávida, e a cada dia eu via meu corpo mudando um pouquinho. Por começar por meus seios que estavam ficando maiores e doloridos, os enjoos matinais ainda eram um tormento, e o sono que eu sentia quase setenta por cento do meu dia fazia eu ter cochilos quando deitava no sofá ou na minha cama.
Confesso que estava assustada com aquilo tudo, as coisas estavam acontecendo rápido demais. Meu corpo mudando rápido demais, e sabia que uma gravidez normal - e o tempo que eu estava grávida, duas semanas para ser exata - não era para estar sentindo todos aqueles efeitos no meu corpo.
Ino também estava muito preocupada com a minha situação e o fato de estar carregando no ventre um filho de um vampiro. Não tínhamos ideia de como seria a minha condição daqui para frente, ainda mais quando o feto estava se desenvolvendo muito rápido. Por isso ela havia tomado a decisão de que eu não comentaria nada para Sasuke por enquanto até que ela conversasse com sua avó a procura de informações sobre uma gravidez de um bebê vampiro.
E para o nosso tormento e preocupação, a sua avó não sabia nada a respeito de ter visto algo daquela magnitude. Mas alertou que minha condição requeria um cuidado muito detalhado e que chamaria atenção de um especialista se eu fosse procurar um. Qual era a explicação que eu diria a um médico sobre eu está grávida de um bebê vampiro?
A única forma que encontramos era confidenciar minha gravidez a Sasuke e torcer para que ele soubesse de algo antes de procurarmos outros meios.
E já fazia cinco dias que eu não o via, e confesso que eu o evitei esses dias, inventando desculpas para não nos encontramos e não entendendo algumas de suas ligações. Me sentia péssima por rejeitá-lo assim, mas eu estava com medo de tudo isso que estava acontecendo ao mesmo tempo confusa e feliz... minhas emoções eram uma bagunça, estava oscilando bastante e chorava de frustração.
Eu estava péssima e frágil ao mesmo tempo.
Não imaginava em ser mãe tão cedo, talvez uns anos pela frente depois de concluir meu curso de medicina e de construir uma carreira. Mas não havia como ignorar aquele fato, e observando a minha barriga se arrebitando a cada dia, uma vida crescendo dentro de mim, me fazia perceber o quanto era incrível aquela sensação de ter algo vivo crescendo e se moldando em meu ventre. Um bebê.
O meu bebê.
Meu e do homem que eu amava.
O resultado de nosso amor.
Deslizei minha mão em minha barriga, sentindo minha visão ficar embaçada, estava emocionando-me novamente.
- Meu bebê – murmurei baixinho, sentindo os cantos dos meus lábios erguerem num pequeno sorriso contido.
Havia apenas poucos dias de gravidez, mas algo dentro de mim mudara. Um afeto crescia em meu coração, um amor que me transbordava por inteiro e me sentia como se fosse explodir a qualquer momento. Eu já amava àquele bebezinho, um amor incondicional, diferente de tudo o que eu já senti. Um amor puro e sem segundas intenções, uma coisa boa que deixava todo o meu inconsciente mais leve.
- Sakura. – Ino havia aberto um pouco a porta e colocado a cabeça para dentro do meu quarto.
- Ino. - Apressei-me e peguei o vestido que estava em cima da minha cama ao mesmo tempo que ela entrava e fechava a porta atrás de si. – O que foi?
- O Sasuke está aí.
Parei com a mão no zíper de trás do vestido depois que o abri, e virei meu corpo para ela.
- Ele está? – E meu coração bateu mais forte, eu sentia saudades e receios de encontrá-lo. – O que eu faço?
Ela apenas arqueou aquela sobrancelha loira bem-feita, questionando-me com aquele olhar.
- O que tem que ser feito. Não é fácil para mim ver um vampiro na minha sala, mas eu o deixei entrar. Está na hora de ele saber a verdade.
Respirei fundo, colocando o vestido por cima da minha cabeça e virei as costas para Ino enquanto o ajeitava no meu corpo. Ela aproximou de mim e puxou o fecho para cima, ajustando o tecido em meu corpo.
- Você está certa – e me virei para ela –, só ele para orientar sobre a minha condição.
Ela abriu um pequeno sorriso reconfortante, tocando o meu braço desnudo.
- É isso aí.
Saímos do quarto e logo estávamos na sala, encontrando um vampiro romeno para lá de gostoso olhando a rua iluminada pela pequena janela daquele apartamento. Ele se virou para mim, e seus olhos negros me fitaram e uma sombra de um pequeno sorriso passou por seus lábios.
- Oi – o cumprimentei, sorrindo comprimido enquanto eu coçava o meu braço esquerdo com o meu direito.
- Oi – e se afastou da janela lentamente.
Ino passou por nós em passos rápidos, chamando nossa atenção enquanto pegava uma bolsa amarela que estava jogada no sofá.
- Vou deixar vocês a sós – e depois veio até mim e me abraçou. – Se cuida, qualquer coisa me liga.
Apenas respondi com um pequeno sorriso e um bater de cílios.
Ino deu uma última olhada para Sasuke antes e pegar as chaves em cima da mesinha ao lado da porta e saiu do apartamento, nos deixando a sós.
O silêncio se formou entre a gente e eu não sabia o que fazer, como agir. Sasuke foi mais rápido e em instante estava a minha frente, suas mãos em cada lado do meu rosto e sua boca cobrindo a minha num beijo cálido. E quando nossas línguas se encontraram, todo o texto que mantrava em minha mente desapareceu. O aconchego de seus braços e o seu perfume me acalentou, me fazendo sentir como se nada pudesse me fazer mal.
Sasuke era o meu protetor, o homem que eu amava e que eu estava morta de saudades. Cinco dias foram um tormento para mim, ter ignorado esse homem arrebatador. Cinco dias de abstinência de seus beijos, de seus toques, de seu corpo...
- Fiquei com saudades, floarea mea – ele disse entre os beijos, ofegantes. – Você mal atende minhas ligações – mais beijos. – Está me evitando?
Abri meus olhos, a respiração acelerada e o coração batendo forte. Seus olhos negros estavam mais escuros que o normal e me observava atenciosamente, captando cada gesto meu, o mínimo possível.
- Só andei um pouco indisposta esses dias – não havia mentido, estava mesmo indisposta, o sono me dominando, deixando meu corpo mole. – Me desculpe.
Suas mãos agora em meus ombros, me afastou um pouco de seu corpo e me observou por inteiro com aquele olhar capitalizador.
- Está pálida – me olhou os olhos, a expressão séria – e mais magra.
Sim, eu havia perdido um quilo e meio nesses cinco dias pelo simples fato de nada parar em meu estômago. Eu enjoava de quase tudo, até o perfume doce preferido de Ino, quase morri de vomitar quando ela o usou antes de ontem.
- Só me abrace, por favor – e rodeei sua cintura com meus braços e o abracei forte, afundando meu rosto em seu peito e sentindo seu cheiro bom que me acalmava.
- Sakura... – ele hesitou, mas logo senti seus braços me apertarem contra si, sua boca beijando o topo da minha cabeça. – O que está acontecendo? Presumo que algo esteja acontecendo, pois escutei quando Ino disse a você que eu tinha que saber da verdade. Que verdade?
O apertei mais, fechando meus olhos com força. Ah, claro, havia me esquecido que ele tinha uma super audição e que podia ouvir através das paredes.
Não seja covarde, Sakura. Disse para mim mesma enquanto tomava coragem de encarar o seu rosto. Conte de uma vez o que está acontecendo. Qual o homem que não quer ser pai? Tomara que eu esteja certa nessa última frase.
Afastei-me dele e agarrei as suas duas mãos, sentindo o frio delas contrastando contra as minhas úmidas e quentes.
- O-olha – eu o fitei, que me observava paciente. Mordi e umedeci meus lábios. – Eu tenho que te contar uma coisa.
- Conte.
- Vamos nos sentar – soltei uma de sua mão e puxei a outra para o sofá de três lugares.
Nos sentamos virados um para o outro e comecei a torcer meus dedos, a tensão tomando conta de mim. Sasuke apenas esperava pacientemente o meu tempo para contar, como um verdadeiro cavalheiro e agradeci por ele ser tão prestativo aos detalhes.
- Não sei como vai reagir... eu mesma fiquei em choque quando descobri...
- Você está me deixando preocupado.
Pisquei algumas vezes, desviando meus olhos para minhas mãos, tomando coragem. E quando voltei a enfrentar seus olhos negros de ônix, eu disse tudo de uma vez e bem claro:
- Eu estou grávida.
Silêncio.
Eu esperei, e esperei e nada aconteceu. Nenhuma reação, nenhuma palavra, nenhum gesto. Sasuke apenas me olhava com o rosto inexpressivo e não soube o que ele estava pensando, e aquilo me deixou insegura de várias formas.
- Fala alguma coisa.
- Isso não pode está acontecendo.
Não era isso o que eu esperava ele dizer.
Engoli a seco.
- E-eu fiquei surpresa também quando soube – sorri amarga. – Não tem nem três semanas que estamos dormindo juntos.
E num rompante Sasuke ficou de pé, me assustando com seu movimento repentino.
- Rahat – e colocou a mão na cabeça, a boca crispada enquanto andava de um lado para o outro pela minha sala. – Rahat. Rahat.
Me levantei e fui até ele, parando a sua frente e impedindo de dar mais outro passo.
- Sasuke...
Ele segurou os meus braços, os olhos me fitando com raiva e medo ao mesmo tempo.
- Eu sou um tremendo filho de uma puta bastardo.
- Você... você não gostou da notícia? – Minha voz tremia e me segurava para não derramar as lágrimas que começavam a embaçar minha visão.
- Gostar da notícia? Você está brincando comigo? – A sua reação grosseira fez a primeira lágrima descer por meu rosto. – Não tem como gostar do fato de que acabei de assinar a sua sentença de morte.
- Quê?
Ele me soltou e deu as costas para mim, passando a mão no rosto, frustrado, arrasado. Eu não podia imaginar que ele reagiria assim, rejeitando o filho que concebemos em noites calorosas de paixão. Eu sentia como se ele estivesse enfiando punais em cada parte do meu corpo, espetando meu coração com milhares de agulhas.
- Droga! – Ele esbravejou, irritado, e mais lágrimas escapavam de meus olhos.
Em seguida se virou para mim e olhou para a minha barriga, a boca franzida para depois me olhar enquanto eu chorava baixinho. Em seguida respirou fundo fechando os olhos, tentando se acalmar.
– Me desculpe – se aproximou de mim e me abraçou, mas não consegui o abraçar de volta, apenas fiquei chorando, molhando o tecido macio de sua camisa. – Me desculpe, dragul meu. A culpa disso tudo é minha – e sua mão passou por meus cabelos, afagando. – Mas irei consertar essa merda toda.
Merda?
- Conheço alguém que pode tirar isso de você.
Tirar isso de mim?
- Não se preocupe, nada de mal vai acontecer com você...
O interrompi com minhas duas mãos em seu peito, o empurrando com todas as minhas forças, me afastando de seus braços, e o olhando agora incrédula.
- O que você está dizendo?
- Irei consertar o que fiz. Você não vai ficar mais nenhum dia carregando isso aí, correndo o risco de vida.
Minha boca se abriu e depois voltou a se fechar. Não estava acreditando no que ele está dizendo.
- Isso aqui – apontei para a minha barriga – é o seu filho, não uma coisa, ou isso. É o seu filho! – Gritei a última frase, sentindo uma raiva do pouco caso que Sasuke fazia com o nosso filho.
Seu rosto se tornou uma pedra sólida sem sentimentos ou expressão, eu não estava o reconhecendo. Suas atitudes me fizeram perguntar aonde estava o homem galante e carinhoso que eu conhecia. Por que o que estava a minha frente era o oposto.
- O que você fala que é meu filho, é um dampiro. – Ele cuspiu aquela informação com um nojo e ódio na voz. - Um ser que tem essência de caça predadora, que nem o seu amigo que quase me matou semana passada. Um ser que vai consumir você, sugar você até a sua morte.
Minha respiração ficou presa em minha garganta, minhas pernas tremeram.
- Dampiro? – Minha voz quase que não saiu quando pronunciei a palavra, extasiada com aquela informação. – Meu bebê é um dampiro?
Sasuke soltou uma risada sarcástica, olhando para os lados, passando a mão nos cabelos, impaciente.
- Mas a culpa é minha – e me fitou –, mas vou cuidar disso.
- Você não vai cuidar nada – retruquei, crispando os lábios e me opondo em sua decisão. – Esse filho é meu também e eu quero ele. Eu já o amo.
- Você não sabe o que está dizendo.
- Você que não sabe o que está dizendo.
- Que merda, Sakura – ele retrucou, irritado. – Se você levar essa maluquice adiante vai morrer, e eu não estou preparado para te perder, porra!
E foi aí que eu vi, no meio daquela expressão raivosa e atormentada, eu consegui enxergar em seus olhos um brilho de um medo profundo que enublava sua consciência, impedindo de perceber os absurdos que dizia a mim. Sasuke estava apavorado com a notícia de que minha vida corria riscos se levasse a gravidez adiante. E confesso que eu também estava com medo, mas o medo era vencido pelo sentimento de amor maternal que eu sentia por aquele serzinho inocente que crescia a cada dia dentro de mim. E isso iria contra todos os meus princípios, acabar com a vida de um inocente que lutava para sobreviver em meu ventre, sem ter noção do mundo ruim e preconceituoso que o esperava.
Dei uns passos para perto dele e toquei seu rosto. Sasuke parecia uma criança arisca num corpo de um homem. Mais lágrimas desciam por meu rosto enquanto a angustia tomava conta de mim. Eu estava entre a cruz e a espada.
Ele se afastou dos meus toques e me deu as costas, apoiando as mãos e a testa na parede ao lado.
- Não fiquei com raiva – minha voz saiu entre soluços, embagada pelo choro e o descontrole da situação.
- Como não sentir raiva, Sakura? – Ele gritou, virando seu corpo bruscamente para mim, me olhando magoado. – Você está te tirando de mim.
- Isso não é verdade – minha voz era desesperada, e me aproximei dele. – Eu te amo.
Suas mãos frias agarram meus ombros no processo.
- Eu não vou suportar perder você – sua voz saiu entredentes.
Balancei minha cabeça para os lados, e mais lágrimas caíram.
- Você não vai. Tenha fé.
- Fé. Eu sei muito bem no que isso vai dar, já vi isso antes. Você vai morrer! Isso eu tenho certeza se você continuar com a ideia de carregar essa... coisa.
Coisa.
Fechei meus olhos. Cada palavra que ele proferia contra o nosso filho, me machucava, abrindo um buraco em meu coração.
- Não fale assim – e balancei a cabeça para os lados, desesperada por que a nossa discursão não estava levando-nos a lugar nenhum. – Não fale assim – abri os olhos. – Ele é seu também.
- Mas eu não o quero, por que sei que vou acabar ficando sem você – ele havia sido duro em suas palavras. – Eu já fodi com a sua vida no momento que parasitei em seu caminho. Agora acabo de destruir você de uma vez, assinando a sua sentença de morte.
Segurei um soluço e agarrei seu rosto com minhas duas mãos e o beijei com força. Sasuke não podia ser tão radical nisso, em sua decisão. Não podia falar sério.
- Você não está me destruindo – murmurei contra sua boca. - Você me ama, assim como eu te amo. – Beije-o uma última vez e pus a mão em minha barriga pouco arredondada. – E esse pedacinho que está dentro de mim é a prova concreta do nosso amor.
- Isso aí – ele apontou para a minha barriga -, vai ser a sua ruína e a minha também. Ou você esqueceu de como o seu amiguinho tem uma obsessão por me caçar? Vai ser a mesma coisa.
- Não vai, por que você vai amá-lo com todas as suas forças e eu também.
- Você não vai estar viva para ver isso, Sakura, será que você não entende? – Sua voz elevou uns dois graus acima do normal.
Por mais que eu estivesse magoada e angustiada por não ter o apoio de Sasuke, a minha decisão estava tomada. Aquela criança iria vir ao mundo e ninguém iria me impedir.
- Mas se isso acontecer – comecei, fungando o nariz - eu quero que você prometa que vai cuidar do nosso bebê e que vai dar todo o amor e atenção que ele merece.
- Não vou prometer nada. Não vou conseguir viver olhando para o rosto daquele que tirou você de mim.
- Acredite, você vai engolir todas essas palavras quando olhar para o rosto do nosso bebê e perceber que ele é um pedacinho meu e eu pedacinho seu.
Sasuke não me respondeu, apenas me afastou delicadamente para o lado e saiu com passos firmes em direção a porta.
- Você vai embora?
Ele parou, de costas para mim com a mão na maçaneta.
- Preciso ficar sozinho.
- Você... vai voltar? – Era notável a incerteza e o medo em minha voz.
- Se cuida.
E abriu a porta e foi embora. O baque da porta se fechando me fez desmoronar, caindo de joelhos no chão, aos prantos.
