Cap – 06 – Os Treinos.
O treino na parte da manhã fora igual aos outros treinos de véspera de final de campeonato. Robert gritando muito, com tudo e com todos.
Primeiro Harry teve que escutar o treinador fazendo uma explanação de mais de dez minutos sobre a definição da palavra "responsabilidade" e em como ela se fazia mais forte acompanhada das outras palavras: "respeito e comprometimento".
Claro que toda essa histeria não era só por causa do atraso de meia hora do apanhador, era o time em si, o estádio, o uniforme, as jogadas ensaiadas, os improvisos, contusões e a final do campeonato que se aproximava e tudo mais que se resumisse a quadribol.
Depois de se desculpar inúmeras vezes com o treinador na tentativa exaustiva de Robert encurtar o sermão, finalmente Harry se aqueceu sob o olhar rancoroso do homem e enfim entrou para o treino com suas entranhas murchando de fome.
A manhã inteira voou de acordo com o previsto, neblina, muito frio, o vento cortante aumentando a sensação térmica de inverno. Em Godric's Hollow o clima era bem mais ameno nessa época do ano, contudo o time estava bem longe dali, em uma região montanhosa, que era basicamente branca, muito acima do Canadá, portanto, era uma desgraça gelada o tempo todo, sem escapatória, para a infelicidade de muitos envolvidos com os Arpies, inclusive Harry.
O apanhador fazia suas fintas, ensaiava suas jogadas mais usuais e aperfeiçoava suas novas táticas em cima da sua vassoura veloz confeccionada com exclusividade para ele.
Por mais triste que fosse, em sua profissão, os ferimentos eram corriqueiros, então Harry já havia ganhado dois hematomas nas costas na altura das costelas e uma baita dor de cabeça promissora a deixar um galo bem desenvolvido em cima de sua tão famosa cicatriz, isso tudo antes do almoço, por estar preocupado com o loiro em casa.
O time seguiu com o programado também, Robert era inseguro mais não pode deixar de se sentir satisfeito com a produtividade dos Arpies durante seus treinos para a tão esperada final.
Assim que a prática acabou os curandeiros do time cuidaram dos ferimentos de Harry, que era o ímã mais infalível para contusões e dos dois artilheiros do time,
que disputavam o segundo e o terceiro lugar no ranking de quem conseguia sair mais estourado das partidas e dos treinos.
Na hora do almoço Harry já relaxara o corpo com uma boa ducha e o time se reuniu para a refeição o desviando um pouco dos seus pensamentos tão dedicados a Draco.
O restante do dia fora tranquilo, Robert reuniu todos na parte da tarde para uma seção entediante de estudo das jogadas mais tradicionais do adversário deles, os Cannons.
Com isso a noite gélida e solitária se aproximou, o cansaço de Harry foi imbatível diante do seu turbilhão de pensamentos e o moreno praticamente desmaiou abençoadamente em sonhos nada inocentes com Draco, passando a madrugada de forma bem relaxada.
~oOo~
Na residência do casal...
Draco abriu os olhos. A claridade no quarto o fez se arrepender de tal ato. Costumeiramente mal humorado ele se levantou passando as mãos pelo rosto estendendo o gesto até os cabelos, para somente depois tomar coragem de retirar as cobertas pesadas de cima do seu eu aquecido.
O loiro praticamente se arrastou até o banheiro, retirou o pijama com preguiça e como sempre despertou completamente depois de ser atingido pela água do chuveiro.
Um bom tempo depois Draco estava pronto. O loiro sentou-se na cama, um tanto reflexivo, o que não era bem sua postura habitual.
O que fazer para pedir desculpas há Harry? Se ajoelharia com lágrimas nos olhos e choraria de remorso? Não, não... Harry não acreditaria em nada, pelo contrario! O máximo que conseguiria do outro seria gargalhadas de sua boa atuação, ou com isso uma internação no Saint Mungus...
Comprar um presente bem bonito para Harry? Também não...
Harry era tão rico e ao mesmo tempo tão ridiculamente simples... Não surtiria um bom efeito, ainda que fosse bem interpretado pelo moreno e ele não queria correr o risco de Harry pensar que ele pretendia cobrar alguma coisa, ou comprar o pedido de misericórdia, mas o que fazer?
Sexo... Sexo... Simmmmmm... Muito sexo selvagem a noite e o dia todo... E... DDDRRRAAAAACCCCOOOO! NÃO, NÃO E NÃO! Se funcionasse você não estaria nessa situação!
Tão cheio de coisas e considerações seu estômago deu o alarme para que Draco compreendesse que pensaria muito melhor de barriga cheia.
Foi o que fez mais uma vez, desceu as escadas e tomou um esplendoroso café da manhã.
Diante da uma mesa muito semelhante a do dia anterior Draco foi mais contido na refeição, Dink e Fany tão dedicados perguntaram o que o amo gostaria de almoçar mesmo que não fosse um habito seu, fazer três decentes refeições diárias quando Harry não estava por perto.
Draco simplesmente não sugeriu nada, mesmo por que não tinha nada que queria no momento além de almoçar e jantar Harry e de sobremesa se esbaldar na tão desejada banana caramelizada que só o moreno sabia preparar para ele.
Quando simplesmente se levantou da mesa teve uma daquelas ideias que não poderia ignorar mesmo se quisesse. Aprenderia de alguma forma cozinhar para quando Harry retornasse ele surpreenderia o moreno com um belo jantar produzido por suas mãos sem ajuda de elfo algum.
Causaria tanto impacto no moreno, além de pedir desculpas ele impressionaria Harry com uma comida maravilhosa e pelo esforço em fazer tudo tão artesanalmente.
Nesse tempo que estavam juntos, oficialmente dividindo o mesmo teto, ele nunca se dera ao trabalho de trazer na cama pelo menos uma torrada para o outro que fosse preparada por suas mãos.
Assim que Harry visse como ele se esforçou em tudo isso e como foi uma pessoa de palavra indo busca-lo no jogo, o moreno ficaria mais suscetível em "perdoar" Draco pelo comportamento meio que egoísta que sempre tinha. Afinal o jantar seria mais para Harry perceber que Draco também sabia se dedicar a ele e que não pensava somente em seu maravilhoso umbigo.
Poderia ser um jantar, como poderia ser também um almoço, tudo dependeria de que horas o maldito jogo acabaria e quanto tempo a partida duraria.
Seria até divertido, cozinhar lhe parecia muito prazeroso e muito próximo ao preparo de poções, tarefa que sempre desenvolvera muito bem, diga-se de passagem.
Precisava mesmo de uns dias de folga do trabalho, já que não aprenderia a cozinhar em apenas um dia, mesmo que sua varinha fizesse mais que magia, operasse verdadeiros milagres.
Era confortável ter o laboratório em casa, mas ao mesmo tempo estressante, com essa facilidade Draco passava mais horas do que deveria com a cara enterrada no trabalho, enquanto Harry fazia o mesmo, mas em varias partes diferentes do mundo.
Com tal rotina estabelecida, ele se tornara mais caseiro do que pretendia e Harry mais mundano do que gostava de ser.
Animado com a perspectiva de cativar Harry pelo estômago Draco pediu o livro de receitas da sua falecida e respeitosa sogra para Fany, que o trouxe rapidamente.
O casal de serviçais deixaram a cozinha pronta para o amo mexer em um piscar de olhos e assim que Draco se viu sozinho abriu o livro empolgado, tentando reconhecer os pratos mais requintados ao paladar de Harry.
O livro era extenso e pesado, paginas e paginas amarelecidas preenchidas a mão com a caligrafia de professora de Lilian Potter com muitas e muitas receitas entre doces, tortas, salgados, bolos e assados. Draco finalmente escolheu algo que agradaria com certeza o moreno. Carne.
Então a partir do prato principal escolheu a entrada, o vinho a ser servido, só faltava uma coisa: a sobremesa.
Entre tantas coisas gostosas sua mente viajou mais uma vez na droga, mil vezes droga, da banana caramelizada.
Foi então como providência da mais alta cúpula da comitiva de Merlin, que Draco achou a pagina brilhante: a receita da banana caramelizada!
Seria perfeito! Avadar dois hipogrifos com o mesmo feitiço! Harry ficaria feliz com ele pelo jantar e quem sabe o loiro não fazia uma banana igual ou até melhor que a do moreno?
Então começou preparando algo simples, só para provar para si que era capaz de um jantar digno dos melhores chefes, ou tão promissor quanto de Harry, que cozinhava como ninguém.
Ele começaria por uma salada e o preparo de uma ave que fosse bem simples. Tecnicamente ele tinha alguns dias, para finalmente preparar sua obra prima gastronômica.
O loiro arrumou os cabelos e se empertigou. Não é por que iria cozinhar em casa que pareceria com um flagelado combatente de guerra. Só depois do seus cabelos estarem em conformidade com sua exuberante aparência, Draco colocou musica dançante bem alta, vestiu as luvas e o avental e finalmente colocou as mãos na massa.
Há principio tudo muito fácil, cortou legumes para a salada, ferveu água, escolheu os temperos certos e tudo mais que era necessário. Quando estava com a salada sobre controle se sentia orgulhoso, achando Harry um tolo por se gabar de cozinhar tão bem.
Todavia, quando se deparou com uma pequena codorna crua a sua frente parou de cantar a musica no mesmo instante. Quando retirou o alimento do plástico protetor não sabia se teria coragem suficiente para seguir as instruções do livro de receitas, que seria arrancar as vísceras e a estrutura óssea do cadáver, deixando seu interior limpo para rechear.
Sem um feitiço decente para isso, Draco não queria se arriscar, pois não era lá seu estilo fazer tudo a moda trouxa. Foi bem ai que se lembrou o por que de não seguir carreira na área de poções. O enojava demais picar fígado de morcego ou cortar pés de rã para colocar no cadeirão e graças a Merlin ele ainda tinha Severus para trabalhar com ele quando necessário e fazer essas partes honestamente desagradáveis quando seus experimentos exigiam etapas com poções inclusas.
Logicamente ele se deparava com desafios igualmente desestimulantes em suas pesquisas e desenvolvimento de produtos, contudo, ele fazia de tudo para contornar essas situações quando podia, as vezes até enviando esse tipo de trabalho para terceiros, para receber novamente os resultados avançados de volta para englobar em seus testes e afazeres.
Resoluto, Draco se concentrou ao máximo na musica que rolava animada e ensurdecedora e com um grunhido de asco partiu para a limpeza do alimento.
Quando finalmente percebeu que acabou com a purificação da codorna, Draco sentiu o cheiro acre de algo queimando. Mais que depressa ele correu até a boca do fogão, para salvar a salada. A água tinha secado, os legumes grudados ao fundo eram um purê colorido derretido bizarro e se ele fosse desatento mais alguns poucos minutos a coisa toda pegaria fogo com certeza.
Xingando muito, Draco sacou a varinha a uma certa distancia apontando para o fogão desligando o botão, depois levitou a panela até a cuba da pia, em seguida ainda no comando de sua varinha abriu a torneira.
A água começou a cair e a panela fumegante se enfiou debaixo dela, reagindo sonoramente com um "sssshhhiiiii" de insatisfação.
Merda! La se fora sua tão simplória salada para a terra do nunca!
Paciência! Admitiu. Ele ainda tinha uma codorna para preparar!
Um tanto desanimado o loiro se voltou desgostoso para a codorna, já limpa e suspirou. Procurou com os olhos no livro de receitas o motivo de sua salada ter fracassado e foi com uma raiva tremenda que descobriu não ter se atentado para um detalhe fundamental, o tempo de cozimento.
Draco bateu com a mão na testa em um gesto automático, sentiu a testa ficar gosmenta, então notou que suas luvas estavam sujas por causa dos dejetos retirados da codorna. Um grito agudo irrompeu pela cozinha, Fany e Dink dispensados de ajudar vieram correndo ao encontro do amo para lhe socorrer e se deparam com ele correndo urgentemente para o banheiro.
Meia hora depois, Draco já havia lavado os cabelos, a testa, sua varinha no mínimo três vezes e ateado fogo nas luvas e no avental.
Respirando fundo para recobrar o alto controle o loiro voltou à cozinha, mas antes desligou o som. Quem sabe não foi isso que o distraiu? Por isso, somente por isso, ele perdera o controle do cozimento dos legumes e passara sem querer as entranhas da codorna em sua testa!
Com o som desligado o silencio retumbante caiu sobre a casa. Draco poderia ouvir o eco de seus pensamentos assim que tranquilizou e dispensou pela segunda vez Dink e Fany, que imploraram oferecendo ajuda, que foi negada com veemência por conta do seu enorme orgulho.
De volta as tarefas culinárias com duas luvas extras na mão, dois aventais e mais uma toca, Draco preparou o recheio da ave atento a cada detalhe do livro de receitas da mamãe de Harry. O preparado que rechearia a ave descansava na mesa e Draco finalmente ligou o forno, um tanto irritado, pois aprender a cozinhar realmente não era lá algo que se deu bem de primeiro instante.
Assim que fechou a porta do forno se voltou para a ave e com todo cuidado e uma colher de pau com um cabo extenso ele entochou apressadamente o recheio na pobre codorna babada do descongelamento natural e praticamente atirou o cadáver recheado na forma para enfim colá-la para assar.
Assim que colocou a ave no forno a porta se fechou com um clique do timer a qual ele fizera questão de programar para não perder o tempo do assado. Draco retirou com todo o cuidado do mundo as luvas, os aventais e a toca, organizando seus fios prateados, recompondo sua franja loira e se sentou para revisar os passos do assado.
Foi com bastante surpresa que viu que mais uma vez errara. Esquecera de costurar o peito da ave para que o cozimento fosse uniforme e o recheio ficasse dentro, não pipocando fora da codorna, como aconteceria logo mais.
Draco voltou rapidamente até o forno, tentou abrir a porta, mas como programara o timer não conseguiu nenhum sucesso e a porta do forno continuou fechada.
Com palavrões que deixariam qualquer ser humano chocado ele sacou a varinha e apontou para o eletrodoméstico na tentativa de abri-lo, mas lançou o feitiço com tanta força que acabou por arrebentar a porta, o vidro temperado se partiu em mais de mil pedaços se misturando ao recheio da codorna.
- Filho de uma vadia! – Gritou Draco, diante do seu mais novo insucesso e lá se ia sua codorna para a terra do nunca, junto com seus legumes tão promissores.
Sem ter o que fazer tão irritado quanto um vulcão desperto o loiro passou o resto da tarde estudando teoricamente o livro de receitas antes de se meter as aulas praticas e explodir a cozinha com ele dentro. Teria que se dedicar muito até que conseguisse preparar a famosa "banana caramelizada".
A noite jantou absorto, imerso em pensamentos que revisavam dicas para mexer massas e medidas para temperos.
Dink e Fany balançavam a cabeça desaprovando, preocupados com a sanidade do amo loiro.
Se sentindo injustiçado pelos pequenos segredos da culinária e por que não aguentava mais pensar em comida e o modo com que ela era preparada, Draco vestiu seu pijama e caiu na cama, o dia seguinte seria longo e exaustivo, ele aprenderia aos trancos e barrancos cozinhar para seu Harry, ou ele não se chamaria mais Draco Malfoy.
Longe de diminuir seu talento para qualquer coisa, mas antes que apagasse por conta do forte sono ele pensou: Será que terei que trocar de nome?
