Cap – 08 – Louca Obsessão.

Tão gracioso quanto à bela adormecida, Draco abriu os olhos e fez logo sua careta matinal de "Que droga! Detesto acordar!".

Desperto, retirou as cobertas rapidamente de cima do seu corpo e quando levantou em um tranco só, sentiu-se novamente zonzo, a boca ressecada, a garganta no mesmo estado e todo o seu ser novamente mole.

Quando passou as mãos sobre as abençoadas mexas loiras sentiu-as coladas na testa. A febre novamente, estava lhe sendo mais companheira do que ele gostaria.

Se continuasse assim um pouco mais, ele desistiria de Harry para se casar com essa maldita sensação de fervor que se apoderava do seu interior sem sua permissão.

La se ia mais uma vez o patinho nórdico para seu lago particular e com uma vontade tremenda de voltar para cama. Draco nem se dera a relaxante oportunidade de se enfiar na banheira e por ali ficar até derreter. Uma ducha seria suficiente para afastar as impurezas do seu corpo tão sacrificado pelo mal estar.

Um tempo depois, cerca de quarenta minutos, ele estava vestido e precisava se alimentar. Eram as únicas coisas que sua dor de cabeça horrenda o deixara conceber a principio como pensamentos lógicos.

Tomou o café da manhã apressado, não que houvesse urgência para isso, mas como a teimosia imperava em Draco Malfoy o loiro se via na oportunidade de gastar todos seus impulsos de energia, que no momento era bem poucos, em aprender a cozinhar.

Para se livrar e ficar só em casa, ordenou após o café que o casal de elfos fizessem compras e demorassem bastante para tal. Compras estratégicas, que deixariam o jantar ou o almoço com Harry o mais romântico possível. Como no dia anterior, as criaturinhas sumiram de suas vistas, dele e do maldito livro de receitas.

Não podia negar, estava novamente abatido, querendo colo, frágil e pálido igual a uma folha de seda. Faltava tão pouco para a semana acabar e logo o jogo começaria e quem sabe os Arpies não dessem a sorte de terminar a partida em apenas um dia, independente do resultado positivo ou não e Harry viesse com ele para a casa, se felicitasse com a surpresa que dessa vez ele tinha certeza que agradaria e com isso o perdoasse por ser tão egoísta as vezes?

Banana... Com muita calda... Com... Hum, Harry...

Mais uma vez os pensamentos quase sempre tão saudáveis e singulares de Draco recaiam sobre Harry, Harry e Harry com... "banana caramelizada".

Mais uma vez ele sentia-se roto, ao mesmo tempo em que não parava de pensar em Harry e na droga da banana de Harry. Inspirando profundamente, dando um giro pela cozinha, se paramentou novamente: luvas, toca e avental, voltando ao livro de receitas, seu objeto de ódio no momento.

Se salada de legumes e codorna assada não tinham dado certo ele teria que providenciar algo a baixo disso em dificuldade, mas não via no livro nada mais simples que pudesse impressionar Harry da mesma forma e ao mesmo tempo fosse exótico, ou afrodisíaco. Não que Harry precisasse, nem ele, mas é sempre bom fazer coisas diferentes ao paladar e que literalmente ajudariam a apimentar a relação.

Sua testa formava gotículas de suor e a zoeira em sua cabeça não estava ajudando em nada.

Precisava melhorar, essa febre ia e voltava, o mal estar a acompanhava quando bem entendia e não adiantava tomar nada, considerou, não passava. Decidido a melhorar, Draco ponderou, se até a noite suas condições não mudassem, ele mesmo chamaria um curandeiro.

Nada de hospitais. Odiava todo e qualquer ambiente que tivesse cheiro de gente moribunda misturado a poções de cura e uma infinidade de vírus e bactérias desconhecidos que poderiam lhe deixar facilmente mais doente do que quando entrara.

Tinha a obrigação de ficar bem e logo. Isso era fato, não poderia assistir o jogo fraco, tremulo, desnorteado, completamente adoentado. Se fosse assim Harry o traria para a casa em uma maca, muito bravo com ele por ter mentido. Ele pretendia fazer justamente ao contrario.

Iria ao estádio, estonteante e lindo como sempre, saudável até suas raízes douradas dos seus cabelos perfeitos e traria seu moreno para o conforto do lar deles, para provar a comidinha feita por ele com todo amor e carinho.

Porém naquele momento, só estava se aguentando nas pernas por conta da sua teimosia incrivelmente útil. Pressentindo que não faria efeito nenhum Draco tomou mais uma poção revigorante e cinco minutos depois teve certeza de que estava certo, continuava um caco.

Ciente que teria a tarde toda para se arrastar pela cozinha por que estava podre, ele se decidiu pelo básico: arroz, bife e salada, mas, salada de folhas, o que parecia extremamente simples e irritante de fazer.

Como Harry tinha uma queda horrenda por coisa plebeias demais, não teria problemas em agradar também. E quem sabe? Se fosse bem sucedido poderia incrementar com alguns legumes, "previamente cozidos" que já vinham naquelas latinhas praticas.

O que precisaria mais? Meditou. Aprender usar um abridor? Não parecia muito difícil para alguém que passou com louvor em Hogwarts e nos melhores institutos preparatórios no estudo e na educação para formação de alquimistas.

Então lá foi ele. Mediu as xícaras de arroz e com todo cuidado do planeta, colocou os grãos a sua frente para uma rápida analise. Não saiba por que no livro pedia para escolher o arroz e só então lava-los, já que na embalagem do próprio produto dizia: "grãos selecionados e previamente lavados" e com desanimo voltou seus olhos para a tediosa tarefa.

Draco mexeu na superfície do montinho de grãos, mexeu novamente e novamente, sem realmente procurar nada, afinal, ele nem sabia o que procurar na verdade.

Se achando o maior dos idiotas, foi tomado por uma onda de impaciência e com isso agrupou os grãos novamente na tigela e os levou para enxaguar, ainda que parecesse absurdo no seu ponto de vista, lavar algo que já vinha limpo, mas limpeza nunca era demais, por isso ele insistiu nas dicas.

Mamãe Potter, ou Lily Sogra, não estava ajudando sua vida com um livro de receitas trouxas! Era na real uma merda que não tivesse meia dúzia de feitiços para acabar com seu sofrimento, mas enfim, talvez, isso fizesse Harry ficar ainda mais satisfeito com ele, ao menos era o que Draco esperava.

Lá estava o loiro, enxaguando, enxaguando, enxaguando e foi só então que reparou conforme a água revirava o interior do recipiente que dois, três ou mais pontinhos de cores diferentes, nada parecidos com arroz, imergiram.

Parou de lavar no mesmo instante, escorreu o tanto de arroz da tigela, apertou o pedal da lixeira e sem dó alguma do desperdício que estava cometendo jogou o alimento fora.

Agora já sabia o que procurar no arroz, então escolheu mais uma porção, com pensamentos nada gentis sobre as dicas da "Irritante Senhora Potter" progenitora perturbada de seu querido e se manteve mais de uma hora e meia separando os grãos que ele achava que não prestavam, quando se deu conta, bufou para não perder a mania, precisava separar mais uma medida e escolher novamente, caso quisesse ter uma porção completa para duas pessoas jantarem. Teria que pensar nisso, para refazer sem erros a receita no dia seguinte, deixando-a fresquinha para ele e Harry.

Então voltou a escolher mais arroz e com a pratica que adquiriu na analise dos grãos, passou apenas quarenta minutos dessa vez separando o que restara do terceiro punhado.

Novamente foi até a pia, meteu a tigela debaixo d'água e se pôs a lavar o bendito arroz. Mais meia hora se passou, até que Draco se desse por satisfeito com o aspecto menos turvo e menos esbranquiçado da água que escorria da tigela, sem se preocupar com a aparência inchada que os grãos "hidratados demais" ganharam. Ele continuou a pensar em como as coisas seriam muito mais fáceis se Harry tivesse ficado e feito a droga da banana caramelizada para ele.

Fez questão de dar seu toque, lavando o alimento com água quente para ajudar na higiene do arroz, sem se dar conta de que isso possivelmente começava a arruinar mais um de seus progressos no âmbito culinário.

Depois do arroz lavado, hidratado, ele deixou o alimento escorrer assim como o livro de receitas "Da Sua Pseudo-Sogra" mandava e partiu para o bife como quem parte para a guerra, ou para um assassinato premeditado.

Draco empunhava uma gigantesca faca de churrasco afiadíssima quando soltou a embalagem da carne na pia preparada para recebê-la.

Certo, teria que tirar as gorduras excedentes e toda a parte que lhe parece escura demais como descrevia o livro. Isso era fácil, não era?

Draco começou aparar as gorduras da peça de carne, uma ali, outra aqui, mais uma ali, um pedaço que achava mais escuro, outro pedaço que achou horrendo, mais um pedaço que quase fez com que ele desistisse de continuar manuseando a faca na carne. Um bom tempo depois estava pronto, na verdade, o que estava limpo foram os dois bifes que sobraram intactos para ele e Harry.

Pronto, agora precisava colocar as coisas no fogão e ficar atento com o tempo de cozimento e para acertar na fritura.

Draco mediu a porção de água e enfim o arroz estava no fogo, tampado bonitinho, como descrevia tão bem a senhora Potter em seu livro de receitas "Mamãe Vadia Do Inferno".

O loiro se voltou para a ínfima parte que salvara de uma boa parte do cadáver do boi, dois míseros bifes, de olho nos temperos, sal, limão e outras coisinhas mais, partindo para o que tinha de ser feito, temperar a carne, ou pelo menos o que restou dela, para enfim fritar.

Nessa altura dos acontecimentos Draco não tinha ideia de como era degradante e extremamente nojento, lidar com certas coisas.

Preferia mil vezes correr para a cozinha sentindo o cheiro gostoso da comida de Harry e se sentar a mesa, sem se dar conta de que tudo aquilo que estava ingerindo não havia custado ao seu moreno uma dose excessiva de cuidados, paciência e muito, muito estômago para lidar com alimentos cruz que foram vivos algum dia e que andavam pela Terra de alguma forma.

As receitas eram cheias de pequenos truques, muito artifícios que exigiam pratica e macetes, Draco constatou, não possuía todo esse traquejo. Não para isso pelo menos.

Ele destapou o arroz e meteu a cara para ver qual era o aroma do alimento em pleno cozimento. Contudo, se arrependeu amargamente. O vapor por pouco não fez do seu rosto algo que pudesse se assustar de olhar no espelho.

Arrancou as luvas imediatamente, correu para o banheiro enquanto passava as mãos na sua tez macia para verificar se não tinha sofrido nenhum dano. De fronte para o objeto refletivo soltou um suspiro, aliviado de não ter se queimado, ao mesmo tempo em que não gostou do que vira. Sua testa salpicada de suor, seu rosto tão pálido que mais um pouco poderia ver o sangue circulando por suas veias.

A boca na mesma intensidade imitava cera, ao mesmo tempo em que estava machucada, toda rachada pela febre, seus olhos sem brilho, foscos e as horrorosas bolsas que se formara em baixo deles acrescentou uma nota de medo nele. Sua aparência era deplorável, seu reflexo nunca fora tão pavoroso diante de si, realmente, ele não andava nada bem.

Quando voltou a cozinha a água do arroz havia secado. Sem confirmar no livro de receitas o que estava fazendo desligou o fogo, emprestando suas mãos à tarefa de fritar os bifes.

Sem a menor concentração Draco colocou praticamente meia lata de óleo na frigideira, ligou o fogo automaticamente, mergulhou o alimento e tapou. Tentou se lembrar de algum detalhe das poucas vezes que se mantinha na companhia de Harry enquanto o moreno cozinhava. Porém, a única parte que se lembrou é de que Harry tapava muito bem qualquer tipo de fritura para não espirrar gordura por todos os lugares.

Sua fraqueza, seu abatimento, que mal súbito havia drenado suas forças? Pensou. Todos aqueles malditos dias intermináveis, nunca havia sentido tanta falta de Harry quanto sentia no momento.

Podia recorrer ao conforto de estar com seu moreno até nos piores dias, quando ele, Draco, passava incansáveis horas sentado em uma poltrona desconfortável ao lado da cama do outro em um leito hospitalar, coberto pela capa de invisibilidade para não ser detectado, quando todos os amigos estúpidos grifinórios iam embora a noite, segurando a mão forte e tão protetora de Harry na sua, contando ao namorado, ainda secreto, inúmeras bobagens que se passava no cotidiano fora da deprimente ala hospitalar, enquanto seu amor ainda descansava desacordado silenciado pelo coma, lutando para se recuperar.

Já tinha uma certa repulsa por hospitais antes disso e depois que o seu Harry ficou internado após a batalha final contra Voldemort, ele simplesmente criou total aversão ao ambiente.

Mesmo a beira da morte, Harry permaneceu de certa forma do seu lado. Isso trazia a Draco uma onda de nostalgia suficientemente forte para desviar completamente o seu mundo da onde ele realmente acontecia. No momento? A cozinha.

Não estava fácil para ele como das outras vezes a qual Harry estava jogando, treinando, trabalhando, longe de casa. Algo deu errado dessa vez e Draco não tinha a menor ideia do que era.

O sorriso de Harry lhe veio forte em uma imagem feliz que foi suprimida em seguida pela carranca do moreno ao ver o quarto completamente redecorado.

Draco errara, sabia, não cumpriu com o compromisso de buscar Harry após o jogo e pior, alterou o quarto dos pais do moreno, que em tempos remotos servira também de ninho de amor para seus sogros, onde eles provavelmente conceberam seu único filho.

Ele sentou-se na cadeira mais próxima, admitindo o cansaço, aceitando o mal estar, a fragilidade e a saudades absurda e excessiva que sentia de Harry, que lhe derrubou com violência.

Em meio a alguns pensamentos sem conexão, mas com propósito de ser, Draco apoiou os braços esticados sobre a mesa. Sua cabeça entre eles, imerso em remorso por coisas que nem deveria.

Meia hora afogado em autopiedade que não lhe caia nada bem e não era exatamente apropriada naquele instante, as coisas na cozinha se tornaram quentes literalmente.

Draco até que dispunha de certo talento para cozinhar, não era tão diferente de poções afinal, embora tivesse um pequeno problema de focar no momento, fato que o fez botar tudo a perder de novo.

Maldito tempo de cozimento! O que acontecia que ele parecia perder sempre o "time" das coisas?

Com toda essa distração, uma densa nuvem de fumaça saiu com urgência da frigideira tapada, envolvendo a cozinha rapidamente e a possibilidade da frigideira estar em chamas era praticamente certa.

Quando detectou sinal de fumaça, o fogo estava aparente. Pobre Draco, tão adoentado, perdido, completamente cheio de considerações vis.

Suas ideias mais brilhantes, sempre repletas de boas intenções, assim como o inferno, tão estufadas de boa fé, passavam por uma maré que indicava que quaisquer de seus melhores intentos já despertavam fadados ao fracasso.

Draco se arrastou até a panela, sabendo ao menos que não poderia destampá-la, seria pior, ao mesmo tempo em que também sabia que fritura não combinava com água. Ele mal se deu ao trabalho de sacar a varinha enquanto golpeava com o pano de prato as chamas alimentadas pelo óleo em combustão.

Afobado, agira pelo simples fato de fazer algo a respeito da catástrofe promovida por sua distração. Só lhe ocorreu que podia acabar com tudo aquilo com uma sacudidela de varinha e um feitiço tolo quando o pano de prato também se incendiara ateando fogo na manga de sua veste.

Por impulso meteu o braço na pia embaixo d'água, ao passo que sacava a varinha e apontava para a frigideira envolta por uma alta labareda ameaçadora.

Girou o punho sem entusiasmo algum, com sua varinha em riste, soltando um jorro azul celeste atingindo a frigideira que se congelou no mesmo instante.

Não queimou o braço, graças a Merlin, o tecido resistiu tempo suficiente para proteger sua pele de ser prejudicada pelo fogo.

Ele e a cozinha estavam completamente envolvidos em um nevoeiro tóxico. A fumaça causara um breu denso e Draco apertava os olhos o suficiente para divisar a mobília bem próxima de esbarrar com ela.

Não tinha jeito, mais um dia seus planos foram por água abaixo e ele nem chegara na salada de folhas. Se não tinha forças e capacidade suficiente para fritar duas fatias de bife e cozinhar um arroz, como poderia preparar a maldita banana caramelizada que vinha o torturando há dias?

Subiu para o quarto. Em plena tarde trocou sua veste chamuscada por um pijama confortável e quentinho, independente de estar suando, seu corpo começava a vibrar com força em ondas de calafrios, o fazendo se aninhar na cama, esperando por Dink e Fany.

Entregue ao que julgava ser má sorte, ele não resistiu acordado a volta dos seus serviçais, para ordenar que os dois dessem um jeito na sua funesta tentativa culinária, deixando a cozinha de volta ao normal, arrumada e bem longe dele.

Era a primeira vez que desistia de alguma coisa daquela maneira, abraçado a derrota como se ela fosse sua melhor e única amiga.

Adormecido e febril, Draco sofria na cama preso em sonhos estranhos, onde as imagens passavam confusas por sua mente, em dois principais aspectos: Harry e banana caramelizada, banana caramelizada e Harry, não necessariamente nessa mesma ordem. Desejos ele sabia controlar e obsessão? Isso já era bem diferente, não se podia ir contra.