Cap – 11 – Antônio Bandeiras... O Cara da Revista Trouxa?

Fany e Dink voltaram das compras felizes e radiantes, cumpriram a tarefa do seu grande amo loiro. Os dois pequenos serviçais regressaram a residência cheios de sacolas recheadas com variadas coisas, flores diversas, todas que agradassem o amo Harry Potter, até castiçais que se acendiam sem precisar de vela, produtos que emitiam sons ambiente agradáveis com os mais diversos odores de cereja e morango silvestre e um bela toalha de mesa francesa.

Contudo, uma olhada rápida na cozinha ainda com uma fina cortina de fumaça sabor carne esturricada indicou que Draco mais uma vez não progredira com a tarefa de aprender a cozinhar.

O casal de elfos olhou-se com preocupação quando visualizaram a frigideira degelando, enquanto Dink mexia com desgosto no arroz queimado no fundo e duro por cima.

Vários utensílios de cozinha espalhados, sem contar o avental, luvas e uma toca, todos a esmo em um canto qualquer. Dink estalou os dedos e no minuto seguinte a sujeira abandonou a cozinha e com duas palmas batidas a fumaça se foi, deixando todo o ambiente limpo completamente. Era o momento de subir e ver o que acontecia ao seu maravilhoso senhor loiro.

A porta do quarto estava entre aberta, Fany passou por ela sem abri-la por inteiro com Dink em seu encalço. Os olhos da pequena criatura fêmea se arregalaram, Draco estava sob muitas cobertas, de peito para cima, somente com a cabeça loira para fora dos grossos tecidos.

Com cuidado, Fany puxou um pouco a coberta e encontrou seu amo vertendo suor por todo corpo, principalmente no peito e no seu rosto anguloso e perturbado. Draco gemia baixinho, choramingando, grunhindo, tremia e se movimentava bem pouco por causa das ondas de calafrio, seu estado era digno de dó para qualquer ser que colocasse os olhos sobre ele.

Agindo rápido Fany se aproximou ainda mais e colocou as mãos sobre a testa molhada do loiro e basicamente chorou de medo pela temperatura alta do seu senhor.

Em meio aos fios dourados colados no rosto, ela o sentiu reagir fracamente ao toque, alheio a seu redor, Draco continuou lamuriando e se contraindo em soquinhos, seus olhos fechados, comprimidos, estavam molhados, não por suor, mas por lágrimas.

Os dois elfos se entreolharam assustados novamente. Se estavam proibidos de chamar o senhor Potter, só restava procurar por outra pessoa da confiança de Draco. Severus Snape.


~oOo~


Depois do jogo, depois do hospital, depois do voo para casa...

Enfim, Harry retornara. Sua raiva parecia ter triplicado em cima da vassoura conforme pensava em Draco e no seu abandono e desinteresse flagrante. Harry estava tão puto, mas tão puto, que não se lembrou de descer para procurar algum ponto mágico ou outro transporte para chegar em casa mais rápido e mais inteiro e voar sempre lhe trazia uma sensação de conforto e segurança que mais nenhuma forma de viajar proporcionava.

Ainda que estivesse basicamente comendo a própria boca de tão bravo que estava, voltar trazia uma maravilhosa sensação de dever cumprido e depois de voar muitos quilômetros debaixo de garoa, vento, frio sob aquela droga de roupa nojenta ele havia conseguido, era como ganhar o pomo novamente.

O moreno abriu a porta da frente devagar. Onde quer que Draco estivesse, estava aprontando algo e a fome de surpreende-lo e reprova-lo com severidade era tamanha que mal parou para considerar se as coisas estavam realmente em perfeita ordem.

Seus passos começaram a fazer barulho e o silencio que o seguia passou a assustá-lo.

Será que Draco não estava em casa? Poderia ter ido para o Hospital e ter desencontrado com ele.

Mesmo assim era preciso que checasse.

Foi com grande assomo de curiosidade que ele se aproximou da porta do quarto que estava entre aberta. Não conseguiu vislumbrar muita coisa, a perda do seu óculos o prejudicava consideravelmente, a cada passo que dava seu coração acelerava a espera de algum impacto, algo que lhe desse mais razão de estar realmente furioso.

Antonio Bandeiras... Vou matar Draco se...

Quando finalmente chegou próximo o suficiente viu uma sombra no quarto, alguém de vestes negras e quando abriu à totalmente a porta seu coração falhou de repente.

Severus Snape estava de pé próximo ao leito, onde aparentemente jazia na cama desacordado, Draco, seu querido Grey.

- O que houve? – Harry murmurou sem saber o que falar exatamente, estava cansado, bravo, triste e no momento seu peito estava se partindo em mil pedaços enquanto fitava Draco.

- Potter, ai está você. Já não era sem tempo. – Snape tinha as mangas das vestes arregaçadas até a altura do cotovelo e seu semblante tão desagradável carregava uma nota de preocupação excessiva.

- Severus... Draco, o que está acontecendo? – O apanhador perguntou confuso, enxergando ainda mais desfocado, basicamente entrando em pânico com a cena.

Draco não estava bem, concluiu ele só de passar os olhos pela figura imóvel docemente jogada aos lençóis de seda javanesa. O loiro parecia distante de um sono tranquilo, já que sua aparência no momento era de alguém muito sofrido.

Harry queria se aproximar, queria tomar Draco em seus braços e ver o sorriso majestoso dele se abrindo perfeito e amável para si. Mesmo que estivesse quente em sua casa, ele parecia gelado, Draco parecia gelado e tudo o que conseguiu diante da vontade de gritar e tudo mais, foi se manter miseravelmente de pé ainda absorvendo o impacto da imagem a sua frente.

- Draco não passou bem de ontem para hoje. – Respondeu Severus de olho no loiro.

- O que ele teve? – O coração de Harry estava alucinando inquieto, junto com sua mente que se debatia dentro do seu corpo, enquanto sua voz tremula passava e subia por sua garganta ressecada de medo.

- Aparentemente os sintomas são de um corriqueiro distúrbio que acomete geralmente crianças, não estou bem certo disso, como sabe, não sou curandeiro. – Respondeu o professor de poções com um ar ligeiramente superior.

- Céus, como ele está? – Harry enfim deu alguns passos, vacilando. Se aproximou tocando o rosto perolado do loiro, que reagiu virando-se para o lado.

- No momento, melhor. Draco dorme um pouco mais sereno do que antes. Será que podemos falar em outro lugar? – Perguntou Snape atento aos movimentos lentos e preocupados do moreno.

- É... Her... Claro... Mas eu queria, quero alias... Droga! Queria falar com ele! Saber o que houve! Não posso deixá-lo assim agora que estou aqui!

Era quase impossível se afastar de Draco sabendo que o loiro esteve em apuros e Harry o havia julgado mal desde o momento da partida até o seu retorno e isso estava o matando lenta e dolorosamente, além do fato de Grey parecer frágil e muito vulnerável, desacordado e ainda o retrato da enfermidade, mesmo que Snape indicasse o oposto.

- Ele se recupera bem, mais um momento sem você não vai matá-lo. Garanto, serão apenas desagradáveis cinco minutos, não quero que você tome muito do meu tempo precioso. Tenho mais o que fazer Potter, se você não notou ainda sou uma pessoa bastante ocupada e uma das poucas mentes inteligentes que nunca ansiou marcar hora para falar com vossa excelência! – Snape acidamente lhe indicou a saída.

Já que Draco estava melhor depois de alguns cuidados a única coisa que restava para o mestre de poções agora era explicar ao obtuso Harry Potter, o que ele supunha ter se passado com o loiro.

Os dois homens desceram para a sala. Harry na frente totalmente perdido e apreensivo demais com a figura adoentada de Draco mista a uma pitada de remorso por maldizer o loiro em pensamento durante alguns momentos. Snape, porém, se mantinha como sempre: frio, terrivelmente sério e acima de tudo, inabalável.

- Sente-se. – Mesmo a casa sendo de Harry a voz de Severus soou em tom de ordem explicita.

Pois bem, não era o momento de discutir amenidades como receber ordens em sua própria casa quando Draco esteve precisando dele e Harry não estava lá para socorrê-lo, ao invés disso, o loiro por falta de opção, foi forçado a contar com a ajuda de terceiros, mais precisamente de Snape o homem mais horroroso do mundo segundo a opinião de Harry.

O moreno se sentou devagar, quase em choque. Não sabia dizer se era o cheiro mórbido das roupas de Sterton ou se era pânico que revirava o seu estômago, talvez, mais precisamente, uma mistura dos dois, o que não ajudava seu estômago revolto.

Severus como sempre agia como se Harry ainda fosse aluno, o tratando com pouco respeito e quase sem nenhuma paciência.

A sua tolerância atual para com o rapaz fora baseada em uma métrica simples, porém relevante: a queda de Voldemort anos atrás, que até hoje Snape achava o tão típico grifinório muito dotado de sorte para ter conseguido êxito e o fato estarrecedor de Draco ser completamente louco a ponto de amar Harry Potter verdadeiramente com tudo que tinha.

Mesmo com a diferença de idade e de experiência de vida entre a dupla peculiar sombria de eternos sonserinos, Draco era o mais próximo do que Severus ousaria chamar de amigo.

O loiro sempre fora uma presença interessante, satisfatoriamente inteligente e um bom parceiro de negócios quando surgia à oportunidade, coisa que Snape desfrutou pouquíssimas vezes ao longo de todos seus anos profissionais e de vida.

Se fosse qualquer outra pessoa no mundo que precisasse de seu socorro imediato, certamente o mestre de poções teria deixado morrer, com a mente livre de remorso, obviamente, mas ele não se perdoaria nunca, se não pudesse ajudar Draco de alguma forma.

- Ontem, Dink e Fany, os elfos, me procuraram em Hogwarts. A priori pensei se tratar de alguma dificuldade a qual Draco estava passando com algum experimento mal sucedido em seu trabalho. Quando realmente cheguei a essa residência as criaturas me explicaram aos prantos o que realmente esteve acontecendo com ele na SUA AUSÊNCIA, Potter.

Se não bastasse a culpa o tom de voz acusatório de Snape fez com que Harry praticamente se encolhesse alguns centímetros dentro de seu corpo.

Sorumbático o moreno esperou que Severus continuasse falando para que não precisasse se expressar de nenhuma forma, nesse momento era hiper difícil dizer alguma coisa, por que não sabia a onde estava toda a sua capacidade mental e muito menos a onde se intrometera a suas funções básicas como salivar e se mover.

- Os elfos aplicaram certos cuidados muito bem, até onde podiam e graças à devoção das criaturas o estado delicado de Draco não se agravou. Quando cheguei aqui infelizmente ele já estava desacordado, então não tive oportunidade de saber o que houve por intermédio de suas palavras ainda lúcidas, entre tanto, os seus delírios foram bem... Como posso dizer? Significativamente esclarecedores. – O ainda professor de poções arqueou uma das sobrancelhas, um tanto zombeteiro mesmo que seu ar fosse muito sóbrio.

Harry engoliu de forma automática o excesso de saliva, suas entranhas derretendo, de tão agoniado. Embora não soubesse o que dizer o silêncio na sala demonstrava com clareza que Snape esperava por uma pergunta dele, ou pior, alguma explicação.

Todavia, ele não tinha a menor ideia de por onde começar e a onde Severus queria chegar com as palavras: "Significativamente esclarecedores...".

- Então Potter, pode me dizer, se você suspeita de algo que se passou com Draco para ele estar adoentado? Ainda dessa forma? – O olhar analítico de Snape continuava intrigado sobre o rosto aturdido de Harry, esperando alguma resposta.

- Não. – Respondeu o moreno, vergonhosamente honesto. – Mas, é que eu... Pode ser por causa da... Mas... Não creio que ele ficaria assim!

- Articulado como sempre, Potter. – Snape zombou. - Bem, como estava lhe dizendo, quando cheguei aqui Draco estava na cama desacordado, delirando muito. Sussurrava coisas sem muita coerência para mim, devo dizer, mas pode ser que para você faça algum sentido.

Se Harry desconfiava que o seu estômago se encontrava no pé, quando Snape ousou um tom mais maléfico na voz ao se referir novamente aos "delírios" de Draco, o seu aparelho digestivo estava latejando em seus dedões tentando uma saída estratégica. A sua ficha caiu completamente e ele soube exatamente onde a conversa iria dar.

- O... O que você... Quer dizer com isso?

Pronto, meditou Harry, estava adquirindo junto com mais nervosismo o dom de ficar gago de um minuto para outro.

- É muito simples, Potter. Draco inúmeras vezes se referiu a você, reclamando debilmente saudades. Até ai é completamente compreensível, o que não ficou claro para mim é o fato dele estar aparentemente muito aborrecido com você e ao mesmo tempo com o seu elfo, o famigerado Dobby, ao qual ele esteve se referindo grosseiramente antes da febre ceder e ele finalmente dormir mais calmo.

- Merlin! Draco esteve falando o que sobre Dobby? – Preocupou-se ainda mais Harry.

- Suponho que seria de seu maior interesse saber o restante dos delírios de Draco, antes de você julgar corretamente?

Harry não tinha mais para onde olhar sem encarar Snape, por isso, escorregou no sofá até que a suas costas estivessem quase no acento. Estava com medo, vergonha, remorso e julgava que merecia morrer de preocupação literalmente.

- Então, me diga Snape, o que mais Draco andou falando?

- O que mais ele murmurou, xingou, balbuciou, chorou, reclamou e grunhiu? –Corrigiu Severo.

- É, o que mais? – Harry não tinha capacidade alguma para chutar algum palpite se caso o outro lhe exigisse isso nesse momento. Estava tão confuso e tão triste, era tudo culpa dele, pensou se lembrando do rosto de Draco tão angelical e tão cansado dormindo no quarto.

- Que cansativo, Potter! Serei mais especifico: você prometeu alguma coisa para Draco? Qualquer coisa?

- Her...

- A palavra "banana" quer dizer alguma coisa para você? – Snape comprimiu as espessas pestanas, muito intrigado. Agora que o susto já havia passado, ele podia falar a palavra banana sem que sua mente fosse além da fruta em si.

A principio quando Draco começou a reclamar inconsciente, murmurando: "Banana... Harry... Dobby" ele quase caiu de choque pensando em que perversidade Draco se referia. Se não fosse por Dink e Fany, provavelmente ele estaria pensando se tratar de uma brincadeira depravada muito doentia e condenável entre Harry, Draco e o elfo.

Por Merlin os elfos esclareceram tudo, dizendo que o loiro esteve obcecado em comer "banana caramelizada" e contaram exatamente o que se passou com seu amo loiro a semana inteira.

Desde a mudança na decoração do quarto, até a discussão com o moreno, a ausência de Harry por conta da final do campeonato, o abatimento do loiro, as tentativas de Draco em aprender a cozinhar sozinho e a vontade obsessiva que o loiro havia manifestado em comer a banana caramelizada feita pelo ex-grifinório.

É claro que isso custou dos dois elfos varias pancadas mutuas de punição por confidenciar os segredos do seu amo para alguém que não fosse especificamente obrigados a servir. Porém esse foi o único modo de Dink e Fany conseguirem ajudar o professor de poções a tratar do amo adoentado.

- Vamos Potter! Estou esperando! Prometeu ou não alguma coisa para Draco?

Foi muito violenta a forma como o coração de Harry parou e depois voltou a bater descontrolado contra o seu peito. Na verdade ele não prometera nada, ao mesmo tempo que sabia exatamente do que se tratava.

- Não que eu tenha alguma coisa a ver com isso... – Arriscou Snape. – Mas infelizmente, Draco está em uma cama se recuperando de uma enfermidade "grave" para bruxos por conta disso, então é relevante afinal. Você prometeu a ele, Potter?

- Não! Não! E Não! – Foi a única coisa que conseguiu dizer, a mesma palavra diversas vezes uma em cima da outra.

- Certo... Então Draco está com raiva do elfo por qual motivo? E por que raios ele passou o tempo todo falando sobre você e banana? - Se era de propósito ou não, Harry não sabia dizer ao certo, mas que Snape estava piorando a situação com aquele tom de interrogatório e o modo "dúbio" ao qual pronunciou a palavra banana, isso sim era a mais pura verdade.

- Banana, Potter. Você e banana e alguns grunhidos sobre calda.

Nesse momento o rosto de Snape se manteve neutro, mesmo que seus lábios carregassem um "Q" sarrista.

Não que fosse engraçado Draco sentindo-se mal, mas a conversa estava se tornando muito interessante à medida que o rosto preocupado de Harry, malhado em verde e roxo, ganhava mais tonalidades como manchas disformes esbranquiçadas e outras manchas nas maçãs do rosto vermelho tomate mortificado.

Senso de humor para Snape não estava em ouvir uma boa piada contada por alguém em uma roda social. Era imensamente mais engraçado zombar e caçoar dos outros e por algum motivo único, fazer isso com Harry quando tinha oportunidade era algo extremamente prazeroso.

- Perdeu a capacidade básica de dialogar, Potter? Ou está pensando na calda e na banana? Draco balbuciou muitas coisas, sabia? Ou quem sabe se lembrou do que prometeu a ele? Se for segredo, por favor, me poupe, não preciso compartilhar da intimidade de vocês, graças a Merlin a vida de Draco não depende disso.

Agora sim, Snape condescendeu um ínfimo sorriso de escárnio vitorioso quando Harry praticamente não tinha ar para responder.

- Eu... não. – O moreno engoliu em seco, demorando para se recompor.

Admitia, era lerdo demais as vezes, principalmente quando o nome de Draco estava envolvido de qualquer forma. Todavia, quando viu os lábios de Snape ligeiramente afastados um do outro, teve certeza de que toda aquela atmosfera constrangedora era de propósito.

- Espere, não lhe devo satisfações. – Reagiu o moreno. – Agradeço imensamente por ter vindo até a minha casa, por ter cuidado de Draco e posso lhe garantir, isso não voltará a se repetir. Como sempre desde que estamos juntos, Draco e eu nos viramos muito bem. Quando não é ele zelando por mim sou eu pensando no melhor para ele. Se quer mesmo tanto saber, sempre que eu volto para casa, nas minhas folgas, um dos meus passatempos preferidos é cozinhar. Então eu faço uma sobremesa com banana, à favorita de Draco, aliás.

Snape voltou a erguer uma das sobrancelhas desgostoso, Harry estava raciocinando e falando articuladamente de novo o e que diminuía sua satisfação por tortura-lo, tão graciosamente.

- Infelizmente, por motivos que não vem ao caso, para ser mais especifico: por que não é da sua conta, eu e Draco tivemos um desentendimento, não briga e por isso resolvi não cozinhar, para que ele sentisse falta dos meus pequenos gestos de carinho para com ele. Achei que só assim ele refletiria mais sobre nós e menos sobre os gostos extravagantes dele. Agora o que ele andou falando enquanto delirava, somente você pode me dizer. Mas eu prefiro que me diga o que ele teve exatamente e não me venha com essa de não saber ao certo por que não é curandeiro! Você esteve cuidando dele, com certeza sabe o que foi que tratou. – Foi à vez de Harry fechar a cara pavorosa com rudeza.

Severus sentou-se finalmente. Não que fizesse gosto em dialogar com Harry, mas queria ficar frente a frente com o moreno encarando o outro olho no olho para ver como Harry reagiria quando soubesse que ele teve muito haver com o abatimento de Draco.

- Bem Potter. Não sei se você tem o conhecimento de que algumas doenças trouxas são extremamente perigosas para bruxos. – Snape resfolegou sem paciência e Harry prestava a maior atenção com movimentos bastante nervosos e ansiosos.

– No caso de Draco, se a enfermidade continuasse poderia ter sequelas, como a perda da visão, da fala, da audição, ou até mesmo dos poderes e logo seria a morte. Como lhe disse brevemente, Draco teve um certo distúrbio que acomete em geral crianças, na sua grande maioria trouxas.

O mestre de poções fez uma pausa dramática bem estruturada, recebendo um olhar obstinado e torturado de Potter e se alegrou por dentro com isso.

Confie em Snape para sentir simpatia e compaixão por esquilos fofos perdidos nos campos de Hogwarts, ao mesmo passo que tinha a capacidade de punir e atormentar duramente o moreno a sua frente, extraindo e saboreando um imenso prazer da tarefa, quase orgástica, ao torturar Harry Potter, o herói queridinho do mundo bruxo, o astro mais famoso do quadribol da atualidade.

Não havia nexo realmente na personalidade de cavalheiro das trevas do mestre de poções, com certeza, mas não deixava de ser real, sombria e distorcida.

- Quando uma criança recebe um choque muito forte, - Continuou Severus com sua fala lenta e ordenada. - como a perda de um ente querido, ou uma separação dolorosa, um grande trauma de qualquer natureza, isso pode ocorrer. Em outros casos, com sintomas bastante semelhantes, o desejo de comer alguma coisa, ou ter um brinquedo, pode acarretar nesse tipo de enfermidade, que a principio se assemelha a uma simples gripe, mas no ultimo exemplo é provocado pela vontade que acaba se tornando obsessão. Nos bruxos, principalmente adultos, nunca vi algo assim, se aconteceu é muito raro mesmo. A magia de Draco agiu intensamente contra ele, como uma anomalia autoimune. Se ele fosse criança seria muito perigoso, obviamente, mas menos intenso, porém como adulto, sua maturação energética e suas defesas são mais poderosas e o atacaram mais ferozmente, ao invés de o proteger. Ele teve todos os traços da enfermidade intensificados, o que é muito para se aguentar sem o devido auxilio especializado.

- Então ele teve febre de vontade, por eu ter de alguma forma o desapontado? – Perguntou Harry com mais simplicidade, o semblante ainda duvidoso e completamente parvo.

- Se você coloca nesses termos, tão banais, Draco quase ter fritado literalmente, por sua culpa, sim. – Respondeu Snape suntuoso.

- Mas ele está curado agora? – Quis saber Harry temeroso.

- Em crianças normalmente isso passa quando elas superam o choque, no caso de traumas violentos, com um pouco mais de lentidão e tempo, além de ajuda de profissionais específicos. Quando é desejo de alguma coisa, se elas se esquecem o que estiveram ansiando tanto, ou matam a vontade, a obsessão acaba, o distúrbio se vai. Meu palpite mais generoso, no entanto é que no momento, você terá que dar a ele o que ele quer. Duvido que Draco se esqueça com facilidade que esteve obcecado por sua banana. Quero dizer, pela sobremesa. – Não poderia perder a oportunidade de zombar de Harry que voltou a ficar com as bochechas afogueadas rapidamente. – Somente tratei dos sintomas, mas creio que amanhã ele já esteja melhor e consciente, a ponto de voltar a desejar seu doce preferido.

- Hum... Certo. Sim, acho que posso lidar com isso. – Respondeu Harry, mais aliviado e totalmente encabulado. – Obrigado, Severus, por cuidar de Draco. Se me der licença pretendo subir e ficar um pouco com ele, pode ser que acorde precisando de alguma coisa.

- Creio que ele acordará somente pela manhã, além de outros cuidados, dei-lhe também uma poção calmante. Draco esteve muito agitado, então está praticamente sedado por poção de bela dona. – Snape se levantou com agilidade para um morcego velho rabugento e caminhou até a lareira. Harry pegou o Flu ao lado da lareira, ambos satisfeitos de se livrarem um da presença do outro.

O moreno fez questão de atirar uma pequena porção do pó mágico nas chamas quase findas que se atiçaram e depois tremelicaram verde esmeralda. Snape se virou dando recomendações.

- Minha ajuda acaba por aqui Potter, se Draco acordar com mal estar experimente levá-lo para Hogwarts no mínimo e procure diretamente Papoula, será mais seguro já que ele odeia hospitais. Pomfrey está acostumada com todos os tipos de doenças, se os sintomas persistirem, ela saberá como agir.

- Entendi, espero que não seja necessário. – Apressou-se Harry em dizer. – Tenho certeza de que ele estará melhor. Mesmo assim, obrigado de novo.

Snape emitiu um de seus genuínos olhares exasperados em despedida e entrou nas chamas dignamente altivo como sempre.

- Não me agradeça Potter, fiz por ele, não por você. A propósito: cuide desses hematomas, você já me parece muito pavoroso sem eles, com eles é capaz de matar Draco de susto. E tome um banho, para dar a impressão de que você é alguém asseado as vezes, pelo menos. – Normalmente carrancudo, Snape voltou para os seus aposentos nas masmorras de Hogwarts no instante seguinte.

Harry não teve tempo de responder, mas também não desejava fazê-lo. Com velocidade subiu para o quarto e quando chegou Dink e Fany estavam ao lado de Draco o olhando com preocupação e adoração.

O moreno passou pela porta devagar e com a voz baixa exigiu explicações dos dois elfos, que aos sussurros contaram a ele tudo o que houve em sua ausência.

As pobres criaturas cheias de bandagens por causa dos ferimentos, estavam completamente felizes por que o moreno estava de volta e isso significava Draco em perfeito estado: cheio de manias excêntricas, resmungão, mandão, exigente e com muitas tarefas para eles.

Harry não queria sair de perto de Draco por nada, mas até os elfos, muito educados por sinal, faziam caretas estranhas toda vez que Harry abanava os braços, efeito da roupa mal cheirosa de Sterton.

O moreno se banhou mais do que o necessário, quase esfolou sua pele com todos os produtos para higiene que dispunha no banheiro e depois de uma hora quase derretendo ele jogou o uniforme de Sterton no lixo feliz por ninguém mais ter que tocar naquele tecido.

Quando voltou para o quarto Draco ainda dormia, tão lindo, tão perfeito, mesmo assim, ainda muito pálido e frágil. Ele se deitou ao lado do loiro e lhe afagou os cabelos. Draco murmurou seu nome suavemente e Harry sentiu o peso da culpa dividindo espaço com o alivio de saber que ele ficaria muito bem pela manhã.

Seria um ótimo dia, estaria de folga e dessa vez não haveria nada no mundo para lhe tirar da tarefa de cuidar do seu Grey.

Pensou bastante em todos os acontecimentos da semana, tanto da parte dele, quanto da parte de Draco, relatado pelos elfos do loiro.

Harry adormeceu com a vontade de fazer tudo diferente, ou tudo exatamente igual, desde que fosse de acordo com tudo que Draco precisava e queria.