Ímpares

Prólogo


Haviam três sardas logo abaixo de seu olho direito. Era imperceptíveis, mas sua mãe sabia que estavam ali. O dia em que Narcisa descobrira era uma de suas primeiras memórias: ela esfregou e esfregou a pele sensível até o branco se tornar vermelho.

As sardas, porém, continuaram ali. Eram parte dele, a parte imperfeita que precisava ser escondida à todo custo: Malfoys tinham a pele imaculadamente branca. E Draco Malfoy tinha três sardas logo abaixo de seu olho direito.

Talvez tenha sido naquela tarde, ao ter que segurar as lágrimas tendo apenas três anos - pois Malfoys não choravam -, que suas manias começaram. Com certeza foram imperceptíveis nos primeiros anos. Ninguém se importava com o número de vezes que uma criança lavava a mão, e Draco passara a lavar as mãos compulsivamente toda vez que tocava em algo sujo. Sua pele precisava continuar branca. Limpava embaixo das unhas com perfeição, tentando ao máximo evitar manchar qualquer parte do alvo que antes era o orgulho da família. Com quatro anos, evitava o sol como se fosse um vampiro, passando camadas e camadas da loção usada pela mãe.

Mas aquele era apenas o jeito dos Malfoys. Não era nada de mais. A neurose com limpeza e organização era nada mais do que uma qualidade elogiada de novo e de novo pelos pais. Draco não chora. Não incomoda. Deixa tudo impecável. É o filho perfeito. Tão perfeito, que até mesmo os três pontos escuros abaixo de seu olho haviam sumido, sempre escondidos por uma fina camada de tinta, do exato tom de sua pele.

Draco odiava sardas do mesmo jeito que odiava o número três. Ambos eram precursores de má sorte, amuletos de azar e mau agouro que carregava em si e fazia questão de cobrir todos os dias. Estralou duas vezes cada dedo de sua mão esquerda, soltando o ar aliviado. Naquela noite, o passarinho saiu voando de dentro do armário, e por exatos oito segundos deixou-se acreditar que nada de ruim aconteceria. Não importava que estavam no dia três de Março, ou que aquela era sua terceira noite sem dormir.

E então, viu as três penas deixadas pela ave debocharem de seus esforços, ao mesmo tempo em que ouviu um barulho vindo da porta. Trancar a fechadura e prensar contra a parede o invasor levou três segundos, e se Draco ainda tinha dúvidas de todo o azar que o perseguia naquele fim de noite, teve certeza que estava acabado quando na sua frente viu muito mais sardas do que conseguiria contar.

"O que você está fazendo aqui?" rosnou, desejando ter uma das mãos livres para poder estralar os dedos, ao invés de ter uma tocando sardas, outra pressionando forte a varinha contra o pescoço da bruxa. "O que você está fazendo aqui, Weasley?" repetiu, tentando focar em sua próxima ação, e não por quantos minutos precisaria se lavar.

"Você," A voz saiu com dificuldade, praticamente sumindo quando Draco apertou mais a varinha, vendo a pele ir do branco rosado para o vermelho. "Está me machucando."

Haviam inúmeras sardas naquela pele, de todos os tamanhos e mais variadas tonalidades de ferrugem. Colou seus olhos nos amedrontados da grifinória para evitar tentar achar ali algum número que provasse que não, ele não precisaria chegar à extremos justo naquela noite.

"O que você viu?"

Sentiu a mão pronta para amaldiçoa-la tremer quando uma lágrima o fez notar as três sardas únicas embaixo do olho direito. Os pontos eram tão brancos quanto sua prórpia pele, Draco notou, como se fossem os pequenos pedaços tirados dele naquela tarde de verão. Três sardas brancas, no dia três do mês três, após três noites sem pregar o olho. Seria quase um número par, não fossem as três penas deixadas pelo sabiá. Ao menos não era o número três.

"Mas que inferno, Weasley!" Outra vez prendia a respiração, outra vez puxava o ar como se não respirasse há dias. Ela sabia o que iria acontecer, era por isso que as lágrimas não paravam? Toda aquela água fazia as sardas brilharem, como se caçoando de toda sua inexistente sorte desde o começo da sexta.

Desde o começo do ano.

"Eu não posso te deixar ir." lamentou, mais para si do que para a bruxa. Precisava estralar os dedos, precisava estralar cada articulação de seu corpo para ver se aquilo o livraria da maldição do maldito número que o perseguia desde seus três anos.

"Malfoy, por favor-" Se ele não fizesse aquilo, estaria amaldiçoado. Se não terminasse logo seu serviço, se não mandasse o aviso, se não eliminasse qualquer cúmplice- "Por favor, eu não vi nada-"

Demorou três segundos para ter certeza que a grifinória sabia o que ele estava fazendo.

"Eu sei que você sabe." Olhava fundo nas órbitas cor mel, tentando outra vez buscar qualquer motivo para não usar sua varinha. Por dez segundos deixou-se considerar joga-la dentro do armário, desistindo assim que estabeleceu que qualquer coisa seria melhor do que mandar uma Weasley para um bando de comensais. "Por que você entrou aqui?"

Avada Kedavra. Doze letras. Um número par, e ainda assim, somando-os ali estava o três.

"Use um obliviate, eu vou esquecer de tudo-" Deveria fechar os olhos.

"Muito arriscado." Deveria fazê-la fechar os dela.

Não ceder a necessidade de estralar os dedos já fazia sua mão tremer, e quase deixou um palavrão escapar quando a tensão que havia em seus músculos o impediu de fazer aquilo com seu pescoço. Eram duas palavras, duas palavras, dois, o número perfeito.

"Você não quer fazer isso," Respirou fundo, duas palavras. Duas palavras e tudo aquilo acabaria, duas palavras e ele mandaria o sinal para Bellatrix, duas palavras e sua tarefa seria enfim cumprida, seu pai liberto, o nome de sua família restaurado. "Eu sei que você não quer, Malfoy-"

"Você não sabe de nada, sua pobretona!"

Por que não conseguia forças para a maldição? Por que não conseguia nem ao menos pronunciar a primeira letra, afastar-se e iniciar os movimentos que acabariam com uma das piores situações de sua vida?

"Eu sei, eu sei!" Forçou-se a não recuar quando sentiu dedos trêmulos agarrarem sua capa. "Eu sei o que é ter medo! Eu sei o que é sentir isso, eu sei como é horrível então por favor, por favor-"

"É a minha última chance." disse para si mesmo, seu último recurso para fazer seu cérebro lhe obedecer. "Se eu não fizer isso, ele vai mata-los, ele-" Mate-a. Mate-a ou seja um covarde e jogue-a armário adentro e deixe alguém fazer o serviço para você. Mate-a, mate-a, mate-a. "Ele vai me matar."

Haviam três rachaduras na parede atrás deles, ele contara.

"Oh, Merlin-"

"Cala a boca." Três vezes a bruxa piscou antes das lágrimas voltarem. "Olhe para o outro lado." Três segundos para ela obedece-lo. "Cinco, seis, sete," Não se deu conta que contava alto os últimos onze segundos que a daria de vida. "Nove, dez, onze, doze-"

Jogou-a no chão usando metade da raiva que sentia, a outra metade focada em um único ponto. O armário foi transformado em dezenas de pequenas peças, e pela primeira vez em muito tempo, seu cérebro não quis contar a bagunça que havia feito, ocupado demais repetindo de novo e de novo as últimas palavras de sua mãe.

Peça ajuda à Severo. Peça ajuda à Severo.

Por uma vez na sua curta vida, queria ter realizado algo que fizesse Lúcio olha-lo diferente. Algo que tornasse o menino assustado com as escolhas que fora obrigado a tomar em um homem perfeito aos olhos do pai - apesar de suas três sardas.

Estava morto. Estava morto, e nunca escutaria o que almejou o ano inteiro sair dos lábios do pai. Estava morto, e nem ao menos conseguiria pedir ajuda ao padrinho depois do que acabara de fazer. A Weasley sairia correndo a qualquer momento, e ele cumpriria o destino que traçara ao destruir seu plano em menos de dias, teve certeza daquilo ao escutar três batidas na porta.

Caiu de joelhos, a necessidade de estralar todas as articulações de seu corpo desaparecendo a medida que sentia-se cada vez mais dormente. Engraçado como pensar no fim de sua vida estava lhe trazendo mais calma do que as ações que estava prestes a realizar minutos atrás. Tinha sido vencido pelo seu número, vencido pelas sardas ímpares, e pensar que a voz inquieta finalmente se calaria lhe dava um sentimento mais leve do que qualquer coisa que já experimentara. Aquilo que era sentir paz?

A quarta batida arregaçou a porta aberta, o bruxo vendo de canto de olho Severo Snape surpreso pela primeira vez em sua vida.

"Quero uma explicação que me faça não tirar todos os pontos de ambas casas."

E bastaram três segundos para qualquer sensação boa lhe ser arrancada. A postura de seu padrinho deixava claro que seu fim estava longe de acontecer, assim como as informações que conseguira tirar de sua mente. Snape havia feito um voto perpétuo com sua mãe, descobrira em três segundos, três malditos segundos, todo seu azar ridículo baseado em um número.

"Agora, Malfoy."

Levantou-se, guardando a varinha no bolso interior da capa. Escondeu qualquer nervosismo, trancando qualquer emoção senão sua indiferença. Haviam três pessoas naquela sala, e Draco odiava cada vez mais aquele algarismo.


Nota da Autora: E como eu disse, aqui está minha nova idea que se nega a deixar minha cabeça. Essa fic vai ser talvez mais longa que Escarlate, alguém me para por favor.

Vou atualizar na medida do possível, mas adoraria saber o que acharam dessa prévia. É uma pegada mais draminha, mas é um drama romancinho como sempre pq vcs já conhecem quem está escrevendo, né?

Aguardo opiniões pra continuar!

Fiquem todos bem,

Ania.