Chegamos._anunciou Roxton ao passar pelos grandes portões de ferro. Bem-vinda a McDusky, Sra. Roxton._ estas foram as primeiras palavras de John após longos quilômetros de viagem praticamente em total silêncio. Embora cortês, Marguerite pôde identificar em sua voz algo que lhe lembrou sarcasmo.
Ela ignorou o tom sardônico e concentrou em observar aquela propriedade que a partir de agora passaria a chamar de lar. Era majestoso, no sentido literal da palavra. O antigo castelo datava do século 17, cada grandiosa pedra de sua estrutura era carregada de história, o Castelo McDusky teve seus tempos de glória durante a era dos clãs nas Highlands da Escócia, mas agora parecia apenas uma lembrança do que um dia foi. Ainda sim, Marguerite foi capaz de perceber charme e sofisticação. O marido havia lhe explicado que recebeu a propriedade como herança de um tio distante. O castelo também abrigava as instalações de uma artesanal e promissora destilaria de Whisky, em memória a este familiar, John decidiu cuidar da empresa, afastando-se temporariamente dos negócios que mantinha na Itália. Ela não era hipócrita em dizer que não se importou com a interrupção abrupta da noite de núpcias e da lua de mel, tampouco que não se decepcionou com a forma rude como John a tratou, porém, as linhas expressivas de preocupação no cenho de Roxton a fazia pensar que algo muito sério estava acontecendo e sua primeira obrigação como esposa era apoiá-lo no que precisasse.
Espero que não esteja decepcionada._ provocou ele frente ao silêncio da esposa.
De maneira nenhuma… é lindo. Como em um conto de fadas… espero que com final feliz._devolveu a provocação. Mas ele não manteve o jogo e por um instante Marguerite o percebeu tenso e um pouco desconcertado.
Vamos entrar, quero que conheça sua nova casa. Residiremos na ala norte do castelo, fiz algumas melhorias que garantisse maior conforto a você.
Você é muito gentil, obrigada por tanto cuidado. Mas, admito que qualquer lugar no qual morasse com você seria apropriado._ ela estava sendo sincera. Estava feliz por estar ali com ele.
John suspirou, tentou investigar a veracidade do que a esposa dizia. Seria tão bom se Marguerite estivesse sendo sincera, até por que ele pensava o mesmo, qualquer lugar ficava iluminado e feliz com a simples presença dela.
Por favor, você primeiro._evitou uma declaração de amor indicando o caminho de entrada.
*
Fizeram uma boa viagem, Lorde Roxton?_a jovem moça loira se apressou em segurar a bagagem de mão de Marguerite.
Sim, Verônica. Obrigada. Por favor, me chame de John ou de Roxton se preferir.
Herdando a propriedade, o senhor herdou com ela o título de Lorde, é melhor se acostumar pois não serei a única a lhe deferir tal tratamento.
Roxton bufou, entretanto decidiu não discutir. Estava cansado e aborrecido, não queria outra discussão por menor que fosse.
Faça como quiser. Verônica, deixe-me lhe apresentar Marguerite, minha esposa e senhora desta casa.
É um prazer conhecê-la, milady._ a moça esticou a mão e Marguerite que a segurou retribuindo o gesto com um sorriso afetivo.
O prazer é todo o meu. Assim como meu marido, preferia que me tratasse por Marguerite, somos praticamente da mesma idade e imagino que possamos chegar a ser amigas. O que me diz?
John ficou surpreso pela atitude da mulher. Sabia o quanto ela tentava ser sempre agradável com todos, isso era irritantemente adorável e ele desconfiava que fazia parte de seu plano estratégico para dominar o mundo. Entretanto, sugerir uma amizade com a criadagem parecia ser sincero demais até mesmo para Marguerite.
Farei um esforço, mi…Marguerite._ambas sorriram. Era inevitável notar que surgiu uma empatia natural entre as duas mulheres.
"Marguerite conseguiu uma cúmplice" o arquiteto pensou, porém isso não o incomodava, ao contrário, até o divertia. Embora quisesse vê-la sofrer, uma parte desejava que a esposa se sentisse bem e feliz. Não estava completamente convencido de que afastá-la de tudo e de todos traria acalento ao seu coração atormentado pelo luto, talvez, uma amiga para Marguerite não faria mal ao seu plano de vingança. Até mesmo ela tinha o direito de desabafar com alguém.
Challenger e Malone estão na destilaria?_ perguntou inesperadamente tentando afastar de si qualquer tipo de remorso.
O professor Challenger está no laboratório e Ne… o Sr. Malone foi a Inverness buscar a correspondência.
Não passou despercebido por Marguerite que a jovem corou ao mencionar o nome do Sr. Malone, de certo modo sentiu empatia por ela afinal, também estava apaixonada e tal constrangimento lhe pareceu muito fofo.
Obrigada, Verônica. Agora peço que mostre a Lady Roxton seus aposentos.
Meu?! Não dividiremos o mesmo quarto?_ perguntou incrédula.
Este castelo tem muitos quartos, não tem motivos para que não tenhamos alguma privacidade._justificou-se.
Privacidade é a última coisa que se espera entre um casal recém-casado.
Marguerite, este não é o tipo de assunto que devemos discutir na frente dos criados._ notou Verônica constrangida._Se você preferir, mais tarde tratamos deste assunto. Por agora, trate de descansar e eu preciso trabalhar.
John, o que está acontecendo? Por que está agindo desta forma?_suplicou ela.
De qual forma, querida?_ se aproximou e beijou-lhe a testa dissimuladamente. O Leve contato com a pele de Marguerite o fez se arrepiar. Mais uma vez teve certeza que precisava ganhar distância daquela mulher. Logo a soltou._Não coloque minhocas em sua linda cabecinha, está tudo bem. Apenas tenho problemas sérios a resolver._ mentiu. A destilaria sob administração de Challenger e Malone ia de vento em polpa, o seu desejo incontrolável por Marguerite era o principal transtorno que estava tendo que lidar no momento._Agora seja uma boa garota e acompanhe a Srta. Layton. Tenho certeza que irá adorar a decoração do seu quarto_piscou enquanto se afastava não dando chance à réplica.
Derrotada, Marguerite acompanhou Verônica. Porém, não aceitaria que John tomasse todas as decisões sem consultá-la. Um dos alicerces do matrimônio é o respeito e o marido estava falhando miseravelmente neste aspecto.
*
Marguerite esperou pelo marido até que o sono a alcançou. Despertou com o ruído de Verônica servindo o café da manhã em uma luxuosa bandeja próxima a enorme janela. A vista era espetacular, um vale verdejante se confundia com um lago cercado por montanhas. John tinha razão em sugerir que ela adoraria a instalação, o quarto estava digno de uma princesa, "de uma lady" corrigiu-se. Entretanto, se sentiria bem mais confortável se tivesse a oportunidade de dormir no aconchego dos braços de Lorde Roxton. Refletiu com tristeza que já estavam casados há três dias e ainda não tinham tido a chance de experimentar da paixão que os unia. "A espera quase sempre é compensadora" convenceu-se.
Bom dia, Verônica._ disse enquanto se espreguiçava.
Milady, perdão, não queria acordá-la.
Havíamos combinado de nos tratarmos pelo primeiro nome, lembra?
Sinto muito, Marguerite.
Tudo bem_ ela sorriu_ eu agradeço o cuidado em trazer o café, mas, pretendo fazer o desjejum com meu marido._Marguerite percebeu que a jovem retesou. Era evidente que havia algo errado._Algum problema, Verônica?
Bem… Lorde Roxton pediu que eu servisse seu café no quarto. Quando chegou, bem tarde, perguntou se a senhora havia jantado e, frente a resposta negativa, ordenou que a cozinha preparasse um desjejum substancial.
Isso é ótimo!_ se sentiu entusiasmada pela preocupação do marido. John nos últimos dias estava tão distante que chegou a pensar que ele havia se arrependido do casamento. Contudo, sua felicidade tinha hora certa para acabar_Se ele chegou tarde, provavelmente ainda está em seu quarto. Deixe a bandeja aí, tem comida suficiente para nós dois, traga apenas mais uma xícara. Enquanto isso vou acordá-lo._disse saltando da luxuosa cama.
Sinto muito, mas Lorde Roxton não está no castelo._Verônica sentiu pena em ser a mensageira de tal notícia.
Como não está? Aonde ele foi?
Eu não sei ao certo, mas… _ a moça estava hesitante.
Por favor, me diga!
Ele levou uma bagagem de mão e deixou um bilhete para a senhora._Verônica estendeu a mão entregando o pedaço de papel.
Os olhos de Marguerite estavam marejados de lágrimas de decepção. Em um gesto simples pediu que a jovem se retirasse e então se pois a ler.
"Marguerite,
Sinto ter que lhe deixar sem aviso, porém, quando voltei da destilaria você estava dormindo e não quis despertá-la. Precisei viajar a Edimburgo para uma reunião e assinatura de alguns contratos, volto em alguns dias.
John".
Ela amassou o papel e jogou sobre a cama. Uma lágrima teimosa escapou de seu olhos. John havia passado dos limites, toda essa indiferença era injustificada. Podia compreender que ele estava enfrentando problemas financeiros e que toda a mudança recente em sua vida poderia estar o afetando de alguma forma, porém, nada justificava ele descontar suas frustrações nela.
Prometeu a si mesma que nunca choraria na frente de Roxton e que daria a ele um pouco de seu próprio remédio.
*
Tão logo deixou Inverness, John percebeu que não conseguira ficar muito tempo longe de Marguerite. A viagem a Edimburgo era a desculpa perfeita para manter a distância da esposa por alguns dias, mas, então por que ele desejava desesperadamente terminar todos seu compromisso para retornar para casa?
O acordo que lhe trouxera a capital era muito importante para a Dusky, porém, a reunião estava por demais enfadonha. A imagem de Marguerite vestida com a camisola vermelha não deixava sua mente em paz, e se maldizia por não conseguir controlar seus instintos e vontades, mais que isso, amaldiçoava ter se voluntariado a participar de tal evento. George tinha se oferecido para ir, mas Roxton insistiu que esta era sua responsabilidade.
Agora, ali estava ele, irritado e impaciente. Além disso, o preocupava como a esposa teria reagido quando acordou e não o encontrou. É verdade que sua intenção era magoá-la, só não esperava que imaginar sua mágoa feria a ele também.
Estava decidido, assim que terminasse a reunião voltaria a Inverness, ainda haviam algumas horas de luz no dia, a estrada era tranquila já que não haviam ocorrido nevascas recentemente. Pelos seus cálculos, chegaria a McDusky um pouco depois de anoitecer, por sorte poderia jantar na companhia de Marguerite. Sorriu pela agradável expectativa de saborear uma refeição ao lado da esposa.
Lorde Roxton, está de acordo com os termos?_ a voz do homem a sua frente fez com que John se despertasse para o que deveria estar atento.
Receio que sim… _ disse sem muita certeza uma vez que não tinha escutado uma só palavra do que homem dissera.
*
Se Roxton pensa que ficarei deprimida em meu quarto à sua espera, ele está muito enganado_ disse a si mesma enquanto vestia suas botas de montaria.
Naquela manhã, Marguerite saboreou o delicioso café que Verônica a serviu e tirou o resto da manhã para conhecer a propriedade. Por conta própria se apresentou aos funcionários da destilaria e rapidamente ganhou a simpatia de todos. Fez questão de almoçar no refeitório junto com os operários, Challenger e Malone.
O professor ficou encantado com seu conhecimento em farmacologia e sua desenvoltura sobre o processo de fabricação do whisky. Ela ficou muito entusiasmada com a qualidade da bebida e com as técnicas aplicadas e padronizadas por ele. Sem dúvida se tornariam bons amigos por compartilhavam o amor pela ciência. Em muitos aspectos, George Challenger a lembrava seu tio Arthur e ela sentiu saudades. Por isso, no meio da tarde decidiu ir a cidade e tentar contato com a família. Não era apenas falta deles que a motivava, Marguerite precisava de conselhos e o tio deixou claro que sempre estaria ali para apoiá-la. Além disso, sua saída inesperada de Londres poderia ter causado alguma preocupação aos Summerlees, uma ligação seria o suficiente para tranquilizá-los.
Lady Roxton, aonde vai?_perguntou Malone quando a viu caminhando em direção aos estábulos.
Oh… que susto!_disse em sobressalto._Eu irei à cidade.
Eu posso levá-la de carro.
Não é necessário, pretendo ir cavalgando.
Então posso acompanhá-la.
Por que eu acho que você está me vigiando?
Não é isso, milady. Apenas… Lorde Roxton pediu que eu cuidasse da sua segurança enquanto ele estiver fora.
Lorde Roxton parece não se importar com o que eu penso ou sinto, por que se importaria com a minha segurança?_ Marguerite notou o olhar confuso do rapaz e logo se arrependeu de ter descontado nele sua frustração._Eu sinto muito, não é culpa sua. De qualquer maneira, dispenso sua escolta.
Mas… milady…
Nem mais uma palavra. Na ausência de John, eu dou as ordens, não é verdade?
Malone concordou com a cabeça, mas, ainda não tinha certeza se estava fazendo a coisa certa.
Ótimo! Que bom que nos entendemos._continuou seu caminho em direção ao estábulo quando se lembrou de algo._Malone, apenas me esclareça… pra qual lado mesmo fica a cidade?
*
Residência da família Summerlee._ a voz de Mary ecoou do outro lado da linha e Marguerite como uma boba ficou emocionada por ouvir alguém conhecido.
Mary, sou eu, Marguerite! Estou feliz de ouvir sua voz.
Sra. Roxton, que surpresa._ Mary era uma excelente governanta, e como tal, não era dada a demonstrações de sentimento, tinha sido bem treinada para isso. Entretanto, Marguerite notou uma alegria em sua voz o que aqueceu seu coração.
Mary, meu tio está em casa? Preciso muito falar com ele.
Lamento, senhora. Sir Summerlee ainda não retornou da fábrica. Apenas Lady Anna se encontra na mansão.
Marguerite ponderou se a tia seria uma boa aconselhadora, nunca tiveram uma boa relação e, com certeza, diria que era sua culpa o comportamento estranho de John. De qualquer forma, ouvir uma voz familiar a faria bem, gostaria de dizer a tia que tinha feito uma boa viagem e que sentia saudades.
Pode transferir a ligação para minha tia, por favor, Mary?_ a governanta o fez e em poucos instantes Marguerite falava com Anna._ Boa tarde, tia… como a senhora está?
Marguerite, que surpresa, não achei que lembraria de nos ligar durante a sua lua de mel.
Na verdade tivemos que interromper nossos planos, estou em Inverness, gostaria de dizer que fizemos boa viagem e…
Excelente querida._ Anna como de costume a interrompeu_ Marguerite, há algo que quero que saiba. Espero que compreenda minhas razões… Sua saída de Londres é um sopro de esperança para a vida de Benjamin. Você sabe o quanto ele sofreu com seu noivado e convivendo aqui com você e os preparativos do casamento… enfim, seria ideal que se mantivesse afastada da família por um tempo. Este é um apelo de mãe, tão logo você provavelmente será mãe também e me entenderá._disse sem rodeios.
Um tapa doeria menos. Marguerite sentiu um aperto no peito e uma vontade incontrolável de chorar. Nunca imaginou que ao buscar apoio na família se sentiria ainda mais sozinha. Também sentiu uma onda de culpa pelo estado lastimável que Benjamin se encontrava e começou a refletir que talvez Anna tivesse razão, ela era capaz de fazer mal a todos que estivessem a sua volta.
Incapaz de dizer qualquer outra coisa, Lady Roxton desligou o telefone sem se despedir. Com lágrimas escorrendo pelo seu rosto, montou no cavalo e o incitou a galopar o mais rápido que pudesse, exigiu a máxima capacidade do animal como se estivesse descontando nele a dor que sentia. Não notou quando na beira da estrada o alazão se assustou com algo que viu e empinou as patas dianteiras. Marguerite desprevenida não conseguiu se equilibrar e foi arremessada de cima de seu lombo. O bicho saiu em disparada deixando sua amazona inconsciente no chão.
