"Olha lá vem o sol

Vai chegar novo dia

Lá vou eu inventar esperanças de novo (…)

Nesta altura da vida eu não acho direito

Passar noites em claro assim

Relembrando (…)

Quando você me queria, eu não quis

a cabeça estava em outro lugar

a felicidade em cima de mim

bem ali debaixo do meu nariz

e eu não pude enxergar

Essa mistura de saudade e de dor

é um preço que eu cansei de pagar

hoje mesmo eu vou atrás de você

lá vou eu me desculpar outra vez

na esperança de você perdoar (…)".

Vida Minha/ Peninha.

*

Marguerite…_murmurou John quando ouviu o som de sua voz e então a vislumbrou imponente e linda na entrada da igreja. Arthur, Benjamin e Anna cochichavam em voz baixa com ela tentando abafar um escândalo maior. Por impulso se moveu para ergue-se e ir até ela, mas foi contido pela mão de Danielle.

Você não vai impedi-la._ ordenou a morena.

Mas é Marguerite… eu preciso…

Você precisa dar espaço para ela fazer o que tem que ser feito._esclareceu._John, você é a última pessoa que ela quer ver agora. Deixe que ela desmascare Maylenne e então você mostra as provas. Dê a ela apoio, mas, não a impeça.

Você tem razão._concordou relutante. Esticou um pouco o pescoço e identificou logo atrás da esposa uma figura._Askwitch! Como não pensei nisto antes._ concluiu com raiva.

O que?_quis saber a italiana enquanto olhava na mesma direção que Roxton.

O intrometido do Andrew Askwitch deve ter ajudado Marguerite e a escondeu por esses dias.

Danielle então observou o homem loiro, levemente calvo que escoltava Marguerite.

Ele é bem charmoso._ela observou.

John bufou com impaciência.

Achei que você estivesse aqui para me apoiar, não para me deixar mais desmotivado.

Entenda que quem cavou a própria cova foi você mesmo, e, mentir sobre a aparência daquele cavalheiro não vai ajudá-lo em nada.

Como se soubesse que estavam falando sobre ele, Andrew olhou na direção de John e Danielle, encontrando o rosto fechado do nobre, o que não o surpreendeu, entretanto, o sorriso encantador no rosto bronzeado da acompanhante de John o atraiu de imediato. Por instinto, o ex oficial lhe ofereceu uma reverência silenciosa, que foi correspondida com uma piscadela ousada da mulher.

Eu não acredito que você está flertando com Askwitch._ Roxton proferiu incrédulo.

Pois acredite. E agora veja, eles estão indo para a sacristia. Acho que você deve entrar em ação. Vá com eles, Marguerite precisará de sua ajuda.

Tem razão. Cuide-se… e tente ser discreta. Você está em Londres, não em Milão.

*

Minha filha… o que você está fazendo?_ Summerlee tomou as mãos de sua sobrinha favorita. Seu tom era carinhoso, mas, sabia que o tio a repreendia.

Marguerite, eu não esperava que você estivesse aqui… e impedisse meu casamento._Benjamin emitia algum entusiasmo em sua voz. Em seu íntimo desejava que aquela interrupção tivesse algum cunho afetivo e que talvez ela estivesse com ciúmes dele.

Benjamin… por que não acompanha sua noiva a sacristia._ sugeriu Anna._E quanto a você, que diabos pensa que está fazendo?_Marguerite podia ver lampejar o ódio nos olhos da tia, muito embora sua expressão e volume de voz permaneciam inalterados. As aparências precisavam ser mantidas.

Eu esclarecerei tudo… prometo. Porém, preciso que adiem o casamento._implorou com olhar ao tio. Arthur era o único capaz de enxergar a verdade em seus olhos.

Isto é um absurdo. Saia daqui imediatamente._exigiu Lady Summerlee, enquanto sorria dissimulada a um fotógrafo que registrava a cena._Você já causou transtorno demais. Achei que tinha sido clara quando disse para se afastar da família, estávamos bem melhor sem você.

As palavras ainda que cruéis não atingiam Lady Roxton, seu objetivo era muito maior que os insultos da tia. Na verdade, quase a compreendia, um a mulher que viveu toda uma vida para sustentar a moral e bons costumes de uma família tradicional, agora se via vulnerável diante de um escândalo eminente.

Anna… você pediu à Marguerite se afastasse de nós?_perguntou o marido incrédulo._Ela é nossa filha._não escondia a decepção.

Ora Arthur, não me venha com sermões agora, fiz o que tinha que ser feito. Benjamin estava sucumbindo e a proximidade com Marguerite só faria acelerar este processo. Além do mais, isso não justifica o circo que sua "querida" filha está criando. Olhem, todos estão nos observando.

Vamos para sacristia, você nos dirá porque apareceu hoje de forma tão tempestuosa e acusou sua irmã._ Sir Summerlee decidiu seguir seus instintos e conceder a Marguerite um voto de confiança.

Não acredito que você compactuará com isto, Arthur.

Chega, Anna!_ disse com uma convicção que assustou a esposa._vamos para sacristia.

Resignada, Lady Summerlee seguiu com os demais para a sala ao fundo da igreja. O celebrante enfim avisou aos convidados que a cerimônia se atrasaria alguns minutos.

*

Entediada Danielle levantou-se do seu banco e caminhou até a varanda da austera abadia. Ela como arquiteta se encantava com a grandiosa construção. Tudo naquele lugar refletia poder e soberania, contudo, Londres não a excitava. Era fria e extremamente contida. Totalmente diferente de sua natureza livre. Procurou em sua pequena clutch italiana um isqueiro para acender o cigarro que pretendia tragar.

Droga… sem fogo._praguejou para si mesma em italiano._o ambiente acabou de ficar mais entediante._concluiu solitária.

Não conseguiria colocar você e entediante em uma mesma frase._soou uma voz em seu idioma natal, mas com evidente sotaque britânico, acompanhada de uma mão que lhe oferecia um isqueiro.

Danielle reconheceu o homem loiro que acompanhava Marguerite. Sorriu em agradecimento pelo fogo e pelo flerte.

Andrew Askwitch._apresentou-se estendendo-lhe a mão.

Danielle Moretti._retribuiu a atitude. Em um gesto que ela julgo muito sensual, o charmoso homem levou seus dedos aos lábios.

Ammaliato.

Danielle sorriu pelo esforço dele em manter uma conversa em italiano.

Encantada também. Seu italiano é excelente, mas, acredito que o meu inglês seja mais fluente._ela sorriu._sem ofensas é claro.

Sem ofensa nenhuma, na verdade foi um alívio_confessou_ meu vocabulário é bem limitado em seu idioma._deu uma leve gargalhada.

Ela o acompanhou em seu riso.

Então, você conhece Lorde Roxton?_perguntou com curiosidade. Não estava interessado em saber se John já havia encontrado companhia tão facilmente, queria era saber o que ele significava na vida daquela encantadora mulher. Danielle era tão diferente de todas que conheceu, parecia ser bobo, mas sua espontaneidade despertou algo adormecido entro dele.

E você conhece Lady Roxton?_respondeu com outra pergunta.

Inevitavelmente ambos riram novamente. Askwitch concluiu que em poucos minutos com ela havia se divertido mais do que em meses.

Você não está facilitando…

Eu sei._controlou-se._Desculpe-me. Respondendo a sua pergunta, sim… eu e John somos amigos a muito tempo, e sócios em Milão. Estou aqui porque sei que ele pisou na bola com Marguerite, e alguém precisa vigiá-lo para que não faça novamente. Agora é sua vez.

Marguerite e Roxton são meus vizinhos em Inverness. Ela me pediu ajuda há alguns dias e eu a ajudei.

Isto é tudo?_perguntou sem acreditar na resposta simples dele._Você não tem interesse nela?

A forma direta como Danielle se expressava o surpreendeu, contudo, não o incomodou, ao contrário, tornou-a ainda mais desejável.

Não da forma que você imagina. Tenho um carinho por Marguerite e quero o seu bem.

Então pode me ajudar a reconciliar estes dois, o que acha?

Não sei se isto é melhor para ela._respondeu confuso._Marguerite confia em mim.

Andrew, por favor, é óbvio que eles se amam. O que é melhor para uma pessoa que o amor?

Ela falava deste sentimento com tanta propriedade que Askwitch se perguntou se havia alguém em sua vida. Ela era uma mulher linda, independente e encantadora, seria um milagre ainda estar sozinha.

Não posso trair a confiança de Marguerite._afirmou ele._Porém, posso convidar você para jantar comigo amanhã a noite, o que fará com informação do endereço do hotel que estamos hospedados é responsabilidade inteiramente sua._concluiu com uma piscadela.

Danielle sorriu satisfeita. Adoraria jantar com Andrew, e de brinde daria a John a direção de onde encontrar Marguerite.

Convite aceito. Encontro você as 8h no restaurante do seu hotel.

*

O que ela ainda está fazendo aqui?_Maylenne ergueu-se alterada quando notou que Marguerite entrava na sacristia acompanhada dos tios e de Benjamin.

Acalme-se, querida. Já resolveremos este mal entendido e tudo ficará bem._tranquilizou-a a tia.

Agora, diga-nos, Marguerite, porque acusou sua prima de farsante?_exigiu Arthur, porém se agressividade. Ele sempre tendia a acreditar na palavra da sobrinha, ela nunca o havia decepcionado.

Maylenne teve um caso com William Montgomery. Engravidou dele, fez com que abrisse mão da sua posição na corporação e conquistasse fortuna na Escócia. Depois de um tempo ela o rejeitou, disse que não estava apaixonada e..._ela fez uma pausa buscando coragem_e… realizou um aborto da criança que esperava dele._Marguerite disse os fatos sem rodeios.

Isto é uma mentira!_gritou Maylenne._Não podem acreditar nela!

É verdade, você sabe disso! Fez com que John acreditasse que eu era a real amante de William…

Não só a John._ interrompeu_Maylenne me disse que você tinha tido vários amantes, e que este funcionário da empresa foi um deles. Por isso eu… bem, por isso eu a tratei daquela forma no dia do seu casamento.

Marguerite controlava as lágrimas, precisava ser forte, não vacilaria.

Como vocês podem acreditar nela e não em mim?_Maylenne olhava para a família que exibia olhares confusos, até mesmo Anna estava chocada com as revelações._Titia, ouça-me, é mentira de Marguerite, ela é invejosa e quer destruir minha felicidade.

Assim como você destruiu a minha?_questionou a irmã com desprezo.

O que você quer dizer com isso?_perguntou Arthur a sobrinha. Algo em sua aparência e na visita de John ao escritório lhe dava a intuição de que o casamento dos dois não ia bem.

Não vem ao caso agora tio. Em outro momento…_Marguerite não queria envolver a família, principalmente o tio em seus problemas conjugais. Depois que tudo tivesse resolvido ela pensaria em sua relação com o marido.

Você tem alguma prova disso?_Anna se agarrou a alguma esperança de que seu julgamento sobre Maylenne não estivesse equivocado, e que sim, ela era a moça perfeita para ser a nova Lady Summerlee.

Infelizmente não._lamentou Marguerite._tenho apenas a minha palavra. Espero que seja suficiente.

Vocês estão vendo?_apontou Maylenne visivelmente descontrolada para a irmã a sua frente._ela não tem provas, está mentindo!

Ela não tem, mas eu tenho!_Roxton entrou na sala no momento exato que a esposa precisava de sua ajuda.

Marguerite sentiu as pernas falharem e seu coração se acelerou em disparada. Não esperava encontrá-lo ali, não tinha se preparado para isto, porém de certo modo sentiu-se segura e aliviada. John estava elegante em um terno claro com gravata mais escura. Ela notou o brilho em seus olhos quando encontrou os dela, entretanto, preferiu evitá-los. Um problema de cada vez, pensou.

Vejam_ retirou do bolso interno do paletó um pedaço de papel amassado e o pingente em forma de M._William era meu irmão. Quando soube de sua morte fui para Inverness e entre os seus pertences encontrei isto. O bilhete da mulher que amava assinado com M. Summerlee, e essa joia._Roxton entregou o bilhete a Arthur que reconheceu imediatamente a caligrafia de Maylenne._Eu fui a sua casa aquela noite buscando encontrar a mulher que traiu meu irmão._ sua voz tinha lamento mas não era hesitante. Ele nunca fugiu de suas responsabilidades e não seria essa a primeira vez._Eu queria vingança._admitiu_ Maylenne me fez acreditar que Marguerite era esta mulher, e foi assim que me envolvi com ela.

Você está querendo dizer que casou com minha filha por vingança?_Arthur o fuzilou com o olhar. Não deixaria barato se John a tivesse feito sofrer, isto era uma falha imperdoável.

A princípio eu achei que a odiava, mas, com o passar do tempo me vi completamente apaixonado._ele disse as palavras olhando fixamente para a esposa, na esperança que ela acreditasse no que ele dizia. Viu que seus belos olhos agora estavam rasos d'água. Ela sabia que ele a amava, mas ainda não estava pronta para perdoá-lo.

Titia, por favor… você não está acreditando neles, né?_Maylenne se ajoelhou diante de Anna.

A mulher mais velha ergueu os olhos com desprezo e em uma atitude inesperada revirou a mão na face da sobrinha.

Saia da minha frente agora!_gritou.

Maylenne levou a mão a rosto latejante. Enxugou as lágrimas com o dorso da outra mão e se levantou juntando o resto de orgulho que lhe restava.

Vocês todos se arrependeram disto!_ameaçou quando saiu da sala batendo a porta.

Marguerite estava exausta. Seu corpo estava dolorido da tensão que suportara e seu estômago revirava de ânsia. Ela precisava sair dali.

Querida, aonde está indo?_questionou Arthur.

Sinto muito tio, eu prometo que entrarei em contato, mas preciso pensar agora.

Ele aceitou a decisão dela, mais do que nunca sabia que ela faria o melhor sempre. Todos precisavam pensar e ela também tinha esse direito. Beijando-lhe a testa ele lhe deu sua benção como tantas vezes o fez.

Quando já estava próxima da limousine, Marguerite ouviu a voz de John gritando por ela. Tentou ignorar mas ele se era rápido e alcançou.

Marguerite, precisamos conversar.

Agora não.

Por favor…

Você não tem o direito de me pedir nada, me deixe em paz!_abriu a porta e entrou no automóvel. Ela estava a ponto de desmaiar e não queria que John suspeitasse de sua gravidez. Sua vida havia tomado outro nível de prioridade e ela precisava de tempo para se acostumar e pensar nisso. Seu filho era o que mais importava de agora em diante, o dia já tinha sido carregado de emoções e uma conversa séria com o marido não a ajudaria em nada. Um problema de cada vez, repetiu mentalmente.

Ele ainda tentou correr atrás do carro, mas era inútil. Havia a perdido novamente.

Inferno!_praguejou.

O que aconteceu?_perguntou Danielle quando o viu desolado.

Eu a perdi de novo. Não faço ideia para onde foi._lamentou.

A morena sorriu exibindo um papel com o endereço do hotel onde encontraria Askwitch.

Eu não contaria com isso.