Draco Malfoy se sentia exausto quando saiu do hospital St. Mungus naquela quinta-feira. Tinha sido uma longa semana, cheia de plantões e casos complicados, e a chuva quase que constante não ajudava com a animação.
Encontrar com Blaise e Pansy às quintas-feira depois do expediente já havia se tornado uma tradição. Adoravam se juntar para jogar conversa fora e beber alguma coisa e Draco sempre se sentia mais leve e menos estressado depois de algumas horas com os amigos.
O OutBar era o lugar que eles mais frequentavam por ser muito perto do trabalho de Pansy e Draco. Não era o melhor bar da cidade mas tinha uma boa cerveja amanteigada, aperitivos gostosos e, em dias mais quentes e sem chuva, diferentes daquele, era muito agradável sentar nas mesas do pátio.
Chegando no bar, Draco logo localizou os amigos em uma mesa no canto mais afastado e os longos cabelos loiros sentados de costas chamaram a sua atenção.
– Luna? – chamou Draco se aproximando dos amigos e, quando a loira se virou para ele com um grande sorriso, acrescentou – Não sabia que você estava na cidade.
– Tivemos um pequeno problema com a edição desse mês – respondeu Luna enquanto Draco cumprimentava os outros dois amigos e se sentava – Voltei tem 2 dias só
Depois de concluir a escola, Luna havia assumido O Pasquim e a revista nunca fizera tanto sucesso. Principalmente quando, a cerca de dois anos, Gina Weasley a convidou para lhe acompanhar em uma de suas viagens com as Holyhead Harpies, onde Luna ficou fascinada com as novas histórias que ouvia e fascinou a todos com a excêntrica revista. Desde então a loira passara a acompanhar a amiga em todas as suas viagens pelo mundo e havia até feito algumas versões d'O Pasquim em outras línguas.
Draco nunca deixava de se impressionar com a amiga loira e ainda se lembrava perfeitamente a primeira vez que conversaram, no trem para Hogwarts após a guerra. Ele havia sido obrigado a voltar como parte da sentença dada no julgamento de sua família e, assim com Parkinson e Zabini, sabia que não seria recebido de braços abertos uma vez que não tinha lutado contra Voldemort. Os três estavam de mau humor na cabine quando ela passou oferecendo exemplares d'O Pasquim. Eles aceitaram querendo apenas que ela voltasse a fechar a porta para evitar os olhares dos alunos que passavam mas Luna começou a comentar suas matérias preferidas daquela edição. Quando viram, o que havia começado como comentários sarcásticos dos sonserinos sobre as excentricidade da loira tinha se transformado em uma discussão sobre as peculiares criaturas que apareciam na revista e em sugestões de bijuterias para fazer par com as que ela usava. Como mágica, todo o mau humor havia se dissipado e os três, que em geral eram reservados, tinham baixado a guarda. E fora assim o resto do ano letivo; os três ficavam sempre juntos e evitavam lugares com muitas pessoas mas, quando menos esperavam, Luna aparecia para tomar café da manhã na mesa da Sonserina ou se juntar em uma tarde de estudos na biblioteca, sempre os deixando ao mesmo tempo gratos e espantados pela simplicidade com que ela os tratava, deixando o passado no passado.
Não tinha como não adorar Luna e sua forma de ver as coisas, isso todos concordavam. Mas Draco percebera que, desde a última vez que a loira tinha passado um período maior em Londres, Blaise parecia estar mais encantado do que nunca. O moreno a olhava com um brilho nos olhos que Draco nunca pensou que fosse ver vindo do amigo. Sim, Luna era uma mulher muito bonita, mas para Draco parecia ser mais do que isso. Com esse pensamento Draco fez uma nota mental para se lembrar de conversar com Blaise sobre o assunto.
Já estavam a algum tempo no bar. Luna já comentara sobre todas as suas últimas aventuras pelo mundo; Blaise já tinha dado detalhes sobre a nova coleção de vestes bruxas de sua grife; Draco contara sobre o seu último caso, uma criança que, em um momento de empolgação, havia feito a pele ficar colorida e com um curioso cheiro de bala; e Pansy discutia como estava sendo estressante no laboratório com a criação da nova poção para estancar sangramentos gerados por feitiços. Não sabia ao certo como eles tinham chegado naquele assunto, mas parecia ser cada vez mais frequente eles se verem discutindo algo que Draco detestava falar sobre: sua vida amorosa, ou, como Pansy gostava de corrigi-lo, a falta dela.
– Também acho que você deveria sair pra conhecer gente nova. – disse Luna
– Viu! Até a Luna concorda comigo! – exclamou Pansy
– O que você quer dizer com "até a Luna"? – perguntou Blaise entre dentes olhando feio para Pansy
– Vocês sabem que não é tão simples assim… – respondeu Draco de forma arrastada ignorando o comentário do amigo
– Não quero nem ouvir, são sempre as mesmas desculpas! – insistiu Pansy – Já se passaram 8 anos do final da guerra. Além disso, você enfrentou o julgamento de cabeça erguida e cumpriu tudo que eles mandaram…
Draco se perdeu em pensamentos olhando pela janela na parede oposta a chuva cair insistente. Pouco antes do final da guerra a família Malfoy fugira para a França mas, cerca de dois meses depois, quando foram intimados para o julgamento, eles decidiram que o melhor seria voltar e enfrentar as consequências de seus atos. Lucius fora condenado a cumprir sentença em Azkaban mas, como já estava com a saúde muito fragilizada, acabou morrendo menos de um ano depois. Narcissa e Draco não precisaram ir para a prisão, doaram grande parte da fortuna da família para os reparos dos danos da guerra e a mansão Malfoy fora transformada em um abrigo temporário e, posteriormente, em um orfanato. Além disso, Narcissa tivera que fazer trabalho voluntário e passou a dedicar grande parte do seu tempo em transformar sua antiga casa para receber as crianças. Acabou se apegando tanto ao que fazia e às crianças que chegaram que, mesmo depois de ter cumprido todas as horas necessárias, continuou trabalhando no orfanato. Draco, por sua vez, fora obrigado a voltar para a Hogwarts e manter um comportamento e notas exemplares e hoje era grato por isso, pois tinha possibilitado que ele seguisse carreira como curandeiro.
– Fala isso porque não tem o sobrenome Malfoy e uma tatuagem no braço que faz qualquer um correr. – resmungou Draco quando percebeu que os amigos estavam em silêncio esperando-o falar alguma coisa
– Ninguém te trata diferente no hospital. – observou Luna
– Eu uso o sobrenome de solteiro da minha mãe, Black. – respondeu Draco dando de ombros. Quando fora procurar emprego, o diretor do St. Mungus estava preocupado com a repercussão de contratar um Malfoy então ele e Narcissa tiveram essa ideia, que foi muito bem aceita. Naturalmente seus colegas de trabalho mais próximos sabiam quem ele realmente era, mas, assim como seus amigos, o conheciam suficiente para não se importarem. – E o jaleco cobre a marca negra
– Black é um sobrenome bonito, combina com você – disse Luna com um sorriso amigável
– É, é, mas estamos nos desviando do assunto... – interrompeu Pansy recebendo um novo olhar feio de Blaise – Você não vai querer sair com ninguém do hospital então isso exclui meus colegas do laboratório, mas Blaise pode te apresentar alguém!
– Vai ter o desfile da nova coleção masculina sábado. – informou Blaise, mas sua atenção estava voltada para Luna – Você ainda vai estar aqui? Seria ótimo se você fosse!
– Parece muito divertido! – respondeu a loira empolgada – Eu devo ficar aqui por algum tempo dessa vez, então adoraria ir! Vocês também vão? – perguntou para Draco e Pansy
Os dois balançaram a cabeça em concordância, eles iam em todos os desfiles desde que Zabini tinha começado com a própria marca. Tinham inclusive servido de modelo e ajudado a organizar os primeiros, mas não demorou para a marca se tornar um sucesso e os amigos passarem a comparecer apenas como admiradores.
O assunto seguiu de forma leve e Draco ficou agradecido por terem se desviado de sua vida amorosa. Já estavam no bar a algumas horas quando resolveram encerrar a noite. Todos saíram juntos, agradecendo que a chuva tinha parado, e foram para um beco estreito no final do quarteirão para aparatar.
– Eu conheço uma pessoa que acho que gostaria de sair com você. Se quiser depois me avisa. – sussurrou Luna de forma que apenas Draco pudesse ouvir enquanto todos se despediam
– Obrigado. – agradeceu ele com um sorriso – Prometo pensar na oferta
Draco entrou em casa sem se preocupar em acender as luzes, deixou a pasta e as chaves no aparador ao lado da porta e se dirigiu para o quarto. Estava muito cansado, a semana tinha sido muito puxada e acabara se demorando mais do que pretendia no bar com os amigos, já estava tarde demais e ele teria que acordar cedo no dia seguinte para trabalhar. Enquanto tomava um banho e se arrumava para dormir, Draco não conseguiu desviar seus pensamentos da conversa com os amigos. O único relacionamento que ele havia tido fora com Astoria, mas estavam no quinto ano e só ficaram juntos por cerca de 4 meses. Fora isso, tanto na época da escola como depois, tivera apenas alguns rolos e amassos por aí, alguns por um período maior de tempo, como Blaise e Pansy, mas nunca passara disso. Nos últimos anos de Hogwarts as coisas ficaram complicadas demais por causa da guerra e quando a guerra acabou… bem, as coisas não estavam tão menos complicadas assim.
Não estava pensando em deixar Pansy ou Blaise lhe arranjarem um encontro, isso não! Pansy trabalhava no laboratório do St. Mungus então os colegas dela eram indiretamente colegas de trabalho de Draco também e sair com eles estava totalmente fora de questão. Blaise, por outro lado, era definitivamente que conhecia as pessoas mais bonitas por trabalhar na indústria da moda, mas Draco já tinha tido sua cota de modelos e estilistas para saber que não tinham nada em comum, ele nunca conseguira ir em um segundo encontro. Luna ter oferecido para lhe apresentar alguém, entretanto, estava intrigando-o.
Quando finalmente fechou os olhos para dormir, Malfoy havia chegado em uma conclusão: sábado pediria para Luna lhe falar mais sobre essa pessoa.
