Título: Nas entrelinhas
Sinopse: "Se o tempo é circular, então tudo acontece ao mesmo tempo."
N/A: Sempre relutei em escrever qualquer história que se passasse no universo 616 porque acho extremamente complicado, cheio de incongruências e muitos pontos para costurar. Indo contra o meu próprio conselho, estou aqui me aventurando. Como a série Rogue & Gambit serviu justamente para colocar a história longa e complicada do relacionamento desses dois personagens em perspectiva, escolhi começar por aqui. Assim, essa fic vai se passar dentro dessa série. Mesmo achando os diálogos bem redondinhos, não os copiei ipsis litteris, mas usei quase todas as cenas do gibi e acrescentei outras novas. Enfim, espero que gostem da fic (a série é altamente recomendada).
xXxXx
Naqueles tempos estranhos, era difícil para ele encontrar o seu lugar. Mesmo o Instituto Xavier, o qual ele havia chamado de lar por tantos anos, então parecia alienígena e opressor. Era como se ele não fosse mais bem-vindo. Tanto era perdoado, tanto era esquecido e, ainda assim, era custoso para ele deixar o passado para trás; sempre voltava a procurar por quem amava, desejando capturar o sentimento que mais próximo se assemelhava à felicidade, em um ciclo doloroso de nostalgia.
Ele parou à porta da sala de controle da Sala de Perigo e sorriu genuinamente ao ver Tempestade. Uma amiga de longa data, motivo pelo qual ele havia se juntado aos X-Men, talvez uma das poucas pessoas que nunca havia lhe dado as costas.
Vestido para combate, com o cajado em riste, ele recostou o ombro direito confortavelmente na lateral da porta, sentindo o aço frio transpassar o seu casaco. "Será que voltei no tempo?" ele disse com um tom cínico feito para provocá-la. "Uma simulação com sentinelas, Tempestinha?"
O canto dos lábios dela se contorceu ao retrucar: "Você e esse apelido infernal. Quando ele vai morrer, Gambit?"
"Acredito que nunca, Tempestinha" ele retrucou ironicamente. "Não se pode matar um apelido. Suas reclamações o fortalecem."
Esta era a dinâmica dos dois: ele dizia algo para provocá-la, ela rebatia, fingindo estar irritada.
Tempestade fingidamente bufou antes de replicar: "Respondendo a sua pergunta, a simulação com sentinelas foi solicitada."
"D'accord" Gambit anuiu entediado. "Não estamos meio velhos para joguinhos na Sala de Perigo?"
"A Vampira está lá dentro" disse Tempestade sem rodeios, sabendo que chamaria a atenção dele. Ororo sabia por experiência que a vida que levavam sempre ficava no caminho do romance. Havia mágoas e cicatrizes difíceis de ignorar. Não seria hiperbólico dizer que muito havia ficado no caminho dos dois sulistas. Mas Ororo estaria mentindo se dissesse que não havia sempre torcido por eles.
"Por que não me disse antes?" Gambit perguntou retoricamente. "Me coloca lá dentro" ele nunca perderia a chance de jogar, menos ainda quando Vampira estava envolvida.
Ao caminhar em direção à porta de entrada que levava diretamente à ação, ao palco onde as simulações ocorriam, Gambit mentiu para si mesmo ao fingir que não se sentia animado por estar prestes a fazer um passeio por estradas tão nostálgicas. A porta automática partiu ao meio, revelando um cenário ao mesmo tempo familiar e artificial, um conflito que evidenciava o longo tempo desde que Gambit estivera em uma simulação como aquela.
Deu um passo para dentro da sala gigantesca com toda ginga e confiança intrínsecas à sua personalidade e seus olhos inevitavelmente procuraram por vampira. Gambit percebeu (lutando para negar o conflito de sentimentos que o assolava) que não a via há meses. Meses que pareciam anos. Contraditoriamente, a agitação da vida que levavam às vezes fazia o tempo passar depressa demais. Às vezes parecia que pouco havia mudado. Então por que ele sentia que nada era o mesmo?
Seus últimos encontros com Vampira haviam sido desajeitados e resultado do acaso. Não se assemelhavam em nada ao que costumava ser, com toda a paixão e o desejo desesperador que não poderia ser consumado. Atualmente, nas raras vezes que se cruzavam, havia as palavras educadas de dois velhos amigos que haviam perdido o contado ao longo dos anos e então sentiam uma estranheza arrebatadora na presença um do outro. Estranheza que cada vez mais engolia a atração física que ainda existia entre eles.
Não importava quantas vezes admitissem que seu relacionamento não havia dado certo e nunca daria. Eles haviam tentado tantas vezes e sempre eram vítimas das circunstâncias ou de eles mesmos. Eram como viciados voltando apenas para sofrer um pouco mais após um breve momento de felicidade. Era como se não importassem quantas vezes eles se separassem e decidissem que havia acabado, que finalmente seria a última vez. Sempre restavam resquícios de algo mais profundo. Talvez se eles houvessem realmente superado um ao outro as coisas seriam diferentes. E esta quase certeza de que não havia acabado – de que nunca acabaria – os torturava e lancinava. O único remédio era se manter afastados e, assim, não ser constantemente lembrados do seu fracasso. Gambit sabia disso em seu íntimo e, contudo, estava prestes a cometer o mesmo erro novamente. Mais uma vez se tornava o viciado que ansiava por deixar a abstinência.
A porta da Sala de perigo se fechou atrás de Gambit e a voz automática soou:
Novo jogador. Codinome: Gambit.
Ouvir aquele nome fez o coração de Vampira acelerar. Com força de vontade, ela fez com que a irritação prevalecesse e a demonstrou revirando os olhos. "É uma sessão fechada, Gambit!" ela gritou no meio de um voo, que destruiu uma sentinela, partindo-a ao meio e em milhares de estilhaços.
"Reclame com a sala de controle" Gambit retorquiu com a voz profunda à medida que dava passos resolutos em direção à ação. Seus olhos emanando energia devido à antecipação.
"Tempestade?" Vampira berrou mais uma vez; um berro que indagava por quê.
Um clique do microfone e a voz de Tempestade soou por toda a sala, alta e clara mesmo em meio à destruição. "Você disse que queria uma surpresa, Vampira" podia-se notar o riso na voz da bruxa do tempo.
Vampira bufou antes de dizer: "Se você tá dentro Gambit, então manda ver."
Um sorriso sarcástico se formou nos lábios dele. "Estava esperando um convite formal" e cartas energizadas, brilhando rosadas de poder, foram arremessadas de suas mãos ágeis, acertando uma das sentinelas em cheio no peito. "Você sabe como sou com as minhas boas maneiras."
"Ah, claro. Você e boas maneiras. Palavras que eu associaria" ela retrucou, voltando o rosto sutilmente na direção dele ao mesmo tempo em que acertava um soco na sentinela mais próxima. Notou a satisfação nas feições do rosto dele e sentiu o peito apertar e os cantos dos olhos arderem. Chegou à conclusão de que aquela simulação havia sido um erro, pois trouxe recordações dolorosas e profundas demais. A enxurrada de sentimentos a desestabilizou e, em um instante de descuido, ela percebeu, tarde demais, que estava prestes a ser atingida e não conseguiu evitar ser esmagada pelo punho descomunal de uma das sentinelas.
"Vampira!" Gambit gritou assim que a viu cair sob o peso do impacto.
Não importava que Gambit sabia que Vampira era novamente invulnerável. Havia algo de desesperador em ver alguém que se amava sumir de baixo de toneladas de aço. Era como se o racional fosse anulado pelas emoções. Em momentos como aquele, Gambit se esquecia do seu treinamento como ladrão e como X-Men, e temia pela vida dela. Estava ciente do quanto isso era perigoso. Era por esta razão que ele e Vampira justos em batalha nunca fora uma boa ideia. Em uma situação real, uma distração como aquela poderia ser fatal. Ainda assim, Gambit saltou com o cajado em riste e o fincou no punho roxo do gigante, energizando-o até causar uma explosão gigantesca. Como em um gesto simbólico, ele fez um escudo com o próprio corpo para proteger a garota com pele indestrutível.
A sala anunciou o fim da sequência.
Deitada de costas no chão, Vampira se encontrou paralisada, olvidada da irritação anterior. Tê-lo tão perto fazia lembranças demais emergirem. Era familiar demais. Confortável demais. Perigoso demais. "Estava sob controle" ela balbuciou, sem conseguir se mover; sequer notou que inconscientemente havia envolvido o braço direito no pescoço dele.
"Claro, mas assim é mais divertido, não é?" ele disse com a voz baixa e rouca, como se tudo ao redor houvesse desaparecido. As vozes ao fundo eram quase inaudíveis. Sempre fora assim com os dois: todo o mundo se tornava um borrão e então havia apenas eles. "Você escolheu o programa de treinamento?" ele perguntou, também levemente atordoado com a familiaridade da situação.
"E daí?"
"Parece que você está ansiando por um pouco do passado" e o seu rosto de aproximou do dela.
"U-um tempo mais fácil, talvez" ela gaguejou, sentindo o perigo espreitar, os lábios dele tão próximos dos seus. "Não o passado" disse, finalmente conseguindo sair do transe e recuperando a voz. Empurrou o rosto dele para longe com a mão enluvada.
Gambit trazia o imprevisível em Vampira, e como sempre fora, ela lidava com este fato correndo para longe o mais rápido que conseguia.
Ele a assistiu sair pela porta, rápida e decididamente, como em uma repetição interminável. As últimas palavras dela ressonando em sua cabeça. Então era isso que ele era? Apenas um fragmento do passado? Fosse por vingança mesquinha, fosse por mágoa ou sentimentos verdadeiros que o impediam de se afastar, Gambit não deixaria as coisas como estavam.
Gambit guardou no bolso o ás de espadas com o qual vinha brincando durante o caminho pelo corredor e bateu à porta do escritório de Kitty, atual líder dos X-Men.
"O que você quer conversar comigo, Kitty?" ele perguntou sem rodeios assim que pisou dentro da sala.
Kitty Pryde mostrou um sorriso de político ao vê-lo; deitou a caneta que usava sobre a mesa e cruzou os dedos das mãos, gesto que remetia ao Professor Xavier. "Vou direto ao ponto" ela começou, olhando-o diretamente nos olhos assim que ele havia se acomodado na cadeira do outro lado da mesa. "Preciso que você vá em uma missão um pouco... diferente. Descobrimos um lugar" ela abriu hologramas com fotos do tal lugar "uma ilha, vendida como 'retiro privado' que promete 'libertar mutantes de traumas.'"
"Parece imensamente suspeito" ele disse, estreitando os olhos.
Kitty concordou com a cabeça. "Também acho. A verdade é que os mutantes que procuraram essa ilha estão desaparecendo, como se deixassem de existir – por falta de palavra melhor – e ficam vagando. Precisamos de uma dupla para fazer reconhecimento."
Gambit ponderou por apenas um instante, passando o indicador e o polegar pelo lábio inferior. O tom de voz de Kitty fazia parecer que ela pediria algo intragável e Gambit estava curioso para descobrir por quê. "Eu sou o cara certo pra esse tipo de missão, mas estou curioso pra saber quem você vai mandar comigo."
Kitty sorriu de maneira quase tímida. "Precisamos de um casal."
"Ah..." ele exclamou solenemente.
Kitty umedeceu os lábios e inclinou o corpo para a frente antes de continuar. "Supomos que há telepatas por lá, que podem verificar a legitimidade dos casais."
Gambit segurou o olhar dela, mas Kitty não se abalou. "Você já falou com a Vampira?"
"Ainda não" ela respondeu evasiva.
Gambit ficou em silêncio, deslizou as costas pelo encosto da cadeira e apoiou o queixo sobre o punho esquerdo antes de lançar um olhar de esgueira para a garota do outro lado da mesa. Sabia o motivo pelo qual havia sido o primeiro a saber da missão. "A Vampira não vai gostar."
Kitty sorriu sem mostrar os dentes, pois já sabia disso. "Vou conversar com ela e usar minha influência de líder. Você está dentro, Gambit?"
Ele hesitou por apenas um instante. "Estou."
O ás de espadas voltou a correr pelos seus dedos à medida que Gambit caminhava sem rumo por um dos corredores da mansão. Ponderava se deveria conversar com Vampira antes de Kitty, para prepará-la para a conversa que viria. Resolveu deixar para o acaso. Bateria na porta do quarto dela, se Vampira não estivesse, ele deixaria de lado.
Ela não estava. Com um suspiro decepcionado, Gambit voltava para o seu próprio quarto quando os seus ouvidos aguçados capturaram passos se aproximando. Ele parou e se escorou contra a parede. Vampira passou com a cabeça baixa, sem notar a presença dele. Então Gambit a chamou.
Vampira estremeceu de susto e se voltou na direção dele, irritada. "Um dia ainda vou colocar um sino em você" disse rápida e atropeladamente.
"Vamos sair pra jantar?" ele ofereceu ao dar um passo na direção dela. Seu rosto mostrando interesse, que, na realidade, servia para mascarar o que quer que estivesse sentindo verdadeiramente. Ela parou e ele a tocou abaixo dos ombros, jogada que poderia ter apenas dois desfechos: ela fugiria mais rápido ou hesitaria. Como Gambit havia previsto, ela hesitou.
"Eu não sei" Vampira respondeu ao se encolher. Não importava quanto tempo passasse e o quanto ela amadurecia, sua indecisão permanecia sendo um de seus maiores defeitos.
Gambit, por sua vez, não conseguiu evitar sentir uma pitada de irritação. Seria mais fácil se ela simplesmente dissesse não. Sua incerteza sempre abria brechas para ele tentar mais uma vez. "Não precisa ser nada demais" ele continuou, evitando questionar suas próprias motivações. "Mesmo que a gente não esteja junto, você ainda é a minha melhor amiga. Será que não posso jantar com a minha melhor amiga?"
Não era tão simples assim, ele bem sabia. Eles seriam amantes ou não seriam nada. Seu passado juntos não permitiria que fossem apenas amigos sem que houvesse tensão sexual. Mas Gambit estava tentando, sem entender por quê, mesmo que parecesse inútil e redundante.
"Nunca é só jantar" ela disse com a voz fraca, fechando os olhos apertados por um instante, empurrando para longe uma lembrança particularmente pungente. Se permitisse, todos os sentimentos voltariam à tona. Remy sabia disso e ainda assim insistia em abrir feridas que nunca cicatrizaram. Parecia crueldade. Ela se afastou de leve, antes que ele conseguisse de alguma forma fazê-la mudar de ideia.
Silêncio caiu sobre eles. Era absurdo como mesmo depois de tantos anos, seus papéis continuavam imutáveis: ele a procurava, ela fugia. Se Gambit soubesse que de fato não poderia haver mais nada entre eles se manteria o mais longe possível; contudo, sabia que Vampira ainda sentia algo por ele. Assim, novamente, ele tentava se convencer da ideia ridícula de que poderiam ser só amigos, que poderiam passar algumas horas juntos cordialmente falando do tempo e confidenciando sobre outros relacionamentos.
"Não acho que seja uma boa ideia" ela disse com firmeza, irrompendo aquele silêncio angustiante e se afastando dele a passos largos.
Foi o bastante para Gambit perder a paciência. Fechou a cara e cruzou os braços. Havia sempre um limite. "Você sempre pensa demais em tudo."
"Um de nós dois tem que fazer isso" ela disse, irritadiça, mas sem se voltar para ele. Então, mudou de ideia e olhou na direção dele, por cima do ombro. "Você sabe que eu perdi o controle dos meus poderes de novo, né?" sua pergunta soou como um desafio; entretanto, sua irritação estava voltada contra ela mesma, para sua inabilidade de controle, para o seu medo sempre presente.
A voz dele suavizou. "Eu sei. Não impor—" ele começou a dizer. Era o discurso que parecia repetir eternamente. Mas foi interrompido por Kitty chamando por Vampira.
"Desculpa, Remy" mas ela não olhou para trás.
Fugiu o mais rápido que pôde.
Vampira caminhou com passos firmes e pesados após deixar a sala de Kitty. Seguiu para encontrar Gambit para adiantá-lo sobre a missão e, quem sabe, persuadi-lo a recusá-la. Kitty, astuciosa, havia conseguido fazer Vampira se sentir culpada a ponto de aceitar a missão. Agora, vagando pelos corredores, tentando esfriar a cabeça, achava que talvez pudessem encontrar outra solução, ela apenas precisava convencer Gambit a dizer não.
Ela respirou fundo à medida que se aproximava do quarto de Gambit. Encontrou a porta entreaberta e bateu de leve, espiando dentro. "Preciso conversar com você" ela disse, então notou que ele fazia as malas. Ela enrugou as sobrancelhas e cruzou os braços, recusando-se a reconhecer que entendera a situação.
"É sobre a missão?" Gambit perguntou ao se voltar para ela rapidamente, com uma expressão imparcial.
Ela puxou o ar profunda e ruidosamente, tentando controlar a frustração. "Você já sabia?"
"Oui."
"E você só concordou?"
O tom acusatório dela fez com que Gambit deixasse as roupas de lado e se voltasse na direção dela. "Por que não? É uma missão como qualquer outra" ele disse, e, apesar das próprias palavras também estava relutante e desconfortável, como se duvidasse das próprias motivações. Todavia, não fugiria da missão, mesmo a tendo aceitado a contragosto, como tinha certeza de que Vampira também fizera.
Ela sentiu a garganta secar e os braços cruzados intensificaram o aperto. "Vamos ter que fingir que somos um casal."
As feições dele escureceram. "Já fomos um casal."
"Eu sei, mas..." era tão frustrante que ela perdeu as palavras. "Não te incomoda ter que fingir?" ela perguntou, mas se arrependeu imediatamente. "Deixa pra lá" apressou-se a acrescentar antes que ele de fato oferecesse uma resposta. Ela girou nos calcanhares para fugir quando ele a chamou. Ela o encarou novamente ou, pelo menos, tentou. Havia tanto ressentimento no rosto dele que ela rezou em silêncio para que terminasse logo.
"É tão ruim assim passar alguns dias a sós comigo?"
A mágoa na voz dele era palpável, refletia a dor que também era dela. Vampira sentiu que ia desmoronar. Houve um tempo em que teria dado tudo para estar com ele. Naquele momento, porém, sua cabeça rodava e seus lábios se moviam como de um peixe fora d'água. Com os olhos molhados, ela fugiu, sem oferecer resposta.
Remy permaneceu imóvel, olhando para a porta que ela batera ao sair. Doía. Fingir, contudo, era sua especialidade. Portanto, ele terminou de fazer a mala e trocou de roupa. Partiriam dentro de duas horas.
Vampira bateu a porta do próprio quarto e estagnou sem saber o que fazer. Seu peito subia e descia lentamente à medida que tentava controlar a respiração pesada. Inspirava pela boca ruidosamente e expirava vagarosamente até conseguir impedir que lágrimas caíssem. Ela então se sentou na cama, apoiou os cotovelos nas coxas e o rosto nas mãos e se deixou levar pelo pranto. Seu corpo convulsionava enquanto ruídos fracos escapavam de sua garganta. As lembranças que ela tão bravamente lutara para afastar irromperam em uma onda de dor e mágoa.
Ela havia aceitado jantar com ele, muitos meses antes.
O embaraço e o estranhamento de sair para jantar apenas como amigos foram passando à medida que as taças de vinho esvaziavam. Foram relaxando até que as gargalhadas passaram a vir fácil, assim como provocações e comentários sarcásticos que remetiam a um passado repleto de lembranças felizes e divertidas. Em momentos como aquele era fácil esquecer a dor.
Em algum momento, Remy sugeriu que fossem para o seu apartamento, e ela não disse não. Sentaram-se no sofá, com mais uma taça na mão. Vampira começou a se sentir embriagada, mas Remy parecia tão lúcido quanto antes de beber.
"Você é fraca com bebidas. Sempre foi" ele constatou com um sorrisinho após ela mencionar o fato.
Ela ergueu uma sobrancelha em desaprovação. "Pois todos aqueles jogos envolvendo bebidas e baralho que você inocentemente me apresentou me deixaram mais resistente."
Ele gargalhou alto. "Você sempre perdia no strip poker, chére."
Ela mordeu o lábio inferior antes de abrir um sorriso travesso. "Eu perdia de propósito."
Ele retribuiu o sorriso. Por pouco não se inclinou para beijá-la. Vampira levou a taça até os lábios e o momento se foi.
"Mesmo sem beber" ele disse, após deitar sua taça sobre a mesa de centro; ela fez o mesmo. "você já é normalmente impulsiva."
"Acho que aprendi a me controlar" ela disse, se ajeitando para ficar mais confortável.
"Isso é difícil de acreditar, chère."
Ela o olhou nos olhos, com as pálpebras cerradas. "Você sempre sabe quando estou blefando."
"Por isso você sempre perdia no pôquer" ele retrucou. "O que você quer fazer?" perguntou, sabendo exatamente qual era a resposta.
"Algo que não devo" e ainda assim, ela se inclinou de leve para mais perto dele.
"Por que não?"
"Porque é complicado."
"Sempre foi complicado."
"É, sempre foi."
E naquele momento Remy percebeu o erro imperdoável que havia sido convidá-la para sair como amigos. A atração física arrebatadora ainda estava sempre presente. Entretanto, a dor e a decepção também estavam. Momentos de serenidade como aquele mascaravam a dor que nunca havia se dissipado de fato. Gambit estaria mentindo se dissesse que sua mágoa havia passado. No fim de tudo, ela o havia descartado. Que direito ela tinha de estar ali o olhando daquela forma? Foi quando Gambit encontrou uma maneira de saciar seu desejo por ela e puni-la ao mesmo tempo.
"Não precisa ser com amor" ele disse antes de beijá-la. Não um beijo terno, mas um impositivo, com sua língua dura e molhada controlando a dela. Vampira retribuiu (mais tarde culparia a bebida, mesmo sabendo que era mentira) achando que a intensidade e a falta de suavidade, que ele sempre demonstrara com ela, se devessem à pressa para compensar todo o tempo que ficaram separados. Ele estava certo: ela era impulsiva. Ou melhor, ela gostava quando era impulsiva. Ponderar demais a deixava infeliz. Com isso, se Vampira tivesse pensando melhor naquele momento, teria fugido dali o mais rápido que conseguisse. Contudo, no seu íntimo, ela o desejava, o amava de formas que fugiam da sua compreensão, de forma tão intensa que a amedrontava.
A mão dele subiu pela coxa dela até as nádegas. Vampira elevou o corpo e se sentou no colo dele, uma perna de cada lado. Ele ergueu o vestido dela e o retirou apressadamente. Com a mesma pressa ela retirou a camisa dele. Ele se pôs em pé, as pernas dela entrelaçaram os quadris dele, e ele caminhou até o quarto com algumas peças de roupa ficando pelo caminho. Ele a deitou na cama e sua boca desceu do pescoço dela até os seios. Rapidamente todas as roupas restantes se encontravam no chão. Ela enrolou as pernas ao redor dele novamente e ele deslizou para dentro dela, aplicando a pressão e a velocidade que ele sabia que a deixavam louca.
Ela procurou pelos olhos dele e não os encontrou. Suas bocas não mais se tocaram. Ele não disse nem uma palavra, apenas continuou os movimentos repetitivos e mecânicos que causavam o efeito desejado sobre ela. Mesmo com a estranheza do ato, ela se deixou levar, se deixou guiar, se deixou virar até estar apoiada nos joelhos e nas mãos. Mordeu o lábio de prazer quando o sentiu dentro dela novamente. Sentiu-se quase paralisada, sofrendo com a indiferença dele, mas gemendo em êxtase a cada movimento. As mãos dele segurando os lados dos quadris dela, fazendo-a quase uivar de prazer a cada batida intensa e funda. As mãos dela cederam e ela se apoiou nos cotovelos, agarrando o lençol com os dedos. A mudança leve de posição tornou a sensação que os movimentos dele causavam ainda mais tórrida e irrefreável. Ela por fim gritou enquanto seu corpo convulsionava em gozo emanando dentre suas pernas, ouviu um gemido saindo da garganta dele e o aperto das mãos desapareceu.
Ele rolou para o lado, apanhou um maço de cigarros do criado-mudo, acendeu um e o tragou com satisfação, recostado nu contra a cabeceira. Ela caiu deitada de lado e o encarou atordoada. Desta vez, ao contrário de todas as outras, ele não a abraçou por trás, não a cobriu com o lençol, não a beijou no ombro, não murmurou ao seu ouvido que a amava.
Ela se sentou, ainda resfolegando, puxou o lençol amarrotado firmemente contra o corpo, se sentindo estranhamente exposta, como se sua nudez a tornasse vulnerável. "O que foi isso?" ela perguntou com a garganta seca e embargada.
Ele virou o rosto na direção dela, soltou a fumaça lentamente a encarando como se a pergunta dela tivesse sido estúpida. "Sexo" respondeu em seu tom mais sarcástico. "Se eu tiver que te explicar como funciona..."
O sorriso cafajeste que ele lançou a fez se sentir como mais uma na cama dele. Era como ele queria que ela se sentisse. Era como queria puni-la, mesmo doendo nele imensamente. Era o que ela merecia por tê-lo descartado como um brinquedo do qual havia enjoado.
Ela não tentou conversar, apenas levantou e apanhou suas roupas com pressa. Encarou-o com raiva antes de lhe dar as costas. Ele permaneceu deitado, e ouviu a porta bater.
No horário programado, os dois embarcaram no jato privado que os levaria diretamente à ilha.
Vampira chegou instantes depois de Gambit e evitou olhar na sua direção. Ainda assim, sentou-se ao lado dele, na poltrona da janela. Tinha esperança de que talvez pudessem ter uma conversa civilizada em algum momento, já que a viagem seria longa.
Gambit não disse nada tampouco esboçou alguma reação quando ela se sentou. Paraíso, ele repetiu mentalmente, imaginando o quão inapropriado o nome daquela ilha seria.
Vampira se focou na vista fora da janela, por mais que houvesse apenas o azul do céu e do mar.
Aproximadamente dez minutos haviam transcorrido quando Gambit decidiu retomar seu personagem e quebrar o silêncio. "Pela primeira vez me mandaram para uma missão que tem a minha cara" ele disse e relaxou a postura, com as pernas esticadas à frente e as mãos atrás da cabeça. "Esperei anos por esse tratamento... jato privado, champanhe, tudo do bom e do melhor!"
Ela não tirou o olhar da janela enquanto o ouvia tagarelar. Ao contrário dele, sua postura era ereta e dura. "A Kitty podia ter me dito que você já tinha concordado em ir."
"Não acredito que você duvidou" ele disse com um sorriso ao se curvar levemente na direção dela. É claro que ele mesmo havia duvidado. Sua postura, contudo, não entregava suas ressalvas.
Vampira se afastou da aproximação dele. "É que ultimamente as coisas estão..."
"Estão o quê?" ele perguntou antes que ela terminasse. "As mesmas de sempre?" às vezes parecia que eles viviam em um loop. Gambit chegou ainda mais perto, aproximando os dedos do rosto dela, desafiando-a. Seu personagem fingindo interesse, quando na verdade, ele queria ver até onde ela iria.
Vampira se encolheu e se afastou do toque dele. "Remy... eu... meus poderes... não posso" ela gaguejou, em uma repetição macabra das primeiras vezes que ele tentara tocá-la anos antes.
Gambit, por sua vez, só percebia o quanto estava farto daquele discurso quando o ouvia novamente. Sempre a mesma desculpa esfarrapada. Quando ela havia finalmente obtido controle dos seus poderes, ele estava lá ao seu lado. Entendeu quando ela disse que precisava de tempo para pensar. Pensar nele e neles. Continuou ao seu lado, nunca a pressionando, apenas a apoiando. E ela, em troca, lhe dera as costas. O período de cordialidade forçada foi provavelmente a pior fase. Depois disso, viam-se esporadicamente, e, ainda assim, doía toda a vez.
Gambit deveria gostar de sofrer por continuar a procurá-la. Era como comida apimentada: ele sabia que se arrependeria após uma dose alta, mas sempre voltava querendo mais. "Seus poderes o quê?" ele esbravejou, perdendo a paciência, começando a repensar sua ida naquela missão. "Não ter controle não impediu você de beijar o Deadpool" ele acusou, mesmo sabendo que não tinha o direito. Eles não estavam juntos à época, mas ele não conseguia segurar, era frustrante demais, mesmo estando ciente de sua hipocrisia. Gambit não era nenhum santo. Nunca ficava sozinho na cama quando não queria ficar. Para um cara como ele era fácil até demais. Se fosse contar quantas mulheres haviam passado pela sua cama, certamente já teria perdido a conta há muito tempo. Em contrapartida, contaria nos dedos de uma mão os relacionamentos que duraram mais que alguns dias. Porém, Remy não se sentia culpado, pois gostava da excitação do flerte, da conquista, do sexo casual. E ele sempre deixava claro que não passava disso; nada de café da manhã na cama ou ligar no dia seguinte, era descompromissado, apenas pelo prazer carnal. E era exatamente por esse motivo que doía nele pensar que aquele beijo pudesse ter significado alguma coisa para ela. "O Deadpool, Vampira. Deadpool" sua indignação parecia crescer. "Ele não tem rosto."
"Eu não beijei o Deadpool" ela começou a dizer, com a indignação estampada no rosto.
Ele bufou. "Pode parar, Vampira. A rede de fofoca dos X-Men parece um telefone sem fio. Oito pessoas me ligaram para contar. Oito!"
Vampira cruzou os braços indignada pelo comentário ridículo dele. "Você acha que eu não recebo ligações? Quantas vezes você acha que me ligaram por sua causa durante todos esses anos, Remy?" então, em um momento de sobriedade, ela resolveu mudar de tática. "Aliás, eu não tinha terminado. Eu ia dizer que não beijei o Deadpool. Dei uns amassos nele. Grande diferença" ela sabia exatamente como provocá-lo, quais botões apertar para irritá-lo. Mexer com sua vaidade era sempre infalível. Gambit ficou sem reação. "E quer saber? Com rosto ou sem rosto, ele beija muito bem" ela virou o rosto para o lado para esconder o sorrisinho de satisfação por vê-lo boquiaberto. "Vai ver que não ter um rosto faz as pessoas, sei lá... se esforçarem mais. Talvez gente bonita como você consiga tudo fácil demais."
"Você... você está insinuando que o Deadpool beija melhor do que eu?"
"Você que disse, Cajun. Eu não."
Gambit piscou repetidas vezes até sair do torpor. "Você só pode tá zuando com a minha cara" percebeu pelo tom jocoso dela que não passava de provocação e sua confiança voltou a toda. "Aposto que ele nem sabia quem estava dando uns amassos nele."
"O Wade não é esse idiota que você está falando" ela se apressou em defendê-lo.
"É Wade agora" ele bufou, indignado. O clima pueril se dissipou rapidamente. "Pro seu governo, o Wade nem sabe o que se passa ao redor dele na maior parte do tempo."
Vampira segurou a respiração e sentiu o rosto enrubescer enquanto lutava para não responder. Sua motivação para ter beijado seu colega de equipe, Wade Wilson, fora um laço sincero. Obviamente não era amor, mas sim um carinho que poderia ter crescido e se tornado algo mais, caso a situação fosse outra. Portanto, ouvir Remy debochar do seu antigo colega, do seu amigo, foi exasperante. Ela havia conhecido uma parte dele que poucas pessoas haviam visto. Genuinamente magoada, Vampira conseguiu refrear uma resposta que resultaria em discussão. Mas Remy não havia terminado.
"Você tem um gosto estranho para homem" ele resmungou.
"O que isso diz sobre você?"
"Que eu sou a exceção, o único que você acertou" ele disse, a encarando nos olhos.
Foi Vampira quem desviou primeiro. "Não seja tão cheio de si."
Mas ele não conseguiria fingir que era apenas brincadeira. Saber que mais uma vez Vampira convenientemente relevara os atos brutais de um assassino enquanto os seus pecados ainda eram jogados na sua cara doía mais que a maior dor física que ele já sentira. Foi essa dor que motivou suas próximas palavras. "Decerto sou o único da sua lista que não é um assassino."
Isso fez com que ela se calasse. As palavras dele a atingiram como um soco. Ela sentiu os olhos arderem e engoliu em seco. Contra este argumento não havia uma resposta racional.
Em silêncio eles fizeram o restante do caminho até Paraíso.
Uma mulher formalmente vestida em tons de bege, com cabelos louros curtos, veio recebê-los prontamente, assim que os dois desceram as escadas do jato. "Vocês devem ser a Anna e o Remy. Sou a Dr. Grand. Espero que o voo tenha sido agradável."
"Foi" Vampira tentou mentir após um momento de hesitação. Gambit apenas bufou.
Os olhos da doutora se estreitaram. "Vocês estão no lugar certo para lidar com essa tensão que sinto entre vocês" ela disse em uma voz profissional e monótona. "Aqui é literalmente um paraíso. Vamos começar hoje mesmo, após vocês terem se acomodado no seu quarto."
"Quarto?" Vampira perguntou, sentindo a irritação aumentar. "Você não quis dizer quartos, no plural?"
"Desculpe, esperamos que os casais tenham experiências imersivas" ela respondeu, com um tom de quem ouvia aquela pergunta a cada novo casal que chegava. "Tenho certeza de que vão achar as acomodações muito confortáveis" ela apontou longe para o bangalô onde eles ficariam. "Espero vocês na próxima meia hora."
Gambit e Vampira trocaram olhares contrafeitos e se dirigiram para o bangalô sobre o mar, puxando cada um uma mala de viagem.
"Ela não estava brincando" Vampira exclamou ao adentrar o quarto espaçoso.
Debaixo dos seus pés havia duas aberturas de vidro, através das quais era possível ver o mar. À esquerda havia uma enorme cama de dossel enfeitada com pétalas de rosas. Sobre a cama, uma bandeja com champanhe e uvas. Criados-mudos com abajures de cada lado da cama e um sofá solitário ao lado direito.
"Incrível. Será que dá tempo pra um mergulho?" Gambit perguntou, sentindo o efeito relaxante que o lugar proporcionava.
"Acho que não" ela respondeu; sua voz ainda não recuperara a naturalidade. "Ela disse pra gente ir ao prédio central assim que terminasse de se acomodar."
Eles deixaram as malas para desfazer mais tarde. Gambit puxou a dele para perto do sofá. "Pode ficar com a cama" disse. "O sofá parece confortável."
Claramente era mentira – Remy era alto demais para um sofá de dois lugares –, mas Vampira não o contradisse. Não era algo com o que queria ocupar os pensamentos naquele momento. Havia muito mais com o que se preocupar, o que incluía sua missão.
Eles deram um passo para fora da entrada ao ouvir uma voz alegre. "E aí, vizinho! Bem-vindos ao paraíso."
"Simpático" ela cochichou.
"Demais."
O casal do bangalô ao lado se jogou na água e nadou em direção a eles.
"Sou a Janine," disse a moça de cabelos escuros e olhos que brilhavam vermelho. "este é o Theo."
"Sou o Remy, esta é a Vampira."
"Desculpe por sermos tão diretos" disse o homem negro com orelhas de elfo. "A Janine sempre faz questão de conhecer os vizinhos. Lá em casa vem junto com bolo caseiro. Aqui é gritar da escada."
"Imagina," disse Vampira, dando um sorriso "é um prazer conhecê-los."
"Absolument. A gente pode sair pra tomar uns drinks mais tarde?" Gambit propôs.
"Era o que íamos sugerir" respondeu o outro homem.
A mulher concordou. "Podemos mostrar o lugar pra vocês. Estamos aqui há seis dias. É maravilhoso."
Após um pouco mais de conversa fiada, o casal nadou de volta para o seu bangalô.
O rosto de Remy, então simpático, se tornou sério. "Controle mental?" sugeriu quando o casal não podia mais ouvi-los.
"Não importa o que seja, não é normal. Ninguém é tão feliz assim" ela disse em tom rabugento, quase invejoso.
Remy voltou o rosto contorcido na direção dela. "Você é tão cínica assim, Vampira?"
"Você sabe o que eu quis dizer" ela se defendeu, internamente aliviada pelos óculos de sol dele, pois assim não precisaria enfrentar aqueles olhos. "É melhor a gente ir" ela disse enquanto ajeitava as luvas que subiam acima dos cotovelos. "Parece que é uma andada da praia até a central."
Eles seguiram pela praia até onde eram esperados, vestidos como estavam. Gambit de camisa de manga curta e calção e Vampira com um vestido verde curto e sem mangas que precisava ser complementado com luvas longas e botas altas.
Caminharam lado a lado em silêncio por longos minutos. Gambit retirou os óculos escuros e, com as mãos nos bolsos, os seus olhos acompanhavam os movimentos dos próprios pés. Era estranho para Vampira vê-lo com a cabeça baixa e os ombros levemente caídos; não combinava com ele. O silêncio dele fazia com que ela se sentisse responsável pelo clima melancólico. Ao perceber que estavam a poucos metros do destino, Vampira parou de repente e tomou coragem para falar, temendo que não tivesse outra chance.
"Remy..." ela disse, fraca. Ele também parou e virou o rosto levemente na direção dela. "O que quer que aconteça lá dentro... o que quer que seja revelado nessa sessão de terapia..."
"Não diga isso."
Ela sentiu que ia se despedaçar. "Isso o quê?"
"Eu não sei" ele respondeu, dando de ombros; conseguiu manter a voz neutra. "Qualquer coisa sobre estarmos quebrados, sobre não ter conserto. Você fica repetindo isso pra mim, Vampira. Parece que repetiu isso nossa vida inteira."
"Mas não é assim que você também se sente?" foi sua pergunta-resposta defensiva. "Não se sente quebrado? A nossa bagagem parece pesada demais até pra mim, e eu consigo literalmente levantar montanhas" ela soltou uma risadinha sem graça e finalmente voltou o rosto na direção dele.
Ela não precisava lhe dizer o quanto pesava. "Não sei, não, chère. É pesada, mas eu nunca pensei em deixar cair. Mas confesso que está difícil carregar sozinho."
"Sozinho?" ela ecoou com a voz fraca. O esforço que fazia para se manter inteira parecia estar drenando toda a sua energia. Talvez fosse assim que quem ela tocava se sentia.
"Você parou de carregar há muito tempo" ele afirmou gravemente ao se virar para encará-la; sua voz caiu algumas oitavas. "E eu não tenho superforça."
"Então por que você só não larga?" ela sugeriu, como se fosse simples. Será que era tão patética em desejar ouvir a resposta dele, mesmo achando que seu relacionamento estava fadado ao fracasso?
Ele segurou uma risada irônica. Será que não era evidente? "Você sabe por quê" os dedos dele coçaram para lhe tocar o rosto. "Talvez... bem, sei que não estamos aqui por nós, mas pode ser que este lugar nos ajude de alguma forma. Olhe em volta" ele disse, suavizando a voz enquanto segurava a mão enluvada dela e lhe oferecia um sorriso sincero, desejando acreditar nas próprias palavras. "Isso aqui é um paraíso. Como as coisas não vão melhorar num lugar como este? Não podemos curtir nem um pouco? Pode não ser a missão mais fácil ou a melhor que já tivemos, mas poderia ser pior, não acha?"
Ela retribuiu o sorriso dele. "Você é irritantemente persuasivo, Remy."
"Deve ser o meu charme" ele respondeu com um sorriso cafajeste sobre o rosto.
"Você quer dizer lábia?" ela provocou. Soltou a mão dele, por teimosia, para ignorar o fato do frio na barriga que o toque dele causava... ainda causava.
Deram lado a lado os passos que faltavam até a entrada da central. Foram recebidos por uma secretária de sorriso plástico e guiados até uma sala. "Deitem-se, por favor" disse a secretária. "Existem testes pelos quais vocês precisam passar antes de começarem a terapia de casais."
"Que testes?" Vampira perguntou, desconfiava.
A moça hesitou por alguns instantes, como se escolhesse as palavras. "Testes de laboratório" e o sorriso plástico estava de volta.
"Pra quê?" foi a vez de Gambit perguntar.
"É corriqueiro" ela respondeu, evasivamente. "Não vai doer nada" e sem mais, se retirou.
"É impressão minha ou ela enfatizou demais a parte do não doer" ele gracejou, deitando-se em uma das macas.
Vampira, por sua vez, hesitou. "Você acha seguro?"
"Faz parte do procedimento, non? Pode ser que substitua os telepatas."
Vampira titubeou mais um pouco e se deitou na outra maca. "Nesse caso, eu preferia não ter a minha cabeça escaneada."
Assim que os dois estavam confortáveis, seus pulsos, pernas e troncos foram atados automaticamente.
Ela lançou um olhar irritado na direção dele. "O que você estava dizendo mesmo?" perguntou retoricamente. Se ela não tivesse deixado a guarda baixar, nada disso teria acontecido. "Por que eu te dou ouvidos?"
Gambit fez uma careta de contrariado. "Deixa rolar, Vampira. Se eu achar que estamos mesmo em perigo, tiro a gente daqui rapidinho."
Vampira bufou, mas fez como ele disse. Afinal, se achasse que estavam correndo perigo real, teria tentado usar sua superforça para romper as amarras.
Eles aguardaram.
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