Capítulo XII - If you do not tell, It won't do the spell

- E então, senhoras e senhores... vamos recapitular os últimos acontecimentos! Antes, para nós, reles mortais, o mundo era um lugar cruel e injusto, no qual poucos poderiam alcançar a glória! Todo ano era assim: Grifinória e Sonserina disputando o primeiro e o segundo lugar, Corvinal e Lufa-Lufa disputando o prêmio de consolação. O mundo era assim, os deuses abençoavam os privilegiados, e nós, reles mortais, devíamos nos contentar com pouco. Eis que, um dia, um qualquer, um zé ninguém, um sujeito sem nenhuma significância desafiou o reinado dos leões e das serpentes... e venceu! E olha que não foi fácil! Diante dele você tinha toda a nata da nata bruxa, composta pelas família mais nobres, e pelos mais famosos da escola e descolados e...

- Morgana – Luna observava a amiga que subira em um banco e que, aparentemente, gostava muito do som da própria voz – O que você está fazendo?

- Quieta, Luna! Não atrapalhe minha narração! Aham! – ela toma fôlego para continuar apresentando os eventos – e veja só, ele enfrentou também os abençoados! É verdade que nós, pobres lufanos, também o confrontamos no meio do caminho mas, no final, nós o ajudamos! Sim, senhoras e senhores, naquele momento fomos a escada para o senhor zé ninguém ir mais além! Nós lhe demos todo o apoio e experiência para ele enfrentar a cobra e o leão, e ele venceu! E, à partir desse momento, o mundo passou a ser justo!

- O quê? Morgana, do que diabos você está falando?

- Ora, minha cara descrente... não é você que reclama de não gostar de comer as sobras dos outros? Pois esse zé ninguém, sujeitinho sem importância ou relevância para Hogwarts até então, trouxe justiça ao mundo! Com a vitória dele, percebemos que todo mundo tinha sim direito a um lugar ao sol! Aprendemos que, com esforço e dedicação, todo mundo pode brilhar!

- Espera um pouco - Chaz terminava de descer do dormitório masculino, escutando Morgana - não foi assim que as coisas aconteceram, ele nem gostava tanto assim de Quadribol!

- Mas é claro! Um herói épico, que se lançava a uma missão ao qual estava destinado! E, no final, conquistou a gata borralheira!

- Missão? - Chaz virava a cabeça - mas a gente subornou ele no início e...

- Quieto! Onde está sua veia dramática, senhor Jordan? Não é um artista? Onde está o seu desejo pela possibilidade da narração dos fatos?

- Possibilidade? Minhas pinturas buscam verossimilhança!

- Só porque você quer, ou acha que ninguém viu você desenhar uma sereia por ai? Mas não me interrompam! Desdentada e feia, pobre e cheia de sardas, algum feitiço mágico aconteceu! Com um beijo de amor verdadeiro, nosso zé ninguém transformou a gata borralheira na garota mais cobiçada de toda a escola!

- Você vai apanhar se ela escutar você falando isso - Luna se perguntava o que a amiga tinha na cabeça, além de vento - Ah, se vai! E eu não vou te defender!

- Mas ele já gostava um pouco dela antes de...- Chaz tentava dar um pouco de credibilidade ao relato de Morgana.

- Quietos, seus antirromânticos! O que é uma história sem um pouco de paixão e reviravoltas? Será que foi o príncipe que fez a princesa, ou a princesa que trouxe à tona as habilidades do príncipe? Nunca saberemos! Mas a magia de Hogwarts se fez presente! A magia se manifestou nos dois, e todo mundo descobriu que não precisa ter os garotos e garotas mais bonitos e ricos da escola para ter o seu final feliz! - ela fechava os olhos, cerrando o punho e dando um sorriso de olhos fechados - A beleza dela está à olhos vistos, mas a gata borralheira, na verdade, descobriu a própria beleza! Daí ela passou a ser uma joia rara, disputada pelos leões e pelas serpentes! Mas o nosso zé ninguém lutou bravamente, e venceu! Em uma reviravolta do destino, provou o amor verdadeiro após sacrificar parte do seu corpo pela mulher amada!

- Mas aquele braço era feito de enchimento falso - Chaz tentava dar uma lógica ao que Morgana fazia, ignorando totalmente as olhadas de Luna, a qual sinalizava para ele não levar aquilo à sério - espera, mas e eu? Onde a minha história se encaixa nisso? Eu sou um coadjuvante, por acaso?

- Claro que não, senhor Irídio - Morgana saltava e conseguia a façanha de cair perfeitamente no mesmo banco onde estava - só você pode ser o protagonista da sua história principal, oras! Você, por exemplo, tem todo uma trama secundária do aborto discriminado que progrediu para o elenco principal! E a briga dos irmãos Hooch por causa do Xadrez! Ou das diversas personagens que ganharam seu lugar ao sol, como a subtrama de autodescoberta de Pansy, a apoteose de Rony Weasley, ou a grande aventura de Luna Fletcher atrás de uma vitória no quadribol! Isso sem contar as subtramas amorosas, como James e Julieta, Miranda e Carlos, Hermione e Rony... e, é claro, você e Amanda!

- Mas heim? Peraí, como você sabe dessas coisas? Autodescoberta? Subtrama? A Pansy, da equipe de auxiliares medi-bruxos? E que história de ascensão é essa do Weasley?

- Você não viu nada! Tem um monte de coisas pra acontecer, além de uma suspeita de triângulo amoroso para bagunçar a tranquilidade de zé ninguém e gata borralheira! Toda história merece um final feliz, e todo conto de fadas precisa ter um fim!

- Luna, mas do que ela está falando? Eu não estou entendendo nada!

- É um resumo, Chaz! Mas boa parte ela inventou!

- Eu aumento, mas não invento! Eu quero ver no que essa história vai dar! Eu quero é treta!


Primeiro, ela colocou a vassoura no chão, em um ângulo reto. Em seguida, passou-a por entre as pernas. Prendeu-a. Segurou-a com mãos e pernas, começou a levitar, ficando a pouco mais de 5 centímetros do chão. Aproximou ainda mais os joelhos do cabo da vassoura e os travou e, depois, entrelaçou os calcanhares entre a parte de baixo, nas cerdas, como se joelhos e calcanhares fizessem um oito, prendendo a vassoura como uma serpente enroscando uma presa. Só ai ela soltou as mãos do cabo.

Quem olhasse Julieta, veria uma estudante apoiada na vassoura, mantendo-a no ar, sem as mãos. O veículo se locomovia lentamente pelo salão comunal da Corvinal, e era um perfeito exemplo de controle do objeto, mas havia uma série de outros movimentos ali, como uma coordenação motora impecável para controlar o movimento com a parte de baixo da cintura e fazer o objeto se mover. Apenas os alunos da Corvinal sabiam desse domínio, simplesmente porque ela fazia esse treino todos os dias, ao acordar e antes de dormir, naquele espaço, onde teria mais privacidade para fazê-lo, sem alguém reclamando sobre as regras do uso de vassouras dentro Hogwarts. Os que a viam durante o jogo só percebiam uma parte de suas reais habilidades.

Naquele espaço, e unicamente ali, era comum vê-la se locomovendo, em pé, com a vassoura, como se fossem uma continuação de suas pernas. Ela ia de um lado para o outro, subia e descia as escapas do dormitório feminino, pegava seu material escolar. Algum aluno de outra casa perguntaria se ela nasceu com uma vassoura, ou se era um talento natural.

Ela tinha entrado no time da Corvinal, há dois anos, e precisou substituir o goleiro titular durante dois jogos. No primeiro teve bons resultados e conseguiu colocar em prática o que tinha aprendido. O segundo jogo fora uma experiência traumática contra a Sonserina, na qual enfrentou Thor. Nunca esqueceu daquela partida. Não fora apenas uma das constantes derrotas da Corvinal, mas um momento particularmente traumático, no qual teve um choque de realidade com a discriminação que existia em Hogwarts com os alunos de origem trouxa.

Ninguém prestou muita atenção àquele jogo, pois outras coisas estavam acontecendo em Hogwarts. Mas o time da Corvinal foi simplesmente massacrado pela combinação entre os artilheiros da Sonserina e Thor Maxwell. Seus balaços eram impecáveis, e nunca erravam um alvo. E tinham uma potência monstruosa, de forma que, quando você era atingido, era praticamente certo de que não retornaria ao jogo.

Afastado do time pelo excesso de violência, o mesmo tinha mudado, isso era evidente. Estava diferente. Começou até mesmo a namorar uma trouxa, veja só. Mas, para Julieta, aquela derrota tivera um gosto amargamente pessoal.

E então eles derrotaram a Sonserina no ano anterior. E, agora, Thor retornou, o que acendeu um novo sentimento dentro de si.

No meio do salão, locomovendo-se de um lado ao outro com a vassoura em pé, segurando-se sem as mãos, ela estica os braços para o lado, em linha reta e, forçando os quadris, controlou a vassoura de tal forma que ela começou a girar de maneira lenta e coordenada. Há dois anos, desde aquele jogo, ela treinava diariamente seu controle, sem parar. Mas isso demorou a dar resultados. A vassoura começa a girar lentamente, como um cronômetro, de forma que ela ficava de olhos fechados.

A ideia veio quando observou o estilo de voo de Cho Chang, a qual movia a vassoura como uma extensão do corpo, alternando acrobacias enquanto voava e conectando-as às suas jogadas. Recebeu algumas orientações, mas as coisas ficaram um pouco bagunçadas quando a apanhadora se machucou no ano anterior. A mesma dissera que deveria imaginar aquele objeto como uma extensão do corpo. Julieta não entendia o que aquilo queria dizer, até que Cho pegou a vassoura de Julieta e a balançou, fazendo giros no ar, como um bastão. Girava a vassoura pelas costas, fazia-a escorregar por entre os dedos e por debaixo da perna, passando-a rente ao rosto de Julieta, inclusive, como se fosse um bastão de luta. Explicou que, assim como aquele "bastão" não deveria ser imaginado como uma ferramenta, mas uma extensão dos seus próprios braços, era assim que Julieta deveria enxergar a sua vassoura. Era essa a base do "Quadribol Acrobático" de Cho.

Depois de um longo treino, Julieta havia aprendido a conectar sua respiração ao movimento circular da vassoura. Já sabia se mover, mas as instruções de Cho lhe deram novas perspectivas, de maneira que sentia o movimento do ar na vassoura como se calculasse os passos que daria ao percorrer o mesmo trajeto.

Seu corpo continuou naquele giro lento e gradual, até que completou uma volta completa em exatos 1 minuto, cronometrados pela sua própria respiração. Ela continuou girando, aumentando lentamente sua respiração mais duas vezes, até que a abaixou os braços e os cruzou. De olhos fechados, continuava girando em um canto do salão comunal da Corvinal. Gradativamente aumentava a velocidade, até que ela abriu os olhos. Não era um exercício fácil, deveria acostumar seu corpo à perda de equilíbrio e foco. Era como se, por estar levitando, ela perdesse temporariamente seu centro de gravidade e alguns de seus sentidos estivessem bagunçados.

Foi então que ela, naquela posição e ainda girando, olhou para cima, para o teto do salão. Focou em um ponto qualquer, e o manteve firme. Continuou girando de olhos abertos, concentrando toda a sua atenção naquilo. O mundo girava cada vez mais rápido, de maneira que os demais alunos paravam para observar a cena. Pelo menos uma vez por dia ela fazia aquele exercício, girando cada vez mais rápido enquanto olhava para um ponto específico, totalmente focada.

Foi então que ela despencou da vassoura, desnorteada. O tombo não pegou ninguém desprevenido, pois todo dia ela terminava a sequência com aquele exercício, e sempre o interrompia após uma queda. Era como se o mundo girasse ao seu redor, e o efeito da energia afetasse seu ponto de percepção. Ela dá um tapa no chão e segura a cabeça, tentando se reorientar.

- Quanto? - ela perguntava aleatoriamente, sem olhar para ninguém.

- Hmmm... 20 segundos? – respondia um dos presentes.

- Não é o bastante.

- Não? - um primeiranista da Corvinal parecia visivelmente surpreso - eu queria voar igual a você! Como é que você faz isso?

Julieta olhou para o rapaz e sorriu, mas o mesmo se fechou em um instante quando ela se lembrou de uma coisa.

- Treino. Mas ainda não está bom. Preciso de mais tempo.

- Pra que?

- Pra girar mais rápido!


O tempo pode ser relativo, mas a forma como ele vai sendo estruturado também está relacionado à interpretação dos acontecimentos. Diferentes coisas podem ocorrer ao mesmo tempo, ou em situações diferentes, e vão fazendo sentido pela interpretação que damos. Daí que a função do cronista, ou de um narrador, é de reunir fados, elementos, eventos, estatísticas e, até, fatos, para criar uma narrativa que dê sentido a um acontecimento. É esse poder que tem o narrador de reunir elementos sem uma conexão direta, e apresentar com eles se concatenam e chegam a nós como um todo coerente.

Às vezes, um evento aparentemente sem relevância conecta-se a uma série de outros, como uma novela. De fato, é essa a premissa de uma novela: uma acontecimento principal, com diversos outros que, em maior ou menor grau, se interligam.

Assim, tal como uma sequência de ações, o tempo/novela vai sendo intercalado com participações diretas ou indiretas, perceptíveis e imperceptíveis, descambando naquilo que o narrador, futuramente, transmutará em "fato".

Mas, em uma sequência de ações, qual é a causa, e qual a consequência? Qual é a principal, e a que está atribuída o grau de segunda categoria? Afirmação complicada, já que, no fim, todos estamos enebriados nas nossas próprias histórias, preocupado com os rumos que não controlamos, sem perceber como nossas ações se cruzam com as dos outros. Ou melhor, tentam se cruzar. Às vezes é como se houvesse uma série de fios do destino transitando de maneira paralela, até que, como se por pura magia, eles se movimentam e se cruzam.

Ou alguma coisa os puxe.

Ainda assim, se é verdade que poucas coisas na vida de fato são "fatos", então é um fato de que só nós podemos ser os protagonistas da nossa própria narrativa.

Talvez, quem sabe, guiada por essas ideias, Papoula Pomfrey fez uma proposta inusitada à Sarah. Quando a adolescente aceitou e resolveu responder ao desafio, a resposta que recebeu da chefe do setor médico foi, no mínimo, inesperada.

- Esse segredo não me interessa, pois eu sei qual é a verdade.

-...

-...

- C-c-como?!

- Seu sangue... eu examino os estudantes de Hogwarts há tanto tempo... reconheci sua ficha quando você entrou. Eu já cuidei de um lobisomem, saberia reconhecer sua linhagem.

-Mas, então... não importa o que eu diga, a senhora sabe a verdade sobre o meu pai?!

- Depende do seu conceito de verdade – ela brevemente ri – mas todo mundo tem uma história, não é mesmo?

Sarah estava um pouco abismada. Madame Pomfrey estava segurando, segundo a própria, um gole com uma pequeníssima dose da raríssima poção Felix felicis. Era visível no fraco que era apenas uma gota. Seja como forma de animá-la, agradá-la ou tentar um sorriso, disse que lhe daria se ela lhe contasse um segredo. Não perdeu tempo tentando entender a psicologia da médica, pois, àquela altura, o que teria a perder? A doutora, por outro lado, não parecia surpresa quando ela lhe contou quem era seu pai.

- Mas eu vou te dar isso mesmo assim.

- E... o que eu faço com isso? - perguntou, enquanto pegava o frasco - pra que?

- Não sei.

- Então...?

- Quem sabe? Mas use com sabedoria.

- Então para que isso serve, se só tem uma gota?

- Quem sabe? Tem gente que só quer se sentir mais confiante para utilizar. O efeito do Felix felicis não é eterno, todo mundo sabe disso... mas, se você souber bem o que pedir, quem sabe o destino não sorri pra você e coloca um conjunto de situações forte o suficiente para criar um milagre? Isso depende do que você deseja.

- A senhora pode me dar uma dica?

- Bom... medi-bruxos tem uma compreensão diferenciada de poções de outros magos que atuam com isso. Para nós, essa poção dá à pessoa a capacidade de enxergar as cordas do destino, e puxá-las a seu bel prazer, mesmo que não perceba que está fazendo. Pense nisso, Sarah. Pode ser que aquilo que você mais deseja possa se tornar realidade, só depende da corda que você quer puxar. Mas, puxe com cuidado, pois nunca sabemos que outros nós ela irá desenrolar.

Pomfrey sabia que Sarah não estava, com o perdão do trocadilho, morrendo de amores por Harry. Era uma paixão adolescente. Harry... ou Carlos... ou Thor... ou qualquer outro estudante famoso da escola... não era preciso muito para que as pessoas fossem tomadas de paixão. Não era a primeira vez que encontrava um estudante em desespero, desolado, depositando suas esperanças em um momento, um instante, a esperança de um sentimento. E parte do processo de curar o corpo, era dar conforto à alma. Mas, se não usada de maneira correta, aquela última gota de Felix felicis não seria mais do que um placebo.

Sarah Figy não sabia o que pedir. Sabia que seria transferida, pois os recursos para seu tratamento, por mais que Madame Pomfrey quisesse, não existiam naquele lugar. Isso porque seu corpo era incapaz de suportar um tratamento mais intenso. Magia podia quase tudo, lembrava-se. Também não tinha muita esperança, apenas agradecia pelas últimas semanas. Até que foram bons momentos. Nunca foi uma pessoa muito popular. Com exceção dos colegas que entraram no mesmo ano que ela, a maioria das pessoas de sua própria casa sequer a conheciam. Era alegre e cheia de vida, mas quase ninguém sabia disso. Não era dada à confusões, como sua prima. Também evitava muita discussão, ou se envolver em eventos, espetáculos... nem ao menos foi ao último baile. Precisava descansar. Era uma aluna mediana, não tinha muitos sonhos, nunca se deu esse direito. O que seria de sua vida, então?

Uma lágrima furtiva escorregou e esbarrou no frasco. Ela percebeu e, num impulso, abriu-o e bebeu, praticamente não sentindo o gosto da gota.

- Quem sabe pelo menos eu posso passear? O dia está tão bonito.

Mas a verdade é que, em seu íntimo, ela não pensava em nenhum pedido, desejo, necessidade... tampouco em sua mãe, sua tia e tio, sua prima. Apesar de sua pouca idade, um rápido pensamento, tão breve que acabou se esquecendo de que o teve, passou diante dela: o de que não queria morrer com arrependimentos. O mesmo pensamento que, por tanto tempo, ela não conseguia verbalizar.


Enquanto isso, em outro canto do salão da Corvinal, outros estudantes tinham suas próprias prioridades, como, por exemplo, entender o significado do "tempo".

Um famoso padre medieval dizia que o passado não existe, e que o futuro ainda não veio: só o presente é que é relevante. Talvez uma geração de escritores de ficção científica devesse ter prestado atenção nesse conselho, pois nos poupariam de uma enxurrada de obras.

No entanto, a magia funcionava de forma diferente: bruxos e bruxas com o dom da clarividência eram capazes de enxergar o tecido difuso do tempo-espaço, motivo pelo o qual o Ministério da Magia tinha um departamento inteiro para guardar as previsões. Todavia, se era um dom raro, não era difícil encontrar milhares de previsões empilhadas em algum lugar.

Ainda assim, há o problema da retrocognição. Não é incomum pensarmos que estamos olhando para o futuro quando, na verdade, vemos o passado. Isso porque o seu futuro pode ser, na verdade, o passado de alguém. Alguns portadores da visão precognitiva desenvolvem tanto suas habilidades, que são capazes de atingir esse segundo caminho. Todavia, é uma via perigosa: entender o passado para antecipar eventos que ainda não ocorreram exige um grau enorme de dinâmica e, muitas vezes, fornece para incautos apenas uma série de imagens que não lhes fazem sentido.

Talvez não estivesse exatamente com isso em mente quando resolveu fazer uma revisão dos conteúdos para a prova dos NOM´s, e pediu ajuda a sua colega de casa, Padma Patil. Embora ela não fosse tão dedicada quanto à irmã no estudo da adivinhação, era uma excelente fonte de consulta. As atividades extracurriculares, como o envolvimento nos treinos auxiliares de quadribol, nunca a favoreceram a se empenhar mais, mas ela dava dicas interessantes.

Por exemplo, foi Padma que lhe disse que a varinha de Cassie, feita de Lima-prata, oferecia um melhor uso para os que praticavam a adivinhação. A varinha escolhia sempre o dono, era o que o vendedor lhe dissera. Outra, que aquelas raras visões que Cassie tivera, eram uma forma de oneiromancia, considerando a forma como ela enxergava os eventos, mesmo que, em algumas situações, isso tenha ocorrido com ela acordada. Naquele momento, Padma estava propondo que a mesma praticasse um pouco de cristalomancia com uma bola de cristal que trouxera, e tentasse direcionar seus sonhos para a esfera.

Falar, obviamente, era fácil. Não era como se tivesse algum controle daquilo, apenas... aconteceram algumas vezes, ou melhor... poderia contar nos dedos, naquele ano.

- Tente se concentrar em alguma coisa. Foque no seu alvo. Vamos partir das anteriores, o que acha?

- Deixa eu ver...

- Pense em algo incomum, oras.

- Alguns incidentes bobos, que não deram em nada - e falava, pensando em como as visões que tivera tinham uma carga extremamente dramática mas, quando se realizavam, eram um verdadeiro banho de água fria.

- Tente algo pequeno. Comece com os seus amigos mais próximos, talvez... o Chaz?

- Consigo ver perfeitamente o futuro dele - e coçava a cabeça - mas ele é muito enrolado.

- Seu namorado, talvez.

- Sei exatamente o que ele está fazendo agora, com meu sexto sentido.

- Mesmo? - Padma fica surpresa - nossa, é tão apurado assim?

- Não... - e por um momento ela esquece que a colega era um ano mais velha do que ela.

- Talvez algo mais próximo - Padma passava lentamente os dedos pela bola de cristal - alguém importante... que tenha significado para você - ela continuava girando o dedo pela esfera - quem sabe, nossos amigos do time de quadribol - Padma virava levemente o rosto, tentando olhar para outra direção - o Carlos, quem sabe... ou o James... ou...

Eita! E não é que aquela história tinha um pingo de verdade? Tinha escutado umas histórias, boatos sem uma comprovação, embora plausíveis, entre a rádio-corredor da Corvinal.

- Sei lá... vai que eu vejo algo que não goste... ou não deva... - Cassie girava o cabelo com o dedo - não me sinto muito à vontade em ficar espiando os namorados das minhas amigas... esse negócio de vidência às vezes é tão expositivo... cê sabe, algumas pessoas são como leoas, protegem o que é seu...principalmente as que tem grandes jubas... cor de fogo... com sardas...

- Então não conta pra ninguém, ué.

Eita!

Se Padma entendeu a indireta ou não, Cassie deu uma de desentendida e colocou a mão na bola de cristal. Fez mentalmente uma associação de relações, tentando estabelecer uma conexão direta entre ela e a pessoa que iria "bisbilhotar". Ficou uma pulga atrás da orelha, pois sabia que aquilo não iria prestar e, no fim, estaria jogando lenha na fogueira.

Bom, dane-se! Não era baú para guardar segredo. E já que suas últimas visões pareciam estar envoltas em um certo amigo, talvez isso pudesse dar certo.

E parecia que as dicas de Padma deram certo. Geralmente Cristalomancia projetava algumas imagens na bola de cristal, mas Cassie era diferente. A verdade é que era uma preguiçosa, não era a aluna mais esforçada da aula de adivinhação, e aquelas dicas eram úteis. Todo mundo achava que era a matéria que ela tinha um melhor desempenho, mas isso acontecia por um talento natural para interpretar sinais. Mas ela não era tão boa assim quanto pensavam. Nem sabia o quanto sua varinha era cómoda, só para ter uma ideia. Mas as visões que tinha se mesclavam com a técnica, e ela tinha a impressão de que estava tendo um sonho e, ao seu lado, estava Padma.

Padma estava ao seu lado, e isso nunca tinha acontecido. E a mesma não parecia parte do sonho, pelo contrário, estava tão surpresa quanto. Era como se passassem um filme na bola de cristal, e as duas tivessem mergulhado nele.

- Aqui é... - Padma parecia levemente confusa - é a escola, não é?

- Sim, mas... onde? E quando?

- Cassie, veja!

- O que foi?

Foi quando perceberam que estavam no meio de algo. Haviam vários alunos ali, e muito barulho. Parecia uma reunião, um evento ou...

Era um evento, mas não o que ela imaginava. Na verdade, estavam em um grande salão, e havia vários alunos ali, gritando, como se observassem algo. Mas o que?

Foi Cassie que percebeu uma pessoa parada no meio dos estudantes - e, mais atentamente, como ele estava bem no meio, com todos bem distantes -, ajoelhado, bufando.

- Yoh? - Padma reconheceu-o de cara e foi em sua direção - o que aconteceu?

- Não dá para interagir - Cassie observava. E, de fato, eles passavam pelos alunos e os atravessavam como se fossem fantasmas. - É só... como se fosse um filme.

- O que está acontecendo aqui? - E Padma olhava para todas as direções. Uma das regras da vidência é captar os detalhes, os elementos que não fazem tato sentido ou passam despercebidos - ele parece um pouco cansado.

- Parece que ele brigou com alguém? - E ambas, de repente, tem sua atenção captada por uma luz que começa a aumentar.

Só que não era uma luz branca, mas tinha um tom avermelhado, ardentes...

Fogo!

Como se estivesse parada em pleno ar, havia uma figura humana e, de sua varinha, uma torrente de fogo era disparado em direção a Yoh. Mas não era um fogo qualquer, parecia mais uma labareda que começava com um jato, se expandia como se fosse uma grande torrente e se direcionava para seu amigo.

- UÁÁÁÁÁÁ! - Cassie se assustava - mas que diabos, Yoh! Em que m.e.r.d. ! você se meteu! - e, por reflexo, ela se corria dali, desesperada.

Padma, por sua vez, tentava se focar ao máximo na situação. Se não havia interação, então aquilo não iria feri-la. Poderia, talvez, ser um gatilho para expulsá-la dali, mas precisava observar o máximo de detalhes para... para...

Foi quando ela viu quem aquela mulher era, ou melhor, quem ela reconheceu ali. As chamas embaçavam sua visão, mas aquela figura lhe era familiar, onde a vira antes? Do ângulo em que estava, Padma tinha dificuldade para uma percepção completa, mas era uma mulher loira, pelo menos, até onde conseguia enxergar.

- Cassie! - ela gritava para a amiga, a qual corria desesperada - Eu acho que conheço essa mulher, é a mãe do...

Foi quando Cassie parou porque quase esbarrou com uma das pessoas – projeções – que estavam ali - ela mesma. E parecia incrivelmente surpresa com aquilo. Era a primeira vez que se via em uma visão daquelas, como parte do evento. Foi ai que se virou após escutar o que Padma disse, e viu Yoh - ou a visão dele - se levantando, correndo, pulando e mergulhando, com uma das mãos abertas, como se tentasse pegar algo, antes de ser engolfado pelas chamas.

- Quê?! Mas que diabos! Como isso foi acontecer? Kneen, seu doido!


Padma foi pega encarando aquela torrente de chamas, as quais, talvez por causa do efeito, a fez demora um instante para perceber que estava em outro lugar, um ambiente aberto, diferente do anterior, só que enevoado.

- Cassie? Oi? Alô?

Ela continuava andando, tentando se guiar em meio àquela área enfumaçada. Sentia como se, a cada passo, estivesse prestes a pisar em um abismo, e era essa a sensação que tinha, como se um passo em falso a jogasse em um abismo. Até que ela vê, adiante, um vulto grande, como se fosse uma pessoa corpulenta, mas com um formato levemente deformado.

Padma tentava caminhar, com aquele nevoeiro cobrindo sua vista.

- Oi? Tem alguém ai?

Como se por mágica, a névoa começa a se dispersar, e ela se dá conta de que a pessoa para a qual ela olhava a encarava. E que não era uma pessoa, mas duas, juntas, quase coladas.

- Hmmm? Quem...!

E, como se o mundo desmoronasse ao seu redor, Padma sentia uma explosão que arrancava o chão, fazendo-a voar. E, assim, ela se viu novamente no salão comunal da Grifinória, ao lado de Cassie. Ficou extremamente assustada com a última visão que vislumbrou, aterrorizada. Foi por isso que se levantou, ignorando por completo a colega que estava em transe, e saiu dali, correndo.


Ainda pega pela explosão de fogo e pelo choque de se ver dentro da visão, Cassie se percebeu andando pelos corredores de Hogwarts. Não sabia como fora parar ali, e tinha a impressão de que talvez estivesse sonhando. Pela primeira vez aquela visão parecia incrivelmente lúcida, com a exceção dos corredores vazios.

Nada.

Nem uma voz, um grito, um sussurro... era a única certeza de que tinha de que aquilo era real. Nem quando viu seu amigo na enfermaria, teve tantos detalhes.

Até que ela começou a ouvir vozes. Sussurros, os quais aumentavam a cada passo seu.

- Fará isso mesmo?

- Preciso.

- Eu não a critico, mas... tem certeza?

- Se eu não fizer, quem o fará?

- Eu poderia apontar o mérito da sua ação, mas para todas as alternativas, posso pensar em apenas uma com opiniões contrárias às suas.

O que começou com sussurros aumentavam a cada passo seu. Era como as vozes dos fantasmas que ecoavam pelas paredes, até que saltavam em sua direção. Mas aquilo era diferente. Ela sentia-se como se estivesse sendo guiada.

- Ele só quer saber de curtir a vida, não tem certeza do que quer saber, ou fazer. Sua determinação é aparente. Ele não foi, de fato, provado.

- Isso me é muito familiar.

- Não na minha percepção. O sujeito nem sabe fazer um Patrono direito... mas é um oclumente decente - ela falava, e sua voz exasperava uma ponta de orgulho.

- Sua percepção é muito peculiar. E suas escolhas também.

- Incomodada com isso?

- Pelo contrário. Sempre admirei seus métodos pouco ortodoxos.

- O que a senhora pode falar sobre isso? Afinal, foi você quem me apontou o caminho.

Cassie caminhava e, ao mesmo passo que as vozes aumentavam o tom, ela podia escutar seu coração bater cada vez mais alto. Até que ela se virou, não guiada pelo som, mas por uma sensação, e deparou-se com uma porta. A mesma se abriu, e ela se viu subindo algumas.

- Você era uma Hatstall, assim como eu.

- Isso foi uma percepção do chapéu seletor. Eu sempre soube que iria para a Sonserina.

- Iria, ou queria?

- Faz diferença?

- O chapéu foi bem insistente com você... e ele não demorou nem um segundo com o seu irmão.

Cassie terminava de subir as escadas, e embora não fosse um ambiente familiar, intuiu onde estava: na sala da professora de transfiguração, Minerva McGonagall. Isso, e o fato de vê-la ao final da sala, sentada em uma cadeira, em frente a uma mesa e outra pessoa. Mas, embora ela pudesse ver Minerva à distância, a pessoa estava desfocada, como se fosse um grande borrão.

Mas ela conseguiu perceber que se tratava de uma voz feminina.

- Isso foi previsível, Minerva. Aquele chapéu burro queria dizer para onde eu deveria ir? Há! Eu sempre fiz o meu caminho.

- E agora?

- Agora? Posso não ter escolhidos todos os detalhes, mas estou onde exatamente quero estar.

- Então porque quer sair?

- Você, melhor do que ninguém, entende que a vida é cheia de transformações. Não podemos controlar todas.

- Escolha interessante de palavras vinda de uma discípula de Gamp.

Cassie parou um segundo. Aquele nome era familiar, onde o escutara? Tinha certeza de que em algum livro, mas qual? Nessa hora, duas coisas lhe vinham a cabeça: devia se dedicar mais para os seus NOM´s... e que raios de visão era aquela que permitia divagações?

- Eu não teria me tornado se não fosse pela senhora.

- Ah, por favor... você era uma aluna talentosa... - e Cassie entendeu que, até em visões, a professora Mcgonagall tinha aquele jeito de falar arrastado - ninguém se surpreendeu quando teve um desempenho excepcional em Feitiços e Defesa contra as artes das trevas, mas sua afinidade com transmutação era impressionante. Ainda acho que você deveria ter ido para a Grifinória!

- ... ou ser aceita como uma discípula pessoal sua...

- ... o que deu na mesma. Talvez, se as coisas tivessem sido diferentes, hoje você estaria aqui, ensinando transmutação no meu lugar. Você me seguia para todos os lados, e discutia nas minhas aulas quando os outros alunos ficavam estagnados.

- Não estou no seu nível, professora Minerva.

- Ah, por favor! Não me venha com falsa modéstia! Sua percepção do princípio mágico está muito à frente de muitos professores que já passaram por Hogwarts.

- Eu fiz escolhas. Magoei pessoas. Ou teria magoado, se muita coisa não tivesse sido interrompida de repente. Mas eu não me arrependo. - Cassie caminhava lentamente, e a cada passo a imagem ficava mais nítida, assim como aquilo que parecia ser os aposentos da professora Minerva, ou algo parecido - Por isso que eu estou fazendo isso. Preciso trazer a verdade à tona.

- Se me lembro bem, uma jovem com tendências acadêmicas produziu uma longa discussão sobre os meandros do poder, e isso causou certo rebuliço. Acho que, se não tivesse sido isso, você teria sido reconhecida como uma das grandes intelectuais da época. Ainda tem contato com Bagshot?

- Eu fui reconhecida como uma das grandes intelectuais. Só tive discordâncias dos meus pontos de vista pouco ortodoxos. Isso causou uma separação entre eu e Batilda, não lembra?

Embora não enxergasse nada, Cassie a voz de uma das mulheres era reconhecidamente a da professora Minerva Mcgonagall. A outra, porém, estava indistinguível, não parecia a de ninguém que ela realmente conhecesse.

- Como era mesmo que você dizia? - havia um tom quase cínico e debochado nas últimas palavras de McGonagall, algo que não passou despercebido por Cassie - Ah, sim, "poder é poder, alguns tem, outros não tem".

- Sim... mas um homem muito sábio disse uma vez que o poder da crença nas coisas é uma arma ainda mais poderosa.

- E você andou frequentando igrejas durante todo esse tempo, Lady Black? Meu pai iria vibrar do auto do seu púlpito se escutasse isso.

- Um trouxa, sim. Mas não um pastor. Seu pai ficaria decepcionado, ou quem sabe surpreso, se soubesse que isso veio de um descrente chamado Harari.

- Hunf! Você, como sempre, é cheia de surpresas.

- Sempre temos algumas. Mas parece que temos uma enxerida aqui - e ela olha rapidamente para trás, de modo que Cassie sente uma face rígida olhando nos seus olhos. Ela encarava o rosto da mulher e, ao mesmo tempo, não conseguia fixar sua imagem - ora, ora, ora...

Cassie estava assustada. Uma mulher corpulenta se levantou e, de repente, a segurou pelo pescoço, erguendo-a.

- Então, temos uma pequena ratinha por aqui... sua mãe não te ensinou a não bisbilhotar a conversa dos adultos?

Os olhos de Cassia viravam de um lado para o outro enquanto ela se debatia. Seu corpo começava a suar friamente, sento tomada pelo desespero. Aquilo ERA real. Nunca teve uma visão tão lúcida como aquela. Na verdade, sentia como se aquilo não fosse uma visão.

- Você não está aqui, não é? Diga-me, como conseguiu se aproximar tanto sem que a percebêssemos - e ela se esforçava para distinguir os traços daquela mulher, um rosto que não fazia sentido - como consegui enganar minha oclumência?

Cassie, no auge do seu desespero, tentava pensar em algo para fazer, desesperadamente. Tentava se lembrar das aulas de vidência, de alguma estratégia, alguma artimanha... a verdade é que não fora preparada para aquele tipo de situação. As aulas sobre o assunto eram tão difusas, dispersas, motivo que a faziam ser tão desinteressadas naquilo e fazê-la depender mais do seu dom, do que do conhecimento teórico. De fato, era a diferença entre alguém com um talento nato para desenhar, como Chaz, e alguém que não tinha paciência para aulas de desenho.

E o pior é que ela sentia aquilo como se estivesse sugando sua vida. Não sabia se estava olhando para o passado, o presente o agora, mas estava interagindo com uma visão que a atacava ferozmente. Na verdade, ela sentia-se exatamente como nas vezes em que seu namorado imobilizava Chaz, só que, agora, era pior.

- Diga-me, minha jovem corvinal, o que você quer aqui? Em que parte da escola você está? - Aquela mulher sabia sua casa. Sabia que ela estava em algum lugar da escola. Mas tinha certeza de que não estavam no mesmo tempo, pelos sinais que teve anteriormente. - Mas deixa estar, eu tenho outras prioridades agora - e a mulher simplesmente jogava Cassie para o ar, a qual caia sentada no chão da sala de McGonagall, aturdida e segurando o pescoço -. Mas não se preocupe, querida. Um dia você vai ter a minha total atenção.


Quando ela se deu conta, estava no meio de um nevoeiro. Instintivamente sabia que ainda estava no meio da visão, o que a deixou em pânico. Cassie se levantou e começou a correr. Ela sentia como se estivesse caminhando no meio de uma corda e, abaixo, houvesse um grande abismo. Estava totalmente descontrolada, até que começou a ver, mais adiante, um vulto. Parecia uma pessoa grande, disforme. Aquilo ora a assustou, ora deu-lhe um grau de segurança, o que permitiu que ela respirasse mais devagar. Conforme se aproximava, percebeu que não estava vendo uma pessoa, mas duas. Aos poucos, a névoa se dispersava, e começava a delinear o que parecia ser uma pessoa segurando a outra. Mas a pessoa que estava sendo segurada estava... de maneira muito estranha...


Foi quando Cassie abriu os olhos, e se viu novamente no salão comunal da Corvinal. E, como se tivesse passado uma eternidade fora de si, ela tinha a certeza de que aquilo era real, a julgar pela forma como estava suando. Foi ai que ela olhou ao redor, e percebeu que sua "carona" não estava ali.

Que traíra! Essa ideia de bisbilhotar a vida das outras pessoas nunca foi sua, mas da Patil, pra início de conversa. Aquela falsiane conseguiu sair antes da visão e a deixou ali, sozinha? Custava tê-la balançado para a despertar daquela visão tenebrosa?

Foi então que um calafrio passou pela mente de Cassie. Ela não sabe o que foi aquilo. Se tinha passado por uma experiência de retrocognição, tinha uma bruxa do mal atrás dela há algum tempo, e ela não sabia. Se viu o futuro, então em algum momento ela passaria a ter atenção desagradável. E, se por algum motivo inexplicável ela saiu do seu corpo e viu algo do presente, a impressão de uma faca no pescoço era pior ainda. Nenhuma das opções era agradável, e intimamente ela sentia que tinha se borrado. Conferiu suas roupas e percebeu que, mais alguns segundos, aquilo teria acontecido.

A única coisa na qual ela se agarrava, a qual lhe dava uma certeza, era de que iria ESFOLAR aquela traíra. Isso era jeito de tratar uma colega de casa e de time?

Foi quando Cassie olhou para a bola de cristal na qual ainda estava com as mãos, e viu, ali, refletido a última coisa que vira, o que a assustou, pois parecia diferente de como realmente tinha acontecido. E então ela descobriu o porquê de Padma tê-la deixado ali, sozinha.

Ela se levanta e começa a sair correndo dali para fora da Corvinal. Olhando para todos os lados, ela tenta desesperadamente encontrar sua colega, como se tentasse encontrar algum rastro da gêmea Patil, sem sucesso. Começa a apertar o passo, andar rápido e, por fim, correr.

Tinha que impedir aquela doida de causar uma tragédia.


Ele observa o que ela fazia, como em câmera lenta. Ela pega uma garrafa térmica e derrama o líquido quente em uma xícara - não uma caneta, ou um copo, era bom frisar - bem devagar. Por alguns instantes, era como se todo o som ao redor desaparecesse e ele pudesse escutar somente o barulho do líquido, até que a ruiva, que dedicava total atenção à ação, ergue os olhos e os de ambos se encontram.

- Que foi? - ela levanta levemente o lábio direito enquanto pergunta.

Por um segundo ele pensa que ela lhe entregaria a xícara. Podia sentir o vapor quente saindo dali. Porém, novamente se perdia em meio aos movimentos dela: passava o dedo mindinho bem na borda da xícara, sem afundar muito para não se queimar, de modo que o líquido excedente grudasse. Era um movimento lento, meticuloso e, na verdade, parecia descompromissado. E, como se tudo girasse em câmera lenta, ela retira o mesmo dedo e passa bem próximo ao nariz dele, roçando em seguida no lábio superior e encostando no superior.

Então ele se concede o direito de fechar por alguns instantes, os quais pareciam uma eternidade, os olhos.

- Nosso primeiro encontro no mundo trouxa - dizia enquanto abria os olhos, e sentia o gosto do chá, que misturava um pouco de acerola, morando e pêssego.

- Você lembrou! - disse com um sorriso, segurando a xícara. Ela manteve a xícara parada, a meio caminho do rapaz, observando-o. E continuaram assim por instantes enquanto o cheiro do chá se espalhava. Era um cheiro que lhe trazia lembranças e, ao mesmo tempo, criava uma espécie de viagem no tempo. Parecia que tudo acontecerá ontem e, à medida que se lembrava, não pulava direto para evento em si, mas, como se estivesse rodando de trás para frente, ele passava um rápido filme de tudo o que acontecerá daquele momento atual, até o passeio.

Podiam ter ficado próximo ao salgueiro lutador, lembrava. Mas queriam um espaço mais aconchegante, com sol, vento, enfim, algo sensorialmente afetivo. A luz do sol batia no lago, ao mesmo tempo em que, ocasionalmente, uma brisa seguia na direção de ambos.

Ela tinha um olhar de afeto. Mas queria dizer outra coisa, também. Naquela relação ela não podia contribuir com o excesso de calma dele, simplesmente porque não era o seu jeito de ser. Foi assim que aquele olhar de cumplicidade o atingiu.

Remember those walls I built?
Well, baby, they're tumbling down

- Sabe - a voz da ruiva seguia suave, apesar das mudanças – eu aprendi que, às vezes, temos que deixar as coisas pra lá. Tem problemas que nós temos que não tem solução, daí é melhor esquecer, seguir em frente, fingir que não aconteceram - ela leva a xícara para perto do seu próprio rosto, sorvendo um gole - mas se isso que te incomoda é tão pesado assim, então deixa eu te ajudar. Compartilha comigo.

Gina direciona a xícara para Yoh, bem lentamente. De onde estavam, sentados na grama com uma toalha, havia uma bolsa com algumas guloseimas para um rápido piquenique, enquanto aproveitavam o momento o término das aulas daquele dia. Dali, ela podia observar um dos prédios principais. Não via detalhes pela distância que estavam, mas sabia dizer com quase exatidão, pelo costume, as pessoas que passariam por ali, naquele momento.

- Sua mãe vai passar por ali a qualquer momento... deve estar indo até a biblioteca, ela sempre vai até lá, passando por aquele corredor ali - e apontava, como se pudesse indicar a professora Kneen - que que ela faz tanto lá? A gente a encontra mais vezes na biblioteca do que em sala de aula, sempre próximo à entrada principal, sempre com algum livro das áreas proibidas e, as vezes, pedindo licença para alguém para ocupar a mesma mesa... daí ela costuma se levantar de repente e deixar os livros ali, jogados... é quase como se ela quisesse ser vista, notada... que percebessem o que ela está fazendo...

- São os livros - ele falava enquanto tocava na xícara e, naquele instante, havia uma tremedeira muito pequena, muito sutil, a qual Gina sentiu passando da mão de Yoh para a sua, por meio da xícara. - dela.

And they didn't even put up a fight
They didn't even make up a sound

Magia é uma coisa curiosa. Muitas vezes os trouxas pensam que conceitos de magia são figurados... metonímicos... que se resume a explosões, poções, maldições... mas um bruxo enxerga o mundo como essencialmente mágico, de diferentes maneiras. Não fazem magia, vivem-na. Foi assim que, por meio dessa vibração, Gina olhou da xícara aos olhos de Yoh, e teve a sensação de que aquela tremedeira estava aumentando de tal maneira que poderia partir a terra. Como ambos ainda tocavam a mesma xícara, ela ergueu o dedo indicador da mão direita e tocou bem devagar na mão esquerda dele, fazendo um carinho de leve.

Aquela tremedeira parou, mas era como se o mundo tivesse ficado em silêncio, e o barulho tivesse mudado para outra coisa. Um pulsamento. Podia escutar o coração dele.

I found a way to let you in
But I never really had a doubt

- Você está... estressado.

A palavra não teria sido melhor. Desde que o seu irmão começou a fazer parte da equipe de fiscalização sanitária, passou a conhecer expressões novas, e algumas antigas com sentidos diferentes. Há diferentes tipos de estresse, de cansaço. Ela não esquecera da situação mágico-clínica de Yoh, mas era algo com a qual ele lidava a vida inteira. Seu problema de nervos não era, no sentido mais literal da palavra, uma doença como a concebemos. Era mais um estado, como alguém que precisava aprender a conviver com aquilo.

Aquilo era outra coisa. Gina não tinha conhecimento o suficiente sobre o assunto, tampouco seu irmão. Nem mesmo Hermione ou seu namorado. Só os medi-bruxos presentes na Escola saberiam explicar. Era como, por assim dizer, o termo "infarto fulminante". Um indivíduo pode sofrer uma sequência de pequenos infartos por muito tempo, alguns, imperceptíveis, até que um o derruba, e muitos consideram que era um "dos grandes". Era um pouco assim que a condição mágico-clínica funcionava, e isso era algo que ela já tinha compreendido. Ao longo da vida Yoh foi desenvolvendo mecanismos de escape para aprender a conviver com isso.

Standing in the light of your halo
I got my angel now

Mas aquilo ali era outra coisa. Era como uma sequência de ... coisas... que o estavam sobrecarregando. Ou deixando-o agoniado.

- Eu não sabia - e levou a mesma mão na direção do rosto, fazendo um carinho na bochecha -, mas... - ela praticamente ignorou a informação que ele acabara de lhe dar - enfim... você pode sair daqui agora e encontrá-la facilmente, dizer que não quer saber mais de discussão, que isso que está incomodando... você quer deixar para lá. Vai ser doloroso, é fugir, deixar um negócio pendente? Mas se está te fazendo sofrer tanto assim e não consegue encarar... então deixa pra lá.

Ele estava um pouco cético com relação às palavras dela. Simples assim? E não foi o que fizera por todos esses meses? E sua mãe o ouviu?

- Não é como se você não tivesse alguma forma de resolver isso nos seus termos, não é mesmo? Depois que percebi que você estava se revelando uma Hermione 2.0, não fico mais surpresa com nada - e sorria, fechando os olhos.

Ele olhava levemente para seu rosto, as sardas, motivo do apelido que lhe dela.

It's like I've been awakened
Every rule I had you breaking

- Moranguinho... - e ele mesmo nem reconhecia sua voz, quase rouca. Sabia que podia pressionar sua mãe. Mas nunca ousou tanto. E sabia que poderia resolver isso de vez. Na verdade, ao longo do ano já tinha deixado seus termos para ela. Pesados, mas poderiam ser realizados.

It's the risk that I'm taking
I ain't never gonna shut you out

- Sabe... eu não quero ser apenas ser sua namorada... quero ser, quer dizer... continuar sendo algo que a gente foi descobrindo nesses últimos meses... eu quero te dar algo maior do que meu apoio - Dessa vez ele piscou rapidamente enquanto segurava a xícara. Como ela a segurava com uma das mãos, foi levando-a até a boca de Yoh, enquanto ainda acariciava o rosto do rapaz de olhos acinzentados - eu quero te proteger.

O lado direito do seu lábio levantou-se brevemente, e ele até teve vontade de rir, com um misto de choro. A verdade é que ela não podia protegê-lo. Estava brigando com forças maiores do que podia conceber. Algumas, até, do nível de uma professora McGonagall. Era um sentimento arrogante, como se pudesse dar todas as respostas, e em nenhuma delas Gina seria um fator decisivo para a solução. Isso porque ele tinha suas próprias proteções, cravadas na sua mente.

Foi então que ela encostou a xícara nos lábios dele. O vapor quente tomava as narinas de Yoh, acompanhada do gosto do Chá.

- Então, tome a sua bebida, com calma, devagar... e quando você terminar... decida o que quer fazer.

Era como se cada gole desacelerasse seu coração. Havia uma contagem de tempo, como se aquele gole indicasse tudo o que havia acontecido e, de repente, ele voltava no tempo. Não no começo do período letivo, do jogo contra a Grifinória e quando venceu o título, a sua nimbus "envenenada"... de repente ele se via na mesa da Corvinal, no exato momento em que resolveu se intrometer na discussão de Carlos, quando o mesmo reclamava do acidente com Cho. Foi ali, exatamente ali, que ele poderia delimitar quando tudo começou, que desencadeou uma série de ações que o levaram àquela situação. Foi naquele momento que ele rompeu seu hiatus, iniciado no dia em que passou pelo chapéu seletor.

Mentira. A quem queria enganar? Aquilo começou bem antes, quando era um terceiranista, no dia em que ele fingiu estar doente, naquela semana em que o professor de Defesa Contra As Artes das Trevas ensinou os estudantes a enfrentar um bicho-papão.

Gina mantinha seu gesto, enquanto o namorado retirou a xícara das mãos dela. Segurava com ambas as mãos, olhando para o líquido, como se estivesse observando um espelho mágico, refletindo sobre seus problemas. Seu coração estava um pouco menos acelerado, e ele podia sentir uma calmaria invadindo o movimento. Na verdade, era como se o próprio som do vento tivesse cessado. Não escutava o barulho das pessoas passando ao redor, os casais conversando... foi quando Gina se levantou e sentou-se atrás dele, na grama, e o abraçou por trás, abrindo as pernas para que ele ficasse totalmente ali, aninhado enquanto os braços dela enroscavam sua barriga. O braço direito da ruiva de repente subiu pelo peito dele até seu coração, e só então ele entendeu o que ela havia dito.

Everywhere I'm looking now
I'm surrounded by your embrace

Ele se sentia protegido.

Baby, I can see your halo
You know you're my saving grace

Mas esse sentimento durou uma fração de segundos, só até ela aproximar a boca da orelha dele, e sussurrar.

- Calma, eu tô aqui. Se abre comigo... - e em seguida ela disse algo de uma forma... bem, ele não sabia dizer, mas era suave, como a água passeando pelos montes, abrindo caminho e indo em direção ao oceano. Sua voz era como o barulho da água, passeando pelas partes mais profundas de sua mente, não, de todo o seu ser... como se estivesse sendo enfeitiçado pelas palavras da ruiva. Sentia-se inebriado. Não era como no caminho do salgueiro lutador, na casa dos gritos... foi ai que as últimas palavras dela o puxaram de volta a realidade, como se ele estivesse sendo arrastado de um estado de torpor - Yoh... M... Kneen.

Ele tenta virar o rosto para olhar para ela. Pela posição, o máximo que consegue é ver um pouco dos cabelos dela, roçando em seus ombros. Ele pensa em suspirar mas, quase de maneira automática, acontece outra coisa:

You're everything I need and more
It's written all over your face

- Imagina que você que você é tomado por um medo tão grande, mas tão intenso que... que...

Baby, I can feel your halo
Pray it won't fade away

Ele trava. Ela encosta a cabeça em suas costas e roça o nariz. Em seguida, vira o rosco e encosta o ouvido nas costas dele, ouvindo sua respiração e pulsar. Gina concentra-se na respiração de Yoh, a qual estava acelerada. Embora não pudesse olhar em seu rosto, ela sabia que ele estava estático.

Yoh novamente só escutava um silêncio total, ou melhor, apenas a sua respiração, como se todo o som ao redor tivesse desaparecido. Ele tenta se acalmar, mas não era fácil. Até que passa a escutar um segundo barulho, similar ao seu. Tudo isso ocorre em instantes: ele se concentra no barulho, tenta acompanhá-lo e, quando se dá conta, percebe que sua respiração estava seguindo o ritmo daquele outro barulho, na verdade, uma segunda respiração. Era novamente Gina, puxando-o. Sentia-se mais calmo, relaxado. Por sua vez, Gina sentia a respiração dele junto a sua, de modo que ela o ritmava como um instrumento musical.

Em outra situação, diria obrigado. Mas sentia que... de alguma forma... ela sentia o que ele iria dizer.

- Obrigado - mas, no fim, acabou dizendo.

- If you do not tell, It won't do the spell - mais uma vez ela repetiu aquela frase que havia sussurrado antes em seu ouvido, acompanhada do seu nome. Não o seu nome todo, o qual ele dissera apenas uma vez, na casa dos Weasleys. Era como se isso despertasse a magia que existia entre eles.

- Imagine que você é tomado por um medo tão grande, está mergulhado nele de maneira tão intensa, que não sabe dizer quando ele começou. Ele está ali há tanto tempo, que você já se esqueceu o que o motivou. Você o vive de tal maneira que, em algum momento, percebe que não sente mais nada.

Naquele momento, vários muros se quebraram, sem fazer som algum.


E foi nesse momento que Rony expulsou do dormitório masculino alguns estudantes da Grifinória para fazer uma vistoria de rotina e verificar as condições de higiene, enquanto Pansy, que antes chamara a atenção de Hermione por causa dos livros empilhados, era fuzilada com os olhos pelos demais estudantes. Harry percebeu que seu amigo definitivamente não precisaria de ajuda dos demais para impor sua autoridade e resolveu sair dali, olhando para Hermione, mais a mesma continuou em sua posição. Simas olhava atentamente para a Sonserina, como se buscasse algum movimento em falso.

Aquilo parecia um turbilhão de acontecimentos. Mesmo depois das festas de natal, não se sentia mais tranquilo. Ouviu rumores sobre as movimentações dos comensais, e nesse momento a imagem de Voldemort arrancando a máscara de vários de seus asseclas - até onde conseguiu reconhecer, parentes de vários dos alunos da Sonserina - ainda era latente.

E tinha Rony.

E Hermione.

E, claro Gina. Mas, naquele momento, ele estava se sentindo confuso. Confuso o suficiente para se questionar se sentia o que sentia, ou se sabia o que sentia. Foi quando, enquanto caminhava, percebeu que estava em frente à enfermaria, e resolveu entrar. Não viu Madame Pomfrey e, como se conhecesse o caminho, foi até a parte mais ao fundo, e encontrou Sarah, em sua cama.

- Oi.

- Oi.

Harry não tinha muito o que falar, foi um pensamento aleatório.

-Difícil te ver sem a sua prima por perto.

- É? Queria falar comigo a sós? - ela se deu conta do que acabara de dizer. Aquela malícia na voz saiu sem querer, talvez, herdada da mãe.

- Hã... - ele fora pego desprevenido. - não, eu... eu não queria, bem, queria, bem... - Harry esfrega as mãos uma na outra, enquanto Sarah sorri - quer dar uma volta pela escola?

- Não recebi alta, mas adoraria - havia um breve lamento em sua voz, mas Sarah disfarçava com uma cara amigável.

Harry puxa uma cadeira que estava próxima e a coloca ao lado da cama de Sarah.

- Que tal assim... quando você receber alta, eu te levo para dar uma volta de vassoura?

- Uma volta com Harry Potter? - Sarah piscava rapidamente, e achava graça da situação - olha que eu posso me acostumar. E aonde me levaria?

- Hogsmeade?

- Mas você tem autorização para voar até lá?

- Só preciso se alguém me pegar - e ele dá uma risada leve, quase incontrolável.

- Taí.. eu posso gostar disso. Mas sabe do que eu gostaria?

- Do que?

- De passear no mundo trouxa.

- É mesmo? Por que? - Ele levantava a sobrancelha. Por que alguém ia deixar de passear em uma cidade como Hogsmeade ou o beco diagonal, e preferir o mundo trouxa?

Harry não sabia, obviamente, mas as garotas da Grifinória, e algumas de outras casas, olhavam para Gina quando a mesma passava usando roupas que pareciam um pouco incomuns para o ambiente, mas, ao mesmo tempo, lindas. Aquelas roupas de trouxa, cheias de bolsos, coloridas e vários outros apetrechos conquistaram uma legião de fãs. É claro que nenhuma delas assumia essa inveja mas, de certa forma, Gina acabou puxando muito o pai e sua predileção por coisas trouxas. Ironicamente, a acusação que faziam aos Weasleys fazia todo sentido à Gina, por se misturar aos trouxas e sua cultura.

- Só curiosidade. Cresci com meus tios, minhas primas e minha mãe. Não conheço o mundo trouxa. É verdade que eles tem lojas feitas de vidro?

- Algumas. São galerias. E tem galerias que não são de vidro. E Shoppings centers. Alguns, com e sem vidro. E também restaurantes. Também com e sem vidro.

- Vocês gostam de vidro, não é?

- Como assim, "vocês"?

- Ué, eu escutei que sua família é trouxa.

Nesse momento ele engoliu em seco. Não tinha boas memórias dos seus tios. Mas ela não estava errada. Na verdade, e pensando bem, como o último dos Potters ele mesmo não conhecia tanto de sua família paterna. Sirius disse que morou durante um tempo com seus avós, mas não sabia mais nada além disso.

- Hmmm... mais ou menos. Família bruxa, criação trouxa - e falava enquanto olhava para trás, tentando ver se Madame Pomfrey estava por ali -, e você?

- Eu já disse - e Harry de maneira muito sutil uma pequena irritação na voz dela -, família toda bruxa, até onde sei.

- Como assim? - e ele percebe que estava naquele momento em que nos tocamos de que fizemos a pergunta errada, mas não sabemos o porquê - hã... esquece, eu...

Sarah vira um rosto pálido em sua direção, e ele olha para o lado, envergonhado. Sentiu até vontade de se levantar, mas não teve o suficiente para fazê-lo.

Aquela situação permaneceu por instantes, os quais pareciam horas. Até que ela se forçou a mudar o semblante para tornar a conversa.

- Harry, eu quero te dizer uma coisa.

- O que?

- Eu te am... - Harry arregala os olhos enquanto ela interrompe a frase - não - Sarah dá um tapa na própria testa enquanto vira o rosto para os lados, se achando uma idiota enquanto faz isso - eu amo o que você está fazendo, obrigada. Tem sido muito agradável.

Harry estava sem saber o que dizer, pois ainda estava preso ao começo da primeira frase dela. De onde veio isso?

- Eu... hã, eu...

- Você gosta de alguém, Harry?

Que raios de pergunta era aquela? E porque agora? A visitou algumas vezes... não era uma pergunta acusatória, como com Rony ou Hermione, era mais... uma pergunta...

- Bem, eu... quer dizer, eu gosto dos meus amigos e... bom, de você também.

- Bobo - ela sorri com os olhos fechados - mas tem alguém que você ama?

Novamente a vontade de se levantar. De onde vinha aquilo? Era como se, por um estranho e bizarro efeito sobrenatural, o espírito das perguntas tivesse tomado o corpo de Sarah e lhe dado coragem para fazer aquelas perguntas que as demais não fizeram todos esses anos.

- Não... sim... bem... eu amo... eu gosto de uma pessoa - e ele percebeu como aquilo era ridículo - um pouco.

Nenhum dos dois era maduro ou suficiente, ou tinha experiência para entender suas próprias palavras. Mas a última saiu como seca nos lábios de Harry, e trouxe-lhe um aperto no coração. Amava ou gostava...

- Eu amo a minha mãe... tia Gaia e tio Mundungus... minhas primas... mas... eu gosto de você.

Foi um silêncio ensurdecedor que veio a seguir. Definitivamente era uma experiência diferente, e Harry tentava responder, até que conseguiu juntar forças para dizer a coisa mais sincera que veio a sua mente.

- Eu acho que... também estou começando a gostar de você, Sarah Figy.

Aquilo caiu como uma luva mais em Sarah do que Harry, e a mesma, de boca fechada, dava um sorriso como se uma aflição tivesse sida tirada do seu coração.

- Obrigada.

- De nada - ele se perguntava se era uma resposta adequada - bom... o que acha de... saímos daqui?

- Não dá.

- Outra hora...

- Não dá, Harry...

- Eu posso pedir uma autorização, talvez... a gente pode levar a sua prima, quem sabe? - e ele falava isso em meio a uma afobação de alguém que mal se dá conta do que está falando ou parando para mensurar seus pensamentos. Naquele momento, Harry estava mais sendo guiado pelo momento em si, do que pensando profundamente sobre o que está falando.

- Eu já disse que não dá, Harry - e sua voz era seca, dessa vez. Harry percebeu, e resolveu arriscar mais uma tentativa, embora ainda não entendia o porquê.

- Eu tenho um amigo que é bem grande, ele mora numa cabana do lado de fora da escola, podemos...

- EU JÁ DISSE QUE NÃO DÁ! - ele toma um susto com o grito dela e, por puro reflexo, Harry olha para trás, percebendo que, perto da porta, mexendo em algo numa mesa, estava madame Pomfrey, desde quando, ele não sabia. Mas ela não reagiu. Ele só olhou para Sarah e a viu com um rosto abaixado, com um choro bem baixo, quase um gemido.

- Não, espera... olha... vai dar certo, você vai ficar melhor... a gente pode fazer alguma coisa... tem um monte de gente aqui, tem bruxos, tem gente que mexe com poções... você não vai acreditar, mas eu conheci uma vez um lobisomem que tomava uma poção para não ficar violento e...

- Você é gentil, desculpe - ela cessa o choro, e limpa o rosto - mas o meu caso é... complicado. Não dá para resolver.

Isso o deixou em silêncio.

- Mas tem... tem - nada lhe vinha a mente - tem uma poção - ele era interrompido, pois estava na enfermaria, o que não teria ali que não tenha sido tentado?

Ele ficou em silêncio. De repente percebeu que não tinha uma resposta. Normalmente correria até Hermione para perguntar, e ela responderia que há possibilidades... mas Harry simplesmente não conseguia se levantar dali. Isso porque ele foi desenvolvendo, ao longo dos anos, que coragem, determinação e magia eram capazes de superar quaisquer dificuldade. Mas, naquele momento, aquela segurança que o acompanhou à partir do momento em que recebeu a carta de admissão à Hogwarts, não existia.

- Sarah, o que você - e ele subitamente interrompeu seu pensamento antes que fizesse uma pergunta que a deixasse mais triste, pois ela já havia lhe dito qual era a sua doença.

- Sim?

- Deixa eu te ajudar.

- Como? - Ela não conseguia esboçar uma expressão de surpresa.

- Eu... só não sei, mas... eu queria fazer algo, qualquer coisa.

- Então, fica aqui comigo - ela não ignorava as visitas anteriores dele, mas... - fica aqui comigo - e esticava um pouco o braço, colocando a mão na cama, próximo a Harry.

Não sabia o que fazer. Não era algo que podia resolver voando, correndo, balançando sua varinha. E, além do mais, todos os conselhos que pedira a Sirius e Lupin no decorrer do ano letivo sequer tinham algo a ver com Sarah.

Na verdade...

Harry não conhecia Sarah. Era uma colega da Grifinória - com ênfase em "colega" - com a qual, por algo totalmente aleatório, esbarrara, e ela segurava sua capa. Queria poder simplesmente balançar a varinha como fez quando recompôs sua rosa. Mas não era assim que as coisas funcionavam.

E foi assim que, movido pela emoção, ele colocou sua mão sobre a ela, o que fez dar um leve sorriso com o cenho fechado.

Qualquer pessoa diria que algo estava "rolando" ali, embora estivessem calados. Mas Sarah percebeu como Harry, que antes estava nervoso, agora estava triste. Chateado? Não, triste. Ele forçava uma cara de força, mas em outro momento Sarah sentiria uma decepção vinda dele. Nesse momento, sentia vontade de consolá-lo, pois sabia que a chateação dele era causada única e exclusivamente por causa dela. Seria egoísmo da sua parte gostar de tanta atenção?

Como fazia com sua prima, ela levanta a outra mão e passa no cabelo de Harry, acariciando-o. Ele fica levemente enrubescido, mas não faz mais nada.

Era gostoso sentir o cabelo dele, embora Harry começou a achar estranho quando Sarah começou a coçar sua orelha, como se estivesse acariciando a um cão. Mas ele nada vez. Ela se perdia naquele movimento, e sentia um leve arrepio na mão ao sentir aquele cabelo volumoso.

- Harry - Sarah levantava uma voz bem sutil, e ele continuava de cabeça abaixada - a Amanda beija bem?

- Hã? - Ele foi pego de surpresa pela pergunta e quando foi olhar nos olhos dela, a mesma levantou sua outra mão e a colocou sobre os lados da cabeça do Grifinório. Mas ele não estava estático, pois os olhos de ambos se cruzaram... aqueles belos olhos acinzentados, pensava... brilhantes... chamativos... parecia que se tentasse virar o rosto, os encararia em todo o canto, o que o fez ter um rápido pensamento, como se, nos últimos tempos, tivesse visto mais olhos acinzentados do que gostaria.

Ele fez rapidamente uma cara fechada com o pensamento. De onde veio aquilo? Mas não teve tempo de completar o pensamento, pois seu corpo o fez se levantar e, na mesma hora, ele se aproxima e abraça a jovem que estava sentada na cama. Era um beijo suave, não invasivo. Ele não sabia dizer o que era, ou melhor, sabia: era um beijo carinhoso.

Como um adolescente, ele automaticamente ignorou o mundo ao redor. Não lhe importava sequer o momento.


Jane caminhava pelo corredor na direção da biblioteca, embora esta não fosse seu objetivo. Tomou algumas atitudes, movimentou-se... mas ainda havia o que ser feito. Caminhava com toda a sua elegância e altivez pelo corredor, de maneira que poderiam reconhecê-la à distância, pela silhueta.

Foi assim que, com um passo tão leve que mão se escutava, que ela adentrou em uma sala de aula, pegando o professor de surpresa.

- Professora Kneen?

Caminhando pela sala quase vazia, Jane seguiu até a mesa do professor, detendo-se um pouco antes. Puxou a varinha e fez levitar do final da sala até ali uma cadeira, na qual se sentou. O professor não conseguia tomar uma postura, ou expressar uma palavra. Apenas observou aquela situação inusitada. Isso porque lhe causava um certo desconforto o fato dela ter se sentado, sem dar uma palavra.

- Professora Kneen? - Tornava a perguntar - precisa de ajuda?

Jane olhava ao seu redor, como se analisasse a sala, o ambiente... ele teve a profunda impressão de que a respiração dela parecia absorver a magia do ambiente. Já estava próximo a ela, mas não daquela maneira, de forma que sentia uma certa imponência na maneira como ela olhava para a sala. Mas ele sabia que ela queria falar algo, e estava escolhendo as palavras corretas.

Jane fita o professor, virando o pescoço em um olhar série. Era uma situação deveras desconfortante, pois ele sentia que estivesse tentando decifrá-lo e, por mais surreal que fosse, ele sentia que ela estava fazendo. Por ser o professor de DCAT, sabia que deveria esperar por tudo, até mesmo professoras mal-educadas fazendo movimentos indevidos. E, a maneira como ela o encarava, era uma expressão muito parecida com a de Snape, o qual emitia uma face sem emoções, como se buscasse sempre impassivelmente ler a tudo e a todos.

Seria ela uma legilimente? Não tinha esses relatos. Embora muitas suspeitas pairassem ao seu redor, era apenas a professora de História da Magia. Não havia um registro na escola sobre incidentes envolvendo os alunos, ou melhor... não havia muitos registros.

Foi quando ele sentiu um estalo. Ele realmente não conhecia Jane Kneen. É verdade que Dumbledore já havia contratado professores de passado discutível, mas ele percebeu que aquela professora não tinha um nome ao qual ela pudesse associar, a não ser o "Jane". Não era um especialista em pesquisa científica, mas se tocou, naquele momento, que ele nada conhecida da pessoa que ensinava uma matéria que, se muitos alunos não ligavam, tinha um grau de importância. Sendo assim...

- Professora Kneen, se a senhora...

- Só estou pensando aqui, Aluado... que mal uma professora de Magia pode fazer a um lobisomem?

Aquilo acendeu um alerta em Remus. Mas o que mais o assustou não foi ela chamá-lo pelo seu apelido, conhecido por um grupo muito restrito de pessoas. Foi o que ela acabara de fazer, induziu-o ao erro. Levou-o a uma linha de pensamento que não era verdadeira. Plantou-lhe supostas certezas, e ele as abraçou com todas as forças. Era um comportamento manipulativo de alguém que gosta de ter o controle da situação e, principalmente, quando você pensa em agir, essa pessoa já está muito à sua frente.

Ele cogitou a possibilidade dela estar fazendo uma sondagem legilimente nele, de forma tão sutil que ele não perceberia. Mas, para início de conversa, de onde veio esse pensamento? Só passou a cogitar isso porque a linguagem corporal de Jane o induziu a essa linha de raciocínio.

O problema era que aquilo que ela fizera foi uma provocação, uma armadilha que ela jogou, e ele caiu. Era uma mensagem, sabia bem, a qual respondia um questionamento que ocupou sua mente desde o início do período letivo. Não, desde o período anterior, quando Jane veio para a final do Quadribol.

Era como um turbilhão de lembranças, estivesse tocando sua mente, varrendo suas certezas, mostrando como certas afirmações não são nada mais do que narrativas que criamos para satisfazer nossos egos e curar nossas dores.

- Espera... não, não seria possível, não é?

- Amicus certus in re incerta cernitur.

- Isso é impossível. Nem ao menos faz sentido. É ilógico! Eu esperava mais de uma professora! - Lupin aumentava significativamente o tom de voz - quais são as suas pretensões?

- Amicus certus in re incerta cernitur, Aluado. Amicus certus in re incerta cernitur.

- Como é possível? Eu... nós... nós conversamos sobre você... ponderamos... você não é ela, não pode ser.

- Não duvide do impossível.

- Pelo bem de uma conversa lógica, digamos que eu acredite que você, a improvável professora Kneen, é a mesma Jane que conhecemos. Porque eu? Nós nem éramos amigos!

- Não éramos? – Ela sorria marotamente – o filho de Tiago tem uma amiga muito avançada, estudiosa... você se esqueceu quem, na época, decifrou os enigmas espalhados em um punhado de livros de história e diários de bruxos dispersos pela biblioteca, e deu a localização precisa de uma série de passagens secretas?

- Você saber disso – ele se apoiava na mesa, e aproximava seu rosto – não significa nada. Alguém pode ter contado para alguém, tínhamos muitos amigos naquele momento.

- Observe o que você está dizendo, Remus.

- O que você quer comigo, professora Kneen?

- Eu preciso de um aliado para resolver um problema – ela se levantou e também colocou as mãos sobre a mesa, encarando Lupin. Ele fitou os olhos dela, os quais eram intensos e... acinzentados. A realidade estava, literalmente, diante dos seus olhos, e não precisou muito para resgatar os acontecimentos do último ano – mas, vendo assim, vou precisar mais de um novo amigo.

- A Jane que eu conhecia era capaz de fazer tudo. Chegava a ser prepotente de tão esperta que era. O que alguém simplório como eu pode fazer para te ajudar?

- Estou fechando as pontas soltas da minha vida – ela tocava no seu coração -, mas algumas não posso atar sozinha.

Jane coloca a mão no bolsa e puxa algo, depositando sobre a mesa de Lupin. Ele piscou rapidamente quando percebeu que se tratava de um anel. Era pouco detalhado, mas havia algumas palavras visivelmente escritas ali.

Foi quando percebeu que não era um simples anel. Era uma aliança.

E ele congelou.


Definitivamente não era um beijo molhado. E... ele deveria parar de ficar pensando em eventos anteriores enquanto estava experimentando os atuais.

Harry se afasta um pouco, mas as testas de ambos estão coladas. Ele torna a se sentar, mas continua segurando a mão dela. Sarah, por sua vez, está um pouco rubra, com as bochechas coradas. Ambos estavam em silêncio, sem se encarar. E quando Sarah percebe Harry a olhando, vira o rosto, envergonhada. E fica ainda mais quando morde o lábio e percebe que ele viu.

- Ah, por favor! Foi um beijo, não um pedido de casamento - mesmo sem coragem para se virar, eles escutavam a voz de Madame Pomfrey, vindo de qualquer lugar aleatório do ambiente.

Eles ficaram alguns minutos assim, como se estivessem congelados, sem emitir uma palavra. Harry não era tão acostumado a fazer as coisas de improviso, não como no Quadribol. Lembrava que muita coisa que ele fez, foi por sugestão de outros. Já Sarah... bem, até então ela nunca foi beijada. Apenas... rolou.

- Oi, eu sou o Harry Pott... não, espera...

- Prazer, Sarah Figy - e falava rindo rapidamente da falta de Jeito do rapaz - você é daqui?

- Da região de Surrey, em Little Whinging. Mas eu fico por aqui a maior parte do tempo. E você?

- Moro num lugar chamado Westholds.

- Eu não conheço.

- É um assentamento bruxo, na região de Wiltshire. Tem alguns vilarejos trouxas, mas geralmente a gente não tem contato. Mas eu também fico por aqui na maior parte do tempo.

- Eu gosto muito daqui, prefiro visitar meus tios só no final do período letivo. Na verdade, sou obrigado por causa do fim do período.

- Eu prefiro ir pra casa, mas às vezes preciso ficar em Hogwarts.

- Porque? Pela sua saúde?

- Também - e ela respondia calmamente, não se incomodando pela lembrança - mas eu gosto desses momentos aqui, quero curti-los. E a minha prima está aqui, então, é quase como estar em casa, com exceção da minha mãe.

- Eu não conheci os meus pais.

Sarah gostou do que ele disse. Todo mundo sabia a história do garoto-que-sobreviveu, mas achou muito legal da parte dele não presumir que todo mundo deveria saber disso. Talvez por isso, seja por um momento de relaxamento, seja por ato falha, ela disse. Ou, talvez, porque Harry estava tentando descobrir como conduzir aquela conversa enquanto ela acontecia.

- Eu também não fui conhecida pelo meu pai, mas tio Mundungus sempre esteve por perto.

- Deve ser muito divertido - Harry engatou o assunto sem perceber mas, ao mesmo tempo, sentindo que estava pisando em terreno arenoso. - como sua mãe se chama?

- Marie Figy. Ela é bem alegre. Mas merecia alguém que cuidasse dela novamente - Já era a segunda referência ao mesmo assunto. Ou melhor, a terceira mas, dessa vez, Sarah parecia estar mais desinibida - Mas e você, conta pra mim como é ser o Harry Potter.

- "O"? Olha, porque não me conta como é ser Sarah Figy?

- Bom, deixa eu ver... minha prima é apanhadora da Lufa-Lufa... fico mais tempo estudando... sou boa em herbologia e transmutações, mas... não conte para a Luna, mas eu tenho uma paixão por Poções!

- Poções? Quer dizer, a aula do Snape?

- A não ser que tenha outro...

- Você é boa em poções!?

- Nada! Sou um desastre!

- Mas então...

- Ah... eu acho tão legal... pegar ingredientes, misturar, fazer surgir alguma coisa, mexer com fórmulas... eu gosto dessa coisa de mexer, misturar, transformar...

- Eu gosto de voar. Gosto da aula de transmutações e Defesa Contra as Artes das Trevas, mas... eu gosto mesmo é de voar.

- Eu sei. Primeiro primeiranista a entrar em um time de quadribol na história de Hogwarts, e a ganhar o campeonato das casas - ela batia palmas - que orgulho!

- Ah, para! Eu nem sabia direito o que estava fazendo! Acho que a professora Mcgonagall estava tão desesperada com as derrotas, que o primeiro que sabia ficar em pé em uma vassoura, ela escolheu como batedor.

- E aquela história de que você deu um show no seu primeiro voo, sem ter tido qualquer tipo de aula?

- Em terra de cego, quem tem olho é rei.

Sarah vira o pescoço diante da fala dele.

- O que foi?

- Isso é algo que a minha prima diria.

- É?

- Sim, ela escuta música trouxa... mas não fuja do assunto!

- É um ditado... aham, "trouxa", de que se as pessoas tem algo em falta, qualquer um com alguma coisa se destaca.

- Tipo uma pessoa mediana numa turma que bomba na aula do Snape?

- Podemos dizer que sim, mas eu não tenho boas referências - e lembrava-se da Hermione.

- E o primeiro jogo?

- Sorte de principiante.

- E os dementadores?

- Já entendi, já entendi! - Harry ria enquanto falava - Olha...eu não planejo muito, as coisas simplesmente foram acontecendo, ok!

- Sério?

- Sim. Posso te contar um segredo? - Ele se aproxima de Sarah, e fala bem baixo em sua orelha - alguém jogou o meu nome no Cálice de Fogo.

- Ah, por favor! - ela o empurra, de leve - você não quer que eu... eu... - e Sarah percebe como ele estava sério - há... mesmo?

- Doideira, não é?

- Mas, espera...

- Ninguém acredita nisso. Simples assim. Eu parei de insistir.

- Mas e os professores?

- Também não acreditavam, por um tempo.

- Mas eles não explicaram isso para os outros estudantes?

- É melhor aceitar. Eu acho legal a forma como você fala da sua prima, Sarah Figy.

- Eu também acho fofo como você sempre está junto daqueles dois, do Rony e da Hermione, Harry Potter... quer dizer...

- É... a gente andou se desentendendo, mas estou trabalhando nisso... acho... talvez...bem... algumas coisas ficaram estranhas, bem... é...

- Eu não tenho muitos amigos aqui, geralmente fico muito na minha, falo mais com a minha prima.

- A gente pode ser amigo! - Ele estica a mão - Prazer, Harry Potter!

- Prazer em ser sua amiga, Harry! Mas você tem um senso de proximidade estranho, a gente já não passou por essa etapa? - e ela tornou a ficar enrubescida, percebendo o que acabara de dizer. Não ajudou muito que, enquanto ele virava o rosto, também coçava os lábios.

- Me fala da sua prima - e mudava de assunto.

- Engraçadinho! Ela é um amor! Muito infantil, mas é um amor.

- Eu sei disso, ela colocou fitas num amigo meu.

- Não sabia que você tinha um cachorro.

- Eu te conto isso em outra hora. Ela é meio... elétrica e... hã... estranha?

- Diz o ofidiglota.

- Desculpe, eu não...

- Para! Falei de brincadeira! ela é doidinha sim!

Harry tinha uma vontade enorme de perguntar sobre um certo evento quando Luna foi capaz de detectá-lo mesmo estando invisível, mas não conseguia formular uma frase plausível e que não o comprometesse.

- Ela parece saber onde as pessoas estão... é uma habilidade mágica?

- De certa forma... tia Gaia diz que é de família, mas tio Mundungus é capaz de esquecer a senha para abrir a porta de casa.

- Ela parece uma trouxa... e acho que a minha amiga Hermione perderia a paciência com ela!

- Você não faz ideia, vem cá.

- Hmmm? - Ele demora para ver o movimento dela, convidando a ficar mais perto.

- Senta aqui na cama.

- Não tem problema? Vou trazer sujeira, vermes e...

- Depois a Florinda lava - ela se ajeita na cama e, aproveitando da proximidade, fica encostada nele - ela é debochada, bagunceira, traquina... mas eu amo aquela garota!

Provavelmente aquele fora o momento que mais conversou com uma garota. Na verdade, muito do que ele descobrira sobre seus amigos foi sendo construído ao longo dos anos, mas estava ali, de papo com uma garota de olhos acinzentados - de novo essa coisa -, trocando algumas confidências do seu cotidiano.

- Sabe... eu gostaria daquele passeio.

- Acha que ela deixa a gente sair?

- Acho que não...

- Então eu vou te guiar, ok - Harry leva as mãos ao rosto de Sarah, fechando seus olhos - saindo daqui desse quarto, seguindo o corredor principal, você sai na escada do terceiro andar. Desce algumas escadas que ficam mudando de posição, vira dois corredores à esquerda e sai pelos fundos da Escola.

- E o que tem lá? A estufa da vovó Sprout?

- Vovó Sprout?

- É, minha prima chama a Madame Sprout assim. Mas continue!

- Ok, na verdade você sai nos fundos onde tem um guarda-caça do colégio, o Hagrid, que também é o professor de trato das criaturas mágicas.

- Ah, eu conheço, mas não sabia desse trecho, é da aula dele? Não vimos!

- Não, é da casa. No fundo, a floresta negra, cheio de criaturas perigosas, de aranhas gigantes, e alguns mais amigáveis, como centauros e unicórnios.

- Você viu um unicórnio?

- Muito rapidamente... e só uma vez.

- Uau! Queria ter visto! Acho que você atrai essas situações, sabia!

- Já pensei nisso. Se a gente voltar, podemos dar a volta e sair no lago. Mas o caminho é longo, então podemos entrar pela escola e sair pela outra ala. Temos um lago enorme, onde as pessoas gostam de ficar sentados. Entrei naquele lago uma vez.

- Eu vi!

- Quem não viu, não é mesmo?

- Ei, está estragando minha surpresa!

- Ok, agora eu pego a minha varinha e chamo a minha vassoura, e te levo voando até o estádio. É lá onde acontecem os campeonatos de quadribol, com as arquibancadas de cada casa e...

Harry narrava as cenas para Sarah, como se em um filme. Enquanto ela estava delirando pela cena, ele estava se divertindo. Ignorava os acontecimentos dos últimos meses, e sentia como tudo o que ocorrera na sua vida de repente ficasse em segundo plano. As coisas do seu cotidiano na escola, as aventuras, fugas e problemas eram pedaços de sua vida que alguém escutava com prazer. Cada palavra sua era mais do que uma palavra, mas um pedacinho da sua vida, dos seus momentos em Hogwarts.

Isso porque, enquanto narrava, uma coisa curiosa ocorria: ele não estava despejando suas dores, mas libertando as alegrias. Contava para ela tudo com a mesma empolgação que tivera ao pisar na escola pela primeira vez. E, intimamente, sentia-se como aquilo que ele de fato era, ou melhor, deveria lembrar, por vezes, de ser: um estudante. Alguém que estava ali para aprende, descobrir e, principalmente, experimentar.

O seu dia a dia era um passeio para ela. Foram visitar o corujal, onde mandaram uma carta para Luna, a qual foi correndo por causa de um alarme-falso; andaram pela escola e pararam para comer no salão principal, no qual imaginavam o tipo de comida servido pelos elfos... Harry até a levou para a sala de Dumbledore, onde apresentou-a a Fawkes... visitaram a câmara secreta... depois voltaram para a cabana de Hagrid, onde brincaram com Canino.

Ele estava empolgado, de fato. E, em meio a isso, se perguntava quando Hogwarts deixou de ser sua casa, para ser o espaço no qual ele só tem preocupações.

Como na casa dos Dursleys.

Ele se censura esse pensamento. Não era justo.

Sarah parecia uma menininha, no sentido figurado da palavra, quando Harry contava como a levava para passear pelo lago, em cima de Bicuço. Conforme Harry descrevia, ela tinha a leve sensação de que, em cima do hipogrifo, tocava no lago quando ele, em sua imaginação, o sobrevoava. E de fato, as descrições de Harry eram vivas, de modo que suas palavras transmitiam a sensação de que ela sentia o vento bater em sua fase, até o ponto em que o hipogrifo fazia o caminho inverso e os deixava na porte da escola. Dessa vez, eles não retornavam à enfermaria, mas caminhavam em direção à casa comunal da Grifinória. Só que, dessa vez, eles trocaram um abraço carinhoso, com Harry dando um beijo em sua testa e, após se despedirem, cada um subia para seu dormitório.

- Harry - em seu mundo de ilusão, ela o chamava enquanto o mesmo subia para o dormitório - espera.

- Sim - e ela abria os olhos, onde se via novamente na enfermaria, com ele na cama, afastando suas mãos.

- Me tira daqui.

- Agora?

- Sim, anda. Quero sair, não aguento mais ficar aqui.

Harry levanta da cama mas, ao tentar ajudar Sarah, a mesma quase despenca, sendo segurada pelo mesmo.

- Calma, espera!

- Vamos, me tira daqui, anda!

- Eu vou, eu vou! - ele a ajuda a ficar no chão, e a se apoiar no ombro - eu vou, espera...

- Me leva até a porta, por favor... quero ver a luz do dia - e ela respirava um pouco mais pesadamente -, por favor.

- Eu te ajudo - ele a apoiava. Mas era um pouco cansativo, visto que ele não era tão maior do que ela para suportar tão facilmente seu peso.

Harry caminhava pela enfermaria, em direção à saída. Parecia uma maratona, não, um trajeto infinito. Sarah estava apoiada no seu ombro direito, com o braço sobre seu pescoço. Não lhe passou despercebido o fato de que, do lado esquerdo, madame Pomfrey o observava, mas ele não achava isso estranho ou curioso: queria apenas caminhar.

10 passos.

9.

8.

7.

6.

5.

4.

3.

2.

1.

Harry chega à porta, suando. A luz do sol toca na face de Sarah, para a felicidade dela. Ele dá mais 5 passos no corredor, e a apoia no parapeito, no qual, em parte, ela se segura. Tentando não preocupá-la, ele trava a mão, a qual tremia pelo esforço.

O único barulho era o do vento e do arfar de ambos, sendo o de Sarah mais pesado. Mas, aos poucos, ia diminuindo. Aquela respiração pesada, a qual transmitia uma certa agonia, de repente era substituída por outra, de alívio. E embora ele ainda arfasse, era reconfortante ver o alívio no rosto da quintanista. Nunca imaginara que um corpo humano fosse tão pesado assim, e ele já precisara carregar outras pessoas, principalmente após os jogos de quadribol. Mas a moça ali parada, apoiada nele e no parapeito, transbordava no seu rosto uma alegria que não era condizente com a força que usou para chegar até ali.

- Uma vez eu vi um casal de namorados, acho que eram namorados... estavam em um corredor igual a esse... sai cedo do jantar, não queria pegar friagem... não deu pra ver direito, mas ela mordeu a orelha dele, enquanto o agarrava por trás... achei indecente, mas depois vi que era de brincadeira... ou devia ser - Sarah para um pouco para recuperar o fôlego... então começaram a discutir... ou será que não, eu não sei... ai ela colocou o dedo na cara dele... e estavam falando alguma coisa... estava meio escuro e eu não queria que me vissem... mas não pareciam estar brigando... aia ela fez um gesto que eu achei tão fofo, ela o abraçou e colocou a cabeça no peito dele... naquela hora eu continuei andando, ela estava de costas e o cabelo cobria o rosto, a luz deixava o cabelo dela vermelho, mas...

Harry observava atentamente a descrição, e evitava dar um pio, pois teve um desconforto com a forma como Sarah narrava o evento.

- E, sabe, Harry... naquele momento, eu decidi que queria aquilo - ele pisca rapidamente - eu queria que alguém me dessa aquele tipo de atenção... queria poder dar essa atenção à alguém... brigar... discutir... fazer dengo... um gatinho pra mim...

Harry estava espantado com a confissão, até que escuta o resto.

- Mas não era só isso... eu queria ter o que eles tinham... poder passear, curtir... eles devem ter um monte de amigos... devem ir em festas, se divertir, sabe... eu estou aqui nessa escola, e não em um hospital, porque minha mãe queria que eu tivesse mais pessoas por perto. Mas quando o meu problema começou a se agravar, bom... a gente percebeu que ficar em um hospital não ia fazer diferença, então eu pedi para a minha mãe me deixar aqui... pelo menos eu ia passar mais tempo com a minha prima, ao invés de ficar sentada em uma cama de hospital.

- Sarah - Harry já tinha se recomposto, apoiando-a - você está melhor?

- Agora, sim, obrigada - e olhava para ele, sorrindo. A luz do sol batia naqueles olhos, revelando uma beleza que a enfermaria não permitia. - e obrigada por me ajudar, Harry.

- Ah, não foi nada.

- Foi tudo, sim. Você nem imagina. Estou satisfeita. Não tenho arrependimentos.

Nesse momento um estalo passou pela mente de Harry. Arrependimentos. Deveria ser esse o maior medo de Sarah: morrer e virar um fantasma. Era pura suposição dele, mas uma estudante que queria uma vida mais simples, apenas curtir a sua juventude, tendo problemas familiares... deveria ser um horror para ela, todos os dias, ter essa sensação de que o desconforto que achava causar à sua família, poderia ser estender para toda a eternidade. A dor da prima ao ver o fantasma dela, ali ou em qualquer ala de hospital, como se fosse um peso que arrastaria todos os familiares pela perda... estava acostumado a ver os fantasmas da casa, e a mais "nova" que conhecia, a Murta-que-Geme, tinha décadas de existência. Mas como seria percorrer os corredores e encontrar um fantasma familiar, de um colega, cuja expressão representava o sofrimento perdido?

Curiosamente, o caminho de volta foi mais leve, como se as luzes do sol tivessem dando-lhe mais força. Harry ainda a auxiliou, colocando-a na sua cama. De alguma forma sentia um sentimento de alívio por ter podido auxiliar, de alguma forma. Mas o seu mundo estava meio bagunçado: carinho, amizade, abraços, beijo, confissões... e tudo começou com uma saída para escapar de Pansy Parkinson.

De certa forma, sentia-se frustrado, pois tinha o sentimento que não podia fazer nada. Eram coisas à mercê de suas atitudes, ou sua capacidade de agir.

- Eu queria poder fazer algo por você.

- Já fez, bobo!

- É sério! Eu já enfrentei um basilisco! Não tem nada? Não disse que eu sou bom em missões impossíveis?

- Você é um fofo, Harry. Mas a última coisa que eu queria, precisaria de um milagre. E meu dia já foi além do que a Felix Felicis dava conta.

- Quê?

- Deixa pra lá. Eu só queria perguntar para o meu pai, ou meu irmão, se eles me ajudariam se soubessem que eu existo. Se... se importariam - e uma lágrima escorria pelos seus olhos, enquanto falava isso.


Rony caminhava da casa da Grifinória, ao lado de Pansy. Ainda tinham que olhar o porão da Lufa-Lufa. Estava tão aborto em seus pensamentos que não prestou atenção quando Harry passou por ele, parou no meio do caminho, e o chamou.

- Rony... eu preciso conversar com você.

Ele não perguntou nada, nem questionou. Apenas pediu para Pensy se poderiam ir mais tarde no porão da Lufa-Lufa, mas a mesma disse que poderia fazê-lo sozinha. Rony deu meia volta e olhou para Harry, e ambos retornaram à torre da Grifinória. Quando Hermione os viu entrar, foi até um canto mais isolado da sala principal. Rony, a princípio, pretendia levá-lo para o dormitório masculino, mas achou a ideia da namorada mais acertada.

Harry estava sentado diante deles, em silêncio. Não parecia nervoso, irritado... sua postura corporal em nada lembrava a dos últimos meses. Ele o chamou para conversar, mas parecia não saber o que dizer.

- Você está bem? - Perguntava Hermione.

- ... - as palavras não saiam de sua boca, simplesmente porque ele não conseguia imaginar por onde começar.

- Vamos dar um tempo a ele – falava Rony, questionando-se se aquilo era reflexo da conversa anterior.

Harry passou alguns momentos olhando para os lados bem devagar, como se procurasse alguma coisa. Outros estudantes estavam por ali, mas a cena dos três não despertou a atenção de ninguém. O mesmo observava a movimentação, tentando prestar atenção em como as pessoas se locomoviam ali dentro. E começou a prestar atenção a um rapaz negro que acabara de passar pelo portão da casa, sentando-se em uma poltrona e conversando com outra garota, de cabelos rosas. Quem eram?

Prestando mais atenção, percebeu que não conhecia muitos ali dentro. Reconhecia-os pelo brasão da Grifinória, mas eram alunos mais novos e, alguns, até mais próximos que ele precisou se esforçar para lembrar o nome.

- Tem uma garota da nossa casa, ela está internada na enfermaria. – sua voz saiu um pouco seca.

- Sarah Figy - falava Hermione. Rony passara a prestar mais atenção ao nome depois que assumiu um cargo de apoio sanitário.

- É, eu... eu visito ela de vez em quando e... ela vai ser transferida em breve para o hospital londrino.

- Você quer visitá-la em Londres? - Rony perguntava, e Hermione frisava que, mesmo amadurecido bastante, às vezes a falta de atenção era uma de suas características, de modo que ela lhe dá uma cotovelada - o que foi? Disse algo errado? Ahhhhh! Você está gostando dela? - outra cotovelada.

- Não é isso, eu... eu não sei, ela é legal, mas... eu acho que... talvez... ela não volte - e essa última parte saiu muito baixa.

- O problema dela é grave, Harry - Hermione demonstrava sua percepção dos acontecimentos, embora Rony estivesse se esforçando para acompanhá-lo - é uma doença que não se resolve com magia.

Foi quando Hermione, sendo mais rápida que Rony, puxou Harry e o abraçou. Aquilo despertou um misto de sentimentos em Harry e, quando Rony percebeu, o mesmo estava chorando. Um choro seco, fraco... de modo que ele ficou na frente para que os demais não vissem o que acontecia.

Havia uma coisa diferente naquele choro. Harry sentia que estava chorando não apenas por Sarah, mas por tudo. Era como se tudo o que pesou nele desde o momento em que chegou a Hogwarts, até a morte de Cedrico, caísse. As dores, brigas, sentimentos de traição, tristeza, irritações... eram lágrimas pesadas que escapavam da face de Harry.

Rony se aproximou e tanto ele quanto Hermione abraçavam o amigo. Havia uma tristeza muito grande que estava bagunçando os sentimentos do seu amigo, de forma que ele não conseguia dizer, de fato, o que sentia, como sentia e por quem sentia. Era um peso que parecia sair em gotas, e ao mesmo tempo se dispersar em meio a uma tempestade, como lágrimas imperceptíveis no meio da chuva.

Rony continuava abraçando-o. Para os que passavam, eram amigos em um momento de carinho. Mas Rony não queria vê-lo humilhado, principalmente naquele momento de vulnerabilidade. E embora Hermione rapidamente racionalizasse a reação do amigo, de fato ninguém sabia explicar detalhadamente a subjetividade daquele choro, as nuances e transformações. Se alguém tivesse uma explicação no mínimo plausível, diria que Harry tinha introjetado um monte de informações, sentimentos e experiências; que havia internalizado um monte de ideias, boas e ruins, e em algum momento essas mesmas se mesclavam com o seu dia a dia. Era como se as máscaras que usamos diariamente - aluno, amigo, irmão, jogador de quadribol, monitor, etc. - tivessem se mesclado em uma só em Harry, fazendo com que ele usasse sua máscara, sua "persona", de "escolhido", em todos os momentos. E o mundo passava a ser julgado por essa percepção. Suas frustrações, irritações e incapacidade de interpretar certos acontecimentos eram afetados pelo sentimento de que ele deveria proteger a todos.

Isso, para Hermione, seria uma explicação racional para a obsessão de Harry por Gina, ou a implicância com Yoh, como uma extensão das birras com o Draco Malfoy.

Assim, depois de uma sequência de conflitos e confrontos, havia um sentimento de total impossibilidade de ação, de castração, de impotência diante da situação de Sarah, algo que não podia ser resolvido de maneira tão simples, por nenhuma da vantagens do mundo bruxo.

Alguém provavelmente diria isso, mas não aqueles dois. Para eles, havia a sensação de que Harry colocava para fora algo que o machucava constantemente, e muito. E, na medida de seu nível pessoal de ignorância, eles sabiam que podiam estar ali para lhe dar espaço, segurança e auxílio.

Quando Harry parou de chorar, se recompôs e percebeu que Rony não estava ali, apenas Hermione, com um olhar quase materno.

- Desculpe, eu...

- Tudo bem... e então, me conta mais sobre a Sarah, o que está rolando entre vocês dois.

Fazia tempo que Hermione não via o amigo contar algo com uma genuína animação. Era engraçado vê-lo narrar os últimos dias com a mesma animação que ele tinha com o Quadribol. Mas...ele falava muito de Sarah, de maneira que a cada frase, quando o nome dela não aparecia, ele usava um "nós" ao invés de um "eu".

- Eu acho que gosto dela, como amiga.

Foi engraçado a forma como ele falou, quase como uma reação a forma que a amiga o olhava. Mas ela não esboçou nada. Resolveu deixar pra lá, uma coisa de cada vez, principalmente quando a porta da torre se abriu e Rony entrou, caminhando e sentando-se ao lado deles.

- E então? - Perguntou Hermione.

- Está dormindo. Ficou cansada depois que o Harry a levou para andar.

- E o que a Madame Pomfrey lhe disse?

- Como sempre, nada. Veio com um discurso sobre segredo profissional e tudo o mais, mas...

- Mas...?

- Quando eu perguntei sobre uma cura, ela disse que se trata de uma doença social.

- Doença... social? – Hermione tentava concatenar. Conhecia a ideia, mas não conseguia conectá-las naquele contexto.

- O pai não a reconheceu como filha - Harry falava bem baixo - e por isso ela não tem uma esperança de cura.

Ficou clara toda a situação. Sarah era uma filha não reconhecida, uma bastarda. Provavelmente não conseguiu um transplante por parte da família materna por incompatibilidade, e as única pessoas que poderiam oferecer alguma esperança, não se importavam.

- Rony - Harry o encarava - não é possível, sei lá, fazer uma denúncia ao Ministério e...

- Não dá em nada - ele balançava a cabeça - as pessoas temem um escândalo social, e o Ministério da Magia nunca obrigou alguém a assumir a responsabilidade por uma criança bastarda. Meu pai me falou, uma vez, que os bruxos tem tantas crianças bastardas quanto os trouxas, mas nenhuma atitude que os proteja. Muitas vezes, são deixadas no orfanato.

- Que horror, Rony! - reclamava Hermione - como isso pode acontecer?

- Você não viu nada. Os próprios pais tem vergonha quando isso acontece. Acobertam. E ninguém quer ser taxado de bastardo na escola. Preferem dizer que vieram de família trouxa - e, nesse momento, Hermione se perguntou quantos "trouxas" existiam na escola, filhos de alguma bruxa que alegava que o filho tinha um pai trouxa, o qual preferia se afastar do mundo da magia, ou seja, uma versão mais atualizada do velho "foi comprar cigarros".

- Uma coisa que eu não entendi, é que Madame Pomfrey disse que ela, pelo sigilo profissional, não poderia dar muitas informações. Que era seu dever proteger os estudantes, de diferentes formas. Mas que o tio de Sarah esteve aqui há um tempo atrás, procurando o professor Lupin.

Foi quando Harry, que estava com a cabeça levantada, ergueu os olhos, encarando Harry.

- Ai, droga... não acredito que isso seja verdade... deve ser uma piada de mal gosto...

- O que foi?

- Rony... se uma pessoa quiser ajudar, de livre e espontânea vontade, nada o impediria, não é?

- Até onde eu sei, acho que não, porque?

- Bem - ele se ergue, quase como se tivesse revigorado as forças - a gente tem que falar com o professor Lupin pra confirmar uma coisa, porque - Harry para um pouco, temendo pelo que falaria. Mas essa pausa dura o instante de perceber que havia coisas maiores em jogo - A Sarah estava muito triste, e...

- E...?

- O professor Lupin pode confirmar se algo é verdade.

- Fala logo de uma vez, Harry!

- O irmão da Sarah estuda em Hogwarts.

- O quê? - Ambos levantam tão bruscamente e falam tão alto que todos olham - o que? - e tornam a falar baixo - que história é essa?

- Se isso não for verdade, você vai achar que eu estou paranoico... de novo.

- E lá vem - era o lado desesperançoso de Rony se manifestando, quase como se pudesse antecipar as palavras de Harry - Porfavorporfavorporfavor, não me vem de novo com essa história de...

E ele disse. E tampouco Rony ou Hermione acreditaram. Mas estavam surpresos, só que de outra maneira.


- Harry, me escuta - Rony tentava segurar o amigo, apertando o passo para acompanha-lo -. Escuta, a gente já teve muita dor de cabeça e... e...

- Vou ouviu, não foi? Ela deu a dica, temos que falar com o Remus!

- Ela só disse que o professor Lupin teve contato com o tio dela, e isso pode ser qualquer coisa! Não quer dizer que seja verdade!

- Eu não vou esperar pra ver.

- Espera! - E Rony ficou espantado o quanto Harry, ao seu ver, não demorou para voltar ao seu estado anterior de paranoia - isso é absurdo, a gente não tem nada! Harry! Harry!

Estavam tão atordoados, cada um à sua maneira, que não se deram conta que Hermione não os seguira. A jovem passou um segundo refletindo sobre a revelação que Harry fez, e decidiu se antecipar ao seu amigo. Sabia que Rony não o atrasaria e que, independente da resposta de Remus Lupin, o destino seguinte de Harry era óbvio.

Foi assim que ela se levantou e, sem olhar para seus livros que ficaram jogados, apertou o passado, saiu do salão da Grifinória e seguiu pelo corredor contrário aos amigos. Não demorou para sair do prédio principal e, ali, começou a correr. Muito. Até que chegou ao lago. De longe, reconheceu aquela cabeleira ruiva, já que Gina fizera o favor de lhe avisar onde estaria, o que lhe poupou o trabalho de procura-la por toda a escola.

Retirando fôlego de onde não sabia ter - talvez, por causa do quadribol - ela foi como um raio. O lugar não estava vazia, havia pessoas na região, mas afastadas. Parou e dobrou o corpo, apoiando as mãos nos joelhos. Sentia como se seu pulmão fosse explodir.

- Desculpa... desculpa... desculpa... - ela emendava uma palavra entre um fôlego - desculpa, eu... eu...

- Que foi? - o rapaz olhava para Hermione, surpreso mais com o estado dela do que com sua chegada repentina, algo que não combinava com sua postura.

- Desculpa... desculpa... arfe... desculpa, Yoh... eu preciso falar com você! Não fica irritado, por favor.

Ela respirava com tanta força, que não prestou muita atenção à Gina, a qual ainda estava atrás de Yoh, abraçando-o, quase como uma estátua. Sua expressão era como de alguém que estivesse desligada do mundo, sem prestar atenção ao que acontecia ao seu redor.


- Professor Lupin! - Harry entrava na sala do professor de DCAT, esbaforido! - Professor!

O que foi Harry? Aconteceu alguma coisa?

- É, sim! - Lupin observava Rony chegado em seguida, como se tivesse corrido uma maratona para alcançar o amigo.

- Ah, meu pai... Harry! Você não escutou o que eu disse?

- O que houve com vocês dois? Algum problema?

- Professor, espera - Rony era outro que também, naquele dia, precisava tomar mais fôlego - olha só, o Harry tá muito emocionado, então ele...

- Hmm? - Lupin virava levemente o pescoço, em meio as falas de Harry e Rony que se misturavam. Mas uma coisa ele escutou com muita atenção, em meio àquela barulheira dos dois adolescentes emotivados:

- Me conta o que o senhor sabe da Sarah Figy.

- Sarah... Figy? – Ele fazia uma breve pausa, como se tentasse lembrar do nome. Ou fingir que tentava se lembrar - sei que é uma das minhas alunas, porque?

- Ela está com problemas e precisamos ajudá-la, professor. Mas precisamos saber o que o senhor sabe dela.

- Harry, o professor não pode falar isso!

- Ele tem razão, Harry - Remus olhava rapidamente para Harry, e se virava, enquanto parecia pegar algo próximo ao quadro -. O que você diria se soubesse que eu comento das nossas conversas com outras pessoas?

- Mas você e o Sirius não conversam sobre a gente?

- É diferente. Afinal, eu sou um professor. E, além do mais, você sabe que eu sou meio recluso. Evite muito contato com os alunos, pelos motivos que vocês dois conhecem muito bem.

Em outro momento, Rony estaria com o seu "desligado modo on" ao máximo, mas uma coisa totalmente aleatória chamou a sua atenção, quase como se o destino quisesse que ele tivesse visto: tinha alguma coisa o incomodando, era um feixe luminoso que brevemente batia em seu rosto. Os raios de sol que entravam pela janela batiam em alguma coisa que estava apoiada sobre a mesa de Lupin e refletiam em seu rosto, quando ele parou em determinada posição. Ao se mover, algo chamou sua atenção ao identificar o objeto que refletia a luz: um porta-retratos. Ele não perderia muito tempo tentando descobrir de quem era a foto, mas havia uma quantidade enorme de pessoas utilizando roupas amarelas que o faziam direcionar mais atenção do que devia para a foto. Ao olhar, percebeu que entre elas havia uma pessoa que se destacava, uma mulher mais velha, não muito alta, com roupas que mesclavam um marrom-musgo, ao lado de um monte de jovens que se mexiam. E, talvez, e muito provavelmente talvez, se não fosse o amarelo-chamativo do time da Lufa-Lufa na foto, ele não teria ficado encantado como o efeito de luz gerado ao refletir a luz em seu rosto. Foi esse excesso de atenção que o fez dar um passo adiante e pegar o porta-retratos.

Rony encarava sua colega na foto, a qual pulava constantemente, cheia de alegria. Era uma foto muito alegre, de maneira que, quando ele a pegou, uma série de letras - as quais saiam de trás das capaz dos jogadores e do chapéu da professora Sprout, o que era típico de uma fotografia mágica - se reuniam na parte de baixo, formando uma espécie de recado. Ele leu atentamente, ignorando tudo ao seu redor, como o fato de Lupin ainda estar mexendo em algo no quadro, ou Harry repetindo a mesma frase. Até que ele chegou no final, onde estava escrito "Amo o senhor, professor Lupin! L.F.".

- A prima da Sarah - ele falava mais para si do que para todos. Ele ergueu os olhos e olhou para Lupin. Não era um especialista, mas durante o treinamento na escola de medi-bruxos, escutou que o corpo, em geral, apresenta sintomas imperceptíveis. Uma pessoa pode tentar fingir que não sente dor, mas os efeitos, muitas vezes, são incontroláveis. Muitas doenças tem essas características, afinal, "o corpo fala". Mas Rony não era um medi-bruxo, tampouco tinha desenvolvido essa habilidade. Mas ele entendeu os sinais quando, após ver a fotografia, observou como Lupin estava de costas, como se tentasse evitar encará-los, com as mãos segurando uma pasta, como se tentasse esconder o que fazia, bem como a forma que parecia agitado. Isso tudo, e o fato de que Remus fora pego na mentira.

- O senhor sabe de alguma coisa, não é? - Rony não acreditava o que havia passado pela sua cabeça - disseram que o senhor sabia de alguma coisa... e não é que é verdade? – ele jogou um verde pois, na verdade, ninguém havia dito nada de concreto. Mas ficou surpreso diante daquele fruto tão maduro que havia pescado.

- Eu não posso ficar falando sobre os alunos, Ronald. Não é ético - E Harry tentava olhar para eles, tentando não estar fora da discussão, ou acompanhar o que o Rony havia percebido.

- Professor é importante, por favor!

- Harry, Rony... eu tenho uma história com os pais de vocês... mas definitivamente não!

Harry não tinha sido criado no mundo bruxo, de forma que não entendia a resistência de Lupin. Mas Rony... ele morde o lábio, como se estivesse diante do impensável e improvável.

- Tudo bem professor. Eu não entendo direito o que está acontecendo, mas parece que tem alguma coisa de verdade nessa história. Vamos, Harry.

- Como é? Ei, Rony! Aonde você vai?

- A gente tem que fazer alguma coisa. Se o professor Lupin não vai nos ajudar, então a gente tem que procurar quem sabe.

- Ronald Weasley - Lupin percebe que levantou a voz - o que você vai fazer?

- O que o senhor acha? A gente tem que fazer alguma coisa.

Eram essas as características de um grifinório que muitos não tinham visto, durante muito tempo, em Rony. Essa sanha de bravura dos grifinórios era as vezes misturada com um tipo de teimosia ou incapacidade de julgar melhor uma situação.

- Você está sendo egoísta, esse assunto não tem nada a ver com você.

- Talvez não tenha... mas eu não posso virar as coisas para uma colega de casa, não é mesmo?

Mas eles eram, acima de tudo, leais.

- Espere... espera, Ronald. - Rony se vira após o tom incisivo na voz do professor - qual é o interesse de vocês nisso?

- Nós queremos salvá-la, professor. Mas precisamos que o senhor nos ajude.

- Essa é uma história um pouco dolorosa... e saber dela talvez não os ajude. Às vezes, desenterrar o passado só traz mais sofrimento do que liberdade.

- Eu acredito - Rony coloca o porta-retratos em sua mão na mesa, virando-o, enquanto se lembrava do que aconteceu nos meses que antecediam aquele momento - mas a gente precisa ouvir. É verdade?

- "Verdade" pode ser uma palavra forte. Não sei qual é o plano de vocês, mas antes que saiam por ai fazendo alguma besteira, é melhor me escutarem com atenção: às vezes, as histórias que contam para a gente são versões de terceira mão. Muita coisa que escutamos, também tem parte em suposições.

- Então – Harry se aproximava – me conta essa suposta história da Sarah.

- Bem – ele guardava os óculos, enquanto puxava para perto de si o porta-retratos, abaixando-o e afastando dos dois, colocando em seguida na gaveta de sua mãe – supostamente eu sei alguma coisa.


Ela se ergue, depois de ter se agachado para recuperar o fôlego. Enquanto o faz, o oxigênio volta para o cérebro e ela começa a racionalizar a situação.

- Desculpa, estou interrompendo algo? Não, que idiotice, é claro que estou. Yoh, eu preciso falar com você.

- O que foi? - ele se afasta dos braços de Gina, e se ergue. É quando começa a sentir algo estranho. Não havia prestado muita atenção. Era como se o mundo ao redor estivesse diferente...

Não. Era ele. Tinha algo... tinha acontecido alguma coisa. Yoh vira a palma da mão, como se procurasse algo, enquanto Hermione falava com sofreguidão.

- É que... - ela olha de rabo-de-olho para Gina - bem... - Hermione cerra os dentes, como se as palavras tivessem escapado de sua boca - eu...

- O que foi? Aconteceu alguma coisa com o Rony? - Novamente, algo estranho. Sentia-se um certo desequilíbrio circulando aquele espaço, mas não sabia a origem, tampouco a causa.

- Não!

- Então?

Hermione se tocou o quão era ridícula a situação. Veio correndo desesperada, sem pensar direito no que faria.

- Oi? Hermione? - ele tentava conversar com ela, enquanto buscava racionalizar o que acontecia, ou melhor, acontecera.

Tinha algo estranho. Ele se abriu com Gina, contou todos os seus segredos, e até achou que isso tiraria um peso do seu peito. Mas alguma coisa estranha parecia ter acontecido.

Foi então que, diante daquela agitação de Hermione, a qual estava visivelmente alterada, ele, por reflexo, deu um passo para trás, afastando-se da garota, enquanto se abraçava, como se assustado.

- Não, espera... eu quero falar, não, pera, eu...

- Fala logo!

- Peraí, Yoh! Não me apressa, ok!

- Mas é você que veio correndo, o que foi?

- Eu... eu... - ela gesticulava enquanto olhava para o vazio - ai, droga... parecia mais simples na minha cabeça. Então, eu preciso que você venha comigo agora.

- Por que?

- Olha, não importa, mas a gente tem que sair daqui agora. Traz a Gina se quiser, ok!

- Está acontecendo algo?

- Que droga, Yoh - e ela desmontava de sua compostura britânica - dá pra parar de ficar me questionando e fazer o que eu peço só uma vez? Você me chamou para dançar duas vezes, e eu disse não? E isso é mais do que a maioria dos garotos fez comigo a vida toda! Praticamente empatado com o Rony, e olha que ele é meu namorado!

- Mas você nunca me pediu nada.

- Estou pedindo agora!

- Por que? - tinha alguma coisa fervilhando, sentia. Era como se estivesse andando em um campo aberto durante uma ventania e, numa lufada, perdesse o casaco.

- Por que... por que... por que nós somos... há... amigos?

- Eu acho que a gente tá entre "colegas" e "amigos", precisamos trabalhar melhor essa nossa relação - continua com os braços, cerrando os olhos, como se tentasse antecipar o que ela estava escondendo.

- Mas foi você que começou a se aproximar de mim - ela levanta o braço para ele, apontando para o pulso - lembra?

Por um segundo ele pisca, tentando entender o movimento. De repente ele vê se desenhando, pelas suas memórias, o presente que lhe dera.

- Eu lembro... mas as coisas ficaram complicadas... - Yoh se agacha e toca no chão, passando o dedo na grama, fazendo círculos. Ainda continuava incomodado. Tentava se apegar a algo, algum ponto seguro para poder racionalizar a situação. Dividia sua atenção entre aquilo e Hermione. – e de coração, é importante pra mim evitar qualquer coisa que, direta ou indiretamente, faça eu entrar em choque com o irmão da minha namorada.

- Mas elas precisam ficar estranhas pra sempre?

- Não precisa, Granger - e Hermione percebe a acidez na fala dele - mas... talvez a gente devesse deixar as coisas rolagem normalmente, sem forçar. Eu não tenho nada contra você, mas eu estando por perto, só causo problemas para vocês dois.

- Eu sei, Kneen. Eu sei.

- Black.

- Hmm? - Hermione olha para Gina, a qual continuava sentada, totalmente alheia à conversa. Yoh também se levantou, como se tivesse tomado um susto. Mais uma coisa para se preocupar, pensava. Hermione, Gina e... aquilo.

E foi nesse momento que ele viu ao longe, uma cabeleira ruiva se aproximando. E sendo seguida por um sujeito com o desenho de um raio na testa.

- Por Merlin - Yoh ignora a súbita reação de Gina, e volta a olhar para Hermione - era só o que... o que... me...

Demorou um pouco, mas ele percebeu. Finalmente tinha entendido o que havia de errado. Era como se estivesse faltando algo, e estava.

Estava exposto.

Ele foi muito rápido em segurar a mão direita com a esquerda, disfarçando como se quisesse coçá-la. A verdade é que ele começou a sentir algo tremendo, um misto de desconforto e insegurança. Mas não qualquer insegurança: ele sentia-se, literalmente, como um patinho no meio do lago, num dia ensolarado, exposto e sem nenhuma proteção, durante a temporada de caça ao pato.

As barreiras que sua mãe lhe ensinou a criar - melhor dizendo, impôs-lhe - desde tão jovem, não estavam mais ali. Ou melhor, era como se nunca tivessem existido.

- O que...? - ele levanta a mesma mão direita, ainda tremendo um pouco. Aquele desconforto e insegurança alternavam com momentos de curiosidade e surpresa. Era como se fosse pura magia, mas nunca tinha escutado de algo que poderia fazer isso, a não ser - Moranguinho?

Rony andava muito mais rápido do que Harry e, ao longo do caminho, tentou convencer o amigo a não ir até ali. Sabia que aquela situação era um barril de pólvora. Yoh e Gina viviam grudados como carrapatos, até mesmo estudavam juntos! Daí, como ela lhe dissera que estaria no lago, não seria difícil imaginar que estariam juntos. O problema era que ele disse em voz alta, ao invés de tentar despistar o amigo.

- Harry, eu falei pra não vir!

- Eu tinha que vir, caramba!

- Qual a parte de vocês dois não estarem bem você não escutou? - e apertava o passo, tentando deixar Harry para trás - você quer me causar mais problemas?

- É justamente por isso que eu ... olha, a Hermione!

- Eu vi. Ele sabia que a gente iria vir para cá.

- Olha ele lá!

- Sim, eu vi, Harry. E olha só quem mais está lá...

Rony para de andar, bufando um pouco. Olha para o seu entorno e percebe o quão... quão... bom, seja o que fosse, era algo muito "quão".

- Yoh - Rony levanta o dedo -, bom dia!

- Bom dia - Rony percebe o rápido olhar que Yoh troca com Harry. Em seguida, Rony olha para Hermione, sua irmã que estava sentada com cara de tacho, e Harry. Ambos ficam em silêncio durante alguns segundos.

- Eu acho que essa ideia não foi tão boa quanto eu tinha pensado - Rony continuava com o dedo levantado - mas eu precisava dar uma palavrinha com você, a sós.

Yoh olhava para o seu entorno. Quando percebeu, Hermione estava atrás dele, próxima à Gina. Rony parecia estar tentando brotar um assunto. O Potter, ao seu ver, mantinha ainda a mesma expressão, encarando-o.

- Pode falar - ele olha para trás - era isso, Hermione? - e depois que Yoh volta a olhar para frente, Hermione sinaliza para Rony, como se procurasse uma explicação.

- A gente precisa falar com você, Kneen.

Tinha uma vontade enorme de dar uma resposta atravessada, na verdade, rapidamente percebeu que aquilo estava na ponta da língua, mas ainda estava preso a outros problemas. Era incrivelmente estranho: sentia-se leve por finalmente ter contato à Gina mas, também, com aquele sentimento de exposição.

- Olha, eu tô no meio de um lance aqui...

- Seja o que for, isso é mais importante.

- Espera um pouco - Rony passa o braço pelo ombro de Harry, e se afastam um pouco - Harry, você não está ajudando, sabia?

- Você vai ficar nessa? Fala logo com ele!

- Calma, calma... que parte de não me segue você não ouviu?

- Era pra evitar isso, você ia ficar assim, cheio de não me toque, minha irmãzinha isso, minha irmãzinha aquilo...

- O que?

- Você entendeu, você está muito grudento com a sua irmã, oras! Você não ia conseguir falar nada se ela estiver presente.

- É isso que eu quero evitar, caramba! já se esqueceu do "probleminha" dele?

- Qualé, ele é só um quintanista, o que ele pode fazer? Você enfrentou os filhotes da Aragogue, pombas!

Rony olha para trás. Yoh parecia um misto de alguma coisa com coisa nenhuma, quer dizer... ele tinha uma expressão visivelmente diferente. Uma coisa que aprendeu era que aquela despreocupação de Yoh com um monte de coisas acabava refletindo com uma postura de quem não parece se assustar com algo, demonstrando um misto de seriedade e tranquilidade. Mas agora ele parecia diferente. Parecia tenso, como se algo realmente o incomodasse. Na verdade, aquele Yoh " estou à vontade onde eu estiver", parecia estar incomodado com tanta gente ali.

Hermione esticava o pescoço como se tentasse escutar a conversar dos dois. Yoh, por sua vez, olhava para Gina, a qual parecia estar dispersa de toda aquela conversa. Foi ai que Rony retornou a ele.

- Só mais um instante - e voltou para Harry - eu tenho que te lembrar que você azucrinou o cara esse período inteiro?

- Isso já passou.

- Eu gosto do seu otimismo! Mas eu acho que o Kneen tem uma ou duas palavras a dizer sobre isso.

- Peraí, você não está exagerando?

- E você não chamou ele de bruxo das trevas?

- Eu só falei isso para vocês dois - e olhava pelo ombro para Hermione.

- Mas as paredes tem ouvidos - e respondia com um certo grau de irritação - e você fala muito alto.

- QUÊ?

- Ah, esquece - e se vira, retornando para o corvinal - olha só, Yoh... mas... é uma coisa muito pessoal.

- Pessoal pra quem? - ele olhava para todos os presentes e fazia um breve movimento com o pescoço, como se apontasse para Gina.

- Que tal você fazer isso em nome da amizade?

- Tô escutando muito isso, hoje.

Havia claramente um elefante na sala, e ele estava ficando visivelmente incomodado. E irritado, mas não como antes.

- Me escuta só uma vez, Yoh - ele mordia novamente os lábios, como se estivesse segurando um parto - EU... SÓ... PRECISO... DE... ALGUNS...

Era um misto de muita coisa. Hermione... Potter... Rony aumentando o tom de voz... Gina... Rony aumentando ainda mais o tom de voz... Potter achando que ele deveria fazer algo... o nervosismo de Hermione... Gina... Hermione atrás dele... o mesmo percebendo que estava cercado...foi então que, em um ínfimo momento, ele tentou dar um jeito naquilo.

- Rony, que que tá rolando? É a sua irmã! - e sua fala refletia seu estado emocional. Na verdade, aquele "que que tá" era muito diferente da fala formal de Yoh, já que muitas vezes, mesmo em meio à sua postura brincalhona, ele tinha um ar de quem sabia usar as palavras de forma culta, como se tivesse aprendido a falar antes de respirar.

- Eu preferia que ela não escutasse isso.

- Então porque você não foi me procurar em outro lugar?

- É que... é complicado - e se tocou que ele realmente poderia ter dado um pouco mais de tempo, procurado Yoh em outro momento, dado uma desculpa. Havia milhares de possibilidades, e ele escolheu a pior de todas. Não conseguia uma resposta plausível enquanto gesticulava.

- Cara, isso tá sendo ridículo - e havia um leve traço de irritação na sua voz, o que acendeu um alerta na cabeça de Hermione.

Foi quando Rony teve certeza de que havia algo muito errado. O Kneen o puxou para dançar quando eles mal se conheciam, para início de conversa. Pensando bem, aquela calma dele era quase uma presunção disfarçada. Mas a cena de Yoh prendendo-o com plantas em Hogsmeade enquanto dançavam não saia de sua cabeça.

- Já tô cheio disso. Olha... desculpe pelos mal-entendidos, mas eu preciso da sua ajuda, Kneen - Harry tomava a iniciativa, vendo que aquela conversa não iria dar em nada.

- Mal-entendidos?

- Chame do que quiser. Eu preciso de um favor seu. Pode me escutar só um instante?

- Quer saber? Some daqui! Cara chato!

- O que?

- É surdo? Vai procurar outro pra torrar a paciência! - a voz de Yoh se levantava um tom enquanto ele se virava e caminhava na direção de Gina. Ele tinha noção de sua própria alteração, e aquele turbilhão ali não o ajudava em nada - ei, Gina - ele tornava sua voz na direção dela, de maneira que, em detrimento de sua distração, não percebeu que ela parecia dispersa, como se estivesse pensando em mil coisas. - você... hã... - como ele iria perguntar isso para ela?

Hermione também piscava como se estivesse aturdida, e Rony percebeu. Era como se ambos compartilhassem a mesma linha de pensamento: e não foi há mais ou menos um ano que um maluco dançou com Gina, Rony, Hermione e Cho Chang em sequência, além de defender Crabbe na frente de todos? Ele estava nervoso, visivelmente irritado, além de olhar para todos os lados, quase como se temesse por algum tipo de ameaça que poderia vir de qualquer lugar.

- Ai, Kneen, não me vira as costas.

Yoh parou, e Rony gelou. Tinha muita tensão ali. Principalmente quando o Kneen respirou fundo, uma respiração pesada, como alguém impaciente. Esse era, para o Weasley, o pior dos cenários se manifestando.

- Senão o que, Potter?

Harry, naquele momento, teve uma estranha sensação de Deja vú, e a forma como seu sobrenome corria pelos lábios de Yoh...

- Eu não quero brigar.

- Pra mim, parece que veio atrás de briga.

- Olha, Kneen - talvez por ato falho, impulso ou simplesmente por ser um "tocador", Harry se aproximou o suficiente para encosta a mão no ombro de Yoh - eu não sei como te dizer, mas eu preciso da sua ajuda pra salvar uma amiga.

- Isso não é problema meu - ele tira a mão de Harry de seu ombro. Mas faz além, segura a mão com a sua e, em um momento de pura explosão de testosterona, dá um aperto forte na mão de Harry. Não foi muito efetivo, pois o mesmo era mais velho e levemente mais corpulento. O que o fez dar um passo para trás foi mais a surpresa, coisa suficiente para fazer Rony pensar que Yoh já tinha perdido o controle. E na única vez que ele viu isso acontecer, o time da Corvinal teve que pular em cima do cunhado.

Um olhar mais atento apontava seu nervosismo, mas de outro tipo. Não se tratava da condição mágica de Yoh, era mais como se fosse uma irritação cotidiana. Para ser mais exato, de alguém irritado diante de uma situação que estava sendo forçada.

- É a Sarah Figy - exclamava Harry.

- Você é um Black? - era a voz da ruiva que ainda estava sentada.

- Quem? - perguntava Yoh, enquanto olhava para Gina.

- Você sabe quem é, é aluna da Grifinória. E que história é essa de Black?

- Nunca ouvi falar. E isso não é da sua conta - e continuava olhando para Gina - espera, eu vou explicar de novo...

- Como não?! Você a viu, ela chamou a sua atenção! - Harry parecia levemente surpreso com a reposta dele.

- Como assim você é um Black? - Rony balançava a cabeça, pego no meio daquela conversa que parecia estar se tornando cada vez mais confuso.

- Eu nem sei de quem você está falando - e, genuinamente, Yoh não fazia ideia de quem ele estava falando. Se não sabia, ou tinha se esquecido, dava na mesma. Aquilo para Harry soava como uma extrema arrogância -. Não foi isso o que eu disse, Gina.

- Espera um pouco, você é um Black? - uma segunda cabeça nascia em Hermione, como se tentasse entender aquela confusão de informações.

- Olha só, gente... isso é um assunto muito pessoal - e se virava para os três, apontando as mãos para si - então... o que quer que esteja rolando com vocês, a gente pode deixar para outra hora? Eu estou no meio de um lance MUITO importante, que com todo o respeito não tem nada a ver com vocês, e eu gostaria muito que não tivesse por um loooooooooongo tempo.

- Isso com certeza tem a ver comigo - Harry cerrava os olhos - mas eu preciso da sua ajuda com a Sarah!

- Mas... como? Quer dizer... como isso é possível? Não faz sentido! - a voz de Gina ora indicava alguém que estava afirmando algo, ora questionando.

- Isso está começando a me dar dor de cabeça - e, de onde estava, Rony tinha plena certeza de que aquela situação cada vez mais piorava.

- Pensei que seu pai fosse um trouxa - falava Hermione, numa tentativa de trazer luz àquela confusão...

- Mas o meu pai é trouxa e... olha, quer saber? Deixa isso pra lá, ok - e olhava franzindo o cenho - deixa quieto.

- Isso está muito confuso... - Harry ajeitava seus óculos - é... olha, eu sei que a gente está atrapalhando algum lance de vocês, mas eu preciso falar com você sobre a Sarah Figy.

- MAS... EU... NÃO... SEI... QUEM... DIABOS... É... SARAH... FIGY! - ele falava lentamente, mas em um tom alto, rangendo os dentes e de costas para Harry, enquanto encarava Gina, a qual, sentada, olhava para o vazio.

- Não finge que não conhece, Kneen! - Yoh terminava de se virar - Seu arrogante metido, não me vira as costas!

Pronto. As vezes as pessoas tem muita coisa na cabeça, muita bagunça... e coisa excessivamente reprimida sempre procura uma válvula de escape. Às vezes você pega birra com alguém de tal forma, que até perde de visto o motivo disso ter acontecido, e quase torce por uma oportunidade para falar umas verdades na cara dessa pessoa. Outras, também, esperam a pessoa ter coragem de falar essas mesmas "verdades" para tomar uma atitude. É claro, há aqueles que escutam e ficam quietos, criam justificativas, motivos para não piorar a situação. Mas nem todo mundo tem sangue de barata.

- Acho que você precisa de uma lição - ele se vira e dá um passo na direção de Harry. Talvez, há algum tempo atrás, teria deixado para lá. Mas lembrou do que seus amigos falaram, de como tentar levar as coisas "na boa" nem sempre dava certo.

Foi debochado em muitos momentos? Foi. Desligado? Com certeza. Excessivamente brincalhão? Sim! Talvez isso e mais um pouco tenha criado uma ideia de que ele era disperso? Talvez.

Foi nesse momento, ali, em meio àquela confusão, que Padma Patil se aproxima, como se tivesse estivesse lutando pela sua vida. Ela de longe vem correndo, gritando:

- YOOOOOOOOOHHHHH! - todos são pegos de surpresa, e a tensão que estava no ar se dispersa por alguns estantes - PRECISO FALAR COM VOCÊ!

A corvinal para ao lado de Kneen, e por um segundo Harry, Rony e Hermione a confundiram com sua irmã da Grifinória. Assim como Hermione, ela para e se agacha, apoiando as mãos sobre o joelho. Quão difícil era encontrar alguém em Hogwarts? Parecia estar procurando por ele a uma eternidade!

- Ohohoho! - Rony a segura quando ela quase cai. De repente o ar volta muito rápido para o cérebro de Padma, e a mesma começa a ver o mundo girar - tudo bem com você?

- Escuta! - ela fala com a voz quase sumindo- eu preciso - para, respira fundo algumas vezes e tenta se concentrar. Precisava falar enquanto os acontecimentos estavam em sua mente- Yoh, eu preciso falar com você!

- Entra na fila - e falava de forma sarcástica, ainda olhando para Harry - deu a louca que hoje todo mundo resolveu me procurar – e, como se tomado por um lapso, ele se corrige – desculpe, não queria falar assim com você, Padma.

- Vocês está bem? - Rony observava como Padma estava alterada e pálida. Sua respiração era pesada, como se estivesse correndo uma maratona e finalmente tivesse parado - Deixa eu ver o seu pulso.

- Espera, Weasley - ela olhava fundo para Yoh, mas pelo seu estado físico após correr desesperadamente em um estado de pós-visão, o jovem apanhador da Corvinal se assustou, pois ela o encarava como uma psicopata - Yoh, você tem que vir comigo, agora!

- Espera um pouco, Patil - Harry segurava o braço de Padma - seu assunto vai ter que esperar, o meu é mais urgente!

- Potter, você não sabe do que está falando!

- Olha só, depois você conversa com ele e - Padma simplesmente empurra Harry, o qual toma um tombo, surpreso - Ficou doida?

- Yoh, presta atenção - ela sentia uma tensão enorme, tentando concatenar as ideias em meio àquela agitação e interrupções - a gente tem que sair daqui AGORA! Tem uma mulher atrás de você que quer te fazer mal!

- Que? - até Gina, que parecia dispersa à toda a confusão ali, como se apenas Yoh e ela estivessem discutindo um assunto que não envolvia os demais, respondeu, sendo acompanhada pelos demais ali presentes. Na verdade ela não estava tão dispersa quanto parecia, mas aquela discussão nem de longe parecia estar no topo das suas preocupações. Aquilo que Yoh lhe contara, ou melhor, confessará, fez seu coração palpitar de tal forma que nada, nadica de nada, era tão importante. Dai a sua súbita surpresa quando a gêmea de sua colega de classe tocou na questão de um perigo real e imediato.

- Por Merlin, que mal eu fiz? E quem raios de mulher é essa?!

- É a mãe do...

Foi quando alguma coisa empurrou Padma e, quando todos se deram conta, ela estava no chão, rolando em direção ao lago, entranhada com outra pessoa. Quando caiu no lago, duas figuras colocaram a cabeça para fora: uma era Padma, outra...

- Não é a narradora dos jogos de Quadribol? - Hermione olhava aquilo como uma genuína surpresa.

- Cassie? - Yoh estava tão surpreso, e o dia estava sendo cheio disso, o quanto podia - mas o que...

- Nada de mais, gente! - E segurava uma desesperada Padma no meio do lago - deixa pra lá, olhem para o lado - e se entranhavam. Dava para ver que as duas estavam literalmente brigando no meio da água, e em algum momento Cassie dá uma chave de braço em Padma, como se tentasse arrastá-la para fora da margem.

- Me larga!

- Ah, mas não largo, sua doida!

- O que você acha que está fazendo? - Padma tentava se afastar, mas era incrível como aquela aluna, a qual era um ano mais nova, conseguia arrastá-la para longe da margem - Solta!

- Nem a pau! Já estou por aqui com você!

Padma joga seu corpo para trás e afunda Cassie, empurrando-a com as mãos. Cassie dá um chute em sua canela e consegue voltar à superfície e, quando vê, a colega já estava quase chegando à margem. Desesperada ela nada o máximo que pode e, em segundos, ambas estavam se engalfinhando nas margens, entre chaves de braço e puxadas de cabelo.

Tudo isso sendo visto de camarote pelos cinco ali presentes.

- Ah, dane-se - Yoh saca num piscar sua varinha e, como se segurasse uma vareta, começa a girá-la entre seus dedos. Ele lança a varinha para o alto, a qual continua girando uma, duas, três vezes, até que cai novamente em sua mão - Sonorus.

- Hmmm? - Harry foi pego rapidamente de surpresa. Por um instante pensou que o Kneen iria jogar alguma planta nele, ou algum feitiço fedido, como fizera com o Draco. - Vai fazer o que com esse feitiço de primeiranista? O diretor da Corvinal não é o professor de feitiços?

Não era um argumento sem sentido, embora, obviamente, Snape não era o professor de DCAT. Mas os alunos da Lufa-Lufa eram particularmente bons em Herbologia. Aquilo dera um alívio a Rony, o qual, por um instante, viu o Kneen brincalhão que toda hora dava flores para as pessoas. Ou que amarrou um monte de Sonserinos que o cercaram no vilarejo.

Tivesse ele dado mais atenção ao que acabara de ver, como Hermione, teria notado mais rapidamente Harry dando um passo para o lado, cambaleando, como se estivesse zonzo e, em seguida, colocando a mão na boca, até começar a vomitar. Para Rony, era como se outra coisa tivesse acontecido.

Hermione, por sua vez, conectou a ação de Yoh ao efeito em Harry, embora não soubesse explicar de maneira plausível - como se magia fosse a coisa mais plausível do mundo - o que tinha acabado de acontecer.

Rony e Hermione correm para acudir Harry, o qual balançava a cabeça, enquanto, ao fundo, Padma e Cassie ainda se atracavam. Yoh olha um segundo para trás e vê Cassie puxando o cabeço de Padma, a qual gritava.

Harry fazia um esforço para se levantar, mas já era difícil parar de vomitar. Mas o pior era que, pela sua experiência, ele não sentia nenhum resquício de magia das trevas. Na verdade, não havia realidade na qual o Kneen o teria pego de surpresa, o desarmaria antes do mesmo fazer seu ataque. Mas ele estava tão acostumado aquele sujeito falando, falando e falando, que subestimou as reações dele.

- E vê se me esquece - ele, novamente, dá as costas para Harry, tentando, mais uma vez, dar atenção à Gina, a qual continuava sentada e observava-o. Não escapou à Hermione que a cunhada não parecia surpresa. Ou melhor, ela parecia visivelmente surpresa, mas não com aquilo.

O que aconteceu a seguir, pertencia ao mundo particular de Gina e Yoh, de maneira que ninguém testemunhou. Ele esticou a mão na direção da ruiva, para ajudá-la a se levantar. Mas, no momento em que a mão dele quase roçou na dela... ela recuou. Seja intencionalmente ou por impulso, a mão dela retraiu-se um pouco.

Isso sim o deixou totalmente sem reação. Seus olhos estavam arregalados, como aquilo, para ele, fosse a coisa mais surreal, dentre tantas que estavam acontecendo. De repente todo o barulho do mundo havia desaparecido, com exceção do som do vento que parecia circular entre ambos. E naquele estado no qual ele estava se sentindo totalmente exposto e fragilizado, o corvinal não conseguia esboçar nenhuma reação.

Era como uma situação na qual o tempo congela, e só duas pessoas habitam em um universo. E, ali, naquele instante, naquele mundinho, ele o encarava com surpresa. Ela, por sua vez, demonstrava um misto de susto e receio. A cara que Gina fazia enquanto o encarava...

A ruiva parecia não ter controle do seu próprio corpo, o qual demonstrava um estranho receio com a aproximação de Kneen. Isso bagunçava sua percepção do mundo ao redor, uma vez que ele fizera exatamente o que ela pedira, abriu-se por completo. Enfrentou seus medos, sabendo que, quando certas coisas são verbalizadas, não há um ponto de retorno. Mas ele não esperava aquela reação dela, a forma como, mesmo parada, o corpo dela reagir de outra maneira, como se quisesse que ele se afastasse. E isso aconteceu no momento em que ele se sentia mais psicologicamente indefeso e, não sem razão, magicamente exposto.

Mas, em meio àquela situação de semitorpor de ambos, a ruiva conseguia produzir algumas palavras quase inaudíveis, mas totalmente perceptíveis para o corvinal, o qual sentia como se tivesse perdido o chão debaixo dos seus pés.

- Yoh - a voz de Gina quebra o silêncio seco. Aparentemente ela não se importava com o que acabara de fazer, ou então havia uma distância entre a racionalização da situação e as reações do seu próprios corpo - o que você pretende com o Draco?

- É complicado - ele bufa, como se o simples ato da respiração atrapalhasse seus pensamentos - é... complicado.

- Então, me explica.

- Mas eu já te expliquei.

- Mas eu quero ouvir! Quero que você me diga. O verdadeiro você fale!

- Mas eu sou eu!

- Mesmo?

Foi ai que, ajoelhado, com as mãos no chão para não bater com a cara na grama e com o orgulho ferido por ter sido derrubado por um feitiço que qualquer primeiranista sabe usar (?), Harry tentou formar uma expressão plausível e racional.

- Yoh, por favor, eu preciso da sua ajuda!

- Pela grande dama do lago - ele já tinha guardado a varinha - eu estou no meio de uma coisa aqui, caramba!

- Ela é prima da sua amiga, a apanhadora da Lufa-Lufa.

- A Luna? - Isso despertou a atenção súbita de Yoh - a... a... como é mesmo o nome dela?

- Sarah. Sarah Figy.

- Mas que doideira é essa! Eu nem conheço essa pessoa. E sei lá o que vocês tem na cabeça! Não sou de ficar caçando basiliscos e lutando com bruxos malignos, pombas! - ele novamente olha para o lado, e dessa vez Cassie arrastava para longe deles Padma, a qual gritava algo que a distância tornara incompreensível - Me deixa em paz! Chama um dos professores pra expulsar uma maldição, se for isso. Ou manda para a enfermaria! O que é tão importante assim que só eu posso fazer?

- Para de gritar – Cassie segurava Padma – pelos braços enquanto a puxava, distanciando-se dos demais -! E se você ficar de graça, eu conta para a Gina que você está dando em cima do namorado dela!

- O quê?! Mais isso é absurdo!

- Não é o que eu andei escutando por ai!

- Você não ousaria!

- Não me tente – e tinha um olhar de muita fúria.

Harry pensou ter escutado algo, mas se perdeu em meio ao grito das duas. Só uma coisa, de fato, importava naquele momento.

- Eu preciso que você fale com o irmão dela - Harry engole a seco, e nesse momento Rony e Hermione, que ainda tentavam processar o que acabara de acontecer em meio aos gritos esbravejados e cada vez mais distantes de Padma, passam a se concentrar nas palavras de Harry - preciso que fale com o Draco Malfoy.


Notas do autor.

Olá, pessoal! Depois de um longuíssimo hiatos, resolvi continuar com os capítulos de "Mais do que Palavras: Guarde um Tempo para Viver".

Por que agora, alguns devem estar perguntando. Ponderei sobre isso, e optei pela resposta mais simples possível: resolvi reler essa fic antiga, escrita à duas mãos com a Fernanda Lobo(que também já assinou como Joana Darc, e hoje, como Nan Wolff), e me vi imerso em meio à história. Quando percebi, estava reapaixonado pelas personagens, seus dramas, problemas e preocupações.

A verdade é que, quando eu e a Nanda escrevemos a primeira história ("O Poder Versus A Astúcia: Quando Corvos e Leões Se Enfrentam"), tínhamos uma pretensão (presunçosa, claro) de escrever uma fic diferente de Harry Potter, centrada em Quadribol. Na época lemos o livro "Quadribol Através dos Séculos" para entender as manobras, os acontecimentos, os movimentos... e, como pano de fundo, criamos uma história que tinha tudo de uma vida escolar, sem as preocupações de enfrentar mestres das trevas a cada esquina. Queríamos uma fic "sem Voldemort", motivo pelo qual ela progressivamente foi caminhando mais para os dramas de uma vida escolar no meio bruxo, e uma briga entre estudantes e final de campeonato poderia ser tão emocionante quanto um duelo de magias.

Quando escrevemos "Mais do Que Palavras: Guarde um Tempo Para Viver", tínhamos isso em mente. Achamos que aquelas personagens mereciam uma continuação, um desenvolvimento. Sempre soubemos que vários ficwriters, como a Arabella Figg, escreviam muito sobre as desventuras dos alunos de Hogwarts em sua vida cotidiana, comum, e isso sempre foi uma inspiração.

Relendo a fic, eu confesso que me senti apaixonado pelas histórias, e fiquei impressionado pela forma como, há tanto tempo, abordamos determinados temas como preconceito, depressão, bem como situações pós-traumáticas, medos juvenis, sentimentos de angústia, autoafirmação, dentre outros. Relendo, tive a impressão de que as dúvidas de muitas personagens, ali, seus anseios e dúvidas, não eram tão diferentes de hoje. E, ao reler, eu fui tomado por um sentimento: o de que todos esses personagens mereciam um encerramento. Mais do que contar os spoilers, mas fechar seus arcos.

Sei que muitos dos leitores que acompanharam essa narrativa, atualmente, já se afastaram desse mundo de leitura e escrita de fanfics. Mas se você está lendo isso, eu te convido a acompanhar o encerramento dessa história. Retomei as trocas de mensagens com a Joana Darc, os textos que tinham sido escritos mas não chegaram a ser publicados, para resgatar as nossas ideias originais, as quais parecem tão distantes no tempo, e encerrar o arco dessas personagens.

Lexas.

Dúvidas

1)Virgínia, Mundungus, Luna...

Eu sei que, se você começou a ler do primeiro capítulo, deve estar com uma série de dúvidas. Quem é Virgínia? Gina não tinha uma amiga chamada Luna LoveGood? E como assim Mundungus é um Auror? Sirius está vivo?

Acontece que, quando esse texto foi concebido, o livro "Harry Potter e a Ordem da Fênix" não tinha sido lançado. Muitos dos nomes que viríamos a descobrir futuramente, como Gina ser diminutivo de "Ginevra", não eram conhecidos. Era a forma como fãs completavam as lacunas. Hoje, tanto tempo depois do lançamento de "Harry Potter e as Relíquias da Morte", parece estranha essa nomenclatura, embora muita gente prefira os nomes abreviados.

Entretanto, essa fic foi construída assim, após o quarto livro, "Harry Potter e o Cálice de Fogo". E foi com base nisso que desenvolvemos esse "universo". Muitos aqui podem achar estranhas algumas situações mas, quando retomei a fic, optei por ser coerente com a história contada até então. Afinal, toda fic é, em sua essência, uma versão, um universo alternativo de como a história canônica aconteceu.

2)E a guerra?

Lendo comentários mais antigos, perguntaram se iria ocorrer a guerra, já que muitos, ao longo dos capítulos, perguntavam sobre a ascensão de Voldemort, sobre como sempre algum estudante falava sobre confrontos...

Ocorre que essa fic, em sua origem e na que a antecedera, nunca fora sobre guerra. Nunca foi sobre qual aluno tinha mais magias, ou grandes batalhas entre grupos de magos rivais. Foi sempre sobre as pessoas em si, seu desenvolvimento e crescimento. Sobre as dúvidas, medos e preocupações. Foi isso que tentamos responder no capítulo XI sobre a forma como Harry agia, e que foi retomado agora neste sobre como a constante preocupação com todos os problemas do mundo pode ser danoso para um adolescente em processo de formação. Ou o amadurecimento de Rony após uma experiência traumática, o que acabou reformando os laços com Gina. Ou o processo de amadurecimento em busca de amor próprio de Pansy, por exemplo.

Para essas e tantas outras personagens, o medo da morte e da guerra é uma constante, já que todos estão, direta e indiretamente, envolvidos com isso. Mas a vida é muito mais do que isso. A personagem de Susana Bones é um exemplo disso: quase toda a sua família estava morta quando ela entrou em Hogwarts, mas, ainda criança, precisou aprender a viver na escola mesmo com a ausência de familiares que teriam influenciado no seu crescimento.

Durante os livros da saga Harry Potter, as artes das trevas sempre foram um medo recorrente. Porém, queríamos mostrar que a vida não era apenas isso. Mesmo durante as longas guerras do século XX, ou os regimes totalitários que deixaram marcas até os dias de hoje, a vida prosseguia de alguma maneira: pessoas nasciam, cresciam, morriam... amavam, aprendiam, descobriam mais sobre si... faziam amizades, estudavam, dançavam, enfrentavam seus problemas diários, seus problemas individuais. Porque a história não é feita pelos acontecimentos, mas pelas pessoas que os atravessam. Em meio a toda história grandiosa de fundo, sempre haverá alguém tentando superar as provações da sua própria vida, por mais que isso, no decorrer das grandes narrativas, possa parecer cotidiano. É sobre isso que trata "Mais do Que Palavras: Guarde um Tempo para Viver".

3) Você passou mel na Gina?!

É verdade que, nos livros, Gina acabou virando uma das moças mais belas de Hogwarts. Aqui, seguimos um caminho diferente. Queríamos mostrar o amadurecimento dela. Ocorre que muito desse efeito mágico que Gina causa nas pessoas advém da sua autoestima: Gina foi atingindo gradualmente uma percepção de si, sua plenitude. Não queríamos utilizar uma personagem consagrada apenas como "escada" para outros, mas que tivesse seu próprio desenvolvimento enquanto personagens. Gosto de pensar que, na relação entre Gina e Yoh, há três personagens: Gina, Yoh e o casal enquanto uma entidade que vai crescendo, amadurecendo e, entre trancos e barrancos, se descobrindo. Isso também se refletiu em alguns personagens, o qual possui relações muitos complicadas, como Amanda e Chaz. Ou James e Julieta. Ou outras que, por mais surreais que parecem, ocorrem, como o Cassie e Thor.

4) Ninguém acha a Luna estranha?

Com certeza! Mas, em um universo escolar na qual há alunos com a capacidade de se metamorfosear naturalmente, magias explodindo a todo momento, casais se formando e se separando, na maioria das vezes estamos tão absortos no nosso cotidiano, que nem nos damos conta do que está acontecendo com o nosso vizinho. Particularmente, eu ri muito quando reli a cena na qual Luna diz para Neville que Harry gostava da Gina, e o mesmo reagiu como se aquilo fosse uma novidade.

5) E a magia?

Quem tem acompanhado os outros capítulos, vai perceber que fazemos alusão a algo muito recorrente ao próprio universo de Harry Potter: magia é algo muito fluído. Os bruxos usam varinhas, não usam. Lançam maldições sabendo, e não sabendo. Fazem a magia, ou a são. E isso sempre me pareceu uma constante, sobre como J.K. Rowling, se por um lado criou regras bem definidas sobre como a magia funciona naquele mundo – afinal, ela criou uma escola -, ao mesmo tempo também se esforçou para explicar que o elemento mágico no universo de Harry Potter, por vezes, não é executado, mas vivido. A magia está em diversos cantos e momentos, e nas mais diversas manifestações. Isso é algo recorrente nos próprios livros, sobre como crianças bruxas às vezes fazem magia sem saber, a exemplo do cabelo de Harry que sempre ficava de um mesmo tamanho. Por isso que a magia, aqui, é vista como algo mais do que uma bola de fogo, mas um elemento recorrente que permeia o universo e demonstra a capacidade do bruxo de quebrar regras, influenciar o destino e produzir tanto desastres, quanto milagres.

6) Música?

Ok, já perguntaram isso. Música é o que move o mundo, é a magia que conecta a harmonia da vida. Já escrevi uma vez uma songfic baseada nesse universo de "Mais do que Palavras", e isso está associado como conectamos a música à magia que habita nessa realizada, a capacidade de transportar a essência de um momento. Não estranhem se encontrarem uma aqui, e outra ali ^_^! Aproveitando, "Halo" foi composta por Ryan Tedder, Kidd Bogart e e Beyoncé Knowles.

7) Tem um errinho aqui...

Eu usei, em alguns momentos, da devida licença poética para o texto não ficar extremamente formal. Em alguns momentos, procurei colocar na boca das personagens a maneira como eles falam no dia a dia, para tentar captar essa noção. Mas, se após uma revisão gramatical você não encontra nenhum erro, com certeza você fez algo errado T_T!

Agradeço do fundo do coração a vocês que acompanharam esse momento de explicações. Vocês que são novos leitores, ou que receberam alguma notificação e estranharam o motivo dessa fic ter ressurgido das cinzas, obrigado pela paciência!

Lexas