Capítulo XIII – O Duplo Fidélius

"Oi, Crabbe.

Tudo bem?

Como você está?

Espero que sim. Fico feliz que tenha gostado do presente. Como você está?

Não nos falamos muito, então não perguntei como foi a sua transferência. Como você está?

Espero que bem. Aconteceu muita coisa por aqui, antes mesmo do natal.

Eu não te contei, mas assumi um cargo de Agente Estudantil de Saúde. Legal, não é? Teve um incidente com o apanhador da Corvinal, o Kneen, lembra dele? A gente viu a sua coruja pousando na mesa dele. Por causa do incidente, alguns alunos foram indicados pelos professores para dar suporte à madame Pomfrey, e eu fui uma dessas pessoas.

E você, como está?

Pansy"

- É aquele seu amigo inglês, Crabbe?

- Não, é uma colega de Hogwarts, Pansy Parkison.

- Não é aquela que te enviou o presente de natal?

- Um dos presentes - e continuava comendo no salão principal da escola -, depois eu respondo, ela perguntou como estão as coisas aqui.

- Ela parece muito interessada em saber como você está - Isabelle passava rapidamente os olhos pela carta de Crabbe, o que por si era um feito impressionante, considerando a disparidade do tamanho de ambos, mesmo estando sentados lado a lado.

- Hmmm? Ah, eu vou responde que estou bem, que faz frio aqui como sempre.

- Vocês, insulares, são tão tapados assim? Ela quer que você escreva para ela, e já!

- Hmmm? - ele continuava mastigando, não entendendo patavinas do que ela dizia.

- Você é um caso perdido, olha quantas vezes ela perguntou como você está - e apontava para a carta.

- Ah, bom... ela deve ter escrito com pressa.

- Eu fico imaginando como eram as conversas entre você e sua ex-namorada. Crabbe, o rei da sensibilidade.

- ...

- E aquele seu amigo inglês, aquele com aquela escrita chique?

- Está falando do Yoh?

- Esse! Eu li uma das cartas dele e...

- Espera um pouco, quando você leu minhas cartas?

- Devia evitar deixá-las jogadas por ai, oras!

- Mas eu não deixei jogadas!

- Mero detalhe. Devia ter aprendido alguma coisa com ele, fico surpresa em como você consegue ler aquilo!

- Está me chamando de burro? - ele virava a cara mais fechada que, naturalmente, consegue fazer.

- Ohohoho! Só estou dizendo que as cartas daquele sujeito deviam tê-lo feito aprender a ler melhor!

- Olha só, você escolheu esse dia para pegar no meu pé?

- Eu? Imagina! Mas você tem que escrever para ela AGORA!

- Ué? Por que?

- Por que ela quer te contar alguma coisa, oras!

- E... por que ela não escreveu isso logo?

- Pelo santo cálice... por que ela não sabia como começar o assunto, ou se você iria querer saber!

- Ela mandou uma coruja atravessar o mar... tem ideia de como isso é estupido?

- Sério, Crabbe, como você conseguiu uma namorada? Pensando bem, começo a entender como você deixou de ter...

- Ok, que seja - ele pega uma folha de papel e escreve "Oi, Pansy. Estou bem, obrigado. Como eu posso te ajudar?".

- É isso? Não se escreve uma carta assim quando alguém quer te falar uma coisa!

- Mas você não disse que era urgente? Tenho que mandar logo, sem voltas!

- Você tem que fazer um curso de sensibilidade! Não É assim que você escreve para a sua mãe? Ou para o Yoh?

- O Yoh é meu amigo - e ele parecia visivelmente irritado - A Pansy, ela...

- Parece amiga o suficiente para mim.

- Mas você nem a conhece!

- Ah, mas agora eu fiquei com vontade, vou até mandar uma carta para ela! Se calhar, viramos grandes amigas e passamos a falar mal de você!

- O quê? Deixa de ser ridícula!

- E você, insensível!

- Quer saber? Eu vou para um lugar mais tranquilo para escrever a MINHA CARTA, sem ninguém dando pitaco.

- Mas não vai, mesmo! Vem, vou te ajudar, antes que você mande uma receita de ovo mexido como resposta!


Pegando uma pequena tigela, ele mistura duas tonalidades de cores. Seu gesto era sutil e contínuo.

Ela, apenas o observava.

Havia um toque calmo e tranquilo, e ela percebera que o trabalho dele começava antes do mesmo desenhar. Percebia que, antes de delimitar as linhas, o mesmo preparava a tinta.

O salão principal era um espaço mais agradável do que muitos imaginavam. Em geral, as pessoas ficavam ali para consumir as refeições, mas ignoravam como era um ambiente extremamente tranquilo, quando não estava lotado de estudantes. Tomadas as devidas proporções, seria uma ótima praça de alimentação trouxa.

Amanda observa o que Chaz fazia. Ele sempre estava desenhando, pensava. Sempre. Havia sempre uma prancheta em suas mãos, sempre um lápis ou outro elemento, outro kit. E, quando não havia, o rapaz improvisava. Era um pincel, uma caneta... provavelmente mais da metade dos estudantes da Corvinal deveriam ter um desenho de Chaz em seu caderno. E alguns de outras casas, também.

Ele então pega uma de suas canetas escolares e toca no ombro da mesma. Estava com um top e utilizando um casaco como complemento, mas tirou-o para que ele continuasse. No começo sentia um leve formigamento, mas parou para prestar atenção à forma como ele tocava a sua pele.

Com sutileza. Com cuidado.

Mais do que isso: Chaz era um artista, ele sempre buscava a perfeição.

Ela nunca se cansava de perguntar o porquê dele não usar equipamentos mágicos. Todo mundo fazia a mesma pergunta. A resposta não variava: ele queria atingir a magia das cores pelas formas que desenhava.

Não fazia sentido para ela, nem para ninguém. Ela sente uma volta que ele dá, e poderia delinear que era um ângulo semifechado, só pelo movimento. Em seguida, percebe como a caneta descia pelo seu ombro e, em um misto de curiosidade, tenta virar o rosto para ver como estava ficando.

- Não mexe! - ele chama a sua atenção - vai borrar!

- Você? Duvido!

Havia um sorriso em seu rosto, pois sabia que mesmo se ele errasse algum contorno, passaria outro por cima e usaria a falha como base para uma correção.

Era gostoso ficar daquela maneira, e ela se dava ao direito de deixar sua mente solta pelos cantos. Uma das coisas que aprendeu a gostar mais em Chaz - além de quando ele ficava irritado, o que, em sua opinião, dava-lhe todo um charme - era como ele era capaz de se dedicar a algo, nas mínimas coisas.

Naquele momento, parte do braço e ombro esquerdo de Amanda eram sua tela, na qual ele iniciara seu processo de criação. Ocasionalmente ele afastava a mão esquerda, com a qual segurava o braço da moça, e colocava-a esticada na sua frente, como se tentasse delinear a imagem através dos seus dedos.

O que muitos não entendiam era que, do ponto de vista de Chaz, o mesmo não desenhava algo, mas sim dava vida àquilo que enxergara em um espaço. Ele não pensou que aquela figura em especial ficaria bem no ombro de Amanda, mas a enxergou nitidamente naquele espaço, e usava de toda a sua habilidade para torná-la visível para as demais pessoas. E embora atuação não fosse o seu forte, com certeza ele teria uma vaga garantida na Academia Bruxa de Arte Dramática. Quem sabe, não aprendia um pouco de cenografia?

- Lindinho...

- Hmmm?

- Conta pra mim, vai.

- De novo? - Ele dava um leve sorriso, enquanto sua caneta delineava o lado direito do ombro.

- Eu gosto de escutar.

- De todas as vezes que eu expliquei...

- Gosto da sua explicação - ela aproveitava o braço direito, e tentava esticá-lo para tocá-lo, sem muito sucesso - você sempre explica de maneira diferente.

- Então - Chaz falava, como se seu corpo, sua mente e voz fosse entidades separadas - tem magia aqui.

- É mesmo? - Ela vira o rosto a ponto de encarar a cara séria dele - essa é nova.

- Não essa magia, mas tem. Tudo tem magia. A magia estar no ar, nos detalhes, nos movimentos, nas vontades.

- Está inspirado hoje - e fechava os olhos, sorrindo.

- A gente vive magia. Não é verdade que nossa varinha serve mais para captar e concentrar o poder mágico? Ou você nunca fez magia espontânea?

- Quando eu era criança, o Olívio jogou lama no meu cabelo, e minha mãe disse que teria que cortar. Era só lavar, acredita? Minha avó, dona Harlet, não deixou. Mesmo lavando, a lama não saia. Minha mãe aproveitou que minha avó saiu, e cortou. Mas voltou para o mesmo tamanho.

- Uns primos meus quebraram meus lápis de cor quando eu era criança. De repente, os lápis voltaram ao normal.

- Foi assim que descobriram que você viria para Hogwarts um dia, não é?

- Isso. Mas ninguém acreditou na hora. Eram primos do ramo normal da família.

História complicada. Do ramo americano do clã Jordan, os pais de Chaz vieram para a Inglaterra. Tivesse nascido nos Estados Unidos, hoje estaria estudando na Ilvermorny. Não teria muitas confusões, não seria visto como trouxa por um sem-número de estudantes que ignoravam o fato dele ser membro de um clã conhecido, tampouco teria que toda hora esbarrar com algum bruxo que gostava de jogar seu pedigree na cara dos demais.

Mas não teria conhecido sua amiga de infância, Cassie. Nem Amanda. Ele e Cassie moravam próximos a Yoh, em uma região de Londres que era uma área que mesclava famílias bruxas e trouxas. Cassie era de fora, mas sempre se encontravam na escola Yoh, nas brincadeiras de rua, embora ele e Cassie só tenham se tornado mais próximos do apanhador quando entraram em Hogwarts.

Amanda era algo literalmente aleatório. Parecia que tinha sido ontem que começaram a se aproximar, na Toca dos Weasleys. Depois se afastaram. E se aproximaram. E isso foi seguindo no decorrer dos meses. Ele não sabia dizer o que sairia daquilo, mas podia dizer, com certeza, que estavam bem.

Após terminar com Luna a vistoria das situações de higiene das casas, resolveu chamá-la para caminhar um pouco. A semana passou muito rapidamente, e estavam com a maior parte do dia livre.

Uma coisa curiosa tinha acontecido durante o recesso de cartas do natal: pela primeira vez, eles conversaram muito mais abertamente, até mais do que quando se encontravam. Algumas vezes, trocavam frivolidades mas, em geral, falavam do seu dia a dia, o que estavam fazendo, como estavam passando o dia...

- Mas as pessoas preferem coisas que se mexem - e seu tom de voz não era o de alguém que recriminava Chaz, pelo contrário, buscava salientar um ponto.

- O que importa é o belo.

- Quem é esse sujeito?

- Rsrsrsrs.

- Que foi? - E fechava o rosto - vai rir de mim, é?

- Nada, fadinha. O belo é - ele começava a cutucar o braço dela com a caneta, como se o estivesse furando. Ao prestar atenção, cada batida era um toque de tinta - a busca da arte. Um quadro, um desenho, um poema... uma obra não é morta nem viva, inerte ou movimentada. Ela é só bem ou mal produzida, e é essa toda a verdade.

- Mas nem todo mundo pensa assim!

- Então a arte não é boa o suficiente para ser entendida. Tem um monte de estátuas nos corredores, mas se alguém tirasse elas dali, o que acha que aconteceria?

- Hmmm... alguém ia reclamar?

- Sim, mas porque iria dar pela falta daquilo... uma obra de arte de verdade envolve, inclusive, as pessoas se mobilizarem para impedir que ela seja destruída.

- Quem destrói arte?

- Todo mundo. Meus primos, por exemplo.

- Pegavam muito no meu pé, não é?

- A gente sabia que tínhamos primos bruxos, mas... todo mundo tem vergonha de abortos. Calhou que meus pais também eram primos, e daí eu nasci. Para todo mundo, filho de aborto, abortinho é – as mãos dele se moviam como se desassociadas de sua voz, a qual começou a ficar arrastada – mas era uma vida legal, simples. A não ser nas reuniões de família. O Lino Jordan, sabe, eu não sou próximo dele, na verdade, ele é um primo de segundo grau que eu mal vi na minha vida fora da escola, acho que uma festa ou outra. Eu preferia nem estar, mas meus pais insistiam, era aquele momento em que a gente tem que estar ao lado daquelas que tem vergonha da gente.

- Deve ter sido muito difícil.

- Eu comecei a desenhar cedo, me distraia. Meus primos desenhavam com tinta mágica, mas comigo isso não funcionava, no passado. As pinturas deles se moviam, diziam que a minha era morta, estática. Queria fazer desenhos tão bonitos, que mesmo parados pareciam vivos.

- Mas... você está feliz aqui?

- Hmm?

- Você gosta de Hogwarts?

- Claro! Eu amo esse lugar! Tenho amigos, tem os professores... tem você, claro.

- É que você fala como se estivesse e não estivesse aqui ao mesmo tempo.

- É força de hábito, não costumo falar muito disso. Desculpe.

- Não! Não precisa se desculpar, eu... não queria tocar em algo doloroso.

- Ah, não tem problema, olha... você nunca me vê fazendo muito magia, não é?

- Parando para pensar... não! Eu quase não vejo você com uma varinha!

- Tem gente que fala que é porque a minha magia é fraca, por causa dos meus pais.

- Isso é cruel, quem disse isso?

- As pessoas.

- Sério, quem disse? Eu vou tomar satisfação!

- Todo mundo diz alguma coisa, mas eu não me incomodo tanto assim. Desde criança, eu e meus pais fomos criados com nossa família de bruxos, mas ficamos distantes como se a magia não nos pertencesse. Não é que eu não sinta a magia, mas, às vezes, tenho a sensação de que não a vivencio plenamente. Por isso que eu tento extrair a magia das coisas com as minhas pinturas. Sinto que, tão perfeita seja o que eu desenhar, mais eu consigo tocar na essência mágica de algo.

Amanda escutava atentamente o que o namorado dissera. Era, de fato, a primeira vez que ele fazia esse comentário. Muitos faziam comentários sobre o Chaz ser trouxa, embora de uma família bruxa conhecida. Mas, agora, percebera que havia uma relação mais profunda entre seus desenhos, e a forma como ele concebia a magia.

- Você preferia não ter vindo para Hogwarts?

- Eu nunca parei para pensar nisso – e continuava retocando o desenho.

- Mas, e agora?

- Não, não me arrependo. – e sorria – estou bem - ele dá mais uma pontada no braço dela – e tem você. Pronto.

Ele gira sua varinha, e um espelho se forma. Amanda observa o desenho de uma mulher em miniatura, com cabeços curtos, vestindo uma roupa que parecia feita de folhas de árvore, e com quatro asas nas costas, como se fosse um inseto. No entanto, não precisou de muito para associar a imagem a algo que ele dissera. O detalhe era que Chaz desenhou até mesmo sapatos na criatura.

- Essa Sininho é um pouco mais magra do que eu imaginei... muito esbelta... e esse vestido dela não deixa muito para se imaginar das pernas - Amanda rapidamente enrubesce ao associar se era essa a forma como Chaz a imaginava em seus sonhos mais proibidos.

- É uma interpretação muito livre minha - ele observa a vermelhidão na face dela - que foi? Não gostou?

- N-n-nada - Amanda não sabia onde enfiar a cara - você... gostaria que eu usasse uma roupa assim?

- Claro! - ele respondeu sem pensar, raciocinando logo em seguida a indireta dela - Bem, quer dizer, hã...

- Você não tinha me dito que preferia meninas de minissaia, lindinho - e um sinal acendeu em Chaz, o qual começou a desenhar mentalmente onde aquela discussão iria parar.

- Não, espera, não foi isso que eu...

- Posso experimentar, se você quiser. Tenho algumas amigas que usam roupas que as deixam bem à vontade... não anda olhando para elas como inspiração para seus desenhos, não é?

Amanda falava isso enquanto se virava para ele, apoiando o cotovelo na coxa e a cabeça em sua mão, com um olhar acusador misturado com um sorriso malicioso. Chaz, por sua vez, via o mundo passar em câmera lenta, como se ele tentasse procurar uma resposta boa o suficiente para tirá-lo daquela enrascada.

- Fadinha, eu...

- "Fadinha", é... e esse desenho aqui, já andou desenhando no braço de mais alguém?

- Claro! Volta e meia tem gente que me pede para desenhar algo no braço e... - ele percebe tarde demais a armadilha na qual caiu.

- Sei... essa história de que "Corvinal e Lufa-Lufa são casas amigas" ... não anda passando a mão no braço de alguma lufana abusada, não é?

- Claro que não!

- Então, como é que você faz esses desenhos nas pessoas?

- Ora - Chaz sentia-se visivelmente constrangido, e agradecia pelo salão estar com pouca gente - tem formas de desenhar sem tocar nas pessoas!

- Mas você não usa magia para pintar, não é mesmo? Nunca te vi movendo um pincel com um "wingardium leviosa".

- Nunca em uma pessoa - e essa última parte saiu tão baixa, que o barulho dele engolindo a saliva parecia um estrondo. O tempo parecia congelado, e Chaz tinha certeza de que suas próximas palavras deveriam ser muito bem selecionadas.

- Então, vamos ver... o tão "quietinho" Chaz, um pintor incompreendido por muitos, é um tocador?

- Depende do que você chama de tocador.

- Ah, então é verdade? Onde mais gosta de tocar, Chaz? - Nisso Amanda se aproximou ainda mais e se curvou um pouco, de forma que o ângulo oferecia a Chaz uma visão muito generosa de seu busto. Ele se pegou encarando aquela parte dela por mais tempo do que percebera. Delineava bem aquelas duas "goles", quando lhe veio algo a cabeça: começou a se imaginar nos treinos do time de Quadribol, no qual segurava a goles e se recusava a passá-la para alguém, apertando como se fosse a oitava maravilha do mundo.

Isso gerou nele um movimento involuntário no qual ele levantou a mão direita lentamente na direção de Amanda. Foi quando ela segurou o braço dele e se curvou um pouco mais, fazendo-o encará-la.

- Está olhando o que, lindinho? Meus olhos estão bem aqui - e, com a mão livre, ela fechava aquela boca do rapaz, aberta.

Chaz ficou muito, mas muito, mas muitíssimo vermelho, e tentou desviar o olhar. Mas não conseguia, pois quando olhava para Amanda, o ângulo lhe dava uma visão completa da cintura para cima da moça, o que incluída suas "goles".

- Tsc, tsc, tsc... que namorado safadinho eu fui arrumar... mas não fuja do assunto! - ela apontava um dedo acusador para ele - vou encontrar alguma lufana ou corvinal por ai com algum desenho seu em áreas privilegiadas? - ela começa a fazer círculos no cabelo com a mão esquerda, um vício de quando era mais encaracolado - precisa chegar bem perto para desenhar algo no pescoço, e acho que não vou gostar de saber que meu namorado andou fungando no pescoço de outra...

Ele ficou ainda mais vermelho.

- Ou quem sabe foi desenhar algo nas costas de alguém, daí rolou um "acidente" e, de repente, se aproximou mais do que devia.

- Você... está distorcendo as coisas...

- É mesmo? Se alguma pedir para você fazer um desenho no pé, você pede que não venha de saia?

Se alguém pudesse ver, não era apenas Chaz que estava vermelho como um pimentão, mas parecia uma caldeira expelindo jatos fortes de ar quente para todos os lados. Ele não estava encabulado com aquele assunto, como, também, arrepiado só pelas possibilidades que ela lhe dissera.

- HUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUA! - Ela deu uma risada estrondosa, de modo que alguns poucos estudantes que estavam ali olharam para a mesa na qual estavam - HUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUA! - Ela segurava sua barriga, pois era uma risada tão profunda, que sentia dores - HUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUA! - e ainda olhava para trás, enquanto lágrimas saiam do rosto dela - Você tem que ver a sua cara!

Continuando, ele estava visivelmente alterado, em diversos níveis. Sentia-se levemente arrepiado com as "acusações", e não sabia onde enfiar a cara. Mas ela foi além, levou aquilo a um nível que ele ainda não tinha experimentado. E, em um momento de puro impulso, ele se levantou.

- Vem - e pegava seu kit de desenho, enquanto a puxava.

- HUAHUAHUAHUAHUAHUA... hã? Que foi?

- Vamos para outro lugar.

- Ué, que foi? Foi só uma brincadeira! - e ela ainda mantinha aquela cara de riso, secando algumas lágrimas do rosto - Tá chateado, é?

- Não, imagina! Vem comigo!

- Para onde?

- Para um lugar mais reservado.

- E... - ela ainda não processava direito as falas dele, pois ainda estava perdida em meio as provocações que fizera e deixaram Chaz desconcertado - pra que?

- Pra eu te fazer um desenho mais estiloso... em uma área privilegiada.

Dessa vez, foi ela quem corou.


Assim que Chaz saiu com Amanda do Salão principal - melhor dizendo, a arrastou dali - havia uma barulheira no corredor. Era verdade que os estudantes estavam animados com o final das aulas semanais, de maneira que muitos conversavam pelos cantos. Havia, de fato, mais alunos no corredor do que o comum, considerando que vários faziam planos para o final de semana.

Era por isso que aquelas cinco que corriam por entre os demais estudantes chamavam tanta atenção. Não apenas Chaz, mas todos as reconheciam de imediato pelo fato de estarem juntas: Ariel, Cho, Julieta, Miranda e Rika. Membros do time de Quadribol da Corvinal.

Corriam pelos corredores de tal maneira que algum desavisado poderia imaginar que estavam fugido de alguma coisa. Mas quando passaram por Chaz numa velocidade bem inusitada, o mesmo percebeu que elas estavam segurando uma goles, jogando uma para a outra.

Amanda, por outro lado, tinha um ponto de vista diferente. Elas não estavam simplesmente jogando a bola uma para outra - e isso não demorou para notar - mas havia uma espécie de ritmo ali. Na verdade, havia um desconcerto na posição delas. Na frente vinham Rika e Ariel, uma ao lado da outra, mas em lados opostos do corredor; logo atrás, Cho e Miranda, repetindo a mesma posição. E, por último, como se tentasse ultrapassá-las, Julieta. A última estava no final, como se observasse a goles sendo jogada entre as quatro. Foi ai que Julieta acelerou o passo e entro no centro - em meio ao espaço entre as quatro - e tentou pegar a goles. E quando isso aconteceu, o mesmo objeto passou por cima de sua cabeça, de Ariel para Rika, de Rika para Cho... até que Julieta toma uma senhora bolada na cabeça, quase caindo.

A princípio parecia uma brincadeira curiosa, embora Amanda não a reconhecesse.

- Bobinho - falava Chaz, enquanto arrastava Amanda e eles se aproximavam das garotas, as quais haviam parado no momento em que Julieta entrada no centro do grupo - estão brincando.

Aquilo, para Amanda, não parecia uma simples brincadeira, já que ela percebera alguns movimentos incomuns ali, exatamente quando as garotas pararam de correr e estavam muito próximas deles. Naquele momento, formou-se uma espécie de círculo no entorno de Julieta, a qual estava cercada pelas quatro. A goles passava de mão em mão, atingindo a goleira de tempos em tempos. Rolando no chão a bola passa de Rika para Cho, por trás de Miranda e, aproveitando do fato de estar com Julieta de costas para ela, Cho dá um salto, pisa na parede e, com o impulso, gira por cima de Julieta, lançando a bola no processo em sua direção. E para a surpresa dos que estavam observando aquilo, ela consegue ver a tempo a sombra de Cho e dá um passo para a esquerda, evitando a bolada e, em seguida, dá outro passo para frente e pega a bola. E todas voltam a correr.

- Vem! - Amanda puxa Chaz.

- Ei! A gente vai para lá!

- Só um pouco, vem! - ela começa a correr de mãos dadas com ele.

Pelos corredores, um novo quarteto se formara. Na frente, Rika, do lado esquerdo, e Ariel, do direito (pelo menos, de quem as olhava por trás) -; logo atrás, Julieta na esquerda, e Miranda, na direita. E mais atrás, agora perseguindo o quarteto, Cho. Continuavam correndo por um corredor externo que dava a volta em um dos prédios, o que permitia que, sempre que completassem uma volta, passavam em frente ao salão principal. Ao longo podiam ver o lago e o gramado, mas não era o interesse deles.

Cho aproveitou e deu uma arrancada - não era tão alta quanto Rika, mas tinha mais vigor do que as demais e, como se desse uma rasteira no vazio, cai no meio das mesmas e, levantando-se, parte para cima de Rika, a qual detinha a posse da bola.

- Hmmm - Amanda olhava curiosa, enquanto Chaz agradecia por ela ter parado de correr. Ela vê quando Rika dá uma batida com o pé no chão e movimenta o braço para a direita, fazendo Cho se mover, mas a mesma aproveita de sua agilidade e retorna para interceptar a finta de Rika, a qual já estava direcionada para Julieta...

... e foi ai que, na verdade, Rika fez a goles quicar por debaixo de sua perna e, saindo e voltando rapidamente de sua posição, Miranda a pega.

Para Amanda, aquele movimento foi muito rápido. Ao seu ver, Rika antecipou, pelo menos, 4 jogadas naquele lance, incluindo a chegada de Miranda e as reações de Cho. Mas, talvez, o espanto foi a falsa postura de Ariel, a qual interrompeu o movimento e voltou a sua posição assim que Cho se moveu e, em seguida, abriu espaço para Miranda passar. Cho, por sua vez, tinha uma agilidade incrível no chão. Vira algo assim durante a sua última partida, mas achava que era algo relacionado a sua vassoura. Deve ter sido por isso que, mesmo com a pegada de Miranda, a mesma não fora rápida o suficiente para jogar a bola mais forte, de modo que Cho a intercepta antes que chegue a Julieta.

Nova corrida, dessa vez, com Miranda como "perseguidora" e...

Quando Cho começou a correr, Miranda esticou o braço e deu uma pancada na goles, a qual quicou no chão, como se sem dona. As duas pararam enquanto Ariel ria. De repente a filha do prefeito de Hogsmeade, olhando pelo canto do olho e vendo Julieta e Rika se aproximando, se jogou no chão, como se estivesse mergulhando durante o voo com a vassoura e, enquanto usava uma das mãos para se apoiar e completar o giro do corpo, com a outra capturava a goles e, ao se levantar, deu um rebote e jogou o objeto para o alto. O que parecia ter sido algo aleatória, como atentava Amanda, envolvia uma jogada mais longa, visto que o movimento de Ariel parecia sincronizado com o de Miranda, a qual se moveu para trás de Cho e, ao conseguir espaço, subiu rapidamente no parapeito do corredor, um dos quais os alunos adoravam ficar apoiados para se sentar, conversar e admirar a lua em certos momentos, e pulou para pegar o objeto. Aparentemente, não contava que Rika se ajoelharia e, servindo de apoio para Julieta, a favoreceria como apoio para a mesma subir em suas costas e saltar para pegar a goles. Quando ambas tocaram o chão, naquela disputa acirrada, Miranda estava no meio, cercada. Não conseguira pegar a bola e, por isso, continuava sendo o "bobinho" da vez.

Foi ai que ela fez algo que Amanda não conseguiu entender: ela abriu os braços, esticando-os para os dois lados. Rika deu um passo para trás, enquanto Ariel abriu um sorriso e Cho piscou. A bola de Julieta passou direto, pois Miranda se moveu, fazendo-a passa perto ao seu cabelo por centímetros e, quando Rika fez o rebote para atingi-la por trás, Miranda inclinou o corpo para frente, dobrando-o e, em um lance impressionante, esticou uma das pernas e, com a goles se aproximando dela rapidamente por trás, chutou-a com o calcanhar.

Estava pasma. A artilheira da Corvinal acertou a goles... sem vê-la? Não fazia sentido.

E não fazia, pensava. Era outra coisa, mas não sabia direito o que era. Algo mais técnico, talvez. Tinha alguma coisa ali. Mas o que chamou a sua atenção era que, naquilo que parecia - e era - uma brincadeira, havia características daquelas jogadoras.

Ela se sentiu assistindo a um treino da Corvinal. Era como se aquela brincadeira internalizasse, refletisse o treinamento do time. Ou, pelo menos, trouxesse à tona o estilo de jogo de cada uma.

O que Amanda deixou passar foi que, quando Julieta jogou a goles, Ariel não estava mais em sua posição e, quando o objeto caiu, Ariel estava ali para recebê-la, e a joga na direção de Amanda. Tanto ela quanto Chaz se posicionam para interceptar a goles, mas esquecem de que estavam de mãos dadas, de maneira que, pela falta de espaço para se movimentar, trombam um com o outro. E ainda recebem uma "golada".

- Quer jogar com a gente - Ariel retomava a bola -, Amanda? A gente tentou chamar Cassie e Padma, mas estavam correndo igual a doidas pela escola.

Tentador, pensava. Ela particularmente estava excitada com o que vira, e queria entender melhor o jogo.

- Então, está com você - foi um lance muito rápido e, quando Amanda foi se ligar, as mãos de Chaz voaram na direção de Ariel, tomando a goles. Era como se a precisão e rapidez manual que ele tinha se aplicassem à outras situações. Ele aparentava ser atrapalhado e desengonçado só quando estava nervoso ou envergonhado, pois acabara de tomar a goles das mãos de uma artilheira. Ariel não teve tempo para reagir, pois a goles voou na sua cara e caiu nas mãos de Amanda, a qual teve um instante para perceber que estava no jogo, enquanto os demais começaram a correr, e ela precisou se movimentar.

Internamente ela deu um segundo sorriso. Chaz havia antecipado sua reação e optado por algo que a divertiria mais, naquele momento. Merecia um prêmio, mais tarde.

Ariel correu e conseguiu parar no meio do círculo, o qual estava um pouco bagunçado. Amanda ia lançar a bola para Julieta, mas parou ao observar a postura de Ariel. A moça parecia totalmente ativa e pronta para interceptar a goles, qualquer que fosse seu movimento. Era uma postura que não deixava falhas e, fosse Amanda uma goleira, sabia que Ariel marcaria ponto no momento em que a Goles alcançasse o espaço.

Também tinha seus truques. Jogou a Goles no chão e a deixou quicando, até que a tomou com o joelho, fazendo embaixadinhas. Lembrava-se da partida de futebol na casa de Gina, e aprendera alguns movimentos. Um deles foi deixar a bola cair no chão e, quando Ariel tentou acompanhar o movimento, fingiu que iria chutar o objeto por entre suas pernas, mas o jogou para Chaz, o qual repetiu o gesto, jogou a goles para a altura do joelho, jogou-a mais alto e, com uma cabeçada, enviou-a para Miranda. E, nisso, Chaz e Amanda, cada um, deram um passo para o lado, outro para frente e, naquele brevíssimo momento de distração, deixaram Ariel fora do círculo.

Nova corrida.

Era uma mistura de queimada com bobinho e, agora, um pouco de futebol. Envolvia resistência e sincronia. Foi quando Amanda parou de correr, imitando o grupo, e percebeu que Ariel não estava atrás deles.

- Ué, ela se cansou?

- A filha da Amy? - Miranda dava uma risada debochada, e Amanda percebeu que tinha algo que ela não tinha prestado atenção- vai sonhando.

- Oi, meninas! O que que vocês... ufffff! – era Pansy, a qual acabara de levar uma bolada na cara, jogada por Rika.

- Pronto, substituição! - e continuavam correndo, enquanto Amanda parava com uma cara de surpresa. Não era aquela garota da Sonserina que fazia parte do grupo de auxílio que fizera o curso com o Chaz? Aliás... não era o par do Draco Malfoy no baile?

Ela parou de pensar muito quando uma irritada Pansy, mas com muito fôlego, se levantou e começou a correr. Amanda percebeu que ficara para trás, pois Chaz também seguiu o grupo. Apertou o paço, torcendo para não ser confundida com o "bobinho" da vez, já que estava logo atrás de Pansy. E também não queria descobrir se aquela garota era uma jogadora substituta da Sonserina, ou não.


Cada um percebe seu mundo de acordo com o seu ponto de vista. Mesmo que nos coloquemos no lugar do outro, o estamos fazendo de acordo com nossos termos. O princípio da alteridade nunca é pleno. Exemplo disso é como, segundo antropólogos, somos capazes de alterar algo apenas por ver essa coisa. Teve até um filósofo que dizia que, no fim, tudo é interpretação.

Alguns, por exemplo, podiam entender errado a maneira como as relações dentre os membros do time de Quadribol da Corvinal funcionavam. Era comum pessoas de fora, principalmente de outras casas, os dividirem em "o grupo das meninas e o dos meninos", mas as coisas eram um pouco mais complexas. Isso, em maior ou menor grau, era influenciado pelas idades escolares de cada um: Carlos, Cho e Rika estavam no sétimo ano; Ariel, James, Miranda e Padma, no sexto; e Cassie, Chaz, Julieta e Yoh, no quinto. Havia, por exemplo, a forma como Cho interagia com Julieta, praticamente adotando-a como uma irmã caçula. As óbvias relações entre Yoh e Carlos, ou Ariel e Miranda e, claro, Miranda e Carlos; e também Rika e James, Yoh e Chaz, Chaz e Cassie, Ariel e Padma... faziam parte da dinâmica diária de conexões que temos entre indivíduos e grupos em si. E, algumas, passam despercebidas.

Exemplo disso é como muitos praticamente ignoram as relações pré-Hogwarts de Yoh, como Chaz e Cassie; ou, também, com Ariel. E embora ela não ficasse aos quatro cantos aos abraços com ele, fazendo declarações de amizade a cada cinco segundos - cada cabeça, uma personalidade -, eles tinham história. Mas Julieta, por exemplo, não sabia desses detalhes, ou não prestou atenção quando alguém fez um rápido comentário, motivo de quase ter engastado com o bolo quando o amigo levantou o tom de voz para Ariel. Julieta se assustou por não perceber que havia um tipo de relação ali – um círculo dentro de outro círculo – que dava a Yoh um certo grau de ousadia para ter levantado a voz contra a amiga.

Talvez, por essa detalhe, foi que Ariel percebeu que o amigo, quando se movia, estava diferente. Embora ele se esforçasse para manter a compostura, podia intuir que algo havia acontecido. Algo muito errado. Havia um motivo técnico para ela saber disso, mas também outro, sentimental. Quem olhasse mais atentamente, teria a impressão de que ele estava prestes a se encostar na primeira parede que encontrasse e se encolheria em posição quase fetal.

Ela se aproximou e não trocaram uma palavra sequer. Pegou-o pelo braço e foi guiando-o. Evitou o corredor principal e caminhos movimentados. Não passou em frente à biblioteca, retornou quando viu algum professor dentre os que costumavam fazer questionamentos, evitou o caminho mais curto que a faria passar em frente à Grifinória... em alguns momentos, chegou a sair do prédio, seguindo uma rota que, se alguém fosse atento, diria que ela simplesmente evitou todas as pessoas que Yoh não queria encontrar. Isso sem perguntar qualquer coisa a ele.

Havia um boato na escola sobre isso, mas nunca, de fato, fora comprovado: o de que Ariel era capaz de esbarrar com quem ela quisesse, e evitar as pessoas da mesma forma. Surgiu muito rapidamente quando descobriram, em Hogwarts, que ela era a filha do prefeito de Hogsmeade, Sume, o qual, anteriormente, fez carreira no Ministério da Magia no setor de crimes e fraudes. Era uma de suas funções reconstituir os eventos, atingir a verdade dos acontecimentos.

É por isso que o atual prefeito de Hogsmeade é publicamente conhecido como um Legilimente. Isso e seu histórico no ministério da Magia, diminuíram as confusões, brigas e crimes no vilarejo a um nível assombroso. Obviamente isso não incluía os distúrbios causados pelos estudantes de Hogwarts. De alguma forma isso causou uma certa fama, ora positiva, ora negativa em Ariel, e havia boatos de que ela conseguia ler a mente das pessoas, evitar de antemão quem não queria encontrar.

Nunca foi oficialmente comprovado. Apesar de algumas acusações infundadas nos primeiros anos, nenhum aluno levou a cabo uma acusação formal, e nenhum professor teve motivo para duvidar. A única coisa que alguns suspeitavam veementemente era que, sendo filha de quem ela, deveria ter algum domínio de Oclumência.

Exatamente por isso, por ser uma sexta, dia no qual muitos estudantes estavam ocupados com atividades extracurriculares, treinando para os jogos de quadribol, planejando idas a Hogsmeade, foi que ela entrou no Salão Comunal da Corvinal quase vazio e, largando seu braço e passando a empurrá-lo, observou uma movimentação bem baixa no dormitório feminino, e o levou para lá, arrastou-o para o espaço onde ficava a sua cama e a de Miranda, e colocou-o em cima da sua. Sacou sua varinha e fez surgir uma cortina do alto de sua cama, cobrindo a visão de todos os ângulos. Outro movimento, e seu amigo estava isolado lá dentro. Ajeitou-o de modo que ficasse sentado na cama, com os pés para cima. Depois, subiu na mesma e ficou sentada ao lado dele, em silêncio. Ela continua realizando outros feitiços, evitando que algum inevitável barulho de vozes chamasse atenção indesejada.

Ao seu lado, Yoh permanecia em silêncio, como se divagasse sobre a vida. Ela, por sua vez, puxa um livro - empoeirado - de transfiguração que estava embaixo do travesseiro. Era um momento excelente para revisar o conteúdo das aulas, e seu amigo, aparentemente, iria demorar até se manifestar. Ele não estava estático ou congelado, mas ela percebeu que a única coisa que ele queria naquele momento, era ficar em silêncio, sem ninguém para perturbá-lo.


Nada daquilo parecia fazer sentido. Para nenhum dos três.

Primeiro, Gina, a qual teve uma atenção imediata da parte de Hermione. A mesma parecia confusa e, ao se erguer, disse que era muita informação para se acostumar, e simplesmente saiu dali, sem sequer recolher suas coisas que estavam no chão. Hermione a seguiu à distância, tentando entender suas palavras.

Depois, Yoh. Ele foi na direção contrária, enquanto Rony e Harry corriam atrás dele. E, para piorar, ele ignorava por completo o que Harry falava. Rony, tentando um meio termo, pediu que Harry aguardasse, pois sentia que eles tinham interrompido algo muito sério. Mais de um ano desde que ele vira aquele casal se formar, e eles se distanciaram sem sequer um cumprimento. Havia mais química entre Madame Norra e Goyle, do que a que percebeu ali, naquele momento. Teriam brigado?

Seja o que for, não tinha lógica, pelo menos, com base nos últimos acontecimentos. Pela sua leitura, eles estavam bem. Pelo menos, a julgar pelos presentes de natal.

Yoh simplesmente continuava andando, com os braços cruzados, ou melhor, abraçando-se. Parecia retraído, como se houvesse um vento gelado oculto em meio aquele sol que só o atingia. Rony havia estudado brevemente sobre isso, nas aulas de introdução à semiótica que tivera em Londres, e dedicou um tempo a prestar atenção no cunhado. Não era um especialista, mas a postura de Yoh era mais a de alguém que procurava segurança, pela forma como andava rapidamente e se abraçava. Mas, pelos últimos acontecimentos, sentia que ele não seria a pessoa a qual Yoh procuraria.

Até que ele parou de andar. Não conseguia enxergar seu rosto, mas viu quando abaixou a cabeça, como se tentasse descansar.

- Eu preciso ficar sozinho, Rony.

Rony sentiu que aquele assunto estava encerrado, pelo menos, por enquanto. O que quer que tivesse planejado, não iria conseguir nenhuma cooperação tão cedo. Infelizmente para ele, os papeis haviam se invertido, e era Harry quem estava bancando o impulsivo.

- Tudo bem, desculpe, eu... depois a gente conversa.

"se planta antipatia, colherá antipatia; se planta amizade, irá colher amizade".

De alguma forma, aquelas palavras vinham naquele momento à mente de Rony. Parecia uma memória totalmente aleatória e, ao mesmo tempo, acusatória.

- Kneen, você vai fingir que não me ouviu?

Ele não queria um novo confronto, simplesmente por que não tinha ânimo para isso. Na verdade, só o fizera porque queria um pouco de tranquilidade. Em situações como aquela, estava mais acostumado a reagir do que agir, como quando imobilizou os estudantes da Sonserina no Caldeirão Furado.

Primeiro, fez uma breve recapitulação dos problemas que tivera naquele ano. Gina um pouco distante, Gina presente, sua mãe virando professora, ele passando mais tempo na enfermaria do que imaginara, sua alergia... em nenhum deles o Potter aparecia, pelo menos, de cara. Na verdade, o problema não era Harry, mas Rony. Lentamente foi construindo algum grau de relação com o mesmo no decorrer do período letivo, e percebeu que a animosidade inicial do cunhado seguia um caminho inversamente proporcional em relação ao do Potter. Era relativamente fácil se dar bem com a Hermione - tinha que se desculpar pela sua rispidez, lembrava -, mas o Potter se tornou problemático.

Pensava que fosse uma questão de possessividade, como se o sentimento de irmão de Rony transitasse para Harry. Mas ficou claro, de diversas formas e em diversas situações - isso, claro, além da rádio-corredor - que Harry tinha sentimentos por Gina. O confronto no baile, em tom de brincadeira, deveria ter resolvido aquilo, pensava. Mas, gradativamente, percebeu que aquilo era mais pessoal. Ele até procurou evitá-lo, mas o sujeito tinha uma implicância inexplicável, de maneira que tentar não arrumar problemas com o cunhado tinha se tornado um desafio hercúleo. Isso, e mais um pouco seria acusado de causar a discórdia com os jogadores da Grifinória.

- Seus problemas não são meus problemas - ele se vira e olha para Harry.

- Você não faz ideia dos problemas que a Sarah tem!

Yoh deixou escapar um leve sorriso, morrendo de vontade de mandar Harry tomar em algum lugar.

- Ainda assim, não são MEUS problemas.

- Qual é o seu problema?

- Meu problema? Qual é o seu!? Não pode fingir que eu não existo? Que tal assim: quando eu te ver no corredor, dou meio volta, pego outro caminho, e ninguém precisa olhar para a cara um do outro.

- Eu já te disse, essa garota é..

- Já sei, prima da Luna Fletcher, já entendi.

- E irmã do Malfoy.

- Essa é a parte mais doida dessa história. Mas eu não tenho interesse em saber. Quer falar alguma coisa, Rony?

Rony encontrava-se ainda em uma sinuca de bico. Na cabeça dele, as coisas pareciam plausíveis.

- Ei, Rony! - Rony se distrai um instante em seus pensamento, e percebe que Yoh o chamara - O que VOCÊ quer que eu faça?

- Tipo... isso que o Harry disse.

- Ok, então você quer que eu vá até o Draco - ele enfatizou o nome - diga que tem uma garota na enfermaria que tem problemas de saúde. Preciso explicar que ela é uma irmã não assumida, convencê-lo a simpatizar por ela e aceitar fazer um transplante. Também preciso explicar que essa história veio das pessoas que ele mais antipatiza na escola. Mas talvez eu deva mentir nessa parte. É isso?

- Simplificando, sim.

- E como eu o convenceria de que ela é a irmã dele?

Rony pensou em uma explicação plausível, mas plausibilidade estava em falta naquele momento. O tempo que levou pensando em uma resposta foi o suficiente para deixar Harry impaciente.

- Você o convenceu a não brigar, não foi? Ele te escuta, pelo visto.

- Que história é essa, Harry? Quando isso aconteceu?

- Eu contei da conversa dos dois no corredor, na véspera do jogo que tivemos contra a Sonserina, lembra?

- Lembro...

- O Malfoy estava com as mãos no meu pescoço, e largou, do nada! Lembrando bem, o Kneen saiu e o Malfoy o seguiu como um cachorrinho!

- Maneira educada de colocar as coisas - Yoh parecia estar pensando em outra coisa, enquanto voltava à conversa -, mas, e eu nem vou tocar no fato de que você deixou muito bem claro que nós não somos amigos, o que me desobriga de acreditar em qualquer coisa que você diga... mas, eu poderia me chamar "Yoh Smith", mas isso ainda não me faria poder cobrar direitos autorais do Morrissey.

- O que você quer dizer?

- Essa Sarah é de Wilts, não é?

- Wilts?

- É com o pessoal de lá chama Wiltshire.

- Sim, como você sabe?

- Não sabia até você confirmar. Mas essa história é muito comum por lá.

- História?

- É, história. Aquilo lá é terra Malfoy desde a invasão dos normandos. Um monte de vilarejos bruxos e trouxas foram fundados pelos Malfoy.

- Vilarejos trouxas fundados... pelos Malfoy? - Rony teve um breve susto diante daquilo, era uma informação deveras paradoxal.

- Os Malfoy eram muito bem relacionados com os trouxas, até a fundação do Ministério da Magia. Esse lance de "pureza de sangue" é uma babaquice dessas gerações mais recentes. Você não estava fazendo um trabalho de pesquisa sobre os Malfoy? Devia saber disso.

- Para um trouxa - Harry ajeitava os óculos - você parece saber muito sobre os Malfoy. Não é à toa que o Draco te obedeceu naquele dia. Mas o que isso tem a ver?

- Muitos vilarejos trouxas ali esqueceram que foram fundados por bruxos, mas o sangue circulou livremente durante muito tempo. Muitas famílias antigas, de vilarejos bruxos e trouxas, tem algum sangue Malfoy na veia. E até mesmo nos vilarejos trouxas tem gente que fala que a sua criança é filha do lorde Malfoy. Para muitos vilarejos trouxas na região, os Malfoy são apenas uns nobres esnobes. Só porque o Ministério da Magia promoveu uma segregação, não quer dizer que o título nobiliárquico dos Malfoy deixou de ser conhecido pelos trouxas.

- O que? - Harry de repente se mostra aturdido pelo o que ele dissera - espera um pouco, você... essa história não faz sentido! Como você sabe dessa história?

- A minha mãe é de lá - ele respondia brevemente, de maneira que um breve silêncio se instaurou. Rony tentava buscar algo mas, diante dos argumentos do cunhado, a situação se mostrava mais absurda ainda.

- Yoh - Rony tentava - recebemos uma dica de madame Pomfrey para procurar o professor Lupin.

- E como foi essa "dica"? Ela disse o que, que o professor sabia de algo?

- Não, Yoh. Ela não disse, mas... sugeriu.

- Sugeriu, Rony? E essa "sugestão", como foi a resposta? O professor Lupin disse algo, quer dizer, ele confirmou alguma coisa? Ou ele só contou uma história?

- Você está distorcendo um pouco as coisas.

- Está bem, então me diz o que ele realmente disse.

- Olha... ele disse que... bem... na verdade ele disse que - Rony mordia os próprios lábios, percebendo o problema ali - escutou histórias, mas não é isso, veja bem, nós...

- Então ele mesmo não disse, não é?

- Kneen, ele não teria motivo para mentir, ouviu!

- E o que vocês fizeram? Foram até ele, falaram um monte de coisas, exigiram?

- Não foi bem assim que aconteceu - Harry tentava uma resposta mais concisa - nós fomos até o professor Lupin, e ele nos respondeu.

- Você não é a melhor pessoa para perguntar algo a ele. A relação de vocês faz com que ele não o trate como um aluno normal.

- Como sabe da relação deles? - Rony parecia ter percebido algo.

- Hmm? E todo mundo não sabe que o professor Lupin privilegia o Potter?

- Onde você escutou isso?

- Por ai.

- Não, não escutou - Rony sentia um estalo - não é todo mundo que sabe da relação entre ambos.

- Devia prestar mais atenção pelos corredores. Todo mundo sabe das habilidades do Harry. Mas eu já sabia da relação que o professor Lupin tinha com o seu pai. A minha mãe me contou.

- Não sabia que a professora Kneen foi amiga do pai do Harry - Rony tentava organizar aquelas informações em um fio narrativo, como se tentasse lembrar de algo que Gina dissera há pouco.

- Ela não era. Mas vocês vão acabar descobrindo isso de um jeito ou de outro. O ponto é que essa história de "filho da nobreza", ou filha, é antiga.

- Pois - Harry tentava encontrar um furo naquela lógica, mas cada vez se tornava mais difícil - eu tenho certeza de que ela não mentiu!

- Mas você não sabe, não é? Olha... tem muitas famílias bruxas antigas naquela região, pode até ser que ela tenha algum parentesco com o Draco, como uma prima de vigésimo terceiro grau, quem sabe. Mas ele não vai ser a primeira garota cuja mãe apareceu grávida e contou para todos que tinha sido uma serva dos Malfoy e carregava uma criança proibida - Rony se assustava mais com a frieza dele, do que com o que ele dizia - você acha o que, que ela é a primeira que vem com essa história? Acha que vai ser a primeira moça a dizer que é uma filha bastarda de um nobre e por isso tem direito ao trono? Ela não precisa ter mentido para você. Basta ela acreditar que essa história é verdadeira, porque a mãe contou assim, e de repente todo mundo começou a espalhar isso como boato – ele dobra um pouco o pescoço – como o seu professor.

- Como... como um cara que namora a Gina pode ser tão cético e cruel? Como é que você fala assim de uma pessoa? Tem uma pessoa morrendo, e você me vem com essas histórias? Ano passado a gente brigou com uma harpia, e eu te vi se arriscando todo para ajudar a Gina. O que houve com essa preocupação? Ou é só com a Gina? Quando aquele basilisco enorme petrificou os alunos da escola, eu não estava pensado só nos meus amigos, mas em todos os alunos!

- Bom para você. Mas eu não tenho nada a ver com isso. E mesmo que tivesse... isso não é problema meu.


No salão da torre da Grifinória, Harry estava sentado em uma das poltronas. Mais exatamente, uma que permitia uma visão da lareira. Um observador mais atento apontaria a direção para a qual Harry olhava: acima da lareira, onde havia algumas coisas que os estudantes deixavam: livros, peças de roupas... e uma rosa.

Seria a rosa de Sarah? Talvez. Depois que ele a amassara, a consertou e ela tinha que fazer um trabalho para entregar à professora McGonagall. Erguendo-se, pega a mesma e torna a se sentar, encarando-a. Não conseguia parar de pensar na ironia da situação, de como o mundo dava voltas de maneira tão cruel. Mas a jovem ocupava seus pensamentos de uma maneira diferente de tudo o que acontecera no resto do ano. Lembrar da rispidez das palavras do Kneen não pareciam abalar aquilo.

"Só quero saber o que você tem contra mim"

Na mesma sala em que Harry estava sentado, Rony parava, olhando para o teto. Ele mensurava direto o que acabara de acontecer. Como um flashback, estava lembrando da conversa que ele e Harry acabaram de ter com Yoh, mas recapitulando tudo aquilo por um ângulo diferente.

Rony, paulatinamente, descobria uma percepção que desconhecia. Segundo Hermione, à medida que ele passara a se preocupar com o que realmente era importante, passou a ser muito mais atencioso para certas questões. Mais: a namorada constatou que ele tinha uma capacidade eidética invejável e, ainda, sob tensão, era capaz de fazer conexões curiosas e mirabolantes entre assuntos com os quais já tivera contato. Ela se deu conta disso bem depois, ao ponderar sobre a conversa que tiveram naquela madrugada na qual Rony consolava a irmã. De maneira que, em retrospecto, a deixou pasma, ele fora capaz lembrar, analisar, contextualizar e validar o evento em si - o ataque alérgico que acometeu Yoh - a uma série impressionante de saberes envolvendo a aula de feitiços.

Não era uma surpresa, quando Hermione parou para pensar. A vivência no mundo bruxo eram uma das maiores contribuições de Rony ao grupo. Aquela capacidade de inserção, de internalizar os elementos culturais do meio que o cercava, e explicar o mundo com base nesses, repetia-se silenciosamente durante todos esses anos desde que ele entrara em Hogwarts.

Ele havia dito que aprendera um pouco de primeiros-socorros com o pai, mas isso tinha sido algo tão aleatório, e o mesmo só lembrou disso quando Yoh colapsou. De alguma maneira, fora internalizando tudo o que aprendera, mas quando confrontou sua falta de confiança com suas próprias falhas, algum tipo de chave "virou", e passou a ficar ativa.

Era como se, enquanto todos dançavam, Rony tivesse desenvolvido a rara habilidade de prestar atenção na letra da música.

Era por isso que ele se perguntava se tomara a melhor das decisões. Trouxe Harry para a torre da Grifinória, e ambos estavam ali, calados. O que o incomodava não era a plausibilidade do que Yoh dissera, ou como ele dissera. Mas se ele, Rony, agiu corretamente.

Yoh deu excessivos sinais de que não estava bem. O que quer que tenha acontecido entre eles chegarem e a interrupção da conversa do casal, o deixara abalado.

E... ele não fizera nada.

Aquelas palavras ditas em Hogsmeade, há um ano atrás, ecoavam. O que ele tinha contra o Kneen? A resposta não veio, obviamente. Tinha superado muito disso depois daquele incidente e de ver o desespero da irmã, mas...

Ele revirava suas memórias, e recapitulava os seus encontros com Yoh, começando por aquele café da manhã no salão principal. Gina era a constância, mas havia um elemento que passava a fazer mais sentido à medida em que pensava naquilo.

Ele, é claro. Yoh, ele... também estava perto de Rony, em vários momentos. Mais do que com Fred e Jorge. E a julgar por algumas brincadeiras que ele fizera, alguém poderia espalhar por ai que Yoh estava era interessado nele, não em Gina. Isso porque Yoh, de maneira insistente, chata e, muitas vezes, forçada e irritante, queria estar em paz com Rony. Ele queria a sua amizade. Obviamente, por causa de Gina. Mas, ainda assim, era uma atitude muito clara e sincera.

Embora se dessem bem, ele sempre o tratou mais como o namorado de sua irmã, do que um amigo. E isso o incomodava, já que, com exceção daquela relação mal explicada com alguns alunos da Sonserina, Yoh tinha todo um círculo de amigos que eram decentes. Ele até frequentava a casa do prefeito de Hogsmeade, e a mãe dele era professora na escola. Frequentou sua casa, levou sua irmã para passear.

Uma vez, Hermione falara isso: muita coisa que acontecera, Yoh não fizera nada porque não queria criar um clima ruim com o melhor amigo do seu cunhado. Exatamente essas palavras. Eram coisas que ele falava mais para Hermione, como se não quisesse criar um confronto. Ele entendia a sensibilidade dela.

Acabou dando uma bronca em Harry, mas talvez isso tenha vindo muito tarde. A verdade é que hierarquizou suas relações sociais - coisa que todos fazem -, e demorou para tomar uma decisão mais dura.

Naquele momento aquilo pesou novamente. Ele tinha uma situação que, pensando com muita atenção, era hipotética: Sarah. E outra que, ao seu ver, era real: Yoh.

Ele não sabia dizer o que era, mas Yoh estava abalado. A escolha de palavras, a linguagem corporal, a volta em 360% que dera ao responder Harry... tinha a leve impressão de que trocara uma situação concreta, por uma possibilidade. Talvez, até, um delírio de Harry.

Por que ele nunca pensou no Yoh como um amigo? Por que, para ele, o máximo que pensara nele era como "o cara que fazia sua irmã feliz"?

Por que?

Por que?

Por que?

"se planta antipatia, colherá antipatia; se planta amizade, irá colher amizade", lembrava novamente do que o corvinal, uma vez, dissera.

Ele, então, se levanta, indo em direção à saída da torre da Grifinória. Tinha algo para fazer.


"Olá Pansy, bom dia.

Tudo bem? Obrigado por perguntar, aqui as coisas estão seguindo, mas eu não sei dizer muito bem o que isso significa, pois a cada dia aqui lembra mais Hogwarts, o que me deixa com saudades. Tem professores legais e professores chatos, estudantes legais e chatos. Mas isso é algo que eu percebo, não tem muita gente que se aproxima de mim o suficiente, acho que é porque sou o "cara de fora", ou por causa do meu tamanho, ou do meu jeito. Ou tudo isso.

Você tem razão, e acho que mais alguns já devem ter percebido, considerando onde a minha coruja costuma deixar cartas, mas eu tenho me correspondido com o Yoh Kneen, aquele estudante que você falou e que é apanhador da Corvinal. Por isso, gostei muito de ter recebido aquela carta do Goyle. E a sua, também.

E você, como está? Parabéns pelo cargo, embora eu não entenda direito o que seja, mas fico feliz!

Crabbe"

Já era de noite quando a coruja de Crabbe, em uma velocidade faraônica, entrou no salão principal, no qual vários alunos jantavam. Ela voa até a mesa da Sonserina e pousa, chamando a atenção de Thor. Por um segundo a ave olha para o seu redor, como se procurasse alguém, até que alça voo.

Pansy, então, entra no salão. O jogo com as meninas a cansara, e decidira descansar mais cedo, já que, no dia seguinte, no Sábado, haveria um seminário sobre questões de saúde na escola, e ela não poderia perder. A coruja de Crabbe passa voando por cima dela, dá meia volta e a segue. A adolescente olha para a mesa da Corvinal e vê apenas Carlos e James. Acena para ambos, mas opta por se sentar na mesa de sua casa. Não tinha uma proximidade tão grande assim como os rapazes do time de quadribol (melhor dizendo, não tinha). A coruja, como em um alarme falso, pousou na mesa da Corvinal e, ao perceber que Pansy passou direto, alçou voo novamente e, no momento em que ela se sentara na mesa de sua casa, pousou.

- O Crabbe te mandou uma carta - Goyle deduz brilhantemente, considerando o trajeto de voo da coruja.

- Hmmm - ela estava distraída, ainda pensando na loucura que fizera na parte da tarde, correndo pelos corredores, subindo nos parapeitos, enquanto jogava com as meninas. Era uma sensação incrivelmente divertida, o que, por reflexo, a fez olhar para trás, procurando encontra-las. Não se ligara que a coruja que enviara no dia anterior devia ter chegado na parte da manhã e já retornara. Teve uma divertida surpresa, pois Crabbe nunca foi de falar muito, ou melhor, de se expor tanto assim. Mas gostou de saber que ele gostara da carta.

Assim, como se ignorasse todos aos redor - inclusive Draco, o qual estava sentado praticamente ao seu lado, esbravejando algo sobre os testes de NIEM´s e os jogos de quadribol terem ficados bagunçados naquele ano - ela começou a escrever.


- Você está melhor?

Enquanto abria os olhos, percebe a voz de Ariel, chamando-o. Não ignorava onde passara a noite, mas não deixava de ser uma situação igualmente complexa, o que significava "suspeita".

- Melhor. Obrigado.

Ele fez uma breve anotação mental para o fato de que ambos passaram a noite na mesma cama, e que ele usava as mesmas roupas do dia anterior, as quais estavam amassadas. Sentia como se um urso o tivesse abraçado a noite inteira, enquanto um anjo cantava em seus ouvidos.

- Você chorou de madrugada enquanto dormia. Rika ficou te abraçando, enquanto Miranda cantava.

Ele ficou muito, mas muito envergonhado, mas de uma forma diferente. Acabara de dividir uma cama com três mulheres, uma delas, a "dotada" Rika, o abraçando a noite inteira. Saíra no final da tarde do encontro com Gina, quando ainda havia luz do Sol, e fora encontrado por Ariel, andando cabisbaixo pelos corredores. O resto, perdera a total noção do tempo.

- Isso não pode sair daqui! - Falava, em tom de preocupação.

- Criei uma barreira em torno da cama, você já deve ter percebido. Ninguém nos escuta fora desses panos brancos que a cobrem, nem veem direito o que está acontecendo aqui dentro.

- Como é que um feitiço tão cômodo existe? O professor Flitwick...

- Não está nos livros da escola - ela falava enquanto parecia tentar olhar para fora - aprendi com uma aluna que já se formou... que aprendeu com outra... e que aprendeu com outra e... bom, você já entendeu. – Yoh estava brevemente surpreso por perceber que havia uma verdadeira "fraternidade feminina" dentro da Corvinal, o que aparentemente envolvia algum tipo de troca de informações e segredos, fazendo-o olhar de maneira desconfiada para Ariel. - mas meninos ainda são terminantemente proibidos aqui, isso eu posso te garantir.

- Não falei nada... - e coçava o queixo, com um olhar desconfiado.

- É melhor você parar enquanto estou de bom humor. Sonho ruim?

- Sim - ele respondia enquanto olhava para baixo - meu bicho-papão.

- Pensei que já tinha superado isso, depois daquela vez que você faltou à aula.

- Eu também.

- O que quer fazer?

- Eu não sei. E o pessoal?

- Só tem nós dois aqui. Miranda e Rika deram uma desculpa e estão lá embaixo para dar cobertura. O resto foi tomar café.

- E os outros?

- Só a gente sabe. Miranda é muito dengosa com você, ficou falando que você anda tendo um ano com muitas emoções, então ninguém mais sabe que você dormiu aqui... ou o que aconteceu ontem.

- O que... aconteceu ontem?

- Sim, ontem. Não percebeu? Quer dizer, você com certeza percebeu.

- Eu não me lembro direito, é como se dormir tivesse me dado um banho e liberado os pensamentos ruins.

- É sério? - ela falava em um tom de total descrédito - sério? Você realmente não percebeu o que aconteceu?!

- Eu lembro de tudo o que aconteceu, mas parece ter acontecido algo estranho, e eu me sentia diferente, tipo... como se qualquer um que chegasse pudesse me virar de um lado a outro - e lembrava que tinha que se desculpar com Hermione. Sentia que fora um pouco ríspido com ela.

- Por Viviane, você é uma vergonha! - e era claro o tom de irritação na voz dela - não acredito que não percebeu que perdeu sua Oclumência!


"Oi, Crabbe.

Obrigada por responder.

Obrigada também, eu estou muito feliz.

Aqui, somos Agentes Estudantis de Saúde. Ainda estou descobrindo direito o que devemos fazer, já que parece que sempre tem algo. Mas cuidamos da saúde dos estudantes. Eu sei, isso é função de Madame Pomfrey, mas ela percebeu que muitas doenças podem ser evitadas se tivermos mais cuidado. Sabia que descobrimos que os estudantes tem animais sem registros, alguns que transmitem doenças graves? Numa das visitas às casas, descobrimos um estudante que entrou com um rato, e criava uma família!

Ah, é! Tem uma garota da Lufa-Lufa na equipe chamada Luna Fletcher; um Corvinal chamado Chaz Jordan e, você não vai acreditar, o Ronald Weasley, lembra dele?

Aprendemos coisas legais. Aprendi a fazer poção cola ossos. Passamos a dar suporte nos jogos de quadribol ao alunos machucados.

E você, como está?

Esse seu amigo, o Kneen, é muito estranho. Você acredita que ele impediu que o Draco fosse suspenso do jogo de Quadribol? Ah é, não sei se você sabe, a mãe dele – do Kneen – é a nossa nova professora de História da Magia. É uma matéria legal, pois ela fala direto sobre as famílias bruxas.

- Esse ano... esse ano está diferente dos outros. Algumas coisas aconteceram durante e depois do baile de inverno, sabe.

Mas chega de falar só de mim, que bom que você está se enturmando! Não deixa eles te humilharem, viu!

Pansy"

Crabbe termina de ler a carta enquanto tomava seu café da manhã. Leu-a de uma vez só, sem dar muita atenção. Depois a leu novamente. E novamente. E mais uma vez.

- E ai? – Isabelle o interrompia, como se tivesse se teleportado para o seu lado.

- Santo Cálice! Não faça isso! Quer me matar do coração?

- O que ela respondeu?

- Aqui, ó! – E apontava – ela explicou esse negócio de agentes de saúde.

- E...?

- E é isso, ela devia querer contar para alguém, ok.

- Não vai respondê-la?

- Responder o que?

- A carta!

- Eu não tenho mais assunto! Minha coruja está exausta, viajou a noite inteira!

- Pode usar a minha!

- Eu acho que você está MUUUUUUUUUITO interessada nisso, aliás, você está muito interessada na MINHA VIDA, Isabelle!

- Não tem problema, Crabbe! Boa sorte em fazer amigos por aqui... ah, é! Eu esqueci que aqui você é só MAIS UM brutamontes, diferente de Hogwarts, com aquele monte de estudantes franzinhos!

- Afff! Qualé, é só uma carta, ela disse que gostou de saber que eu estou bem, falou do baile, e só! Vou falar o que, "parabéns" novamente pelo cargo? "Obrigado pelo apoio"?

- Crabbe, como você é um idiota! Essa garota QUER te contar algo, mas está sem jeito! Por qual outro motivo ela teria escrito tão rápido? Você mandou ontem de manhã, e hoje cedo já tem uma reposta?

- Ah, sei lá, vai ver o Draco brigou com ela e ela está carente!

- Começo a entender o porquê de só aquele seu amigo de escrita chique te escrever com frequência.

- Mas eu vou escrever o que? Eu nem sei o que ela quer direito! E vai ver ela não quer nada, só teve vontade de escrever uma carta!

- Então pergunta, ué.

- O quê?

- Ué, se você quer saber... pergunta!

- Assim?

- Assim, simples.

- Eu estou começando a achar que é você que não tem amigos e me escolheu para crucificar, só pode!

- Olha isso aqui – ela aponta para a carta – "esse ano está diferente dos outros. Algumas coisas aconteceram durante e depois do baile de inverno, sabe". É isso que ela quer. Não sei o que, mas é o que ela quer!

- Que tem isso?

- Ela disse que o ano foi diferente, seu desatento!

- E daí?

- Quer saber, Crabbe? Você é um caso perdido – e se levantava, saindo bufando e pisando forte no chão.

Todavia, aquilo o deixou com uma pulga atrás da orelha.


- Esse final de semana vai ser longo.

Sentado em um banco do lado de fora da escola, Yoh olhava para sua mão direita. O ato tornou-se algo mecanizado, como um reflexo, depois que ele capotou na escola, há meses. Era como se tentasse entender se algo estava bem, mas não estava. Um vício seria a explicação mais adequada. Era como se olhar para a mão direita fosse uma forma se averiguar se aquilo era sonho ou realidade, se estava bem, ou se iria descer ladeira abaixo.

- Mas como isso aconteceu?

Já era a vigésima vez que Ariel perguntava - estava contando - algo que ele não sabia direito. Quando Hermione o interpelou no campo, sentia-se estranhamente exposto, mas não sabia o que era. Por um momento sentia-se como se fosse incapaz de realizar qualquer tipo de magia, mas era outra coisa. Mas tinha um palpite.

- Acho que Gina fez alguma coisa... ou talvez porque eu tentei "hackear" o Fidelius.

- VOCÊ O QUÊ?

- Hackear, sabe. No mundo trouxa...

- Eu sei o que é hackear, seu idiota - parecia que toda a irritação a qual ela não demonstrara nos últimos meses, estava sendo despejada nele - Mas que história é essa de hackear o Fidelius? O feitiço?

- O próprio - e abaixava a cabeça, como se tentasse respirar.

- Não dá para hackear um feitiço, seu energúmeno!

- Vai ficar me xingando o dia todo? Eu pensei que a gente era amigo!

- Por isso mesmo, seu demente!

- Céus, você é pior do que o Draco quando está mal-humorada! Como o Fred te aguenta?

- Ela não me deixa irritada como você!

- Aff! Dá para parar? Eu só quero descansar um pouco - ele pegava um pedaço de pão e mordia - e sossegado!

- Tem sorte que a Miranda se deu ao trabalho de te trazer comida!

Miranda era a "mãe" do grupo. Quem a olhava, imaginava apenas uma aluna do sexto ano. A artilheira da Corvinal. A namorada do capitão do time. Sequer imaginavam como os instintos da mesma eram afiados, o que refletia na forma como interagia com seus amigos. Quem via Yoh tentando se dar bem com alunos de outras casa, não prestavam muita atenção na forma como Miranda era uma espécie de "miss simpatia" da Corvinal, e como sempre tinha uma palavra de afeto para ajudar.

- Olha... tanto faz. Depois de amanhã, vai tudo por água abaixo. Vou estar ferrado de qualquer maneira.

- Segunda-feira? O que tem?

- Minha mãe. O que eu tentei fazer... ela vem com a corda toda, depois de amanhã.

- Esquece a sua mãe, você precisa falar com o meu pai. Isso é mais importante.

- Não tem como. A maioria das carruagens já foram para Hogsmeade, ou estão reservadas - ele jogava a cabeça para trás. Estava cansado, mas não fisicamente. Era mais um esgotamento mental. Se o que Ariel dissera era verdade, um Legilimente poderia facilmente atacá-lo. Não que houvessem muitos em Hogwarts. Mas o suficiente para atiçar a curiosidade de Snape. O professor de Poções era um reconhecido Legilimente muito competente, e ele realmente tentara ler seus pensamentos uma vez, durante o jogo de Quadribol contra a Sonserina. Devia estar tentando descobrir se Yoh trapaceou. A mente de Yoh só não fora virada de cabeça para baixo, porque Snape se surpreendeu ao ver que o estudante era versado em oclumência, por sinal, um segredo cujo número de pessoas que sabiam ele podia contar nos dedos. Tivesse Snape não ficado surpreso, e Yoh teria sido subjugado como um filhote de pombo. Suspeitava que o professor planejava tentar novamente, mas depois que sua mãe o visitara após o jogo, não houve nova tentativa.

Provavelmente, a presença de Jane em Hogwarts intimidou qualquer tentativa.

Ele se perguntava o que Snape sabia. Que sabia de algo, bem como alguns professores, isso era fato. Mas não significava que eles entendiam o que sabiam. Para eles, Jane era um rosto conhecido, mas não sabiam de onde. As afirmações de que era uma ex-estudante de Hogwarts no mesmo período escolar que eles não era mentira: era fato aceito, mas não muito bem explicado. Era como se a conhecessem, como um Deja Vú, mas não soubessem o motivo.

O sentimento de libertação do dia anterior se esvaíra. Incrivelmente conseguira colocar para fora o que o incomodava, mas isso durou instantes. Ainda era amarga a sensação de que Gina o repudiara, ou, pelo menos, aquilo que representava.

A lembrança da cena era incômoda, quase dolorosa. Ele abaixa a cabeça, tentando não encarar os fatos: sentia-se abandonado. Na verdade, sua oclumência esvaída era a menor de suas preocupações, pois, a partir daquilo, passara a ser tomado por um sentimento de que, mesmo que todos os seus amigos estivessem ao seu lado, ainda assim estaria sozinho. Se a pessoa que ele mais confiou lhe virou as costas, em quem confiar? Onde buscar esperança?

- Você está bem? - aquela voz o desperta de suas ponderações. Ele ergue os olhos, mas torna a abaixar a cabeça.

- Agora não, Rony. Desculpe, estou tentando processar algumas coisas aqui.

- Eu não o vi no salão principal, e o vi aqui quando passava lá em cima.

- Estava me procurando, é?

- Desde ontem.

- Muito bonito isso - Ariel interrompia a conversa - mas o que você quer com ele?

- Eu só vim ver se ele estava bem - ele estranhava levemente o tom ríspido da artilheira da Corvinal.

- Sim, é claro. Podia ter perguntado isso meses atrás, não é? "Yoh, o Harry está pegando no seu pé, você está bem com isso"? Ou, quem sabe, "Yoh, o Harry está a fim da minha irmã e quer que você suma, você se incomoda"? E até "Meu amigo Harry tem sentimentos, se incomoda se eu deixar ele ferir os seus para que ele não se machuque, Yoh"?

- Espera um pouco, as coisas não aconteceram assim, e aliás, como é que você sabe dessas coisas?

- TODO MUNDO SABE, RONALD WEASLEY! - Rony dava um passo para trás, realmente assustado - Ou você acha que as pessoas são cegas? Mas você - ela aponta o dedo na cara de Rony - devia ter vergonha!

- O que você queria que eu fizesse? - ele tenta delimitar suas palavras, percebendo que entraria em contradição - Eu não tenho culpa, ok!

- Claro que tem - Ariel toca com as duas mãos no peito de Rony, empurrando-o de leve - tem muita culpa, você é o cara que o Potter mais escuta, mas você fez alguma coisa? - ela o empurra novamente - Tomou alguma providência? - e o empurra mais uma vez - fez algo?

- Eu falei com ele, fui duro - Rony estava com dificuldade para entender o que acontecia ali, pois Ariel estava visivelmente irritada. Na verdade, tomadas as devidas proporções, era uma reação similar à que ele tivera quando Draco chamou Hermione de sangue-ruim, anos atrás.

- E quando você fez isso?

Ele engoliu em seco.

- Eu sei que eu devia ter feito algo mais cedo... mas o Yoh também não ajudou. Ele não fazia nada, não reagia, era como se não se incomodasse. Você sabe que ele não é de ficar reclamando das coisas e...

- E essa é toda a justificativa? Devemos pisar nas pessoas que simplesmente querem ficar na sua, é isso?

Novamente ele engoliu em seco. Não era como se Rony e Hermione não tivessem sido avisados. E, em situações pontuais, pelo próprio Yoh. De fato, seu cunhado poderia ter confrontado Harry diretamente - e, pensando bem, aquele leilão durante o baile teve todo um teor de confronto -, mas ele não o fez por causa de Rony. Lembrava-se amargamente das palavras de Yoh: "Eu quero a sua amizade, Rony... não só por causa da sua irmã... tudo o que você faz, isso é o seu jeito, o que o torna único".

- Ok, você tem razão... mas é hipocrisia da sua parte chegar apontando dedos. E você, fez o que? E todos vocês?

- Nós? Nós estávamos dando suporte para ele. Dando apoio quando ele ficou internado, levando o material escolar, copiando a matéria para ele, dando apoio nas vezes em percebíamos que ele estava chateado... por que o nosso amigo não fez mal a ninguém, não é? Ele só estava tentando sobreviver nesse ano dos infernos. Mas para você, pelo visto, "cunhado" é só um termo, não é mesmo? Conhece um cara há mais de um ano, ele visita a sua casa, sai com sua irmã, é apresentado aos seus pais... e você faz o que? Você é realmente uma vergonha, Ronald Weasley. - Ele não se apercebeu que ela usou o nome completo dele, novamente - E pensar que alguém como você tem na escola um cargo baseado no da minha mãe. Eu tenho noj...

- Para com isso. - Yoh, sentado no banco e de cabeça abaixada, a interrompia. - Não fale assim com ele.

- Não o defenda, Yoh. Você não tem vergonha nessa cara?

- Acho que não - Yoh levantava o rosto, e olhava para os dois - mas você não pode tratar as pessoas assim, Ariel.

- Talvez ela esteja certa, Yoh - havia um tom arrastado na voz de Rony - Você tem motivo de sobra para ficar irritado comigo.

- Eu não tenho ânimo para me irritar com ninguém, Rony. O Harry, ele... deixa pra lá.

- Então - ele caminha na direção de Yoh, percebendo que Ariel o empurrara para mais longe do que tinha se dado conta - deixa eu te ajudar. Eu não sei que problema é esse, e também não vou perguntar.

- Então, quer me ajudar por que?

- Por que - ele estica a mão para Yoh - você é meu amigo.


No fim, a presença de Rony realmente ajudou. Ele dera uma "carteirada", e conseguiu utilizar uma das carruagens reservadas à enfermaria. Mesmo com seu passe vip, Ariel nunca conseguiria fazer isso. Nem Hermione, utilizando seu passe de chefe dos monitores. Foi mostrar seu comprovante da equipe auxiliar de medi-bruxos, e explicar que precisava visitar a medi-bruxa de Hogsmeade, que os três conseguiram uma carruagem sem maiores problemas.

Tivesse ele demorado mais 2 minutos, e Gina os teria alcançado, mas ela falhara na tentativa de correr até a carruagem.

- Hihihi.

- Para com isso.

- Hihihi.

- É bom ver que está melhorando, senhor Kneen - Ariel realmente estava ácida naquele dia. O pai dela, Sume, contara uma vez que herdara aquele lado de sua mãe. Era uma pessoa extremamente amável, dócil... mas quando estava no limite da sua irritação, era mais intragável do que Chaz. Tinha um pavio tão longo quanto o de Yoh, só que o dela terminava em dinamite. E aquele fusível acendeu logo cedo. Já estava até vendo como seria o resto do dia.

- Ah, para. Você vai ter que fazer as pazes com ele, em algum momento.

- Hmmm? - Rony se toca que era o centro da discussão.

- Eu prefiro não olhar para a cara dele!

- Teimosa... já esqueceu que ele é irmão do seu namorado?

- Como esquecer? Assim que chegarmos em Hogsmeade, descemos, deixo você na minha casa e vou até a loja de Fred para ele cobrir esse dai de p*rr**a!

- O que? Espera um pouco, desde quando você é namorada do Fred?

- Quem você acha que mandava aquelas cartas para ele durante as férias?

- Olha... - e ele, como em um flashback, lembrava como seu irmão passava mais tempo escrevendo cartas, do que armando suas traquinagens com Jorge - espera, é muita coisa para eu processar! Não sei o que é mais confuso, você namorar o meu irmão, ou querer me arrebentar todo e ainda ser filha da medi-bruxa de Hogsmeade!

- Posso ser tudo o que você quiser, "cunhadinho". Posso até ser a "mamãe", com uma grande sandália de couro, duvida?

- Yoh, essa doida realmente namora o meu irmão?

- Reunião de família- e forçava um riso.

- Esquece o que eu perguntei, como é que alguém como VOCÊ namora um cara como o Fred?!

- Diferente de você, Dona Molly me ama, Ronald. Trocamos correspondência toda semana!

- Como é? É por isso que as cartas dela demoraram de um tempo para cá?

- O que eu posso dizer? Ela adora o fato de ter uma nora séria para colocar o filho brincalhão na linha – e falava piscando rapidamente, com um sorriso debochado – de vez em quando almoçamos aqui em Hogsmeade, ela é um amor e...

- Ohohoho, espera um pouco... almoço? Como assim, "de vez em quando", e eu não fico sabendo?

- Ai, Ronald... sua mãe gosta de noras que "fecham" com ela, sabia? Conta isso para a Hermione, vai fazer ela ganhar muitos pontos dessa maneira.

- Definitivamente eu não gosto de você.


- Não, Yoh. Claro que você não perdeu a sua oclumência.

Rony estava um pouco confuso, pois o ajudou a chegar a Hogsmeade mais pelo calor da emoção, não sabendo direito o que aconteceria ali. Em seguida, descobriu que a namorada - recém-descoberta - do seu irmão tinha um gênio pior do que uma dor de barriga. Mais 5 minutos dentro da carruagem, e teriam se matado. Só não chegaram às vias de fato, por que ele escutou sem responder de maneira adequada algumas cruzadas dela, e só o fez porque ouvira um boato de que ela tinha a capacidade de virar a mente das pessoas de cabeça para baixo. Alguns até juravam que ela uma vez fez um aluno acreditar que era um cachorro e fazer cocô sentado, sem tirar as roupas. Claro que era um boato, mas não se sentia corajoso o suficiente para descobrir se aquilo era verdade. O comentário do prefeito de Hogsmeade, por fim, foi a cereja do bolo. Entraram na casa, conversaram rapidamente e, sem nenhuma cerimônia, fez a revelação.

- Como assim, você tem oclumência?

- Tendo, ué.

- Mas você... é apenas um estudante do quinto ano!

- Comecei cedo.

- Isso é impossível! Demora anos, é uma habilidade antiga e complicada! Foi o senhor Sume que te ensinou, que nem essa daí?

- Está querendo insinuar o que, Weasley? - Ariel o fuzilava com os olhos.

- Que não é comum ensinarem isso para crianças. É por isso que não ensinam Legilimência - e tornava a olhar para Ariel -, vai dizer que você também é? - E olhava com um misto de surpresa para Yoh.

- Não - Rony o olhava, desconfiado - sério, não sei fazer isso.

- Como você pode ser um oclumente, e não ter um grau mínimo de Legilimência?

- É possível, se você treiná-lo de forma direcionada - Sume interrompia Rony. Era interessante acompanhar o raciocínio do filho de Arthur, mas o mesmo carecia de um ajuste -. Oclumência não é apenas uma defesa mágica bruta, há toda uma sutileza.

- Não fique surpreso. Isso já foi matéria nos currículos de Hogwarts. – completava Ariel.

- É? Em que milênio?

- Neste - Sume completava com uma calma que, naquele momento, faltava à Ariel - Por ser uma disciplina complexa, não era fácil de aprender.

- Eu nunca ouvi falar de uma aula de oclumência em Hogwarts, senhor Sume.

- Era ensinada na aula de Defesa contra as Artes das Trevas.

- O que? Até hoje nenhum dos professores que eu tive ensinaram isso!

- Invocar um Patrono também não é matéria escolar, mas eu escutei por amigos do Ministério da Magia que o seu amigo, o Potter, sabe fazer um, e corpóreo.

Rony acompanhava aquela observação. De repente, percebeu o quão levianamente ele, Harry e Hermione conversavam com os professores, como se fossem "colegas", ao invés de autoridades escolares. Aquele homem, segundo o pouco que conhecia, tinha ocupado um cargo importante no Ministério, e agora era o prefeito de um importante vilarejo bruxo, ou melhor, devido à proximidade com Hogwarts, o mais importante. A observação dele fora impecável.

- Legilimência é considerada uma Arte das Trevas?

- É uma percepção, se é isso que quer saber. Alguns conhecimentos mágicos são considerados Artes das Trevas devido à sua aplicação, mas não necessariamente tem isso na origem. Alguém difere uma azaração por ser ou não ser usada por um mago das trevas? As pessoas tem uma percepção muito dicotômica da magia, mas a mãe dele - e apontava para Yoh - saberia te explicar melhor.

- Mas se Oclumência era ensinada, então também havia aula de Legilimência?

- Raramente, mas sim. De vez em quando algum professor organizava um grupo de estudos, tinha seus alunos preferidos... mas na minha aula de NIEM´s de DCAT, eu, Jane e o seu professor de Poções fomos introduzidos nas artes da Legilimência e Oclumência.

Rony se lembrou de que, mais de uma vez, Harry comentara que tinha a impressão de que Snape estava tentando ler seus pensamentos. Então, aquilo tinha um pingo de verdade****.


Nota do autor: conforme explicado no capítulo anterior, essa fanfic parte do final de "Harry Potter e o Cálice de Fogo", ou seja, alguns acontecimentos que ocorreram nos livros posteriores, não tiveram o mesmo desenvolvimento. Nesse caso, Harry não teve as tortuosas aulas de oclumência com Snape, de forma que a habilidade do professor de poções não era de conhecimento dos alunos.


- Ouvi dizer que oclumentes são capazes de anular por completo suas emoções e sentimentos - ele tornava a olhar para Yoh - é por isso que você é assim? Esse seu jeito despreocupado, de quem não está se incomodando... são os seus verdadeiros sentimentos?

Parecia um ataque, tinha cheiro de ataque... mas Rony pensou muito antes de fazer aquela pergunta. Acabara de acusar Yoh de ser uma fraude, de sua postura de boa-vizinhança, ser armada. Mas ele tinha essa noção. Também sabia que isso não ajudava em nada no relacionamento dos dois, mas percebeu que nunca teria outra oportunidade como aquela de fazer aquela pergunta.

- Rony, obrigado pela carona, mas você de repente resolveu implicar comigo?

- Depende do que você me responder. É você quem gosta de se relacionar com pessoas de caráter duvidoso.

- Olha só...

- Yoh, não finge que não sabe que aqueles caras não são flor que se cheire! É muito legal essa história de não julgar as pessoas, de achar que temos que ter uma mente mais aberta, mas no final do dia, Draco continua sendo Draco.

- Não sei dizer se eu sou exatamente amigo dele, Rony. Mas quando você coloca alguém para baixo, é porque está colocando outro em um pedestal. A gente vai ter que ter essa conversa sobre um certo amigo seu?

- Isso não é sobre ele, e você sabe.

- Rony, julgue-me pelas minhas ações, não pelo que você acha de mim.

- O seu amigo está certo - Sume tinha uma capacidade incrível de entrar na discussão no momento mais tenso - a oclumência não apaga as emoções de uma pessoa, não do jeito que você imagina. Claro que ela é uma habilidade mágica que permite se proteger de ataques, e no passado ela era muito usada em duelos para impedir que alguém antecipasse o movimento do adversário. Mas o Snape sempre foi alguém extremo. Há caminhos diferentes a serem seguidos na Oclumência, e o Yoh não seguiu o mesmo do Snape.

- Desculpe, Yoh. Eu fiquei encucado com isso. Resolvi te ajudar, e de repente descubro que você pode bloquear o Snape, é muito para um dia só.

- Bloquear? Se não fosse a minha mãe na escola, ele já teria me revirado de um lado para o outro.

- Em matéria de Oclumência o Snape é mais poderoso, mas ele não é mais do que eu em Legilimência - Sume tocava na cabeça com o dedo -, e com certeza ele seria um péssimo professor de Oclumência. Dizem que até aquele-que-não-deve-ser-nomeado seria iludido por falsas memórias do Snape. Esse era um dos caminhos que nosso professor nos ensinou, e Snape nele se especializou. Mas a oclumência é mais do que criar uma parede e fornecer falsas memórias, ela também envolve deixar a mente em um estado difuso, praticamente irrastreável. Alguém que siga esse caminho, pode ser como uma folha em branco para alguém que queira invadi-lo.

- Qual a diferença?

- Nesse caso, você não está escondendo suas memórias e emoções, mas protegendo-as. Legilimentes poderosos podem bagunçar até o que você sente, influenciar suas ações, induzir comportamentos e, em alguns casos, ecoar seus sentimentos no alvo. Uma vez eu avaliei um caso no qual um indivíduo sofreu um ataque de legilimência para a busca de informações. Mas o ataque foi tão incisivo, que mesmo sem o conhecimento do legilimente ambos ficaram um bom tempo conectados, e o comportamento do alvo era influenciado pelas ações do atacante.

Rony prestou atenção ao que Sume dizia. Yoh sempre estava conversando, sempre resolvendo as coisas com a fala. Era fácil saber o que ele estava pensando por que ele falava sobre isso. E não foram poucas as vezes que o mesmo expressou claramente como estava irritado com algo. As opiniões e pensamentos de Yoh estavam expostos a vista de todos, pensava. Lembrava sobre a vez em que perguntara se Yoh buscava a amizade de Draco, e o mesmo respondera, sem rodeio algum, que não queria era a antipatia dele.

Mas chamou a sua atenção aquele comentário quase que ao acaso de Sume sobre um ataque de Legilimência pode deixar pessoas conectadas a longo prazo, a ponto de influenciar o comportamento de alguém, mesmo sem a percepção de ambos. Fez uma breve anotação mental para não se esquecer daquilo, pois sentia que era apenas o fio da meada do que parecia ser um longo dia. Porém, concluiu que a mente de Yoh não era protegida contra aqueles ao seu redor, mas contra outra coisa. Ou alguém.

- E como alguém perde a oclumência?

- Não perde. O que acontece é uma sequência de fatores que vão gradativamente enfraquecendo suas defesas, mas isso se recupera com o tempo.

Rony tentava raciocinar tudo o que acontecera. Era impensável que o cunhado tivesse tal nível de proficiência, simplesmente por que, até o que ocorrera na tarde do dia anterior, Yoh era, ao seu ver, um competente aluno de herbologia que queria estudar cura. Mas, em menos de 24 horas, ele fez um feitiço sonoro funcionar de uma maneira muito estranha, e, agora, era um oclumente. Mas o que teria realmente deixado ele assim? Não lembrava de nada substancial.

A não ser, claro, aquilo que Gina dissera. Ao longo do dia, enquanto se divertiam durante a semana de natal, ela contara que ele estava com problemas com a mãe, e aquilo se arrastava durante meses. Isso, claro, e os ataques alérgicos. Mas tinha algo que não fazia sentido, ou melhor, faltava algo para completar todo aquele quadro.

- É que esse bunda-mole - Ariel colocava a mão pesadamente no ombro de Yoh - foi "vítima" de um feitiço sexual que o deixou vulnerável, foi isso.

Um silêncio estranho tomou o ambiente. Por um breve instante, os três homens na sala não tinham reação, como se as palavras de Ariel tivesse o poder de congelá-los por completo. Era, na verdade, um silêncio sufocante, já que a vontade de falar algo era mais rápida e agoniante do que a de entender as suas palavras.

- Espera um pouco, que história é essa de feitiço sexual? - Rony olhava de cara fechada para Yoh.

- Não, não tem nada disso, não foi isso o que aconteceu - Yoh olhava para Ariel, enquanto tentava dar uma expressão de confiabilidade para Rony, falhando miseravelmente.

- É, pode ter sido isso - falava Sume.

- Tio, o senhor não está me ajudando aqui!

- Kneen – o tom de voz era uma ameaça velada - o que você fez com a minha irmã?

- O que te faz pensar que eu fiz algo com a sua irmã?

- Se não foi com ela, foi com outra pessoa, e você ainda tem satisfações a dar!

- Eu... NÃO... TRANSEI... COM... A... GINA... OU... QUALQUER...OUTRA... PESSOA, satisfeito?

- Mesmo? - Ariel parecia ter mudado o modelo "irritado" para o "debochado" - Nossa, eu não sei se você passou mel nela, ou ela passou cola em você, por que vocês vivem grudados, como coelhos!

- Bem lembrado. Yoh, você e a minha irmã são como carrapatos, tem algo a dizer sobre isso?

Deve-se salientar que Rony não apenas era um sextanista, como, também, era mais corpulento e alto do que Yoh. A jaqueta que ganhara de presente de natal, embora não a usasse naquele momento, enfatizava bem o seu porte físico.

- Rony, eu nunca fui muito longe com a sua irmã.

- O que é longe para você, Yoh? Hmm?

- A gente não tinha superado isso de irmão ciumento?

- Depende do que você anda fazendo com a minha irmã.

- Nada que seus pais não fariam - e ele se dá conta da sua péssima escolha de palavras quando Rony o puxa pela gola da roupa, e o ergue.

- Ohohoho - Sume colocava a mão no ombro de Rony - calma, rapaz! Se acalma! Feitiço sexual não é sinônimo de sexo, ok! Calma, calma, calma...

Rony, de repente, sentia uma calmaria tomando gradativamente seu corpo, de maneira que ele solta Yoh. Era como se aquela vontade enorme de quebrar a cara do cunhado e dane-se o resto, sumisse. 2 segundos depois, sentia-se mais leve. Teve vontade de perguntar o que Sume fizera, mas a maior curiosidade era que... não se sentia invadido.

- Se irritar de vez em quando é bom, mas você estava com muita tensão no corpo. Eu só dilui essa irritação em pequenas partes, que vão aparecendo ao longo do dia, não se preocupe. Seus amigos nem vão notar, vai ser mais um comentário ácido aqui, uma resposta atravessada ali que você vai acabar pedindo desculpas, enfim.

- Mas que tem uma forte tensão sexual entre esses dois, isso é verdade.

- Ariel, importa-se de parar de usar qualquer coisa com "sexual", por favor? – Yoh estava começando a ficar irritado com aquilo, ainda mais que recebeu outro olhar atravessado de Rony.

- Ok, filha. Já entendemos. Gina deve ter se aproveitado dessa "intimidade" e quebrado as barreiras do Yoh.

- Mas a minha irmã não sabe fazer isso, acho.

- Não precisa saber. Eu discordo do Snape na forma e no método, mas ele não está equivocado na teoria. A maneira mais fácil de invadir um oclumente é fazê-lo se render às suas emoções mais extremas. Se eu estiver certo, a Gina nem deve ter derrubado a oclumência dele, mas passado direto pelas suas barreiras como se não existissem, e isso gerou algum efeito colateral que o deixou totalmente exposto.

- O senhor acha isso? - Yoh ajeitava a gola.

- É a teoria mais plausível. Se sua oclumência funcionasse da mesma forma que a do Snape, você provavelmente estaria caindo em prantos quando a tal coisa aconteceu, aliás, foi isso?

- Não... ele estava visivelmente alterado. Não fez nenhuma besteira - Rony tinha a cena perfeitamente delineada em sua mente -, mas estava diferente de como eu o conheço.

- Minha mente estava exposta e vocês continuavam me inquerindo, aliás, vocês me cercaram, lembra?

- Não estou surpresa. Diz ai, Weasley, iam fazer o quê com ele? Atacá-lo, com medo dele ficar "nervoso"? O que ele estava fazendo de tão terrível na hora, mesmo? Ah, sim, conversando com a sua irmã. Brrrr, que terrível! Joguem-no na fogueira!

Outra anotação mental: de fato, não gostava daquela moça. Mas isso durou um instante, pois teve medo de Sume estar "escutando".

- Nós estávamos resolvendo um assunto, quando o encontramos. O máximo que aconteceu foi o Harry cair no chão, e só. Parecia ter um monte de coisa acontecendo, apareceu a irmã da Parvati, também a narradora de Quadribol, quando a gente percebeu, estava uma confusão só!

- E eu disse que não era um bom momento.

- Você podia ter contado.

- Rony, se você não tivesse vindo comigo, não estaríamos tendo essa conversa. Não dessa maneira.

- Certo. Desculpe.

- Então é isso. Quando você acalmar sua mente, suas defesas voltarão normalmente, Yoh. Na verdade, estão mais operacionais, mas você já deve ter percebido isso, não é? Mas isso pode acontecer de novo. A Gina pode sem querer ter magicamente entrado, mas isso começou quando você evitou discutir com a sua mãe. Isso alimentou um sentimento dentro de você, e...

Sume olhou de soslaio para Rony, o qual olhou rapidamente para Ariel. Foi ai que percebeu que, apesar de estarem tendo uma conversa muito esclarecedora, ele era o "cara novo" na discussão.

- Eu vou esperar lá fora - e se levantava.

- Não, fica - Yoh segurava seu braço - sua irmã já sabe, ou entendeu alguma coisa. Você vai acabar descobrindo depois de amanhã, então é melhor ouvir isso de mim. Quer ouvir?

Rony pisca seguidas vezes. Era assim, iria contar para ele, diretamente? E como assim, iria descobrir em dois dias, ou seja, na Segunda-feira?

Por um momento ele lembrou das diversas acusações de Harry, sobre Yoh ter um segredo, e se censurou pelo pensamento. Mas não conseguia deixar de pensar naquilo, como soava e parecia. Mas a curiosidade falou mais alto, e ele se sentou.

- Então - Yoh se ajeitava na cadeira, juntando as mãos - eu tentei hackear o feitiço Fidelius.


Ele estava sentado em uma cadeira, quase como se em uma concha acústica. À sua frente, Sume; do lado esquerdo, Rony; e do direito, Ariel. Os três se ajeitaram melhor quando ele terminou aquela frase. Mas eles não a entendiam, pois não fazia sentido. Como assim, ele tentou "hackear o feitiço do segredo"?

- Ok, essa é uma história das boas - Sume cruzava as pernas, enquanto se ajeitava melhor - filha, alguma bebida?

Ariel estala os dedos e uma bandeja de bebidas surge, levitando pela sala na direção de todos. Yoh pega um copo e olha com muita atenção, pois, da última vez que bebeu algo, estava associado a toda aquela confusão. Será que Gina colocou algo na bebida? Aquela história de "feitiço sexual" ainda estava muito confusa, mas Ariel não parecia a melhor pessoa para fazer esse tipo de pergunta. Começou a suspeitar que Rika usava algum tipo de magia parecida, mas resolveu deixar para lá. Talvez Miranda pudesse ajudá-lo com isso. Sua mãe estava fora de cogitação.

- O que é hackear? - perguntava Rony.

- Significa quebrar alguma regra, com base em alguma falha, ou porta dos fundos. É isso que ele quis dizer quando disse que hackeou o feitiço do segredo. Como, eu não sei - e nisso Sume se sentia observado pelos demais, como se tivesse surgido uma segunda cabeça no seu pescoço - o que foi? Não é só em Hogwarts que aprendemos sobre cultura trouxa!

- Então, Rony, a sua irmão, bem, você sabe como ela é bem meiga, não é? Jeitosinha, cheia de dengo, com aquela voz que te derruba, então... ela ficou direto dizendo que queria me ajudar, pediu para eu me abrir com ela, que sabia que tinha algo me incomodando, ficou com aquela vozinha maliciosa no meu ouvido falando direto - Yoh fazia um gesto com os dedos, como se imitasse os lábios de Gina - "Ah, yohzinho, conta pra sua moranguinho, se abre comigo, deixa eu te ajudar, pode confiar em mim, mimimimimimimiim" - e imitava a voz de Gina enquanto falava. O tom era sofrível, mas a escolha de palavras fazia Rony perceber que sua irmã falava bem assim.

- Meu deus, e você ainda finge que não sabe de nada quando eu disse que ela te jogou um feitiço sexual!

- Ariel, dá pra parar? Acontece que eu acabei contando, mas ela veio tão de mansinho, com cuidado... como a sua irmã é ardilosa, Rony! E eu acabei contando tudo! Mas, antes, eu tinha que pensar em como contar. Então eu fui tentando fazer isso pelas brechas que eu tinha encontrado.

- Brechas? - Rony arregalava os olhos - em um feitiço? Yoh, não sei se te contaram, mas fazer um feitiço é diferente de escrever uma relatório para a disciplina do Flitwick, sabia?

- E como você acha que as pessoas criam novos feitiços, sabichão? Ou desenvolvem novas poções? Você acha que aquelas poções de cura que madame Pomfrey te ensina a fazer, não tem todo um estudo teórico antes de sair do papel? Aliás, antes que eu esqueça dizer, eu tenho inveja de você por sido escolhido, viu!

Rony pondera, e percebe que ele tinha razão. As poções mais simples, eles estudavam em livros. Até mesmo um " wingardium leviosa " tinha sua teoria estruturada. E com base nelas que novos feitiços e poções eram criadas. Não sabia dos feitiços, mas novas poções eram planejadas antes de serem colocadas em prática, principalmente pelo risco e preço dos ingredientes. Os estudantes da escola utilizavam poção cola-ossos com uma facilidade enorme, e os ingredientes eram fáceis de se conseguir... mas eram muito específicos. Não era qualquer bruxo em sua casa que conseguiria duplicá-la segundo os parâmetros utilizados por madame Pomfrey.

- E que brechas eram essas? Por que, até ai, você está me contando coisas ao vento.

- Tem a ver com a minha mãe. Eu explico, há muito tempo atrás...

- Eieieei! - Ariel batia o pé - poupa a gente, Yoh! Todo mundo aqui conhece essa história, eu quero saber como você enganou o Fidelius!

- Gente, eu não sei de nada, por favor, me atualizem!

- Eu não tenho tempo pra isso, Weasley! Não vou ficar aqui duas horas para ele contar a história toda, depois ele te dá detalhes!

- A mãe de Yoh é uma refugiada do mundo bruxo. E os envolvidos no assassinato dela esconderam o crime com o feitiço Fidelius.

- Tio, olha... eu acho que eu devia ter pedido para o senhor contar isso para a Gina, teria sido bem mais simples e ela não teria ficado confusa!

- Não foi isso que a assustou, Yoh. Mas, continue.

Rony tinha total noção de que era um expectador naquele espaço, então reservou-se a permanecer em silêncio o máximo possível, mas não escapou de sua cabeça as palavras "refugiada", "assassinato" e implicitamente "Gina assustada".

- Espera, como a professora Kneen pode ter morrido, se eu tive aula com ela essa semana?

- Tentaram matá-la, pensaram que tinha conseguido, mas não deu certo.

- Assim, "não deu certo"? O que é isso, excesso de incompetência?

- Eu só sei que foi isso que aconteceu, ok. Há um "como", mas o feitiço Fidelius bloqueou essa informação.

- Do que você está falando? É uma pessoa, não uma localização! Como você esconde uma morte?

- Não esconde. Mas esconde a localização de uma pessoa de tal forma, que é como se ela nunca tivesse existido.

- Yoh, é uma pessoa, não uma casa, um lugar ou um ambiente! Se Hermione estivesse aqui...

- Ela diria que, no fim, é tudo uma informação. O Fidelius anula todas as nossas percepções das coisas. Cheiro, som, acesso... mesmo que eu te conte, você só vai se lembrar disso enquanto pensar nisso. Por que parar ai, então? Se você for um bruxo particularmente poderoso, pode até fazer com que pessoas deixem de enxergar as informações que estão na sua cara.

- Eu nunca ouvi falar do Fidelius funcionando dessa maneira.

- Tem muita coisa que não ensinam na escola. Mas vamos ao ponto, eu queria contar para a sua irmã o que estava me incomodando, mas eu não conseguiria, mesmo que tentasse. Uma vez eu tentei, e comecei a gaguejar, e ela pensou que era só medo de contar. Também, mas era o feitiço funcionando.

- Ok, eu vou fingir que estou entendendo e que essa história de esconder uma informação faz sentido. Como você fez para contar? É o Fiel do segredo?

- Não, é a minha mãe.

- Então...? - Nesse momento Ariel e Sume esticavam suas cabeças, como se tentassem escutar a grande revelação.

- Eu usei umas brechas. Minha mãe está há meses com esse papo de "se revelar ao mundo", e eu não queria que sua irmã ficasse com cara de tacho, como se fosse a última a saber. E, recentemente, minha mãe teve o desaforamento de emitir um cartão do Gringotes, dá pra acreditar nisso? Eu achei que isso tivesse rompido o Fidelius sem ela perceber, ou enfraquecido. Então, eu contei os entornos, disse que minha mãe, como o tio Sume explicou, era uma refugiada, que estaria retomando sua vida novamente, e que em breve isso tudo viria a tona. Foi isso.

- Mas não foi só isso o que você contou para ela - Ariel interrompia - não é mesmo?

- Algum detalhe ou outro, talvez um pouco mais de emoção, mas eu expliquei que o Fidelius iria ser quebrado em três dias, ou melhor, dois.

- Então você não quebrou o Fidelius, Yoh. Pai, ele tentou, mas não conseguiu.

- Agora que você falou... Gina parecia muito confusa. E ela te chamou de Black, o que isso quer dizer?

- Olha, Rony, se eu tentar te explicar, Ariel come o seu fígado, pois a história é ainda mais longa. Resumindo, ela entendeu errado. Depois de Segunda isso vai fazer tanto sentido, que fica mais fácil te explicar, ok?

- Ok - ele aceitava, a contragosto - mas vocês nem saíram juntos, parecia que tinham se desentendido.

- Foi algo que eu disse, mas eu não lembro direito. Estava tão leve, sentindo como se estivesse tirando um peso do corpo, que posso ter me expressado mal.

- Conte para ele, Yoh.

- Tio, eu não sei, eu...

- Então, trouxe ele aqui para que?

- Ele conseguiu a carruagem.

- Mas não precisava ter vindo. Mas você o trouxe. E estamos aqui conversando sobre coisas que já sabemos, mas ele não. Poderíamos ter chamado Fred para participar dessa conversa. Se não é importante que ele escute, o que esse Weasley em particular é para você?

- Ele é meu amigo - e Rony se sentiu envergonhado com a simplicidade com a qual Yoh dissera aquilo e o encarava, sem sequer piscar - mas quanto mais eu penso nisso, mais essa história fica confusa. E dói - ele abaixa a cabeça - e me dá medo.

- Yoh, eu não entendi direito metade da história - Rony se aproxima dele, colocando o seu braço nas costas do cunhado - mas você não está sozinho. Não entendi direito o que pode te atacar, mas nós podemos te proteger.

- Você não pode, Rony - ele levanta o rosto, encarando-o. Ali, Rony percebeu que a simples menção àqueles fatos o deixavam com uma expressão cansada, como se estivesse remoendo-a todos os dias - por que eu sou parte do problema. É um problema que, quanto mais eu fujo, mais me aproximo.

- Tipo um buraco?

- Pensava que a Hermione é que era a inteligente do grupo - e dava novamente um sorriso forçado -. Quanto mais tiro de mim, mais eu tenho. Quanto mais evito, mais me aproximo. Eu estou preso a um passado que não vivi, mas me sinto atraído como uma mariposa ao fogo.

- Isso soa como algo que a professora Trelawney diria. Você está preso em um círculo mágico, é isso? Uma magia que desperta outra?

- Pior. Quando o feitiço Fidelius for rompido... ele vai me deixar perigosamente mais próximo do segundo Fidelius.


Aparentemente Yoh estava sendo muito requisitado naquele dia. Isso porque Padma o procurava insistentemente.

Cassie ficou no seu pé igual a um sanguessuga, e mesmo utilizando os mais variados tipos de recursos, o apanhador sumira.

O principal motivo dela ser uma jogadora reservado time de Quadribol, e jogado com o time apenas em partidas de treino contra a Lufa-Lufa, era o seu cargo como monitora. Isso, claro, rendia-lhe vantagens. Uma delas era transitar à noite pela escola, podendo dar diferentes desculpas para sua presença fora da torre da Corvinal para além do horário permitido. E, mesmo assim, ela não encontrara Yoh em lugar algum, no dia anterior. Até pensou em pedir ajuda às meninas, mas suspeitava que Cassie havia espalhado alguma coisa, e preferiu não arriscar.

Não que fosse de grande ajuda: na torre, Rika e James estavam em mais uma discussão de irmãos. Carlos não saia do lado de Miranda, Julieta continuava tentando fazer suas malabarices com a vassoura, Chaz fazia o que sempre fazia, desenhava...

Tivesse prestado um pouco mais de atenção, perceberia uma movimentação incomum no dormitório feminino, de madrugada. Mas não se atentou a isso. Ou melhor, chegou a ver Miranda e Rika indo em direção à cama de Ariel, para o que seria uma "reunião" noturna, mas estava tão concentrada em outras coisas, que isso não tomou muito de atenção.

O sono a vencera. E, no dia seguinte, no salão principal, observou que Thor estava na mesa da Corvinal, ao lado de Cassie, embora ambos estivessem um pouco distante dos demais. Ela e muitos outros perceberiam que a vidente não desgrudava por nada no mundo do Sonserino, como se não quisesse se distanciar. Ou precisando de um guarda-costas, talvez. O braço dela se agarrou no de Thor, e parecia que não iria sair dali nem que um meteoro os atingisse. Isso porque, conforme Padma veio a descobrir em meio às reclamações de Cassie, a mesma tivera uma experiência ruim em meio àquela série de visões que tiveram no dia anterior.

Pela primeira vez, tivera uma visão muito nítida, ou quase, dos acontecimentos futuros, ou presumivelmente futuros. E enxergou claramente dois perigos ao seu amigo: um, à sua vida; outro, à alma.

Ela queria perguntar a outros onde ele estava, mas ficou encafifada com a insinuação de Cassie. Na verdade, fingira não ter escutado um comentário malicioso de Miranda quando perguntara a Yoh se o mesmo iria registrar Karasu... mas alguém levou esse comentário a sério e parece ter atingido os ouvidos de alguns incautos.

Precisava de ajuda, e sabia a quem recorrer.


- Dois Fidelius?

Rony toma novamente a sua bebida, a qual parecia sem gosto, mas talvez fosse um efeito das informações recebidas.

Lembrava das aventuras que vivia. Ele era o cara do Xadrez, o sujeito que entrou na câmara secreta... a pessoa que desvendava enigmas mais elaborados era Hermione. Não era esse o tipo de contribuição que ele dava para o grupo. Precisavam de alguém que, no momento certo, fosse impulsivo e agisse sem pensar em mais nada. Foi por isso que, naquele jogo de Xadrez em tamanho real, ele se sacrificou para que Harry avançasse por acreditar piamente que o amigo era o único que teria a capacidade para enfrentar o Lorde das Trevas. Tivesse um pouco mais de confiança, em duas ou três jogadas poderia ter dado um xeque-mate, e os três iriam juntos.

O problema era que havia uma possibilidade de, assim que saísse dali, ele não se lembrasse de mais nada, já que aquelas informações, direta ou indiretamente, estavam associadas ao Feitiço Fidelius. Mesmo que lhe fossem reveladas, ele só lembraria delas quando se esforçasse, e estava recebendo tantas, que não sabia por onde começar.

Ainda tinha a questão de Sume, o qual poderia muito bem extrair aquelas revelações de sua mente, se quisesse. Era uma verdadeira luta que passava para tentar entender o máximo daquelas informações, e preservá-las.

Informações, lembrava. No final, estavam tendo uma conversa. Ele não sabia de fato se aquilo era verdade, ou apenas possível. Tudo o que Yoh lhe contara parecia mais uma discussão teórica na qual Hermione teria se saído muito bem, do que um fato em si.

- Aiai, eu sinto que a minha mente vai fritar, mas... vamos lá, Yoh. Surpreenda-me. Acho que se eu tentar contar isso para a Hermione, eu não saberia por onde começar.

- Eu posso explicar melhor - Sume estava de pé, olhando pela janela - imagine que você quer proteger uma residência com o feitiço Fidelius, mas essa residência, para início de conversa, não existe. Por exemplo, eu quero esconder uma loja no beco diagonal número 46, mas as lojas só vão até o número 45, o que acontece?

- Não funciona?

- Às vezes, pode dar errado. No setor de mal uso dos aparelhos mágicos, também analisamos efeitos mal sucedidos de magia no mundo trouxa. Não é incomum uma magia feita de maneira indevida afetar o mundo trouxa, como uma rua na qual constantemente as lâmpadas queimam, ou uma região em que as pessoas se perdem sem motivo aparente. Pode ocorrer de um local se tornar potencialmente atrativo para fantasmas. Foi isso o que aconteceu. Pensaram que Jane estava morta, e precisaram usar o feitiço Fidelius para encobrir não apenas a morte, mas a própria existência dela.

Em seu íntimo, Rony sentia que estava deixando de fazer a pergunta fundamental, mas, qual?

- Então você tem um feitiço Fidelius - Sume continuava - que, em teoria, deveria funcionar, mas não funcionou direito. E... Jane sabia que isso aconteceria. Então ela atuou nessa brecha, e reverteu a posse do Fidelius, tornando-se a Fiel do Segredo de sua própria "morte".

- ...

- Entendeu?

- É claro que não, senhor Sume! Essa história de manipular o feitiço Fidelius não faz sentido!

- Não é como se isso fosse novidade, você não lembra da aula introdutória de Feitiços, do professor Flitwick? - Ariel cortava o nervosismo de Rony - feitiços são feitos à partir de feitiços, e os mesmos tem origens em princípios muito antigos da magia. Tem muitos que são feitos à partir de teorias oriundos de processos de desconstrução do Fidelius, por exemplo.

- Ela tem razão, Rony - Sume, orgulhoso da filha, salientava - à partir do momento em que a sociedade bruxa passou a se organizar em institutos e escolas, passamos a teorizar e discutir feitiços. Os princípios do Fidelius sobre deixar algo totalmente imperceptível, segundo estudos antigos, são a origem de itens poderosíssimos, como capas de invisibilidade. Mas eu acho que seu pai saberia te explicar melhor como o Nôitibus Andante foi uma invenção inspirada no ônibus dos trouxa, criando um objeto mágico que adapta elementos do Fidelius para criar um veículo que é totalmente imperceptível, mas se torna visível quando sinalizamos para ele, ou seja... quando "lembramos" dele.

Aquilo tinha um sentido extremamente absurdo. Nunca se perguntou como determinados itens mágicos funcionavam mas, parando para pensar, eles eram extremamente poderosos, o que o lembrava da capa de invisibilidade de Harry. E o Nôitibus Andante era, de fato, chamado à sua presença quando sinalizavam. Antes, eram indetectável. Como se ergue a varinha tivesse o mesmo efeito de "lembrar" que esse veículo existia.

- Rony - Yoh lhe dirigia a palavra - em algum lugar no Ministério da Magia, há um documento assinado por uma antiga amiga da minha mãe, dos tempos da escola, Millicent Bagnold.

- Esse nome me é familiar, mas eu não lembro de onde.

- Foi a ministra da magia durante a queda do lorde das trevas - Ariel completava - e ex-aluna da Corvinal - havia um certo tom de orgulho em suas palavras.

- Quando minha mãe assumiu a posse do feitiço, ela já estava pronta, sabia que o utilizariam, por que conhecia quem atentou contra ela. Então ela se tornou a fiel do segredo, e criou uma condição mágica de poder transferi-lo.

- Transferir o segredo? Mas isso só pode ocorrer quando a pessoa morre, disso eu aprendi nas aulas de Feitiços! Todas as pessoas que ouviram sobre o segredo, viram os novos fiéis.

- Isso é uma teoria bonita, mas se o feitiço tem falhas desde o início, quem vira o fiel quando a pessoa que conjurou o feitiço morre? O autor, ou a pessoa que é alvo da informação falsa, a qual também conhece a informação?

Aquilo, para Rony, começava a fazer sentido. Era uma falha estranha, mas possível - ainda que no campo da ficção, lembrava, pois aquilo parecia mais um roteiro de um romance de aventuras digna do Lockhart. Para quem vai a guarda de um segredo que não existe?

- É por isso - Yoh retomava a palavra - que esse documento é irrastreável, mas há essa brecha que possibilita toda essa manipulação. Por que como não foi minha mãe quem criou o segredo, ela não pode quebrá-lo, mas manipulá-lo até certo nível.

- E como ela pretende quebrá-lo, como você disse, na Segunda?

- Pense bem, Rony. Como você quebra um segredo que não pode ser quebrado? E se o seu intuito é destruí-lo, para quem você o passaria?

A resposta era óbvia. Havia lendas no mundo trouxa de mansões assombradas que só apareciam em momentos específicos. Ocorria de castelos e construções ancestrais terem sido alvo do feitiço Fidelius e o fiel do segredo ter sido passado para outra pessoa, e assim sucessivamente. Porém, ocorriam casos nos quais a informação de uma residência era tão diluída, que virava uma herança cultural, tornando-se uma espécie de delírio coletivo entre as pessoas. Era por isso que alguns, em momentos específicos, eram capazes de ver uma estranha fortificação que só ouviram falar, e associavam isso a momentos específicos. O conhecimento desta passava por histórias, contos, músicas, as quais reacendiam a lenda na mente dos moradores de uma localização.

Isso, e o fato de lembrar de uma namorada que seu irmão Gui tivera, a qual era de algum lugar da América. Havia uma lenda de uma cidade perdida chamada "Eldorado", a qual os nativos contavam, e os colonizadores trouxas viviam correndo atrás, mas nunca encontravam.

Essa mesma lembrança que parecia totalmente aleatória o fez atentar para algo que não teria sequer cogitado em outra situação: embora ele resistisse terminantemente a dar 100% de credibilidade à história que lhe estava sendo contada... não era essa a profissão do seu irmão mais velho, desfazedor de feitiços? E por acaso muitas das peças de Fred e Jorge, dos itens que inventavam, não eram uma estranha combinação de feitiços como transfiguração e teoria da magia?

Rony ia fazer uma pergunta fundamental, mas sua afobação o fez direcionar a resposta de Yoh para outra direção.

- Mas e o segundo Fidelius?

- Esse foi para impedir que outra pessoa retomasse essa "maldição" falha. Quando o primeiro Fidelius for rompido, de repente as pessoas vão prestar atenção a alguns detalhes que antes eram óbvios, mas ninguém conseguia pensar nele. Algumas coisas vão passar, até, a ser vistas como incômodas. Mas, esse, depende de mim romper.

- E o que ele protege, Yoh?

- Em algum lugar...

- Já entendi, em algum lugar no Ministério da Magia, tem um documento, certo? O que tem escrito nele, dessa vez?

- Simples. Minha certidão de nascimento. Eu tenho duplo registro, no mundo trouxa, e no mundo bruxo. Lá, está o meu outro nome... ou o meu verdadeiro nome no mundo bruxo.

- Como isso é possível?

- É que a minha mãe estava preocupado que, um dia, eu poderia ter que pagar pelo preço de suas escolhas, e queria que eu tivesse uma porta de saída... tão apertada... tão específica... que eu deveria realmente querer passar por ela e... o que foi?

- Desculpe, Yoh. Desculpe, mesmo. Mas essa sua história tem tantos "se´s", "poréns" e "possíveis", que fica complicado entender alguma lógica!

- Transfiguração geralmente é mais interessante que Teoria da Magia, por isso que não tem muitas pessoas por ai que realmente criam feitiços novos.

- Foram poucos os professores realmente bons de "Teoria da Magia" em Hogwarts, por isso ela é uma matéria do primeiro ano, e eletiva nos demais - Sume tentava oferecer uma saída lógica para Rony.

- Eu nem sabia que era eletiva nos anos seguintes!

- É por que dificilmente conseguem formar turmas. Esse ano, consegui convencer sua irmã, Amanda e uns amigos a se inscreverem, mas quase não conseguimos ter aula. Nessa, discutimos de maneira muito aprofundada os princípios mágicos e as teorias de Gamp.

- E quem é o fiel desse segundo Fidelius?

- Obviamente - Yoh aponta para si. - mas ele é diferente. Se o primeiro feitiço for quebrado, é porque o segundo também precisa. Minha mãe me autorizou a quebrar meu juramento, mas o que ela queria dizer, na verdade, é que eu devia estar pronto para quebrar o segundo Fidelius.

- Só tem uma coisa que eu realmente não entendi - e, ali, Rony tinha um profundo sentimento de que estava deixando escapar uma pergunta ainda mais importante - manipular feitiços, reescrever o Fidelius, reconstruir as condições... a sua mãe teria que ter uma compreensão do princípio mágico absurda! Você está me contando isso mais como alguém que narra como as coisas aconteceram, não como ocorreram na sua essência. A Hermione é muito inteligente, mas mesmo que ela entendesse essa história toda, não sei se ela estaria sequer próxima de realizar o que vocês me contaram. O meu irmão Gui é desfazedor de feitiços no Gringotes, o que significa que ele atua com os mais altos níveis de segurança, e ele obteve 12 NOM´s, sabia disso? Mas eu acho que nem ele ou qualquer outra pessoa da área seria capaz de sequer arranhar o conhecimento necessário para fazer essa coisa insana que você está me contanto! Teria que ser uma Miranda Goshawk para fazer isso!

- Goshawk era mais uma... aham, intérprete de feitiços, não desmerecendo suas contribuições para os materiais didáticos - Sume tomava o devido cuidado com suas palavras - foi uma excelente educadora bruxa, e contribuiu muito para a modernização do próprio sistema escolar. Mas ela não era uma acadêmica ou pesquisadora avançada, como os que frequentaram a Merge School of Under-Water Spellage, como minha esposa Amy, depois de Hogwarts. O que me lembra que a Academia Bruxa de Artes Dramáticas pediu para eu notificar um projeto de Intercâmbio, Ariel. Aquele seu amigo Chaz pinta e... ah, depois eu cuido disso. O que eu quis dizer é que para fazer isso é necessário um conhecimento muito mais requintado, uma certa finesse... e Jane, após se formar, foi uma discípula de Gamp, sob orientação pessoal de Arcturus Black.

- Arcturus Black? Quer dizer, "O" Arcturus Black?

- Sim, o próprio, não tem muito tempo que estava vivo, até ganhou uma medalha da Ordem de Merlin sobre acusações nunca provadas e...

- Vivo? Espera um pouco, esse cara morreu faz tempo!

- Claro que não, Rony! - Sume não entendia a negativa - tem poucos anos que ele faleceu!

- Ordem? Pouco tempo? Acho que o senhor está confundido, aquele sujeito praticamente expulsou a minha avó de casa quando ela se casou com o meu avô!

- Espera um pouco, como você pode ser bisneto de Arcturus Black? Não é um Weasley?

- É claro! Esse cara foi meu bisavô, pai da minha avó, Cedrella.

- Cedrella? Ele teve dois filhos, e a única mulher era Lucrécia, eu acho que ela se casou com um Prewett, ou algo assim!

- Essa era a família da minha mãe! Perai... tia Lucrécia? Eu tenho, ou tinha, uma tia com esse nome, mas nunca vinham nos visitar!

- Aiai... gente, espera ai que até eu estou ficando confusa! - Ariel percebeu que estava no meio de uma salada familiar - Quem é Lucrécia?

- Tio, Rony, vocês estão confundindo as pessoas! O Bisavô do Rony foi o Arcturus Black II, avô do seu Arthur, e esse já morreu tem tempo. O que ganhou a ordem de Merlin foi o Arcturus Black III! Esse III era sobrinho do II e avô do...

- Sim? - Rony esperava ele continuar.

- A gente está perdendo o foco aqui!

- Espera, avô de quem? - Yoh lhe devolvia aquele mesmo olhar - certo... Segunda, não é? Eu vou contar as horas!

- De qualquer forma, Rony, esse Arcturus que foi professor da minha mãe não era seu bisavô, mas aparentado. Ele era primo da sua avó.

- Tem uma história - Ariel levantava-se para esticar os braços enquanto interrompia aquele papo que parecia não levar a lugar algum - de que ele pagou por essa medalha da Ordem de Merlin, não é o que o senhor disse?

- A história não é bem assim, cunhada - Rony ergue a sobrancelha, era estranho constatar como aqueles dois eram exatamente isso, namorada e namorado de seu irmão e irmã -. Rony, o seu primo de quarto ou quinto grau, até me confundi... ele realmente deu um monte de ouro para o Ministério da Magia, e isso está registrado.

- E não foi o que a Ariel acabou de dizer?

- Mas isso por que, como detentor do espólio de Gamp, ele tinha os direitos de publicação, daí ele usou o dinheiro ganho e fez uma doação para auxiliar o Ministério da Magia na época, além de doar dezenas de edições para Hogwarts. - completava Sume

- Isso ainda me cheira a compra de favores! - ela resmungava

- É uma forma de se ver a coisa - Sume franzia o cenho, como se tivesse prestado atenção a algo -, mas a verdade é que ele não embolsou um tostão da venda dos livros e, diga-se de passagem, era uma fortuna!

- E por que ele tinha o direito do espólio de Gamp? O do livro da lei de transformação elementar?

- Muito simples - Sume erguia a voz, como se, orgulhoso, estivesse prestes a fazer uma grande revelação -, ele era filho de Gamp.

- O quê?

- Tio, isso é UM TEORIA - Yoh o cortava -, não há provas, apenas suposições.

- Ora, Yoh, os fatos estão dados, é claro que era filho de Gamp, todo mundo concorda com isso!

- Todo muuuuuuuuuuuuuuuuundo... um ou outro gato pingado, além de alguns acadêmicos sem noção, como a minha mãe. Ela sofreu críticas ferozes no meio acadêmico quando apresentou suas "suposições", e os Black foram um dos principais críticos!

- Mas nenhuma vinda de Arcturus, não é?

- Ah, tio... papel aceita qualquer coisa, eu posso escrever um relatório provando que qualquer um ali em Hogwarts é meu primo! No fim, é tudo bobagem. O Arcturus tinha os direitos sobre o espólio, mas não quer dizer que ERA filho de Gamp. Vai ver, comprou esses direitos de outra pessoa, e as pessoas não fazem isso até hoje? O Saint-Exupéry doou os direitos de publicação da sua obra para a editora, e a família nunca conseguiu ganhar um tostão. Aquele outro, aquele, como era mesmo o nome, o brasileiro que era versado em Shakespeare e Goethe, o cara nunca teve filhos e deixou os direitos para uma sobrinha da esposa! E a Julieta ama as histórias traduzidas daquele tal de Lobato, ela me contou outro dia que o cara doou os direitos da obra dele para a editora, para evitar que os descendentes brigassem no futuro e evitassem que a obra fosse publicada.

- Você pode acreditar no que quiser. Mas a verdade é que Arcturus foi um dos maiores cientistas mágicos do seu tempo, e passou toda a sua compreensão do princípio mágico para Jane.

- E assim com Prometeus, que pagou o preço por dar o conhecimento aos seres humanos... - Ariel interpelava.

- Ou Ícaro, que se queimou ao se aproximar muito do Sol - Yoh completava.

- É - Sume deu-se por vencido antes mesmo de começar a discutir - isso foi a sua queda. Rony, a mãe de Yoh é uma mulher muito sofisticada, seus conhecimentos mágicos eram enormes mas, depois de Arcturus, ela se tornou extremamente refinada. E por isso, não tinha interesse em guerra, achava isso uma barbárie, e que teria mais a contribuir com o mundo bruxo se, mesmo em tempos de luta, continuasse fazendo o que já fazia. Na visão dela, "conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará".

- Tio, acho que o Rony não entendeu a referência.

- Aham... ela era uma sedenta por conhecimento. Você a conhece como professora de História da Magia, mas era um hobby pessoal já que, como pesquisadora, ela caçava as justificativas históricas para explicar como a sociedade se tornara aquilo que é hoje.

- E qual é o problema disso? - Rony vira o pescoço, como se tivesse escutado um barulho vindo de fora, mas não vê nada - Isso não é bom?

- "angeli che non furon ribelli, né fur fedeli a Dio, ma per sé fuoro. Caccianli i ciel per non esser men belli, né lo profondo inferno li riceve, ch'alcuna gloria i rei avrebber d'elli".

Yoh disse algo que lhe parecia a língua utilizadas nos feitiços, mas soava um pouco diferente. Só entendera a primeira parte, algo como "aqueles que não se rebelaram, tampouco foram fiéis a alguém".

- Jane manteve-se neutra. E quando você faz parte de uma proeminente família, espera-se que você dê o exemplo. Se ela tivesse "apenas" se rebelado contra aquele-que-não-deve-ser-nomeado, teria sido morta como tantos outros. Se tivesse se aliado, seria glorificada e, talvez, estivesse ocupando um lugar no Ministério da Magia, como muitos atualmente. Mas Jane era... teimosa.

- Arrogante - Completava Yoh.

- Teimosa.

- Arrogante. Era incapaz de achar que estavam incertas as suas certezas. O senhor me disse isso.

- Tenho certeza que usei palavras mais dóceis. Vivíamos um momento polarizado, naquela época. Inclusive, muitos que precediam de famílias bruxas e evitavam se posicionar, eram vistos como desconfiança, pois muitos aplaudiam aquele-que-não-deve-ser-nomeado. Eram vistos como "subversivos". Mas Jane era... um símbolo. As pessoas eram praticamente obrigadas a tomar um lado, mas o LADO CERTO. E mesmo quando aquele-que-não-deve-ser-nomeado foi derrotado, muitos diziam, ou melhor, dizem até hoje pelos cantos que ele "matou pouco".

- Que horror, senhor Sume!

- É verdade, Rony. Até hoje, quando recebo pessoa em Hogsmeade, escuto isso. Você vive em uma bolha em Hogwarts, mas em breve irá se formar, e vai ter a chance de ver isso em primeiro plano. Quando os aliados de Dumbledore se escondiam, aquele-que-não-deve-ser-nomeado caçava aqueles que não eram seus inimigos, mas eram apenas "um pouco" menos adeptos de sua filosofia. Aqueles que não eram "suficientemente convertidos".

- Mas a professora Jane era um símbolo de neutralidade, eu entendi. Alguém que achava que podia escolher não se envolver naquilo que ela considerava como "coisas menores", não é mesmo? Não parece em nada com as aulas que ela nos dá, Yoh.

- Ela mudou um pouco, pelo visto.

- Um pouco? Às vezes, parece o Snape! E por que ela? Se ela é tão importante assim, porque nunca ouvi falar dela?

- Por causa do Fidelius, oras!

- Ok, mas você ainda não me explicou QUEM ERA ela, a ponto de terem tanto trabalho para esconderem a sua existência! Todo mundo sabia das vítimas do Lorde das Trevas, por que ele quis esconder essa tentativa de assassinato da sua mãe?

- Por que não foi ele quem tentou matar a minha mãe. Foi o irmão dela.

- E esse seria...?

- Segunda.

- O que? - Ah, peraí, Yoh! É sério que você não vai me contar? Eu estou aqui te escutando do início ao fim, e você vai fazer mesmo isso comigo?

- Segunda.

- É sério?

- Quando você sair daqui, vai esquecer muito do que eu te disse. Pode se esforçar para se lembrar, e ainda vai reter isso na memória, mas são tantas informações, que muita coisa vai acabar se perdendo. Mas, na Segunda-feira, isso vai estalar na sua mente como uma constelação. Muita coisa que eu disse aqui, como o Fidelius, são informações que não foram afetadas pelo ritual. O resto, por estar muito próximo, vai ficar bagunçado.

- Por Merlin, Yoh! Conta logo - ele observa a forma como Yoh o encara - afff, que seja!

- Bom - Sume retoma - relembrar essas informações pode nos ajudar a colocar a sua mente em ordem, Yoh. Rony, Ariel, podem esperar lá fora? Eu preciso conversar com ele a sós, agora.

- Não se preocupe, eu já vou - Rony se levanta, sendo acompanhado por Ariel -. Yoh, essa história é muito confusa, mas você AINDA me deve satisfações sobre o que fez com a minha irmã, ouviu! - e caminha até a porta.

- Rony, espera.

- O que foi?

- Você mentiria por um amigo?

- Por que essa pergunta?

- Só me responde.

- Depende, Yoh. Se ele não tivesse feito nada errado e precisasse da minha ajuda para algo importante, talvez.

- E se a vida dessa pessoa estivesse em risco? Mentiria?

- Estamos falando de quem?

- Não importa, só responde.

- Eu... eu não sei, olha... que raios de pergunta é essa?

- É sim ou não, oras!

- Olha, eu não sei, ok! Eu preciso saber dos detalhes, não sei se mentiria.

- Vocês, gifinórios, não são considerados os leais? Se a vida de um amigo seu estivesse em risco, mas de tal maneira que a única maneira de salvar essa pessoa fosse manter uma mentira, e não houvesse alternativa a isso... mentiria?

- ...

- ...

- ...

- ...

- ...

- ...

- ... sim, mentiria.

- Mesmo que você tivesse que manter essa mentira de tal maneira, que as pessoas te achariam uma pessoa suja, desalmada e desprezível, a ponto daqueles que antes lhe eram próximos, lhe virassem as costas?

Ele para um segundo, olhando para baixo, como se ponderasse profundamente as palavras de Yoh.

- Sim.

- Obrigado.

- Pelo que?

- Por que - ele fixa os olhos em Rony, o qual toma um leve susto com a densidade cinzenta dos seus olhos - eu acredito em você.


Rony sobe na carruagem. Era o início da tarde, então havia um dia longo pela frente, mas sentia que não tinha mais o que fazer ali. Na verdade, saíra daquele ambiente com mais do que sequer poderia imaginar, e queria se dedicar ao máximo para reter toda aquela informação. Precisava contar tudo para Hermione, pois era uma história tão louca, que talvez a mesma achasse que faria sentido. Mas ela, com certeza, ficaria excitada com toda aquela história sobre o Fidelius.

Além do mais, sentia uma "leve" tensão residual entre ele e Ariel. Se pegou pensando se aquele boato era verdadeiro. Teria ela entrado na mente de Yoh e visto as memórias dele? Isso explicaria a antipatia que a mesma nunca demonstrara e se manifestava agora, no momento em que mais conversaram em todos esses anos. É claro que poderia haver uma outra explicação mais plausível, mas...

Ficou levemente surpreso quando, enquanto saia de Hogsmeade, avistou quem caminhava pelas ruas do vilareja, e acenava para ele.


Olá!

Muitas surpresas nesse capítulo! Um pouco longo, e peço desculpas, mas precisei dividi-lo!

Apresentei alguns conceitos que estavam latejando na mina cabeça, digam-me o que acharam! São fundamentais para essa retomada e o que irá se desenvolver daqui em diante!

Aproveitando, deixem seus comentários, é muito importante saber a opinião de vocês sobre a história e o seu andamento!

Lexas