Capítulo XIV – Eu (não) Quero Ser Draco Malfoy
- Então, Yoh.
- Tio.
- Você percebeu que eu deixei você falar bastante para relaxar, não foi?
- Sabe que eu estou me sentindo até melhor? Tive a mesma sensação antes, mas em algum momento eu sinto que me perdi, como se não tivesse controle das minhas palavras, como ontem.
- Muito interessante isso. Posso ver suas memórias de ontem?
- Quer entrar na minha mente?
- Não, quero que você me dê suas memórias - e caminha para fora da sala, voltando com um objeto e o colocando sobre a mesinha da sala, o que Yoh rapidamente identificou como uma penseira.
- Ok - Yoh toca sua varinha na testa, da qual sai um raio branco leitoso, e o mesmo é direcionado para dentro da penseira. Ele vê aquele momento, no qual ele e Gina arrumavam suas coisas, no dia anterior, próximo ao lago.
- Ótimo. Eu assumo aqui.
- Ei, isso é muito pessoal, não devia estar aqui com o senhor?
- E vai, mas agora vai me atrapalhar. Preciso de um tempo para analisar uma coisa. E tem gente lá fora querendo falar com você.
- Quem... - ele se ergue e olha pela janela, avistando uma moça ruiva sardenta que estava do lado de fora da casa do prefeito. Seus olhos se encontram, mas ela não esboçava nenhuma reação - olha, eu não estou no clima para isso agora, ok, tio! Vamos primeiro...
- Vá falar com a moça, Yoh! Seu pai não te educou para ser um gentleman? Ela veio de Hogwarts até aqui atrás de você, como, só a magia explica! Não a decepcione!
Eles seguem pelas ruas do vilarejo. Ambos tinham uma expressão impávida, mas não caminhavam lado a lado, como sempre faziam. Ele estava na frente, e ela, à distância, seguia-o.
Caminharam um pouco mais. Passaram em frente ao Caldeirão Furado. Como se visse as imagens de fantasmas, podia delimitar o encontro que tivera ali, no qual salvou seu irmão. Olhava para um lado, e via imagens de Rony, Hermione e Harry. Do outro, em pé, Draco e um monte de Sonserinos. Era como se visse um filme, na qual os eventos se repetiam diante de seus olhos.
Mais ruas. Deparou-se com o salão de dança. Era uma lembrança divertida, os meninos e meninas alternando os pares. Yoh prendera Rony com um cipó para que continuassem dançando. Olhando assim, pensava o quanto Yoh era bobo em algumas atitudes, mas divertido.
Lembrou que Crabbe estava ali, também, dançando com Amanda. Parecia mesmo uma eternidade. As coisas eram tão simples naquela época, quando foi que tudo aquilo se tornara complicado?
Eles chegam até uma praça, e param diante de um banco de pedra, o qual não possuía apoio para as costas. Ela se senta, enquanto ele continua de pé. Mesmo com aquela cara séria, Gina dá três tapas de leve no banco, convidando-o para se sentar ao lado dela, o que ele faz, mas do lado contrário, de maneira que estavam sentados um ao lado do outro, mas cada um virado para uma direção, sem se encarar.
Ela cruza os braços, esperando que ele tomasse a iniciativa, o que não aconteceu. Virado e olhando para outra direção, ele estava com as mãos sobre os joelhos e, embora próximos, havia uma distância mínima que impedia que se tocassem.
- ...
- ...
- ...
- ...
- ... boa tarde.
- Boa tarde, Virginia.
- Você está bem?
- Tentando descobrir.
- Eu quis falar com você ontem.
- Já nos falamos ontem.
- Depois. Não o encontrei em lugar nenhum.
- Estava na Torre da Corvinal.
- Ninguém te viu lá.
- Eu estava lá.
- Pedi para te procurarem no dormitório e não o encontraram.
- Eu estava lá.
- Foi o Chaz.
- Eu estava lá.
- Mas... onde?
- Em algum canto onde eu não queria que me encontrassem.
Era estranha aquela reação, pois o mesmo estava se limitando ao mínimo, reagindo diante de suas perguntas, de maneira quase monossilábica. Ela descruza os braços, tentando aproximar a mão esquerda dele de maneira sutil, mas se detém, com medo da reação.
- Você está bem?
- Você já me perguntou isso.
- Yoh, você não quer saber como eu estou?
- Como você está?
- Eu... confusa, eu... fiquei preocupada e...
- Você disse que precisava de um tempo para pensar no que aconteceu, levantou dali e foi embora. Eu fiz o mesmo.
- Eu precisava! Não conseguia entender direito aquilo que você disse!
- Ok.
- Eu acho que fui um pouco dura, talvez...
- Ok.
- Mas você me disse muita coisa de uma vez só, eu não imaginava que a coisa era tão... tão...
Ele respira fundo, como se tentasse pegar um sopro de alguma coisa para juntar a devida motivação naquela conversa. Para Gina, parecia como se ele se forçasse a estar ali.
- O que você quer, Virgínia?
- Você não vai olhar para mim?
Ele vira brevemente o rosto e a encara. Sua postura, a forma como virou o rosto, a respiração... quase toda a sua linguagem corporal indicavam um tipo de incômodo. Menos os seus olhos. Os olhos dele a encaravam da mesma forma que nas vezes anteriores.
Isso deu-lhe mais coragem para abordar o assunto.
- Ontem foi meio agitado, fomos interrompidos, mas eu ainda queria conversar com você.
- Não parecia.
- Eu tentei! Mas era tudo confuso! Era muita coisa para processar! E aquela coisa dos Black...
- Eu não sou um Black, já disse. Qual a parte que você não entendeu?
- Mas você é um Black. De um jeito ou de outro, pelo menos do jeito que me contou.
- Pela última vez, eu não sou um Black. E nunca vou ser. Eu dei aquela volta toda para te explicar aquilo e...
- Você começou a falar um monte de coisa... sua mãe... o passado dela... e você sempre falava dos Black...
Novamente, outro silêncio. Isso a agonizava, porque a simples respiração de Yoh dava a ela a impressão de que sua presença não era agradável. Como se ele estivesse ali, ao lado dela, por mera educação.
- Eu não quero ter essa conversa agora, Virginia. Eu te expliquei tudo o que tinha para dizer. Segunda...
- Já sei, o grande plano da sua mãe para destruir o feitiço Fidelius, você repetiu isso direto. Mas porque está me tratando assim? O que eu fiz a você de tão grave? Do que eu disse, ficou tão magoado? E se fiz, o que posso fazer para você me perdoar?
- Virgínia, olha...
- "Virgínia"... o que houve com "Gina" ou "Moranguinho"? E eu não procurei te dar apoio, sempre?
- Mesmo? Você me olhou com nojo!
- Não foi isso, eu me assustei!
- Eu te estendi a mão e você se afastou!
- Eu... eu estava confusa, já disse! É por isso que está assim, virado de costas? Está com raiva por causa da minha reação? DESCULPE! Eu me assustei!
- Eu te contei os meus problemas mais íntimos, do jeito que você pediu... eu fiz um esforço para falar tudo aquilo, e você só repetia para eu confiar em você, que se "eu não começasse a falar, nossa magia não ia rolar"... e você, simplesmente... me largou.
- Eu não queria! O que eu tenho que te dizer para que acredite em mim?
- Que tal começar a pensar que isso não é sobre você ou nós, mas sobre mim? É a minha vida que está em risco, e eu esperava mais de você... esperava alguma coisa, qualquer coisa - havia um breve lamento em sua voz - menos...
- Eu nunca te vi falando daquela maneira, parecia...
- O que, outra pessoa? Desculpe se eu não sou perfeito, se fico frustrado. Achou o que, que se eu não estou com os olhos vermelhos, é porque não estou chateado com algo?
- Mas eu nunca te vi lamentando daquela maneira! Quando você saiu da enfermaria, depois daquele evento ruim, eu te encontrei com aquela expressão de alegria, como se nada tivesse acontecido! Era como se tivesse sido apenas um dia ruim como qualquer outro! Mas, ontem, você parecia tão assustado, era como se fosse outra pessoa ali, do meu lado!
- É POR QUE EU ESTOU ASSUSTADO! ISSO VAI MATAR A MIM, AO MEU PAI E A IRRESPONSÁVEL DA MINHA MÃE!
- Por que está gritando comigo? Você nunca fez isso! VOCÊ mesmo me disse que nada justifica as pessoas gritarem com as outras! Eu não mereço isso! - ela elevava um pouco a voz, e em seguida diminuía um pouco a tonalidade, encenando indignação e um princípio de choro.
- Depois de tudo o que eu te contei, você não acreditou em mim!
O que a deixou mais assustada naquele momento, dando-lhe uma percepção bem clara da tensão entre ambos, fora o fato dele não ter se desculpado, o que teria feito em outro momento até mesmo diante de uma brincadeira que a tivesse alegrado.
- Mas eu quero acreditar! - ela se dá conta do que diz, tapando sua boca.
Foi nisso que ele se levantou e a encarou.
- Viu o que eu disse? Você acha o que, que tudo isso é uma invenção? Que eu queria só alguém que tivesse pena de uma história triste que eu tinha inventado?
- Eu queria entender sobre o Draco!
- Não tem nada sobre o Draco!
- Claro que tem - ela se levanta, de maneira que ambos agora estavam de pé, encarando um ao outro-! Por que essa fixação pelo Draco que você contou, de onde veio isso?
- Eu nunca te disse isso!
- Então foi um ato falho! Você elogiava o Draco, falava bem da família dele, como eram incríveis...
- Eu não lembro disso! - ele interrompe sua fala - mas elogiar a família dele, isso seria algo que eu sei que diria!
- Foi isso o que eu disse! Você começou falando do Draco e, um pouco antes da Hermione chegar, começou a elogiar os Malfoy... por que?
- Por que o quê?
- Por que você falou tão bem dos Malfoy?
- Eu expliquei porque - ele cerrava os dentes - expliquei TUDO o que você precisava saber!
- Eu entendi - ela devolvia o olhar duro - Mas você não me explicou o porquê! Você não explicou o porquê dessa coisa de querer estar perto deles... você falava deles como se os colocasse em um pedestal, e enquanto eu tocava em você, eu... eu não sei, era como se eu visse um pouco das suas memórias! E mesmo que você tenha explicado explicitamente o motivo, nada justifica você ter essa fixação por eles!
- Você também não tinha me dito que sabia usar legilimência! Se queria tanto saber, era só ter perguntado! Ah, é, eu te contei! O que, pensou que eu estava mentindo?
- Claro que não! Eu também não sei como fiz isso! Mas aquilo que você falava ecoava com o que eu vi! Você talvez não tenha percebido, mas está atrás do Draco! É como se quisesse ser ele!
- Essa é a maior besteira que eu já ouvi! Você está ao menos se escutando?
- E você? E eu não te contei que foi o pai do Draco que armou pra mim aquilo quando eu estava no primeiro ano?
- Ele não representa todos os Malfoy!
- E o Draco? Ou vai fingir que ele também é um santo, que não vive perseguindo os alunos trouxas da escola, usando o poder do pai contra eles?
- Ninguém é perfeito, oras! Parece o seu irmão, julgando-me no ano passado por causa do Crabbe! É tão difícil assim você me julgar pelos meus atos?
- Quais atos você quer que eu julgue?
- O que eu fiz de errado, Virgínia?
- Por enquanto, nada! Mas se continuar com isso, vai se dar muito mal! Você está reclamando da sua mãe, mas está seguindo um caminho mais perigoso que o dela!
- O que eu fiz de errado, Virgínia?
- O que você quer com o Draco, afinal?
- Eu não sei, tá bom! Eu não sei! Eu não tenho um plano, eu só comecei a falar com ele, e é isso!
- Mentira!
- Como é? Já é a segunda vez que você me chama de mentiroso em menos de 24h!
- Você queria falar com o Draco, parecia algum tipo de atração... eu não sei o que é isso, talvez você esteja impressionado por todo o glamour da família dele... mas você só está vendo ele enquanto estudante! Os Malfoy não prestam!
- Por que está me dizendo isso, Virgínia? Que mal eu te fiz?
- Eu só quero o seu bem! Mas você disse que tinha uma fascinação pelos Malfoy, e isso acendeu um alerta em mim! Você disse que admirava os Malfoy, que eram uma família gloriosa, que contribuíram com a criação do Ministério da Magia, influenciaram a história da bruxaria na Grã-Bretanha... mas esses Malfoys a que você alude, não existem. Pelo menos, não mais. São apenas isso: histórias. Eles realmente tem poder, mas o usam de forma errada! Meu pai me contou que o avô de Draco era tão cruel, tão intolerante, que conseguiu derrubar o primeiro-ministro da Magia de origem trouxa!
- Eu sei! Eu sei, ok! Eles não são perfeitos, eu disse que admiro a história deles, não que eu aceito o que eles fizeram de ruim!
- Não dá para ficar se prendendo ao passado, Yoh! Você precisou dar voltas e mais voltas para enganar o Fidelius, mas me deu tantas informações paralelas, que eu finalmente entendi!
- Eu acho que você não me entendeu direito, eu...
- Por favor! Você quer fugir do passado da sua mãe, mas ao mesmo tempo está tão atraído por aquilo que quer te matar, que não consegue pensar direito! Eu só quero te ajudar! Esquece essa baboseira de Malfoy, de Black... ninguém dessa família olharia sequer para você! Nós somos estudantes, temos que nos formar, fazer provas, eu quero...
- Você... quer?
- Hmmm?
- Isso não é sobre você, mesmo. Vê se entende de uma vez. Eu entendo muito bem você me julgar, está surpresa, assustada... mas está me julgando pelos SEUS critérios. E pelo seu ponto de vista, de repente eu não sou mais o Yoh, seu namorado, o cara legal e descolado.
- Eu não disse isso!
- Foi o que você acabou me dizer. Ainda apontou quais são os meus hábitos aceitáveis, e aqueles que você reprova.
- Eu não disse isso! Só falei para deixar essas coisas para lá!
- E você gostaria de escolher o que eu devo deixar para lá, não é? E se eu tiver vontade de chorar por algum motivo, você vai dizer para eu deixar esse problema para lá? Se é uma coisa que causa dor ou prazer, eu devo, assim, deixar para lá, por que isso não condiz com o "namorado perfeito e super bem-resolvido da Gina Weasley"? Por que é isso o que você acabou de dizer, "deixa pra lá", "não traga isso para o nosso relacionamento", "finge que não aconteceu, ok".
- Como você pode ser tão cabeça dura?
- E como é que você que olhou tão dentro de mim, pelo visto... não entendeu nada? - ele novamente cruza os braços, em situação similar à do dia anterior, quando tinha sentido algo estranho - Você resume o que eu estou sentindo a isso, preto e branco, bem e mal... como se fosse uma camiseta que eu escolho vestir, como se muito disso fosse uma opção, e não algo que eu não tenho controle. O que eu sei, é que eu te confessei coisas que eu não conversei nem com o meu pai, e que já estavam acontecendo antes da minha mãe destrambelhar. Eu não tinha medo de contar antes, mas eu não sabia como explicar essas coisas... e até hoje não sei. Talvez eu não tenha dito da melhor maneira possível, mas eu me abri totalmente com você... e mesmo assim, mesmo você conseguindo ver dentro de mim... você me olhou de uma forma que ninguém tinha me olhado. Não era nojo, era... decepção. Era como se, para você, eu tivesse criado uma imagem, uma ilusão, e naquele momento tivesse percebido que era tudo falso.
- Yoh, eu... eu...
- Você entendeu tudo errado. Eu sempre te mostrei quem eu sou, e do jeito que eu sou. Só porque tem coisas acontecendo, não quer dizer que aquilo que você vê, não seja o que eu sou de verdade - ele se vira, dando de costas e seguindo pela rua, deixando-a ali, paralisada - Julgue-me pelas MINHA ações, Virgínia. Minhas Ações.
Ela fica ali parada, alguns minutos, observando-o se afastar. Gradativamente sua imagem vai sumindo na rua, distanciando-o cada vez. Mais. Até que ela se senta naquele banco, frio, com aquele aperto enorme no coração.
A única coisa que a impedia cair aos prantos, era a forma como ele mantivera seu olhar enquanto falava.
Igual a das outras vezes.
- Voltou rápido.
- Já resolvi o que tinha que resolver.
- ... - Sume demonstrava uma leve surpresa na rispidez de Yoh, mas preferiu se dedicar a problemas mais urgentes ou, talvez, tão complicados quanto.
- eu olhe aqui tudo o que você disse para a Gina. Tinha muita coisa acontecendo ontem, e confesso que pulei um pouco aquela confusão com os seus colegas - ele falava em tom irônico, como se as memórias do Yoh fossem um filme -, e vi que você disse para a Gina praticamente o mesmo que dissera para o irmão dela... claro, sem omitir a parte dos Black, e o quão profundo a sua mãe se relacionou com eles. E como você se esforçou para dar a ela tantas informações, mas tantas, que você deveria escrever um livro para leigos sobre artimanhas para burlar o Fidelius.
Yoh deu um longo suspiro, indicando que não estava com muita paciência para aquela discussão, de modo que questionava o que ainda fazia ai.
- Yoh, não seja impaciente, só quero ajudá-lo.
- Todo mundo quer, não é?
- Eu não quero saber da sua reação com a Gina, como você se sentiu bem contando para ela, por que ficou chateado dela não ter entendido o que você me contou. Eu quero que me fale sobre Draco Malfoy.
- Como é? - aquela pergunta o pegou de surpresa.
- Isso que você me ouviu.
- Tio, com todo o respeito - ele aproveita que Ariel não estava mais ali - mas eu acabei de discutir com a Gina por causa disso e um monte de bobagem e...
- Não é bobagem - Sume cruza as pernas - mas acho que é a raiz do seu problema. Sente-se.
- Olhe...
- Senta, Yoh.
- Ok - e se senta - o que quer saber?
- Quero que me responda algumas perguntas.
- E o que isso tem a ver com as minhas memórias? Eu quero saber do que aconteceu antes, da minha oclumência e...
- Isso não é o mais importante. Você discutir com sua namorada, ficar abatido, perder o controle, tudo isso pode ser resolvido com o tempo. Isso é mais importante.
- O que quer saber? Quer que eu jogue mais memórias na penseira? E por que não usa legilimência em mim?
- Por que eu prefiro que você me conte.
- Como é?
- Isso que você ouviu, me fala sobre o que está rolando entre você e o Draco Malfoy.
- Hmmm... eu não sei o que o senhor quer dizer com isso...
- Diga-me você. O que entendeu?
- Hmmmm... que talvez, quem sabe - ele coçava a bochecha, como se tentasse se desvencilhar da pergunta - eu tenha algum tipo de sentimento "não fraterno" pelo Draco? Já adianto que não é o que o senhor está pensando, ok!
- Mas eu não disse nada, Yoh. Quem falou em "sentimento não fraterno" foi você, por que pensou isso?
- Não sei, sua pergunta foi bem sugestiva!
- Certo. Quando foi que começaram a conversar?
- Começo desse período letivo, início das aulas, quando ele foi lá implicar comigo.
- É mesmo? A Ariel disse que vocês ficaram conversando direto durante a partida de Quadribol contra a Sonserina.
- Ariel devia se preocupar em jogar, para início de conversa, pois eu fiquei todo quebrado para pegar o pomo!
- Ah, então é verdade?
- Sim.
- Interessante. Por que não me contou isso antes?
- O senhor perguntou muito rápido!
- Ok. E o que conversaram?
- A gente conversou sobre uns problemas que incomodavam o Draco.
- Durante o jogo? Por que não chamou ele para beber algo no Caldeirão Furado? - Sume tinha uma expressão debochada enquanto falava.
- Eu não tinha a atenção dele, antes.
- Você estava atrás da atenção dele?
- Opa, não foi isso o que eu disse!
- Foi o que você acabou de dizer, "Eu não tinha a atenção dele, antes".
- Nãonãonãonãonão, o senhor entendeu tudo errado, eu quis dizer que o Draco nem sabia que eu existia, antes!
- Vamos dizer que seja exatamente isso que você disse, pelo bem dessa nossa investigação.
- Investigação?
- Eu era do setor de crimes e fraudes, lembra? Legilimência não era o único caminho para se chegar a uma verdade.
- E qual é essa verdade?
- Vejamos... quais eram os problemas que incomodavam o Draco?
- Fácil. Ele tinha inveja do Potter.
- Previsível. E o que descobriu?
- Problemas paternos. Ele sentia que não correspondia à expectativa do pai. Falei que ele deveria fazer seu caminho e sair da sombra do pai.
- Espera um pouco - ele coçava a cabeça - escutei direito? Enquanto batiam suas vassouras, deu conselhos ao Draco Malfoy... sobre Lucius Malfoy? Eu acho que eu é quem fui vítima de um ataque de Legilimência e...
- Antes que o senhor pergunte, eu não tinha percebido que ele estava ali. Quando me acusaram de fraude, subi pela parte de trás da arquibancada dos professores, e não tinha me dado conta, juro.
- ... - Sume estava de boca aberta, tentando pensar na possibilidade daquilo ter acontecido, daquela maneira. Quais as chances?
- O que foi?
- Mas... por que?
- Hmm?
- Por que o Draco?
- Olha, tio... eu não sei te explicar, mas essas coisas foram acontecendo, eu... no começo do período, eu recebi uma carta do Vincent...
- Vincent?
- O Crabbe, lembra?
- Ah, sim! O ex-namorado daquela sua amiga, a Amanda!
- Isso. Daí o Draco foi até a minha mesa, quer dizer, eu estava na mesa da Grifinória, quando recebi uma carta do Crabbe. Na verdade, antes mesmo, outro dia, ele descobriu que eu deixei umas plantas no trem de Hogwarts, e ele ficou se coçando durante as férias e...
- Fez uma pegadinha com o Malfoy?
- Sim.
- E assim, ele deixou para lá?
- Tomei um soco. Continuando, ele queria a carta do Crabbe, pensou que era dele, era para mim. Começou a me xingar e o lembrei de que combinamos dele parar de me xingar se eu o vencesse. Estendi isso para a Gina.
- Quando foi isso?
- Primeira semana de aula, o pessoal ainda estava surpreso com a "didática" da minha mãe e...
- Não, eu quero dizer QUANDO fez esse combinado?
- No jogo contra a Sonserina.
- Então, vamos ver... jogou Quadribol contra Draco Malfoy... deu conselhos sobre a relação paterna dele... e ainda fez um acordo de não agressão?
- Um pacto, ele estava me chamando direto de sangue-ruim, e era como uma forma de reconhecer que eu era alguma coisa.
- E isso tudo foi acontecendo assim, aleatoriamente?
- Não. No ano passado, depois do jogo, nos desentendemos de novo, ou algo parecido. Fiquei chateado, antes ele tinha ido me cumprimentar e disse que ia torcer por mim, mas depois rolou uma confusão com o Crabbe e...
- Opaopaopa... Pela minha contagem, nós temos: papinho em lugares improváveis, conselhos fraternos, pacto de camaradagem e... demonstrações públicas de respeito?
- O senhor está... distorcendo um pouco as coisas. Eu comecei a me entender com ele mais agora, nesse ano.
- Eu uma vez escutei uns alunos de Hogwarts falando sobre esse tipo de relacionamento, no Caldeirão Furado. Era uma palavra trouxa, acho que era "broderagem".
- Isso significa outra coisa!
- Pode ser, mas na minha terra isso é chamado de "amizade".
- Eu não acho que ele me considera um amigo, amiiiiiiigo!
- Não?
- Não, eu andei sacaneando ele, também. Tinha jogado um fruto podre nele, e só depois do jogo é que fui dizer como isso saía.
- Mas ele sabia que você tinha feito isso?
- Claro!
- E como ele descobriu sobre as plantas da coceira no trem?
- Eu contei.
Sume mordia o lábio, enquanto tentava formular o que dizia.
- Mas ele parou de implicar com a Gina nesse período, sabia?
- Ele fazia isso? Por que?
- Sei lá, transitividade. Ele odeia o Harry Potter e seus amigos mais próximos, como o Rony.
- E o que mudou?
- Eu pedi para ele parar. Estava incluso no pacto.
- Juro que eu queria que minha filha estivesse aqui. Sua mãe me disse que recebeu uma carta do Draco, avisando sobre o seu estado.
- Qualquer aluno teria enviado, tio. O Draco mesmo já disse para eu não começar a ter ideias.
- Ideias?
- Ideias.
- Não sou surdo, Yoh! O que ele quis dizer com "ideias"?
- De que somos amigos.
- É como uma garota que diz que o compromisso não é sério, mas não desgruda, não é?
- Vou fingir que não entendi!
- Sua mãe acha que ele está gostando de você.
- Eu gosto de voar. Mas não quer dizer que eu perderia uma prova para fazer isso.
- A sua analogia não foi muito boa.
- Tá, mas ele disse explicitamente para que eu não criasse falsas ideias.
- Ah, você acreditou, não foi? O que estavam fazendo quando ele disse isso?
- O que quer dizer com "fazendo"?
- Você sabe muito bem, ele não te parou no corredor entre as aulas, disse "não tenha falsas ideias" e foi embora.
- Era véspera do jogo contra a Grifinória... e talvez eu tenha sugerido que ele se sabotava.
- Espera um pouco... como é que o herdeiro de uma das famílias mais aristocráticas que existe estava prestando atenção a conselhos motivacionais de um "júnior"?
- Estávamos caminhando no corredor à noite e...
- Muito suspeito.
- Quer parar? Eu não planejei isso!
- Vamos lá: papinho em lugares improváveis, conselhos fraternos, pacto de camaradagem, demonstrações públicas de respeito, conselhos motivacionais, conversas após o expediente escolar... se esse cara não é seu amigo, então com certeza você e a Gina possuem algum tipo de relacionamento aberto!
- O que é um relacionamento aberto, tio?
- Hmmm... um dia eu te explico. É um termo trouxa que eu aprendi. Por que concluiu que ele se sabotava?
- Sei lá, eu achei que tinha uma frustração atrás de uma outra frustração. Ele reclamava que era muito cobrado de maneira não velada, e sempre perdia para o Potter. Mas me pareceu que ele transitava o insucesso dele no Quadribol, a um reflexo de decepção. Ele queria se provar, como se tivesse que ser perfeito em tudo, e não estivesse à altura...
- ... do nome "Malfoy" - Sume estava sério, mas sua interrupção teve um peso a mais, pois Yoh tinha percebido uma mudança no seu tom de voz, como se aquele ar de brincadeira tivesse se esvaído - Sabe que você tem talento para orientação? Depois que entrar na escola de Medi-bruxos, devia considerar uma faculdade de Psicologia no mundo trouxa, como eu. Tem uma geração mais recente de medi-bruxos que estão mesclando alguns conceitos, principalmente no atendimento aos que sofreram traumas.
- Tio, o Crabbe foi embora de Hogwarts por minha causa, não acho que sou a melhor pessoa para fazer disso uma profissão.
- Mas ele fez uma escolha, não foi? Quem está julgando se foi boa ou ruim, é você.
- Eu não disse isso.
- Claro que disse, não me venha com isso. Dizemos coisas a todo momento por meio da linguagem que expressamos, não se faça de sonso. Usamos a todo momento mais do que palavras: linguagem corporal, sinais, formas de olhar... meu professor de Legilimência era especialista em semiótica da legilimência, ele combinava de uma maneira sutil essa arte de tal forma que, antes dele entrar na mente de alguém, conseguia ter um quadro completo da pessoa.
- Seu mestre foi uma pessoa complicada. É uma pena que o Crabbe não está aqui.
- Era o melhor, ou o que você preferia?
- Preferia. Acho que... não, hoje eu queria que ele estivesse aqui do meu lado.
- Você virou amigo de um cara que tinha medo do Draco... e, com o tempo, desenvolveu um tipo de amizade com o Draco. Sentimento de culpa de deixá-lo sem apoio?
- Hmmm? O Crabbe?
- Não, o Draco! Sentia que queria compensar o Draco por algo?
- Eu não estou entendendo!
- O Crabbe é grandão, não era? Um "pequeno-grande-armário". Ele era um tipo de capacho do Draco, e foi embora por causa disso. Mas eu acho que você já desenvolvia sentimentos bem antes, e para compensar acabou virando esse novo cap... aham, "substituto do Crabbe".
- O quê? - Ele se levanta, indignado.
- Pensa bem, o Draco tinha um brutamontes para intimidar as pessoas e resolver os seus problemas... agora ele tem a você!
- E qual raios de problema do Draco eu resolvi? Eu nunca levantei um dedo por ele!
- Não? Mas acabou de dizer que bateram um papo longo durante o jogo de Quadribol, e que depois ele apertou a sua mão na frente de todo mundo! Ele poderia apenas ter trocado um olhar no corredor, feito um comentário em QUALQUER lugar... mas esse tipo de demonstração pública é também um ato de gratidão.
- O senhor está forçando muuuuuuuuuuuuuito a barra, tio!
- Então é coincidência ele ter ganho o jogo contra a Grifinória depois da última conversa noturna?
- As pessoas melhoram. Por isso que a gente treina!
- Ele não melhorou, ele introjetou alguma coisa que você falou para ele, oras!
- Eu não introjetei nada em ninguém, seja lá o que isso for!
- O que você disse para ele, naquela noite?
- Que ele se sabotava, que a vassoura dele era uma muleta e...
- Não, especificamente, o que você disse para ele?
- É que faz tempo, mas eu disse para ele parar de ficar se lamentando, e que devia ter orgulho de ter se levantado depois que fora atingido por um balaço na vez que nós jogamos.
- Você disse explicitamente que tinha orgulho dele?
- Não, eu falei que ele deveria se orgulhar dos seus próprios feitos, mesmo que ele não achasse que fossem irrelevantes, ou algo parecido. Mas dei a entender que respeitava esse tipo de coisa.
- Interessante.
- O que?
- Nada. E o que mais disse?
- Eu realmente não lembro, tio.
- Vamos lá, Yoh! Isso é importante, force um pouco, vamos!
- Olha, eu não lembro! Quer usar a penseira?
- Não!
- Para que serve um Legilimente se ele não quer ler a mente das pessoas quando precisa?
- Yoh, um dia você realmente vai me agradecer. As memórias nem sempre são simples. Lembrar de algo é também reconstruir aquela informação - ele pausa - considerando toda essa situação, o que você acha que teria dito para o Draco?
Ele pensa. A memória era muito difusa e confusa, pois parecia realmente uma eternidade, embora aquilo tenha ocorrido há não muito tempo, antes do recesso de natal. Tentava delinear o momento, sua caminhada, o contato com o Draco, era interrompido por uma memória paralela ao serem interpelados pelo Potter e pelo Professor Lupin...
- Eu diria para ele superar as próprias fraquezas, transformar esse ódio em força e virar o jogo no qual estava perdendo. Algo assim.
- E ele virou! Ele ganhou o jogo, não entende? Introjetar é fazer com que uma pessoa interiorize alguma coisa.
- Eu não fiz nenhuma magia no Draco!
- Uma das formas da introjeção são os fenômenos orais... esses seus "rolês" aleatórios com Draco o influenciaram de alguma maneira... o fizeram acreditar em algo, como se fosse algo intimamente seu...
- O Draco voa bem, ele não é tão ruim quanto acredita, oras!
- Eu acredito. Mas ele acreditou que podia vencer, ali. Ele superou a figura mítica do Potter, entende? Na psicologia, temos o conceito de arquétipos. Eu sei que você não sabe o que é isso, mas estão associados aos nossos comportamentos e papeis sociais que assumimos. O Harry Potter, obviamente, representa para muita gente a figura do "herói", aquele que irá superar as dificuldades e que tem poderes transcendentais.
- Herói? Tio, isso aqui é vida real!
- Pensa bem, a Ariel me contou uma vez que, naquele dia que vieram aqui, e me apresentou a Gina, acabou que ela e Draco ficaram em detenção, mas no dia seguinte você não a encontrava e foi até o Draco e, como ele se recusou a responder, você foi direto aos professores, ali, na frente dele.
- A Ariel anda prestando MUITA atenção na minha vida.
- A gente não se mete nas suas amizades, mas não quer dizer que não ficamos de olho para você não fazer besteira. Lembra o que aconteceu, não é?
- Eu olhei na cara do Draco, e ele disse que não sabia de nada. Foi a primeira vez que ele olhou nos meus olhos e que eu toquei diretamente nele. Como ele não respondeu, fui até a mesa dos professores e a professora Minerva fez o Draco se levantar para dar satisfação.
- Como um irmão caçula irritado com o irmão mais velho que recorre a uma figura de autoridade maior para resolver um problema.
- Besteira! Eu nem pensei nisso!
- Falou com a Minerva, não foi?
- Sim.
- Ou seja, a "mãe". Ou "grandmother", se preferir. A figura da conciliação.
- Um dia eu vou escrever um romance com essas suas ideias.
- Não seja condescendente... mas o que eu quero dizer é que você, por motivos óbvios, é o "sábio", o conselheiro, aquele que alguém vai procurar para tirar dúvidas.
- Ele não me procurou para conselhos, oras!
- Não? E como acabaram conversando nesse dia, dessa vez?
- Hmmm... ele me mandou um convite... para a torre da Sonserina.
- E só agora você me conta isso?
- Era melhor ter usado a penseira! Mas se o Potter é o Herói, o Draco não deveria ser, sei lá, o "vilão"?
- Não da sua própria "narrativa". A figura do Harry é muito poderosa, e todos esperam que o herói sempre vença, afinal, é o herói. "O Escolhido", "O Abençoado", "Aquele que tem sangue dos deuses".
- O menino que sobreviveu.
- Exato. Draco estava acomodado a esse papel, basicamente um coadjuvante da história de outro. Os heróis são seres com procedência divina, e nas lendas antigas, só esses venciam as grandes provações. É como Hércules, esse com certeza você conhece, que venceu a Hidra, a grande serpente, sendo, ambos, de filho ou criação dos deuses... então o Harry assume o manto de figura mítica ao derrotar o maior bruxo das trevas de todos os tempos e, simbolicamente, isso reflete na forma como o Draco, e tantos outros alunos, reagem a ele, percebe?
- De tal maneira que o Draco poderia achar que o Potter tinha mais atenção do seu pai, do que o próprio filho?
- Isso! Mas, de alguma forma, ele introjetou uma outra coisa, uma outra verdade... algo que ficou enraizado de maneira tão profunda, que refletiu na sua postura durante o jogo.
Yoh de repente olha de maneira fixa para Sume, como se tivesse se dado conta de todo o contexto.
- Caraca... eu fiz a minha namorada perder o jogo!
- Foi! Mas eu mantenho segredo!
- Obrigado! O pessoal da Grifinória vai me odiar em peso se souber disso! Mas como isso é possível? Ele passou a jogar melhor... só por que começou a se enxergar como o herói... como o protagonista da sua própria narrativa?
- Há poder nas crenças, Yoh.
- Poder é poder, tio. Alguns tem, outros não tem.
- Eu não vou discutir isso com você, vá conversar sobre esse assunto com a sua mãe. Mas, veja... você é da Corvinal, a casa da inteligência, da sabedoria... e o Draco é da Sonserina, a casa dos ambiciosos... mas a serpente também é um símbolo de renovação e ressurreição, pois troca de casca. Entendeu?
- Espera um pouco, isso quer dizer...!
- Calma, quero que você pense profundamente no que eu vou te perguntar, e reflita com muito cuidado antes de me responder, ok? Por que o Draco te escutou? Não estou falando dele escutar a sua voz... mas o que você acha que fez de tal maneira para ele "escutar" você, a ponto de você virar "aquele-que-tem-a-atenção-de-Draco-Malfoy"?
Yoh se levanta e começa a andar pela sala. Era uma resposta muito ampla e precisa. E, ao mesmo tempo, capciosa. As perguntas de Sume eram uma verdadeira genealogia dos últimos acontecimentos. Era alguém que lia as informações e tecia interpretações. Para diante de uma parede, e fica encarando-a como se contemplasse o infinito. Fica 15 minutos assim, até que retorna para o lugar onde estava sentado.
- Quando eu sai da enfermaria pela primeira vez, eu fui até o Salão de jantar. Antes, eu tinha feito um breve recital na torre da Corvinal. Meu pai tinha me enviado o violino bem antes, e passei as últimas semanas, antes e durante a internação, praticando.
- Com o violino?
- Sim.
- O Amati?
- Sim. A Amanda pediu para eu tocar algo, dar uma palhinha.
- Sua mãe sempre adorou música clássica. Lembro que ela comentou que quase te jogou pela janela por que você tocou música barroca, diante dos pais de Carlos. O que tocou dessa vez?
- A Glória de Seizer.
- A Glória de Seizer?
- A Glória de Seizer.
- A favorita de...
- Essa mesma.
Sume abaixa os olhos, como se estivesse escolhendo lentamente suas palavras.
- Arte Malfoy.
- Arte é arte, tio.
- É uma canção amaldiçoada, Yoh.
- É o que dizem.
- Ela é. Há condições muito específicas para tocá-la, já considerou que pode ter sido isso que fez você ter um ataque naquele dia?
- Foi um cachorro.
- Talvez. Mas você cumprir com todos os requisitos para tocá-la... tão precisos... tão... específicos... em toda a minha vida eu só conheci uma pessoa que a tocou.
- Parecia uma boa escolha.
- Claro que sim! - ele ria - Você não escolheu essa por acaso.
- Foi a primeira que a minha mãe me ensinou, quando eu tinha 3 anos de idade.
- O que faz todo o sentido... mas você sabia que o Draco estaria ali, não é?
- Eu não fazia ideia, tio.
- Podia ter tocado qualquer outra coisa... mas tocou arte Malfoy e sobreviveu para contar a história... esquece a alergia, tocar esse violino e essa música...
- Enfim. Depois que eu fui para o hospital, o violino sumiu. Um dia, uma aluna da Sonserina apareceu com o mesmo, e parecia como novo. Acho que quebrou quando caiu no chão, e o Draco mandou reformá-lo, como uma cortesia.
- Cortesia é dar parabéns para colegas de trabalho. Para restaurar esse violino, ele deve tê-lo enviado para a Itália. Um primogênito Malfoy tocou nesse violino, mandou consertá-lo e devolveu aquele que reconheceu como músico.
- Ele deve ter ficado surpreso, pois perguntou por que eu tinha aquele violino, deve ter achado que era caro demais para eu ter.
- Claro que não. Concertá-lo é algo MUITO específico. Draco ficou curioso em saber tudo sobre você no momento em que você tocou aquela música. E você queria a atenção dele.
- Ai, tio...
- A gente já falou sobre isso. Você sempre fala para julgarmos as pessoas pelas nossas ações, não é mesmo? O que aconteceu depois?
- Conversamos na torre da Sonserina, sobre muitas coisas, falei que quase fui para a Sonserina...
- Você devia estar bem à vontade para falar uma coisa dessas e achar que sairia vivo dali.
- A gente estava "trocando figurinhas". Conversei que consigo muito material de estudo por contatos no ministério da Magia, ele disse que tem aulas extraoficiais. Ele disse que o concerto era um pagamento pela música. Então eu toquei uma outra música para ele.
- Ai está. O presente. Aquilo que nos une a outras pessoas. Há toda uma representação simbiótica ao ato de dar um presente, pois isso o conecta a outra pessoa. O que você tocou?
- Heart of the earth.
- Essa música é uma marcha... e você tocou para ele na véspera do jogo. Entendeu?
- Eu acho que sim. Ele depois chamou o time da Sonserina para escutar a música. E os demais alunos foram se achegando. E acho que gostaram.
- E você acha isso por que...?
- Fui aplaudido.
- Yoh - Sume tocava em seus ombros - quando alguém fala em nome de outra pessoa, se apresenta em nome de outro, é um ato de confiança e reconhecimento. Ariel, em Hogwarts, sempre será vista como a filha do prefeito de Hogsmeade. Assim como Draco e o pai dele. Aquele foi o momento em que você foi apresentado à toda a Sonserina, foi a sua recepção. Foi a versão Sonserina do chapéu seletor, e quem o colocou na sua cabeça foi o Draco. Ninguém quer apresentar para outro um conhecido que dá problemas, mas ele o apresentou diante daquele bando de bruxos preconceituosos, reconhecendo a sua qualidade.
- E o que isso significa?
- É uma relação simbiótica! O herói é reconhecido pelo sábio, e o sábio é aquele que orienta o herói. Draco reconheceu em você algo além do que a maioria diria... e você o introduziu a uma espécie de rito iniciático!
- Por Merlin, tio! O senhor deveria escrever ficção e - ele se dá conta de que, enquanto ele e Draco conversavam no corredor, conseguira evitar que Draco fizesse uma besteira - hmmmm... acho que, talvez, o senhor tenha razão, por que... eu evitei que o Draco brigasse com o Potter, ainda naquela noite.
- E você fez isso como...?
- Ele estava segurando o pescoço do Potter, e o professor Lupin estava bem ao lado. Convenci Draco que isso poderia prejudicá-lo no jogo. Ele reclamou, dei de costas e fui embora, chamando-o.
- Assim, como se acenasse para um cãozinho?
- Não! Claro que não! Disse que queria terminar a conversa. Daí ele me seguiu, irritado.
- Ou seja, você resolveu MAIS UM problema dele, como se fosse o Crabbe. Yoh, me diz uma coisa, mas com muita sinceridade, ok! Eu parei com a contagem do "ranking da amizade" entre vocês dois, então me diga quando foi a PRIMEIRA interação entre ambos - ele apontava o dedo para Yoh - e não minta, ok! A Primeira, não a que você me contou! Não quero saber quando o viu, quando esbarrou, acha que ele olhou para você... quando foi, de fato, que vocês travaram contato pela primeira vez?
Não precisou pensar muito. Era uma memória muito clara e lúcida.
- Foi quando ele implicou com a Cho. Um aluno da Lufa-Lufa estava discutindo com o Draco pelo comentário ácido dele, na época, você sabe, ele costuma fazer isso, é o jeito dele. Ele gosta de falar em voz alta para que as pessoas saibam as suas opiniões. Na época a Cho estava num lance com o Potter, por isso ele implicou com ela.
- Transitividade.
- Isso. Um aluno da Lufa-lufa foi reclamar, o Draco veio todo exibido dizendo que os demais não tinham grande chance, dando a entender que a preocupação com a Cho era exagerada. Eu não gostei e o confrontei.
- Foi até ele?
- Mais ou menos... como estávamos no meio de um monte de alunos, debochei dele à distância, falei que ele também perdia para o Potter. Ele ficou super irritado por que só escutou a minha voz, mas não sabia quem o estava provocando.
- "É melhor ser um covarde vivo, do que um herói morto".
- Exato!. Fiz isso mais uma ou duas vezes. Acho que ele reconheceu a minha voz quando fui perguntar pelo sumiço da Gina, e como eu a estava paquerando, a gente ia acabar se encontrando por...
- Já sei, transitividade. Mas isso tudo foi antes do jogo de Quadribol contra a Sonserina - Sume descruza as pernas, olha brevemente para o alto e torna a olhar para o rapaz - Yoh... você sabe o que é alteridade?
Yoh pensou rapidamente na expressão. Tinha similaridade com "alteritas", "outro", em latim. "Alterity". De "alter", "alterar", e "ity", "qualidade de". - Hmmm... é tipo, mudar para outro?
- Mais ou menos. Tem mais a ver com uma mudança a partir do outro. Em resumo, é a ideia de que aquilo que somos, só o somos na nossa relação com outro. Se você é filho de alguém, é por que, igualmente, há uma pessoa que é mãe de alguém. Jane teve um filho, mas foi você quem a tornou mãe, entende?
- Quer dizer, o professor Flitwick só pode receber esse título por que tem alunos?
- Isso! Alguns dizem até que não são mais professores porque não ensinam mais, mas isso já é outra questão. Observa a rivalidade entre Grifinória e Sonserina: há um embate na qual temos duas casas diferentes, com suas próprias culturas, e isso dá origem a fraternidades que se estendem para além da escola. Grifindor era o "campeão dos trouxas", e Salazar, "o símbolo doas nascidos bruxos". Mas é no contato com o outro que nós podemos atingir a plenitude daquilo que somos, compreender quem somos. Você, em casa, é filho de Daniel e Jane, mas certas coisas, certos aspectos da sua personalidade, você só começou a entender quando teve contato com um "outro", como os seus colegas da Corvinal.
- Alteridade significa "o outro", então?
- É mais amplo, mas isso é um conceito muito vasto. Resumindo de outro maneira: eu passo a me entender na medida das minhas relações com o outro. Esse outro pode ser o oposto do que eu sou, ou complementar. A sociedade bruxa vive isso, na sua relação de alteridade com a trouxa. Mas se você pegar algumas coisas, como várias invenções bruxas que foram inspiradas no mundo trouxa, verá que essa alteridade pode ser tanto de complementação e, em outros casos, de aceitação.
- O Draco é o meu outro? – ele se assusta com suas próprias palavras.
- Claro!
- Em que? Eu não tenho nenhum problema com ele, mas a gente nem é tão próximo assim!
- Você está se repetindo, já disse! O Draco é aquilo que você não é. E, ao mesmo tempo, o que te atrai. Vocês dois possuem uma relação simbiótica confusa que, no dia a dia, a gente chama de amizade, na qual "olhar" e "escutar" as vezes se confundem. O "olhar" é o primo do desejo, e o "escutar", sobrinho da veneração. Você admira o que ele é e pode vir a ser, e ele, tem uma fascinação sobre você, sobre esse seu potencial, essa sabedoria que se confunde com magia, mas aparentemente nenhum dos dois percebeu isso.
- ...
- Confuso? Você disse, implicou com ele, não foi? Você xingou, deu nomes... ao nos dirigirmos a alguém, gostando ou não dessa pessoa, estamos nomeando-a, ou seja, reconhecendo-a.
- Engraçado, isso até faz sentido, uma vez alguém que eu não lembro o nome disse que eu era um grifinório porque estava ao lado do Rony, quer dizer... me enxergava na relação com os outros ao meu redor.
- Quando você se dirigiu ao Draco pela primeira vez, você reconheceu que ele o incomodava, que o afetava... e você já disse que, nesse tempo todo, volta e meia estavam brigando, como se ele fizesse algo que te irritava... que te alterava. Esses anos todos você não lhe dirigiu uma palavra, e então...
- Desculpe, tio, mas acho que foi aleatório.
- Você passou a implicar com ele antes, ou depois de fazer o teste para o Quadribol?
- Ora...
- Tudo bem, a Ariel me contou, disse que depois que passou no teste, quase se meteu em uma briga com o Malfoy quando teve coragem de falar com a Gina. Quer dizer que sua vontade de interagir com o Malfoy foi anterior ao contato com a Gina.
- Eu estava "de olho" nela, antes.
- Mas não tomou iniciativa antes do teste, não foi? Mas o Malfoy te incomodou tanto...
- Queria o quê? Ele falou mal da Cho! Perdi a paciência!
- Por que ele falou mal da Cho... ou por que você não engolia o fato DELE falar mal da Cho?
- OS DOIS! - Ele se dá conta do que dissera - espera, eu ia dizer...
- Ai, ai... Yoh, você... por mais bizarro que possa soar, você vê o Draco como um irmão mais velho, é um irmão caçula que busca algo de especial no outro. E essa a relação de vocês.
- De novo essa coisa de fraternidade, o senhor insiste muito nisso!
- Quando foi que ele te elogiou pela primeira vez?
- Ele disse que eu era esperto. Também disse que daria um bom servo. Mas que eu era esperto. Foi no jogo.
- E, de tanta coisa, você lembra disso, com tanta precisão?
- É porquê... eu achei isso importante - ele percebia o que Sume queria dizer.
- Você é o Sábio, Draco, o Herói. Mas o Sábio não atua sozinho, ele tem todo o conhecimento, mas precisa daquela coisa mágica, sobrenatural, quase como predestinada do Herói para agir. O Herói, por outro lado, reconhece essa relação com o Sábio, alguém que tem muito conhecimento e pode indicar o caminho correto com bons conselhos, já que o Sábio é aquele que tem a revelação divina, mas não tem a autorização para usá-la: tem que dar para o Herói fazê-lo. Mas um, numa relação de alteridade, depende do outro. Você, na sua narrativa, é o herói. Mas na narrativa do Draco, você se elegeu como o Sábio sem perceber, e o Draco o reconheceu por isso. O Draco é para você o arquétipo do irmão mais velho que assume a liderança da família na ausência de um pai fraco ou ausente, e o Sábio ou, em alguns casos, a figura arquetípica do companheiro e ajudante, espera grandes coisas dele, e sente que ele deverá ser provado.
- Mas isso é vida real, tio! Não é ficção! O senhor fala em "narrativa" a todo momento!
- Mas eu vi aquela memória, Yoh. A Gina não conseguia entender o que você pretendia com o Draco.
- Eu não pretendia nada! - Ele aumenta o tom de voz - A Gina praticamente jogou isso na minha cara, como se eu tivesse um plano oculto para o Draco!
- O que você pretende com o Draco, Yoh?
- Nada, já disse!
- O que você pretende com o Draco, Yoh?
- Eu não quero nada, mal tenho tempo para arrumar os problemas da minha vida!
- O que você pretende com o Draco, Yoh? Você não entende que essa é a base de todo o seu problema?
- Por que o senhor não acessa logo a minha mente, droga?
- O que você pretende com o Draco, Yoh?
Ele bufa pesadamente, e por um minuto Sume pensa que ele iria explodir de irritação. Havia uma respiração pesada ali, mas ocorre o contrário: o ritmo vai diminuindo, até que ele fecha os olhos e abaixa a cabeça, falando muito baixo.
- Eu não quero nada com o Draco... mas eu ficaria feliz se ele pudesse ser uma pessoa melhor do que o pai, e... - Yoh ergue os olhos, enquanto demonstra uma determinação muito clara na maneira que olha para Sume - eu acho que ele seria um lorde Malfoy digno, diferente do pai. Teria muitos problemas, mas... poderia ser como os Malfoy foram, um dia. E não essas gerações doentes que pregam a pureza do sangue... aqueles Malfoy que, embora tivessem uma boa dose de arrogância, entendiam que havia uma dicotomia bem singular entre as sociedades trouxa e bruxa.
- Ohohohoh! Que pensamento ousado, você acredita mesmo nisso?
- A gente só pode ter expectativas de um amanhã melhor, não é mesmo?
- Ajudaria ele?
- Como?
- Daria suporte a ele?
- Que raios de pergunta é essa, tio?
- É uma pergunta, simples.
- Tio, "querer" e "poder" são coisas muito diferentes... a gente está na escola, mas fora dele, para todo mundo a minha mãe será uma "traidora do sangue". - Ele para um pouco, e pondera sobre a pergunta - mas eu nunca viraria as coisas para um amigo.
- Ahá! Olha só, finalmente você admitiu! Ele é seu amigo, Yoh!
- Não quer dizer que ele me considere.
- Mas é isso que é a base do sentimento de fraternidade. Eu estou surpreso como alguém que parece ter uma mente aberta para amizades, não entendeu isso ainda: a função dessas relações fraternas não é nos unificarmos com o diferente, mas aprender a diferenciar essas semelhanças... porque a mais primordial experiência da alteridade, começa com o irmão. Quando criança nossos pais nos amam, nos mimam... mas porque acha que irmãos vivem brigando? Cooperar, ser leal, aceitar... bem como ser hostil, ter inveja e rivalidade...
- Mas, tio... essas relações fraternas muitas vezes são cruéis! E por acaso em todas essas guerras bruxas, não tivemos primo contra primo, irmão contra irmão?
- Mas é com essa figura do irmão que aprendemos a desenvolver, desde cedo, a horizontalidade das nossas relações, Yoh. Como é que VOCÊ não percebeu isso? Você defendeu o Crabbe do irmão da sua namorada, o que pensou? Não sabia que ele era um valentão? E por acaso essa amizade não começou porque você percebeu que ele estava com... medo?
- Eu acho – ele coça o nariz – que entre o que o senhor TEORIZA, e a realidade, há um grande abismo. É muito bonito o que o senhor diz, mas...
- A cara do Rony era essa, também. Só porque escutamos algo que nos soa como absurdo, passamos a tratar isso como improvável. Mas eu queria que você entendesse que o seu problema aqui não é a perda da oclumência, mas um choque de identidade. Você pensa que começou recentemente, mas na verdade está passando por experiências antes mesmo de começar a namorar com a Gina.
- E de que isso me adianta?
- Em tudo! Tudo muda, tempo, lugar... e pessoas! De repente, toda aquela cultura Malfoy que você sempre ouviu falar, começou a interagir com a sua vida! E, simbolicamente, você a corporificou no Draco! Não é ele que propriamente te fascina, mas o que ele representa, o que é e pode vir a ser! E é por isso que você não tem medo dele, ao passo que fica intimidado com o pai dele! É exatamente o que você disse para o Rony, atrair-se perdidamente por aquilo que pode te matar!
- Foi o que assustou a Gina.
- Isso acontece. Mas, escute: eu não sou o seu pai para dizer que você é um adolescente passando pela puberdade, mas tem coisas acontecendo com você que o fazem achar que é uma pessoa diferente do ano anterior! Você é como um afrodescendente cuja família mora há gerações em Londres mas, de repente, começa a ter um sentimento de aproximação e sentimento a uma cultura que seus pais não tiveram contato, mas ele desenvolve sentimentos de pertencimento.
- Mas o senhor não me respondeu de que isso me serve! O que o senhor quer que eu faça? Tio, eu estou desesperado, a minha mãe vai fazer uma besteira programada, e isso tudo não vai me servir de nada!
- Você não sabe, Yoh.
- Mas eu não tenho confiança! O Lorde das trevas mandou matar a minha mãe por causa do poder e conhecimento que ela tinha, não foi só porque ela era neutra! Meu pai é trouxa, e não venha me dizer que vão nos proteger, ou esqueceu o que aconteceu com os Bones?
- Aquilo foi diferente, foi uma...
- Diferente do que? A gente se escondeu, mas até hoje tem gente assustada!
- Yoh, a sua mãe fez isso por você. Quando ela soube que você tocou "A Glória de Seizer"... ela percebeu que devia deixá-lo livre para escolher seu caminho.
- Escolher a morte? E se eu escolher ser o que eu sou agora?
- Não é assim que funciona as coisas. Você ficaria a vida toda agoniado, com um sentimento de distanciamento e...
- MAS ESTARIA VIVO!
- Yoh, se acalma!
- PARA DE MANDAR EU ME ACALMAR! TODO MUNDO DIZ ISSO, O SENHOR, MINHA MÃE, A ÚNICA PESSOA QUE ME ENTENDE É O MEU PAI, E MESMO ASSIM ELE CONCORDA COM ELA!
- E o que você quer, Yoh?
- EU SÓ QUERIA QUE TIVESSEM ME ESCUTADO! ERA SÓ ISSO! EU VIVO, EU AMO, EU TENHOS AMIGOS, EU TENHO, OU ACHO QUE TINHA UMA NAMORADA... e isso me bastava - ele volta o tom ao normal, como se estivesse esgotado - tio, por favor, eu não sei o que fazer! Eu não quero que o meu pai e a minha mãe morram... eu não quero morrer! - ele se senta, cobrindo as mãos com o rosto - eu não quero viver aventuras, me envolver em confusões, eu... eu...
- Yoh - Sume coloca a mão na sua cabeça - eu não tenho um bom conselho para te dar... mas você vai ter que passar por isso, de um jeito ou de outro. Essa escolha envolve você descobrir o que você é, de fato, e aquilo que irá se tornar.
- Não foi minha, com certeza! Eu sou um bom aluno, nunca dei problemas, tinha planos, minha mãe não tinha esse direito! Ela decidiu tudo pela minha vida, escolheu aquilo que eu deveria ser, por que ELA ACHAVA QUE ERA O MELHOR PARA MIM! De que adianta essa baboseira toda de Draco que o senhor está falando, de identidade e tudo mais... isso não me adianta nada, porque, depois de Segunda, eu vou PERDER TUDO!
- Yoh, pare! Você está muito desesperado para a sua idade! Talvez sua mãe não tenha agido da melhor maneira ou tomado o melhor caminho, mas esse não é o fim do mundo! Você tem que ter esperança num amanhã melhor! Se não fosse isso, a vida não teria continuidade! Pessoas nascem e morrem, guerras vem e vão... mas as pessoas descobrem como recomeçar.
Yoh ergue o rosto, e encarava Sume como se o mesmo fosse de outro mundo. Para Yoh, Sume parecia estar dizendo nada com coisa alguma.
- Ok, você quer um conselho, não quer? Então, vá lá fora, sua namorada está lhe esperando.
- O que? Ai, pelo amor de Merlin! Eu já não tenho paciência!
- Eu falei que você foi muito rápido, não falei? É isso que dá ter negócios pendentes, devia ter dedicado um pouco mais de tempo à moça!
- Ah, mas eu não vou! Que fique lá fora!
- Ela já está. E pela forma como está sentada na calçada, acho que está pronta para ficar aqui o final de semana esperando você sair.
- Eu não quero falar com ela! Não quero falar com ninguém! Quero que o mundo se exploda! - Ele se ergue e caminha até a porta, mas ao perceber, dá meia volta e sai da sala onde estava, adentrando em outro cômodo da casa de Sume.
- Você é tão parecido assim com o seu avô?
Ele retorna, quase como se por comando mágico, sentando-se em frente a Sume.
- O meu mestre era uma pessoa cheia de decepções com as pessoas. Ele se decepcionou por ter instruído Snape, pois achava que o mesmo era muito bruto, pois usava Legilimência para fins de guerra. Claro, também se decepcionou comigo, pois não aceitava o fato de eu usá-la para fins forenses. Ele enxergava a Legilimência como uma arte, uma forma de embate entre cavalheiros, e qualquer uso aplicado, prático, como guerra ou serviço público, era uma forma de corrupção - ele respira pesadamente. – E tinha a Jane, claro. A queridinha dele. Motivo de orgulho. A sofisticação que ela tinha, as escolhas que ela fez em sua vida, tudo o deixava orgulhoso. Mas ela foi dada como morta. E toda a decepção virou arrependimento. A Jane, era... ela era o símbolo da família, era a filha perfeita, no seu esplendor. Diferente do irmão, que era uma decepção. Ele estava tão desgostoso, que nem sequer se deu ao trabalho de fazer os ritos iniciáticos para transferir a liderança da família para seu tio. Seu tio fora o primeiro, em séculos, a assumir a liderança e todo o poderio sem passar pelas doze pétalas do Sunflower... - e falava essa última parte como se uma decepção enorme tomasse conta dele -, mas ainda assim meu mestre realizou o ritual do Fidelius, afinal, tinha que proteger seu filho. Muitas pessoas dizem até hoje que cometeram crimes por efeito da Maldição Imperius... mas mesmo que muitos dos que assassinavam eram primos uns dos outros, quem poderia ter a dignidade de ocupar um status na sociedade, depois de assassinar a própria irmã? Meu mestre passou os últimos dias tomado por um profundo desgosto, sabendo que era o Fiel do Segredo da morte da própria filha, a qual ele teve que apagar da memória de toda a sociedade, para proteger sua maior decepção, seu tio.
Ele faz uma pequena pausa, a qual, na verdade, durou mais tempo do que o esperado, como se estivesse prestes a fazer uma revelação muito cruel.
- E sabe qual foi o pior? Quando Jane conseguiu tomar a posse do Fidelius, e ele deixou de ser o Fiel do Segredo, a informação ainda estava na sua mente. Mas você sabe como esse feitiço funcionava, ele tinha que, constantemente, ficar se lembrando do fato de que tinha uma filha... ou esqueceria disso pra sempre. Dia após dia... segundo após segundo. Era como se você tivesse que lutar contra a fraqueza de suas próprias memórias, e isso o consumiu de tal maneira, que ele dedicou os últimos anos de sua vida apenas tentando se lembrar. O definhamento matou ele bem antes da varíola de Dragão.
Sume para alguns instante, percebendo como Yoh o encarava, impávido.
- As pessoas olham para você, moreno, cabeço escuro, e todos associam ao Daniel. Mas você lembra MUITO o seu avô, Yoh. Talvez seja por isso que tenha entrado no radar do seu tio, ainda mais quando começaram a aparecer matérias com o seu rosto no jornal. Mas não seja uma pessoa como seu avô. Não viva com arrependimentos - ele aponta para a janela - aquela moça te ama. Eu não precisei ler a mente dela ou coisa parecida, pois a vi ali do lado de fora pouco antes de você ter entrado. Ela está assustada porque não entende o que está acontecendo, mas com todas as dúvidas que você mesmo tem, é difícil explicar isso para ela. Como espera que ela entenda você, se nem você, depois dessa nova conversa, entende totalmente tudo o que está te acontecendo?
Sume puxa uma cortina e cobre a janela, retirando a visão que qualquer pessoa de dentro da casa poderia ter para a rua.
- É verdade que ela tem reações que irão te incomodar, e deve ter feito colocações que você considerou preconceituosas... mas ela está ali fora te esperando. Essas coisas que estão acontecendo são totalmente novas para você e para ela... mas essa garota não sabe os meandros da história da sua família, tampouco sabe dizer direito o que está acontecendo com você. Ela só consegue ver a camada superficial, por que ela é como todo mundo: humana.
- Se metade do que o senhor disse for verdade, que futuro a gente tem, se essas coisas que eu pareço querer me aproximar, a afugentam?
- Ela não conhece as coisas como você. Essa história que você estuda dos Malfoy, ela não tem essa vivência, não estudou isso, não teve interesse pela arte... mas você tem que dar uma chance para que ela possa entender isso. Tem que traduzir de uma forma que faça sentido. É verdade que os Malfoy tem um histórico de sangue... mas você tem que dar a ela a oportunidade de descobrir que o jeito como você estuda, admira e contempla essa cultura, sempre foi parte do que, hoje, o define.
- Ela repudia tudo associado aos Malfoy.
- Nem você sabe dizer direito o porquê gosta tanto. Antes, era como uma roupa que vestia, um camisa que colocava... mas está descobrindo como essa tradição, como se de repente, sempre tivesse sido parte dos seus gosto, suas percepções e interesses. Você deveria realmente investir ativamente nesse seu "lance" com o Draco. Mas essa garota...
- O que tem?
- Mesmo que isso ainda assim não funcione, mesmo que ela seja incapaz de compreender, e no fim ainda fique assustada, caberá a você decidir quais são as suas prioridades na vida. Por que, mesmo que você se sinta emocionalmente traído... bem, ele está lá fora, esperando por você. Por que é isso que é alteridade, a compreensão de que vivemos com o que nos é diferente, que muitas vezes discordamos, mas percebemos que faz parte da nossa vida. Ela está aprendendo agora de uma maneira difícil que nem sempre precisa concordar com você... mas que deve estar disposta a acreditar em você.
Ele caminha e se senta, e começa a mexer no copo vazio, como se procurasse algo para beber.
- Já deve ter percebido, mas está quase na mesma situação que o Crabbe, a essa altura: é cômodo para cada um ficar onde está, manter sua percepção da vida, suas verdades. Talvez seu amigo poderia ter encontrado um meio termo, ido conversar com Amanda sobre seus medos, o que não significa que poderia superá-los. Amanda, quem sabe, poderia ter sido mais forte do que sua mágoa, procurando-o. Talvez, hoje, ambos não tivessem tantas sequelas, quem sabe? É o que você está fazendo.
Sume o encara novamente, como se estivesse prestes a tocar em um ponto fundamental.
- Eu não sei o que você disse para ela, há pouco. Se se desentenderam ferozmente, se ela disse algo que te incomodou, se tinha razão ou não... se ela foi preconceituosa e parecia estar se preocupando mais com seus próprios sentimentos, ou se você acabou fazendo o mesmo... mas essa garota deu um passo na sua direção. Ela está admitindo diante de você que se sente confusa, e queria que você a ajudasse. Você pode ter se decepcionado porque ela não correspondeu às suas expectativas, mas ela em momento algum estava decepcionada com você, pelo o que eu entendi. E você deve ter percebido isso. Não é fácil para as pessoas entender como "mudar" e "se perder" são gêmeos violentos, mas necessários. Mas... vá até ela. Diferente de você, essa garota não tem dúvidas sobre quem é Yoh Kneen.
- Você me leva até Hogwarts? Não quero ficar mais aqui, e não acho seguro ir sozinha pela estrada.
Ele saíra da casa de Sume. Sentiu cheiro de perigo quando ela o recepcionou com um olhar meigo, embora não sorrisse. Pensou em várias respostas: o caminho da casa dos gritos, procurar a loja dos irmãos, esperar pela próxima carruagem, já que ainda era o começo da tarde... mas, no seu íntimo, ele sabia que seus próprios olhos o traiam.
Isso ela já tinha percebido. Não importa o estado de espírito, grau de irritação, temperamento... até mesmo nas raríssimas vezes em que os olhos dele ficaram vermelhos, Yoh olhava para ela exatamente da mesma forma. Era um mistério que ela provavelmente nunca entenderia, e também uma das coisas que a cativava.
Começaram a andar, sem troca de palavras, e sem dar as mãos. Ele parecia disperso, como se tentasse ocupar a mente com alguma coisa. Até mesmo a vontade de puxar algum tipo de assunto, qualquer assunto, se esvaíra.
As casas se tornavam cada vez mais escassas, ao passo que se aproximavam da estrada. Ainda era o comecinho da tarde, mas havia a impressão de que um dia inteiro se passara.
Estavam em silêncio enquanto caminhavam. Longos dez minutos desde que saíram de frente da casa de Sume. Ocasionalmente ele se pegava olhando para ela, até que, numa dessas vezes, ela olhou de volta.
Gina deu um sorriso, mas não falou nada. Era um sorriso amável e muito agradável.
Ele vira o rosto, mas a imagem ficou presa na sua memória. Aqueles lindos cabelos ruivos que se esvoaçam com o vento, enquanto ela passava a mão no rosto.
Pegou-se olhando novamente mas, dessa vez, ela olhava para o chão. Deteve-se ali. De repente fora tomado por uma vontade de falar alguma coisa, qualquer coisa, mas percebeu que não sabia o que dizer. Sentia-se totalmente sem perspectiva, e o que acontecera nos últimos encontros, não havia melhorado.
Sentiu uma leve pontada de raiva, mas não durou. Olhava para a direção que Gina olhava, e, então, observava suas pernas, subindo pela cintura, passando pelo busto e, novamente, detendo-se no seu rosto. Quando ele parou ali, encontrou os olhos dela, e as bochechas da moça estavam levemente enrubescidas após aquela "checagem" dele.
Olhou novamente para outra direção, não antes dela lhe mandar um sorriso.
Percebeu que não estava mais com tanta raiva assim, mas não significava que estavam bem. Para piorar, sentia vontade de abraçá-la, de simplesmente tocar na mão dela. Até sua voz, mais cedo, era uma lembrança agradável.
De repente, ele para. Não escutava mais os passos dela. Ao se virar, vê que ela parou de andar e estava agachada, mexendo no chão. Tocava, remexia na terra da estrada, que pela proximidade do grande lago, misturava-se com um pouco de areia que era trazida pelas cheias durante a chuva.
- É como um pequeno grão - ela girava o dedo no chão e, pegando um punhado de terra, assopra e começa a, vagarosamente, jogá-la para fora da mão, como tentasse procurar algo ali no meio.
- Hmmm?
- A chance de eu me apaixonar por você, era como encontrar um grão de areia. E foi assim que você veio, como trazido pelo vento, literalmente. Acho que se não tivesse parado na enfermaria onde estava Cho, teria entrado e caído bem na mesa da Grifinória, onde eu estava, iria me cumprimentar e, depois, se levantar para pegar o pomo. E eu ia te reconhecer do mesmo jeito. Nunca nos falamos antes, mas eu sabia que andava me olhando. Não sabia quem era, mas quando veio me cumprimentar, eu te reconheci na mesma hora. Ninguém me olhava daquela maneira, como se eu fosse alguma coisa especial.
- Eu não sei o que os outros pensam de você, ou melhor, sei sim.
- Já pensou que você podia não ter ido falar comigo naquele dia?
- Estava trabalhando nisso.
- Foram tantos "se's", tantas coisas que aconteceram para você estar naquele momento e ter a confiança necessária para vir falar comigo... implicar com Carlos, fazer o teste, entrar voando na enfermaria, ser arrastado pelo Snape ao invés de ir direto para a Torre da Corvinal... estivemos no salão principal na parte da manhã, no almoço... mas foi ali, naquele momento, que tudo aconteceu.
- A ideia parecia boa, na hora.
- E você estava tão eufórico como um aluno do primeiro ano, parecia ter até esquecido o motivo de ter ido até aquela mesa, queria falar com todo mundo, precisei tocar no seu braço para chamar a sua atenção.
- Não tinha feito um plano de voo, tipo, "vou sair daqui e ir até ali".
- Eu só estava curtindo, sabe. Passear, sair... é legal ter alguém te dando atenção, andar de mãos dadas, abraçadinha... mas eu não pensava muito nisso. Não é que eu não estava gostando, mas não era um projeto que fazemos pensando a longo prazo. Na época, vi que você era legal, amigo, atencioso... sou uma menina, sabe. Quero atenção. E você me apresentou à muita coisa nova. Mas eu tinha um histórico com o Harry.
- Eu ouvi falar, tinha um boato na época.
- Não era boato - ela o encarava -, é que eu comentei algo com uma amiga, ela comentou com outra, e, bem... e eu sou a irmã do Rony, eu "fechava o quarteto". Tem meninas da escola inteira apaixonadas por ele até hoje, mas todo mundo sempre achou que eu iria "ficar" com o Harry, já que o Rony tinha aquele lance com a Hermione. Eu só tinha olhos para ele. Mas ele, não. Para mim, naquela época, pensar em gostar de outra pessoa era como ter que procurar um grão de areia muito específico, diante de toda a praia e da imensidão azul do oceano. Mas em meio a tudo isso - ela terminara de jogar para fora toda a terra que estava em sua mão, restando um minúsculo grão de areia, o qual captura entre o polegar e o indicador da mão direita -, eu te conheci. Meu grão de areia.
Ele a encarava, em silêncio.
- Sabe, eu tenho um diário que eu preenchia direto, só fui escrever novamente depois que você passou por aquele acidente e eu quase te perdi. Mas eu não me reconheço mais ali. As coisas que eu escrevi, a forma como eu me expressava... era como se fosse outra pessoa. E não era só o meu sentimento que mudara, mas eu não reconhecia mais aquela pessoa, seus sonhos, desejos, planos... era como se esse grão tivesse entrado dentro do meu peito, se alojado e, quando eu fui observar, tivesse gerado uma pérola - ela fecha a boca e levanta levemente os lábios, sorrindo -. Eu não acho que mudei por você, mas com você.
Aquilo o pegou de tal maneira que ele andou em sua direção. Afoito, foi tomado por um tipo de emoção que parecia apagar momentaneamente toda a discussão, desentendimento e mal estar que ocorrera naquele dia. Não queria mais nada, apenas sentir o conforto do abraço dela, do seu toque.
- Espera. Eu não terminei. Meses atrás, na primeira semana de aula, lembra que depois estávamos no salão comunal da Grifinória conversando sobre como ganhei pontos com a aula da sua mãe, e acabei perdendo outros?
- Isso parece ter sido há uma eternidade.
- Foi quando você fez aquele comentário sobre a família do Harry.
- Ah. É, lembro. O que tem?
- Fui perguntar ao Harry o que tinha acontecido. Ele estava estressado, ficou irritadíssimo por você insinuar que ele ofuscava a própria família.
- Eu já tinha pedido desculpas...
- Falei isso, que você até se desculparia. Dei de costas e fui para o dormitório feminino. Ele me parou no meio do caminho, veio pedir desculpas, que queria pedir uma coisa e, quando fui ver... ele me beijou. O empurrei e dei um tapa nele, depois ele foi embora.
- O que?
- ...
- Eu fui muito bonzinho ontem, vou arrebentar a cara dele!
- Acho que deveria. Teria poupado muita dor de cabeça, quem sabe.
- E só agora você me conta isso?
- Não queria ver você irritado.
- Muito bem - ele bate palmas para ela - perfeito, senhora Virgínia. Perfeito! Sua paixonite te beija, fica meses pegando no meu pé... mas você tinha que guardar o seu segredinho, não é?
- Todos temos segredos, não é mesmo?
- E em todo esse tempo, o meu segredo te fez mal? Ele te feriu? Machucou?
- Não... você não fez nada, você... é você.
- Por isso você estava estranha, distante... o que foi? Queria ter uma chance de decidir, descobrir qual valia mais a pena?
- Não! Nunca! Eu não queria te machucar!
- Você devia ter me contado isso antes! Ele com certeza percebeu que eu não sabia, e achou que por causa disso tinha uma chance com você!
- Eu sei! Eu dei um gelo nele esse tempo inteiro, reduzi nosso contato ao Quadribol, mas ele sempre tentava falar comigo, tentava se aproximar. E quanto mais eu o evitava, mais isso acabava te atingindo. A Amanda disse a mesma coisa que você.
- Ah, certo. Essa história fica cada vez melhor. Eu era o cara novo, o estranho no grupo. Quem mais estava envolvido? Hermione? Rony?
- Claro que não - ela desacelera sua voz, retomando o tom -, nunca faria isso com você. Só a Amanda sabia, pois ela estava perto quando aconteceu, e viu. Eu fiquei tão assustada, com vergonha de olhar na sua cara, que preferi não contar nada.
- Ele... ele ficou me perseguindo esse tempo todo, eu escutava pelos corredores gente que escutou ele dizer que eu não prestava, que eu deveria ter uns podres... eu não o confrontei diretamente porque ele é amigo do seu irmão, só por isso! Ele pode ser um pouco mais alto e forte do que eu, mas mesmo que eu levasse a pior, eu te garanto que ele não ia sair ileso! E se ele achou que eu sabia de algo, também deve ter pensado que eu não tinha coragem de cair na mão com ele por sua causa! Você DEVIA ter me contado! Mas, agora? Você deve achar que eu não tenho nada mais com o que me preocupar! Agora, além de me preocupar com Segunda, eu preciso arrebentar a cara de um grifinório!
- Mas eu queria que você me entendesse! Que confiasse em mim!
- Mas eu sempre confiei em você!
- Você sempre confiou no que via, e no que eu te contava. E eu não posso aceitar mais essa confiança incondicional, enquanto eu sei que não estou sendo 100% sincera.
- Ninguém é 100% sincero, Virgínia! Mas não quer dizer que estão mentido! É por isso que a gente dá um tempo para as pessoas se abrirem!
- Mas eu não podia continuar com isso depois você ter se aberto daquela maneira, e me contado tudo aquilo! Você estava tão relaxado, disse coisas que eu acho que nem lembra de ter dito. E além disso, quando eu olhei para dentro de você, acho que vi coisas que você nem pensava em me contar, como o quanto a amizade com o Crabbe cresceu, ou o que você sente pelo Draco, o apelido que você deu para Amanda, chamando-a de "cisne", aquela sua visita à Sonserina que nunca me explicou direito e eu estava doida de curiosidade para saber dos detalhes... eu te tirei a escolha de me falar essas coisas quando achasse o melhor momento, não percebe? Você é tão bom com as palavras, porque não me escuta? Eu disse para a Amanda que não ia te contar por que aquilo não tinha significado nada para mim, mas significou...
- ! ! !
- ...por que eu me senti mal. Péssima. Não estou dizendo apenas como alguém que não se pode confiar, ou uma pessoa que vive pulando entre relacionamentos que não tem nada para dar certo... eu senti que tinha traído você. Traído o que tínhamos, na época, e tudo o que poderíamos ter. Eu não queria olhar para a sua cara, pois me sentia suja, baixa... eu odiei aquele beijo, e me odiei ainda mais quando pensava que, em outro momento, eu teria gostado. No baile, durante o leilão, eu disse que teria ficado lisonjeada... e isso me corroía por dentro, porque... eu não quero pensar em outra época, em como as coisas poderiam ter sido, no "como", no "se"... porque eu simplesmente não consigo enxergar esse futuro! Mas você estava se divertindo ali, por um momento até esqueceu que eu existia, parecia que desafiar o Draco estava te dando um prazer enorme, e vocês dois, naquele momento, pareciam ter uma estranha química, como se ele estivesse magnetizado a você, e você, a ele. E quando o Draco recuou... você parecia feliz. Dava para ver estampado no seu rosto. Você já o tinha vencido no ano passado, mas, ali... estava excitado. Era como se você QUISESSE aquele confronto, ou melhor, disputa. Depois, em vários momentos eu pensei em te contar, mas sempre protelava isso. Dava todas as desculpas, pensava em você se irritar, suas seguidas internações, meu irmão... mas eu não posso dar desculpas para os meus próprios sentimentos.
- Eu ia ficar irritado, mas eu iria te perdoar... em algum momento!
- Eu sei! Depois eu quis ser a melhor namorada possível, e meus sentimentos foram ficando mais claros. Desde que a gente começou a namorar, sempre trocávamos juras... mas muitas vezes eu dizia que te amava, quando na verdade eu apenas gostava muito de você. Mas, a cada dia, eu me via cada vez mais perdidamente apaixonada, e quando me dei conta, descobri que realmente te amava! E de uma forma que eu só tinha visto entre os meus pais. Mas enquanto eu me remoía, percebi que não queria passar nenhum dia longe de você. Mesmo que você de repente desaparecesse, não conseguia enxergar uma vida que não fosse ao seu lado. Longe do seu abraço, seu carinho... de conversar, de ter a sua presença, sua cumplicidade... esse seu jeito às vezes meio presunçoso que muita gente fala que é uma atitude arrogante de querer bancar o "fodão", mas que eu acho um charme... e eu me sentia cada vez mais completa, mais plena, com você ao meu lado. E de repente – ela estala os dedos – como numa lufada, meu grãozinho de areia cinzento foi levado. Mas foi trazido de volta pelo vento, quando Madame Pomfrey te fez voltar a respirar.
- Aquela foi uma experiência muito difícil. As pessoas as vezes me tratam com delicadeza, com medo de tocar no assunto.
- Eu sei! Eu sei! Não era só eu, todos até hoje têm medo de te perder novamente. Por que acha que eu não brigo quando vejo Ariel, Rika, Miranda, Cho e Julieta agarradas a você? Claro que tive vontade de voar na Pátil quando ela te deu comida na boca, mas me controlei!
Ele tentava se concentrar ao que ela dizia. Eram muitas palavras, muitas voltas, mas não entendia sonde a mesma queria chegar, de maneira que praticamente ignorou o último comentário sobre Pádma.
- Eu, principalmente, estava tão preocupada em esconder no fundo das minhas memórias o que aconteceu, que não prestei atenção ao que te machucava de verdade. Era para eu ter percebido! Dane-se se você não é de ficar reclamando, meu prazer e função era cuidar de você, da mesma forma que cuida de mim. E eu não vi! Me desculpe - ela olhava para ele, com uma lágrima escorrendo - me desculpe, Yoh.
Sua mente estava confusa. Era muita informação para processar ao mesmo tempo, e embora ele tivesse um ponto de partida, não sabia o que responder.
- Eu devia ter visto isso com mais cuidado. Estava muito atenta às pessoas ao nosso redor, o que pensavam da gente, mas deixei de prestar atenção essencialmente em você. Eu estava tão abobada com o Rony, ele mudou tanto, acho que antes disso nunca tive tanto orgulho de ter um irmão mais velho estudando comigo. E quando você me contou tudo isso ontem, eu tomei um susto, porque muita coisa não fazia sentido para mim. Era como se eu estivesse diante de uma outra pessoa, quebrada, com problemas profundos que eu não conseguia entender. Mas você remoía essas preocupações enquanto você o que sempre faz, me amava incondicionalmente, como se tivesse medo de partir de repente sem ter a chance de fazer algo que queria muito. E tudo isso, enquanto você continuava sendo... você. Não guardou isso porque não confiava na gente, mas você ama tanto a vida que tem, que não se dá ao trabalho de perder tempo com aquilo que não é importante. Esse lance da sua mãe sempre foi uma coisa tão distante, até que começou a bater na sua porta e te prejudicar. E enquanto tentava entender, achei que o problema era o Draco e sua família... mas na verdade, foi como tudo isso que aconteceu tem te machucado, e como as atitudes da sua mãe te deixaram triste, magoado e desesperançoso.
Ela pula em cima dele, abraçando-o. Ele imita o gesto, mas sente-se frio. Não era um sentimento de abandono, decepção, era só uma sensação de que estava encurralado. Sentia tanta vontade de abraçá-la, mas ao mesmo tempo não conseguia perceber aquele calor sentimental que tomava conta do seu corpo quando se tocavam. Isso era porque, como ela concluíra, ele estava deveras ferido, quebrado, desesperançoso.
Nunca pensava naquilo, o quanto a amava. Apenas vivia o momento, um dia de cada vez. Mas sentia uma incrível falta dela, do seu toque, de modo que, quando ela retraiu a mão no dia seguinte, aquilo o magoou.
Yoh não sabia utilizar, nesse caso, as palavras corretas. Era um sentimento guardado no fundo da sua alma, uma memória daquele momento no qual ele desabou na mesa da Grifinória, e sentia lentamente aquela agonia tomar conta do seu corpo. Lentamente seus sentidos, a forma como percebia o mundo, iam diminuindo, mas não apenas aquilo: sentira-se afastado de tudo o que o tornava aquilo que ele considerava como... ele. Amigos, pais, professores... lembranças tristes, felizes, decepções... momentos de ira e raiva, bem como discussões... as conversar com seu pai, o abraço de sua mãe... e Gina.
Estivesse em uma escola trouxa, e o teriam encaminhado a um psicólogo para acompanhar aquela situação pós-traumática. Mas ele nunca teve a oportunidade, principalmente por que sua mãe, tentando ajudá-lo, o aproximara ainda mais desse medo, criando uma sensação agonizante.
Foi nessa situação, ali, na estrada entre Hogwarts e Hogsmeade, enquanto abraçava Yoh, que Gina conheceu um lado ainda mais profundo dele.
Era como se uma chuva caísse e tocasse em seus corpos, tentando lavar tanta coisa que eles deixaram de resolver, a simples preocupação com coisas que não eram prioritárias para eles, enquanto outras eram deixadas de lado.
Foi quando ela percebeu que não estava chovendo, e que aquelas gotas que caiam em seu ombro eram as lágrimas do seu namorado. Começou a ventar, mas ela escutava um gemido leve, como um choro de criança. Apertou-o ainda mais,. Sabia que ele não estava lavando sua alma, mas compartilhando seu desespero. E embora ele sequer tivesse cogitado aquela situação, nunca imaginou que ele seria incapaz de descrever, por quaisquer meios, os seus sentimentos.
Ela pega no seu rosto enquanto ele a abraçava, e o encara, sem beijá-lo. Seu gray... aqueles olhos intensos, como de alguém que carregava um desespero maior do que queria demonstrar. Ela brevemente fora capaz de magicamente tocar na sua alma, embora não soubesse explicar isso, ou o como. E enquanto tentava raciocinar a experiência, seguida das lágrimas, percebera que a dor dele era muito profunda. Como alguém tão companheiro, capaz de incentivar os amigos e atrair a companhia de pessoas tão diferentes, e algumas, estranhas, podia carregar uma dor tão profunda no coração?
A verdade era que a vivência dele daquela experiência era diferente da de Jane. Isso porque a dor e o sofrimento são sentimentos com reflexos e sequelas subjetivas, de maneira que cada um pode experienciá-los de maneira diferente. Não tinha medo de ser famoso, mas o sentimento de que, em dois dias um farol seria aceso e que este indicava para o mundo inteiro que sua família existia, até mesmo para todos os envolvidos na tentativa de assassinato de sua mãe, e ainda mais em um período de retorno de Voldemort... era como se tivesse ativado uma espécie gatilho nele, e o forçado até o momento em que não aguentava mais segurar aquela pressão.
Continuam abraçados e, passados alguns minutos, o choro dele se esvai. Ela o afasta e caminha até uma das divisórias da estrada, as quais separavam um dos lado de um terreno grande que terminaria em uma floresta.
If I call out your name, I might suddenly wake up,
as I thought, it was just a dream.
Seems like it *won't be going to be very easy,
meeting again by chance? May be more likely...
- Ali, seguindo em vila reta, há um vilarejo trouxa, depois da floresta. Meio dia de caminhada, acho. Mas não conseguem ver Hogwarts. Essa região toda é relativamente isolada, então talvez haja algumas casas, entranhadas... como daquela vez que fomos andando até o mundo trouxa, e percebemos que não era uma boa ideia. Hoje é Sábado, ainda é cedo. Alguém vai reclamar de alunos fazendo algazarra, dormindo fora da escola, mas acho que não iriam levar a sério a nossa falta até Segunda. Meu irmão nos viu, então iria achar que estaríamos em Hogsmeade. Tem Segunda-feira, e ninguém vai estranhar se não nos encontrarem nesse dia. Vai ser um dia complicado. Com sorte, Terça.
- E para onde você quer ir que precisa de tanto tempo? - ele ergue a sobrancelha.
- Vamos fugir!
- Como?
You're only looking at girls
Who have the same hair as me in the crowd
I bet you're looking for someone
Maybe the person you've got a crush on?
- Você disse isso uma vez que queria fugir. Talvez essa seja a única liberdade que teremos. Nos final, somos jovens. Estamos nos preocupando com coisas de outras pessoas, problemas que nós não criamos. Se essa dor, se esse medo é tão grande e profundo que você não consegue enfrentar, então vamos fugir. Me dói muito o coração saber que, daqui há dois dias, você vai ter um dos piores momentos da sua vida, e eu não vou poder fazer nada para evitar.
- É tarde demais para isso... Gina.
- Nunca é tarde! Mesmo quando era tarde demais para você, no consultório de Madame Pomfrey... mesmo passando minutos depois do fim... você voltou para mim! Foi isso o que eu vi quando toquei em você. Eu não entendo como isso aconteceu, como vi o que vi... mas encarei o quanto você sofria por imaginar estar em um lugar longe de mim. Eu nunca vou entender de onde você tira esse amor tão grande, como você consegue me olhar de maneira tão especial mesmo nos meus piores dias, como daquela vez que fez uma serenata quando eu estava mal humorada***... mas você é o meu grão trazido pelo vento, e descobri que eu te amo tanto, como se estivesse protegendo esse grão com todas as minhas forças durante uma tempestade, presos dentro de um vendaval.
***Nota do autor: essa serenata de Yoh está na Sonfgic "Música para Afeto".
Even when our eyes met, I just couldn't believe it
No way, no way, it's me you're looking for! You come running over
- Meu pai sempre me falava que se apaixonou por uma doida que todo dia ia jantar no seu restaurante, e passava horas com livros embaixo do braço, cheia de trejeitos e hábitos esquisitos. E que por isso que não devemos ser cegos para com as pessoas que amamos, mas que devemos viver esse amor na sua intensidade, como se mergulhados de tal maneira que estivéssemos prestes a nos afogar, mas sem a pretensão de voltar à superfície. Eu não sei explicar isso do jeito dele, mas... eu sinto que, mesmo que me tirem a vida, mesmo que me remexam e baguncem a minha cabeça de todas as formas, a única coisa que nunca conseguiriam arrancar de mim, é o que eu sinto por você.
- My grain, my gray - de onde estava, ela estica o braço, fazendo um carinho em seu rosto - Não vai ser fácil. Teremos dias muito difíceis, tristes, até. Eu sei que haverá momentos que iremos nos perguntar se fizemos a coisa certa... mas eu reitero o que eu disse: eu quero te proteger. Nem que a única coisa que eu possa fazer seja te aquecer em uma noite fria. Eu quero ser aquela que protege as suas costas, assim como você já protegeu as minhas.
- Mesmo que nos falte tudo? Que vida nós teríamos?
- Nós, Weasleys, somos pobres exatamente pelos nossos excessos: temos excesso de filhos, de gastos, de dívidas... e de amor. E mesmo com dificuldades, não teve um dia em que eu não sentia que amasse cada um dos meus irmãos, ou que éramos amados total e incondicionalmente pelos nossos pais. Assim como eu amo você. Eu sou a sua moranguinho, e você... é o meu gray. E se para termos a vida que queremos tivermos que fugir para um lugar tão distante, mas tão distante que os que querem nos fazer mal não vão ser nada mais do que um sussurro, então eu não pensaria duas vezes antes de fazer isso.
Oh, what a suspense! My body's feeling tense!
This was unexpected, now what do I do?
Have to get a grip; desert the sinking ship!
Got to get a hold, or I'll turn into goo!
Ela, de maneira muito meiga e charmosa, passa a mão pelo seu próprio rosto, ajeitando o cabelo que caia pela sua face.
- Haverá dias que eu terei vontade de chorar, mas eu quero que essas lágrimas sejam de alegria por estar ao seu lado. Morrerei de saudade da minha família, mas eu sei que poderei criar uma nova para amar, por que eu terei você comigo. Quero te dar um monte de weasleyzinhas e kneenzinhos e, como os meus pais, te dar sete filhos para que, até nos dias mais tristes, nosso amor seja farto o bastante para nos aquecer. Sei que não vou poder substituir a saudade que você irá sentir do seu pai, mas se esse sentimento chegar a se tornar tão insuportável, eu vou compensar isso com mais sete, e vamos juntos descobrir tantas formas de amar quanto for possível. Por que, por mais que você as vezes diga coisas confusas e tenha amizades que me pareçam estranhas, eu sei onde o seu coração está - ela toca no seu próprio peito - e isso é o que o me basta para confiar totalmente em você.
O coração dele acelerava diante da proposta dela.
- Você desde cedo precisou aprender a se defender, com a preocupação de um dia ter que lutar pela própria vida. É por isso que sempre amou Herbologia, pois o jeito como estudamos o uso da vida para afetar a vida sempre te deixou feliz. Então, deixe que eu seja a sua flor. Pois mesmo que venhamos a nos deparar com um jardim sombrio, essa flor aqui sempre será a esperança na qual você poderá se apegar. Assim como você tem se redescoberto e, a cada dia, aprendido a mudar, eu nunca deixarei de desabrochar e trazer comigo os raios de sol que possibilitarão a nós tecer uma nova manhã.
But just for today, only for today,
I feel like a kitty, having lost it's way.
If you come to me - with kindness, you will see,
I can't help but follow you around all day
Meow!
Estando de uma área mais alta, ela o puxa pela gola e lhe dá um beijo, profundo, deixando-o perdido em meio à sua presença. Era uma presença inebriante que afetava seus sentidos, como um vício, mas um do qual ele não conseguia se desvencilhar. Então, ela o larga, e o mesmo, como se tivesse bruscamente despertado de um sonho, observa que ela estava no mesmo lugar onde o pegara, olhando-o de cima para baixo.
- Eu não sou uma bruxa poderosa, e sei que, hoje, não tenho a força necessária para te defender do passado... mas eu posso te dar a esperança de um futuro. Ele pode não ser brilhante, pomposo ou glorioso. Pode ser incerto, duvidoso e arriscado. Mas ele será feito à partir das nossas próprias escolhas. - ela estica a mão para ele - Yoh, você quer fugir comigo neste momento... e me tornar a senhora Kneen?
Olá!
Agradeço a vocês pela leitura!
Um longo capítulo, mas me deu muito prazer escrevê-lo, principalmente porque consegui abordar algumas ideias e conceitos que sempre estiveram presentes na trama, mas não muito bem explicados.
Para quem ficou com curiosidade, a música que toca ao final do capítulo é "Love´s Fuse", uma versão em inglês da música "Tokimeki no Doukasen", da cantora Konno Yukari. Alguns aqui vão lembrar por ser a música de encerramento do anime "Fushigi Yugi", cuja batida tinha uma melodia muito característica, pois buscara indicar um momento, entre o término de um episódio e outro, o que seria uma virada na trama. Espero ter conseguido transmitir esse efeito, e essa música me foi muito simbólica enquanto eu escrevia.
A expressão "angeli che non furon ribelli, né fur fedeli a Dio, ma per sé fuoro. Caccianli i ciel per non esser men belli, né lo profondo inferno li riceve, ch'alcuna gloria i rei avrebber d'elli", é uma citação que o Yoh faz à Divina Comédia, de Dante Alighieri, que ficou popularmente conhecida como "os piores lugares do inferno estão reservados aos que se mantiveram neutros".
Lexas
